11 fevereiro 2016

GALERIA DE VILÕES: CARNIFICINA



  Projetado para ser o herdeiro de Venom, afirmou-se como uma sua versão mais violenta e amoral. Traços de personalidade decalcados de um outro infame maníaco homicida dos quadradinhos. Tal como ele, à sua passagem deixa sempre para trás uma enorme pilha de cadáveres.


Nome original da personagem: Carnage
Licenciadora: Marvel Comics
Criadores: David Michelinie (história), Erik Larsen (arte conceitual de Cletus Kasady) e Mark Bagley (arte conceitual de Carnificina)
Primeira aparição (como Cletus Kasady): Amazing Spider-Man nº344 (fevereiro de 1991)
Primeira aparição (como Carnificina): Amazing Spider-Man nº361 (abril de 1992)
Identidade civil: Cletus Kasady
Espécie: Humano hospedeiro de um simbionte alienígena
Local de nascimento: Brooklyn, Nova Iorque
Parentes conhecidos: Avó (nome desconhecido, falecida) e pais (nomes desconhecidos, igualmente falecidos). Além destes antepassados do seu alter ego humano, Carnificina gerou uma extensa prole simbiótica, onde pontificam, entre outros, os "filhos" Carniça e Toxina (Carrion e Toxin, nas respetivas versões originais).
Afiliação: Ex-parceiro de Venom, ex-membro dos Vingadores (grupo de supervilões reunido por Magneto para enfrentar o Caveira Vermelha, logo após os eventos de Guerra Civil) e patriarca da Família Carnificina.
Base de operações: Móvel
Armas, poderes e habilidades: Devido à sua personalidade antissocial e às suas compulsões homicidas, quando ainda não passava de um criminoso comum Cletus Kasady era já considerado um indivíduo altamente perigoso. Perigosidade essa que sobrevinha, precisamente, da sua amoralidade e do seu mais profundo desprezo pela vida humana.
  Ao mesclar-se com o simbionte alienígena, Kasady teve o seu corpo recoberto por uma viscosa biomassa vermelha e preta, adquirindo por essa via uma impressionante gama de habilidades meta-humanas. Conquanto muitas delas sejam similares às de Venom, outras são ímpares. É o caso da sua capacidade de manipular a forma do simbionte. Circunstância que lhe permite, por exemplo, gerar apêndices orgânicos em forma de tentáculos passíveis de serem usados em situações de combate corpo a corpo ou para manietar os seus oponentes.
  Entre os poderes que são comuns a todos os hospedeiros do simbionte, destacam-se: força, resistência e velocidade ampliadas; propriedades regenerativas aceleradas; aderência a praticamente qualquer tipo de superfície; produção de uma teia orgânica ultrarresistente; imunidade ao sentido de aranha de Peter Parker.
Fraquezas: À semelhança de Venom e de todos os outros simbiontes da sua espécie, Carnificina é vulnerável ao som e às altas temperaturas. Ataques baseados nestes dois elementos são pois suscetíveis de lhe causarem dor excruciante. Alguns indícios sugerem, no entanto, que devido ao facto de a cria de Venom ter nascido na Terra, essa suscetibilidade será consideravelmente inferior à dos simbiontes de origem alienígena.
  Outro dos pontos fracos de Carnificina reside na instabilidade mental do seu hospedeiro. Mesmo antes da sua transformação, a Cletus Kasady já havia sido diagnosticada uma psicose com laivos de sadismo, a que se somava uma obsessão pelo caos.

Em Carnificina a maldade é orgânica.

Histórico de publicação: Em finais de 1990, o escritor David Michelinie idealizou Carnificina (Carnage, em inglês) para ser uma versão ainda mais sórdida de Venom, cujo alter ego humano (Eddie Brock) tencionava matar em Amazing Spider-Man nº400. O simbionte, esse, sobreviveria e continuaria a usar vários hospedeiros para disseminar o terror e atormentar um certo Escalador de Paredes.
  Projeto que acabaria, contudo, por não receber luz verde dos mandachuvas da Marvel em virtude de um súbito pico de popularidade da dupla Venom/Brock junto dos leitores. Recusando-se a atirar a toalha ao chão, Michelinie propôs, em alternativa, a conceção de uma personagem inédita: um sociopata sanguinário que, por contraste com Eddie Brock, não obedecia a qualquer código de honra.
   Aprovada a ideia, o passo seguinte consistiu em encontrar um bom nome para o novo vilão. Chaos e Ravage foram duas das opções equacionadas, acabando, no entanto, por recair a escolha sobre Carnage. Usando como referência o Joker (da concorrente DC), Erik Larsen desenvolveu o visual de Cletus Kasady. Ficando os primeiros esboços da sua contraparte simbiótica a cargo de Mark Bagley.

O "pai" de Venom e de Carnificina.

  Ultimado o processo criativo, Cletus Kasady fez a sua primeira aparição em fevereiro de 1991, nas páginas de Amazing Spider-Man nº344. Mais de um ano depois, em abril de 1992, seria a vez de Carnificina fazer a sua sangrenta estreia em Amazing Spider-Man nº361.
  Sucesso instantâneo, nos anos seguintes Carnificina afirmou-se como um dos vilões de charneira do Universo Marvel. Logo em 1993, viu ser-lhe conferido o estatuto de antagonista principal do Homem-Aranha na saga Maximum Carnage (publicada no Brasil pela Abril sob o título Carnificina Total). Tendo posteriormente direito, em 1996, a dois volumes especiais inteiramente dedicados a si: Carnage: Mind Bomb e Carnage: It's a Wonderful Life.

Eddie Brock e Cletus Kasady recebem uma visita inesperada
em Amazing Spider-Man nº344 (1991)
  À medida que os anos foram passando, o sinistro glamour de Carnificina foi-se desvanecendo. Após uma fugaz aparição em 2004, no título New Avengers, o vilão foi dado como morto. Assim permanecendo na meia dúzia de anos seguintes, até que a minissérie Carnage o trouxe de volta ao mundo dos vivos. Antes, porém, da sua reunião com Cletus Kasady, o simbionte usou uma hospedeira temporária chamada Tanis Nieves.
  Em novembro de 2015, no âmbito do reboot do Universo Marvel decorrente da saga Secret Wars III, chegou às bancas norte-americanas Carnage, uma nova série mensal da autoria de Gerry Conway e Mike Perkins, que promete trazer Carnificina de volta à ribalta..
 
Capa do número inaugural da nova série de Carnificina.

Biografia: Foi tudo menos idílica a infância de Cletus Kasady. Devido à sua personalidade psicótica, o futuro hospedeiro do Carnificina teve sempre uma relação conturbada com a sua família, em particular com os seus progenitores.
   Ainda criança, Cletus assassinou a avó, empurrando-a por um lanço de escadas. Proeza que tentou reeditar pouco tempo depois com a mãe, ao atirar um secador de cabelo ligado à corrente para dentro da banheira onde a mulher fazia as suas abluções. Frustrado o matricídio, a vítima seguinte dos instintos sádicos do catraio foi o cão da família.
  Apanhado em flagrante pela mãe enquanto torturava o pobre animal, Cletus foi violentamente espancado por ela. Era tal o desespero da sua progenitora, que esta tentou matá-lo com as próprias mãos. Apenas a intervenção do pai de Cletus evitou nova tragédia familiar. Acabando, no entanto, por originar outra, ao matar a esposa com uma pancada certeira.
  Julgado pelo homicídio da sua cara-metade, o pai de Cletus foi incriminado em tribunal pelo filho. Acabando dessa forma sentenciado à morte na cadeira elétrica.
  Quanto a Cletus, foi enviado para um orfanato, onde as suas condutas antissociais fizeram dele o alvo preferencial dos abusos tanto dos outros residentes como do staff da instituição. Esse acúmulo de violência e rancor teria consequências explosivas: antes de deitar fogo ao orfanato, Cletus assassinou um dos seus administradores e uma rapariga que havia escarnecido o seu pedido de namoro.

