sexta-feira, 23 de abril de 2021

CLÁSSICOS REVISITADOS: «BATMAN - ASILO ARKHAM»


  Ao transpor os altos portões do Palácio da Loucura, assombrado por males e segredos indizíveis, o Homem-Morcego sente-se como o filho pródigo de volta a casa. Preso nos infernos pessoais dos seus inimigos e à mercê dos seus demónios interiores, ele sabe que a derradeira batalha será travada dentro da própria mente.

Título original: Arkham Asylum: A Serious House on Serious Earth 
Editora: DC
País: Estados Unidos da América
Data de lançamento: Outubro de 1989
Autores: Grant Morrison (argumento) e Dave McKean (ilustrações)
Personagens: Batman, Joker, Duas-Caras, Dr. Charles Cavendish, Maxie Zeus, Espantalho, Máscara Negra, Chapeleiro Louco, Cara-de-Barro, Drª Ruth Adams, Amadeus Arkham, Comissário James Gordon
Cenários: Departamento de Polícia de Gotham City, Asilo Arkham
Edições em português: A primeira edição em língua portuguesa desta obra foi lançada em dezembro de 1990 pela Abril brasileira. Só em 2005, sob os auspícios da Devir, ganharia finalmente uma versão em português europeu. Uma década mais tarde, em 2015, seria reeditada em terras lusas pela Levoir, no quarto volume da coleção 75 Anos do Batman. Todas as edições dadas à estampa nas duas margens do Atlântico adotaram o formato americano, alternando, porém, entre as capas duras e as capas moles. 

A mais recente reedição da obra em Portugal,
lançada pela Levoir em 2020.


Prisão sem grades

"Nos manicómios faltam ainda celas para homens honestos."  
           - Emanuel Wertheimer (filósofo húngaro) - 

Qualquer super-herói que se preze possui uma galeria privada de supervilões, sobrevindo daí a necessidade de um lugar onde possa trancafiá-los longe dos inocentes que jurou proteger. Para o Batman, esse lugar é o Asilo Arkham. Trata-se do mais infame hospital psiquiátrico da banda desenhada - ainda que, durante a maior parte do tempo, mal se diferencie de uma prisão convencional.
Pedra angular do burlesco imaginário do Homem-Morcego, o Asilo Arkham já marcou presença em diferentes segmentos culturais além dos comics. Do cinema à animação, passando pelos jogos de vídeo, o Palácio da Loucura granjeou um estatuto mediático quase tão importante como a própria Gotham City.
A despeito dessa sua proeminência, o Asilo Arkham encerra ainda muitos (e sórdidos) segredos no interior das suas paredes. Segredos sobre os quais vários escritores - com Grant Morrison à cabeça - têm tentado verter alguma luz. Sempre que o fazem, emerge da obscuridade outro capítulo aterrador da história de um lugar que muitos, a começar pelo próprio fundador, acreditam estar amaldiçoado. Passemos, então, em revista alguns deles.
Localizado nos arrabaldes de Gotham City, o Asilo Elizabeth Arkham para Criminosos Insanos - é essa a sua designação oficial, em homenagem à demencial matriarca do clã Arkham - fez a sua primeira aparição em Batman #258 (outubro de 1974). Pese embora um sanatório não identificado tivesse sido previamente referenciado, designadamente em algumas aventuras do Homem-Morcego na Idade de Ouro, foi nessa história, assinada por Dennis O'Neil e Irv Novick, que o Arkham adquiriu canonicidade. 
Da sua lista inicial de residentes VIP fazia parte o Duas-Caras, cuja evasão foi premonitória do embaraçoso historial de fugas, escândalos e motins que manchariam de forma indelével a reputação da instituição. Com efeito, apesar do contínuo influxo de novos pacientes, ficou claro desde o início que praticamente qualquer pessoa poderia escapar dessa espécie de prisão sem grades. Em vez de reclusos, o Arkham parece ter hóspedes que lá permanecem apenas enquanto assim o desejarem.

Duas-Caras foi o primeiro inimigo do Batman a evadir-se do Arkham.

Originalmente, as celas do Arkham eram idênticas às de qualquer prisão. Com o tempo, porém, os internos foram autorizados a personalizá-las. Joker, Duas-Caras e Maxie Zeus foram os primeiros a beneficiar desta prerrogativa, com o Príncipe Palhaço do Crime a optar por decorar a sua com uma gigantesca carta do Coringa e um manequim do Batman.
Boa parte da inspiração por trás do Asilo Arkham derivou de uma cidade homónima do Massachusetts que serve de cenário a numerosas passagens de Mitos de Cthulu, de H.P. Lovecraft. Os pacientes do Arkham espelham, de facto, a filosofia dessa obra literária, na qual a existência de males antigos e poderosos é usada como metáfora para a insignificância da condição humana aos olhos dessas divindades. Um conceito, como se percebe, análogo à eterna luta do Batman contra as forças maléficas que incessantemente flagelam a sua cidade natal; aquelas que ele procura desesperadamente trancar no Asilo Arkham.
Oficialmente inaugurado em 1921, o Asilo Arkham teve como fundador e primeiro administrador Amadeus Arkham. O tenebroso hospital que tantos calafrios causa aos gothamitas começou por ser uma mansão vitoriana, ex-propriedade de Jason Blood. Mestre do Ocultismo, Blood terá aprisionado vários demónios e espíritos malignos nas catacumbas do palácio, antes de vendê-lo. Especula-se que será essa a verdadeira origem da maldição que impende sobre o lugar, desde sempre assombrado pelo caos e pela depravação.
Mesmo após a reconstrução do edifício original - parcialmente destruído durante a fuga em massa instigada por Bane em A Queda do Morcego -, permanecem resquícios da sua arquitetura gótica. Destacando-se as sinistras gárgulas que lhe adornam a fachada e o imponente portão principal que franqueia o acesso à propriedade. 

Asilo Arkham, o Palácio da Loucura.

À crónica incapacidade do Arkham de manter psicopatas presos, acresce a sua desastrosa política de Recursos Humanos. De administradores a terapeutas, foram vários os seus ex-funcionários a regredir para a condição de alienados inimputáveis. 
De tão elevada, a prevalência de inimigos do Batman que integraram outrora a equipa médica do Arkham parece evidenciar que o asilo está a funcionar ao contrário. Em vez de os psiquiatras trabalharem para estabilizar os pacientes, são estes que os empurram para o abismo da insanidade. Casos paradigmáticos desta inversão de papéis são a Drª Harleen Quinzel e o Dr. Jonathan Crane. Ambos promissores profissionais de saúde mental contagiados pela loucura dos seus pacientes, transformaram-se, respetivamente, na Arlequina e no Espantalho.
Perante este quadro perturbador, escusado será dizer que o Arkham falha miseravelmente naquela que deveria ser a sua função primordial: reabilitar criminosos antissociais. À falta de melhor alternativa, é lá, porém, que o Batman continua a depositar os freaks cujo propósito de vida se resume a fazer de Gotham um gigantesco circo de horrores.

Joker, loucura elevada ao seu expoente máximo.


Arquitetos do surreal

"A alma humana é um manicómio de caricaturas."
       - Fernando Pessoa (poeta português) -

Na segunda metade da década de 1980, a indústria dos comics passava por uma profunda transformação. O mote realista dado por O Regresso do Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller, fora novamente glosado por Watchmen, de Alan Moore e Dave Gibbons, acrescentando-lhe dose generosa de cinismo. Duas sagas iconoclásticas da DC que, ao mesmo tempo que desconstruíam convenções do género super-heroico, expunham fórmulas narrativas inovadoras e apelativas a audiências mais maduras.
À boleia dessa revolução conceptual, um jovem escriba britânico de pluma incisiva chegou à contracultura, determinado em deixar a sua marca. O seu nome era Grant Morrison e o que propunha era uma espécie de terceira via. Uma que ficaria a meio caminho entre os lugares-comuns das histórias com justiceiros fantasiados e o realismo incensado por Miller e Moore nas respetivas obras.
Arkham Asylum - A Serious House on Serious Earth (subtítulo retirado da última estrofe do poema Church Going, de Philip Larkin) foi a primeira história do Homem-Morcego assinada por Morrison antes de ele se tornar um dos mais prolixos autores da personagem.

