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05 fevereiro 2024

RETROSPETIVA: «MULHER-MARAVILHA»



  Para acabar com a mãe de todas as guerras instigada por Ares, a princesa guerreira das Amazonas troca o seu paraíso secreto pelo caótico Mundo dos Homens. Ao mesmo tempo que ilumina corações e mentes com o esplendor da Verdade, Diana terá de dissipar as sombras que ocultam o seu destino.

Título original: Wonder Woman
Ano: 2017
País: Estados Unidos da América
Duração: 141 minutos
Género: Drama / Ação / Fantasia / Super-heróis
Produção: Warner Bros. Pictures, DC Films e Atlas Entertainment
Realização: Patty Jenkins
Argumento: Allan Heinberg, Jason Fuchs e Zack Snyder
Distribuição: Warner Bros. Pictures
Elenco: Gal Gadot (Diana Prince / Mulher-Maravilha); Chris Pine (Steve Trevor); Robin Wright (Antíope); Danny Huston (General Erich Ludendorff); David Thewlis ( Patrick Morgan / Ares); Connie Nielsen (Rainha Hipólita); Elena Anaya (Doutora Isabel Maru); Lucy Davis (Etta Candy);Ewen Bremner (Charlie); Eugene Brave Rock (Chefe); Saïd Taghmaoui (Sameer)
Orçamento: 149 milhões de dólares
Receitas globais: 824 milhões de dólares

Anatomia de um épico pós-feminista

Malgrado a sua magna importância na mitologia da DC, a Mulher-Maravilha foi a última integrante da Trindade a transitar para o celuloide. Enquanto Batman e Super-Homem acumulavam décadas de acertos e fracassos no segmento audiovisual, a Princesa Amazona só ganhou visibilidade em 1975, com a série televisiva estrelada pela ex-Miss América Lynda Carter.
Inúmeras tentativas frustradas de adaptar a Mulher-Maravilha ao cinema deixaram muitos fãs conformados com a ideia de que esse seria um daqueles filmes sempre prestes a ser feito, mas que nunca sairia da gaveta. Habituada a superar as mais duras provações na banda desenhada, Diana fez também o caminho das pedras para chegar ao grade ecrã.
Com muitos avanços e recuos à mistura, o desenvolvimento da primeira longa-metragem da Mulher-Maravilha demorou mais de uma década. Os primeiros planos nesse sentido remontam a 1996, quando Ivan Reitman - cineasta eslovaco celebrizado por Ghostbusters - foi contratado como produtor e possível realizador.
Deixado a aboborar durante meia dúzia de anos, em 2001 o projeto passou para as mãos do produtor Joel Silver. Na esperança de ter Sandra Bullock no papel principal, Silver incumbiu Todd Alcott de escrever o argumento. Lucy Lawless, a atriz neozelandesa que por aqueles dias emprestava o corpo a outra princesa guerreira (Xena), também foi considerada.

Sandra Bullock confirmou os contactos - e o interesse -
para dar vida à Mulher-Maravilha no cinema.

Já sem Reitman a bordo, em março de 2005 a Warner Bros. subiu ao leme determinada em levar o projeto a bom porto. Patty Jenkins, que, dois anos antes, conquistara o público e a crítica com Monster - a produção independente que valeu o Óscar a Charlize Theron - foi a realizadora escolhida. Uma inesperada gravidez impediu-a, porém, de abraçar esse novo desafio.
Joss Whedon, que acabara de dirigir o seu primeiro filme (Serenity), tornou-se o novo timoneiro de uma nau à deriva. O enredo proposto por Whedon incluía Steve Trevor como narrador e uma violenta escaramuça entre Diana e a Rainha Hipólita, motivada pela decisão da princesa de trocar Temiscira pelo Mundo dos Homens. Apesar de nenhuma atriz ter sido oficialmente escalada para o papel, Kate Beckinsale e Angelina Jolie encabeçavam a lista de favoritas do estúdio.
Nas vésperas de Whedon abandonar o projeto, na primavera de 2007, a Warner Bros. e a Silver Pictures compraram um argumento escrito a meias por Matthew Jennison e Brent Strickland. Ambientada na II Guerra Mundial, a trama impressionou os executivos da Silver, ainda que, na verdade, tudo não tenha passado de um expediente para conservar os direitos da Mulher-Maravilha.
Quase em simultâneo, a Warner Bros. deu luz verde ao desenvolvimento de uma película baseada na Liga da Justiça. Justice League Mortal seria dirigido por George Miller (Mad Max) e contaria com a participação da Mulher-Maravilha, interpretada pela modelo australiana Megan Gale. Atrasos na produção e preocupações orçamentais ditaram, todavia, o seu cancelamento.

Fotos promocionais de Megan Cale como Mulher-Maravilha em Justice League Mortal.

Novamente em ponto morto, o filme da Mulher-Maravilha teve, por fim, ordem para avançar em 2010. Em resposta ao sucesso da recente franquia cinemática da Marvel, a Warner Bros. anunciou que a Princesa Amazona era, em conjunto com Flash e Aquaman, uma das três personagens da DC sinalizadas como prioritárias para uma adaptação ao grande ecrã.
À procura de uma visão feminina para o projeto, a Warner sondou várias realizadoras, incidindo a escolha sobre ninguém menos do que Patty Jenkins - que assim se tornaria a primeira mulher a dirigir o filme de uma super-heroína. Funcionando como uma prequela da participação da Mulher-Maravilha em Batman versus Superman: Dawn of Justice (2016), o enredo teria a I Guerra Mundial como pano de fundo e referenciaria tanto as histórias clássicas da autoria de William Moulton Marston como a aclamada fase pós-Crise de George Pérez.
Gal Gadot, ex-Miss Israel cuja carreira na representação começara com Fast & Furious (2009), foi a escolha pessoal - e muito contestada - de Zack Snyder para Mulher-Maravilha. Desde que fora confirmada a participação de Diana em Batman versus Superman que muitos fãs sonhavam ver Alexandra Daddario como princesa das Amazonas. Ao recusar explicar o motivo da sua escolha, Snyder endossou teorias conspiratórias que atribuíram a escalação de Gadot à influência do poderoso lóbi judaico.

Gal Gadot, Miss Israel 2004, foi a eleita para interpretar a Princesa Amazona.

A fotografia principal do filme começou a 21 de novembro de 2015, com as filmagens realizadas em França, Itália e Inglaterra a ficarem concluídas em 9 de maio de 2016, data de nascimento de William Moulton Marston.
Wonder Woman fez a sua antestreia no Pantages Theatre de Los Angeles a 26 de maio de 2017, uma semana antes de chegar às salas de cinema de todo o mundo. Apesar do rotundo sucesso de bilheteira (encerrou o Top 10 das produções mais lucrativas daquele ano) e das loas da crítica (eleito o melhor filme de 2017 pelo American Film Institute), não escapou à controvérsia.
Seguindo o exemplo libanês, vários países árabes, como a Argélia e a Tunísia, boicotaram a exibição de Wonder Woman, em protesto contra a escolha de uma ex-soldado israelita para protagonista. Em 2014, Gal Gadot declarara publicamente o seu apoio às ações militares de Israel na Faixa de Gaza, sendo acusada de sionismo pelos partidários da causa palestiniana.
Na frente doméstica, a polémica foi aditivada pelas sessões exclusivas para mulheres, organizadas em Austin, a capital texana. A chuva de protestos contra a discriminação dos homens sequer salpicou, porém, um épico pós-feminista em que a heroicidade e a vilania são unissexo.

Foi longa e árdua a jornada de Diana até chegar às salas de cinema.


Enredo

A trabalhar como restauradora de obras de arte no Museu do Louvre, em Paris, Diana é surpreendida pela entrega de uma fotografia antiga enviada por Bruce Wayne. O retrato desbotado em que ela posa entre um grupo de homens durante a I Guerra Mundial é o seu passaporte para uma viagem ao passado.
Muitos séculos atrás, Diana, a irrequieta filha da Rainha Hipólita, cresce alegremente na ilha escondida de Temiscira, lar das Amazonas. Essa raça de ferozes guerreiras foi criada pelos deuses olimpianos para proteger a Humanidade.
Certa noite, Hipólita deixa a pequena Diana fascinada com a história de como Ares, o deus da guerra, sentia ciúmes dos humanos e orquestrou a sua destruição. Quando os outros deuses porfiaram esforços para impedi-lo, Ares matou-os sem dó nem piedade. Também ele mortalmente ferido, Zeus usou o último resquício do seu imenso poder para derrotar Ares. Antes de perecer, Zeus preparou as Amazonas para o inevitável regresso do seu vingativo filho, e agraciou-as com uma arma infalível chamada Matadora de Deuses.
Pressionada pela sua irmã Antíope, Hipólita concorda relutantemente que Diana seja treinada para ser uma guerreira. As Amazonas depressa percebem o extraordinário potencial da sua princesa, enquanto esta se questiona sobre qual será o seu verdadeiro destino.

À medida que Diana cresce, a ilha vai-lhe ficando estreita.

