09 abril 2016

CLÁSSICOS DA 9ª ARTE: «A MORTE DE GWEN STACY»





   Fustigado pelo Destino, Peter Parker perdeu para sempre o amor da sua vida numa malsinada noite em que batalhava o seu némesis. Desenlace trágico de um épico que mudaria para sempre a vida do herói, e que já foi transposto ao cinema.


Título original: The Night Gwen Stacy Died
Data: Junho-julho de 1973
Autores: Gerry Conway (história), Gil Kane (esboços) e John Romita, Sr. (arte-final)
Licenciadora: Marvel Comics
Publicado em: The Amazing Spider-Man nº121-122
Protagonistas: Peter Parker/Spider-Man (Homem-Aranha), Norman Osborn/Green Goblin (Duende Verde) e Gwen Stacy
Coadjuvantes: May Parker, Mary Jane Watson, Harry Osborn e J. Jonah Jameson
Cenários: Diferentes pontos da cidade de Nova Iorque, designadamente a ponte George Washington




Capas de The Amazing Spider-Man nº121 (acima) e 122.

 Gwen Stacy: de donzela a mártir





    Quem foi o grande amor de Peter Parker? Gwen Stacy ou Mary Jane Watson? Este é um tópico que ainda hoje motiva acaloradas discussões entre os fãs do Escalador de Paredes, sem que seja, contudo, possível chegar a um consenso.
   Controvérsias à parte, é inegável o papel fundamental que Gwen Stacy teve (e, em certa medida, continua a ter) na vida de Peter Parker. Mas o que, exatamente, sabemos sobre ela?
   De sua graça Gwendolyn Maxine "Gwen" Stacy, a loira delicodoce que arrebatou o coração de Peter começou a espalhar o seu encanto em dezembro de 1965, nas páginas de The Amazing Spider-Man nº31. Fruto da imaginação de Stan Lee* e Steve Ditko**, foi apresentada aos leitores como uma colega de Peter na Universidade Empire State. Perante a aparente indiferença do jovem aos seus subtis avanços, Gwen namorou brevemente com Flash Thompson e Harry Osborn.
   Peter, por sua vez, julgando Gwen fora do seu  alcance, viveu um romance de combustão rápida com a extrovertida Mary Jane. Conforme Peter depressa descobriu, as duas raparigas eram diferentes como a noite do dia: enquanto Gwen - uma brilhante aluna de Ciências - lhe admirava principalmente o intelecto, MJ pôs a nu a sua frivolidade e egocentrismo.
   Pouco tempo depois de Peter e Gwen deixarem os respetivos pares para começarem a namorar um com o outro, o capitão George Stacy (pai da jovem, entretanto introduzido nas histórias do Homem-Aranha, de quem era aliado) morreria atingido por destroços resultantes de uma rixa entre o herói e o Doutor Octopus.
   Recriminando o Escalador de Paredes pelo sucedido, Gwen anunciou a sua intenção de viajar para a Europa em busca de paz de espírito. Intimamente, porém, ela desejava que Peter a pedisse em casamento e a convencesse a ficar junto dele. Acabrunhado pelos remorsos, o jovem assistiu impávido à partida da sua amada para o Velho Continente.
   A separação foi, contudo, temporária. Impelida pelos fortes sentimentos que ainda nutria por Peter, Gwen regressou poucos meses depois a Nova Iorque, com o casal a logo reatar o namoro.
   De acordo com Stan Lee -  que até então escrevera todas as histórias envolvendo Gwen Stacy -, ele e os seus colaboradores sempre tiveram em mente fazer da personagem o principal interesse romântico de Peter Parker. Mas, fizessem o que fizessem, Mary Jane parecia sempre mais interessante...
    Importa ainda acrescentar que, até ao momento, foram duas as atrizes a encarnar Gwen Stacy no cinema: Bryce Dallas (Spider-Man 3) e Emma Stone (The Amazing Spider-Man 1 e 2). Contudo, apenas a segunda  protagonizou uma adaptação da história original (vide segmento Repercussões).

*/**Perfis disponíveis em http://bdmarveldc.blogspot.pt/2011/09/eternos-stan-lee.html http://bdmarveldc.blogspot.pt/2012/03/eternos-steve-ditko.html

A morte de um anjo deixa sempre o mundo mais sombrio.
 