Grant Morrison & Dave McKean, a Dupla Dinâmica da Velha Albion.

Após uma longa reflexão acerca da melhor abordagem, Morrison decidiu estabelecer um paralelismo entre a construção da narrativa e a arquitetura de uma casa. Nesse sentido, o passado de Amadeus Arkham seria uma alegoria para as fundações do edifício, ao passo que os símbolos e metáforas invocariam os pisos superiores. De permeio, passagens secretas e corredores labirínticos ligariam segmentos da trama e levariam o leitor a percorrer os recantos do Palácio da Loucura, ele próprio reflexo da psique distorcida dos seus moradores.
Qual arquiteto do surreal, Morrison elegeu como matérias-primas bastas referências a Alice no País das Maravilhas, aos arquétipos Junguianos, ao Tarô e até à Física Quântica. Nessa complexa empreitada teve como sócio outro súbdito de Sua Majestade, o escocês Dave McKean, cuja arte imprimiu um toque abstrato à história. 
O resultado final foi uma obra ímpar na história da 9ª Arte e um dos maiores best-sellers (mais de 600 mil exemplares vendidos) da Editora das Lendas. Ao Batman realista sucedia, assim, o Batman onírico.

Do outro lado do espelho

"Alice: Como sabes que sou louca?
Gato: Só podes ser. Se não fosses, não terias vindo aqui."
            - in  Alice no País das Maravilhas -

Na viragem da década de 1920, o jovem Amadeus Arkham testemunhou, impotente, o declínio mental da sua mãe; estuário de loucura que desaguaria no suicídio. Já adulto, Amadeus fundou o Asilo Arkham, uma instituição psiquiátrica orientada para a reabilitação de criminosos insanos, mantendo-os afastados do sistema penal. 
No presente, é Dia das Mentiras e o Comissário Gordon informa Batman que o Asilo Arkham foi tomado pelos lunáticos, que ameaçam matar todo o pessoal, a menos que o Cavaleiro das Trevas concorde em ir ao encontro deles. Entre os reféns encontram-se Pearl, uma jovem copeira; a Drª Ruth Adams, a nova terapeuta; e o Dr. Cavendish, o atual administrador da instituição. Os amotinados são liderados pelo Joker que, para estimular o Batman a obedecer às suas exigências, mata um dos guardas a sangue-frio. 

Batman não tem como escapar ao jogo mortal do  Joker.

Por sua vez, o Duas-Caras soçobrou ainda mais na sua demência como resultado da bem-intencionada, porém desadequada, terapia ministrada pela Drª Adams. Desde que ela lhe confiscou a sua moeda riscada, substituindo-a por um dado de seis faces e, depois, por um baralho de Tarô, Harvey Dent ficou incapaz de tomar mesmo as decisões mais simples, como ir à casa de banho. 
Chegado ao Arkham, Batman é coagido a jogar às escondidas com os seus inimigos. O Joker concede-lhe uma hora para percorrer os corredores labirínticos e encontrar uma saída antes que ele e os restantes pacientes vão no seu encalço. Previsivelmente, o Palhaço do Crime faz batota, encurtando o tempo para apenas dez minutos. 
À medida que penetra nas lúgubre entranhas do Arkham, Batman luta contra o seu subconsciente, onde a loucura se insinua. Enredado em delírios, o herói encontra, por fim, um compartimento secreto no alto de uma das torres do asilo; uma divisão intocada desde a época em que a propriedade serviu como residência familiar do clã Arkham. 

Sem a sua moeda, Duas-Caras é um destroço humano.

Lá dentro, Batman encontra o Dr. Cavendish trajando um vestido de noiva e com uma elegante navalha com cabo de madrepérola encostada à garganta da Drª Adams. Perante a perplexidade do Homem-Morcego, Cavendish revela ter sido a ele orquestrar o motim e ordena-lhe que leia uma entrada assinalada no diário secreto de Amadeus Arkham. 
Ao lê-la, Batman descobre que aquela divisão secreta fora o quarto de Elizabeth Arkham. Durante muitos anos, a mãe de Amadeus Arkham acreditou ser atormentada por uma criatura sobrenatural, chamando constantemente o filho para protegê-la. No dia em que Amadeus teve, finalmente, um vislumbre da criatura - um grande morcego adejando, qual espectro da morte - ele usou uma navalha com cabo de madrepérola para degolar a mãe, libertando-a, assim, do seu sofrimento. No entanto, Amadeus bloqueou essa memória, atribuindo a morte da progenitora ao suicídio. 
A memória suprimida reemergiria, porém, dos recessos do subconsciente de Amadeus quando, anos mais tarde, a sua esposa e filha foram brutalmente assassinadas por um dos seus ex-pacientes. Profundamente traumatizado, Amadeus enfiou o vestido de noiva da mãe e, ajoelhado sobre o sangue da sua família morta, jurou esconjurar o espírito maligno que ele acreditava assombrar a casa. 
Mesmo depois de ter sido encarcerado no próprio manicómio, Amadeus continuou a sua desvairada missão, riscando com as próprias unhas - e até ao dia da sua morte - as palavras de um feitiço no chão e nas paredes da sua cela.

Amadeus Arkham devotou a vida
 a caçar o demónio que enlouqueceu a sua mãe.

Ao descobrir por acaso os diários de Amadeus Arkham, a navalha e o vestido, Cavendish convenceu-se que estaria destinado a terminar o trabalho do seu antecessor. No 1º de abril, data em que a família de Amadeus foi assassinada, ele orquestrou um motim no Arkham para atrair Batman a uma cilada mortal. 
Convicto de que o Homem-Morcego é o espírito que levara Elizabeth Arkham à loucura, Cavendish acusa-o de, ao trazer mais almas insanas, alimentar o mal que habita o asilo. Na refrega que se segue, Batman é ferido e Cavendish deixa cair a navalha, que acaba nas mãos da Drª Adams. Reagindo instintivamente, ela corta a garganta de Cavendish, que sangra até morrer.
No seu caminho de volta, Batman derrota o monstruoso Crocodilo num violento mano a mano. De machado em riste, o Homem-Morcego despedaça, em seguida,  a porta da frente do hospício, proclamando que os pacientes estão livres. 
Enquanto o Joker se oferece para lhe abreviar o sofrimento, Batman devolve a moeda ao Duas-Caras, afirmando que lhe cabe decidir o seu destino. O vilão aquiesce antes de anunciar que, se a moeda cair com a face riscada para cima, o Morcego será morto. Caso contrário, ele poderá ir em paz.

Batman coloca o seu destino nas mãos do Duas-Caras.

Duas-Caras lança a moeda ao ar e declara o Batman livre. Em tom chocarreiro, Joker despede-se do seu inimigo de estimação, dizendo-lhe que, se a vida se tornar insuportável lá fora, haverá sempre uma cela confortável à sua espera no Arkham.
Ao mesmo tempo que Batman desaparece na noite, os prisioneiros regressam calmamente às suas celas. Todos, exceto Duas-Caras. O vilão fita a Lua antes de revelar a moeda com a face riscada para cima na palma da sua mão. Pela primeira vez, ele ignorou a sorte ditada pela sua moeda, aplicando dessa forma uma sentença de vida ao seu velho inimigo. 
Depois de derrubar uma pilha de cartas de Tarô, Duas-Caras recita uma passagem de Alice no País das Maravilhas: "Quem se importa contigo? Não és nada além de um baralho de cartas."

