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16 janeiro 2016

CLÁSSICOS DA 9ª ARTE: «ZERO HORA: CRISE NO TEMPO»




  Desdobramento de Crise nas Infinitas Terras, esta saga retroativa teve como principal objetivo corrigir algumas inconsistências herdadas do Multiverso. Corrompido pelo formidável poder de Parallax e obstinado em remodelar a Existência à sua imagem, Hal Jordan serviu de catalisador para mais este ajustamento cronológico da DC.

Título original: Zero Hour: Crisis in Time
Licenciadora: DC Comics
Data de publicação: Setembro de 1994
Número de volumes: 5
Autores: Dan Jurgens (argumento e arte) e Jerry Ordway (arte-final)
Personagens principais: Hal Jordan/Parallax, Waverider (Tempus), Extant (Extemporâneo), Superman (Super-Homem), Wonder Woman (Mulher-Maravilha), Batman, The Spectre (Espectro), Green Lantern (Lanterna Verde Kyle Rayner), Rip Hunter e Time Trapper (Senhor do Tempo)
Coadjuvantes: Captain Atom (Capitão Átomo), Arsenal, Ray, Hawkman (Gavião Negro), Darkstar, Impulse (Impulso), Green Lantern (Lanterna Verde Alan Scott), Liri Lee, Supergirl, Superboy, Martian Manhunter (Caçador de Marte), The Flash (Jay Garrick), Shazam (Capitão Marvel), Power Girl (Poderosa), Batgirl, Alpha Centurion (Centurião Alfa), Darkseid, New Gods (Novos Deuses), Linear Men (Homens Lineares) e Damage (Detonador)

Edição brasileira



Data de publicação: Agosto a outubro de 1996
Editora: Abril
Categoria: Minissérie em 5 fascículos (48 páginas cada)
Formato: Americano (17x 26 cm), colorido e com lombada agrafada
Na minha coleção desde: 1996


Antecedentes: 



  Sugestivamente sub-titulada de Crise no Tempo, Zero Hora assumiu-se como um evento tardio desdobrado de Crise nas Infinitas Terras. Saga já aqui esmiuçada e que, menos de uma década antes, unificara o anárquico Universo DC. Contudo, mercê de algumas inconsistências herdadas do Multiverso. fez-se necessário novo ajustamento cronológico.
   Um dos problemas supervenientes dessa primeira reestruturação editorial consistiu na preservação das versões clássicas de algumas personagens de charneira. Cuja reformulação, nalguns casos, demorou anos a ser feita. Acentuando dessa forma as incongruências e paradoxos que pontuavam (e continuam a pontuar) a continuidade pós-Crise.
  Gavião Negro foi um dos exemplos mais problemáticos, na medida em que a sua versão atualizada surgiria somente em 1989 (três anos após Crise nas Infinitas Terras). Ínterim durante o qual o herói manteve o seu alter ego Carter Hall, reminiscência da Idade da Prata. Sendo, no entanto, subsequentemente retratado como um espião thanagariano chamado Fel Handar.
 Também a Legião dos Super-Heróis enfrentou problemas similares, decorrentes essencialmente da eliminação do Superboy (Kal-El) e da Supergirl (Kara Zor-El) da sua história. Mon-El, legionário daxamita dotado de poderes idênticos aos do Superboy, foi uma das soluções de recurso encontradas. Renomeado de Valor, teve a sua origem retocada por forma a poder ocupar o lugar do jovem herói krptoniano sentenciado ao oblívio.
  Sucede que essas e outras alterações nem sempre tiveram acolhimento favorável por parte dos leitores. Acabando mesmo em alguns casos por acrescentar problemas aos preexistentes. Ou, como diria Bocage: "Foi pior a emenda do que o soneto".
  Tornou-se, portanto, imperativa a tomada de medidas drásticas a fim de contrariar o caos que começava de novo a contaminar o Universo DC.
  Numa representação simbólica da contagem decrescente até à grande e anunciada deflagração espaço-temporal, Zero Hour foi publicada retroativamente e interligada com os principais títulos DC. Tendo sido, também, obra de um só homem. Arquitetada na totalidade por Dan Jurgens, coube a Jerry Ordway arte-finalizar os seus esboços.

Dan Jurgens, o solitário arquiteto de mais um reboot do Universo DC.

 Antes e durante Zero Hour, diversas personagens experienciaram inexplicáveis anomalias cronológicas nas suas histórias. Destruídas as barreiras temporais, desencadeou-se a inelutável voragem da entropia. Linhas temporais divergentes amalgamaram-se com o universo principal, à medida que a própria realidade se esboroava.
  Uma das situações mais dramáticas ocorreu quando a Sociedade da Justiça da América foi dizimada por Extemporâneo. Sobrevindo desse facto o perecimento de heróis da Idade do Ouro, como Senhor Destino e Homem-Hora. Ainda na esteira desses fenómenos cronológicos, a Legião dos Super-Heróis - e com ela todo o século 30 - teve a sua existência apagada.
 No rescaldo dos eventos narrados na saga, outubro de 1994 foi referenciado como Zero Month (Mês Zero). Sem exceção, todos os títulos ativos da DC (a que se somaram algumas novidades editoriais) foram renumerados, voltando literalmente à estaca zero. Expediente que possibilitou aos respetivos argumentistas procederem às necessárias retificações na continuidade das personagens.
  Em última análise, Zero Hour permitiu à DC arrumar a casa. Ou, pelo menos, varrer para debaixo do tapete alguns dos problemas herdados do período pré-Crise. Longe de ter sido uma solução definitiva para as inconsistências cronológicas que continuam a caracterizar a mitologia da Editora das Lendas, a saga teve o mérito de restaurar alguma da ordem perdida. Servindo, de caminho, para revitalizar alguns dos títulos mais emblemáticos da companhia, na expectativa de assim captar uma nova safra leitores.

Imagem promocional de Zero Month.


Quem é o Extemporâneo?




  Em 1991, um novo supervilão oriundo de um futuro opressivo foi introduzido na mitologia da DC. Monarca era o seu nome. Depois de ter chacinado a totalidade dos super-heróis, ele era o soberano absoluto e único protetor da Terra no ano de 2030.
   Tempus, indivíduo cujo vínculo com o fluxo cronológico lhe permitia viajar no tempo, era a única pedra no sapato do todo-poderoso Monarca.
  Quando Tempus voltou ao passado com o intuito de evitar a ascensão do tirano, este seguiu-o em segredo através de uma brecha temporal criada pelo herói. Falhado o seu plano de antecipar os eventos que conduziriam ao seu reinado de terror, a identidade do Monarca foi enfim revelada. Outrora conhecido como Hank Hall, notabilizara-se como Rapina, herói que passara pelas fileiras dos Novos Titãs.
   Estes eventos ocorreram em Armageddon 2001, arco de histórias que já aqui foi objeto de análise. Sugiro, por isso, que despendam alguns minutos do vosso precioso tempo a ler a minha resenha, caso estejam interessados em recordar ou aprofundar os vossos conhecimentos sobre essa saga.

Tempus, figura-chave de Armageddon 2001 e Zero Hour.

 Voltando à história do Monarca, o vilão dedicaria depois uma parte considerável da sua vida a combater o Capitão Átomo através do fluxo temporal. Numa dessas ocasiões ele drenou uma porção das habilidades de Tempus, obtendo assim um vislumbre do seu próprio passado. Foi, pois, dessa forma que descobriu que se tinha transformado em alguém muito superior a Hank Hall.
 Com efeito, o Monarca não se limitara a matar Columba. Absorvera também a essência da antiga parceira heroica de Hank Hall. Gerando por essa via uma fusão entre os Filhos da Ordem e os Filhos do Caos. Nesse dia nasceu um novo e poderoso vilão: Extemporâneo.
  Depois de extorquir as manoplas a Tempus, Extemporâneo conectou-se ele próprio com o fluxo temporal, passando assim a poder realizar excursões cronológicas a seu bel-prazer.
 

Qual a relação entre Hal Jordan e Parallax?