Cletus Kasady escreve as suas próprias regras.

  Nos anos seguintes, Cletus passaria a justificar as suas atrocidades com uma bizarra doutrina libertária que preconiza que o Universo é, por definição, caótico. Do seu ponto de vista, a vida e as leis são fúteis, porquanto desprovidas de sentido. Por conseguinte, a propagação do caos e da desordem por via de chacinas aleatórias configuraria a suprema expressão de liberdade individual.
   Fiel a este postulado, Cletus tornou-se um assassino em série. Antes de ser finalmente capturado pelas autoridades, deixou uma pilha de cadáveres atrás de si. Crimes macabros que lhe valeriam uma pena de prisão perpétua a ser cumprida em Riker's Island.
   Num golpe de asa do Destino, Cletus Kasady teve como companheiro de cela ninguém menos do que Eddie Brock, a metade humana do famigerado Venom. Em atroz sofrimento, o simbionte invadiu a penitenciária a fim de libertar o seu hospedeiro. Causando, para esse efeito, uma fuga em massa dos reclusos.
   Brock estava no entanto longe de imaginar que a criatura estava grávida, e que dera à luz no meio do pandemónio instalado. Deixado para trás, o filhote do simbionte reclamou Cletus Kasady como seu hospedeiro. Dessa união nasceu o infame Carnificina.

O primeiro contacto do simbionte com o seu novo hospedeiro.

   Além de dotá-lo de superpoderes, o processo de simbiose potenciou a natureza psicótica de Kasady, tornando-o ainda mais sanguinário e mentalmente instável. Determinado em colocar em prática a sua doutrina homicida, Carnificina recorreu à lista telefónica para escolher a sua primeira vítima mortal. Seguindo-se um cortejo de mortes aleatórias que deixaram os nova-iorquinos em estado de choque.
  Previsivelmente, o rasto sangrento de Carnificina atraiu a atenção do Homem-Aranha. Levando em conta os depoimentos de testemunhas oculares dos crimes -que afirmavam que o assassino usava uma espécie de traje vivo - o Escalador de Paredes começou por atribui-los a Venom, mesmo não reconhecendo o modus operandi. No entanto, após uma investigação levada a cabo como Peter Parker, o herói concluiu que o culpado era na verdade o ex-colega de cela de Eddie Brock, Cletus Kasady.
  As pistas recolhidas pelo Homem-Aranha conduziram-no ao velho orfanato onde, em tempos, Cletus Kasady estivera internado. Local que serviu de palco ao primeiro confronto entre ambos, com o vilão a conseguir escapar.
  Percebendo que mesmo as suas fantásticas habilidades seriam insuficientes para derrotar Carnificina, o Homem-Aranha requisitou a ajuda do Quarteto Fantástico e de Venom, com quem forjou uma aliança temporária.
  Subjugado por esta coligação heterodoxa, Carnificina desapareceu da face da terra depois de ter, aparentemente, abandonado o seu hospedeiro.
 Cletus Kasady foi então enviado para o Asilo Ravencroft, instituição psiquiátrica especializada no tratamento de criminosos insanos. Transportando, sem que ninguém soubesse, o simbionte na sua corrente sanguínea. Ao que tudo indica, a criatura terá usado uma ferida no corpo de Cletus para se esconder no interior do seu organismo, evitando dessa forma ser detetada.
  Quando, algum tempo depois, um dos médicos de Ravencroft recolheu uma amostra de sangue de Cletus Kasady para análise, libertou inadvertidamente o simbionte. Sem perder tempo, Carnificina arrebanhou vários psicopatas superpoderosos, nomeadamente Carniça e Shriek, para tomarem de assalto Nova Iorque. Apesar da rápida intervenção do Homem-Aranha e seus aliados (entre os quais se incluía, uma vez mais, Venom), Shriek usou as suas habilidades psiónicas para induzir uma insaciável sede de sangue nos habitantes da cidade, fazendo com que eles se matassem uns aos outros.
   Na batalha final que opôs o séquito de Carnificina aos heróis reunidos para detê-los, estes últimos, ainda que a duras penas, saíram vitoriosos. Com Cletus Kasady a ser novamente confinado em Ravencroft (eventos narrados em Maximum Carnage/Carnificina Total).
  Mais recentemente, o vilão foi dado como morto após ter sido despedaçado em órbita pelo Sentinela. No entanto, seria mais tarde revelado que tanto o simbionte como o seu hospedeiro haviam, afinal, sobrevivido. Tudo indica que não seria Cletus Kasady a estar dentro do Carnificina quando tudo aconteceu.

Venom versus Carnificina: duelo simbiótico.

Apontamentos:

* Aquando da sua passagem pelo orfanato, o pequeno Cletus Kasady era inseparável do seu ursinho de peluche chamado Blinky. Brinquedo que fez questão de resgatar após a sua fuga da prisão;
* Kasady acredita que o seu simbionte é, na verdade, uma fêmea;
* Fã da banda de trash metal Anthrax, Kasady é obrigado a usar auscultadores para ouvir a sua música preferida sem ferir o simbionte;
* Tempos atrás, Kasady viu ser-lhe diagnosticado um cancro do estômago em fase terminal. Não voltaram, contudo, a ser feitas quaisquer referências à doença desde então;
* Em 2002, Carnificina foi a atração principal do parque temático da Marvel Halloween Horror Nights: Islands of Fear, baseado na saga Maximum Carnage. Por contraponto à história original, o vilão e seus aliados, depois de matarem todos os super-heróis, conseguiam mesmo dominar o mundo;
* O simbionte que atualmente usa Cletus Kasady como hospedeiro não é o original. Trata-se de um espécime similar proveniente da Zona Negativa.


Um aranhiço prestes a servir de refeição a dois simbiontes famintos.
Outros hospedeiros: 

  A despeito de ter em Cletus Kasady o seu hospedeiro primário, Carnificina já se fundiu temporariamente com outros indivíduos. A saber: John Jameson (filho do irascível diretor do Clarim Diário), Ben Reilly (o Aranha Escarlate), o Surfista Prateado (com quem formou o Carnificina Cósmico) e Tanis Nieves (a quem recorreu após a aparente morte de Kasady).
  Em qualquer dos casos, porém, o simbionte acabou sempre por voltar a mesclar-se com Cletus Kasady, a quem já por diversas ocasiões salvou de uma morte certa. Como aconteceu quando um médico, aproveitando a separação de Kasady do simbionte, tentou matá-lo para se tornar o novo Carnificina. A criatura, no entanto, rejeitou o hospedeiro alternativo e usou as suas propriedades regenerativas para curar os ferimentos infligidos a Kasady.

Lista (abreviada) de vítimas mortais:

*Avó Kasady;
* O diretor do orfanato onde Cletus passou parte da infância;
* Uma rapariga que rejeitou o seu pedido de namoro;
* Um guarda prisional;
* Vários agentes policiais;
* O vocalista dos Headbanger's Heaven;
* Vários passageiros do metro nova-iorquino;
* Todo os reclusos e guardas da penitenciária Kramer;
* Centenas de cidadãos anónimos que tiveram o azar de estar no sítio errado, à hora errada.

Quem disse que os monstros não existem?