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Apontamentos

*Em 2004, uma edição especial lançada para assinalar o 15º aniversário de Batman - Asilo Arkham continha extensas anotações de Grant Morrison, explicando as influências, o simbolismo e as referências culturais da obra. Na última dessas anotações, o autor considera a história um rebuscado pesadelo simbólico fabricado pelo subconsciente do Batman, sugerindo desse modo o caráter apócrifo dos eventos nela narrados;
*No supramencionado volume, Morrison evoca também um episódio pouco edificante. Sem o seu consentimento, o primeiro rascunho da história foi revisto por vários dos seus pares. A apreciação foi unânime: simbolismo pesado, conceito pretensioso e elementos de terror psicológico risíveis. À laia de dedicatória, Morrison escreveu: "Quem é que se está a rir agora, parvalhões?";
*Morrison criticou a escolha de Dave McKean para ilustrar a sua história. Grande admirador do trabalho de Brian Bolland em A Piada Mortal, teria preferido que tivesse sido ele o seu parceiro criativo;
*Batman - Asilo Arkham é amplamente celebrado pelo trabalho de lettering executado por Gaspar Saladino, atribuindo a cada personagem uma fonte personalizada nos seus diálogos. A prática de tratamentos personalizados de letras generalizou-se pouco tempo depois, especialmente na linha Vertigo, da DC;


As letras respingadas a vermelho simbolizam
 o fluxo caótico emanado do Palhaço do Crime.

*Durante a sua preparação para o papel de Joker em O Cavaleiro das Trevas (2008), Heath Ledger recebeu uma cópia de Batman - Asilo Arkham como referência para a sua interpretação. Segundo consta, Ledger terá ficado fascinado com a história, ao ponto de relê-la repetidas vezes;
*O aclamado jogo de vídeo Arkham Asylum (2009) é vagamente baseado na obra de Grant Morrison e Dave McKean. Embora considerada inadaptável pelo seu diretor criativo, a atmosfera do conto foi a principal influência do jogo;
*Na lista das 25 melhores sagas de sempre do Batman divulgada pelo IGN, Batman - Asilo Arkham, surge classificada em 4º lugar, atrás de Piada Mortal, O Regresso do Cavaleiro das Trevas e Ano Um (todas já aqui esmiuçadas).

Vale a pena ler?

Estamos em presença de uma história menos objetiva e muito mais densa do que é apanágio da DC. Em momento algum isso significa, porém, decréscimo de qualidade. Apesar do simbolismo que a permeia, a trama é coerente, abordando uma problemática deveras fascinante: não sendo vitalício, o contrato que nos vincula à racionalidade poderá ser inopinadamente revogado por meio do acionamento da cláusula de insanidade. Mesmo o homem mais sensato poderá, por isso, despencar no negro abismo da sua mente. Bastará que ceda ao peso avassalador da realidade ou à dor de uma tragédia na periferia da vida.
O vulto difuso - quase um borrão em forma de morcego saído de um teste de Rorschach - escolhido pelos autores para representar o Batman é uma metáfora para essa fragilidade da psique humana. Bruce Wayne, Harvey Dent, Amadeus Arkham ou o próprio Joker são pessoas como outras quaisquer. A única coisa que os aparta da "normalidade" é o lado para o qual a sombra de cada um deles aponta. A passagem em que Batman confessa ter medo de entrar no Arkham e sentir-se em casa é fortíssima, e estabelece claramente a ideia de Morrison de manter o protagonista em perpétuo conflito - desta vez, consigo próprio. 
Nem sempre de fácil interpretação, a simbologia de Morrison é um espetáculo à parte. Referências a Jung, Freud, Lewis Carroll e outros autores e conceitos notáveis ajudam a percecionar o Asilo Arkham como um organismo vivo, espécie de monstro arquitetónico que se alimenta do caos e depravação dos seus residentes. Qualquer um que transponha os seus altos portões, incorre numa viagem sem retorno.
Em complemento a tudo isso, a arte de Dave McKean, impressionista e complexa, quase torna palpável o aluvião de delírios nonsense que fomentam a claustrofobia do leitor, arrastado para dentro de um pesadelo sufocante. Dada a importância da estética, esta é uma daquelas histórias que carecem ser lidas a um ritmo mais vagaroso, porquanto só assim se pode apreciar devidamente os quadros surrealistas que preenchem cada página.
A ler de mente aberta, mas não em demasia porque nunca se sabe o que poderá entrar...

Serão Batman e Joker as duas faces da mesma moeda?




*Este blogue tem como Guia de Estilo o Acordo Ortográfico de 1990 aplicado à norma europeia da Língua Portuguesa.
*Prontuários do Joker, Duas-Caras e Espantalho disponíveis para leitura complementar.




















sábado, 27 de março de 2021

RETROSPETIVA: «CAPITÃO AMÉRICA: O SOLDADO DO INVERNO»


  Forças sinistras conspiram nas sombras para erigir uma nova ordem mundial. Com o arsenal da democracia prestes a cair em mãos erradas e sem saber em quem confiar, o Sentinela da Liberdade depara-se com um inimigo tão perigoso quanto perturbadoramente familiar.

Título original: Captain America: The Winter Soldier
Ano: 2014
País: Estados Unidos da América
Duração: 136 minutos
Género: Ação / Espionagem / Super-heróis
Produção: Marvel Studios
Realização: Joe e Anthony Russo
Argumento: Christopher Markus e Stephen McFeely
Distribuição: Walt Disney Studios Motion Pictures
Elenco: Chris Evans (Steve Rogers / Capitão América); Scarlett Johansson ( Natasha Romanoff / Viúva Negra); Sebastian Stan ( Bucky Barnes / Soldado do Inverno); Anthony Mackie ( Sam Wilson / Falcão); Robert Redford (Alexander Pierce); Samuel L. Jackson (Nick Fury); Cobie Smulders (Maria Hill); Emily VanCamp (Sharon Carter / Agente 13); Frank Grillo (Brock Rumlow); Hayley Atwell (Peggy Carter)
Orçamento: 170 milhões de dólares
Receitas globais: 714, 4 milhões de dólares

Anatomia de um épico

Aquele que seria o terceiro capítulo da Fase 2 do Universo Cinemático Marvel (MCU, na sigla inglesa) começou a ganhar forma ainda antes de Capitão América: O Primeiro Vingador chegar às salas de cinema. Logo em abril de 2011 - três meses antes da estreia da primeira longa-metragem do Sentinela da Liberdade com a chancela dos Estúdios Marvel -, foi confirmada a recontratação dos argumentistas Christopher Markus e Stephen McFeely para trabalharem na respetiva sequência. 
Inicialmente, Markus e McFeely consideraram inserir na trama múltiplos flashbacks da II Guerra Mundial, mas acabariam por deixar cair a ideia. Em vez disso, resolveram transitar de género: se o primeiro filme fora, em substância, uma história de guerra, o segundo seria um thriller de espionagem ao melhor estilo de John le Carré. Nesse sentido, clássicos como Os Três Dias do Condor (1975) e O Homem da Maratona (1976) serviram como principais influências temáticas e narrativas da estrutura do roteiro.

Os 3 Dias do Condor foi a principal inspiração
 para o segundo filme do Capitão América.

A intenção de Markus e McFeely era confrontar Steve Rogers, eterno soldado e supremo patriota, com os tiques autoritários de uma agência governamental, enfraquecendo dessa forma a sua lealdade para com ela. Perfil que caía como uma luva à SHIELD, habituada a operar em zonas cinzentas, e com a qual o Capitão América vinha colaborando desde o seu "descongelamento". 
Estabelecida a premissa, a dupla de escribas decidiu adaptar a saga The Winter Soldier (O Soldado do Inverno; O Soldado Invernal, no Brasil). Da autoria de Ed Brubaker, a história, publicada originalmente entre setembro de 2005 e abril de 2006, fora aclamada pelos fãs e definira o tom da franquia moderna do Capitão América. Circunstâncias que a tornavam perfeita para uma transição ao celuloide. 
O processo de adaptação revelou-se, todavia, mais difícil do que o previsto e só ao fim de meio ano Markus e McFeely se consideram aptos a executá-lo. Ed Brubaker, por seu lado, ficou encantado com a perspetiva de ver a sua obra transposta ao grande ecrã. E mais empolgado ficou depois de ler o rascunho do guião que, apesar das muitas liberdades poéticas, captava na perfeição a essência da sua trama.