  
  Durante a saga O Regresso do Super-Homem (também já aqui esmiuçada), Coast City foi obliterada por Mogul e pelo Supercyborg. Profundamente transtornado pela perda do seu lar e dos seus entes queridos, o Lanterna Verde Hal Jordan usou o seu anel energético para recriar a cidade devastada. Decisão que lhe valeu uma vigorosa reprimenda por parte dos Guardiões do Universo. Ao usar o poder do seu anel em benefício próprio, Hal violara um dos preceitos fundamentais da Tropa dos Lanternas Verdes.
 Intimado a comparecer em Oa, Hal insurgiu-se contra os Guardiões e apropriou-se da energia da Bateria Central que permite aos Lanternas Verdes recarregarem os seus anéis. De volta à Terra, usou essa energia para gerar um construto permanente de Coast City.
 Forçado a enfrentar os seus camaradas de armas, Hal assassinou muitos deles, deixando outros à beira da morte depois de expropriá-los dos seus anéis. De seguida, viajou novamente até Oa, onde prosseguiu a carnificina. Sinestro, Kilowog e todos os Guardiões do Universo (exceto Ganthet) morreram às suas mãos.
 Imbuído do poder dos Guardiões, Hal mergulhou no núcleo da Bateria Central, dela emergindo transfigurado. Parallax era a mais recente ameaça cósmica e prometia não deixar pedra sobre pedra no Universo (promessa que cumpriria com denodo).

   

Enredo: Para assombro geral, duas personagens de realidades alternativas materializam-se repentinamente no Universo primordial. O primeiro desses visitantes autodenominava-se Centurião Alfa e alegava ser um antigo soldado romano abduzido por extraterrestres, sendo posteriormente transplantado para o século XX, onde se tornou o campeão de Metrópolis. Já a segunda náufraga temporal era uma variante da Batgirl do nosso mundo.
  Estas e outras anomalias detetadas no espaço-tempo eram causadas por um bizarro fenómeno chamado "compressão temporal". Com efeito similar ao do vagalhão de antimatéria responsável pela aniquilação do Multiverso em Crise nas Infinitas Terras, uma onda de entropia varre toda a existência, apagando sucessivas eras históricas.
  Por detrás do cataclismo aparenta estar um novo e poderoso vilão chamado Extemporâneo. Dotado de poderes temporais, ele descobrira o Universo primordial e parecia empenhado em alterar a sua cronologia.
  Depois de confrontar e derrotar a Sociedade da Justiça da América, Extemporâneo provoca a morte  de vários dos seus integrantes ao anular os efeitos que retardavam o seu envelhecimento desde a década de 1940.
   Apesar do seu formidável poder, Extemporâneo é, afinal, um mero peão do verdadeiro mentor do caos e destruição que, como fogo em palha seca, alastravam pelo Universo.
 Outrora um dos mais valorosos heróis da Terra, Hal Jordan - agora transformado em Parallax - assume-se como o maestro da diabólica sinfonia que ameaça a própria Existência. Completamente insano, Hal deseja refazer o Universo, impedindo assim os eventos que conduziram à destruição de Coast City.
  Graças ao esforço coletivo dos heróis, Parallax é detido antes de concluir a sua empreitada de remodelação do Universo de acordo com os seus caprichos. Mesmo enfraquecido devido ao enorme dispêndio de energia, Hal Jordan sobrevive quando tem o coração trespassado por um flecha disparada pelo Arqueiro Verde (seu amigo de longa data).
  Restaurada a linha temporal primordial, a sua cronologia sofre algumas alterações. Efeitos do novo Big Bang desencadeado pelo Detonador, um jovem herói com inacreditáveis poderes explosivos.
 Consequentemente, nas últimas páginas da saga os desenhos são parcialmente rasurados, simulando dessa forma os saltos no tempo e o desaparecimento dos diferentes mundos paralelos. Refletindo o culminar da entropia, a última página foi deixada em branco.

Devorados pela entropia.

Consequências: Para ajudar os leitores - aturdidos por mais este reboot do Universo DC - a perceberem o que estava em causa, a contracapa do derradeiro capítulo de Zero Hour incluía um esquema da nova linha do tempo. Esquema esse que identificava vários eventos-chave que haviam conduzido ao grande ajustamento cronológico em curso. E no âmbito do qual foram estabelecidas datas para as estreias das figuras de proa da editora. Convencionou-se, assim, que doravante o período pós-Crise corresponderia a dez anos atrás. Justificando dessa forma o facto de as personagens não terem as suas idades alteradas.
   Dois problemas bicudos em matéria de continuidade, a Legião dos Super-Heróis e o Gavião Negro tiveram as suas mitologias profundamente reformuladas. No caso do herói alado, as suas múltiplas versões amalgamaram-se numa única personagem. Solução que não tardaria, porém, a relevar-se problemática, originando novas contradições e equívocos.

Gavião Negro, um monumento à esquizofrenia do Universo DC.

  Após a conclusão da saga, várias personagens tiveram as suas origens recontadas e o portefólio editorial da DC foi amplamente reestruturado. Tendo a Liga da Justiça como matriz, surgiram novas formações heroicas, o filho do Arqueiro Verde (Connor Hawke) foi introduzido nas aventuras do progenitor e Guy Gardner assumiu a identidade de Guerreiro na sequência da descoberta de uma ancestral herança alienígena que lhe concedia novos poderes.
  Nem as personagens mais emblemáticas da Editora das Lendas escaparam indemnes à revolução emanada de Zero Hour. Que o digam Batman e Mulher-Gato, cujas origens foram cirurgicamente retocadas. Entre as principais alterações à história do Homem-Morcego avultava agora o facto de ele nunca ter prendido ou confrontado os assassinos dos seus pais (fazendo dessa forma tábua rasa dos acontecimentos mostrados em Batman: Year Two).
  Retratada como uma prostituta em Batman: Year One (arco de histórias já aqui esmiuçado), a sedutora ladra com uma notória afinidade com felinos teve essa parte do seu passado eliminada. Sem qualquer referência à prática da mais velha profissão do mundo, Seline Kyle era agora apresentada como a mais ilustre moradora de uma bairro pobre de Gotham City. Já Dick Grayson (o primeiro Menino Prodígio), após décadas como pupilo de Bruce Wayne, viu ser-lhe conferido o estatuto de filho adotivo do milionário alter ego do Cavaleiro das Trevas.
  Zero Hour também abriu caminho para o lançamento de novas séries, bem como para o cancelamento de outras. Estratégia de marketing que não produziu contudo os resultados esperados. Muitos desses novos títulos teriam existência efémera, sendo extintos ao fim de poucos meses em consequência das fracas vendas. Honrosa exceção foi Starman, cujo sucesso junto dos leitores  e da crítica balizaria a forma como os editores deveriam reabilitar as personagens da Idade do Ouro.
  A receita narrativa de Starman, que consistia em servir aventuras ambientadas no presente mas refletindo acontecimentos passados, seria depois reproduzida nas histórias da Sociedade da Justiça da América, outra das séries a fazer furor nesse período.

Capa de Starman nº0, uma das mais bem-sucedidas séries no panorama editorial pós-Zero Hour.

  Contudo, nem todos os problemas de continuidade do Universo DC foram resolvidos por Zero Hour. Sobejavam ainda várias pontas soltas, que não tinham sido atadas nem cortadas, ameaçando tornar-se num enorme emaranhado. Entre elas incluía-se o futuro distópico mostrado em Armageddon 2001, história que requeria elementos de linhas divergentes entretanto eliminadas. Entre elas encontrava-se o chamado Universo Compacto. Levantando assim a questão do que fazer com a Supergirl/Matriz (criatura de protoplasma originária dessa realidade). Objetivando solucionar esse e outros quebra-cabeças, a DC introduziu o conceito de Hipertempo. Que mais não era do que uma declinação do velhinho Multiverso pré-Crise.
   Em vez de o resolver, o Hipertempo tornar-se-ia rapidamente em parte do problema. Com os editores da DC a resolverem em 2005 cortar o mal pela raiz através de Crise Infinita, saga que resgataria diversos conceitos remontando ao período que precedeu Crise Nas Infinitas Terras.

Um novo começo para o Homem de Aço e para todo o Universo DC.