Noutros media: Desde 2009 que Carnificina ocupa a 90ª posição na lista dos Melhores Vilões dos Quadradinhos de Todos os Tempos do IGN. Fora deles, a sua estreia no panorama audiovisual remonta a 1996. Ano em que participou em alguns episódios da terceira temporada da série Spider-Man. Apesar de algumas cambiantes, a sua versão animada era bastante fiel ao conceito primordial. Situação que se verificou, também. nas restantes séries de animação estreladas pelo Homem-Aranha em que foi marcando presença ao longo dos anos.
 Ainda sem lugar no efervescente Universo Cinemático da Marvel, Carnificina continua, no entanto, a marcar pontos nos jogos de vídeo baseados na mitologia da Casa das Ideias.E até já subiu ao palco na Broadway. Aconteceu em 2011, quando lá estreou a peça musical Spider-Man: Turn Off the Dark, com banda sonora de Bono e The Edge, dos U2. Retratado como um membro do Sexteto Sinistro, o vilão foi interpretado por Collin Baja.

Spider-Man musical.jpg
Cartaz promocional do musical do Homem-Aranha
 que deu a conhecer Carnificina ao espectadores da Broadway.

 
   

03 fevereiro 2016

ETERNOS: DAN JURGENS (1959 - ... )



   Apadrinhado por um grande vulto da 9ª arte, entrou, ainda jovem, pela porta grande da indústria dos comics. Na DC encontrou uma segunda casa, retribuindo a hospitalidade com a conceção de algumas das mais emblemáticas sagas e personagens da companhia. Suspira, porém, até hoje por uma segunda oportunidade com um certo Escalador de Paredes.

Biografia e carreira: Casado e pai de duas filhas, Dan Jurgens nasceu há 56 anos na pequena cidade de Ortonville, no estado norte-americano do Minnesota. Isto é praticamente tudo o que se sabe acerca da sua vida familiar.
  Já o seu extenso e multifacetado percurso profissional é do domínio público e remonta a 1982. Então com apenas 23 anos - e depois de, no ano anterior, ter concluído os seus estudos no Minneapolis College of Art and Design - Dan foi o escolhido para ilustrar as estórias de Warlord (conceito desenvolvido por Mike Grell e publicado sob os auspícios da DC).
  Impressionado com o portefólio que um jovem e promissor desenhista lhe mostrara numa convenção dedicada à 9ª arte, foi o próprio Grell quem recomendou Dan aos seus editores da DC. Percebendo estarem em presença de um fora de série, eles nem pensaram duas vezes antes de contratá-lo.

Edição de Warlord que marcou a estreia profissional de Dan Jurgens em 1982.

   A Dan Jurgens foi assim dada oportunidade de colaborar de perto com diversos nomes sonantes dos quadradinhos. Jerry Conway e Roy Thomas foram dois deles. Escritores consagrados que, anos mais tarde, aquando da sua estreia como argumentista, lhe serviriam de referências.
   Um dos momentos capitais desta primeira passagem de Dan Jurgens pela DC ocorreu em 1985. Ano em que criou aquele que seria o primeiro herói de relevo no período pós-Crise e membro proeminente da renovada Liga da Justiça: o Gladiador Dourado (vide biografia ficcionada já publicada neste blogue).
   Prosseguindo a sua ascensão meteórica na Editora das Lendas, em 1987 Dan Jurgens foi escalado para assumir a arte de The Adventures of Superman Annual nº1. Começava, assim, a sua longa e umbilical ligação ao Homem de Aço. Personagem com a qual, dois anos mais tarde, passaria a trabalhar a tempo inteiro. E cuja "morte" ajudaria a orquestrar em 1992. Foi aliás da sua imaginação que saiu Apocalypse (Doomsday, no original), o hediondo verdugo do campeão de Metrópolis.
   The Death of Superman (saga já aqui esmiuçada) constituiu, de facto, a coroa de glória de Dan Jurgens, valendo-lhe inclusivamente o prémio para melhor arco de histórias atribuído pela National Cartoonist Society. Escusado será dizer que tamanho esplendor não passou despercebido à concorrência, que há muito cobiçava a coqueluche da eterna rival.

A morte do Super-Homem trouxe fama e glória a Dan Jurgens.

   Com efeito, ao fim de quase 15 anos de casamento com a DC, em 1996 Dan Jurgens resolveu trocá-la pela Marvel. Desenganem-se, porém, se pensam que se tratou de um affair inconsequente. Na verdade, essas segundas núpcias durariam sete anos, vividos em quase permanente lua de mel.
   Antes, porém, de assentar arraiais na Casa das Ideias, Dan Jurgens teve ainda tempo para vincar a sua impressão digital na memorabilia da DC, associando-se à produção de três sagas de referência: Armageddon 2001 (1991), Panic in the Sky (1993) e Zero Hour (1994). Reportório assinalável a que se somou ainda o lendário crossover Superman versus Aliens (publicado em 1995 numa iniciativa conjunta da DC e da Dark Horse Comics).

Dan Jurgens com dois dos heróis que mais estima.

   Na Marvel, começou por ser incumbido de lançar The Sensational Spider-Man, série mensal inicialmente projetada para acolher as aventuras e desventuras do novo Escalador de Paredes (Ben Reilly) saído da Saga do Clone. A despeito desse pressuposto, as coisas não correram sobre rodas. Com Dan Jurgens a exercer forte pressão no sentido de trazer de volta Peter Parker. E, invariavelmente, a esbarrar na intransigência de Bob Harras, o recém-nomeado Editor-chefe da Casa das Ideias. Braço de ferro que tinha, obviamente, vencedor anunciado.
  Harras deliberara que o regresso do Homem-Aranha original só aconteceria após o término de Onslaught (saga protagonizada pelos X-Men, traduzida como Devastação em Portugal e Massacre no Brasil). E nem ventos nem marés o fariam mudar de ideias.
  Vencido mas não convencido, Dan Jurgens bateu com a porta, em protesto com o que entendia serem desmandos editoriais. A propósito deste percalço na sua carreira, ele afirmaria anos mais tarde numa entrevista que gostaria muito de poder ter nova oportunidade para trabalhar com o Homem-Aranha. Admitindo que se sentia de certo modo defraudado por ter apenas podido fazê-lo com a versão genérica daquele que é um dos símbolos da Marvel.
   Apesar deste passo em falso, nos anos seguintes Dan Jurgens continuou a sua corrida de fundo pelo Universo Marvel. The Mighty Thor e Captain America foram os dois títulos em que intercalou o seu trabalho (escrevendo o primeiro e acumulando as funções de argumentista e desenhador no segundo).

A fase do Deus do Trovão escrita por Dan Jurgens.