A saga homónima saída da pena de Ed Brubaker.

Durante esse ínterim, os Estúdios Marvel tinham incluído quatro nomes na sua lista de potenciais diretores do projeto: George Nolfi (Ocean's Twelve), F. Gary Gray (Um Golpe em Itália) e os irmãos Anthony e Joe Russo (Eu, Tu e o Emplastro). Descartados os nomes sonantes da Fase 1, como Jon Favreau (Homem de Ferro) ou Keneth Branagh (Thor), a aposta recaía agora sobre uma nova leva de cineastas.
Depois de Gray ter manifestado a sua indisponibilidade para dirigir o projeto, as opções resumiam-se a Nolfi e aos irmãos Russo, com claro favoritismo do primeiro. Surpreendentemente, a escolha incidiria sobre os segundos. Uma opção que deixou alguns fãs apreensivos, uma vez que o currículo dos Russos incluía várias séries cómicas, como Community (de que o CEO dos Estúdios Marvel, Kevin Feige, era grande admirador), e tinham feito o grosso da sua carreira na televisão. 
Todas as dúvidas e rumores se desvaneceriam quando, na San Diego Comic-Con de 2013, a Marvel revelou o título oficial do segundo filme do Capitão América e confirmou os irmãos Russo como realizadores.

A escolha dos irmãos Russo surpreendeu meio mundo.

Com Cleveland como cenário, a rodagem de Capitão América: O Soldado do Inverno arrancou a 1 de abril de 2013. Depois de ter servido de pano de fundo a algumas das mais memoráveis sequências de Os Vingadores (2012), a hospitaleira cidade do Ohio, a troco de generosas benesses fiscais, voltava a acolher uma grande produção dos Estúdios Marvel. 
Em contraste com a turbulenta produção de Thor: O Mundo Sombrio (2013), as filmagens de Capitão América: O Soldado do Inverno decorreram sem sobressaltos, com o respetivo cronograma a ser cumprido na íntegra. Em razão desse elevado nível de eficiência, os irmãos Russo viram ser-lhes confiado não só o capítulo final da trilogia do Sentinela da Liberdade, mas também aquele que foi, até à data, o projeto mais ambicioso do MCU: Vingadores: Ultimato (2018) e Vingadores: Guerra Infinita (2019).
Sob uma revoada de críticas positivas, Capitão América: O Soldado do Inverno fez a sua estreia mundial a 4 de abril de 2014, no mítico El Capitan Theatre de Los Angeles. Duplicando as receitas globais do seu antecessor, seria o sétimo filme mais rentável desse ano e um dos melhores de sempre dentro do  seu género.

Enredo

Dois anos volvidos sobre a épica Batalha de Nova Iorque (eventos narrados no filme Os Vingadores), Steve Rogers vive agora em Washington D.C. e trabalha para a agência de contraespionagem SHIELD enquanto prossegue a sua difícil adaptação ao mundo moderno.
Integrados na equipa STRIKE sob o comando de Brock Rumlow, o Capitão América e a Viúva Negra participam numa operação de resgate em alto-mar. A tripulação de um navio da SHIELD foi sequestrada por piratas liderados pelo mercenário francês Georges Batroc. Durante a intervenção a bordo com vista à libertação dos reféns, o Sentinela da Liberdade descobre que a sua parceira tem uma missão paralela: extrair dados do computador da embarcação, por ordem de Nick Fury.
De regresso ao Triskelion, o quartel-general da SHIELD, o Capitão América confronta Fury, sendo informado por este acerca do projeto Insight: três porta-aviões aéreos em rede com satélites-espiões, projetados para identificar e eliminar preventivamente ameaças à segurança nacional. Repugnado pelo viés fascizante da ideia, o Sentinela da Liberdade expressa a sua veemente discordância relativamente ao que está em preparação. 
Mais tarde, ao falhar em desencriptar os ficheiros obtidos pela Viúva Negra, o próprio Fury começa a ter suspeitas e pede ao Secretário da Segurança Interna, Alexander Pierce, para atrasar o projeto Insight. Pierce compromete-se então a analisar o pedido do diretor da SHIELD.

Alexander Pierce, o todo-poderoso Secretário da Segurança Interna.

Porém, a caminho de um encontro com a agente Maria Hill, Fury é emboscado em plena rua por um grupo fortemente armado e liderado por um misterioso indivíduo com um braço metálico. Apesar de ferido, Fury consegue escapar ao ataque e procura refúgio no apartamento de Steve Rogers.
Fury alerta Rogers para o facto de a SHIELD estar comprometida ao mais alto nível, momentos antes de ser baleado pelo homem com o braço de metal. Antes de desfalecer, Fury entrega a Rogers uma pen drive, instando-o a não confiar em ninguém.
Rogers parte no encalço do atirador, mas este desaparece na noite sem deixar rasto. Horas depois, Fury é dado como morto durante uma cirurgia no hospital e a agente Hill reclama o corpo.
No dia seguinte, o Capitão América é convocado ao Triskelion por Alexander Pierce. Perante a recusa do Sentinela da Liberdade em revelar a informação que lhe foi repassada por Fury, Pierce considera-o um renegado e dá ordens à SHIELD para capturá-lo.
Após uma breve escaramuça com Rumlow e os seus homens, o Capitão América consegue escapar do Triskelion e vai ao encontro da Viúva Negra. Esta revela-lhe que o assassino de Fury é uma figura lendária nos meandros da espionagem internacional; um "fantasma" treinado pelos soviéticos e responsável por dezenas de assassinatos nos últimos 50 anos a quem chamam Soldado do Inverno.


O misterioso e mortífero Soldado do Inverno.

Incapazes de decifrarem os dados da pen drive, o Capitão América e a Viúva Negra descobrem, contudo, a origem dos mesmos: a antiga base militar em Nova Jérsia onde Rogers foi treinado após receber o Soro do Supersoldado.
No interior de um bunker secreto instalado no perímetro da base, a Viúva Negra consegue ativar um supercomputador que contém a consciência preservada de Arnim Zola, um dos mais brilhantes cientistas do III Reich. É através dele que os dois heróis ficam a saber que a HIDRA está incrustada na espinha dorsal  da SHIELD desde a sua fundação, no final da II Guerra Mundial. 
Semeando o caos global, a HIDRA espera pacientemente que a Humanidade troque a sua liberdade por segurança. Zola explica ainda que a pen drive armazena um algoritmo criado por ele, mas não tem tempo de explicar o seu propósito, uma vez que o bunker é atingido por um míssil da SHIELD.
Escapando por milagre ao ataque, o Capitão América e a Viúva Negra são atingidos pela dolorosa evidência de que o líder da HIDRA não é outro senão Alexander Pierce.
Depois de garantirem a ajuda de Sam Wilson, um ex-militar paraquedista com quem Rogers contraíra estreita amizade, o Capitão América e a Viúva Negra interrogam um agente infiltrado da HIDRA. Jasper Sitwell revela-lhes o real propósito do algoritmo desenvolvido por Zola: identificar indivíduos que possam representar ameaça para os planos da HIDRA, sendo a função dos porta-aviões aéreos da SHIELD eliminar esses alvos. 
Longe dali, Pierce convoca o Soldado do Inverno e ordena-lhe que mate o Capitão América e a Viúva Negra.
A caminho do Triskelion, o Capitão América e os seus aliados são atacados pelo Soldado do Inverno, que trata de matar Sitwell em primeiro lugar. Na contenda que se segue, a máscara do vilão cai e o Sentinela da Liberdade, mortificado, reconhece Bucky Barnes, o seu melhor amigo dado como morto desde os últimos dias da II Guerra Mundial. O reconhecimento, porém, não é mútuo e o Soldado do Inverno investe ferozmente sobre o seu adversário.