Avançando para 1918, Diana salva o Capitão Steve Trevor de morrer afogado quando este, aos comandos de um avião roubado aos alemães, se despenha na costa de Temiscira. Ato contínuo, a ilha é invadida pelos marinheiros alemães que perseguiam Steve.
Na sangrenta batalha que se segue, as Amazonas, mesmo sofrendo pesadas baixas, desbaratam os invasores. Antíope, por sua vez, sacrifica-se para salvar Diana de uma bala perdida.
Mais tarde, atado pelo Laço de Héstia, que compele qualquer um a falar verdade, Steve Trevor revela que uma grande guerra devasta o mundo exterior e que ele é um espião Aliado. Na sua posse tem um caderno de anotações roubado à química-chefe dos alemães. Sob as ordens do General Erich Ludendorff, a Doutora Maru desenvolveu uma fórmula mais letal do gás mostarda, capaz de dissolver as máscaras antigás.
O horripilante relato de Steve deixa Diana profundamente angustiada. Convicta de que Ares está por trás da carnificina, a princesa das Amazonas, desafiando a vontade materna, parte para o Mundo dos Homens, acompanhada por Steve e armada com a espada Matadora de Deuses. Seja qual for o seu desfecho, mãe e filha sabem que aquela será uma viagem sem retorno.

Steve Trevor foi o primeiro homem a pisar Temiscira.

Em Londres, Diana e Steve entregam o caderno de Maru ao Conselho Supremo da Guerra, onde Sir Patrick Morgan, um ardoroso pacifista, tenta sem sucesso negociar um armistício com a Alemanha. Ao traduzir os apontamentos de Maru, Diana descobre que os alemães planeiam soltar o novo gás mostarda na Frente Ocidental.
Ao arrepio das ordens diretas do seu comandante e com o financiamento secreto de Sir Patrick, Steve recruta o espião argelino Sameer, o atirador escocês Charlie e o Chefe Napi, um contrabandista blackfoot. Juntamente com Diana, formam o grupo de desajustados que irá auxiliar Steve na sua arriscada missão de sabotagem no laboratório do terror de Maru.
Chegado à Bélgica, o grupo é impedido de prosseguir a sua jornada devido ao intenso fogo alemão. Num ímpeto, Diana avança sozinha pela Terra de Ninguém e, para assombro de todos, destrói a trincheira inimiga.
Depois de libertarem Veld, uma pequena vila ocupada pelos alemães, o grupo comemora brevemente, sendo o momento eternizado numa chapa fotográfica. Nessa mesma noite, enquanto dançam sob uma chuva de minúsculos flocos de neve, Diana e Steve apaixonam-se.

Retrato para a posteridade.

No dia seguinte, Steve é informado do baile de gala que se irá realizar no Alto Comando Alemão, a poucos quilómetros da vila. Steve e Diana infiltram-se separadamente na festa, com objetivos diferentes. Diana pretende matar Ludendorff, mas é impedida por Steve, receoso de que isso comprometa a sua missão primária: localizar e destruir o gás.
Ludendorff escapa em meio à confusão e ordena a libertação do gás sobre Veld, matando todos os seus habitantes. Culpando Steve pelo massacre, Diana persegue Ludendorff até ao aeródromo onde um bombardeiro alemão com destino a Londres está ser carregado com o gás.
Diana encurrala Ludendorff, mas fica confusa quando a morte do general não põe fim à guerra. Sir Patrick entra em cena e revela ser o disfarce humano de Ares. O deus da guerra admite ter influenciado subtilmente os homens, mas foram eles que, mercê da sua natureza corrupta e violenta, decidiram matar-se uns aos outros.
Diana golpeia Ares com a Matadora de Deuses, mas o vilão quebra a lâmina sem esforço. Divertido com a perplexidade de Diana, Ares revela que, como filha de Zeus e Hipólita, é ela, e não a espada, a verdadeira Matadora de Deuses.

Ares regressou da morte e trouxe o Inferno com ele.

Ao mesmo tempo que Diana e Ares retomam a sua contenda, Steve e a sua equipa destroem o laboratório de Maru. Depois de sequestrar o bombardeiro com a carga mortífera, Steve fá-lo explodir a uma altitude segura. No solo, Diana testemunha, impotente, o martírio do homem que ama.
Ares procura manipular a raiva e a dor de Diana, instigando-a a matar Maru, mas a Princesa Amazona já passou tempo suficiente no Mundo dos Homens para saber que existe bondade no coração humano. Poupando a vida a Maru, Diana redireciona o raio de Ares, matando-o para sempre. Mais tarde nessa noite, soldados e civis comemoram em conjunto o fim da mãe de todas as guerras.
De volta ao presente, Diana envia um email a Bruce Wayne, agradecendo-lhe a fotografia. O espectro da guerra volta a pairar sobre o Mundo dos Homens, mas a princesa das Amazonas será sempre uma Embaixadora da Paz.

Trailer

Curiosidades

*A grande batalha na praia que opõe as Amazonas aos marinheiros alemães no encalço de Steve Trevor demorou duas semanas a ser rodada e envolveu duas unidades de filmagem equipadas com seis câmaras. As tomadas de cena eram composições digitais de dois locais distintos: um com grandes falésias brancas, outro com um areal extenso o suficiente para acomodar a ação. Matthew Jensen, o diretor de fotografia, afirmou que, além de filmar um cenário visual tão complexo devido à profusão de câmaras, atores e figurantes, o maior desafio passou por manter a iluminação consistente ao longo de tantos dias, e com várias alterações meteorológicas à mistura;
*Interpretadas por supermodelos e atletas de alta competição de diversas nacionalidades (nenhuma delas grega), algumas das Amazonas usam um tecido cor de pele sobre um dos lados do peito. Trata-se de uma referência à forma como essa lendária casta de guerreiras era tradicionalmente retratada na arte clássica. Fontes antigas afirmam que as Amazonas amputavam ou queimavam o seio do lado dominante, de modo a melhorar o seu desempenho em combate, especialmente quando usavam arco e flechas. O seu nome deriva, aliás, do vocábulo grego "a-mazos", que significa "sem peito";

Brooke Ence, referência mundial de Crossfit,
deu corpo a uma Amazona.

*Após ser salvo dos alemães por Diana e suas irmãs de armas, Steve Trevor refere-se sarcasticamente ao lar das Amazonas como Ilha Paraíso. Era esse o nome original da ilha na banda desenhada e, também, na série televisiva da Mulher-Maravilha. No pós-Crise, quando George Pérez recontou a origem da Princesa Amazona, a Ilha Paraíso foi rebatizada de Temiscira, em tributo à mitologia helénica;
*O General Erich Ludendorff foi uma personagem real e de má memória para os soldados inimigos. Valendo-se da sua condição de comandante supremo das forças alemãs durante a I Guerra Mundial, autorizou o uso do famigerado gás mostarda, um agente corrosivo capaz de derreter tecidos moles e que, dependendo do grau de exposição, podia causar cegueira temporária ou permanente, danos duradouros nos pulmões e, no limite, uma morte excruciante. Após o Armistício, Ludendorff, como tantos outros ex-combatentes germânicos, sentiu-se traído pela classe política e apoiou o golpe fracassado de Adolf Hitler em Munique, mas distanciou-se do futuro chanceler muito antes do Partido Nazi alcançar o poder;
*O relógio que Steve Trevor usa é um relógio de bolso adaptado com um estojo de couro para ser usado no pulso. Geralmente presos numa corrente, os relógios de bolso eram os mais comuns na época, mas provaram-se impraticáveis na linha da frente. Uma vez que o tempo era fundamental para coordenar ações em grande escala, como ataques de infantaria apoiados por barragens de artilharia, os soldados passaram a usar os relógios nos pulsos. No final da guerra, a moda espalhou-se entre os civis, tornando os relógios de bolso acessórios obsoletos;
*A escolha da atriz espanhola Elena Anaya para interpretar a Doutora Maru (uma mulher desfigurada que esconde as cicatrizes com uma prótese plástica) foi uma homenagem de Patty Jenkins à sua atuação em A Pele Onde Eu Vivo (2011), de Pedro Almodóvar. Uma das mais antigas adversárias da Mulher-Maravilha na banda desenhada, Maru surgiu no início de 1942, no rescaldo do ataque a Pearl Harbor, como uma princesa japonesa que chefiava o departamento de armas químicas dos nazis, sendo por isso alcunhada de Doutora Veneno;

Doutora Veneno é uma das mais antigas 
adversárias da Mulher-Maravilha.

*Melhor amiga e companheira de aventuras da Mulher-Maravilha, Etta Candy foi criada, tal como a própria Diana, por William Moulton Marston e H.G. Peter. Apesar de ter sido várias vezes reinventada desde a Idade de Ouro, foi quase sempre retratada como uma mulher alegre, anafada e afoita. Descontando a mudança de nacionalidade (de americana passou a inglesa), a sua congénere cinematográfica evoca a aparência e maneirismos da personagem original;
*Patty Jenkins, uma grande admiradora da série televisiva da Mulher-Maravilha, convidou Lynda Carter e Lyle Wagoner (o Steve Trevor original) a participarem no filme, mas ambos foram impedidos de aceder ao pedido da realizadora, devido aos seus compromissos profissionais. Ignora-se que papéis teria Jenkins em mente, mas muitos fãs sonhavam com uma Rainha Hipólita interpretada por Lynda Carter;
*Sucedendo no papel a Cathy Lee Crosby e Lynda Carter, Gal Gadot foi a terceira atriz (e a primeira não americana) a emprestar corpo à Mulher-Maravilha. Apesar do treino intensivo a que se sujeitou durante nove meses e que lhe acrescentou quase oito quilos de massa muscular, Gal não mereceu a aprovação de muitos fãs, desagradados com o seu corpo demasiado esguio. Quando foram necessárias refilmagens, Gal, grávida do seu segundo filho, insistiu em fazer ela própria as cenas mais arriscadas;

Cathy Lee Crosby (1974) e Lynda Carter (1975-79) foram
as primeiras Mulheres-Maravilha de carne e osso.