   Fazendo ouvidos de mercador ao velho aforismo de que nunca devemos voltar aos sítios onde fomos felizes, no dealbar deste século Dan Jurgens regressou à DC. Um regresso em grande estilo e a tempo de se associar às comemorações do décimo aniversário da morte do Super-Homem. Narrada sob o ponto de vista de algumas das vítimas colaterais daquele fatídico dia, a minissérie Superman: Day of Doom (2003) mostrou um Dan Jurgens em grande forma.
  Em 2005, Dan Jurgens produziu You Can Draw Marvel Characters, guia ilustrado editado pela Dorling Kindersley Publishing que ensinava passo a passo a desenhar os mais ilustres inquilinos da Casa das Ideias. Obra que tem desde então servido de referência a muitos aspirantes a uma carreira ligada à 9ª arte.
  Quando, em 2011, a DC revitalizou a sua mitologia através de The New 52, Dan Jurgens teve participação importante em dois projetos. Depois de escrever as histórias da rediviva Liga da Justiça Internacional (agora capitaneada pelo Gladiador Dourado e destituída do seu tom humorístico de outrora), assumiu a arte de Green Arrow, a aclamada nova série mensal do Arqueiro Verde. Seguindo-se o inevitável regresso às páginas de Superman, por cujos enredos e ilustrações ficaria responsável por um largo período.
   Dado  o seu traquejo com sagas de grande envergadura, foi sem surpresa que, em 2014, Dan Jurgens foi um dos argumentistas escolhidos para The New 52: Futures End, prelúdio de novo ajustamento cronológico do Universo DC. E na esteira do qual ajudou também a lançar Aquaman & The Others, título mensal tendo o Soberano dos Sete Mares e um enigmático grupo de aliados chamados Os Outros como cabeças de cartaz.
  A conclusão de The New 52: Futures End e de Convergence (seu desdobramento) permitiu a Dan Jurgens abraçar novos projetos. Assim, no verão de 2015, os leitores norte-americanos foram presenteados com duas novas séries baseadas na mitologia do Homem-Morcego. São elas Batman Beyond e Bat-Mite, ambas escritas por Dan. Mais recentemente, em outubro passado, foi lançada a minissérie Superman: Lois & Clark através da qual Dan Jurgens retomou a sua ligação ao Homem de Aço.
  Independentemente do que o futuro lhe reserve, Dan Jurgens há muito inscreveu o seu nome nos anais da História da 9ªarte, sendo portanto um dos seus maiores expoentes da atualidade.

O mais recente projeto de Dan Jurgens ao serviço da DC.


Principais criações:

* Agent Liberty/Agente Liberdade (DC)
* Booster Gold/Gladiador Dourado (DC)
*Cyborg Superman/Supercyborg (DC)
*Doomsday/Apocalypse (DC)
*Monarch/Monarca (DC)
*Thor Girl (Marvel)
*Waverider/Tempus (DC)

Gladiador Dourado, uma das mais célebres criações de Dan Jurgens para a DC.




Bibliografia de referência: 

*Armageddon 2001 (DC, 1991);
*The Death of Superman/ A Morte do Super-Homem (DC,1992);
* Panic in the Sky/Pânico no Céu (DC, 1993);
* Zero Hour/Zero Hora (DC, 1994);
*Superman versus Aliens (DC/Dark Horse, 1995);
* Superman/Fantastic Four (DC/Marvel, 1999);
*Superman: Day of Doom/ Super-Homem: Dia do Juízo Final (DC,2003);
* You Can Draw Marvel Characters (Dorling Kindersley Publishing, 2005);
* The New 52: Futures End/Os Novos 52: Fim dos Tempos (DC, 2014)



Dois dos trabalhos que notabilizaram Dan Jurgens.
 
 


 
 
 





    



Principais criações:

16 janeiro 2016

CLÁSSICOS DA 9ª ARTE: «ZERO HORA: CRISE NO TEMPO»




  Desdobramento de Crise nas Infinitas Terras, esta saga retroativa teve como principal objetivo corrigir algumas inconsistências herdadas do Multiverso. Corrompido pelo formidável poder de Parallax e obstinado em remodelar a Existência à sua imagem, Hal Jordan serviu de catalisador para mais este ajustamento cronológico da DC.

Título original: Zero Hour: Crisis in Time
Licenciadora: DC Comics
Data de publicação: Setembro de 1994
Número de volumes: 5
Autores: Dan Jurgens (argumento e arte) e Jerry Ordway (arte-final)
Personagens principais: Hal Jordan/Parallax, Waverider (Tempus), Extant (Extemporâneo), Superman (Super-Homem), Wonder Woman (Mulher-Maravilha), Batman, The Spectre (Espectro), Green Lantern (Lanterna Verde Kyle Rayner), Rip Hunter e Time Trapper (Senhor do Tempo)
Coadjuvantes: Captain Atom (Capitão Átomo), Arsenal, Ray, Hawkman (Gavião Negro), Darkstar, Impulse (Impulso), Green Lantern (Lanterna Verde Alan Scott), Liri Lee, Supergirl, Superboy, Martian Manhunter (Caçador de Marte), The Flash (Jay Garrick), Shazam (Capitão Marvel), Power Girl (Poderosa), Batgirl, Alpha Centurion (Centurião Alfa), Darkseid, New Gods (Novos Deuses), Linear Men (Homens Lineares) e Damage (Detonador)

Edição brasileira



Data de publicação: Agosto a outubro de 1996
Editora: Abril
Categoria: Minissérie em 5 fascículos (48 páginas cada)
Formato: Americano (17x 26 cm), colorido e com lombada agrafada
Na minha coleção desde: 1996


Antecedentes: 



  Sugestivamente sub-titulada de Crise no Tempo, Zero Hora assumiu-se como um evento tardio desdobrado de Crise nas Infinitas Terras. Saga já aqui esmiuçada e que, menos de uma década antes, unificara o anárquico Universo DC. Contudo, mercê de algumas inconsistências herdadas do Multiverso. fez-se necessário novo ajustamento cronológico.
   Um dos problemas supervenientes dessa primeira reestruturação editorial consistiu na preservação das versões clássicas de algumas personagens de charneira. Cuja reformulação, nalguns casos, demorou anos a ser feita. Acentuando dessa forma as incongruências e paradoxos que pontuavam (e continuam a pontuar) a continuidade pós-Crise.
  Gavião Negro foi um dos exemplos mais problemáticos, na medida em que a sua versão atualizada surgiria somente em 1989 (três anos após Crise nas Infinitas Terras). Ínterim durante o qual o herói manteve o seu alter ego Carter Hall, reminiscência da Idade da Prata. Sendo, no entanto, subsequentemente retratado como um espião thanagariano chamado Fel Handar.
 Também a Legião dos Super-Heróis enfrentou problemas similares, decorrentes essencialmente da eliminação do Superboy (Kal-El) e da Supergirl (Kara Zor-El) da sua história. Mon-El, legionário daxamita dotado de poderes idênticos aos do Superboy, foi uma das soluções de recurso encontradas. Renomeado de Valor, teve a sua origem retocada por forma a poder ocupar o lugar do jovem herói krptoniano sentenciado ao oblívio.
  Sucede que essas e outras alterações nem sempre tiveram acolhimento favorável por parte dos leitores. Acabando mesmo em alguns casos por acrescentar problemas aos preexistentes. Ou, como diria Bocage: "Foi pior a emenda do que o soneto".
  Tornou-se, portanto, imperativa a tomada de medidas drásticas a fim de contrariar o caos que começava de novo a contaminar o Universo DC.
  Numa representação simbólica da contagem decrescente até à grande e anunciada deflagração espaço-temporal, Zero Hour foi publicada retroativamente e interligada com os principais títulos DC. Tendo sido, também, obra de um só homem. Arquitetada na totalidade por Dan Jurgens, coube a Jerry Ordway arte-finalizar os seus esboços.

Dan Jurgens, o solitário arquiteto de mais um reboot do Universo DC.

 Antes e durante Zero Hour, diversas personagens experienciaram inexplicáveis anomalias cronológicas nas suas histórias. Destruídas as barreiras temporais, desencadeou-se a inelutável voragem da entropia. Linhas temporais divergentes amalgamaram-se com o universo principal, à medida que a própria realidade se esboroava.
  Uma das situações mais dramáticas ocorreu quando a Sociedade da Justiça da América foi dizimada por Extemporâneo. Sobrevindo desse facto o perecimento de heróis da Idade do Ouro, como Senhor Destino e Homem-Hora. Ainda na esteira desses fenómenos cronológicos, a Legião dos Super-Heróis - e com ela todo o século 30 - teve a sua existência apagada.
 No rescaldo dos eventos narrados na saga, outubro de 1994 foi referenciado como Zero Month (Mês Zero). Sem exceção, todos os títulos ativos da DC (a que se somaram algumas novidades editoriais) foram renumerados, voltando literalmente à estaca zero. Expediente que possibilitou aos respetivos argumentistas procederem às necessárias retificações na continuidade das personagens.
  Em última análise, Zero Hour permitiu à DC arrumar a casa. Ou, pelo menos, varrer para debaixo do tapete alguns dos problemas herdados do período pré-Crise. Longe de ter sido uma solução definitiva para as inconsistências cronológicas que continuam a caracterizar a mitologia da Editora das Lendas, a saga teve o mérito de restaurar alguma da ordem perdida. Servindo, de caminho, para revitalizar alguns dos títulos mais emblemáticos da companhia, na expectativa de assim captar uma nova safra leitores.