Um herói que só pode confiar em si mesmo.

O grupo liderado pelo Capitão América acaba capturado pela SHIELD, mas é libertado pouco depois pela agente Hill. Que, em seguida, os leva à presença de Nick Fury. O ex-diretor da SHIELD encenara a própria morte para poder prosseguir sem interferências a sua investigação ao projeto Insight. Sem delongas, apresenta o seu plano para neutralizá-lo: sabotar os porta-aviões aéreos substituindo os respetivos chips de controlo.
Após a chegada dos membros do Conselho de Segurança Mundial ao Triskelion para acompanharem in loco o lançamento dos porta-aviões aéreos, o Capitão América invade o edifício e revela a todos os agentes fiéis à SHIELD que a organização é controlada pela HIDRA.
Disfarçada como uma das conselheiras, a Viúva Negra captura Pierce, que é forçado por Fury a desbloquear o acesso ao banco de dados da SHIELD. Enquanto isso, o Capitão América e o Falcão conseguem sabotar dois dos porta-aviões aéreos, mas ao chegarem ao terceiro são atacados pelo Soldado do Inverno. Com o Falcão fora de combate, o Sentinela da Liberdade luta com Bucky mas recusa-se a matá-lo. Em nome da velha amizade que em tempos os uniu, tenta, em vão, fazê-lo lembrar-se de quem é. 
O Capitão América consegue substituir o último chip, transferindo desse modo o controlo remoto das aeronaves para a agente Hill. Esta faz com que elas disparem umas contra as outras, destruindo-se mutuamente.

O último dos porta-aviões aéreos da SHIELD despenca com um gigantesco pássaro ferido.

Em meio às explosões, Bucky reconhece vagamente algo que lhe é dito pelo Capitão América. Quando este é derrubado da aeronave e cai inconsciente no rio Potomac, é resgatado pelo vilão, que o arrasta para a margem antes de desaparecer como um fantasma.
Com a SHIELD em tumulto, a Viúva Negra participa numa subcomissão do Senado organizada para discutir o futuro da organização. Algures na Europa, Fury, ainda oficialmente morto, procura descobrir a localização das restantes bases secretas da HIDRA. Também Steve Rogers e Sam Wilson seguem o rasto do Soldado do Inverno, usando algumas informações fornecidas pela Viúva Negra.
Numa primeira cena de epílogo, o barão von Strucker proclama que os esforços da HIDRA para impor uma nova ordem mundial irão prosseguir. Strucker observa, em seguida, o Cetro de Loki e dois estranhos prisioneiros: um com velocidade sobre-humana, outra com poderes telecinéticos (os gémeos Mercúrio e Feiticeira Escarlate, respetivamente). Na segunda cena pós-créditos, Bucky Barnes visita o Museu Nacional de História Natural, onde observa um memorial em sua homenagem, reconhecendo finalmente a sua verdadeira identidade.

Trailer


Prémios e nomeações

De um total de meia centena de indicações para galardões sortidos da 7ª Arte - incluindo o Óscar para Melhores Efeitos Visuais - , Capitão América: O Soldado do Inverno saiu vencedor em apenas duas ocasiões. Ao Golden Trailer Award na categoria de Melhor Spot Televisivo acrescentou um prémio especial atribuído anualmente pelos críticos cinematográficos de Washington D.C. à película que melhor representa a capital federal dos EUA.
A título individual, Chris Evans arrecadou o People´s Choice Award para Melhor Ator de Ação. Apesar da parada de estrelas que compunha o elenco, Evans foi o único dos seus representantes a ter a sua atuação premiada.
Na lista dos cem melhores filmes de super-heróis divulgada em 2019 pela Paste - publicação independente especializada em música e entretenimento  - , Capitão América: O Soldado do Inverno surge em 7º lugar, sendo o quarto filme da Marvel mais bem cotado no ranking.


Curiosidades

*Comummente associado à Guerra Fria e ao período passado por Bucky Barnes em animação suspensa com recurso à criogenia, o epíteto Soldado do Inverno remete, de facto, para uma citação de Thomas Paine (1737-1809), um dos Pais Fundadores dos EUA: "Estes são os tempos que põem à prova as almas dos homens. O soldado estival e o patriota ensolarado irão, nesta crise, encolher-se ao serviço do seu país. Mas o soldado do inverno que se apresta a servi-lo, esse é merecedor da gratidão do povo em nome de quem luta.". Do ponto de vista simbólico, o verdadeiro Soldado do Inverno é, pois, o Capitão América, e não Bucky Barnes;
*Organização terrorista internacional de extração fascista, a HIDRA, numa alusão à Hidra de Lerna da mitologia clássica, tem como divisa "Se uma cabeça for cortada, duas nascerão no seu lugar.". Fundada pelo Caveira Vermelha ainda durante a II Guerra Mundial, a HIDRA começou por ser uma excrescência do III Reich - espécie de Estado paralelo fora do controlo do Führer - que sobreviveu à capitulação deste. Sob a liderança do barão Wolfang von Strucker, no pós-guerra a HIDRA converteu-se num sindicato do crime de feição neonazi e deu prossecução às suas atividades subversivas. Nos comics, os seus agentes envergam tradicionalmente uniformes verdes adornados com o símbolo da serpente e praticam a saudação "Hail HIDRA!" de braço direito estendido. Foi em Tales of Suspense #135 (agosto de 1965) que esta sinistra organização fez a sua primeira aparição, numa história assinada por Stan Lee e Jack Kirby. Embora tenha na SHIELD a sua arquirrival, a HIDRA já teve os seus planos de dominação mundial gorados por uma extensa lista de justiceiros fantasiados encabeçada pelo Capitão América;


O barão von Strucker refundou a HIDRA no pós-guerra.

*Sebastian Stan só percebeu a importância do papel que lhe caberia representar quando o título do segundo filme do Capitão América foi formalmente anunciado na San Diego Comic-Con de 2013. A sua  preparação para dar corpo ao Soldado do Inverno incluiu cinco meses de intenso treino físico e pesquisa exaustiva de temas relacionados com a Guerra Fria e lavagem cerebral. Stan aproveitava também as pausas entre filmagens para praticar os seus movimentos de combate com uma faca de plástico;
*Através da sua participação em Capitão América: O Soldado do Inverno, Anthony Mackie cumpriu o sonho de interpretar uma personagem da Casa das Ideias. Nos anos que antecederam o seu escalonamento para o papel de Falcão, o ator entupiu a caixa de correio eletrónico dos Estúdios Marvel com dezenas de emails em que se oferecia para os mais variados papéis. As suas mensagens captaram a atenção de Kevin Feige, o presidente executivo dos Estúdios Marvel, que, por fim, lhe fez a vontade. Mackie ficou no entanto desapontado com o figurino hi-tech da sua personagem, visto que preferia o uniforme de licra vermelha usado pelo Falcão nos quadradinhos. Em resposta às tensões raciais que ciclicamente irrompem na sociedade estadunidense, na viragem da década de 60 o Falcão foi emparelhado com o Capitão América, com quem passaria a dividir a respetiva série mensal. Foi também o primeiro super-herói afro-americano do Universo Marvel;

Na BD, o Falcão foi o parceiro mais duradouro do Capitão América.