Notas: 

* Conquanto Worlds Collide (crossover da DC e da Milestone Media produzido meses antes de Zero Hour) haja sido apagado da continuidade da Editora das Lendas em consequência dos eventos narrados na saga, o naipe de personagens proveniente do chamado Dakotaverso seria incorporado na mitologia DC em 2009;
* Dado o alcance temporal de Zero Hour, algumas das suas ramificações estenderam-se até anos vindouros. Em 2008, por exemplo, durante um encontro fortuito ocorrido no continuum espaço-temporal, o Besouro Azul e o Gladiador Dourado viram-se forçados a defrontar Parallax e Extemporâneo;
* Inebriado pelo poder de Parallax, Hal Jordan propôs-se recriar o Multiverso. Desígnio insólito, considerando que ele não deveria conservar qualquer memória dessa realidade pregressa. Importa observar, a este propósito, que Hal estivera ausente durante os cataclísmicos eventos de Crise nas Infinitas Terras. Pouco antes da batalha final contra o Anti-Monitor na aurora dos tempos, Hal renunciara às suas funções na Tropa dos Lanternas Verdes, sendo readmitido apenas após a conclusão da saga.

Como podia Hal Jordan rememorar eventos que não vivenciara?


Vale a pena ler?


 Primeira de muitas sequelas de  Crise nas Infinitas Terras, Zero Hora cumpriu com razoável mérito o seu propósito de eliminar algumas das pontas soltas herdadas da sua antecessora. Perdendo, todavia, na comparação com ela. Não só pelo menor impacto que dela decorreu na cronologia do Universo DC, mas sobretudo por ser uma história datada.
  Se o leitor não estiver familiarizado com a realidade do Universo DC em 1994, muito do que está em causa na saga soar-lhe-á irrelevante. Zero Hora não é, pois, uma saga intemporal. Ironia que lhe retira algum valor narrativo ao mesmo tempo que lhe reforça o valor histórico.
  Em contrapartida, apesar dos muitos elementos comuns com Crise nas Infinitas Terras, Zero Hora é de mais fácil digestão. Contribuindo para isso o menor número de personagens, a trama mais compacta e um compasso narrativo mais ligeiro.
  Divertida quanto baste, Zero Hora foi mais uma eloquente expressão da relação amor-ódio que a DC mantém há demasiado tempo com o seu labiríntico Multiverso. A exemplo de vários outros exercícios de revisionismo dos cânones da Editora das Lendas, esta saga foi apresentada como panaceia para os crónicos problemas de continuidade que são a sua pedra de toque. Porém, quanto muito, poderá ser perspetivada como um paliativo.
  Conforme atestam, aliás, os cíclicos ajustamentos cronológicos (4 só neste século) levados cabo no período subsequente à publicação de Zero Hora. E que, invariavelmente, assumem a forma de sagas de grande magnitude que prometem não deixar nada como está. Mas que, no final das contas, mais não fazem do que baralhar e voltar a dar.
  Baralhados ficam sem dúvida os leitores - mesmo os mais veteranos - com estes sucessivos reboots, com a palavra "crise" quase sempre inclusa nos respetivos títulos ou sub-títulos. Este vocábulo de origem grega parece, de resto, corresponder a outro dos fetiches dos mandachuvas da DC. Curioso verificar que ele preside há mais de 30 anos ao seu léxico. Servindo, porventura, para esconder uma certa crise de criatividade instalada na Editora das Lendas (e, por extensão, a toda a indústria dos comics).
  Face ao exposto, talvez fosse já tempo de a DC decidir o que quer fazer com o seu caleidoscópio de mundos paralelos. Assumi-lo ou renegá-lo de uma vez por todas. Porque começa a não haver paciência para este círculo vicioso de fins e recomeços.
 
O que fazer com um Multiverso em constante convulsão?

   

05 maio 2015

ETERNOS: GEORGE PÉREZ (1954 - ...)



    Um dos mais talentosos e idolatrados artistas ainda no ativo, atingiu o apogeu ao serviço da DC, ficando o seu nome associado à mãe de todas as sagas produzidas pela Editora das Lendas. No entanto, os primeiros passos na indústria dos quadradinhos foram dados na eterna rival.

Biografia e carreira: Primogénito de um modesto casal de imigrantes porto-riquenhos que se conheceu em terras do Tio Sam, George Pérez nasceu a 9 de junho de 1954 no Bronx, Nova Iorque. Menos de um ano depois, nasceria David, o seu irmão mais novo. Aspirando ambos a uma carreira artística, foi contudo George a revelar um talento precoce para a ilustração. Com apenas cinco anos, começou a desenhar, para assombro dos pais (ele operário numa fábrica de embalamento de carne; ela dona de casa a tempo inteiro).
   Corria o ano de 1973 quando George Pérez teve o seu primeiro contacto com a indústria dos comics, na qualidade de assistente do artista Rich Buckler (celebrizado pelo seu trabalho com o Pantera Negra). Em agosto do ano seguinte, George estreou-se como profissional ao serviço da Marvel Comics, para a qual desenhou uma sátira de duas páginas de Deathlok (personagem  cuja paternidade pertencia justamente a Buckler), publicada em Astonishing Tales nº25.
   O talento do jovem artista não passou despercebido aos mandachuvas da Casa das Ideias. Em pouco tempo, George assumiria a arte de Sons of the Tiger, série de artes marciais escrita por Bill Mantlo e há muito publicada no magazine pulp Deadly Hands of Kung Fu, inserido na linha de títulos a preto e branco da Marvel.
   Aproveitando a enorme popularidade nessa época das histórias envolvendo artes marciais, George e Bill criaram em conjunto o Tigre Branco. Embora se tenha estreado nas páginas de Deadly Hands of Kung Fu, aquele que foi o primeiro super-herói porto-riquenho logo migraria para os títulos coloridos da editora, fazendo várias aparições nas histórias do Homem-Aranha.

Deadly hands of kung fu 1975.jpg

Primeira cocriação de Pérez, o Tigre Branco debutou nas páginas de Deadly Hands of Kung-Fu (em cima).

   Na segunda metade da década de 70, George Pérez ganhou maior projeção por via do seu trabalho em The Avengers (série mensal que desenharia entre 1975 e 1980). Durante esse período emprestou o seu traço a várias outros títulos regulares da Marvel, designadamente The Inhumans, Creatures on the Loose (revista dedicada ao sobrenatural, na qual pontificava o Homem-Lobo) e Fantastic Four. Foi, de resto, numa edição anual do Quarteto que George colaboraria pela primeira vez com o escritor Marv Wolfman (ver biografia já publicada neste blogue). Anos depois, a dupla, conforme veremos adiante, seria responsável por algumas das mais bem-sucedidas sagas da DC.
Os Vingadores pelo traço de George Pérez.
   Em 1980, enquanto continuava a desenhar as histórias dos Vingadores - e já depois de ter cocriado com David Michelinie o vilão conhecido como Treinador (Taskmaster em inglês) - George Pérez começou a trabalhar simultaneamente para a DC. Sondado para assumir a arte de The New Teen Titans - a mais recente aposta da editora para recuperar algum do terreno perdido para a concorrência -, aquilo que verdadeiramente o aliciou foi a perspetiva de poder vir a desenhar a Liga da Justiça, algo que ele considerava ser uma extensão natural do seu duradouro trabalho com os Vingadores.
   Num golpe de asa do Destino, o veterano artista de JLA, Dick Dillin, faleceu pouco depois da mudança de Pérez para a DC.Chamado a substituir o malogrado colega, Pérez logo encantou os fãs com o seu traço límpido e dinâmico.

Depois dos Vingadores, a Liga da Justiça. Poucos artistas tiveram o privilégio de desenhar duas das mais emblemáticas equipas de super-heróis da 9ª arte..

  Naquilo que pretendia ser a resposta da DC ao estrondoso sucesso dos X-Men à época, em 1980 foi lançada uma nova encarnação dos Titãs. Projeto que marcaria o auspicioso reencontro de George Pérez com Marv Wolfman. Em agosto de 1984, o surpreendente êxito de The New Teen Titans abriu caminho para uma segunda série, também ela produzida pela dupla-maravilha.
  Com o tempo, Pérez foi aprimorando a sua arte, evidenciando uma crescente facilidade em desenhar cenários, rostos e outros detalhes que faziam as delícias dos leitores, e que o elevaram ao estrelato. Ao longo da sua longa e próspera carreira, Pérez revelou, com efeito, uma especial predileção por desenhar coletivos super-heroicos. Com alguns desses trabalhos a serem premiados e a servirem de referência a outros artistas.