*No início de 2021, Zack Snyder compartilhou na suas redes sociais uma imagem conceptual que mostrava Diana durante a Guerra da Crimeia (1853-1856).  A Princesa Amazona surgia rodeada por um grupo de guerreiros de diferentes origens e segurando três cabeças decapitadas como se troféus de caça se tratassem. Elementos que sugerem que a história idealizada por Snyder teria sido muito mais sombria e violenta do que aquela que foi mostrada na película dirigida por Patty Jenkins.
Além de ter sido o primeiro conflito bélico a ser fotografado (e um dos primeiros a ser telegrafado), a Guerra da Crimeia foi, pela sua escala continental, uma espécie de prelúdio da I Guerra Mundial;

Outra guerra, outros guerreiros.

*Na cena extra incluída na versão DVD e Blu-ray, Etta Candy, Sameer, Charlie e o Chefe voltam a reunir-se logo após o Armistício, com vista à preparação de uma missão secreta envolvendo uma Caixa Materna. A cadeia de eventos por eles colocada em marcha culminaria, séculos mais tarde, na formação da Liga da Justiça para impedir a invasão da Terra pelas hordas de Darkseid;
*Perto do final do filme, Diana descobre, enfim, a sua verdadeira origem e propósito. A princesa das Amazonas é o fruto da união transgressora da Rainha Hipólita com Zeus, fazendo de Ares seu meio-irmão. Esta relação familiar remete para a versão moderna da Mulher-Maravilha apresentada na fase Novos 52, mas sem qualquer substrato comum com a mitologia grega. Na história clássica, Hipólita era filha de Ares e, portanto, neta de Zeus (sendo Diana sua bisneta).


Veredito: 80%

Não era de estranhar o ambiente de receosa expectativa que rodeava a estreia da primeira longa-metragem da Mulher-Maravilha. O fogo cerrado da crítica sobre Batman versus Superman e Esquadrão Suicida parecia ter ferido de morte a incipiente franquia cinematográfica da DC. Como Atlas, Diana foi, pois, chamada a carregar nos ombros o peso, não do mundo, mas de todo um universo expandido.
Ciente da enormidade da tarefa, a realizadora Patty Jenkins tomou a decisão sensata de optar por um caminho simples. Mulher-Maravilha é uma história clássica de origem, estruturada para apresentar ao grande público a campeã da Verdade e do feminismo criada por William Moulton Marston, no já distante ano de 1941.
Na sua narrativa leve e divertida, intercalada por empolgantes cenas de ação, são óbvias as influências de Superman (1978). Acresce ainda um bónus raro nas atuais produções do género: apesar da referência inicial a Batman versus Superman, não é necessário ter assistido aos filmes anteriores da franquia para compreender a história.
Essa combinação - simplicidade narrativa e apelo emocional - confere à película uma aura de cinema antigo, que se distancia do tom sombrio dos seus antecessores, resgatando graciosamente o Universo Estendido da DC da pátina do cinismo e da desesperança.
No cômputo geral, Mulher-Maravilha é uma obra bem balanceada. Até as cenas de luta, que geralmente se estendem por longos e fastidiosos minutos de CGI e câmara lenta, acontecem no tempo certo. Em vez de ser a atração principal, a pirotecnia digital serve apenas como uma ferramenta.
Embora coberto de virtudes, o filme tem também os seus pecadilhos, desde logo a caracterização dos vilões. Ares é o gatilho para a transformação de Diana em Mulher-Maravilha, mas a sua revelação ocorre tardiamente e não surpreende (quase) ninguém. Rasos como pires, o General Ludendorff e a Doutora Maru são praticamente caricaturas vilanescas. Esta última podia perfeitamente ter sido substituída por um cientista genérico, já que a sua função na trama se resume a criar o gás.
Apesar dos pesares, Mulher-Maravilha é o filme que a DC precisava, que os fãs pediam e que Diana merecia. A sua mensagem simples, calorosa e universal, relembra-nos que os heróis e heroínas servem para nos inspirar, não para deprimir-nos. Para isso já basta o mundo contingente dos homens e mulheres comuns.

A Mulher-Maravilha reergueu sozinha o Universo Estendido da DC.


*Este blogue tem como Guia de Estilo o Acordo Ortográfico de 1990 aplicado à norma europeia da língua portuguesa.
*Artigos sobre William Moulton Marston e a fase de George Pérez disponíveis para leitura complementar.












12 novembro 2020

RETROSPETIVA: «AS AVENTURAS DE ROCKETEER»


  Qual cometa errante, um foguete humano sulca os céus da Cidade dos Anjos deixando um rasto de espanto à sua passagem. Mas o voo do misterioso Ás do Ares logo se vê enleado nas malhas de uma intriga internacional que pode alterar o curso da História.

Título original: The Rocketeer 
Ano: 1991
País: Estados Unidos da América
Duração: 108 minutos
Género: Ação / Aventura / Super-heróis
Produção: Walt Disney Pictures, Touchstone Pictures, Silver Screen Partners IV e Gordon Company
Realização: Joe Johnston 
Argumento: Danny Bilson e Paul De Meo
Distribuição: Buena Vista Pictures
Elenco: Bill Campbell (Cliff Secord / Rocketeer); Jenniffer Connelly (Jenny Blake); Alan Arkin (A. "Peevy" Peabody); Timothy Dalton (Neville Sinclair); Terry O'Quinn (Howard Hughes)
Orçamento: 35 milhões de dólares
Receitas globais: 46,7 milhões de dólares

Anatomia de um clássico

No princípio da década de 80, personagens de autor eram verdadeiras raridades. Devido à indiferença das grandes editoras, eram menos ainda aquelas que se conseguiam afirmar. Rocketeer, de Dave Stevens, foi honrosa exceção à regra.
Em 1982, Stevens, num arrojado projeto unipessoal que faria escola, criou uma banda desenhada inspirada nos heróis da literatura pulp e nos folhetins cinematográficos dos anos 1930 e 1940. Publicada sob os auspícios da defunta Pacific Comics, a história tinha como protagonista Cliff Secord, um audaz piloto de acrobacias que, depois de encontrar uma mochila a jato que lhe permitia voar, dividia o seu tempo a combater o crime e a vigiar de perto a sua voluptuosa namorada, na Los Angeles de 1938. A série obteve apreciável sucesso junto dos leitores e da crítica, tornando-se num clássico da 9ª Arte.


Dave Stevens (1955-2008) teve em Rocketeer a sua criação máxima.



Stevens acreditava, contudo, no forte potencial cinematográfico da sua obra. Convicção reforçada quando, logo no ano seguinte, o produtor Steve Miner adquiriu os respetivos direitos de adaptação. 
Por divergir em demasia do conceito original, a abordagem proposta por Miner não mereceu o aval de Stevens que, pouco tempo depois, resgatou os direitos da sua criação.
Um par de anos volvidos, em 1985, os direitos de Rocketeer transitaram para Danny Bilson e Paul De Meo. Admiradores da obra de Stevens, Bilson e De Meo consideraram inicialmente uma produção de baixo orçamento filmada a preto e branco e financiada por investidores independentes. A ideia passava por homenagear Commando Cody, uma das séries clássicas de ficção científica que influenciaram o universo de Rocketeer.
Nesse mesmo ano, o realizador canadiano William Dear aceitou o convite que lhe fora endereçado para dirigir o projeto. Impondo como condição única que a produção tivesse um orçamento à altura. De Dear partiram também as ideias de alterar o nome da namorada do herói de Bettie (ver Curiosidades) para Jenny e de ambientar o clímax do enredo a bordo de um dirigível.

Commando Cody (1952) foi uma das séries de ficção científica
 que influenciaram Rocketeer.

Após sucessivas recusas por parte de alguns dos maiores estúdios de Hollywood, a Walt Disney Pictures aceitou apadrinhar o projeto. Fê-lo, essencialmente, por motivos comerciais, já que os seus executivos acreditavam no enorme potencial de merchandising daquele que seria o primeiro filme de super-heróis do seu repertório.
O contrato celebrado com a Disney previa inicialmente uma trilogia a ser distribuída pela sua subsidiária Touchstone Pictures. Dando mostras de alguma prepotência, o diretor executivo da Walt Disney Studios, Jeffrey Katzenberg, decidiu, à última hora, que o filme seria lançado com a chancela da empresa-mãe. Consequentemente, todo e qualquer elemento adulto foi alterado ou suprimido. A principal "vítima" dessa política foi a namorada do herói que, de pin-up, passou a aspirante a atriz.
Às pressões dos executivos da Disney para adaptar o enredo aos tempos modernos, Bilson e De Meo contrapuseram com o sucesso da franquia de Indiana Jones. Convencidos de que um filme ambientado nos anos 30 poderia, afinal, ser apelativo para o público, os mandachuvas concordaram em manter o contexto histórico original.
Quando tudo parecia bem encaminhado, o projeto acabou inesperadamente encalhado numa espécie de purgatório criativo. De onde só seria resgatado cinco anos mais tarde. Durante esse lapso de tempo, sucederam-se as revisões do argumento e tanto Bilson como De Meo foram demitidos (e posteriormente readmitidos) mais vezes do que aquelas que se conseguem lembrar. Quem bateu com a porta de vez foi William Dear. Frustrado com tanta indefinição, o realizador abraçou outro projeto, sendo prontamente rendido por Joe Johnston. Além de ser fã da banda desenhada original, Johnston estava nas boas graças dos mandachuvas da Disney desde o enorme sucesso de Querida, Encolhi os Miúdos (1989).