*Robert Redford aceitou interpretar Alexander Pierce a pedido dos netos, fãs incondicionais do MCU. A escolha do veterano ator representou, em certa medida, uma homenagem ao seu papel em Os Três Dias do Condor (1975), o thriller de espionagem que mais influenciou a trama de Capitão América: O Soldado do Inverno. Redford ansiava, ademais, pela oportunidade de vestir a pele de um vilão, algo que raramente aconteceu ao longo da sua vetusta e oscarizada carreira;
*Amigos de infância inseparáveis na vida real, Chris Evans e Scarlett Johansson escreveram juntos os próprios diálogos para algumas das partes do filme em que contracenavam. Partiu também de Johansson a ideia de usar em várias cenas um colar com um pendente em forma de flecha. Além da óbvia referência ao Gavião Arqueiro - seu colega nos Vingadores, cuja participação na película chegou a ser equacionada - a joia sugeria um hipotético relacionamento amoroso entre ambos, idêntico ao que em tempos as duas personagens viveram na banda desenhada;
*A cena em que o Capitão América salta de um avião militar a grande altitude sem se preocupar em usar um paraquedas referencia uma cena idêntica do número inaugural de The Ultimates (Os Supremos, versão moderna dos Vingadores). Já o uniforme em tons mais escuros usado pelo herói na primeira metade do filme foi decalcado do modelo por ele utilizado durante a fase em que, nos comics, foi diretor interino da SHIELD;
*Velho inimigo do Capitão América, Batroc, o Saltador - um mercenário francês mestre em  savate -  foi interpretado por Georges St-Pierre, ex-campeão mundial de artes marciais mistas nascido na província canadiana do Québec;

Batroc, o Saltador em ação.

*As filmagens em Washington D.C. tiveram como pano de fundo alguns dos monumentos nacionais mais importantes dos EUA, com destaque para o Memorial Abraham Lincoln, o Capitólio e a Ponte Theodore Roosevelt. Esta última foi encerrada pela primeira vez na sua história para acolher a gravação de um filme;
*Elizabeth Olsen foi uma das atrizes cogitadas para interpretar Sharon Carter, antigo interesse amoroso do Capitão América nos quadradinhos. Apesar de o papel ter sido atribuído a Emily VanCamp, Olsen surgiu numa das cenas de epílogo como Wanda Maximoff, a Feiticeira Escarlate;
*Além do inevitável Stan Lee, também Ed Brubaker, autor da saga homónima em que o filme foi baseado, fez um pequeno cameo: era ele um dos cientistas que testemunharam a apresentação do Soldado do Inverno num bunker secreto;
*Antes do lançamento do filme, havia algumas dúvidas acerca do apelo que ele teria fora dos Estados Unidos, atendendo à circunstância de ter como protagonista um símbolo do patriotismo yankee. No entanto, Capitão América: O Soldado do Inverno obteve enorme êxito além-fronteiras. Surpreendentemente, foi na China que teve melhor acolhimento. Ao que parece, as aventuras de um super-herói disposto a desafiar o seu Governo quando o considera moralmente necessário mostraram-se particularmente atrativas para os cidadãos de uma nação com um regime autoritário;

O Sentinela da Liberdade é idolatrado mesmo pelos rivais dos EUA.


Veredito: 86%

À terceira foi de vez. Após duas partidas em falso (Thor: O Mundo Sombrio e, sobretudo, Homem de Ferro 3), a Fase 2 do MCU acertou o passo com Capitão América: O Soldado do Inverno. Os fãs puderam respirar de alívio com um filme que, além de épico, abriu caminho para o futuro. 
Apesar do título sugerir o contrário, Capitão América: O Soldado do Inverno não adapta apenas uma das melhores sagas do Sentinela da Liberdade; transpõe toda a respetiva ambientação e estilo narrativo. O próprio Soldado do Inverno, visualmente fiel aos quadradinhos, não é a personagem charneira da trama, antes uma peça importante de uma engrenagem muito maior. 
Sólida e cativante, a trama de Capitão América: O Soldado do Inverno faz inveja a muitos filmes de espionagem. Sem grandes falhas a nível de argumento e com uma toada empolgante - alternando entre sequências frenéticas e momentos mais calmos - a película é um autêntico festival de ação. O que não impediu o bom tratamento concedido a novas personagens, especificamente a Alexander Pierce e ao Falcão. Mesmo sem funcionar como um alívio cómico, este último proporciona alguns dos momentos mais divertidos da história. 
Com efeito, o humor típico da saga volta a destacar-se sem, contudo, cair nos exageros de capítulos anteriores. Do mesmo modo que o bromance entre Steve Rogers e Sam Wilson não resvala para um perturbante homoerotismo. 
No que respeita aos aspetos visuais, a película merece também rasgados elogios. Aos soberbos efeitos especiais - pedra de toque do MCU - acrescem vibrantes cenas de ação e lutas corpo a corpo muito bem coreografadas. O duelo inicial entre o Capitão América e Batroc é sensacional, perdendo apenas na comparação  com as cenas de luta envolvendo o Soldado do Inverno.
Lamentavelmente, esse nível elevado acaba por sair beliscado por aquele que é um dos pontos fracos do filme: a sequência final a bordo dos porta-aviões aéreos da SHIELD. Após tanta criatividade e emoção, custa a engolir a solução genérica de apertar um botão para neutralizar a ameaça. Ficando também a sensação de que o Soldado do Inverno poderia - e deveria - ter tido um papel mais grandioso no clímax.
De resto, a história está pejada de easter-eggs: de menções a personagens novas a locais icónicos do Universo Marvel, são muitas as pequenas preciosidades a fazerem as delícias dos verdadeiros fãs da Casa das Ideias. 
Motivos de sobra para considerar Capitão América: O Soldado do Inverno, ex aequo com Os Vingadores, o melhor filme do MCU. Que me perdoem os fãs da Saga do Infinito, mas prefiro boas tramas a produções megalómanas.

O verdadeiro Soldado do Inverno é aquele
 que não se submete à tirania nem perde a esperança
em tempos sombrios.


*Este blogue tem como Guia de Estilo o Acordo Ortográfico de 1990 aplicado à norma europeia da Língua Portuguesa.
*Artigos sobre a Viúva Negra e o filme dos Vingadores disponíveis para leitura complementar.















quinta-feira, 4 de março de 2021

GALERIA DE VILÕES: DENTES-DE-SABRE


  Matar faz parte da natureza de qualquer predador, mas apenas a besta-fera mutante o faz por diversão. A sua desvairada sede de sangue não poupa sequer a própria espécie e, por isso, tem Wolverine como presa favorita.

Denominação original: Sabretooth
Editora: Marvel Comics
Criadores: Chris Claremont (história) & John Byrne (arte conceptual) 
Estreia: Iron Fist #14 (agosto de 1977)
Identidade civil: Victor Creed
Espécie: Homo Superior
Local de nascimento: Edmonton, na província canadiana de Alberta.
Parentes conhecidos: Victoria e Zebadiah Creed (pais, falecidos); Luther e Saul Creed (irmãos, falecidos); Clara Creed (irmã); Graydon Creed (filho)
Ocupação: Ex-soldado e ex-mercenário, ganha por estes dias a vida como assassino profissional a soldo de organizações criminosas como a Yakuza ou o Tentáculo.
Base operacional: Sempre no encalço de novas presas e ele próprio com a cabeça a prémio, raramente permanece mais do que um par de semanas no mesmo local. 
Afiliações: Ex-operacional do Programa Arma X; ex-líder da Equipa X; ex-parceiro do Constritor; ex-membro dos Carrascos, do Tentáculo e da Irmandade de Mutantes. Apesar de preferir operar a solo, Dentes-de-Sabre possui uma faceta gregária. As suas alianças são no entanto sempre precárias. A sua torpeza moral fará com que, à primeira oportunidade, traia e/ou mate os seus companheiros de equipa.
Némesis: Wolverine
Poderes e parafernália: Dentes-de-Sabre é um mutante cuja habilidade primária consiste, tal como Wolverine, num fator de cura acelerado que lhe permite regenerar tecidos destruídos e ossos fraturados em questão de minutos. Esse poder inato concede-lhe, ademais, imunidade a um amplo espectro de doenças, venenos e toxinas, retardando, ainda, drasticamente o seu processo natural de envelhecimento. Embora a data precisa do nascimento de Victor Creed seja uma incógnita, estima-se que terá vindo ao mundo cerca de 200 anos atrás.
Em função da equipa criativa, a extensão dos poderes de Victor Creed oscilou ao longo dos anos. O seu fator de cura, por exemplo, só seria introduzido no âmbito de um retcon que o transformou no inimigo figadal de Wolverine. Tanto assim que, nas suas aparições inicias em Iron Fist, Dentes-de-Sabre era um vilão mediano, facilmente derrotado pelo Punho de Ferro num mano a mano. 
Imitando o animal pré-histórico de quem tomou emprestado o nome, Dentes-de-Sabre possui sentidos aguçados que lhe permitem, entre outras coisas, rastrear pessoas através do respetivo odor corporal, mesmo que este se tenha deteriorado ou sido mascarado por outros cheiros. Esse é, de resto, um dos talentos mais apreciados pelos seus empregadores.

