quarta-feira, 27 de março de 2019

CLÁSSICOS REVISITADOS: «SUPER-HOMEM VERSUS HOMEM-ARANHA»


  Convocada para deleite dos fãs, a mais titânica batalha do século XX opôs os campeões da Marvel e da DC, inaugurando uma nova era nas relações entre as duas editoras. Um sonho impossível tornado realidade e a pedra angular de um admirável legado comum que importa celebrar em tempos de rivalidades exacerbadas.

Título original: Superman versus  The Amazing Spider-Man
Licenciadoras: Marvel Comics / DC Comics
País: EUA
Autores: Gerry Conway (argumento), Ross Andru (ilustrações) e Dick Giordano (arte-final) 
Data de publicação: Janeiro de 1976
Categoria: Crossover
Protagonistas: Super-Homem, Homem-Aranha, Lex Luthor e Doutor Octopus
Coadjuvantes: Lois Lane, Mary Jane Watson, J. Jonah Jameson, Morgan Edge, Ned Leeds, Jimmy Olsen, Betty Brant e Steve Lombard 
Cenários: Metrópolis, Nova Iorque, Tanzânia e satélite do Gangue da Injustiça

Edições em português

Ainda inédito no retângulo lusitano, aquele que foi o "pai" de todos os crossovers teve a sua primeira versão em língua portuguesa a cargo da brasileira EBAL. Inserto na coleção Almanaque dos Heróis, de periodicidade anual, em 1977 Super-Homem contra o Incrível Homem-Aranha foi lançado em formato gigante idêntico ao original.
Em janeiro de 1986 (data em que se assinalava o 10º aniversário do primeiro lançamento em terras do Tio Sam), foi a vez da Abril republicar este volume histórico. Que, em março de 1993, seria reeditado pela última vez sob os auspícios da mesma editora. Desta feita no número inaugural da série trimestral Grandes Encontros Marvel & DC, na qual eram revisitadas outras iniciativas editoriais conjuntas das duas arquirrivais. Ambas as edições da Abril foram lançadas no chamado formatinho económico e distribuídas em Portugal.

A edição da EBAL era praticamente um fac-símile da original.

Crónica de um sonho (im)possível

Quando se reuniram em 1975 para produzir uma adaptação do clássico O Feiticeiro de Oz, a Marvel e a DC abriram um precedente e criaram a expectativa da iminente realização de um sonho que povoava a mente de 99,99% dos fãs de super-heróis: ver as personagens das duas gigantes dos quadradinhos juntas numa mesma história.
Curiosamente, nos anos que antecederam este primeiro empreendimento conjunto das duas companhias alguns dos seus assalariados trataram de oferecer ao leitores um aperitivo daquilo que se tornaria corriqueiro na cultura nerd: os crossovers. Para os menos versados neste tipo de jargão,  trata-se de uma técnica literária (traduzível como "intersecção") que consiste em inserir num mesmo evento fictício personagens provenientes de núcleos diversos, desprovidas de qualquer relação anterior entre si.
Um desses tímidos ensaios ocorreu em dezembro de 1972, nas páginas de Justice League of America nº103. Escrita por Len Wein, a história em causa mostrava como, após dominar as mentes de um grupo de foliões fantasiados na noite de Halloween, o vilão Félix Fausto lhes concedida superpoderes. Por conta disso, a Liga da Justiça teve de medir forças com sósias do Capitão América, Homem-Aranha e outros heróis da Marvel.
Apesar desta e de outras brincadeiras inócuas, apenas em 1975 começou a ganhar forma aquele que era um sonho tido como impossível. Nesse ano, David Obst, agente literário da privança de Stan Lee, resolveu levar a sério as exigências dos leitores por um crossover Marvel / DC.


A primeira coprodução oficial Marvel/DC (cima)
e o cameo do Capitão América numa história da Liga da Justiça.
Depois de sondar à porfia Stan Lee e Carmine Infantino - presidente da Marvel e editor-chefe da DC, respetivamente - Obst convenceu-os a apostar na ideia que batizou de "A batalha do século". Contudo, não era uma simples banda desenhada que ele tinha em mente. Com conhecidas aspirações a produtor cinematográfico, Obst pretendia, ao invés, que as duas editoras patrocinassem um filme protagonizado pelos seus dois maiores ícones: Super-Homem e Homem-Aranha.
Perante a descrença dos mandachuvas da Marvel e da DC no que à exequibilidade de tal ideia dizia respeito, Obst não desanimou e continuou a tentar levar água ao seu moinho. Até que, por fim, lá conseguiu arrancar a ferros um princípio de acordo entre as duas editoras com vista à realização de uma joint venture perspetivada como uma dádiva para os leitores.
Importa ressalvar, porém, que o referido acordo só foi possível graças à amizade que unia Stan Lee e Carmine Infantino desde os tempos em que,  durante a Idade de Ouro, ambos haviam colaborado na mesma tira diária.

Imagem relacionada
David Obst foi o piloto da mudança
nas relações entre Marvel e DC.
Entretanto, na sede da DC estava instalada uma enorme azáfama. Decorriam por aqueles dias as negociações referentes ao elenco e ao enredo do vindouro filme do Homem de Aço que a Warner Bros. aceitara produzir a contragosto. Escusado será dizer que seus executivos nem queriam ouvir falar numa coprodução megalómana com a sua mais direta concorrente.
Por outro lado, desde que, em 1971, assumira a liderança da Editora das Lendas, Carmine Infantino levara a cabo uma série de profundas mudanças. E também assegurara algumas contratações tão vultuosas quanto controversas. Além de ter garantido os préstimos de Neal Adams, um dos mais promissores artistas da sua geração, e de Denny O'Neill, escriba virtuoso, Infantino conseguira desfalcar a Casa das Ideias de dois dos seus maiores talentos: Jack Kirby e Gerry Conway. Proeza que, naturalmente, em nada contribuiu para a melhoria das relações entre as duas concorrentes.
Descartada a produção de uma longa-metragem, a alternativa natural foi o lançamento de uma história aos quadradinhos que pusesse frente a frente os campeões da Marvel e da DC. Concordando ambas com a paridade das suas participações no projeto.
Foi, pois, ao abrigo desse acordo de cavalheiros que a DC indicou Gerry Conway para escrever a história. Uma escolha que, diga-se de passagem, nada teve de inocente. Além de já ter sido argumentista tanto do Super-Homem como do Homem-Aranha, Conway era também uma espécie de broche na lapela de Carmine Infantino, conhecido pela sua feroz competitividade em relação à Casa das Ideias (ainda que a recíproca não fosse verdadeira).
A arte ficaria a cargo de Ross Andru - então ao serviço da Marvel após uma longa temporada na DC - e que, tal como Conway, tinha a particularidade de já ter trabalhado nas histórias dos dois heróis que iriam protagonizar o crossover.
Ficou igualmente estipulado que Stan Lee e Carmine Infantino supervisionariam todo o projeto, com este último a ficar também responsável pela conceção da respetiva capa, a qual seria arte-finalizada por Ross Andru.
Um dos segredos de bastidores mais bem guardados prende-se, de resto, com o trabalho desenvolvido por Ross Andru. Por respeito ao seu colega de ofício, só muitos anos mais tarde Neal Adams revelaria ter sido secretamente incumbido de retocar o rosto do Super-Homem em várias sequências da história. Processo idêntico aplicou John Romita Sr. às expressões faciais de Peter Parker. Por contraste, Gerry Conway dispôs de ampla liberdade na estruturação da narrativa, que poucos ajustes sofreu.

Superman Vs. Spider-Man (Written by Gerry Conway, Art by Ross Andru)
Os comentários de Stan Lee e Carmine Infantino
 ao primeiro crossover das editoras que lideravam.
Lançado em formato gigante, Superman versus The Amazing Spider-Man chegou às mãos dos leitores norte-americanos em janeiro de 1976. Coincidência ou talvez não, nesse ano os EUA celebravam o seu bicentenário em meio a profundas divisões internas e incertezas quanto ao futuro, na ressaca da derrota militar no Vietname e da renúncia do Presidente Nixon motivada pelo escândalo Watergate.
Ao colocarem de lado as suas diferenças, a Marvel e a DC transmitiram à sociedade estadunidense um importante sinal de união em tempos conturbados. Um gesto difícil de reproduzir no atual ambiente de animosidade entre os fãs das duas editoras. Que não se assumindo como inimigas mortais, voltaram a estar de costas voltadas após três décadas de cooperação. Sendo Superman versus The Amazing Spider-Man pedra angular desse legado comum que, agora mais do que nunca, importa evocar.

Superman Vs. Spider-Man (Written by Gerry Conway, Art by Ross Andru)



A conceção da icónica capa de Superman versus The Amazing Spider-Man (cima)
e a página de abertura com a respetiva ficha técnica.

Enredo

Em Metrópolis, o Super-Homem trava o rasto de caos e destruição deixado por um robô gigante controlado por Lex Luthor. Apesar de capturado pelo Homem de Aço, o vilão consegue enviar um pequeno dispositivo roubado dos Laboratórios S.T.A.R. para uma das suas bases secretas.
Simultaneamente, o Homem-Aranha derrota a quadrilha do Doutor Octopus após uma gorada tentativa de assalto a um banco nova-iorquino.
Transferido para uma prisão federal de segurança máxima projetada para acomodar supervilões, Octopus tem Luthor como companheiro de cela. Da admiração mútua e do desejo comum de destruírem os homens responsáveis pelos seus recorrentes fiascos nasce então uma aliança entre os dois malfeitores. Combinando a sua genialidade científica, Luthor e Octopus rapidamente engendram um plano de fuga que os devolve à liberdade.
No dia seguinte, Peter Parker, fotógrafo freelancer do Daily Bugle, acompanhado da sua namorada, Mary Jane Watson, comparece a uma conferência de imprensa que antecede o lançamento do ComSat, um sofisticado satélite meteorológico capaz de alterar os padrões climatéricos. No evento marcam também presença os repórteres do Daily Planet e da rede WGBS, Clark Kent e Lois Lane, vindos expressamente de Metrópolis para fazer a respetiva cobertura noticiosa.
Afoita como sempre, Lois Lane trepa ao cimo de um andaime para melhor poder observar o satélite, mas escorrega e cai de uma altura de vários metros antes de ter a queda amparada por Peter Parker. Perante o olhar desconfiado de Mary Jane, Lois agradece ao jovem fotógrafo por lhe ter salvado a vida.
Subitamente, porém, Luthor entra em cena disfarçado de Super-Homem e dispara uma rajada ótica sobre as duas mulheres, teletransportando-as para local desconhecido.