  Rocketeer foi o segundo filme dirigido por Joe Johnston que, 20 anos depois,
 dirigiria Capitão América - O Primeiro Vingador.

Após nova revisão do argumento, o filme entrou em pré-produção nos primeiros meses de 1990. À procura de um blockbuster estival, os executivos da Disney desejavam Johnny Depp como cabeça de cartaz. Dave Stevens e Joe Johnston, acreditavam, porém, que Bill Campbell seria a escolha ideal e, desta feita, a vontade de ambos acabaria por prevalecer.
Menos controversa foi a escolha de Jenniffer Connelly para interesse amoroso do herói. Apesar da sua juventude (ou por causa dela), Connelly impôs-se às atrizes consagradas (Diane Lane, Kelly Preston e Elizabeth McGovern) que lhe disputaram o papel.
Quando, por fim, as filmagens arrancaram, em setembro de 1990, Dave Stevens fez questão de acompanhá-las de perto. Contando com a cumplicidade de Johnston, o criador de Rocketeer esforçou-se por manter, tanto quanto possível, o controlo artístico face aos eventuais desmandos da Disney. 
A mesma Disney que, entretanto, alocaria 10 milhões de dólares extra à produção (originalmente orçada em 25 milhões) ao aperceber-se da grande envergadura da mesma. 
À derrapagem orçamental somou-se uma derrapagem cronológica. Contratempos de ordem técnica e meteorológica ditaram um atraso de duas semanas na conclusão das filmagens, que tiveram lugar em diferentes pontos da Cidade dos Anjos.
A estreia mundial de The Rocketeer teve lugar a 19 de junho de 1991, no El Capitan Theatre, tornando-se, assim, a primeira película a ter essa honra em mais de dois anos, período durante o qual obras de restauro tinham obrigado ao encerramento do mítico cinema de Los Angeles. Prejudicado pela forte concorrência de Robin Hood - O Príncipe dos Ladrões e Exterminador Implacável 2, as receitas de bilheteira de Rocketeer ficaram aquém das expectativas. Em contrapartida, as críticas foram, no cômputo geral, positivas, com o filme a receber nomeações para prémios importantes.

Bill Campbell e Jenniffer Connelly
formaram o par romântico de Rocketeer.

Enredo

Los Angeles, 1938. Dois homens da quadrilha de Eddie Valentine roubam um foguete portátil a Howard Hughes, o milionário excêntrico apaixonado por aeronáutica. Com a polícia no seu encalço, a fuga dos bandidos desemboca num aeródromo nos arredores da cidade.
O carro onde seguem invade a pista de aterragem no preciso momento em que Cliff Secord, um ás dos ares, ensaia o pouso do seu monomotor Gee Bee. Da violenta colisão resulta o despiste dos dois veículos. 
Deixando para trás o comparsa sem vida, o condutor do automóvel consegue escapar. Não sem antes esconder o aparato surripiado no cockpit de um velho biplano estacionado num hangar próximo.
Com o seu avião inoperacional em vésperas de uma importante corrida aérea, Cliff tem a sua carreira comprometida. Enquanto Peevy, o seu mecânico e mentor, avalia os danos da aeronave, Cliff encontra o foguete portátil escondido no biplano. Um obséquio do destino que lhe mudará para sempre a vida.

Cliff e Peevy após um teste malsucedido do foguete.

Longe dali, o garboso astro de cinema Neville Sinclair, que encomendara o roubo do foguete a Eddie Valentine, é informado do sucedido no aeródromo. Sem perder tempo, envia Lothar, o seu monstruoso guarda-costas, para interrogar o condutor. Intimidado pelo brutamontes, este revela o local exato onde escondeu o aparato. 
Jenny Blake, namorada de Cliff e aspirante a atriz, consegue um pequeno papel no mais recente filme de capa e espada protagonizado por Neville Sinclair. Ao descobrir que o namorado de Jenny trabalha no aeródromo onde o aparato se encontra escondido, Sinclair, a pretexto de discutirem as cenas conjuntas, convida a jovem para jantar.

Neville Sinclair planeia seduzir a namorada de Cliff.

Durante um concorrido espetáculo de acrobacias aéreas no dia seguinte, Malcom, um velho amigo de Cliff e Peevy, vê-se em apuros quando o motor do seu decrépito avião deixa de funcionar em pleno voo. Quando a tragédia parece inevitável, Cliff, apetrechado com o foguete portátil e um capacete-leme projetado por Peevy, galga o céu e salva o amigo. Façanha testemunhada por uma multidão incrédula de espectadores e jornalistas.
Batizado de Rocketeer (Foguete) pela imprensa, Cliff torna-se a grande sensação do momento, atraindo a atenção indesejada do FBI, de Neville Sinclair e da quadrilha de Eddie Valentine. Todos querem deitar a mão ao foguete e todos se interrogam acerca da identidade do misterioso homem voador.
Nesse mesma noite, Cliff e Peevy recebem a visita de Lothar, incumbido por Sinclair de recuperar o foguete. A súbita chegada do FBI coloca o trio em fuga, mas Lothar consegue levar consigo os esquemas detalhados do aparelho desenhados por Peevy.
Ainda mal refeitos do susto, Cliff e Peevy procuram refúgio no restaurante do aeródromo, mas são encurralados por asseclas de Eddie Valentine. É através deles que ficam a saber do envolvimento de Neville Sinclair no roubo do foguete e do encontro deste com Jenny.
Quando tudo parecia perdido, os proprietários do restaurante conseguem expulsar os invasores, mas uma bala perdida perfura o tanque de combustível do foguete. À falta de solução melhor, Peevy improvisa um remendo com uma pastilha elástica mastigada por Cliff.
Ignorando os avisos de Peevy, Cliff cruza velozmente os céus da cidade, tendo como destino o glamoroso clube noturno onde Jenny janta a sós com Sinclair. O repasto é interrompido pela entrada de rompante de Rocketeer. Instantes depois de ter revelado o seu segredo à namorada, Cliff vê-se cercado pelo bando de Valentine e Sinclair aproveita a distração para raptar Jenny.

O Ás dos Ares em ação.

Na luxuosa cobertura de Sinclair, Jenny descobre que ele é um agente nazi e consegue escapulir-se, apenas para ser recapturada logo em seguida. Sinclair obriga-a então a enviar uma mensagem a Cliff: o foguete em troca da vida da namorada. A entrega terá lugar no Observatório Griffith.
Momentos antes de ser preso pelo FBI e levado à presença de Howard Hughes e Peevy, Cliff consegue esconder o foguete num local seguro. Hughes explica que o dispositivo é na verdade um protótipo similar àquele que cientistas alemães vêm tentando, ainda sem sucesso, desenvolver para fins militares.
Para horror dos presentes, Hughes exibe um filme de propaganda nazi, no qual um exército de soldados voadores equipados com mochilas a jato invadem os EUA. Quando o milionário revela que o FBI procura identificar um espião nazi em Hollywood, Cliff deduz tratar-se de Neville Sinclair.
Cliff recusa restituir o foguete alegando precisar dele para resgatar a namorada. Na fuga que se segue, deixa acidentalmente uma pista acerca do seu destino. 

Donzela em apuros.

No Observatório Griffith, Sinclair, acompanhado por Eddie Valentine e sua quadrilha, exige a Cliff que lhe entregue o foguete. Mas, quando Cliff expõe Sinclair como agente nazi, o ator vê-se subitamente na mira dos seus antigos aliados. Que, por sua vez, são cercados por um destacamento de soldados alemães fortemente armados, que se haviam mantido escondidos nas sombras.
Ato contínuo, o dirigível alemão Luxemburgo (de visita aos EUA em suposta missão de paz) desce sobre a cúpula do Observatório para evacuar Sinclair. 
Subitamente, porém, agentes do FBI entram em cena e unem forças com o bando de Valentine contra os nazis. Aproveitando a confusão instalada, Sinclair e Lothar conseguem escapar, arrastando Jenny para bordo do Luxemburgo.
Cliff voa no encalço do dirigível e consegue invadir a cabine de comando da aeronave. Enquanto Cliff luta com Sinclair, Jenny ateia acidentalmente fogo à cabine ao disparar uma pistola sinalizadora.
Sinclair toma novamente Jenny como refém e exige a Cliff que lhe entregue o foguete. Cliff acede, mas só depois de retirar discretamente a pastilha elástica que cobria o furo no tanque de combustível do aparelho.
Sinclair alça voo, mas a fuga de combustível provoca a explosão do foguete. Envolto em labaredas, o vilão despenca em direção ao solo, embatendo violentamente no sinal publicitário "Hollywoodland" que encima uma colina. 
Centenas de metros acima, Lothar é também ele consumido pelas chamas que devoram o Luxemburgo. Momentos antes da aeronave explodir, Cliff e Jenny são resgatados por um autogiro pilotado por Howard Hughes. 
Dias depois, o milionário presenteia Cliff com um novo monomotor Gee Bee e uma embalagem de pastilhas elásticas Beemans, as preferidas do Ás dos Ares. Após a saída de Hughes, Jenny devolve a Peevy os esquemas do foguete que encontrara na casa de Sinclair. Radiante, Peevy anuncia que, com ligeiras modificações, será capaz de construir um modelo aprimorado. 
 