Dentes-de-Sabre nunca perde o rastro da presa.

Dependendo do nível de ruído ambiente, Dentes-de-Sabre consegue ouvir qualquer coisa num raio de cinco quilómetros. É também um excelente caçador noturno, graças à sua capacidade de enxergar no escuro. Diz-se até que os seus olhos conseguem detetar porções infravermelhas e ultravioletas do espectro luminoso impercetíveis ao olho humano.
Dono de um físico imponente, Dentes-de-Sabre teve a sua força artificialmente aumentada em diversas ocasiões. Apesar do limite superior da mesma nunca ter sido aferido, sabe-se que o vilão é capaz de dobrar barras de ferro com as próprias mãos e levantar perto de meia tonelada.
Em complemento a estes aprimoramentos físicos, o fator de cura de Dentes-de-Sabre dota-o de vigor e resistência sobre-humanos, inibindo o acúmulo de ácido lático nos seus músculos. Mesmo em esforço contínuo, serão precisos vários dias até que ele sinta fadiga.
Tanto as garras retráteis nas mãos e pés de Dentes-de-Sabre como os seus caninos salientes são feitos de uma substância mais densa do que os ossos humanos, a qual lhe permite estraçalhar facilmente a carne dos seus oponentes. Depois de revestido com adamantium, o esqueleto do vilão tornou-se virtualmente inquebrável. Como se perceberá na secção seguinte, não sendo imortal, Dentes-de-Sabre é duro de matar.
A agilidade e reflexos felinos de Dentes-de-Sabre fazem dele um exímio caçador furtivo. Raramente as suas presas se apercebem da sua presença até ser tarde demais. E mais raramente ainda sobrevivem ao ataque. 
Guiado pela sua mente predatória, o Mutante Selvagem não faz distinção entre humanos e Homo Superior. Uns e outros não passam de carniça para aplacar a sua fome leonina de violência e morte. No entanto, quanto mais exigente for a caçada, maior será o prazer que Dentes-de-Sabre retirará dela.
Quando tomado pela sua fúria animalesca - algo que sucede com perturbadora frequência - Dentes-de-Sabre torna-se imune à dor e aumenta a sua resistência ao controlo mental. Apesar dessa sua ferocidade intrínseca, Victor Creed evidencia elevada inteligência a nível tático e estratégico. Patente, por exemplo, na sua habilidade para evitar a captura e para escapar, sem qualquer tipo de assistência, de estabelecimentos prisionais de segurança máxima. 
Em resultado do treino recebido na Equipa X, Dentes-de-Sabre é extremamente competente no combate armado e desarmado, revelando proficiência no manejo de armamento diversificado. É também fluente em Alemão e Espanhol.
Em suma, pelo seu sadismo e crueldade, Dentes-de-Sabre representa sempre um festival de sofrimento para os seus oponentes. Mesmo o mais endurecido dos guerreiros sente o toque gelado do medo perante as suas erupções de violência irracional. Que o diga Wolverine, que nunca saiu vitorioso de um duelo com o seu sanguinolento arquirrival.

Brinde a um velho inimigo.

Fraquezas: Devido às semelhanças entre os poderes de ambos, Dentes-de-Sabre e Wolverine possuem algumas fragilidades em comum. Desde logo, a vulnerabilidade à Lâmina Muramasa. Também conhecida como Catana Amaldiçoada, trata-se de uma espada mística forjada, segundo reza a lenda, a partir de um fragmento da alma do ferreiro japonês do século XV que lhe deu nome. A Muramasa ceifa a vida de todos aqueles que corta, aprisionando as almas das suas vítimas na sua lâmina encantada. Mesmo fatores de cura ultraeficientes como os de Dentes-de-Sabre e Wolverine podem ser anulado por ela.
Também a exposição ao carbonadium pode comprometer seriamente o fator de cura de Dentes-de-Sabre. Se uma bala comum dificilmente arrancará mais do que um rosnado de dor à besta-fera mutante, um projétil revestido por esse material radioativo de fabrico soviético poderá provocar-lhe ferimentos graves, que demorarão muito mais tempo a sarar do que o habitual.
Não obstante, existem apenas dois métodos comprovadamente capazes de matar Dentes-de-Sabre: afogamento e decapitação / dano espinhal severo. Na primeira opção, os mais de 45 Kg de adamantium implantados no corpo do Mutante Selvagem reduzem a sua flutuabilidade. A imersão em água ou em qualquer outro líquido privará de oxigénio o seu cérebro, desabilitando dessa forma o seu fator de cura. Idêntico princípio decorre da segunda opção: o seccionamento da cabeça de Dentes-de-Sabre impedirá a sua mente de enviar sinais aos órgãos vitais, que assim entrarão em falência.

Wolverine recebe a Lâmina Muramasa das mãos do seu criador. 


Instinto assassino

À primeira vista, Dentes-Sabre pode parecer apenas uma versão perversa (e ainda mais sanguinária) de Wolverine. Estreitando, porém, o zoom, descobre-se uma personagem complexa com alguns apontamentos surpreendentes. Desde logo o facto de nem sempre ter sido mutante ou ter tido qualquer ligação aos X-Men.
De facto, quando em agosto de 1977, Dentes-de-Sabre fez a sua estreia em Iron Fist #14, não possuía fator de cura nem foi feita qualquer referência à sua condição de Homo Superior. Chris Claremont e John Byrne tinham-no concebido como antagonista recorrente do Punho de Ferro, com quem foi à liça repetidas vezes antes de cruzar o caminho dos pupilos do Professor X.

A sangrenta estreia de Dentes-de-Sabre em Iron Fist #14 (1977).

Em aparições subsequentes, Dentes-de-Sabre foi emparelhado com o Constritor, passando a dupla a enfrentar vigilantes urbanos como os Heróis de Aluguer. Sem que (quase) nada fosse revelado acerca do seu passado, Dentes-de-Sabre parecia predestinado a ser apenas outro vilão genérico. Mas Chris Claremont tinha outros planos para ele e aprestou-se a desvelar-lhe a origem, com muitos paralelismo com a de Wolverine.
Acredita-se que Victor Creed, o homem que o mundo aprendeu a temer como Dentes-de-Sabre, terá nascido nas primeiras décadas do século XIX, numa cidadezinha esquecida na província canadiana de Alberta. No entanto, as suas memórias foram adulteradas por organizações clandestinas como a Arma X, pelo que se afigura difícil saber quais são reais e quais aquelas que foram implantadas na sua mente.
De todo o modo, a memória mais antiga de Victor remonta ao dia em que, ainda criança, assassinou o seu irmão por causa de uma fatia de bolo. Especula-se que esse trágico incidente poderá ter coincidido com a primeira manifestação dos seus poderes mutantes. Outros relatos apontam para que isso tenha acontecido anos antes, quando o pequeno Victor terá matado o médico que, a pedido dos pais, o examinava.

O irmão de Victor Creed foi a primeira vitima da sua selvajaria.