Imagem promocional de Zero Month.


Quem é o Extemporâneo?




  Em 1991, um novo supervilão oriundo de um futuro opressivo foi introduzido na mitologia da DC. Monarca era o seu nome. Depois de ter chacinado a totalidade dos super-heróis, ele era o soberano absoluto e único protetor da Terra no ano de 2030.
   Tempus, indivíduo cujo vínculo com o fluxo cronológico lhe permitia viajar no tempo, era a única pedra no sapato do todo-poderoso Monarca.
  Quando Tempus voltou ao passado com o intuito de evitar a ascensão do tirano, este seguiu-o em segredo através de uma brecha temporal criada pelo herói. Falhado o seu plano de antecipar os eventos que conduziriam ao seu reinado de terror, a identidade do Monarca foi enfim revelada. Outrora conhecido como Hank Hall, notabilizara-se como Rapina, herói que passara pelas fileiras dos Novos Titãs.
   Estes eventos ocorreram em Armageddon 2001, arco de histórias que já aqui foi objeto de análise. Sugiro, por isso, que despendam alguns minutos do vosso precioso tempo a ler a minha resenha, caso estejam interessados em recordar ou aprofundar os vossos conhecimentos sobre essa saga.

Tempus, figura-chave de Armageddon 2001 e Zero Hour.

 Voltando à história do Monarca, o vilão dedicaria depois uma parte considerável da sua vida a combater o Capitão Átomo através do fluxo temporal. Numa dessas ocasiões ele drenou uma porção das habilidades de Tempus, obtendo assim um vislumbre do seu próprio passado. Foi, pois, dessa forma que descobriu que se tinha transformado em alguém muito superior a Hank Hall.
 Com efeito, o Monarca não se limitara a matar Columba. Absorvera também a essência da antiga parceira heroica de Hank Hall. Gerando por essa via uma fusão entre os Filhos da Ordem e os Filhos do Caos. Nesse dia nasceu um novo e poderoso vilão: Extemporâneo.
  Depois de extorquir as manoplas a Tempus, Extemporâneo conectou-se ele próprio com o fluxo temporal, passando assim a poder realizar excursões cronológicas a seu bel-prazer.
 

Qual a relação entre Hal Jordan e Parallax?


  
  Durante a saga O Regresso do Super-Homem (também já aqui esmiuçada), Coast City foi obliterada por Mogul e pelo Supercyborg. Profundamente transtornado pela perda do seu lar e dos seus entes queridos, o Lanterna Verde Hal Jordan usou o seu anel energético para recriar a cidade devastada. Decisão que lhe valeu uma vigorosa reprimenda por parte dos Guardiões do Universo. Ao usar o poder do seu anel em benefício próprio, Hal violara um dos preceitos fundamentais da Tropa dos Lanternas Verdes.
 Intimado a comparecer em Oa, Hal insurgiu-se contra os Guardiões e apropriou-se da energia da Bateria Central que permite aos Lanternas Verdes recarregarem os seus anéis. De volta à Terra, usou essa energia para gerar um construto permanente de Coast City.
 Forçado a enfrentar os seus camaradas de armas, Hal assassinou muitos deles, deixando outros à beira da morte depois de expropriá-los dos seus anéis. De seguida, viajou novamente até Oa, onde prosseguiu a carnificina. Sinestro, Kilowog e todos os Guardiões do Universo (exceto Ganthet) morreram às suas mãos.
 Imbuído do poder dos Guardiões, Hal mergulhou no núcleo da Bateria Central, dela emergindo transfigurado. Parallax era a mais recente ameaça cósmica e prometia não deixar pedra sobre pedra no Universo (promessa que cumpriria com denodo).

   

Enredo: Para assombro geral, duas personagens de realidades alternativas materializam-se repentinamente no Universo primordial. O primeiro desses visitantes autodenominava-se Centurião Alfa e alegava ser um antigo soldado romano abduzido por extraterrestres, sendo posteriormente transplantado para o século XX, onde se tornou o campeão de Metrópolis. Já a segunda náufraga temporal era uma variante da Batgirl do nosso mundo.
  Estas e outras anomalias detetadas no espaço-tempo eram causadas por um bizarro fenómeno chamado "compressão temporal". Com efeito similar ao do vagalhão de antimatéria responsável pela aniquilação do Multiverso em Crise nas Infinitas Terras, uma onda de entropia varre toda a existência, apagando sucessivas eras históricas.
  Por detrás do cataclismo aparenta estar um novo e poderoso vilão chamado Extemporâneo. Dotado de poderes temporais, ele descobrira o Universo primordial e parecia empenhado em alterar a sua cronologia.
  Depois de confrontar e derrotar a Sociedade da Justiça da América, Extemporâneo provoca a morte  de vários dos seus integrantes ao anular os efeitos que retardavam o seu envelhecimento desde a década de 1940.
   Apesar do seu formidável poder, Extemporâneo é, afinal, um mero peão do verdadeiro mentor do caos e destruição que, como fogo em palha seca, alastravam pelo Universo.
 Outrora um dos mais valorosos heróis da Terra, Hal Jordan - agora transformado em Parallax - assume-se como o maestro da diabólica sinfonia que ameaça a própria Existência. Completamente insano, Hal deseja refazer o Universo, impedindo assim os eventos que conduziram à destruição de Coast City.
  Graças ao esforço coletivo dos heróis, Parallax é detido antes de concluir a sua empreitada de remodelação do Universo de acordo com os seus caprichos. Mesmo enfraquecido devido ao enorme dispêndio de energia, Hal Jordan sobrevive quando tem o coração trespassado por um flecha disparada pelo Arqueiro Verde (seu amigo de longa data).
  Restaurada a linha temporal primordial, a sua cronologia sofre algumas alterações. Efeitos do novo Big Bang desencadeado pelo Detonador, um jovem herói com inacreditáveis poderes explosivos.
 Consequentemente, nas últimas páginas da saga os desenhos são parcialmente rasurados, simulando dessa forma os saltos no tempo e o desaparecimento dos diferentes mundos paralelos. Refletindo o culminar da entropia, a última página foi deixada em branco.

Devorados pela entropia.

Consequências: Para ajudar os leitores - aturdidos por mais este reboot do Universo DC - a perceberem o que estava em causa, a contracapa do derradeiro capítulo de Zero Hour incluía um esquema da nova linha do tempo. Esquema esse que identificava vários eventos-chave que haviam conduzido ao grande ajustamento cronológico em curso. E no âmbito do qual foram estabelecidas datas para as estreias das figuras de proa da editora. Convencionou-se, assim, que doravante o período pós-Crise corresponderia a dez anos atrás. Justificando dessa forma o facto de as personagens não terem as suas idades alteradas.
   Dois problemas bicudos em matéria de continuidade, a Legião dos Super-Heróis e o Gavião Negro tiveram as suas mitologias profundamente reformuladas. No caso do herói alado, as suas múltiplas versões amalgamaram-se numa única personagem. Solução que não tardaria, porém, a relevar-se problemática, originando novas contradições e equívocos.