Superman Vs. Spider-Man (Written by Gerry Conway, Art by Ross Andru)
O momento em que Luthor, disfarçado de Super-Homem, sequestra Lois e MJ.
Enquanto o falso Homem de Aço voa para longe, Peter e Clark, incrédulos com o que acabaram de presenciar, correm a trocar as suas roupas civis pelos seus vistosos uniformes.
Culpando-se mutuamente pela abdução das suas caras-metades, o Super-Homem e o Homem-Aranha envolvem-se numa acesa discussão, observada de longe por Luthor e Octopus.
Ciente da enorme desproporção de poderes entre os dois heróis, Luthor usa uma pistola de raios para infundir o Escalador de Paredes com radiação similar à de um sol vermelho. Deixando desse modo o Homem de Aço vulnerável aos golpes de um furioso Cabeça de Teia.
Quando a radiação se dissipa e o Super-Homem recupera a sua invulnerabilidade, os dois heróis percebem ter sido ludibriados e deduzem que Luthor e Octopus estão por detrás do ardil. Ambos concordam então em unir esforços para recapturarem os seus inimigos e resgatarem as suas namoradas. Acordo selado com um vigoroso aperto de mão que deixa o Cabeça de Teia a ver estrelas.

Superman Vs. Spider-Man (Written by Gerry Conway, Art by Ross Andru)
Depois do confronto, a reconciliação selada com um vigoroso passou bem.
Seguindo o rasto dos vilões até à Tanzânia, na África Oriental, o Super-Homem e o Homem-Aranha veem-se obrigados a defrontar um robusto guerreiro indígena que Luthor dotou de força ampliada e de uma espada irradiada com energia de um sol vermelho.
Vencido o oponente com a preciosa ajuda de elementos da tribo Masai, os dois heróis voam para a órbita terrestre - com o Homem-Aranha a fazê-lo aos comandos de uma nave roubada da base africana de Luthor. É lá que se encontra estacionado o satélite abandonado do Gangue da Injustiça onde Luthor e Octopus estão aboletados.
Graças ao dispositivo programador furtado por Luthor dos Laboratórios S.T.A.R., ele e Octopus assumiram o controlo do ComSat, que pretendem usar para interferir com a atmosfera terrestre e chantagear os governos mundiais. Numa singela demonstração do potencial destrutivo da máquina, Luthor dispara uma combinação de raios laser e de ondas sónicas sobre a superfície terrestre. Ato contínuo, violentos terramotos e furacões irrompem um pouco por todo o globo.
Enquanto o Super-Homem fica aturdido depois de ser atingido em cheio por uma rajada sónica de alta intensidade, o Homem-Aranha tomba inanimado quando o sistema de suporte vital do satélite é comprometido.
Tão logo recobra a consciência, o Homem de Aço investe sobre o Doutor Octopus, arrancando-lhe dois dos seus tentáculos mecânicos. Já o Escalador de Paredes prefere recorrer à psicologia para semear a discórdia entre os dois vilões.
Superman Vs. Spider-Man (Written by Gerry Conway, Art by Ross Andru)
Os heróis contra-atacam.
Ao escutar o discurso do herói aracnídeo, Octopus compreende enfim que, se consumado, o diabólico plano de Luthor resultará na ruína da civilização humana, não restando nada para governar. Perante o desespero de Luthor, Octopus usa então um dos seus tentáculos remanescentes para inutilizar o painel de controlo do ComSat, impedindo dessa forma uma calamidade de proporções bíblicas.
Enquanto o Homem-Aranha se encarrega de neutralizar os dois vilões, o Super-Homem voa a supervelocidade para a Terra a fim de impedir que um gigantesco maremoto arrase a Costa Leste dos EUA.
De regresso a Nova Iorque, os dois heróis congratulam-se mutuamente pelo êxito da sua parceria antes de levarem os respetivos némesis sob custódia.
No epílogo, Clark Kent e Lois Lane participam num animado encontro duplo com Peter Parker e Mary Jane Watson.


Segundo Round

Ao abrigo do memorando de alternância entre as duas editoras, em julho de 1981, cinco anos após o lançamento da história original, coube à Marvel assumir a produção do segundo encontro entre o Super-Homem e o Homem-Aranha. Descrita como a "sequência espiritual" da batalha do século, Superman and Spider-Man foi escrita por Jim Shooter (com base numa premissa de Marv Wolfman) e desenhada por John Buscema, contando ainda com uma luxuosa equipa de arte-finalistas onde pontificavam, entre outros nomes sonantes, Joe Sinnott, Terry Austin e Bob Layton.
Em vez de um volume especial, a história foi publicada em Marvel Treasury Edition nº28 e surpreendeu pela escolha dos antagonistas: Doutor Destino (tradicionalmente associado ao Quarteto Fantástico) e Parasita, vilão clássico do Homem de Aço, porém menos afamado do que Brainiac ou Zod, que se perfilavam como candidatos mais óbvios. Previsivelmente menos impactante do que a sua antecessora, a história contava ainda, à laia de bónus, com as participações especiais da Mulher-Maravilha e do Incrível Hulk.
A primeira edição em português ficaria por conta da brasileira RGE, em 1982. Seguindo-se, sete anos mais tarde, a inevitável republicação com a chancela da Abril. Sendo que apenas esta última desembarcou na ocidental praia lusitana.

O reencontro do Homem de Aço e do Escalador de Paredes
 em Marvel Treasury Edition nº28 (1981).

Apontamentos

*Ausente do cânone das duas editoras que o produziram, este primeiro encontro entre o Homem de Aço e o Escalador de Paredes tem sido, contudo, referenciado em vários títulos da Marvel no curso dos anos. A primeira vez que tal aconteceu foi em What If? nº1 (fevereiro de 1977), quando o alienígena conhecido como Vigia agraciou os leitores com pequenos vislumbres de universos paralelos. Num deles, era possível ver o Homem-Aranha prestes a ser atingido na face pelo punho cerrado do Super-Homem (identificado apenas pela manga azul do seu uniforme). Levando inclusivamente o Vigia a interrogar-se se aquele duelo teria tido lugar na realidade primordial ou numa qualquer realidade alternativa. Também Avengers Forever nº8 (julho de 1999) inclui um flashback que mostra a fuga de Lex Luthor e do Doutor Octopus da prisão. Mais recentemente, em Mosaic nº4 (janeiro de 2017), uma das memórias do Homem-Aranha mostra-o a golpear repetidamente o torso do Super-Homem camuflado nas sombras;

image
Entre as memórias do Homem-Aranha esmiuçadas por Mosaico
 figura o seu duelo com o Super-Homem (2ª imagem a contar de cima).

*Paralelamente ao confronto dos protagonistas, Superman versus The Amazing Spider-Man proporcionou também o encontro de vários coadjuvantes. Num deles, ambientado num bar, Morgan Edge e J. Jonah Jameson (respetivamente, presidente executivo da rede WGBS e diretor do Daily Bugle), queixam-se da estranha propensão de Clark Kent e de Peter Parker para desaparecerem em situações de crise. Recorde-se que, à época, Clark trabalhava como pivô no principal telejornal da WGBS (celebrizada como Rede Galáxia, no Brasil), ao passo que Peter colaborava como fotógrafo freelancer daquele que é um dos mais influentes jornais nova-iorquinos;
*Dirigindo-se aos puristas, no prefácio de Crossover Classics - série antológica que compila alguns dos encontros Marvel / DC realizados ao longo dos anos - Gerry Conway esclarece que a ausência de explicação para a presença do Super-Homem e do Homem-Aranha no mesmo universo fora deliberada por não ser esse o objetivo da história. A despeito disso, o The Official Crisis on Infinite Earths Crossover Index, publicado em março de 1986, situa os eventos na Terra Crossover, realidade divergente onde as personagens de ambas as editoras coexistem. Posteriormente, a Marvel designaria essa mesma realidade de Terra - 7642;
*O satélite devoluto que, na história, serve de esconderijo à dupla Luthor / Octopus pertencera outrora ao Gangue da Injustiça. Conceito desenvolvido em 1974 por Len Wein e Dick Dillin, tratava-se de uma organização criminosa muito ativa durante a Idade de Bronze, e que tinha na Liga da Justiça a sua principal adversária. Sucessivamente desmantelada e reconfigurada, dela fizeram parte arquiduques do crime, como o Joker ou próprio Luthor, além de um apreciável rol de vilões menores, nomeadamente o Ladrão das Sombras ou o Capitão Bumerangue;
*À boleia do sucesso de Superman versus The Amazing Spider-Man, a Marvel e DC promoveram múltiplas sinergias até ao início deste século. Um longo e prolífico ciclo de cooperação editorial encerrado com chave de ouro, em 2003, com o magnífico JLA/Avengers. E que teve o seu ponto mais alto em 1996, com o lançamento da Amalgam Comics. Sob o selo desta editora gerida conjuntamente pela Marvel e pela DC foram publicados vários volumes especiais estrelados por personagens amalgamadas, como o Super-Soldado (mescla do Super-Homem com o Capitão América) ou o Garra das Trevas (resultado da fusão de Batman e Wolverine).