A icónica capa de The New Teen Titans nº1(1980) com arte de Pérez.
  Em finais de 1984, Pérez abandonou as histórias dos Titãs para se juntar a Marv Wolfman no ambicioso projeto editorial que a  DC tinha na calha para assinalar o seu cinquentenário: a monumental saga Crise Nas Infinitas Terras. Trabalho que, na opinião de muitos, foi a obra-prima do artista de ascendência porto-riquenha.
  No período pós-Crise, George Pérez voltaria a formar equipa com Marv Wolfman para, em novembro de 1986, produzir The History of the DC Universe, compêndio ilustrado que sumariava a nova continuidade da Editora das Lendas.
Crise nas Infinitas Terras deixou a indústria e os fãs de comics definitivamente rendidos ao  talento de George Pérez.
   Escolhido em 1987 para assumir a arte do novo título da Mulher-Maravilha, George Pérez inspirou-se nos trabalhos de John Byrne e Frank Miller - em Superman e Batman, respetivamente -, para dar um novo alento às histórias da Princesa Amazona Numa fase inicial, teve como parceiros criativos os escritores Greg Potter e Len Wein, acabando no entanto Pérez por assumir também o argumento. Sob a sua batuta, foram reforçados os laços da Mulher-Maravilha com os deuses gregos, com as histórias da heroína a serem igualmente depuradas de corpos estranhos introduzidos no pré-Crise.
  Ainda que não tão impactante como The New Teen Titans ou Crisis on Infinite Earths, a nova série da Mulher-Maravilha foi bem-sucedida no seu propósito de revitalizar aquela que, a par do Super-Homem e do Batman, é uma das figuras de proa da DC. A ligação de Pérez a Wonder Woman prolongar-se-ia por cinco anos (1987-1992), embora em metade desse tempo apenas na qualidade de argumentista.

Wonder Woman foi o segundo trabalho produzido por Pérez na ressaca da Crise.

   Em dezembro de 1988 - e já depois da série ter sido renomeada The New Titans -George Pérez voltou às histórias dos Titãs, na dupla qualidade de desenhador e coargumentista. Esta sua segunda passagem pelo título ficaria marcada pela nova origem da Moça-Maravilha (atando assim uma das pontas soltas de Crise nas Infinitas Terras) e pela introdução de Tim Drake como o terceiro Menino-Prodígio.
   Seguir-se-ia, em meados de 1989, uma meteórica passagem de Pérez por Action Comics e Adventures of Superman (aqui como argumentista). Não tendo, porém, sido este o seu primeiro contacto com as histórias do Homem de Aço. A ligação de Pérez ao herói kryptoniano começara, com efeito, meia dúzia de anos antes, em junho de 1983, quando concebeu a icónica armadura de combate de Lex Luthor em Action Comics nº544.

O traje blindado de Luthor ( idealizado por George Pérez e, nesta imagem, com arte de Gil Kane e Dick Giordano) permitia ao vilão equilibrar um pouco as coisas com o Homem de  Aço.

  Devido à sobrecarga de trabalho decorrente da sua colaboração simultânea com Wonder Woman e Action Comics, Pérez viu-se forçado a abandonar este último em abril de 1990. No ano seguinte, a relação do artista com a DC conheceu uma fase delicada. Na origem desse frisson estiveram essencialmente dois fatores: por um lado, Pérez considerava que a editora não estava tão empenhada como deveria em assinalar os 50 anos da Mulher-Maravilha; por outro, a decisão da DC em distribuir a saga War of the Gods (escrita por Pérez) usando apenas o circuito de lojas especializadas desagradou ao artista.
  As tensões foram-se acumulando e, quando os editores da DC resolveram substituir Pérez por William Messner-Loebs como argumentista de War of the Gods, foi a gota de água que fez transbordar o copo. Inconformado com a decisão, Pérez desistiu do projeto e divorciou-se da Editora das Lendas por vários anos. Na base desse ressentimento do artista, esteve também o facto de ter sido atribuída ao seu sucessor a missão de escrever a cena final da saga apresentando o casamento das personagens Steve Trevor e Etta Candy (ideia cujos créditos pertenciam a Pérez).
  Ainda em 1991, Pérez foi contratado pela Marvel para desenhar os seis capítulos da saga Infinity Gaunlet (Desafio Infinito, minissérie editada pela Abril em 1995) da autoria de Jim Starlin. As coisas não correram, porém, como esperado. Em consequência da turbulência ocorrida em War of the Gods, e coincidindo com um período atribulado da vida pessoal de Pérez, este apenas conseguiu finalizar quatro dos seis volumes previstos da saga. Cabendo, assim, a Ron Lim desenhar os outros dois. Apesar de Pérez se ter disponibilizado para assessorar o seu substituto, os editores da Casa das Ideias acharam por bem afastá-lo do projeto.
   Em virtude destes dois episódios, George Pérez ganhou a fama de ser um artista virtuoso, porém incapaz de levar os seus projetos até ao fim. Colocado na prateleira pelas duas principais licenciadoras, Pérez virou-se então para as editoras independentes.
   Na Malibu Comics desenhou Break-Thru e Ultraforce (títulos que integravam o chamado Ultraverso). Ao passo que na Tekno Comix foi responsável pelas ilustrações de I-Bots. Embora principescamente pago, Pérez não se sentia empolgado com as personagens que tinha em mãos e logo perderia o interesse em colaborar com os respetivos títulos.



Duas máculas no currículo de Pérez.
   Afastado dos holofotes ao longo dos primeiros anos da década de 1990 - ainda que tenha participado em diversos projetos nesse período - Pérez regressaria à Casa das Ideias em finais de 1992 para desenhar o arco de histórias Hulk: Future Imperfect (Hulk: Futuro Imperfeito) escrito por Peter David. Com este a eleger Pérez como seu ilustrador favorito, e um dos três cuja arte conseguia materializar na perfeição as suas ideias e conceitos.
   Feitas finalmente as pazes com a DC, Pérez regressou à Editora das Lendas, em outubro de 1996, para assumir a arte-final de Dan Jurgens nos primeiros 15 números de Teen Titans vol.2 (série que seria cancelada em setembro de 1998, ao cabo de 24 edições).
   A exemplo de muitos dos seus colegas de ofício nos anos 1990, Pérez também se aventurou na criação de material próprio. Com os resultados a ficarem, porém, aquém das expectativas. Publicada originalmente em 1997 pela defunta Event Comics, Crimson Plague era uma inacabada novela gráfica de ficção científica protagonizada por uma alienígena com sangue tóxico. Três anos volvidos, e já sob a égide da Gorilla Comics, o primeiro número da série seria reeditado sendo-lhe adicionadas algumas páginas inéditas.

Outro dos projetos inacabados de Pérez.
  Seria ainda lançado um segundo número de Crimson Plague antes de os elevados custos da autoedição levaram Pérez a desistir do projeto, desconhecendo-se até hoje se tencionaria fazer algo mais com esse material.
  No início deste século, a sua passagem pela CrossGen também não correu de feição, visto que a editora faliu poucos meses depois de Pérez ter sido contratado para desenhar o seu título de charneira, Solus.
  Encerrado esse parêntesis na sua carreira profissional, o regresso de Pérez à ribalta ocorreu na viragem do século ao serviço da Marvel. Em 1999, juntou-se ao escritor Kurt Busiek na muito ovacionada terceira série de The Avengers. Como nos bons velhos tempos, a arte de Pérez deixou os fãs extasiados, ao ponto de eles o absolverem dos seus pecadilhos passados.
  Quando, três anos depois, Pérez deixou o título, teve ainda tempo e energia para, em conjunto com Busiek, produzir o há muito aguardado crossover entre a Liga da Justiça e os Vingadores. Dado à estampa em 2003, as origens deste projeto comum da Marvel e da DC remontam ao princípio dos anos 1980. Cancelado devido a divergências entre as duas editoras, a sua versão original contava com 21 páginas desenhadas por Pérez, as quais seriam inclusas, em 2004, na edição encadernada da saga.