Gavião Negro, um monumento à esquizofrenia do Universo DC.

  Após a conclusão da saga, várias personagens tiveram as suas origens recontadas e o portefólio editorial da DC foi amplamente reestruturado. Tendo a Liga da Justiça como matriz, surgiram novas formações heroicas, o filho do Arqueiro Verde (Connor Hawke) foi introduzido nas aventuras do progenitor e Guy Gardner assumiu a identidade de Guerreiro na sequência da descoberta de uma ancestral herança alienígena que lhe concedia novos poderes.
  Nem as personagens mais emblemáticas da Editora das Lendas escaparam indemnes à revolução emanada de Zero Hour. Que o digam Batman e Mulher-Gato, cujas origens foram cirurgicamente retocadas. Entre as principais alterações à história do Homem-Morcego avultava agora o facto de ele nunca ter prendido ou confrontado os assassinos dos seus pais (fazendo dessa forma tábua rasa dos acontecimentos mostrados em Batman: Year Two).
  Retratada como uma prostituta em Batman: Year One (arco de histórias já aqui esmiuçado), a sedutora ladra com uma notória afinidade com felinos teve essa parte do seu passado eliminada. Sem qualquer referência à prática da mais velha profissão do mundo, Seline Kyle era agora apresentada como a mais ilustre moradora de uma bairro pobre de Gotham City. Já Dick Grayson (o primeiro Menino Prodígio), após décadas como pupilo de Bruce Wayne, viu ser-lhe conferido o estatuto de filho adotivo do milionário alter ego do Cavaleiro das Trevas.
  Zero Hour também abriu caminho para o lançamento de novas séries, bem como para o cancelamento de outras. Estratégia de marketing que não produziu contudo os resultados esperados. Muitos desses novos títulos teriam existência efémera, sendo extintos ao fim de poucos meses em consequência das fracas vendas. Honrosa exceção foi Starman, cujo sucesso junto dos leitores  e da crítica balizaria a forma como os editores deveriam reabilitar as personagens da Idade do Ouro.
  A receita narrativa de Starman, que consistia em servir aventuras ambientadas no presente mas refletindo acontecimentos passados, seria depois reproduzida nas histórias da Sociedade da Justiça da América, outra das séries a fazer furor nesse período.

Capa de Starman nº0, uma das mais bem-sucedidas séries no panorama editorial pós-Zero Hour.

  Contudo, nem todos os problemas de continuidade do Universo DC foram resolvidos por Zero Hour. Sobejavam ainda várias pontas soltas, que não tinham sido atadas nem cortadas, ameaçando tornar-se num enorme emaranhado. Entre elas incluía-se o futuro distópico mostrado em Armageddon 2001, história que requeria elementos de linhas divergentes entretanto eliminadas. Entre elas encontrava-se o chamado Universo Compacto. Levantando assim a questão do que fazer com a Supergirl/Matriz (criatura de protoplasma originária dessa realidade). Objetivando solucionar esse e outros quebra-cabeças, a DC introduziu o conceito de Hipertempo. Que mais não era do que uma declinação do velhinho Multiverso pré-Crise.
   Em vez de o resolver, o Hipertempo tornar-se-ia rapidamente em parte do problema. Com os editores da DC a resolverem em 2005 cortar o mal pela raiz através de Crise Infinita, saga que resgataria diversos conceitos remontando ao período que precedeu Crise Nas Infinitas Terras.

Um novo começo para o Homem de Aço e para todo o Universo DC.

Notas: 

* Conquanto Worlds Collide (crossover da DC e da Milestone Media produzido meses antes de Zero Hour) haja sido apagado da continuidade da Editora das Lendas em consequência dos eventos narrados na saga, o naipe de personagens proveniente do chamado Dakotaverso seria incorporado na mitologia DC em 2009;
* Dado o alcance temporal de Zero Hour, algumas das suas ramificações estenderam-se até anos vindouros. Em 2008, por exemplo, durante um encontro fortuito ocorrido no continuum espaço-temporal, o Besouro Azul e o Gladiador Dourado viram-se forçados a defrontar Parallax e Extemporâneo;
* Inebriado pelo poder de Parallax, Hal Jordan propôs-se recriar o Multiverso. Desígnio insólito, considerando que ele não deveria conservar qualquer memória dessa realidade pregressa. Importa observar, a este propósito, que Hal estivera ausente durante os cataclísmicos eventos de Crise nas Infinitas Terras. Pouco antes da batalha final contra o Anti-Monitor na aurora dos tempos, Hal renunciara às suas funções na Tropa dos Lanternas Verdes, sendo readmitido apenas após a conclusão da saga.

Como podia Hal Jordan rememorar eventos que não vivenciara?


Vale a pena ler?


 Primeira de muitas sequelas de  Crise nas Infinitas Terras, Zero Hora cumpriu com razoável mérito o seu propósito de eliminar algumas das pontas soltas herdadas da sua antecessora. Perdendo, todavia, na comparação com ela. Não só pelo menor impacto que dela decorreu na cronologia do Universo DC, mas sobretudo por ser uma história datada.
  Se o leitor não estiver familiarizado com a realidade do Universo DC em 1994, muito do que está em causa na saga soar-lhe-á irrelevante. Zero Hora não é, pois, uma saga intemporal. Ironia que lhe retira algum valor narrativo ao mesmo tempo que lhe reforça o valor histórico.
  Em contrapartida, apesar dos muitos elementos comuns com Crise nas Infinitas Terras, Zero Hora é de mais fácil digestão. Contribuindo para isso o menor número de personagens, a trama mais compacta e um compasso narrativo mais ligeiro.
  Divertida quanto baste, Zero Hora foi mais uma eloquente expressão da relação amor-ódio que a DC mantém há demasiado tempo com o seu labiríntico Multiverso. A exemplo de vários outros exercícios de revisionismo dos cânones da Editora das Lendas, esta saga foi apresentada como panaceia para os crónicos problemas de continuidade que são a sua pedra de toque. Porém, quanto muito, poderá ser perspetivada como um paliativo.
  Conforme atestam, aliás, os cíclicos ajustamentos cronológicos (4 só neste século) levados cabo no período subsequente à publicação de Zero Hora. E que, invariavelmente, assumem a forma de sagas de grande magnitude que prometem não deixar nada como está. Mas que, no final das contas, mais não fazem do que baralhar e voltar a dar.
  Baralhados ficam sem dúvida os leitores - mesmo os mais veteranos - com estes sucessivos reboots, com a palavra "crise" quase sempre inclusa nos respetivos títulos ou sub-títulos. Este vocábulo de origem grega parece, de resto, corresponder a outro dos fetiches dos mandachuvas da DC. Curioso verificar que ele preside há mais de 30 anos ao seu léxico. Servindo, porventura, para esconder uma certa crise de criatividade instalada na Editora das Lendas (e, por extensão, a toda a indústria dos comics).
  Face ao exposto, talvez fosse já tempo de a DC decidir o que quer fazer com o seu caleidoscópio de mundos paralelos. Assumi-lo ou renegá-lo de uma vez por todas. Porque começa a não haver paciência para este círculo vicioso de fins e recomeços.
 
O que fazer com um Multiverso em constante convulsão?

   

08 janeiro 2016

HEROÍNAS EM AÇÃO: PSYLOCKE




   De simples coadjuvante das histórias do Capitão Britânia (de quem é irmã e que chegou a substituir temporariamente) a sex symbol mutante. Sucessivas metamorfoses deixaram Betsy Braddock irreconhecível. No decurso dos anos teve o visual, os poderes e até a etnia alterados. Prometendo, dentro de meses, arrasar no grande ecrã ao assumir papel de destaque no filme X-Men: Apocalipse.