Cover
JLA/Avengers, o último crossover Marvel /DC.

Vale a pena ler?

Obra capital na história da 9ª Arte, Super-Homem versus Homem-Aranha temperou com a sua mística o imaginário de toda uma geração e ocupa um lugar muito especial na memória afetiva dos leitores da velha guarda. Em particular daqueles que tiveram o privilégio de lê-la no formato original, dada a sua abordagem cinematográfica.
A despeito das suas especificidades, "A batalha do século" é uma típica narrativa da Idade de Bronze: simples, eficaz e um pungente apelo à suspensão da descrença. Com a dinâmica dos seus protagonistas a ser alimentada pela nobreza ostensiva do Homem de Aço e pelo sentido de humor do Cabeça de Teia. Os dois representam também duas eras diferentes. O primeiro dos super-heróis, o Super-Homem é um símbolo da Idade de Ouro da banda desenhada, ao passo que o Homem-Aranha, surgido na Idade de Prata, é o maior ícone desse período histórico. O confronto entre ambos metaforiza, no fundo, o sempre latente conflito entre o velho e o novo.
Ver Luthor e o Dr. Octopus nos seus uniformes clássicos e isentos dos enfadonhos psicodramas que marcam as histórias atuais  - as mais das vezes, eivadas de relativismo moral - é um salutar lembrete de tempos menos insalubres, em que heróis e vilões não se confundiam.
Além de um divertido exercício de escapismo, Superman versus Homem-Aranha definiu ainda os preceitos para futuros crossovers. Cuja fórmula, salvo honrosas exceções, consiste ainda hoje em fazer os heróis medirem forças entre si antes de as unirem para enfrentar um inimigo comum. Exemplo que deveria ser presentemente seguido pelas editoras que produziram este clássico e que têm no cancerígeno sectarismo dos seus fãs uma das maiores ameaças ao seu futuro. Mas talvez as respostas aos problemas atuais possam ser encontradas no passado. Afinal, este não tem de ser apenas o refúgio espiritual de nostálgicos desencantados com o desvirtuamento dos seus ídolos de infância.




sábado, 9 de março de 2019

GALERIA DE VILÃS: MÍSTICA


  Terrorista sanguinária ou combatente da liberdade? Rebelde com causa ou fanática sem coração? Num mundo pintado a preto e branco mas repleto de zonas cinzentas, a mutante das mil caras é tudo isso e muito mais. Ou não fossem as suas motivações tão camaleónicas quanto a sua aparência.

Denominação original: Mystique
Licenciadora: Marvel Comics
Criadores: Dave Cockrum (conceito), Chris Claremont (história) e Jim Mooney (arte)
Estreia: Ms. Marvel nº16 (abril de 1978)
Identidade civil: Raven Darkholme 
Espécie: Homo Superior (nomenclatura científica para a subespécie humana com poderes inatos, vulgarmente conhecida como mutantes)
Local de nascimento: Presumivelmente, algures na Áustria
Parentes conhecidos: Barão Christian Wagner (marido, falecido), Ralph Brickman (marido, falecido), Charles Xavier (marido), Irene Adler / Sina (companheira, falecida), Graydon Creed (filho, falecido),  Kurt Wagner / Noturno (filho), Gloria Brickman (filha) e Anna Marie / Vampira (filha adotiva)
Ocupação: Terrorista internacional, mercenária, aventureira e ex-agente secreta ao serviço dos governos norte-americano e germânico.
Base operacional: À natureza clandestina das suas atividades está associada a itinerância. Nunca permanecendo muito tempo no mesmo local, já esteve sediada em latitudes e longitudes  tão diversas como a Terra Selvagem, Washington D.C. ou a ilha de Alcatraz, ao largo da baía de São Francisco. 
Afiliações: Ex-líder da Irmandade de Mutantes e da Força Federal, ex-membro do X-Factor, do Tentáculo e do Departamento de Defesa dos EUA, aderiu recentemente ao Clube do Inferno, embora prefira agir por conta própria.
Némesis: X-Men e qualquer inimigo declarado da raça mutante
Poderes e parafernália: Mutante metamórfica, Mística detém a incrível habilidade de induzir psionicamente a reconfiguração das suas células biológicas. Consequentemente, consegue imitar na perfeição a aparência de qualquer ser humano ou humanoide, ao ponto de replicar com precisão retinas, padrões vocais e impressões digitais. Expediente que lhe permite, entre outras coisas, ludibriar eficazmente sistemas de segurança baseados no reconhecimento dessas características únicas de cada indivíduo.
As suas transformações fisionómicas não se restringem, todavia, a matrizes orgânicas. Mística possui a não menos assombrosa capacidade de reproduzir peças de vestuário e outro tipo de acessórios fabricados a partir de diferentes materiais, como óculos, brincos ou carteiras. Uma vez que os seus poderes lhe permitem criar a indumentária mais adequada às circunstâncias, Mística nunca veste roupa verdadeira - o mesmo é dizer que, tecnicamente, anda sempre desnuda.
Apesar da provecta idade (especula-se que terá nascido há mais de um século), Mística conserva um aspeto jovem. O segredo reside no facto de os seus poderes retardarem os efeitos degenerativos do envelhecimento celular, expandindo-lhe desse modo a longevidade. Para a qual muito contribui também a sua imunidade a um amplo espectro de toxinas e venenos desenvolvida sempre que é exposta a substâncias desse tipo.
O aprimoramento dos poderes de Mística decorreu da sua exposição a níveis perigosos de radiação quando tentava salvar Sapo, seu colega de equipa na Irmandade de Mutantes. Graças às novas propriedades regenerativas adquiridas no processo, a vilã consegue agora cicatrizar muito mais depressa do que um ser humano normal, sendo também menos suscetível a doenças e infeções. O seu fator de cura não é , porém, comparável ao de outros mutantes, nomeadamente ao de Wolverine.
Ainda mais extraordinária é a sua capacidade de mudar de posição os seus órgãos vitais, por forma a sobreviver a disparos, esfaqueamentos e outros ataques potencialmente fatais. Em razão disso, a mente de Mística é virtualmente inexpugnável a intrusões telepáticas. Nem mesmo o Professor X consegue capturar-lhe a mente, ou sequer ler-lhe os pensamentos.

Bela e perigosa,
Mística é uma assassina de classe mundial.
Especialista em operações de infiltração e sabotagem, Mística possui notáveis dotes de representação, domina como poucos as tecnologias de informação e é fluente em, pelo menos, onze línguas, entre as quais o português. É também uma brilhante estrategista e as suas competências em combate desarmado ombreiam com as da Viúva Negra.
Após quase um século a fazer-se passar por outras pessoas, Mística desenvolveu a peculiar capacidade de detetar disfarces através da leitura da linguagem corporal de quem os usa. Aprendeu também a camuflar o seu odor corporal, o que a torna irrastreável tanto para cães pisteiros como para detentores de sentidos aguçados, como Wolverine ou Dentes-de-Sabre.
Sempre que a missão o justifica, Mística utiliza um arsenal diversificado, dando primazia às armas de fogo, visto tratar-se de uma atiradora exímia. Por vezes faz-se transportar num sofisticado avião equipado com a mais avançada tecnologia furtiva e dispõe de dezenas de esconderijos espalhados pelos quatro cantos do mundo. Recursos financiados pela colossal fortuna de B. Byron Biggs, um dos seus incontáveis alter egos.
Conotada com dezenas de atentados terroristas um pouco por todo o mundo e com um número indeterminado de assassinatos no currículo, Mística foi em tempos descrita por Nick Fury, ex-diretor da SHIELD, como uma ameaça à segurança internacional e uma das mulheres mais perigosas do planeta. Reputação perfeitamente merecida e que muito diverte a mutante das mil caras.

Fraquezas: Originalmente, Mística conseguia apenas imitar a aparência de outros seres humanos, não conseguindo, porém, editar o seu próprio código genético. Em virtude dessa condicionante, continua a ser-lhe de todo impossível adquirir eventuais poderes ou habilidades das pessoas em quem se transforma. Ao mimetizar, por exemplo, o seu filho Noturno, Mística não pode teleportar-se. Do mesmo modo que, antes de ter os seus poderes aprimorados, revertia à sua verdadeira forma se inconsciente.
Outra limitação aos formidáveis poderes de Mística decorre da sua incapacidade de reajustar a própria massa corporal. Qualquer transformação em pessoas de maior estatura física requer da sua parte um enorme esforço. Quanto maior for a diferença de peso e de altura em relação ao indivíduo replicado maior será a dificuldade de Mística em manter a forma assumida.
Por outro lado, as constantes alterações fisionómicas de Mística afetam subtilmente o seu tecido cerebral sob a forma de esquizofrenia. Distúrbio mental que imprime volatilidade à sua personalidade, tornando-a imprevisível e, por vezes, errática na sua tomada de decisões.