Trailer


Prémios e nomeações

Indicado para um Saturn Award e para um Hugo Award na categoria de Melhor Filme de Ficção Científica, As Aventuras de Rocketeer perderia ambos para Exterminador Implacável 2: Dia do Julgamento. 
A título individual, Jenniffer Connelly foi distinguida com o Saturn Award para Melhor Atriz Secundária, ao passo que a figurinista Marilyn Vance arrebatou o prémio para Melhor Guarda-Roupa. Ken Ralston, supervisor de efeitos especiais, também foi nomeado no segmento correspondente, mas acabaria por não sair vencedor.
Na listas dos cem melhores filmes de super-heróis divulgada em 2019 pela Paste (publicação independente especializada em música e entretenimento), As Aventuras de Rocketeer surge em 50º lugar, à frente, por exemplo, de Homem de Ferro 2 e O Cavaleiro das Trevas Renasce.

Curiosidades

*Na banda desenhada original, a namorada de Cliff Secord é ninguém menos do que Bettie Page. Dave Stevens inspirou-se na escultural modelo dos anos 1950 para criar o interesse amoroso do seu herói. Após o lançamento do filme, Stevens, sentindo-se em dívida para com a sua musa (então quase septuagenária), enviou-lhe um cheque pelo correio. Sensibilizada com o gesto, Bettie fez questão de conhecer o seu admirador e os dois ficaram bons amigos até à morte de ambos, em 2008;

Betty Page serviu de modelo à namorada de Cliff Secord na BD original.
*Neville Sinclair é vagamente baseado em Errol Flynn, um dos maiores galãs da era dourada do cinema, sobre quem recaiu a suspeita de ter sido um espião nazi. Tese sustentada numa biografia não autorizada do ator assinada por Charles Higham. Apesar da parca credibilidade da obra, essa informação nunca foi desmentida pelo visado;
*A reação da quadrilha de Eddie Valentine à revelação de que Neville Sinclair trabalhava para o III Reich reflete a postura do crime organizado norte-americano durante aquele período histórico. Se os mafiosos italianos execravam o fascismo devido à perseguição movida por Benito Mussolini aos clãs sicilianos, os seus homólogos judeus odiavam o regime antissemita de Adolf Hitler e tudo o que a ele estava associado. Em virtude desses inimigos comuns, os gângsteres foram preciosos aliados do Governo federal nas suas operações de contraespionagem;
*Doc Savage, o herói das novelas pulp dos anos 1930, foi o inventor do foguete portátil de Rocketeer na história original. A fim de evitar pedidos de licenciamento à Conde Nast - editora detentora dos direitos do Homem de Bronze - a Disney optou por atribuir a patente a Howard Hughes, génio visionário e pioneiro da aviação comercial;
*Foram utilizados dois modelos diferentes do foguete na rodagem do filme: um fabricado em metal e que expelia chamas à retaguarda, outro revestido com fibra de vidro que, por ser mais leve, era adequado para as cenas em que o aparelho se encontrava inativo;
*Por causa da sua difícil manobrabilidade e da sua propensão para se despenhar, o monomotor Gee Bee pilotado por Cliff Secord foi sugestivamente alcunhado de "Caixão Voador". Sendo a respetiva aterragem uma manobra particularmente perigosa, a aeronave usada no filme foi autorizada a executá-la apenas as vezes estritamente necessárias;
*Não é por acaso que as pastilhas elásticas Beemans têm um papel crucial no filme. São elas as preferidas dos pilotos verdadeiros, não apenas de Cliff Secord. Enquanto as pastilhas de outras marcas compensam apenas a pressão atmosférica, as Beemans ajudam, também, a apaziguar estômagos nervosos. O segredo está num antiácido (pepsina) presente na sua composição;

As Beemans são uma espécie de amuleto da sorte
 para pilotos da vida real.

*Apesar do seu confesso pavor de voar, Bill Campbell sentia-se perfeitamente confortável durante a rodagem das cenas em que se encontrava suspenso por um cabo a vários metros de altura. A sua preparação para o papel resumiu-se a ler a banda desenhada original e a cortar o cabelo de forma a parecer-se mais com a sua personagem;
*Dave Stevens fez um pequeno cameo. Era ele o piloto de testes que, no filme de propaganda nazi, explode durante o ensaio falhado da mochila a jato;
*O cartaz promocional do filme ao estilo Art Déco que abre este artigo homenageia o colossal monumento a Yuri Gagarin (o primeiro homem a viajar no espaço) erigido em Moscovo por ocasião dos Jogos Olímpicos de 1980 realizados na ex-capital soviética;

Com 42,5 metros de altura e 12 toneladas de peso,
 a estátua de Yuri Gagarin foi esculpida em titânio,
o mesmo metal usado nas naves espaciais.

*O filme teve direito a duas adaptações literárias saídas das penas de outros tantos autores. Aquela que se dirigia ao público em geral (a outra destinava-se à audiência infantil) teve assinatura de Peter David, um dos mais aclamados e prolíficos argumentistas dos comics das décadas de 80 e 90. Em Portugal, a obra foi publicada, logo em 1991, pela Europa-América no formato de livro de bolso;
*Apesar da tépida prestação de bilheteira ter inviabilizado a programada sequela, o filme deu origem a uma série animada. Exibida desde finais de 2019 no Disney Channel e no Disney Junior, The Rocketeer acompanha as aventuras de Kit Secord, a bisneta de Cliff Secord que, no dia do seu 7º aniversário, herda a mochila a jato que transformou o seu antepassado numa lenda.

Veredito: 70%

As Aventuras de Rocketeer é um filme de super-heróis de sabor diferente. Não só pelo seu estilo marcadamente retro, mas, sobretudo, por não se tratar de um pastiche de Super-Homem ou Batman. Em vez de um alienígena superpoderoso a sair em defesa do modo de vida americano ou de um vigilante a fazer justiça pelas próprias mãos, tem como protagonista um homem comum, a quem o acaso concede o ensejo de realizar coisas extraordinárias.
Numa época em que o cinismo começava a insinuar-se em produções similares (e também nos comics), As Aventuras de Rocketeer relembra-nos que o verdadeiro heroísmo provém do coração, e que em cada um de nós habita um herói à espera de poder fazer a diferença.
Assistir a esta película é como embarcar numa emocionante viagem ao passado. Impregnado com uma atmosfera nostálgica, As Aventuras de Rocketeer é um salutar lembrete de uma época de maior simplicidade e inocência. Uma época em que heróis e vilões agiam em conformidade, sendo fácil distingui-los.
Abusando dos jogos de luz e sombra típicos dos policiais noir, As Aventuras de Rocketeer revisita vários clichês dos folhetins cinematográficos dos anos 30 e 40: um herói com coração de ouro, uma linda donzela em apuros e um vilão carismático. O filme copia, de resto, a fórmula consagrada de Superman, The Movie, que consiste em escalar um desconhecido para o papel principal e um astro de primeira grandeza (Timothy Dalton dava, por aqueles dias, vida a James Bond) para interpretar o vilão de serviço.
Apesar da inegável qualidade do elenco (até Bill Campbell surpreende pela positiva), as personagens não são bem desenvolvidas e nem é preciso. A Joe Johnston interessavam arquétipos e, em razão disso, cuidou de apresentá-los da forma mais direta possível, vinculando-os às suas características definidoras. Estratégia cristalizada, por exemplo, na apresentação de Neville Sinclair. Na sua aparição inicial, o vilão surge de costas, posicionamento que denuncia a dualidade do seu caráter.
Fortemente influenciado pelos filmes de 007 e Indiana Jones, As Aventuras de Rocketeer desenvolve de maneira empolgante a sua mistura de ação, humor e fantasia. Apesar da invulgar profusão de tiroteios num filme que se queria para toda a família e do terceiro ato mais corrido do que o necessário, o clímax a bordo do dirigível parece saído diretamente de um episódio de Commando Cody, com efeitos especiais a condizer. 
Ainda assim, o filme parece imune ao gradual processo de oxidação decorrente da passagem dos anos e conserva intacto o seu apelo nostálgico. Sendo, por conseguinte, uma ótima sugestão para uma matiné caseira nestes tempos de confinamento coercivo. 
Mesmo não sendo sublime, As Aventuras de Rocketeer é, outrossim, um excelente exemplo de como adaptar uma banda desenhada ao grande ecrã sem vandalizar o conceito primordial. Esse é, irrefragavelmente, um dos méritos que o transformaram numa obra de culto.

Voo para a eternidade.




*Este blogue tem como Guia de Estilo o Acordo Ortográfico de 1990 aplicado à norma europeia da Língua Portuguesa.
















05 junho 2020

RETROSPETIVA: "HOMEM-ARANHA"


   Enredado nas teias do Destino, um jovem inadaptado aprende uma dolorosa lição de vida: com grandes poderes vêm grandes responsabilidades e perigosas inimizades. Conseguirá ele ser o herói que uma Nova Iorque ferida no seu orgulho tanto precisa?