Nome original da personagem: Psylocke
Licenciadora: Marvel Comics
Criadores: Chris Claremont (história) e Herb Trimpe (arte)
Primeira aparição como Betsy Braddock: Captain Britain nº8 (dezembro de 1976)
Primeira aparição como Psylocke: New Mutants Annual nº2 (outubro de 1986)
Identidade civil: Elizabeth "Betsy" Braddock
Espécie: Homo Superior (humana mutante)
Local de nascimento: Maldon,Essex (Reino Unido)
Parentes conhecidos: James e Elizabeth Braddock (pais falecidos), Brian Braddock (irmão gémeo), James "Jamie" Jr. (irmão) e Meggan Braddock (cunhada)
Afiliação: Atualmente reincorporada nas fileiras dos X-Men, Psylocke  passou anteriormente pelos Exilados, X-Force, S.T.R.I.K.E. e pela liga de assassinos conhecida como Tentáculo. Foi também o Cavaleiro da Morte ao serviço do vilão Apocalipse (papel que reassumirá na próxima longa-metragem dos X-Men).
Base de operações: móvel
Armas, poderes e habilidades: Nos primórdios da sua carreira como X-Man, Psylocke possuía essencialmente talentos telepáticos. Circunstância que lhe possibilitava ler e projetar pensamentos a grandes distâncias, controlar mentalmente ou afetar as memórias de terceiros. Detinha ainda a habilidade de emitir rajadas de energia psiónica passíveis de incapacitar ou mesmo matar os seus alvos (fossem eles orgânicos ou inorgânicos). Outro dos seus dons nesta fase consistia numa precognição limitada. Esporádicas e aleatórias, as suas premonições permitiam-lhe ter pequenos vislumbres do futuro imediato ou de possíveis eventos vindouros.
  Na sequência da sua transformação física numa ninja nipónica chamada Kwannon, à sua telepatia Psylocke acrescentou uma enorme proficiência em artes marciais e técnicas de combate. Extraordinariamente destra no manuseamento de armas brancas, passou igualmente a conseguir gerar adagas psíquicas que usava para danificar a mente e o sistema nervoso dos seus oponentes.
  Por um breve período de tempo, a heroína mutante desenvolveu a capacidade de se teleportar a si e a outros, mesmo para geografias distantes. Certa vez conseguiu transportar os seus colegas X-Men de um continente para outro. Acabaria no entanto por se ver privada deste poder pouco tempo depois de o ter adquirido. O mesmo sucedendo com os seus dons telepáticos, sacrificados para manter o Rei das Sombras aprisionado no Plano Astral. E que seriam posteriormente substituídos pela telecinésia herdada da Fénix.
  Quando aprendeu a dominar os seus novos poderes, Psylocke passou a conseguir forjar uma katana composta de pura energia psiónica. Arma que tanto lhe permite cortar as sinapses dos seus adversários como praticamente qualquer matéria física.Em combates mano a mano, a irmã gémea do Capitão Britânia serve-se frequentemente da sua telecinésia  para aumentar a sua força e velocidade.
   Acumulando presentemente telepatia e telecinésia, os poderes de Psylocke estão mais formidáveis do que nunca.Ao usá-los, uma aura energética em forma de borboleta emoldura-lhe o rosto. Fenómeno que nunca foi devidamente esclarecido pelo argumentistas. Persistindo, assim, a dúvida se será algo que poderá ser percecionado por terceiros ou se se tratará de um mero efeito gráfico para sinalizar junto dos leitores a ativação dos seus dons mutantes. Certo é que esta "borboleta" (descrita por vezes como tendo olhos nas suas asas) é a forma geralmente assumida pela heroína quando projeta a sua forma astral.
  Fabricada a partir de um metal desconhecido mas extremamente leve e resistente, a armadura usada por Psylocke confere proteção adicional ao seu corpo físico, especialmente contra ataques envolvendo projéteis ou rajadas de energia. Cortesia do seu colega de equipa Wolverine, que lhe ofertou o traje muitos anos atrás.

Visual primitivo de Psylocke antes da sua metamorfose física.

Biografia e histórico de publicação: Produto da imaginação do escritor Chris Claremont (perfil já publicado neste blogue), Elizabeth "Betsy" Braddock debutou em dezembro de 1976 nas páginas de Captain Britain nº8, título publicado pela filial britânica da Marvel Comics. Deste facto decorreram alguns equívocos envolvendo a ortografia da nomenclatura da personagem. Isto porque, nos EUA, se escreve "Elisabeth". Inconsistência linguística que demorou 32 anos a ser corrigida. Aconteceu em 2008, na série Exiles, quando Claremont impôs definitivamente a última letra do alfabeto no nome civil da sua criação.
  Introduzida como coadjuvante nas historietas do Capitão Britânia, a Betsy Braddock foi conferido o estatuto suplementar de irmã gémea do herói. Filhos de Sir James Braddock, um influente aristocrata inglês, Brian e Betsy (tal como Jamie, primogénito da família) cresceram num ambiente privilegiado. Havendo entre ambos uma intensa cumplicidade que perduraria pela vida fora.
  Apesar da falta de explicação para as mesmas, convencionou-se que Betsy seria detentora de habilidades psíquicas cuja total extensão se ignorava. Algum tempo depois seria revelado que ela era, afinal, portadora do gene X. Facto que fazia dela uma ilustre representante da espécie Homo Superior.

Psylocke estreou-se em Captain Britain nº8 (1976), título estrelado pelo seu irmão gémeo.


 Curiosamente, a primeira de muitas reconfigurações operadas na personagem verificou-se no respetivo campo profissional. Inicialmente retratada como uma piloto da aviação comercial, menos de um ano transcorrido sobre a sua estreia, Betsy passou a modelo de passarela. Mudança de ofício ocorrida em Super Spider-Man and Captain Britain nº243 (série semanal exclusivamente publicada no mercado inglês) e que se seguiu à morte do seu progenitor.
   Anos depois, em março de 1983, no terceiro número de Daredevils (outro título dado à estampa em Terras de Sua Majestade), o escritor Alan Moore (perfil também já publicado neste blogue) estabeleceu que Betsy seria uma operacional da STRIKE (congénere britânica da SHIELD). Seria nesta condição que a jovem exploraria os seus talentos psíquicos e sofreria a sua primeira metamorfose física. Pouco tempo após ter sido recrutada para as fileiras da agência governamental, Betsy, loura natural, tingiu o cabelo de púrpura. Opção estética que logo se tornaria uma das suas imagens de marca.
  O relançamento de Captain Britain, no princípio de 1986, trouxe nova guinada na trajetória de Betsy Braddock. Pouco depois de conhecer a mutante transmorfa Meggan, Brian Braddock abandonou a sua carreira heroica como Capitão Britânia. Assimilando os poderes do irmão, Betsy apresentou-se ao mundo como a nova defensora da Velha Albion. Contudo, por força da sua inexperiência,foi derrotada sem apelo nem agravo na batalha que a opôs ao Mestre dos Assassinos. Num ato de pura crueldade, o vilão perfurou os olhos de Betsy, cegando-a. Sedento de vingança, Brian reassumiu o manto de Capitão Britânia e tirou a vida ao algoz da sua irmã.

Betsy Braddock como Capitão Britânia.
 