Raven Darkholme turns into Mystique
Camaleão humano.
Rapsódia azul

Principalmente como antagonista - embora, também, como ocasional aliada -, Mística é uma velha conhecida dos X-Men. Foi, no entanto, nas histórias de uma outra ilustre moradora da Casa das Ideias que fez a sua estreia.
Tudo começou quando o artista Dave Cockrum mostrou a Chris Claremont - com quem trabalhara em Uncanny X-Men - os esboços da sua nova personagem: uma escultural transmorfa de pele azulada. Claremont batizou-a de Mística e, com o beneplácito do colega, introduziu-a como vilã da Miss Marvel (Carol Danvers, atualmente conhecida como Capitã Marvel). Com Mística a apresentar as suas credenciais  em Ms. Marvel nº16, edição datada de maio de 1978.
No entanto, nesta sua primeira aparição, Mística não exibia a sua verdadeira forma, uma vez que operava sob disfarce. Isso só aconteceria dois meses depois, em Ms. Marvel nº18, com ambas as histórias a serem desenhadas por Jim Mooney, que  acabou assim creditado como coautor da personagem.
Nos seus primórdios, Mística nutria um profundo rancor pela Miss Marvel, pese embora a origem desse sentimento não tenha sido devidamente explicitada. A série da heroína foi cancelada antes que as reais motivações da sua inimiga fossem conhecidas.
Chris Claremont revelaria mais tarde que a ideia era ligar Miss Marvel a uma perturbadora visão de Sina (mutante precognitiva íntima de Mística) em relação ao futuro. Um futuro no qual a heroína causaria grande sofrimento a Vampira, a filha adotiva de Mística. Levando dessa forma a vilã a procurar por todos os meios impedir a concretização da profecia.

Ms. Marvel Vol 1 16
Foi nesta edição de Ms. Marvel
  
que Mística fez a sua estreia.


Mística revela enfim a sua verdadeira forma
 mas não as razões do seu ódio pela Miss Marvel. 

Ironicamente, as ações de Mística tiveram como consequência, anos mais tarde,  a absorção dos poderes da Miss Marvel por parte de Vampira. O que, efetivamente, causou grande sofrimento emocional à jovem e ditaria o afastamento de mãe e filha. Com ambas a demonstrarem desde então sentimentos contraditórios em relação uma à outra.
Claremont revelaria ainda que pretendia estabelecer Mística e Sina como pais biológicos do X-Man Noturno (com a primeira a transformar-se em homem para o ato de conceção). Proposta prontamente vetada pela Marvel, ao abrigo do rígido regulamento moral imposto pela Comics Code Authority. Que, entre outros constrangimentos, à época proibia o uso de personagens declaradamente homossexuais ou bissexuais. Por conseguinte, só muito tempo depois Mística passaria a ser explicitamente retratada como fazendo parte desta segunda categoria, vivendo maritalmente com Sina até à morte desta.
Mas quem é, afinal, Raven Darkholme, essa rapsódia em tons de azul que adotou Mística como nome de guerra?
Apesar dos vários exercícios de continuidade retroativa realizados ao longo dos anos, o passado de Mística permanece envolto na obscuridade, fazendo dela um enigma tão fascinante quanto indecifrável.
Uma vez que não é conhecida a sua filiação, ignora-se se Mística terá sido concebida por humanos, mutantes ou uma mistura de ambos. Outra incógnita é a sua data de nascimento, embora se presuma que terá vindo ao mundo cerca de cem anos atrás - provavelmente, numa qualquer localidade austríaca. Nada se sabe também acerca da sua infância, exceto que os seus poderes terão despontado por volta dos doze anos de idade.
Numa das suas primeiras missões sob disfarce no estrangeiro, no auge da Guerra Fria, Mística teve um brevíssimo affair com Victor Creed, o assassino mutante conhecido como Dentes-de-Sabre. Uma relação que teria sido inconsequente para ambos se dela não tivesse resultado um filho. Para perplexidade e desgosto de Mística, o seu bebé nasceu humano. O que a levou a dá-lo para adoção tão logo se restabeleceu do parto. O nome do menino era Graydon Creed.
Ao descobrir a verdade sobre o seu passado, Graydon passou a odiar os mutantes. Já adulto, lançaria uma feroz campanha política contra eles antes de ser assassinado por uma versão futura da própria mãe.
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Graydon Creed num comício antimutante.
Antes desses eventos, Mística foi casada com o Barão Christian Wagner, um influente membro da aristocracia germânica, e daria à luz um segundo filho. Kurt Wagner foi fruto da relação extraconjugal mantida pela sua mãe com o demónio Azazel, tendo por isso nascido com a aparência de um demónio de olhos amarelos e pele azulada. Prestes a ser linchada pelos aldeões, e já depois de ter assassinado o marido na vã tentativa de encobrir a sua infidelidade, Mística atirou o bebé ao rio. O pequeno Kurt seria, no entanto, resgatado por uma cigana que o perfilharia. Só muitos anos mais tarde ficaria a conhecer a identidade da sua verdadeira mãe, com quem continua a manter uma relação distante.
Ao lado de Sina, o grande amor da sua vida, Mística encontraria relativa estabilidade emocional, sem nunca renunciar à sua luta pela libertação dos mutantes, que considerava oprimidos pela Humanidade. Do desejo da parelha de constituir família resultou a adoção de Vampira, uma jovem proscrita nascida com a habilidade de absorver poderes e memórias alheios.
Foi também nessa fase da sua vida que Mística fundou e liderou a terceira encarnação da Irmandade de Mutantes, organização terrorista que se batia pela supremacia dos Homo Superior. Após o atentado falhado contra o Senador Robert Kelly orquestrado pelo grupo, o sentimento antimutante exacerbou-se ainda mais entre a população humana. Levando o Governo norte-americano a criar uma força-tarefa especial para dar caça a mutantes fora da lei.
Temendo pela vida, Mística e alguns dos seus apaniguados da Irmandade de Mutantes aceitaram integrar a Força Federal (Freedom Force, no original), a troco de um indulto presidencial para os seus muitos crimes passados. Quando a Força Federal foi dissolvida e substituída pelo X-Factor, Mística colaborou brevemente com o grupo.
Mas depressa voltaria a trilhar o seu próprio caminho. Sempre com os inimigos da sua espécie na mira e com uma guerra racial no horizonte.  Uma guerra que estava convicta que poderia apenas ter como desfecho a vitória dos Homo Superior. Mas que também em vários momentos ajudou a evitar. Chegando assim ao presente enleada nas agrugras e doçuras desse infindável túnel de contradições que é a sua vida.

Mystique in Uncanny X-Men
Mística à frente da sua Irmandade de Mutantes, da qual também fazia parte Sina,
 sua amante e companheira de longa data.
Miscelânea

*Diferente do que vem sendo mostrado no cinema (e, também, em algumas séries animadas dos X-Men), Mística não é o braço-direito de Magneto na Irmandade de Mutantes. Na banda desenhada rareiam, com efeito, os encontros entre ambos, conhecendo-se por isso apenas de raspão. Acresce ainda o facto de Mística ser dona de uma personalidade muito forte e independente, nada compatível com funções subalternas;
*Mística não suporta a própria aparência, pelo que evita sempre observar o seu reflexo no espelho. Assume, porém, com alguma frequência a sua verdadeira forma antes de iniciar duelos. Presume-se que este subterfúgio objetivará surpreender e confundir os seus adversários;
*Apesar de não lhe agradar tirar a vida a outros membros da sua espécie, fá-lo-á sem pestanejar se os considerar irremediavelmente perdidos para a causa mutante ou se estiverem a trabalhar para o inimigo;
*Desconhecendo-se a sua exata data de nascimento, supõe-se que Mística terá vindo ao mundo em setembro de um qualquer ano no dealbar do século XX. Quando, certa vez, foi presenteada com um colar de safiras (pedra preciosa tradicionalmente associada a quem nasce em setembro), Mística perguntou ao seu benfeitor como sabia o seu mês de nascimento;
*Num exercício de continuidade retroativa influenciado pela proximidade existente entre as versões cinematográficas das duas personagens, num passado recente o escritor Brian Michael Bendis alterou drasticamente a relação entre Mística e o Professor Xavier no universo canónico dos X-Men. Algum tempo após a morte do seu mentor, os Filhos do Átomo ficaram em choque com a última vontade inscrita no testamento de Xavier: que todo o seu património revertesse a favor da sua esposa (ninguém menos do que Mística). Um casamento de que nenhum dos cônjuges teria, aparentemente, conhecimento, e que terá resultado da ação de um misterioso viajante do tempo;
*Reflexo da notoriedade alcançada por via da sua participação na franquia cinematográfica dos X-Men iniciada na viragem do século, desde 2009 que Mística ocupa a 18ª posição na lista dos cem melhores vilões de todos os tempos organizada pelo site IGN. À frente, por exemplo, de grandes expoentes de malignidade como Thanos (também da Marvel) ou General Zod, da rival DC. Mística é também considerada uma das personagens femininas mais sensuais dos quadradinhos, o que explica em boa medida o seu sucesso dentro e fora deles.

Mutante das mil caras.

Noutros media

Fora dos quadradinhos, Mística começou por ser antagonista recorrente dos pupilos do Professor Xavier em X-Men: Animated Series, no ar entre 1992 e 1997. Nesta sua primeira versão animada, a vilã comandava a Irmandade de Mutantes e agia frequentemente em conluio com o Senhor Sinistro, Magneto e Apocalipse. Caracterização que conheceria ligeiras nuances em produções subsequentes. Em Wolverine and the X-Men, por exemplo, Mística mantinha um relacionamento amoroso com Logan ao mesmo tempo que conspirava com o Mestre do Magnetismo contra a Humanidade.