Acorrentado pelo pai numa cave, Victor viveu os anos seguintes como um animal enjaulado. Até ao dia em que mordeu a própria mão para escapar. Apesar de ter matado o pai que o torturara, poupou a vida à mãe que fora surda às suas súplicas.
Finalmente livre do seu longo cativeiro, Victor, qual besta-fera sedenta de sangue e vingança, deu rédea solta ao seu instinto assassino. Aos 13 anos já assolara três províncias canadianas e matara outros tantos agentes da Lei. 
Mais tarde, em 1912, Victor atacou Blackfoot, uma pequena comunidade onde coabitavam brancos e indígenas. E que, por aqueles dias, dava guarida a um homem solitário e sem passado chamado Logan. Do ataque resultou a (aparente) morte de Raposa Prateada, a amante índia de Logan. Foi, pois, com o sangue de uma inocente que começou a ser escrita a história de uma das mais velhas e cruéis inimizadas dos quadradinhos. 
Após várias décadas em paradeiro incerto, Victor Creed, agora cognominado Dentes-de-Sabre, ressurgiu em plena Guerra do Vietname no comando da Equipa X, grupo especializado em operações clandestinas com o patrocínio da CIA. Durante esse período, Victor e Logan combateram lado a lado. Mas nem o facto de serem irmãos de armas amenizou o ódio mútuo. Ao contrário do rival, Victor não fazia o menor esforço para reprimir a sua selvajaria e deliciava-se com a matança de aldeões.
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Victor Creed reencontrou Logan na Equipa X.

Anos mais tarde, durante uma missão na Alemanha, Dentes-de-Sabre foi designado para proteger Leni Zauber, uma sedutora espia germânica. O casal tornou-se íntimo e Zauber (na verdade, Mística sob disfarce) acabaria por dar à luz um filho em segredo. Em adulto, Graydon Creed fundaria os Amigos da Humanidade em vésperas de se candidatar à Casa Branca estribado numa agenda antimutante. Graydon nunca perdoou o abandono a que foi votado pelos pais mutantes - embora, em abono da verdade, Victor ignorasse a sua existência. 
Cooptado para a Arma X, um programa militar ultrassecreto do Governo canadiano objetivando a criação de supersoldados, Dentes-de-Sabre foi submetido a uma lavagem cerebral e teve falsas memórias implantadas. Reencontrou, uma vez mais, Logan (vulgo Wolverine) e, tal como ele, teve o seu esqueleto revestido com adamantium. Se um e outro já eram perigosos antes dessa transformação, depois dela converteram-se em máquinas de matar virtualmente indestrutíveis. 
Primeiro sozinho, depois em parceria com o Constritor, Dentes-de-Sabre passaria entretanto a operar como um assassino de aluguer muito requisitado no submundo do crime. Tal como Wolverine, ele era o melhor naquilo que fazia. Mas o que fazia não era bonito de se ver.
Logo após a dissolução da sua sociedade com o Constritor (e de o ter deixado às portas da morte), Dentes-de-Sabre foi recrutado por Gambit para integrar os Carrascos. Às ordens do Senhor Sinistro, o grupo massacrou os Morlocks, a comunidade de párias mutantes instalada nos túneis subterrâneos de Nova Iorque. Dentes-de-Sabre e Wolverine voltaram a então a digladiar-se, tendo sido essa a primeira ocasião em que o vilão se assumiu como mutante.
Fiel à sua natureza selvagem, Dentes-de-Sabre reconhece apenas a lei do mais forte e continua a ter em Wolverine a sua presa favorita. Todos os anos, no dia de aniversário de Logan, Dentes-de-Sabre acossa o seu rival e tenta matá-lo. Numa versão mais brutal do jogo do gato e do rato, em que apenas o primeiro se diverte.
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Sangue na neve.


Miscelânea

*Esquartejador, El Tigre, Deus da Caça, Mutante Selvagem, Senhor dos Assassinos do Hemisfério Oriental e Carniceiro de Daimsho são as macabras alcunhas associadas a Dentes-de-Sabre. Com centenas de mortes no currículo, faz jus a cada uma delas e a sua sangrenta reputação precede-o;
*Dentes-de-sabre é a designação genérica atribuída aos grandes felídeos pré-históricos que, cerca de 700 mil anos atrás, percorriam os vastos territórios correspondentes à América do Norte e do Sul. Caçadores eficientes, dispunham de membros anteriores excecionalmente desenvolvidos e longos caninos concebidas para abaterem animais de porte superior ao seu, como bisontes, cavalos ou até mamutes. O mais conhecido era o esmilodonte, extinto há, aproximadamente, 10 mil anos;
*Antes de deixar a série mensal dos X-Men, John Byrne tinha várias histórias prontas. Uma delas mostraria como Dentes-de-Sabre (que, até então, tinha aparecido apenas em Iron Fist), depois de assassinar Mariko, a amada de Wolverine, acabava morto às mãos deste. Não sem antes revelar que era o pai de Logan. Esta revelação iria ao encontro da velha pretensão de Chris Claremont de atribuir a paternidade de Wolverine ao seu arquirrival, ligação familiar que outros escritores dos Filhos do Átomo descartaram;
*Apesar de, ao longo da vida, Victor Creed pouco ou nada ter feito para contrariar o seu instinto assassino, por vezes o seu lado animalesco oprime-o. Para o manter controlado, coagiu em tempos uma telepata chamada Colibri a ministrar-lhe regularmente um sedativo psíquico a que ele chamava "Brilho". Após a morte de Colibri, os sintomas de abstinência exacerbaram ainda mais a ferocidade de Dentes-de-Sabre, levando-o a procurar ajuda junto dos X-Men. Acabaria no entanto lobotomizado pelo Professor X e, durante algum tempo, colocou os seus extraordinários talentos de rastreador ao serviço do grupo;

Colibri era um bálsamo para alma atormentada de Victor Creed.

*Quando, a fim de garantir a subserviência dos Carrascos, o Senhor Sinistro clonou os seus membros aos pares, Maré Selvagem (Riptide, no original) foi o parceiro genético de Dentes-de-Sabre. Por razões nunca explanadas, o Senhor Sinistro lamentaria mais tarde a impossibilidade de voltar a clonar Dentes-de-Sabre;
*Dentes-de-Sabre serviu de inspiração a um vilão da DC chamado Coiote. Trata-se de um dos integrantes dos Extremistas, grupo de terroristas meta-humanos que, em diversas ocasiões, mediram forças com a Liga da Justiça;

Coiote (DC) versus Dentes-de-Sabre. 
Descubram as diferenças.

*Dentes-de-Sabre fez a sua primeira aparição no Brasil em Mestre do Kung Fu nº30 (Bloch, 1978). Três anos mais tarde, em 1981, já sob o selo da Abril, a sua origem seria revisitada em Heróis da TV nº21. Nessa e noutras histórias subsequentes publicadas pela mesma editora, o vilão surgiu identificado como Dente-de-Sabre, numa tradução literal da sua nomenclatura original (em inglês, "tooth" é o singular de "teeth");
*Desde 2009 que Dentes-de-Sabre ocupa, resvés com Pistoleiro e Arlequina (ambos da DC), o 44º lugar na lista dos cem maiores vilões de todos os tempos elaborada pelo site de entretenimento IGN. No ano anterior, a revista Wizard atribuíra-lhe a 193ª posição no seu ranking das 200 melhores personagens dos quadradinhos;
*Presença assídua em várias séries animadas e jogos de vídeo dos Filhos do Átomo, no cinema Dentes-de-Sabre foi interpretado pelo ex-wrestler Tyler Mane em X-Men (2000) e por Liev Schreiber em X-Men Origins: Wolverine (2009), sendo retratado neste último como meio-irmão de Logan.

Liev Schreiber (esq.) e Tyler Mane encarnaram Dentes-de-Sabre no cinema.



*Este blogue tem como Guia de Estilo o Acordo Ortográfico de 1990 aplicado à variante europeia da Língua Portuguesa.
*Artigos sobre Chris Claremont, John Byrne, Mística, Senhor Sinistro e Massacre de Mutantes disponíveis para leitura complementar.