Título original: Spider-Man
Ano: 2002
País: Estados Unidos da América
Duração: 121 minutos
Género: Ação / Fantasia / Super-heróis
Produção: Columbia Pictures, Marvel Enterprises e Laura Ziskin Productions
Realização: Sam Raimi
Argumento: David Koepp
Distribuição: Sony Pictures Releasing
Elenco: Tobey Maguire (Peter Parker / Homem-Aranha); Willem Dafoe (Norman Osborn / Duende Verde); Kirsten Dunst (Mary Jane Watson);  James Franco (Harry Osborn); Cliff Robertson (Ben Parker), Rosemary Harris (May Parker); J.K. Simmons (J. Jonah Jameson) e Joe Manganiello (Flash Thompson)
Orçamento: 139 milhões de dólares
Receitas globais: 825 milhões de dólares

Anatomia de um clássico

Na ressaca do fracasso comercial de Super-Homem III (1983), os filmes de super-heróis tornaram-se apostas de altíssimo risco que os grandes estúdios de Hollywood não se podiam dar ao luxo de fazer. Ainda assim, em 1985, a Cannon Films adquiriu à Marvel Comics os direitos de adaptação daquele que era, à época, o maior ativo da empresa capitaneada por Stan Lee: o Homem-Aranha. Além dos 225 mil dólares pagos à cabeça, o negócio previa ainda uma percentagem sobre as receitas de bilheteira. Ficando, no entanto, salvaguardado que, caso o filme não fosse lançado num prazo de cinco anos, os direitos reverteriam novamente para a Casa das Ideias.
Tobe Hooper, que à data finalizava Massacre no Texas 2, foi o primeiro realizador cooptado para o projeto. Menahem Golan e Yoram Globus, proprietários da Cannon e futuros produtores de Super-Homem IV: Em Busca da Paz (1987), interpretaram erradamente o conceito do Homem-Aranha, tomando-o por uma espécie de versão delirante do Lobisomem. Refletindo esse equívoco, Leslie Stevens, criador da série de ficção científica No Limiar da Realidade, escreveu um argumento no qual Peter Parker, um jovem fotógrafo freelance, servia de cobaia a um experimento científico envolvendo radiação. A metamorfose daí resultante transformaria Peter numa espécie de tarântula humana com oito braços, corpo coberto por uma espessa pelagem e fortes inclinações suicidas.
Naturalmente desagradado com esta abordagem, Stan Lee exigiu que fosse escrito um novo argumento mais fiel ao conceito original. Com assinatura de Ted Newsom e John Brancato, a nova versão do enredo tinha o Doutor Octopus como antagonista, embora o apresentasse como mentor de Peter Parker, um promissor estudante de ciências. Joseph Zito, que dirigira o bem sucedido Invasão EUA (1985), sucedeu a Tobe Hooper na cadeira de realizador.
Nova revisão do argumento solicitada por Zito resultou na inclusão de um inédito sidekick para o Doutor Octopus. Entretanto, a Cannon alocara 20 milhões de dólares para o projeto - orçamento digno de uma super-produção à luz dos padrões da época.

When did Doc Ock start wearing his green and orange outfit? | Fandom
Doutor Octopus foi o primeiro vilão escolhido
 para o filme do Escalador de Paredes.
Apesar de nenhum casting ter sido concluído, Zito sugeriu Scott Leva para o papel principal. Com uma carreira construída, essencialmente, como duplo (conquanto possuísse alguma experiência de representação), Leva posara em tempos como Homem-Aranha para fotos promocionais da Marvel. Outro nome equacionado para cabeça de cartaz foi o de Tom Cruise, ao mesmo tempo que o próprio Stan Lee sinalizou o seu interesse em interpretar J. Jonah Jameson. 
A braços com grandes dificuldades de tesouraria após os dispendiosos Super-Homem IV e Mestres do Universo, a Cannon cortou para metade o orçamento inicialmente previsto para o projeto, levando Zito a bater com a porta. Logo seguido por Menahem Golan que, após dissolver a sociedade com o primo, assumiu os destinos da 21st Century Film Corporation., levando consigo os direitos de adaptação do Escalador de Paredes.
Tendo ainda como ponto de partida o argumento com o Doutor Octopus, Golan contactou a empresa canadiana de efeitos especiais Light and Motion Corporation. Depois de, numa prática consagrada na indústria cinematográfica, ter vendido à Viacom os direitos televisivos do filme não produzido.
Em meados de 1994, logo após o lançamento de A Verdade da Mentira, o realizador James Cameron, autor de clássicos como Aliens e Exterminador Implacável,  submeteu um novo argumento da sua autoria à apreciação dos produtores. Além da origem clássica do Homem-Aranha, esta nova versão da história tinha Homem-Areia e Electro como vilões, culminando com uma batalha épica no cimo do World Trade Center. Com muitas licenças poéticas relativamente ao cânone, o argumento de Cameron incluía ainda uma controversa cena de sexo de Peter Parker (retratado como um adolescente libidinoso) e Mary Jane na Ponte do Brooklyn.

The Movie That Almost Was: James Cameron's Spider-Man!
James Cameron queria Leonardo DiCaprio como Homem-Aranha.
Para frustração de boa parte dos fãs, Cameron acabaria no entanto por se desvincular do projeto para dirigir o oscarizado Titanic. E, como um mal nunca vem só, a MGM, a nova dona da 21st Century, processou a Marvel Comics por alegada fraude no negócio com a Cannon. No corolário de uma longa e penosa disputa judicial, os tribunais determinaram que o contrato originalmente celebrado com Golan expirara, pelo que os direitos do Homem-Aranha reverteram para a Marvel, que, por esses dias, lutava desesperadamente pela sua sobrevivência financeira.
Em 1999, a Marvel licenciou os direitos do Homem-Aranha à Columbia, uma subsidiária da Sony Pictures Entertainment. Ao cabo de mais de uma década de tentativas frustradas, o filme do Homem-Aranha recebeu finalmente luz verde para ser produzido.
Da mudança de estúdio decorreu nova mudança de direção. David Fincher (Clube de Combate) encabeçava a lista de potenciais realizadores, mas seria descartado devido à sua recusa em filmar a origem do Homem-Aranha.
Sam Raimi foi o senhor que se seguiu, em janeiro de 2000. A sua confessa paixão por super-heróis e pelo Escalador de Paredes, em particular, foi determinante para sua escolha.
Chamado a reescrever o argumento de James Cameron, David Koepp despromoveu o Doutor Octopus a vilão secundário, em favor do Duende Verde. Raimi considerou no entanto que as duas personagens se ofuscariam mutuamente, e ordenou a supressão do primeiro. Em contrapartida, manteve um dos elementos mais controversos do argumento de Cameron: as teias orgânicas. Recorde-se que, na banda desenhada, Peter Parker inventou o fluido de teias sintéticas para municiar os seus lançadores manuais. Raimi considerava esse conceito implausível para um jovem estudante do secundário.

Marvel News على تويتر: "🚨BOMBA! Sam Raimi (Trilogia Spider-Man ...
Sam Raimi trocando impressões com Tobey Maguire e Kirsten Dunst
 durante a rodagem do filme que o consagraria.
Com o elenco definido, após muitas especulações sobretudo em volta do papel principal, as filmagens de Homem-Aranha arrancaram oficialmente a 8 de janeiro de 2001,com Nova Iorque e Los Angeles como panos de fundo. 
A produção ficou marcada por alguns incidentes. Um ex-segurança da Sony furtou vários uniformes do Homem-Aranha, cada um avaliado em 50 mil dólares.  Seguindo uma pista fornecida pela ex-mulher do larápio, as autoridades encontraram ainda na sua morada um Bat-traje propriedade da Warner Bros, misteriosamente desaparecido durante a rodagem de Batman & Robin (1997). Mais trágico foi o episódio que envolveu um dos operários que participava na construção dos sets. Quando uma empilhadora convertida em grua improvisada tombou, o homem morreu esmagado. 
A 29 de abril de 2002, o Mann Village Theater, um dos mais mais antigos e emblemáticos cinemas de Los Angeles, engalanou-se para receber a antestreia de Homem-Aranha. Quatro dias mais tarde, a 3 de maio, teve lugar a estreia nacional de um filme que entrou para os anais da 7ª Arte ao ser o primeiro a arrecadar 100 milhões de dólares no primeiro fim de semana em exibição. Com receitas globais que ultrapassaram os 820 milhões de dólares, tornou-se a adaptação de super-heróis mais rentável até àquele momento.

Enredo


Durante uma visita de estudo, Peter Parker e a sua turma do liceu visitam um laboratório de bioengenharia onde se encontra patente uma exposição de aranhas. Nem Harry Osborn, o seu melhor amigo, nem Mary Jane Watson, a sua paixoneta secreta, se apercebem da picada desferida na mão de Peter por uma aranha geneticamente modificada.
De regresso a casa dos tios, com quem mora desde a morte dos pais, Peter sente-se febril e cai num sono pesado povoado por sonhos bizarros.
Enquanto isso, Norman Osborn, pai de Harry e presidente executivo da Oscorp, tenta garantir um contrato militar de vital importância para a sua empresa. Após uma demonstração fracassada, Norman, ignorando os avisos do seu assistente, testa em si mesmo um soro experimental. A fórmula incrementa-lhe as capacidades físicas mas, como efeito colateral, deixa Norman mentalmente instável.
Na manhã seguinte, um atónito Peter descobre que a sua miopia foi, literalmente, curada da noite para o dia. Também o seu corpo, habitualmente franzino, desenvolveu massa muscular, conferindo-lhe um porte atlético.