Mística em X-Men: Animated Series.
No cinema, Mística foi originalmente interpretada pela ex-modelo Rebecca Romijn na primeira trilogia dos X-Men produzida entre 2000 e 2006. Após o reboot da franquia, desde 2011 que uma sua versão mais jovem vem sendo representada pela oscarizada Jennifer Lawrence. Com a particularidade de a personagem ser agora retratada mais como uma anti-heroína do que como uma vilã.
Apesar da sua versatilidade, o  futuro de Mística  no grande ecrã é incerto, dado o cansaço já manifestado por Lawrence relativamente às exigências do papel, designadamente as longas horas despendidas com a respetiva caracterização.
Mesmo que venha a confirmar-se a saída de Jennifer Lawrence, isso em nada comprometeria a participação de Mística numa franquia onde vem sendo figura-chave. Dada a multiplicidade de formas assumidas pela mutante das mil caras, qualquer outra atriz poderia ser escalada para o papel. Certo é que Mística regressará ao grande ecrã já no próximo mês de junho, quando Dark Phoenix chegar às salas de cinema norte-americanas.
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Jennifer Lawrence (esq.) e Rebecca Romijn encarnaram Mística no cinema.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

RETROSPETIVA: «X-MEN»



   Na viragem do milénio, o advento dos Filhos do Átomo ao grande ecrã foi a chave para o salto evolutivo de todo um género. Manifesto simbólico contra o preconceito social, o filme de Bryan Singer cumpriu exemplarmente o duplo desígnio de entreter e consciencializar. 

Título original: X-Men
Ano: 2000
País: EUA
Duração: 104 minutos
Género: Ação / Fantasia / Super-heróis
Produção: Marvel Entertainment Group / The Donner's Company
Realização: Bryan Singer
Argumento: David Hayter, Tom DeSanto e Bryan Singer
Distribuição: 20th Century Fox
Elenco: Patrick Stewart (Charles Xavier / Professor X), Hugh Jackman (Logan / Wolverine),  Ian McKellen (Eric Lehnsherr / Magneto),  Halle Berry (Ororo Munroe / Tempestade), Famke Janssen (Drª. Jean Grey), James Marsden (Scott Summers / Ciclope), Bruce Davison (Senador Robert Kelly), Rebecca Romijn-Stamos (Raven Darkholme / Mística), Ray Park (Mortimer Toynbee / Sapo), Tyler Mane ( Victor Creed / Dentes-de-Sabre) e Anna Paquin (Marie D'Ancanto / Vampira)
Orçamento: 75 milhões de dólares
Receitas: 296, 3 milhões de dólares

O genoma de um clássico 

Os primeiros planos para uma adaptação cinematográfica dos X-Men começaram a ser alinhavados a meio da década de 80, especificamente em 1984. Nesse ano, Roy Thomas e Gerry Conway, editores-chefes da Marvel Comics, escreveram em conjunto o argumento para um filme dos heróis mutantes criados em 1963 por Stan Lee e Jack Kirby, cuja produção deveria ter ficado a cargo da Orion Pictures. O projeto seria no entanto inviabilizado pelos graves problemas de tesouraria entretanto enfrentados pelo estúdio.
Cinco anos mais tarde, em 1989, Stan Lee e Chris Claremont encetaram negociações com a Carolco Pictures com vista à produção de uma longa-metragem baseada nos X-Men. James Cameron seria produtor executivo do filme, ficando a direção endossada a Kathryn Bigelow, que assinaria também o respetivo argumento.
Tudo parecia bem encaminhado (Angela Basset chegou a ser cogitada para o papel de Tempestade) não fosse a inesperada falência da Carolco. Em consequência da qual os direitos da película reverteram para a Marvel, ela própria em situação de pré-rutura financeira.
Em 1992, ao mesmo tempo que a Marvel procurava convencer a Columbia Pictures a adquirir os direitos de adaptação daqueles que eram então os seus mais valiosos ativos, Avi Arad produziu uma série animada dos X-Men para o canal Fox Kids. Impressionada com o enorme êxito desse projeto, a 20th Century Fox, associada à produtora Lauren Shuler Donner (esposa de Richard Donner, realizador de Superman, the Movie), assegurou os direitos das personagens em 1994.

X Men Clássico
O sucesso da primeira série animada dos X-Men
foi fundamental
 para o lançamento do filme dos Filhos do Átomo.
Com o vindouro filme dos X-Men em fase de pré-produção, Andrew Kevin Walker escreveu um argumento focado na rivalidade entre o Professor X e Magneto, mas também entre Wolverine e Ciclope. Na trama participariam ainda a Irmandade de Mutantes e os Sentinelas, os robôs gigantes projetados para caçar indivíduos portadores do gene X.
A este primeiro rascunho do enredo sucederam-se várias outras versões, incluindo uma da autoria de Joss Whedon, o futuro realizador de The Avengers. Robert Rodríguez, Paul W.S. Anderson e Brett Retner (que, em 2006, viria a dirigir X-Men 3: Last Stand) foram alguns dos realizadores sondados para o projeto, mas nenhum deles se mostrou disponível para capitaneá-lo.
Depois de ter dirigido com mestria o aclamado The Usual Suspects (1995), Bryan Singer pretendia aventurar-se na ficção cientifica. Sensível a essa veleidade do cineasta, a 20th Century Fox começou por oferecer-lhe a direção de Alien Resurrection mas acabaria por considerá-lo mais indicado para levar X-Men a bom porto.
Apesar de oficialmente confirmado, desde dezembro de 1996, como realizador da película dos Filhos do Átomo, em abril do ano seguinte Bryan Singer assumiu a direção de Apt Pupil, que tinha Ian McKellen como protagonista. Ainda no decurso de 1997, a Fox aprovou um orçamento de 60 milhões  de dólares para X-Men e anunciou o Natal de 1998 como data oficial para a estreia do filme.

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Bryan Singer foi o realizador escolhido para dirigir X-Men.
Seria no entanto apenas em finais de 1998, na sequência de uma profunda revisão do argumento de Tom DeSanto, que a Fox aprovaria o orçamento final da produção, que ascendia agora aos 75 milhões de dólares. O que só foi possível após intensas negociações entre os representantes do estúdio e Bryan Singer, com este a concordar com a remoção de certos elementos e referências extraídos do material original. Entre os quais Fera (um dos X-Men fundadores) e a Sala do Perigo (espécie de campo de treino virtual instalado na Mansão X). Se no caso do primeiro a solução passou por transferir os conhecimentos médico-científicos da personagem para Jean Grey, a ausência da segunda permitiu a Bryan Singer dar mais ênfase a cenas com maior carga dramática.

Drawing of an ape-man wearing trunks. He has huge, muscular arms that hang down past his knees.
Arte conceptual do Fera
descartada após a revisão do argumento.
Ainda que a versão final do argumento tenha sido (re)escrita por David Hayter, Bryan Singer e Tom DeSanto foram igualmente creditados pela história transposta ao grande ecrã. Uma história, que atendendo à enorme popularidade da personagem entre os fãs, tinha, inevitavelmente, em Wolverine uma das figuras centrais.
Com efeito, tão logo as primeiras notícias e rumores acerca do desenvolvimento do filme dos X-Men começaram a circular (viviam-se ainda os primórdios da Internet), nenhum despertou tanto interesse junto dos fãs como aqueles que diziam respeito à escolha do ator para encarnar Wolverine.
Depois de Gary Sinise ter ficado bem cotado em meados dos anos 1990, Russel Crowe seria a primeira escolha de Bryan Singer para o papel. O ator neozelandês recusou mas indicou Hugh Jackman, seu amigo de longa de data. Também ele originário da Oceânia, designadamente da Austrália, Jackman era, à época, um ilustre desconhecido, circunstância que deixou Singer reticente. No entanto, por força das sucessivas "negas" dadas por atores de maior nomeada, Singer resolveu dar uma oportunidade a Jackman, que acabaria por ser contratado apenas três semanas antes do arranque das filmagens.
Incluindo diferentes localizações no Canadá, mormente Toronto, a rodagem do filme prolongou-se por um semestre, entre setembro de 1999 e março de 2000. Inicialmente prevista para o Natal desse ano, a estreia de X-Men acabaria por ser antecipada para 14 de julho de 2000, por forma a preencher uma vaga no calendário de lançamentos resultante do adiamento de Minority Report. Estavam assim lançadas as bases para uma das mais bem-sucedidas franquias da história da 7ª Arte, que perdura até hoje.

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X-Men guindou Hugh Jackman ao estrelato.

Sinopse

Sob chuva torrencial, uma multidão de prisioneiros judeus arrasta-se pelo campo de concentração de Auschwitz, na Polónia ocupada. Quando o pequeno Eric Lehnsherr é separado à força dos pais, o desespero do garoto faz com que a sua habilidade mutante de gerar campos magnéticos e de controlar o metal se manifeste. A fúria de Eric cessa apenas quando um dos guardas o golpeia violentamente na cabeça com a coronha da sua espingarda. 
Num futuro não muito distante, o Senador Robert Kelly pugna no Congresso dos EUA pela aprovação da Lei de Registo de Mutantes. Medida legislativa que visa compelir os Homo Superior (designação científica para mutantes) a revelarem publicamente os seus poderes e identidades.

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O Senador Kelly lidera uma feroz campanha antimutante.
A assistir de camarote ao debate travado por Kelly e a Drª. Jean Grey em pleno Congresso estão Eric Lehnsherr e Charles Xavier. Dois velhos amigos que a causa mutante atirou para lados opostos da barricada, e que atendem agora pelos nomes de Magneto e Professor X, respetivamente.
Perante a iminente aprovação da nova lei, Xavier fica apreensivo com a reação de Magneto ao que este considera ser um ato persecutório dos humanos relativamente à população mutante. Os dois trocam breves palavras nos corredores do Congresso mas ficam claras as suas divergências no que à coexistência entre as duas espécies diz respeito.
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Professor X e Magneto, as duas faces de uma causa.
Longe dali, numa pequena cidade do Mississipi, uma adolescente chamada Marie deixa o seu namorado em coma depois de permitir que este a beijasse. Apavorada com o perigo que as suas habilidades mutantes representam para aqueles que a rodeiam, a jovem foge de casa e assume a identidade de Vampira.
Na cidade canadiana de Alberta, Vampira encontra Logan, mais conhecido por Wolverine, um mutante possuidor de fator de cura acelerada e com garras metálicas retráteis nas mãos. Apesar de relutante, Wolverine acaba por consentir que Vampira o acompanhe na sua jornada através dos gélidos confins do Grande Vizinho do Norte.
A viagem de ambos é, porém, abruptamente interrompida quando sofrem uma emboscada montada por Dentes-de-Sabre, um dos apaniguados de Magneto e membro da Irmandade de Mutantes. 
Com Wolverine ainda aturdido e a recuperar dos graves ferimentos sofridos, Vampira é salva pela intervenção de Ciclope e Tempestade, dois dos X-Men reunidos por Charles Xavier.