  Nesse mesmo ano, Chris Claremont introduziu Betsy Braddock nas histórias dos X-Men. Numa aventura dos Novos Mutantes publicada em New Mutants Annual nº2, depois de raptada pelo vilão extradimensional Mojo, a jovem foi submetida a uma lavagem cerebral e teve as suas córneas danificadas substituídas por olhos biónicos. História que assinalou, também, a primeira vez em que Betsy foi referenciada como Psylocke.
  Depois de resgatada pelos Novos Mutantes, Psylocke encontrou abrigo na Escola Xavier, à época dirigida por Magneto devido à ausência do Professor X. Ainda que de forma involuntária, a jovem fez trabalho de espionagem para Mojo.Os olhos biónicos que o vilão lhe aplicara durante o seu período de cativeiro funcionavam como câmaras. Assim, tudo o que Psylocke via era registado e retransmitido a Mojo.
   Olhada com desconfiança por alguns dos seus colegas, Psylocke provou a sua coragem e lealdade durante Massacre de Mutantes (saga já aqui analisada). Quando a Escola Xavier foi invadida por Dentes-de-Sabre, a jovem, mesmo sem possuir habilidades de combate, logrou atraí-lo para longe da enfermaria onde se encontravam os mutantes feridos até à chegada de Tempestade e Wolverine. Usando depois as suas habilidades telepáticas para perscrutar a mente do vilão,  e assim descobrir a identidade do verdadeiro mentor da carnificina que dizimara os Morlocks. Atos de bravura recompensados com a sua admissão na equipa.

Foi nesta edição anual dos Novos Mutantes, datada de outubro de 1986, que Betsy Braddock  adquiriu oficialmente o codinome Psylocke.
 
  Outro episódio capital na vida de Psylocke ocorreu em finais de 1989. Em Uncanny X-Men nº251 (de novembro desse ano), após ficar amnésica na sequência de uma viagem interdimensional, a heroína foi capturada em território chinês pelo Tentáculo. Durante o período de cativeiro que se seguiu, ela foi submetida a lavagem cerebral e teve a sua consciência transferida para o corpo de uma ninja japonesa chamada Kwannon. Adquirindo assim o visual que se tornou icónico. A sua reprogramação mental incluiu também sofisticadas técnicas de combate, que conservou mesmo depois de ter sido libertada por Wolverine. E que passou a acumular com os teus talentos telepáticos.
   Nos alvores deste século, mais precisamente em 2001, Psylocke foi morta nas páginas de X-Treme X-Men nº2 (título escrito por Chris Claremont, seu criador). Assim permanecendo durante quatro anos, altura em que foi revivida pelo próprio Claremont em Uncanny X-Men nº455. No entanto, ao invés do que seria expectável, a personagem não regressou às histórias dos Filhos do Átomo. Em vez disso, mudou-se de armas e bagagens para Exiles, um spin-off da franquia dos X-Men ambientado numa realidade paralela. Com o cancelamento da série, no início de 2009, Psylocke, qual filha pródiga, retornou ao universo canónico da Marvel e às páginas de Uncanny X-Men. Transferindo-se no ano seguinte para a nova X-Force liderada por Wolverine.
  Mais perturbada e sanguinária do que nunca, na atual cronologia da Casa das Ideias (All-New Marvel NOW!) Psylocke começou por fazer parte do renovado elenco da X-Force (agora liderada por Cable). Acabando, no entanto, por afastar-se do grupo na sequência de diversos incidentes violentos por ela protagonizados.Admitindo estar viciada em matar, por ser essa a única maneira de sentir algo, a jovem recuperaria pouco depois o seu estatuto de membro de pleno direito dos X-Men.

Psylocke e a sua katana psiónica ao serviço dos Exilados, versão alternativa dos X-Men.

Relacionamentos amorosos: Tão extenso como o rol de transformações de Psylocke é o seu currículo amoroso. Sedutora compulsiva e com uma sensualidade à flor da pele, a jovem heroína manteve um sortido de romances mais ou menos inconsequentes ao longo dos anos.
  Enquanto membro da Divisão Psíquica da STRIKE, envolveu-se com um colega de equipa chamado Tom Lennox. Este morreria, porém, pouco tempo depois ao tentar defendê-la. Como o casal estava conectado através de um elo telepático criado por Psylocke, ela vivenciou mentalmente a morte do amante. Episódio trágico que a traumatizou profundamente.
  Após o seu regresso aos X-Men, habitando já o corpo de Kwannon, Psylocke manipulou telepaticamente Ciclope, induzindo-o a sucumbir aos seus encantos. Quando eliminou finalmente os últimos resquícios da personalidade da sua hospedeira, Betsy apresentou um pedido de desculpas a Jean Grey pela sua conduta, alegando que esta fora motivada pelo subconsciente de Kwannon. Intimamente, porém, ambas as mulheres estavam cientes de que a atração de Psylocke pelo líder dos X-Men fora genuína.
  Ainda durante a sua estada na Mansão X, a heroína britânica teve um fugaz affair com Arcanjo. O casal concordou, no entanto, em pôr-lhe um ponto final, tantas eram as diferenças entre eles.

Arcanjo e Psylocke: os opostos atraem-se, mas logo se repelem.

  Aquando da sua primeira passagem pelos Exilados, Psylocke aventurou-se num relacionamento de combustão rápida com Dentes-de-Sabre. Quando a química sexual entre ambos se extinguiu, ela e Arcanjo reaproximaram-se, na esperança de um reatamento que acabaria por não acontecer. Seguindo-se então um romance bissexual de Psylocke com o também mutante Fantomex e a sua contraparte feminina, quando o trio fez parte da rediviva X-Force liderada por Cable. Que acabaria, por sua vez, por engrossar a lista de conquistas amorosas da jovem.

Bela e perigosa como uma nevasca.

Noutros media: Após a sua radical mudança de visual em 1989, Psylocke tornou-se uma das mais icónicas e carismáticas personagens femininas dos quadradinhos. Sem surpresa, a sua enorme popularidade entre os leitores abriu-lhe caminho para outras experiências mediáticas. Numa primeira fase por via da sua participação em jogos de vídeo baseados no universo dos X-Men, Psylocke foi arregimentando uma considerável legião de fãs. Chegando mesmo a disputar com Lara Croft o título de maior sex symbol virtual
   Ao ecrã do computador e da consola, sucedeu o da TV. Com efeito, a sua estreia televisiva registou-se em 1996, num par de episódios da terceira temporada da série animada X-Men. Surgindo retratada como uma guerreira solitária que roubava por uma causa. Nesta sua encarnação, Psylocke exibia uma notável habilidade para projetar as suas adagas psíquicas, trespassando matérias orgânicas e inorgâncias. Apesar de fazer referências a um irmão, em momento algum este é identificado como sendo o Capitão Britânia.
  Embora fisicamente ausente do grande ecrã, o nome de Psylocke era um dos que figurava na lista de mutantes arquivada no computador do coronel Stryker, pirateado por Mística em X-Men 2 (2003). No capítulo seguinte da franquia (X-Men 3: O Confronto Final, 2006), ela surge como uma vilã menor, interpretada pela atriz Meiling Melaçon. Não sendo, contudo, certo se a personagem em questão seria Betsy Braddock ou Kwannon.
 Em 2011, Psylocke foi uma das oito mutantes que o portal de entretenimento IGN desejava ver incluídos na sequela de X-Men: First Class. Todavia, apesar de, num primeiro rascunho do guião de
X-Men: Days of  Future Past, estar prevista a sua participação no filme, tal acabaria por não se verificar.
  Frustração que os fãs da heroína verão compensada já em maio, quando chegar às salas de cinema de todo o mundo o tão aguardado X-Men: Apocalypse. Película em que Psylocke - a quem a deslumbrante Olivia Munn emprestará corpo e alma - terá certamente papel de relevo, já que será um dos Quatro Cavaleiros de Apocalipse.

Uma das primeiras fotos oficiais de Olivia Munn como Psylocke em X-Men: Apocalipse postas a circular no ciberespaço.