News: Young Spider-Man Fans Let Black Widow Bite Them in Hopes of ...
A picada de uma aranha mudará para sempre a vida de Peter Parker.
Na escola, Peter faz outra descoberta surpreendente: o seu organismo é agora capaz de produzir teias altamente resistentes. Ao tentar livrar-se delas, atinge acidentalmente com um tabuleiro de comida Flash Thompson, o valentão que há anos o arrelia.Peter evita no entanto ser espancado por Flash, graças a uma espécie de sexto sentido que o alerta para o perigo. A sua força e agilidade sobre-humanas deixam rapidamente o brutamontes fora de combate, perante o olhar incrédulo de Mary Jane.
Fazendo tábua rasa do conselho do seu tio Ben ("Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades."), Peter inscreve-se num torneio de luta-livre. O plano consiste em usar os seus novos poderes para ganhar o dinheiro de que precisa para comprar um carro, com o qual tenciona impressionar Mary Jane. Apesar de se apresentar disfarçado de Aranha Humana, o locutor anuncia-o como Homem-Aranha.
Peter sai vitorioso do combate mas é enganado pelo promotor do mesmo, recebendo uma quantia muito inferior àquela que lhe havia sido prometida. Consequentemente, quando um ladrão armado irrompe pelo escritório do promotor, Peter nada faz para impedir a sua fuga.
Mais tarde, porém, Peter encontra o seu tio moribundo na rua, depois de ter resistido a uma tentativa de carjacking. Peter parte no encalço do assassino, apenas para descobrir que se trata do mesmo ladrão que deixara escapar minutos atrás. Encurralado num armazém abandonado, o criminoso cai por uma janela e morre.

Why does Uncle Ben die in the Spider-Man movies? | Don't Tell Harry
A morte do tio Ben ensina uma dolorosa lição a Peter.
Longe dali, Norman Osborn, envergando o protótipo de um exoesqueleto roubado à Oscorp, interrompe um ensaio de tecnologia militar desenvolvida pela Quest Aeroespacial. Do ataque resultam vários mortos e feridos.
Logo após a sua cerimónia de graduação, Peter começa a usar as suas habilidades aracnídeas para combater o crime e a injustiça. Criando, para esse efeito, a identidade de Homem-Aranha e uma fantasia alusiva.
À medida que as aparições do Homem-Aranha aumentam de frequência, J. Jonah Jameson, o irascível editor do jornal Daily Bugle, contrata Peter como fotógrafo freelance, uma vez que ele é o único a conseguir imagens nítidas do novo vigilante mascarado.
Ao tomar conhecimento dos planos do Conselho de Administração da Oscorp de forçá-lo a vender a sua empresa à Quest, Norman decide cortar o mal pela raiz. Novamente disfarçado de Duende Verde, assassina todos os membros do Conselho durante o Festival da Unidade Mundial.
Quando o Homem-Aranha intervém, o Duende Verde, impressionado com as habilidades do seu adversário, oferece-lhe um lugar a seu lado. Peter recusa e os dois envolvem-se numa violenta escaramuça, com o Escalador de Paredes a receber um profundo corte no antebraço antes de o Duende Verde desaparecer por entre uma revoada de risadas maníacas.

Spider-Man OST 25. Parade Attack - YouTube
A aranha não será presa fácil do duende.
No jantar de Ação de Graças em casa de May Parker, Norman deteta o ferimento no antebraço de Peter, deduzindo ser ele o Homem-Aranha. Nessa mesma noite, o Duende Verde ataca e aterroriza a tia May. Os ferimentos da idosa obrigam à sua hospitalização, deixando Peter transtornado e temendo pela segurança dos seus entes queridos.
No dia seguinte, Mary Jane confidencia a Peter a sua paixoneta pelo Homem-Aranha, que a salvou em numerosas ocasiões. Harry chega no exato instante em que o casal dá as mãos, presumindo que era a Peter que a namorada acabara de confessar os seus sentimentos.
Consumido pelo ciúme, Harry conta ao pai que Peter e Mary Jane estão enamorados, revelando inadvertidamente a maior fraqueza do Homem-Aranha.
Nessa noite, o Duende Verde sequestra Mary Jane e um teleférico apinhado de crianças. Enquanto segura ambos no alto de uma ponte, o vilão obriga o Homem-Aranha a escolher qual deles salvará.
No entanto, embora a muito custo, o Homem-Aranha consegue salvar Mary Jane e os passageiros do teleférico. Simultaneamente, o Duende Verde vê-se bombardeado por civis que, ao presenciarem a dramática cena, tomam o partido do herói.

Kirsten Dunst slams new Spider-Man films - and accuses film-makers ...
Mary Jane salva pelo seu herói.
Furioso, o Duende Verde arrasta o Homem-Aranha para um edifício devoluto, espancando-o brutalmente. Quando o vilão, prestes a levar a melhor, anuncia a sua intenção de matar Mary Jane, Peter recupera o alento e derrota-o.
O Duende Verde revela então a sua verdadeira face, e Peter nem quer acreditar que se trata do pai do seu melhor amigo. Ao mesmo tempo que implora por perdão, Norman aciona o controlo remoto do seu planador, para direcioná-lo contra Peter. Alertado pelo seu sentido de aranha, Peter desvia-se do ataque e Norman acaba empalado pelo próprio aparato.
Antes de exalar o seu último suspiro, Norman pede a Peter que não conte a Harry acerca do Duende Verde. Peter aquiesce e transporta o corpo inerte de Norman até à sua mansão. É no entanto surpreendido pela chegada de Harry que, perante aquele quadro, toma o Homem-Aranha como assassino do seu pai.
No funeral de Norman, Harry jura vingança contra o Homem-Aranha e diz a Peter que, agora que também ficou órfão, ele é a única família que lhe resta.
Mary Jane, por sua vez, declara o seu amor por Peter. Mas ele, sentindo-se na obrigação de protegê-la dos inimigos do seu alter ego, esconde os seus verdadeiros sentimentos, respondendo-lhe que apenas poderão ser amigos. Os dois trocam um beijo fugaz e, enquanto Peter se afasta, à memória de Mary Jane acode a lembrança da noite em que os seus lábios tocaram os do Homem-Aranha.
Enquanto abandona o cemitério, de semblante carregado e sob um céu carrancudo, Peter rememora as palavras do seu tio Ben sobre responsabilidade, e aceita a sua missão de vida como Homem-Aranha.

Trailer:



Prémios e nomeações


Nomeado para dois Óscares (Melhores Efeitos Especiais e Melhor Som), Homem-Aranha perderia a corrida em ambas as categorias para dois adversários de peso - respetivamente, O Senhor dos Anéis: As Duas Torres e o musical Chicago. Conquistou, no entanto, o People's Choice Award de Melhor Filme e, graças à partitura composta por Danny Elfman, o Saturn Award para Melhor Banda Sonora.
A título individual, Kirsten Dunst viu a sua interpretação (considerada demasiado apagada por alguns críticos) ser distinguida com o MTV Movie Award para Melhor Atriz.

Curiosidades


*Criação conjunta de Stan Lee e Steve Ditko, a estreia do Homem-Aranha ocorreu em agosto de 1962, nas páginas de Amazing Fantasy #15. Menos de um par de anos volvidos, em julho de 1964, os mesmos autores introduziriam o Duende Verde (Green Goblin, no original), em Amazing Spider-Man #14. Apesar de, desde então, ter reclamado para si o estatuto de némesis do Escalador de Paredes, o Duende Verde não foi o primeiro supervilão a participar nas histórias do herói aracnídeo. Essa honra coube ao Camaleão, outro antagonista clássico do Homem-Aranha que, conforme o nome sugere, possui a habilidade de mimetizar a fisionomia de outrem. O Duende Verde foi, contudo, o primeiro inimigo do Homem-Aranha a descobrir a identidade secreta do herói;

A primeira aparição do Duende Verde em Amazing Spider-Man #4 (1964).
*O filme apresentou o primeiro confronto entre o Homem-Aranha e o Duende Verde em ação real. Até então, os dois apenas haviam medido forças na banda desenhada e em séries de animação;
*Homem-Aranha marcou igualmente a estreia em ação real de vários dos coadjuvantes clássicos do Escalador de Paredes, designadamente Mary Jane Watson, Flash Thompson, Norman Osborn ou o próprio Tio Ben. Em 1977, The Amazing Spider-Man, série televisiva protagonizada por Nicholas Hammond (que faz um cameo no filme), preterira essas e outras personagens em favor de outras criadas propositadamente para o pequeno ecrã;
*Na versão canónica, Mary Jane é sobrinha de Anna Watson, vizinha e melhor amiga de May Parker. Apesar das visitas frequentes a casa da tia, MJ só travaria amizade com Peter Parker no campus da Universidade Empire State, onde ambos estudavam. Contudo, no reboot Ultimate Marvel MJ, à semelhança do que é mostrado no filme, é apresentada como a rapariga da porta ao lado por quem Peter nutre uma paixão platónica desde o início da puberdade;