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Amizade entre proscritos.
Levados para a Escola de Jovens Sobredotados instalada na mansão de Xavier, nos arrabaldes nova-iorquinos, Wolverine e Vampira travam conhecimento com os restantes X-Men e com os alunos mutantes que frequentam a instituição.
Xavier pede a Wolverine que permaneça na escola enquanto os X-Men investigam os planos de Magneto, que parece ter um especial interesse nas capacidades do mutante canadiano. Vampira, por sua vez, é integrada numa das turmas e logo faz amizade com Bobby Drake, o Homem de Gelo. 
Dias depois, o Senador Kelly é raptado por Mística e por Sapo, da Irmandade de Mutantes. Levado para o esconderijo de Magneto numa ilha não-cartografada, Kelly é usado como cobaia para testar os efeitos de uma máquina capaz de induzir mutações em seres humanos normais. Contudo, o esforço despendido por Magneto para energizar o aparato deixa-o exaurido.
Graças às suas novas habilidades mutantes, Kelly consegue evadir-se da base secreta da Irmandade de Mutantes e dá à costa numa praia apinhada de gente.

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Mutante de mil caras.
Enquanto isso, depois de ter usado os seus poderes para absorver temporariamente as capacidades regenerativas de Wolverine - que a tinha, acidentalmente, trespassado com as suas garras de adamantium - , Vampira é convencida por Bobby Drake (na verdade, Mística) de que a sua presença na Escola Xavier é indesejada, devendo partir de imediato. 
Ao detetar a fuga da sua mais recente pupila, o Professor X recorre ao seu supercomputador Cérebro para localizar Vampira numa estação ferroviária a vários quilómetros da mansão e envia os X-Men para resgatá-la.Sem que ninguém se aperceba, Mística, agora disfarçada de Charles Xavier, implanta um vírus informático em Cérebro.
Adiantando-se aos seus colegas de equipa, Wolverine encontra Vampira a bordo de um comboio e convence-a a regressar com ele para a Escola Xavier. Contudo, antes que os dois possam arrepiar caminho são atacados por Magneto, que derruba Wolverine e sequestra Vampira.
Malgrado os esforços de Xavier para deter Magneto, este acaba por levar avante os seus intentos ao ameaçar matar os agentes policiais que haviam acorrido à estação de caminhos de ferro.
Quando o Senador Kelly chega à Escola Xavier à procura de ajuda para a sua nova condição, o Professor X submete-o a uma sondagem telepática. Ficando assim a conhecer o verdadeiro plano de Magneto e o funcionamento da máquina por ele construída. Ao observar o estado debilitado de Magneto após operá-la, Xavier deduz que o vilão pretende transferir os seus poderes para Vampira, usando-a como uma bateria para o seu dispositivo, o que resultará na morte da jovem.

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Os pupilos do Professor X.
Já depois do corpo de Kelly se ter liquefeito, Xavier recorre novamente a Cérebro para descobrir o paradeiro de Vampira, mas fica incapacitado devido à sabotagem executada por Mística. Cabendo então a Jean Grey usar os seus poderes telepáticos para se conectar ao supercomputador. Apesar da agonia que isso lhe causa, Jean consegue descobrir que Magneto instalou a sua máquina na cabeça da Estátua da Liberdade e que tenciona usá-la para transformar em mutantes os líderes mundiais reunidos numa cimeira histórica das Nações Unidas  à qual Ellis Island serve de palco.
Ao mesmo tempo que Magneto transfere os seus poderes para Vampira, os X-Men enfrentam a Irmandade de Mutantes no interior da Estátua da Liberdade. A máquina de Magneto acaba, no entanto, destruída pelos heróis antes que os seus raios pudessem atingir o alvo. 
Para salvar a vida de Vampira, Wolverine permite que ela lhe absorva o seu fator de cura, mergulhando de imediato num coma. 
Já com Wolverine e Xavier restabelecidos, os X-Men descobrem que Mística escapou de Ellis Island usando o falecido Senador Kelly como disfarce. Xavier sonda telepaticamente a mente de Wolverine e fornece-lhe pistas sobre o seu passado numa instalação militar secreta numa região remota do Canadá.
Aprisionado numa cela de plástico suspensa num complexo subterrâneo, Magneto recebe a visita de Xavier. Terminada a partida de xadrez disputada por ambos, Magneto avisa o seu velho amigo que pretende recuperar a sua liberdade para liderar a revolução mutante. Ao que Xavier responde que, quando esse dia chegar, ele estará lá fora à sua espera.


Trailer



Prémios e nomeações

X-Men traduziu em prémios metade das 26 nomeações recebidas. Foi particularmente bem-sucedido nos Saturn Awards ao sair vitorioso em segmentos importantes como Melhor Filme de Ficção Científica, Melhor Realizador (Bryan Singer), Melhor Argumento (David Hayter) e Melhor Ator (Hugh Jackman). Um registo notável que faz de X-Men o filme mais galardoado da trilogia original (2000-2006), mas apenas o quinto de toda a franquia, que, recorde-se, inclui igualmente as três películas de Wolverine e as duas já realizadas de Deadpool.

Curiosidades

*Por considerar os comics um género literário menor, Bryan Singer declinou três vezes a proposta para assumir a direção da primeira longa-metragem baseada nos X-Men. Homossexual assumido, o realizador celebrizado por Os Suspeitos do Costume (1995) mudaria radicalmente de opinião após ler algumas das sagas mais marcantes dos Filhos do Átomo, às quais ficou rendido visto abordarem temas como o preconceito e a discriminação de minorias;
*Conscientes do risco de iniciarem uma franquia dispendiosa que poderia não ir além do primeiro filme, os executivos da 20th Century Fox deram luz  verde a  um orçamento de "apenas" 75 milhões de dólares para X-Men. Valor modesto por comparação com os mais de 100 milhões de dólares que, à época, eram alocados, em média, aos blockbusters estivais;
*Apesar de expressamente proibidas por Bryan Singer, que as considerava uma influência nociva para os atores, as revistas dos X-Men circularam clandestinamente entre o elenco do princípio ao fim das filmagens;

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Ian McKellen lê a adaptação oficial de X-Men aos quadradinhos.
*Nem Patrick Stewart nem Ian McKellen sabiam jogar xadrez. Houve, por isso, a necessidade de contratar um mestre para ensinar-lhes os preceitos básicos do jogo;
*Há muito desejado pelos fãs para o papel de Professor X, o britânico Patrick Stewart foi a única escolha de Bryan Singer e o primeiro ator a ser escalado para o filme. Isto apesar do profundo desconhecimento de Stewart acerca dos heróis mutantes criados por Stan Lee e Jack Kirby;
*O exterior de uma destilaria de Toronto fez as vezes do campo de concentração nazi que enquadra a cena de abertura do filme. Curiosamente, essa havia sido a última cena a ser gravada no Canadá;
*Desde a sua primeira aparição em 1981, Vampira (Rogue, em inglês) nunca possuíra uma identidade civil. Crismada simplesmente de Marie no filme, o seu apelido - D'Ancanto - seria revelado no capítulo seguinte da saga. Em consequência disso, à sua versão canónica seria entretanto atribuído o nome Anna Marie;
*Indiferente ao facto de Vampira ser, à data, uma personagem relativamente secundária nas histórias dos X-Men, Bryan Singer concedeu-lhe papel central na trama, devido à sua capacidade mutante para drenar as memórias, habilidades e energia vital de todos aqueles em quem toca. Misturando elementos de Jubileu e Kitty Pryde, outras jovens pupilas do Professor X na BD, a caracterização de Vampira visou convertê-la num símbolo de alienação das minorias;

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Vampira foi personagem charneira em X-Men.
*A troca de sorrisos entre um menino e Ciclope durante a cena na estação ferroviária foi totalmente improvisada. O menino era um grande fã dos X-Men, sendo Ciclope o seu favorito, razão pela qual não conseguia parar de sorrir para James Marsden. Bryan Singer gostou tanto dessa interatividade espontânea que decidiu incluir a cena no filme, em detrimento da que havia sido inicialmente planeada;
*Composta por 110 próteses personalizadas que cobriam 60% da sua área corporal, a maquilhagem de Mística demorava 9 horas a ser aplicada. Rebecca Romijn-Stamos estava, ademais, proibida de beber álcool ou viajar de avião na véspera de ser submetida ao processo de caracterização, dado o risco de ser desencadeada uma reação química de efeitos imprevisíveis. Apesar dessas interdições, no último dia de filmagens a atriz levou consigo uma garrafa de tequila, que dividiu com o restante elenco. Sucede que ainda lhe faltava gravar a cena de luta com Wolverine, durante a qual Rebecca cobriria Hugh Jackman de vómito azul;
*Tyler Mane ficou temporariamente cego devido ao uso de lentes especiais requerido para a sua caracterização como Dentes-de-Sabre;
*Conhecido pela sua ferocidade animal e pelo seu instinto assassino nos quadradinhos, no filme Wolverine não é responsável por qualquer morte;
*Reverso do sonho do Professor X de uma coexistência harmoniosa entre humanos e mutantes, a Irmandade de Mutantes de Magneto é um grupo terrorista que se bate pela supremacia do Homo Superior. Pela mão de Stan Lee e Jack Kirby, a Irmandade de Mutantes fez a sua estreia em X-Men nº4 (março de 1964), tendo como membros fundadores, além do próprio Mestre do Magnetismo, Sapo (anteriormente conhecido como Groxo, no Brasil), Mestre Mental e os gémeos Mercúrio e Feiticeira Escarlate (filhos secretos de Magneto);
*Na dupla qualidade de coautor dos Filhos do Átomo e de produtor executivo da película,, o malogrado Stan Lee fez um cameo em X-Men. É ele o homem junto a uma rulote de cachorros-quentes à entrada da praia quando o Senador Kelly emerge do oceano.