Pérez sentiu-se como peixe na água a desenhar o épico JLA/Avengers. 
   Em 2011, cinco anos após o seu mais recente regresso à DC (em efervescência devido aos Novos 52!), Pérez tornou-se argumentista de Superman, assegurando também a arte das capas. Paralelamente, num projeto que reuniu a equipa criativa responsável pelo êxito dos Novos Titãs em meados da década de 1980, ele e Marv Wolfman produziram a aclamada graphic novel New Teen Titans: Games.
  Pérez justificou, em julho de 2012, a sua saída extemporânea do título do Homem de Aço (do qual escreveu somente 6 números) com a enorme pressão editorial a que foi submetido. Uma das suas principais razões de queixa assentava na incapacidade dos seus editores em explicarem-lhe alguns aspetos básicos da nova continuidade do herói (como o facto de os seus pais adotivos estarem ainda vivos). Incoerências a que se somavam as dificuldades de articulação com o outro título do herói, Action Comics (escrito à época por Grant Morrison), ambientado cinco anos antes dos eventos narrados em Superman.


George Pérez foi um dos obreiros da reformulação do Super-Homem em Os Novos 52.

   Casado há mais de 30 anos com a ex-bailarina e atual professora de dança, Carol Flynn, George Pérez é diabético, tendo já sido submetido a uma operação à retina. Acumula as funções de diretor-adjunto da The Hero Initiative (projeto filantrópico patrocinado pela indústria dos comics) com o seu trabalho artístico. Aos 60 anos e com um currículo invejável, não pensa na reforma. Diz também não ter qualquer personagem favorita. Conhecida a sua preferência por desenhar magotes de heróis, talvez o bom e velho George acredite que, por vezes, quantidade é realmente sinónimo de qualidade.
  Independentemente do que o futuro lhe reserva, pelo seu extraordinário talento e pelo seu inestimável contributo à 9ª arte, George Pérez já garantiu há muito o seu lugar no Olimpo dos deuses da banda desenhada.

Autorretrato do Mestre.
Prémios e distinções: Sem surpresa, ao longo da sua prolífica carreira, George Pérez viu vários dos seus trabalhos distinguidos tanto pelos seus pares como pelos fãs. O primeiro prémio por ele arrebatado data de 1979: um Eagle Award para o melhor arco de histórias (The Avengers nº167, 168 e 170 a 177). Feito reeditado no ano seguinte e em 1986, nas categorias de, respetivamente, melhor arte de capa (ainda com Avengers) e artista favorito do público. Pelo meio, em 1983, recebeu um Inkpot Award para melhor ilustrador.
  Verdadeiro ano de ouro para Pérez, 1985 marcou a sua consagração definitiva: ao mesmo tempo que o seu nome era incluído na lista das 50 personalidades homenageadas pela DC no seu cinquentenário, Crise nas Infinitas Terras conquistava o Jack Kirby Award para melhor saga (galardão dividido com Marv Wolfman e reconquistado em 1986).
  Por três anos consecutivos (1985, 1986 e 1987), Pérez foi eleito pelo Comics Buyer's Guide (espécie de boletim periódico que dá a conhecer as preferências dos fãs) como o melhor ilustrador de capas. Ainda a enriquecer o seu impressionante portfólio, outros três prémios para melhor artista atribuídos pelo mesmo CBG nos anos de 1983, 1985 e 1987. Aos quais se somam muitos outros que - a título individual ou coletivo - distinguem o seu trabalho artístico. Indiferente a esta glorificação, Pérez conserva a sua humildade,sendo conhecido pela sua simpatia militante. Virtudes que fazem dele um artista de tarimba e um homem de caráter.



   

08 outubro 2014

CLÁSSICOS DA 9ª ARTE «CRISE NAS INFINITAS TERRAS»



   No ano em que comemorou meio século de existência, a DC resolveu reunificar a sua cronologia. Sentenciando, assim, à morte um intrincado Multiverso em constante expansão. Nesse novo começo, algumas personagens emblemáticas tiveram a sua mitologia revista, ao passo que outras, pura e simplesmente, deixaram de existir. Nada, porém, voltaria a ser como dantes.

Título original da saga: Crisis on Infinite Earths
Licenciadora: DC Comics
Publicada originalmente em: Crisis on Infinite Earths #1 a 12 (abril de 1985 a março de 1986)*
Argumento: Marv Wolfman
Arte: George Pérez
País: EUA

* Mercê da envergadura e alcance da saga, a mesma teve ramificações em praticamente toda a linha de títulos, à data, publicados pela DC.


Edição brasileira:



Título: Crise nas Infinitas Terras
Data: Maio a julho de 1989 (1ª série)*
Editora: Abril Jovem
Categoria: Série especial em três edições mensais**
Formato: Formatinho económico (13,5 x 19 cm), colorido e com lombada quadrada
Número de páginas: 132 por cada edição
Na minha coleção desde: 2009

* Em 1996 a Abril lançaria uma 2ª série da saga. Em 2003 seria a vez de a Panini Comics publicar uma edição encadernada composta por dois volumes em formato americano.
** A exemplo do que se verificou aquando da publicação do material original nos EUA, também no Brasil as ondas de choque da saga propagaram-se pelos títulos regulares da DC publicados, à data, pela editora Abril: Os Novos Titãs, Superamigos, Super-Homem e Super Powers.


A mãe de todas as crises.

Antecedentes: No período que antecedeu Crisis on Infinite Earths, as publicações da DC enfermavam de incoerências decorrentes de problemas de continuidade. Nenhuma das mais proeminentes personagens da editora dispunha de uma origem consistente. Nem o Super-Homem, o mais antigo dos heróis, era exceção. Retratado como o derradeiro sobrevivente do planeta Krypton, aquando da sua estreia não conseguia voar, sendo as suas habilidades sobre-humanas explicadas pelo facto de ter crescido num mundo com uma gravidade mais fraca. Não tardou, porém, a que o Homem de Aço fosse agraciado com o poder de voo, e que o nosso sol amarelo fosse referenciado como a fonte das suas formidáveis habilidades. Concomitantemente, a sua origem tornou-se mais complexa. Entre as várias alterações introduzidas, ressaltava o facto de o Último Filho de Krypton ter desenvolvido as suas capacidades ainda durante a infância, encetando a sua carreira heroica no início da puberdade como Superboy. Outros sobreviventes da destruição de Krypton foram posteriormente integrados na sua mitologia: Supergirl, Krypto, o Supercão e os habitantes de Kandor, entre outros. Adulterando irremediavelmente o conceito primordial de que Kal-El seria o único kryptoniano em todo o  Universo.
     Também a idade de algumas personagens deu azo a problemas. Sendo Batman um caso paradigmático. Como podia um simples humano, desprovido de quaisquer superpoderes ou habilidades especiais, conservar a sua vitalidade nos anos 1980, estando ativo desde a 2ª Guerra Mundial? Mais paradoxal só mesmo o facto de Dick Grayson (o primeiro Robin) ter demorado o tempo correspondente a 30 anos(!) na vida real para concluir o liceu. Um caso extremo de insucesso escolar...
    Contrassensos como estes estendiam-se a outras personagens, nomeadamente a Flash, Lanterna Verde ou Átomo, cujos poderes e origens amiúde diferiam ao sabor dos caprichos de argumentistas e editores.
    Porém, durante décadas pouco ou nada foi feito por parte dos responsáveis da DC para atar estas pontas soltas. Quis o Destino que a solução para um problema que ganhava proporções preocupantes surgisse sob a forma de uma história do Flash, publicada em 1961. Em setembro desse ano, nas páginas de The Flash #123, numa história intitulada Flash of Two Worlds, o Velocista Escarlate da Idade da Prata (Barry Allen) deu de caras com o seu predecessor da Idade do Ouro (Jay Garrick, popularizado no Brasil como Joel Ciclone). Coexistindo no mesmo espaço e no mesmo tempo, os mundos paralelos eram separados apenas por vibrações moleculares diferentes. Graças à sua supervelocidade (que lhe permitia também atravessar objetos sólidos), Flash conseguia sintonizar-se com as ditas vibrações moleculares, rompendo dessa forma a membrana invisível que apartava ambas as realidades.
     Estava assim dado o primeiro passo para a criação de um Multiverso constituído por uma multitude de Terras paralelas habitadas por heróis diferentes ou por versões alternativas das principais personagens da Editora das Lendas. Uma criação que, todavia, não tardaria a escapar ao controlo dos seus criadores...