Pin em amazing spiderman comic s mary jane
Peter e MJ trocam o primeiro beijo.
O início de uma bonita história de amor que acabaria em casamento.
*No filme, a fonte dos poderes de Peter Parker é uma aranha geneticamente modificada para combinar as melhores habilidades de várias espécies. Nos quadradinhos, a responsável pela metamorfose de Peter foi uma aranha radioativa. Se na vida real o animal morreria tão-logo fosse irradiado, a sobrevivência da sua prima geneticamente aprimorada seria altamente provável. Do mesmo modo, a transmissão das suas habilidades a um ser humano por via de um picada seria teoricamente possível;
*Contrariamente a Tobey Maguire - que admitiu nunca ter lido uma história do Homem-Aranha na vida - Sam Raimi é um ávido colecionador de comics, estimando-se que possua mais de 25 mil itens dessa natureza no seu acervo pessoal. Foi esse o motivo que tornou a sua escolha para dirigir o filme tão popular entre os fãs do Escalador de Paredes;
*26 milhões de dólares foi o cachê recebido por Tobey Maguire (escolha pessoal de Sam Raimi) ao assinar o contrato que previa a sua participação numa hipotética sequela;
*Antes de, por sugestão da esposa de Sam Raimi, lhe ser atribuído o papel de Harry Osborn, James Franco chegou a fazer testes para Homem-Aranha. Despeitado, Franco troçaria depois da prestação de Tobey Maguire, comparando-o com um "homem-rã". Maguire acusou o toque e a tensão entre os dois atores - que contracenaram em toda a trilogia - foi uma constante no decurso das filmagens. Em entrevistas concedidas a posteriori, Maguire reconheceu que a rivalidade entre ambos ainda subsiste;
*A primeira cena gravada foi aquela que mostra Peter a regressar febril a casa após a visita de estudo durante a qual foi picado por uma "super-aranha";
*O figurino inicialmente concebido para o Duende Verde era mais parecido com o da banda desenhada. Além de orelhas e dentes pontiagudos, a máscara teria embutidas lentes de contacto amarelas. Por ter sido considerado demasiado sinistro para um filme que se queria para toda a família, o visual foi descartado pela produção. Os testes de ecrã realizados com ele podem, porém, ser encontrados no YouTube;

Green Goblin Costume From Spider Man 1
O visual original do Duende Verde (esq.) foi considerado demasiado assustador
 para um filme que se queira para toda a família.
*Depois de Willem Dafoe ter dispensado duplos para as cenas mais arriscadas, o traje do Duende Verde entretanto aprovado foi sujeito a diversas modificações. O objetivo era torná-lo mais ágil e elegante do que o robusto modelo original. Compostos por 5800 peças, os novos paramentos demoravam uma hora a ser vestidos por Dafoe;
*Em vez das tradicionais teias negras da BD, o figurino cinematográfico do Homem-Aranha foi debruado com teias prateadas, de modo a criar profundidade. Sem elas, a equipa de efeitos visuais não conseguia imprimir realismo às cenas em que o herói usavas as suas teias para se balançar pela cidade;
*Além de desconfortável, o modelo original do uniforme do Homem-Aranha - confecionado como uma peça única, - obrigava Tobey Maguire a despir-se por completo de cada vez que tinha de satisfazer alguma necessidade fisiológica. A solução encontrada consistiu em criar uma discreta abertura nas calças que permitia ao ator aliviar-se sem ter de ficar em pelota;
*A principal dificuldade sentida por Tobey Maguire durante a gravação da icónica cena do beijo de cabeça para baixo trocado com Mary Jane sob chuva intensa foi ter as fossas nasais constantemente inundadas de água;

Pegadinha imita beijo do Homem-Aranha
Um dos beijos mais icónicos e difíceis de executar na história do cinema.
*A sequência em que o Homem-Aranha se esquiva das lâminas voadoras do Duende Verde num prédio em chamas foi filmada com recurso à mesma técnica fotográfica de Matrix (1999);
*Na primeira versão do seu tradicional cameo, Stan Lee surgia como um vendedor ambulante que procurava convencer Peter a comprar um par de óculos iguais aos que Ciclope usara em X-Men. Também Bruce Campbell (Evil Dead), Lucy Lawless (Xena, a Princesa Guerreira), dois velhos amigos de Sam Raimi, e Ted Raimi (irmão do realizador) tiveram direito a pequenas participações no filme;
*O clímax do filme é baseado em A Morte de Gwen Stacy, originalmente publicada em The Amazing Spider-Man #121 (junho de 1973). Nessa história clássica do Homem-Aranha com assinatura de Gerry Conway e Gil Kane, o Duende Verde rapta Gwen Stacy, o primeiro grande amor de Peter Parker, deixando-a suspensa no cimo de uma ponte. Ao tentar salvá-la de uma queda fatal, o herói acaba acidentalmente por matá-la. No filme, Mary Jane faz as vezes da sua malograda antecessora, com a diferença de que sobrevive para participar nas sequelas. Já a morte do Duende Verde, empalado pelo próprio planador, é extremamente fiel à história original;
*Durante a cena do funeral de Norman Osborn, é possível ver um túmulo adjacente com o apelido "Stacy" inscrito na lápide. Trata-se de uma possível alusão à morte do Capitão George Stacy, pai de Gwen e que, na BD, perdeu a vida durante um recontro entre o Homem-Aranha e o Doutor Octopus. Embora ausente do filme, Gwen Stacy marcaria presença em Homem-Aranha 3 (2007);
*O primeiro teaser trailer do filme mostrava um grupo de assaltantes a fugirem de helicóptero depois de terem roubado um banco. O voo da aeronave era então subitamente travado por uma gigantesca teia de aranha, que a deixava presa no espaço entre as duas torres do World Trade Center. Os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 ditaram, porém, a retirada do trailer original e a subsequente produção de um novo. Idêntico destino tiveram os primeiros cartazes promocionais do filme, que mostravam o reflexo das Torras Gémeas nas lentes polarizadas da máscara do Homem-Aranha. A maior parte deles não foi, todavia, recuperada, tratando-se de artigos muito cobiçados por colecionadores;
*Da banda sonora oficial do filme faz parte um cover dos Aerosmith do tema musical que acompanhava o genérico de abertura de Spider-Man, série animada cujas três temporadas foram originalmente emitidas pelo canal ABC, entre 1967 e 1970;
*Escrita pelo próprio Stan Lee e ilustrada pelo britânico Alan Davis, a adaptação oficial de Homem-Aranha aos quadradinhos foi lançada pela Marvel Comics em junho de 2002 com duas capas variantes: uma com assinatura de John Romita Jr., outra com uma imagem do filme. Esta última serviria de frontispício à versão colocada à venda na cadeia de supermercados Wallmart, bem como à edição portuguesa publicada pela Devir nesse mesmo ano.

Spider-Man The Official Movie Adaptation
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Amazon.com: SPIDER-MAN OFFICIAL MOVIE ADAPTATION #1-WAL-MART ...
As duas capas variantes da adaptação oficial do filme.

Veredito: 81%

A espera foi longa mas valeu a pena. No dealbar do novo milénio, o Homem-Aranha, o mais famoso dos inquilinos da Casa das Ideias, recebeu, por fim, uma valorosa adaptação cinematográfica que, a um só tempo, pulverizou recordes de bilheteira e elevou a fasquia de qualidade dos filmes de super-heróis ao extremo. Obrigando, dessa forma, produções análogas a avultados investimentos em efeitos especiais inovadores e elencos estelares.
Paradoxalmente, a razão do sucesso de Homem-Aranha reside no seu registo popular isento de floreados narrativos ou pretensiosismos metafísicos. O seu mérito principal consiste, portanto, em agradar quer aos fãs (a maioria, pelo menos) quer ao público casual que apenas conhece de raspão a mitologia do Escalador de Paredes.
O filme apresenta uma história simples e divertida mas que encerra uma importante lição de vida sobre a necessidade de assumirmos novas responsabilidades e aceitarmos as consequências das nossas decisões. Claro que essa mensagem é repassada de forma superficial, sendo facto consabido que complexidade existencial e super-produções hollywoodescas raramente casam bem.
Sem embargo para a sua espetacularidade e eficácia, as cenas de ação, tradicionalmente complicadas de gerir, ocupam uma pequena parte do filme; apenas o suficiente para entreter a audiência. No cômputo geral estão bem construídas, sendo completadas com efeitos especiais convincentes. Ficando, contudo, patente que a preocupação primordial do argumento assenta na evolução psicológica das personagens (com óbvio enfoque no protagonista) em detrimento de recitais de pancadaria e explosões.  Sam Raimi dá mostras do seu talento de cineasta ao evitar o exagero visual que perpassa por outras produções do género.
Outro ponto de interesse do filme é a banda sonora assinada pelo veterano Danny Elfman. Mesmo sem criar nenhum tema icónico, Elfman logrou compor belas melodias que enquadram na perfeição a história que se desenrola aos olhos dos espectadores.
De entre os elementos de destaque, o elenco, apesar de transpirar talento, é aquele que convence sem deslumbrar. Por contraponto à fraca atuação de Kirsten Dunst - que desempenha um papel frágil e pouco apelativo - a interpretação de Willem Dafoe é digna de vénia. Apesar de continuar a ser o meu intérprete favorito do herói aracnídeo, Tobey Maguire poderia - e deveria - ter incutido um pouco mais de carisma à sua personagem. Qualquer verdadeiro fã do Cabeça de Teia sentiu falta das suas piadinhas infames, que nos arrancam gargalhadas e deixam os criminosos à beira de um ataque de nervos.
Em suma, Homem-Aranha é uma película bastante divertida e de fácil entendimento que, graças a múltiplos elementos técnicos e narrativos de qualidade, garantiu lugar de destaque no imaginário coletivo e, em particular, na memória afetiva dos fãs que há muito ansiavam por ver o seu ídolo a balançar-se de teia em teia no grande ecrã.





.*Este blogue tem como Guia de Estilo o Acordo Ortográfico de 1990 aplicado à variante europeia da Língua Portuguesa;
**Artigos sobre Steve Ditko e A Morte de Gwen Stacy disponíveis para leitura complementar.