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A primeira Irmandade de Mutantes.

Veredito: 75% 

Pelo seu significado e repercussão - equiparável apenas a Superman, The Movie - X-Men foi o principal responsável pelo regresso em força dos super-heróis ao grande ecrã. De onde andavam arredados há largo tempo, tanto por conta do elevado custo desse tipo de produções como pelos apocalipses de bilheteira de algumas delas, tornando-as um género menor aos olhos de Hollywood.
Através de um veículo inteligente, ágil e respeitoso à fonte, Bryan Singer conseguiu estabelecer grande identificação entre o público e as personagens do seu filme. Que transita elegantemente por temáticas tão atemporais como a amizade entre inadaptados sociais e o preconceito de que são alvo.
Singer tem, no entanto, de dividir os méritos de X-Men com David Hayter, autor de um argumento adulto, sagaz e bem trabalhado. É, com efeito, na sua sólida trama (a única original em toda a saga cinematográfica dos X-Men) que reside a mais-valia da película.
Por contraste com muitas adaptações atuais de super-heróis, que privilegiam a espetacularidade visual em prejuízo da consistência narrativa, X-Men presenteia os espectadores com uma história envolvente, repleta de dramas interpessoais, ambivalência moral e amizades nascidas do infortúnio.
A despeito da desenvoltura narrativa de Hayter, a curta duração do filme não lhe permitiu porém desenvolver satisfatoriamente todas as personagens que desfilam pelo ecrã - sendo Tempestade, remetida a um estranho mutismo, a maior vítima dessa circunstância.
O que mais empalidece X-Men quando é feita a comparação com muitas das produções atuais é a notória falta de ambição no que à grandiosidade diz respeito. O filme dececiona nas cenas de ação carentes de espetacularidade e emoção - exceção feita às que têm Mística como protagonista.
Se, mesmo analisando X-Men com a perspetiva concedida por quase uma vintena de anos, o filme se mantém apelativo do ponto de vista simbólico, o mesmo não poderá dizer-se dos seus efeitos especiais datados. Tecnicamente, X-Men não envelheceu bem, comprometendo em certa medida o toque verosímil que Singer se esforçou por imprimir-lhe.
Nada disto impede, contudo, que X-Men continue a exalar o fascínio de um clássico que criou caminho deslizante para a prosperidade do género super-heroico, que vive por estes dias (pelo menos, no cinema) a sua segunda Idade de Ouro. Se X-Men não tivesse sido produzido -  ou tivesse fracassado - as adaptações de quadradinhos ao grande ecrã seriam hoje seguramente muito menos exuberantes.

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X-Men escancarou as portas do futuro a todo um género.










segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

ETERNOS: GARDNER FOX (1911-1986)


  Arquiteto de duas eras, construiu as bases do Multiverso DC, (re)criou e reuniu pela primeira vez alguns dos maiores símbolos da Editora das Lendas. A despeito da importância e grandiosidade do seu legado, permanece um ilustre desconhecido para muitos aficionados da 9ª Arte.

Num belo dia de 1967, a Universidade do Oregon recebeu uma inusitada oferenda: 14 caixas a abarrotar de livros, bandas desenhadas, argumentos, correspondência e documentação diversa pertença de um tal Gardner Fox. A conselho do seu agente literário, aquele que foi um dos mais prolixos e versáteis escribas de sempre, doou à centenária instituição parte do seu acervo cultural, por forma a obter benefícios fiscais. Meio século volvido, o sobredito material permanece com a sua fiel depositária e constitui parcela significativa do espólio desse grande vulto da 9ª Arte. Cuja riquíssima obra, conquanto reverenciada pelos seus pares, continua a ser ignorada por muitos fãs de super-heróis, mormente entre aqueles que elegem a DC como predileta.
Nova-iorquino de gema, Gardner Francis Cooper Fox nasceu a 20 de maio de 1911 no Brooklyn, um dos mais pitorescos bairros da cidade insone. Criado no seio de uma família de burgueses conservadores, mal aprendeu a juntar as primeiras letras deu mostras de uma insaciável volúpia literária.
Por volta dos 11 anos de idade, o pequeno Gardner Fox leu, de um fôlego, duas histórias que, segundo o próprio, lhe apresentaram um mundo completamente novo. Ambas saídas da virtuosa pena de Edgar Rice Burroughs (criador de Tarzan e John Carter, e uma das principais influências literárias de Fox), The Gods of Mars e The Warlord of Mars incutiram-lhe o fascínio pela ficção científica, um dos géneros em que, futuramente, mais se notabilizaria.

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Uma das histórias que mais marcou
 Gardner Fox nos seus verdes anos.
Depois de cursar Direito no St. John's College, seleta universidade católica que lhe serviu de alma mater, entre 1935 e 1937 Gardner Fox foi advogado de barra em diferentes tribunais nova-iorquinos. Em plena Grande Depressão, depressa percebeu, porém, que teria melhores perspetivas de carreira naquela que era uma das poucas indústrias promissoras numa economia convalescente após a terapia de choque do New Deal: os comic books.
Pela mão de Vic Sullivan, à época editor-chefe da National Allied Publications (uma das antecessoras da DC Comics), em meados de 1937 Gardner Fox ingressou na casa onde o Super-Homem haveria de pendurar a capa. Apesar de a sua estreia como argumentista ter ocorrido em Detective Comics nº4, nos anos seguintes Fox assinaria centenas de histórias nos principais títulos que compunham o catálogo da editora. Nada que obstasse à intensa colaboração que desenvolvia, em paralelo, com vários magazines pulp que davam à estampa os seus contos de ficção científica.

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Edição onde Gardner Fox fez a sua estreia como argumentista.
Senhor de um saber enciclopédico, Gardner Fox (para quem o acúmulo de conhecimento era, nas suas próprias palavras, uma espécie de passatempo) salpicava as suas narrativas com um pot-pourri de referências históricas, mitológicas e científicas.
Em 1971, numa missiva endereçada a Jeff Bails, o fundador da comunidade de fãs de super-heróis, Gardner Fox revelava possuir dois gabinetes e um sótão atulhados de livros, revistas e toda a sorte de material relacionado com Ciência, Natureza e factos invulgares, que amiúde consultava para escrever as suas histórias. E foram muitas. Estima-se que tenham sido 4 mil no total, 1500 das quais para a DC. Cifras impressionantes que, em conjunto com a centena de novelas publicadas (a uma média anual de três), testificam bem a monumentalidade da sua obra literária.
Ao cabo de alguns meses a relatar as proezas detetivescas de personagens como Speed Saunders ou Steve Malone em Detective Comics, em meados de 1938 Gardner Fox teve a sua primeira experiência narrativa com super-heróis, ao assumir, em Action Comics, as histórias do mago Zatara - pai de Zatanna e pastiche de Mandrake, o Mágico. Em janeiro do ano seguinte daria o seu primeiro contributo para  a expansão do incipiente panteão da Editora das Lendas ao criar Sandman, um misterioso vigilante urbano equipado com uma máscara de gás e uma pistola especial que usava para gasear os malfeitores.

Sandman, o primeiro super-herói
 com assinatura de Gardner Fox.
Em julho de 1939, Gardner Fox regressaria a Detective Comics (onde Batman fizera a sua estreia apenas dois meses antes), desta feita para assessorar Bob Kane e Bill Finger nas histórias do Cruzado Encapuzado. Para cuja evolução visual Fox contribuiu ao apetrechá-lo com o seu icónico cinto de utilidades e uma versão rudimentar do Batcóptero. Doutor Morte (Doctor Death), o que de mais próximo de um supervilão o Batman enfrentou antes de um certo Palhaço do Crime lhe cruzar o caminho, teve também a assinatura de Gardner Fox.
Logo a abrir 1940, o número inaugural de Flash Comics incluía dois novos produtos da prodigiosa imaginação de Gardner Fox: Flash e Gavião Negro (vide texto anterior). Enquanto o primeiro era descrito como "um novo Mercúrio", numa alusão ao mensageiro dos deuses romanos, o segundo invocava os Homens-Falcão das aventuras de Flash Gordon no planeta Mongo. Gardner Fox indicava, contudo, outra fonte de inspiração: "Max Gaines (editor-chefe da All-American Publications, outra das antepassadas da DC), pedira-me que criasse duas personagens para preencher um novo título mensal que planeava lançar em breve. Certa tarde, enquanto me encontrava sentado à janela do meu escritório, reparei num pássaro que recolhia galhos para construir o seu ninho. O pássaro pousava, pegava no galho com o bico e voltava a alçar voo. E foi assim que dei comigo a pensar em como seria fantástico se o pássaro fosse um justiceiro alado e o galho um criminoso."
Sucessos instantâneos, Flash e Gavião Negro seriam pouco depois membros fundadores da Sociedade da Justiça da América . Aquele que é o mais antigo grupo de super-heróis (e outra das criações de Gardner Fox), debutou em dezembro de 1940, nas páginas de All-Star Comics nº3 e reunia, pela primeira vez, as figuras de proa da All-American Publications e da National Allied Publications. Do seu elenco fazia também parte o Senhor Destino ( Doctor Fate), o mestre das artes arcanas idealizado por - quem mais? - Gardner Fox.