Cover for Flash #123 (1961)
Flashes de dois mundos na história que, em 1961, lançou as bases para o Multiverso.

     Dentre as centenas de dimensões gémeas catalogadas, destacavam-se as Terras Um, Dois e Três. Sendo a primeira habitada pelas versões da Idade da Prata dos principais heróis e heroínas da DC (Flash Barry Allen, Lanterna Verde Hal Jordan, Gavião Negro Katar Hol, etc). Já a segunda servia de lar às suas respetivas contrapartes com origem na Idade do Ouro (Flash Jay Garrick, Lanterna Verde Alan Scott e os restantes membro da Sociedade da Justiça da América). Despojada de heróis, a terceira era uma espécie de reflexo invertido da primeira, nela pontificando as versões malignas de Super-Homem e companhia, reunidas no Sindicato do Crime da América. Avultavam, além destas, as Terras 4 (criada com o propósito de albergar as personagens adquiridas à Charlton Comics); S (introduzida com idêntica finalidade, mas referente à Família Marvel e demais personagens outrora propriedade da Fawcett Comics); X (onde os Combatentes da Liberdade, oriundos da extinta Quality Comics,combatiam a Alemanha nazi, vencedora da 2ª Guerra Mundial nessa realidade alternativa); Prime (mundo natal da Legião dos Super-Heróis no período pré-Crise e do pérfido Superboy Primordial); Universo de Antimatéria (também designado de Universo do Mal, o único composto por energia negativa e  lar do omnipotente Anti-Monitor).

Universo DC pré-Crise: um somatório de paradoxos.
 
    Citando Bocage, "foi pior a emenda do que o soneto". Para resolver um problema de continuidade, a DC, ao introduzir o conceito de Multiverso, criou um problema cem vezes maior. A uma já de si intrincada tapeçaria, foram, pois, acrescentadas mais pontas soltas e mais nós cegos. À medida que os anos iam passando e as Terras paralelas se iam reproduzindo em progressão aritmética, os leitores ficavam mais e mais confusos. Daí ao seu êxodo foi um pequeno passo.
    Para pôr termo a uma situação que ameaçava tornar-se insustentável, em 1985 (ano em que a Editora das Lendas comemorava o seu 50º aniversário) os mandachuvas da DC resolveram tomar medidas drásticas. A principal das quais consistiu na  reunificação da cronologia da editora, depurando-a de todos os paradoxos e inconsistências que a vinham fazendo perder terreno para a concorrência (leia-se Marvel Comics). A solução estaria encapsulada numa saga épica que assinalaria um novo começo para o Universo DC. E que, se tudo corresse conforme planeado, de caminho serviria para atrair uma nova leva de leitores.
    Marv Wolfman (vide texto anterior) e George Pérez - dupla criativa responsável, um par de anos antes, pelo enorme êxito da série The New Teen Titans -  foram os eleitos para dar forma a esse ambicioso projeto. A eles juntaram-se ainda os ilustradores Jerry Ordway, Mike DeCarlo e Dick Giordano.

 George Pérez (esq.) e Marv Wolfman abraçaram novo desafio.

    Uma das mais grandiosas e impactantes sagas da DC, Crisis on Infinite Earths foi um título inspirado em histórias anteriores envolvendo o contacto entre Terras paralelas incorporadas no chamado Multiverso, como foi o caso de Crisis on Earth-Two e de Crisis on Earth Three. Com efeito, ontem como hoje, a palavra "crise" ocupava lugar de grande destaque no léxico da Editora das Lendas, subjacendo-lhe a ideia de um conflito interdimensional, como aquele que, anos atrás, envolvera a Liga da Justiça da América e a Sociedade de Justiça da América em Crisis on Earth One.

Universo DC pré-Crise: (quase) nada voltaria a ser como  dantes.
 
    De acordo com o plano editorial inicialmente delineado, foi elaborada uma listagem que claramente definia quais eram as personagens que continuariam a fazer parte do Universo DC, e aquelas que seriam eliminadas. Numa reunião ocorrida fora da sede da editora - e na qual participaram a sua presidente (Jenette Khan), os seus vice-presidentes/editores executivos (Paul Levitz e Dick Giordano) bem como os restantes editores-, foram estabelecidas as linhas-mestras do projeto.
   O caminho para a anunciada revolução começou a ser pavimentado um ano antes do lançamento de Crisis on Infinite Earths. Período ao longo do qual o misterioso Monitor foi sendo gradualmente introduzido nas páginas de vários títulos da DC, invariavelmente dissimulado nas sombras, sugerindo tratar-se de um vilão.
   Incapaz de conciliar o seu trabalho de arte-finalista da saga com as funções de vice-presidente e editor executivo, Dick Giordano, malgrado as suas objeções, foi afastado do projeto, sendo substituído por Jerry Ordway.
  Contrariamente ao que o seu escopo e magnitude fariam prever, a promoção de Crisis on Infinite Earths foi virtualmente nula. Não obstante, a saga viria a revelar-se um estrondoso sucesso a vários níveis, incluindo o do marketing. Ao ser bem sucedida no seu desiderato de produzir um interesse renovado no Universo DC, Crisis on Infinite Earths teve, pois, o mérito de angariar um número considerável de novos leitores. Contrariando dessa forma a posição dominante detida pela Marvel no mercado editorial de comics. Outro dos seus méritos consistiu em desbravar caminho para a revitalização da Editora das Lendas, por intermédio de outras sagas igualmente arrojadas, como Watchmen (de Alan Moore) ou Batman: The Dark Knight Returns (de Frank Miller).
  Crisis on Infinite Earths popularizou ainda o conceito de crossover em larga escala, já antes experimentado pela Marvel através de Contest of Champions (1983) e de Secret Wars (1984). Foi assim inaugurada a tendência de, a cada ano, as duas arquirrivais lançarem uma maxissérie, cujos eventos e consequências são transversais ao respetivo cardápio de títulos regulares.
  No entanto, apesar de todas as suas virtualidades, Crisis on Infinite Earths revelou-se (como se perceberá mais abaixo) uma espécie de paliativo para a doença crónica de que, volvidos todos estes anos, a DC continua a padecer. Significando isto que, aos poucos, o Multiverso seria ressuscitado e, com ele, os velhos problemas de continuidade. Havendo, portanto, a necessidade de, uma e outra vez, repetir a terapêutica, sob a forma de sagas similares.Sempre  com o objetivo último de  atualizar uma cronologia a que é estranho o conceito de linearidade. Exemplos: Zero Hour (1994), Infinite Crisis (2005-06) e Final Crisis (2008-09). Com estas duas últimas a serem apresentadas pela DC como o segundo e terceiro capítulos de uma trilogia inaugurada por Crisis on Infinite Earths. E que, em última análise, serviram de preâmbulo para o projeto The New 52! (2011). Matérias para um próximo post...

Nas suas primeiras aparições, o Monitor foi tomado por uma ameaça.

Enredo: Desde a Aurora dos Tempos que Maltus era habitado por uma raça pacífica e altamente evoluída. Entre ela pontificava Krona, reputado cientista que almejava descobrir os segredos da criação do Universo. Para esse efeito concebeu uma sofisticadíssima máquina capaz de gerar um portal no espaço-tempo. Através dele, Krona pôde assistir com os seus próprios olhos ao momento que antecedeu a Criação. Contudo, algo correu mal e a máquina de Krona explodiu. Dessa explosão nasceu o Universo de Antimatéria. A sua simples existência originou uma onda de Mal, responsável pela corrupção de milhares de mundos. Simultaneamente, o nosso Universo foi desdobrado em infinitas dimensões paralelas, dando assim lugar ao Multiverso.
   Sentindo-se responsáveis pela catástrofe, os Maltusianos procuraram meios para erradicar o Mal libertado pela imprudência do seu compatriota. Alguns deles migraram então para o planeta Oa, passando a proteger o Cosmos como os Guardiões do Universo. Entre os vários instrumentos que utilizaram para esse fim, destacam-se os Caçadores Cósmicos e a Tropa dos Lanternas Verdes.
    Entretanto, numa das luas de Oa, nasceu um omnipotente ser que atendia pelo nome de Monitor. Ao mesmo tempo, numa das luas de Qward (um dos planetas do Universo de Antimatéria) ganhava vida a sua antítese: o Anti-Monitor. Pressentindo a presença um do outro, os dois seres empreenderam um titânica batalha que durou um milhão de anos. Até que, após um devastador ataque simultâneo, ambos ficaram em estado catatónico.