Conceção e desenvolvimento: Antes de selarem o destino de Gwen Stacy, Gerry Conway (ver texto anterior), Roy Thomas e John Romita, Sr. consultaram Stan Lee. Em entrevista concedida em 2011, o criador da namorada de Peter Parker recordou como tudo se passou: "Lembro-me que estava a preparar-me para uma viagem de negócios à Europa. Olhando para trás, julgo que não estaria a raciocinar com clareza porque quando os três estarolas me comunicaram a sua intenção de matar Gwen Stacy, eu não vi motivos para contrariá-los. Tudo o que eu queria naquele momento era enxotá-los para fora do meu escritório, para poder continuar a arrumar em paz a minha bagagem. Quando regressei a Nova Iorque e tomei conhecimento da morte de Gwen Stacy, interroguei-me por que raio é que eles o teriam feito? Nem queria acreditar que Gerry Conway tinha escrito algo assim. Tive de ser lembrado do aval que lhe dera durante a conversa no meu escritório antes de viajar."
   Dez anos antes destas declarações do desmemoriado Papa da Marvel, Gerry Conway apresentara a sua versão dos factos em The 100 Greatest Marvels of All Time: " Peter e Gwen  formavam o casal perfeito. Mas levar o relacionamento de ambos ao próximo nível (casamento ou, pelo menos, a revelação da vida dupla de Peter) seria trair tudo o que  o Homem-Aranha representa: tragédia pessoal e uma vida cheia de angústia. Eliminar Gwen Stacy permitiu, por assim dizer, matar dois coelhos com uma cajadada: pôr fim ao conto de fadas dos pombinhos e reforçar o elemento trágico que, na minha opinião, é a força motriz do Homem-Aranha".


Peter Parker: uma vida ensombrada pela tragédia.

   Embora o enredo escrito por Gerry Conway localizasse a tragédia na ponte George Washington, a que surge desenhada em The Amazing Spider-Man nº121 é a ponte de Brooklyn. Inconsistência que deu azo a conjeturas, mas que foi assim explicada por Stan Lee: "Fiz asneira. O artista desenhou a ponte do Brooklyn e eu, como editor, identifiquei-a como sendo a George Washington. Mas o erro seria emendado em futuras republicações da história."
  Na narrativa original, a sequência da morte de Gwen Stacy incluía a onomatopeia "snap" estrategicamente colocada  junto à cabeça da rapariga no painel em que o Homem-Aranha a apanhava com a sua teia. Em republicações vindouras, esse efeito sonoro seria, contudo, removido. Sobrevindo daí as dúvidas de muitos leitores quanto às reais causas da morte de Gwen. Com o intuito de as dissipar, Roy Thomas publicou a seguinte nota na secção de cartas de The Amazing Spider-Man nº125 (outubro de 1973): "É com enorme pesar que confirmamos que Gwen Stacy morreu em resultado do efeito de chicote provocado pela teia do Homem-Aranha. Era impossível ele tê-la salvado. Nunca a alcançaria a tempo se tivesse optado por saltar para apanhá-la no ar, a ação que tomou resultou na morte da rapariga e, mesmo que não tivesse feito nada, ela acabaria por não resistir a uma queda de tão grande altura. Não havia nada a fazer."
   Tese ratificada pelo professor de Física (e colecionador de comics) James Kakalios, no seu livro The Physichs of Superheroes (A Física dos Super-Heróis): "No mundo real, o efeito de chicote causado pela teia do Homem-Aranha quebraria o pescoço de Gwen como se de um galho seco se tratasse."


A sequência original da morte de Gwen Stacy.
     

Enredo: Amnésico, Norman Osborn esquece o seu alter ego de Duende Verde e também o facto de Peter Parker e o Homem-Aranha serem a mesma pessoa. Transtornado com a descoberta de que o seu filho, Harry, é um viciado em drogas, o empresário sequestra-o na mansão familiar para o submeter a uma desintoxicação radical.
   Aliada às severas pressões financeiras, a mágoa decorrente da condição do filho desencadeia o colapso emocional de Norman. Donde resulta a reemergência da sua persona maligna e de todas as memórias reprimidas. Voltando, assim, Peter Parker e os seus entes queridos a ficarem na mira do Duende Verde.
   Gwen Stacy, namorada de Peter e amiga de Harry, é raptada pelo Duende Verde. O vilão usa a rapariga como isco para atrair o Homem-Aranha até um dos pilares da ponte George Washington.
  Segue-se uma violenta refrega entre os dois inimigos jurados, que culmina com o Duende Verde a atirar Gwen do alto da estrutura. Agindo instintivamente, o Homem-Aranha dispara uma das suas teias para tentar suster a queda desamparada da jovem para as águas turvas do rio Hudson. A teia adere ao tornozelo de Gwen, deixando-a a baloiçar no ar. Convencido de que tinha salvado a vida da sua amada, o herói fica em choque quando, ao içá-la, percebe que ela está morta.
   Mesmo sem saber ao certo se fora o efeito de chicote causado pela sua teia a quebrar o pescoço da rapariga, ou se ela já estaria morta quando o Duende Verde a deixou cair, o Homem-Aranha recrimina-se pela tragédia.
   Tolhido por uma dor indizível, o herói chora sobre o corpo inerte de Gwen, enquanto o Duende Verde voa para longe dali. Mesmo à distância, porém, o vilão consegue ouvir as juras de vingança proferidas pelo Escalador de Paredes.