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Metade do elenco original da Sociedade da Justiça da América
 era composto por criações de Gardner Fox.
Escrevendo a um ritmo alucinante, durante a Segunda Guerra Mundial Gardner Fox foi chamado a render vários dos seus colegas de profissão mobilizados para o conflito. Foi também durante esse período histórico que teve os seus serviços contratados por outras editoras que não a DC. Chegando mesmo a colaborar com a antepassada da Marvel - a Timely Comics -  antes de ocupar brevemente o posto de redator principal da Eclipse Comics.
As crescentes solicitações em nada afetaram, porém, a criatividade de Gardner Fox que continuava a aumentar o seu rol de personagens. Uma das mais bem-sucedidas fora da DC foi Skyman, um aventureiro fantasiado que pilotava um avião superveloz, criado para a Columbia Comics em 1940.

A mais bem-sucedida criação de Gardner Fox fora da DC.
À medida que, nos anos iniciais da década de 1950, o fulgor da Idade de Ouro se desvanecia e os super-heróis entravam em decadência, outros géneros narrativos se afirmavam no panorama cultural norte-americano. Com uma resiliência que parecia soltar-se-lhe dos genes, Gardner Fox abraçou-os a todos, conferindo, desse modo, à sua obra uma extraordinária amplitude de registos. De histórias do Velho Oeste a contos de terror, passando por aventuras de espionagem, de tudo um pouco saiu da sua incansável pena. A mesma que, durante essa fase, usou para escrever - não raro, sob pseudónimos masculinos e femininos -  contos, novelas e ensaios em número suficiente para preencher uma biblioteca de média dimensão.

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Duas das novelas de ficção científica editadas por Gardner Fox.
Quando a década de 1950 ia a meio, Gardner Fox fez a sua segunda passagem pela DC, notabilizando-se como um dos arquitetos da nova era a que se convencionou chamar Idade de Prata da banda desenhada.
Em resposta ao Comics Code Authority e a outros mecanismos censórios aplicados às histórias aos quadradinhos em consequência dos espasmos de moralidade mesquinha do Congresso dos EUA e das torpes acusações plasmadas no livro Sedução de Inocentes (1954), a Editora das Lendas, agora capitaneada pelo lendário Julius Schwartz, tomou a decisão de reformar o seu panteão heroico. Perfilando-se, desde logo, Gardner Fox, figura grada da Idade de Ouro, como a escolha natural para coliderar tão exigente empreitada. Que teve o seu ponto de partida em Showcase nº4, edição histórica de outubro de 1956, na qual a dupla criativa Robert Kanigher (o único escritor a superar Fox no que ao número de histórias produzidas para a DC diz respeito) e John Broome introduziram uma versão do Flash radicalmente diferente da original.
Agora um traquejado escritor de ficção científica, em 1958 Gardner Fox começou por aplicar o seu toque de Midas a Adam Strange. Criado no ano anterior por Julius Schwartz, o aventureiro espacial que era uma mescla de Flash Gordon e Buck Rogers, passaria, num ápice, de personagem descartável a nova coqueluche da DC graças à pirotecnia verbal de Fox.
Em março de 1960, Gardner Fox atualizou um conceito que ele próprio desenvolvera na Idade de Ouro em parceria com o desenhista Sheldon Mayer: a Sociedade da Justiça da América, agora renomeada Liga da Justiça da América. Em linha com a ideia original, a nova organização, cuja estreia oficial teve lugar em Brave and the Bold nº28, agrupava os principais heróis da DC. No entanto, por contraponto à sua antecessora, depressa ganharia título próprio.

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A Liga da Justiça ganhou série própria em novembro de 1960.
Retomando a sua profícua sinergia com Joe Kubert, no ano seguinte Gardner Fox reformularia outra das suas criações da Idade de Ouro: o Gavião Negro. Sustentado na qualidade narrativa, o sucesso da nova versão suplantaria, uma vez mais, o conceito primordial. A prová-lo, o facto de, a exemplo da recém-criada Liga da Justiça, também a Maravilha Alada de Thanagar não ter demorado a ser contemplada com uma série periódica em nome próprio.
Embora sem influência direta na reformulação do Flash, em setembro de 1961, Gardner Fox assinou uma história do Velocista Escarlate que mudaria para sempre o Universo DC. A partir de uma ideia de Julius Schwartz e com arte a cargo de Carmine Infantino, Flash of Two Worlds (Flash de Dois Mundos) mostrava o surpreendente encontro, com lugar numa dimensão paralela, entre o Flash da Idade de Prata e a sua contraparte da Idade de Ouro.
Além de revelar o destino que haviam levado as personagens da Idade de Ouro - hospedadas na chamada Terra 2 - a história em causa lançou as bases do que seria o complexo Multiverso DC. O mais curioso acerca desta narrativa era que Barry Allen (o novo Flash) conhecia Jay Garrick (o Flash original) porque, no seu mundo, ele era um herói de banda desenhada criado por um tal... Gardner Fox. Com o tempo surgiria a rebuscada explicação de que os eventos da Terra 2 haviam, de algum modo, invadido os sonhos do escriba e que este os transpusera para o papel.

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A multicitada história dos Velocistas Escarlates de duas eras
 que foi a pedra angular do Multiverso DC.
Incentivado por Julius Schwartz, radiante com as vendas das novas personagens, Gardner Fox prosseguiu a sua onda de reinterpretações de antigos conceitos, sem contudo deixar de inovar. Já depois de ter apresentado um Átomo com novas roupagens e habilidades, em 1962 Fox introduziu o Doutor Luz como novo antagonista da Liga da Justiça.
Num ano que ficaria igualmente marcado pela criação de Zatanna (filha do mago Zatara, da Idade de Ouro), em 1964 Gardner Fox regressou às histórias do Batman. No entanto, ao invés de uma releitura do taciturno defensor de Gotham City, Fox preferiu enriquecer-lhe o imaginário resgatando do limbo dois dos seus arqui-inimigos - Charada e Espantalho - e transformando a filha do Comissário Gordon, Barbara, na nova Batgirl.
Esta segunda fase seminal de Gardner Fox seria, contudo, bruscamente interrompida em 1968. Em resultado da recusa por parte da DC em conceder seguro de saúde e outros benefícios aos seus colaboradores mais antigos, Fox bateu com a porta para não mais voltar. Desfalcando, assim, a DC numa altura em que esta disputava com a Marvel a liderança do mercado de quadradinhos.
Nos anos imediatos à sua saída da Editora das Lendas, Gardner Fox dedicou-se quase exclusivamente à literatura. Abrindo apenas um curto parêntesis, no início dos anos 70, para escrever umas dezenas de histórias publicadas em Tomb of Dracula, coletânea de contos de terror publicada pela Marvel. Essa seria, de resto a sua penúltima, passagem pelos quadradinhos antecedendo a sua fugaz colaboração, em 1985, com a Eclipse Comics, cujo produto final se resumiu à produção de uma antologia de ficção científica intitulada Alien Encounters.

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A antologia de ficção científica que marcou
 a derradeira passagem de Gardner Fox pelos quadradinhos.
Vítima de pneumonia, Gardner Fox despedir-se-ia do mundo na véspera de Natal de 1986 (coincidentemente, o ano da implosão do Multiverso DC que ajudara a criar). Contava então 75 anos de idade e sobreviveram-lhe esposa, dois filhos e quatro netos. Mas também um candente legado a que nenhuma homenagem ou honraria póstumas fará a devida justiça.
Entre outros méritos reconhecidos, Gardner Fox mostrou ser possível harmonizar quantidade e qualidade. A prová-lo, o apreciável número de prémios e louvores averbados ao longo da sua carreira. Ao conquistar, em anos intercalados, quatro Alley Awards (o primeiro, em 1962, para melhor escritor), Fox atravessou a década de 60 coberto por um reluzente manto de glória.
Ainda em vida Gardner Fox alcançaria a imortalidade ao ser uma das 50 personalidades referenciadas em Fifty Who Made DC Great, edição comemorativa lançada em 1985 para assinalar o meio século de existência da Editora das Lendas. Membro de diversos grémios literários, como o Science Fiction Writers o America, Fox seria também por eles distinguido repetidas vezes. Postumamente, o seu nome foi inserido, em 2007, no Jack Kirby Hall of Fame e, no ano seguinte, no Eisner Award Hall of Fame (equivalentes bedéfilos do Passeio da Fama cinematográfico).
Menos solenes, porém igualmente repletas de significado foram as homenagens que no decurso dos anos lhe foram sendo rendidas por oficiais do mesmo ofício. Como John Broome, ex-colega de Fox na DC e outro dos saudosos arquitetos da Idade de Prata, que ao criar o mais rebelde dos lanternas verdes o batizou de Guy Gardner.
Malgrado esta deferência dos seus pares, que continuam a celebrar a monumental obra de Gardner Fox, importa, nestes tempos sem espaço para memórias, divulgá-la junto das gerações mais recentes de leitores, por forma a evitar que acabe dissolvida como as neves de antanho. Este é o meu singelo contributo para a sua preservação.

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O insolente Guy Gardner e o homem
 que lhe deu nome retratado por Gil Kane.



Agradecimento muito especial ao meu bom e mui talentoso amigo Emerson Andrade que, com a bonomia com que sempre acede aos meus pedidos, restaurou digitalmente a imagem que serve de ilustração principal a este artigo.