Monitor e Anti-Monitor: duas faces da mesma moeda.
 
    Incontáveis eras depois, numa das múltiplas Terras, outro brilhante cientista, Pária, permitiu que a sua obsessão acerca da génese do Universo se sobrepusesse ao mais elementar bom senso. À imagem e semelhança de Krona, desenvolveu uma câmara que lhe permitiria viajar através do continuum espaço-temporal até ao momento da Criação. Ao fazê-lo desencadeou uma imparável reação em cadeia que destruiu tudo à sua passagem. Pária tornou-se, assim, o único sobrevivente do seu malogrado Universo.

Pária, um homem amaldiçoado.

    Como se isso não bastasse, a explosão reverberou por toda a Existência, despertando o Monitor e, claro, o seu émulo malvado. O primeiro, intuindo os insanos planos do segundo, construiu um satélite onde catalogou os heróis e vilões das múltiplas Terras que, chegada a hora, o poderiam ajudar a deter o Anti-Monitor.
    Condenado a marcar presença nos locais onde a destruição está prestes a ocorrer, Pária é acompanhado nessas excursões pelo Monitor. Numa delas, o poderoso ser depara-se com uma jovem chamada Lyla, única sobrevivente de um naufrágio que vitimou toda a sua família. Sensibilizado pela tragédia da rapariga, o Monitor acolhe-a e treina-a para que ela seja a sua Precursora (Harbinger, no original).

Precursora, uma das personagens-chave da saga.

     A fim de aumentar o seu poder por forma a tornar-se o senhor absoluto da Existência, o Anti-Monitor liberta uma gigantesca onda de antimatéria que avança inexoravelmente através do Multiverso. Um dos primeiros mundos a ser aniquilado pela sua ação é a Terra 3. Nessa realidade singular, uma versão alternativa de Lex Luthor era o seu único benfeitor. Nos momentos que antecedem a destruição da Terra 3, os supervilões do Sindicato do Crime lutam, em desespero, pela salvação de um mundo que vezes conta tentaram subjugar.
   Numa sequência parecidíssima com o envio de Kal-El para a Terra ante a iminente destruição de Krypton, Luthor coloca o seu filho bebé numa nave que o levará para um mundo onde poderá crescer em segurança. Ao cruzar o espaço interdimensional, a nave é resgatada pela Precursora que, de seguida, a leva para o satélite do Monitor. Durante a passagem pela fenda vibracional que separa os universos paralelos, a criança torna-se um misto de matéria e de antimatéria, daí resultando uma profunda alteração na sua estrutura molecular. Em consequência disso, o pequeno Alex Luthor passa da infância à idade adulta em poucos dias.
    De uma ponta à outra do Multiverso, as múltiplas Terras têm as suas paisagens redesenhadas pela ação de terramotos, maremotos, furacões, erupções vulcânicas e falhas temporais. Milhares perecem sob os céus escarlates que servem de redoma aos mundos em agonia e que prenunciam o crepúsculo do Multiverso.
A equação do Multiverso.

   Seguindo as diretivas do seu mentor, Precursora reúne o primeiro lote de heróis e vilões de diferentes mundos e épocas. A sua missão: defender a qualquer custo os cinco dispositivos colocados pelo Monitor em outras tantas realidades com vista a impedir o avanço da onda de antimatéria lançada pela sua contraparte maligna.
    Vários elementos do contingente ao serviço do Monitor são feridos nas escaramuças que os opõem às forças do Anti-Monitor. Enquanto isso, heróis de vários mundos esforçam-se por tentar acudir às populações em pânico. Imparável, a Crise chega às Terras 1 e 2, disseminando-se por todas as épocas. Os seus efeitos fazem-se sentir até mesmo no século XXX, com a Legião dos Super-Heróis a combater as hordas invasoras do Anti-Monitor.
    Enquanto Flash (Barry Allen) corre freneticamente através das várias linhas temporais tentando alertar para a catástrofe iminente, Precursora, dominada pelo Anti-Monitor, assassina o Monitor. Este, contudo, previra a sua morte às mãos da sua protegida. Razão pela qual, ao perecer, a criatura liberta a energia necessária à ativação dos dispositivos por ele implantados em cinco realidades distintas.
    Contida a onda de antimatéria, o Universo volta ser único e indivisível como era nos alvores da Existência. Forma-se então um limbo, espécie de sub-universo onde as Terras 1 e 2 estão separadas somente por uma vibração que diminui a cada instante que passa. Ditando a iminente fusão e consequente aniquilação de ambas.
    Todos os heróis das Terras 1 e 2 são convocados para tentar salvar também as outras três Terras remanescentes (S,X  e 4). Enfrentam, contudo, enormes dificuldades, pois, manipulados pelo Pirata Psíquico, os heróis desses mundos tudo fazem para impedi-los de serem bem-sucedidos nesse desígnio. 


Pirata Psíquico.

     Longe dali, o Anti-Monitor ataca o satélite do seu falecido némesis. Num gesto de bravura, a Precursora faz-se explodir no interior da estrutura, sobrevivendo por um triz. Salvas da destruição, as Terras S, X e 4 juntam-se às Terras 1 e 2 no limbo.

Anti-Monitor, o artífice do ocaso do Multiverso.    
 
    Inspirados pela coragem da Precursora, diversos heróis de outras tantas realidades convergem, através de um túnel gerado por Alex Luthor, para o Universo de Antimatéria. Objetivo: tomar de assalto a fortaleza do Anti-Monitor e destruir as máquinas que estão a causar a desaceleração da vibração que separa as Terras. Um a um, porém, os heróis tombam. Apenas a Doutora Luz e o Super-Homem logram alcançar as máquinas. Quando este último se prepara para as destruir, o Anti-Monitor emerge das trevas e derruba-o. A Doutora Luz tenta em vão travar a criatura. Uma enfurecida Supergirl ataca então o Anti-Monitor. Mesmo sabendo que isso lhe custará a vida, ela abre brechas no traje de contenção do vilão, fazendo com que a sua energia se comece a dispersar.
   Num breve momento de desatenção em que ordena à Doutora Luz que leve o primo para um lugar seguro, a heroína kryptoniana é ceifada por uma rajada de antimatéria emitida pelo Anti-Monitor, que, de seguida, se põe em fuga. Num dos momentos mais emocionantes da saga, Supergirl morre nos braços  do Super-Homem. Não sem antes lhe pedir que não chore, pois foi ele quem lhe ensinou o valor da coragem.

A morte da Supergirl é um dos capítulos mais trágicos da saga.
   
    A fusão das Terras é travada, mas foi alto o preço a pagar. Aproveitando a comoção em torno da morte da Supergirl, o Anti-Monitor, já recuperado, inicia a construção de um canhão de antimatéria. Quando a arma está pronta a ser disparada, Flash (Barry Allen) usa a sua supervelocidade para desligar a sua fonte de energia, provocando dessa forma uma retroalimentação que destrói o canhão. No entanto, na sua corrida desenfreada o Velocista Escarlate começa a viajar no tempo e o seu corpo começa a desintegrar-se, até nada mais restar do que pó.

Flash fez o sacrifício supremo em prol da sobrevivência do que restava do Multiverso.

    Tudo parece encaminhar-se para um desfecho feliz. A fusão das Terras está controlada, mas subsistem ainda algumas ameaças. Sendo a maior aquela que é representada pelos supervilões. Kid Flash é convocado pela Precursora e pelo Flash original (Jay Garrick), porque a sua supervelocidade é necessária para ativar a Esteira Cósmica, dispositivo que permite o trânsito entre as várias dimensões paralelas. A ideia era cooptar heróis de diferentes mundos para enfrentarem as forças malignas.
   Chegados aos planetas sitiados pelos supervilões, os heróis combatem-nos em todas a frentes. O enigmático Espectro materializa-se nos campos de batalha e anuncia que o Anti-Monitor ainda vive.Segundo ele, está iminente a destruição do que resta do Multiverso. Para impedi-la, será necessário mudar o curso da História. O que só será possível através da cooperação entre heróis e vilões.

Vilões ao ataque.

    Selada essa aliança espúria, os primeiros são enviados para a Aurora dos Tempos, ao passo que os segundos seguem para o exato momento em que Krona ativa o seu equipamento para observar o nascimento do Universo. Os vilões, contudo, são malsucedidos na sua missão de impedir Krona. Já a força combinada dos heróis e do Espectro consegue derrotar o Anti-Monitor. É, no entanto, operada uma dramática mudança: o que outrora nasceu sob a forma de múltiplos universos, ressurge agora como um só Universo.Nele existindo uma única Terra.
    Nessa Terra renascida estão reunidos elementos das restantes cinco Terras que haviam sobrevivido à Crise. Ninguém se recorda da versão envelhecida do Super-Homem oriunda da Terra 2. Este Homem de Aço de uma realidade alternativa encontra-se com o Super-Homem da Terra 1, Flash (Jay Garrick) e Kid Flash e pede-lhes ajuda para ativar a Esteira Cósmica, na esperança de poder regressar a casa. Tudo o que encontram, porém, é o Nada absoluto. Para evitar que caia em mãos erradas, o dispositivo é destruído.
    Algum tempo depois, os heróis da nova Terra são convocados pela Precursora, que lhes explica os contornos da nova realidade: nela, só existiu uma versão de cada um deles (um só Batman, um só Super-Homem e por aí fora). Também o facto de apenas os heróis terem memória dos eventos ocorridos durante a Crise é esclarecido: só eles estiveram presentes na Aurora dos Tempos.

Anti-Monitor versus Espectro: choque de titãs.

      De repente, a Terra é envolvida por trevas. É o Anti-Monitor que leva o planeta para o seu Universo de Antimatéria. Convocados pela Precursora, os mais poderosos heróis são enviados para os domínios do vilão através de um portal gerado por Alex Luthor. A muito custo, eles conseguem levar de vencida a criatura. Cujo fim definitivo só é possível graças à intervenção de Darkseid, que usa Alex Luthor como um catalisador para os seus formidáveis raios ómega. Sem o poder do seu soberano, o Universo de Antimatéria começa a autodestruir-se. Antes, porém, que isso aconteça, Alex Luthor abre um portal para outra dimensão, partindo para parte incerta na companhia do Super-Homem da Terra 2 e do Superboy Primordial. Facto que só seria cabalmente esclarecido, duas década depois, nas páginas da sequela Infinite Crisis (Crise Infinita, maxissérie publicada no Brasil pela Panini Comics em 2006/07, e sobre qual a seu tempo escreverei).
    No epílogo da saga, Wally West abandona a identidade de Kid Flash para se tornar o novo Flash, sucedendo assim ao seu mentor Barry Allen. Numa cela acolchoada no Asilo Arkham, as palavras balbuciadas pelo Pirata Psíquico ecoam pela eternidade: "Sou o único a lembrar-me das Terras infinitas. Sou o único a conhecer a verdade e nunca a esquecerei. Mundos morreram; mundos nasceram. E nada será como dantes...".


       
Repercussões: Crisis on Infinite Earths dividiu a história da DC em pré-Crise e pós-Crise. Com o primeiro período a ser ignorado em favor do segundo. Exceção feita a um punhado de personagens (e aos leitores mais antigos, como eu) ninguém se recorda dos eventos ocorridos durante a saga. Todavia, as alterações por ela introduzidas não foram implementadas de forma consistente. Diversas personagens viram, com efeito, as suas origens tornarem-se incongruentes em resultado dessas alterações ou da revitalização de outras personagens. Um bom exemplo é a história da Poderosa (Power Girl, no original). Na cronologia pré-Crise, ela era prima do Super-Homem. Com a reformulação da mitologia do Homem de Aço a ter como pedra angular o facto de ele ser o Último Filho de Krypton, como explicar a existência da Poderosa que, ao contrário da Supergirl, sobrevivera à Crise? A solução encontrada foi retratá-la como uma descendente de um antigo mago atlante, que, pela similitude de poderes, acreditava ter um grau de parentesco com o herói kryptoniano. Outro caso bicudo foi o de Donna Troy (a primeira Moça-Maravilha). Originalmente, tratava-se de uma órfã que fora adotada pela Mulher-Maravilha. Porém, com a eliminação desta da nova cronologia da Editora das Lendas, a primeira só ressurgiria um ano depois do final da Crise. Com direito a uma nova e rebuscada origem. E estes são apenas alguns exemplos dos paradoxos que perduraram durante os anos subsequentes à Crise.
      Recapitulemos, pois, de forma resumida, o antes e o depois da Crise nas Infinitas Terras:

Pré-Crise

* Existência de múltiplas Terras paralelas, mundos que ocupavam o mesmo lugar na realidade, mas vibrando em diferentes frequências;
*Alguns destes mundos dispunham das suas próprias versões de heróis, como Super-Homem, Batman ou a Mulher-Maravilha;
* Super-Homem era extremamente poderoso quando comparado com as suas versões mais recentes. Não era o único sobrevivente de Krypton e os seus poderes atingiram a maturidade ainda na infância, empreendendo a sua carreira heroica como Superboy (cujos feitos inspiraram a fundação da Legião dos Super-Heróis, mil anos no futuro);

Deixou de haver lugar para o Superboy no Universo DC pós-Crise. Mas por pouco tempo...

* Entre os membros fundadores da Liga da Justiça estavam Super-Homem, Batman e Mulher-Maravilha;
* O Robin Jason Todd era menos impulsivo do que a sua versão posterior morta às mãos do Joker, tendo a sua origem muitos pontos em comum com a do seu antecessor (Dick Grayson);
* Na Terra S, a Família Marvel incluía também os Tenentes Marvel;
* O Capitão Átomo não possuía pele metálica;
*Existia uma grande diversidade de kryptonitas, a cada uma delas correspondendo um efeito diferente sobre os kryptonianos a elas expostos;
* Na Terra 2 a Mulher-Maravilha tinha uma filha chamada Fúria, ao passo que a Caçadora era fruto do amor entre Batman e a Mulher-Gato ( conceitos reciclados no âmbito de The New 52!).

Pós-Crise

*Passaram a existir somente dois universos: um positivo, outro negativo (este último um legado do Anti-Monitor);
* Foram eliminadas as versões alternativas das personagens;
* O Super-Homem, além de ter visto os seus poderes substancialmente reduzidos, nunca foi Superboy. Este é atualmente Conner Kent, um clone do Homem de Aço;
*Batman, Mulher-Maravilha e Super-Homem não fizeram parte da formação original da Liga da Justiça;
* A Caçadora é filha de um patrão da Máfia italiana;
* A Canário Negro dos nossos dias é filha da Canário Negro original;
* Batman, Robin, Caçadora, Mulher-Maravilha e Super-Homem foram apagados da cronologia da Sociedade da Justiça da América;
* Ultraman (contraparte maligna do Super-Homem na antiga Terra 3) é agora o tenente Clark Kent, do Universo Negativo (onde reina o Sindicato do Crime);

Poderosa (em 1º plano) e Caçadora tiveram as suas origens revistas.

     Não obstante todas as alterações e correções introduzidas pela saga, o conceito de universos paralelos continua, ainda hoje, a despertar um enorme fascínio nos argumentistas e editores da DC. Prova disso é o renascimento da Terra 2, já no âmbito de The New 52!. Não sendo,pois, de estranhar que, ciclicamente, a Editora das Lendas sinta  necessidade de reestruturar a sua cronologia. Com cada uma dessas atualizações a serem sucessivamente apresentadas como definitivas...