Angústia e desejo de vingança toldaram o espírito do herói.

  Na segunda parte da história, o Homem-Aranha persegue o Duende Verde até a um armazém devoluto e espanca-o com violência. Impede-se, contudo, de tirar a vida ao seu adversário. Aproveitando a hesitação do herói, o Duende Verde aciona remotamente o seu planador com a intenção de usá-lo para trespassar o herói pelas costas. Alertado pelo seu sentido de aranha, o Escalador de Paredes consegue esquivar-se do ataque, acabando o vilão empalado pelo próprio aparato.
   Com a aparente morte do Duende Verde, Peter Parker procura retomar a sua vida, apesar do enorme vazio que a preenche. No regresso a casa após mais um dia de aulas, tem à sua espera Mary Jane Watson, igualmente destroçada pela perda da sua melhor amiga. Unidos no luto, os dois procuram consolar-se mutuamente. Mas ambos sentem nos ossos que nada voltará a ser como dantes.

O feitiço virou-se contra o feiticeiro e o Duende Verde pagou pelos seus crimes.


Peter e Mary Jane (re)unidos pela tragédia.

Repercussões:

* A morte de Gwen Stacy deixou a comunidade de fãs do Escalador de Paredes em choque. Até pouco tempo antes da sua publicação, seria impensável que algo tão trágico pudesse suceder com uma personagem de tamanha relevância. Importa ressaltar que, por norma, os heróis não costumavam falhar tão miseravelmente, a menos que isso fizesse parte da sua origem. Razão que leva muitos especialistas a referenciarem esta história como aquela que assinalou o fim da chamada Idade da Prata, e o consequente advento da Idade do Bronze (trazendo consigo um registo mais sombrio aos comics);
*Gwen Stacy deu o nome a uma síndrome patenteada pelo Comics Buyer's Guide, e que serve ainda hoje para designar a tendência recorrente de dar fins trágicos aos interesses românticos dos super-heróis. Alguns exemplos célebres: Elektra Natchios (ex-namorada de Matt Murdock/Demolidor), Betty Ross (ex-esposa de Bruce Banner/Hulk) e Jean Grey (ex-esposa de Scott Summers/Ciclope);
* Numa votação promovida em 2001 pela Marvel, a fim de elaborar a lista das cem melhores histórias da editora, Spider-Man nº121 e nº122, quedaram-se, respetivamente, nos 6º e 19º lugares;
* Em julho de 2013, a escritora norte-americana Sarah Bruni deu à estampa o seu romance de estreia, intitulado precisamente The Night Gwen Stacy Died. A narrativa tem como protagonistas um casal que  se refere a si mesmo como Peter Parker e Gwen Stacy;

O romance homónimo de Sarah Bruni.

* Durante a Guerra Civil, tanto o Capitão América como o Homem de Ferro citaram a morte de Gwen Stacy como argumento para as suas posições díspares relativamente à Lei do Registo de Superseres (LRS). Enquanto o primeiro sustentava que tal só acontecera em virtude do Duende Verde conhecer a verdadeira identidade do Homem-Aranha (a LRS requeria que todos os heróis revelassem as suas identidades civis), o segundo contrapunha que, na origem da tragédia, estivera a falta de treino do Escalador de Paredes (o qual seria doravante ministrado a todos os heróis registados);
* Repleta de liberdades poéticas, a primeira adaptação de The Night Gwen Stacy Died ao grande ecrã foi feita em 2002. Em Spider-Man, Mary Jane Watson fez as vezes de Gwen Stacy. No entanto, ao contrário da sua malograda antecessora no coração de Peter Parker, a fogosa ruiva acabaria salva pelo herói aracnídeo de uma queda fatal no rio Hudson. Já a subsequente morte do Duende Verde foi coreografada no filme de uma forma muito similar à da história original;
* Igualmente com diversas nuances, a imolação de Gwen Stacy foi retratada em The Amazing Spider-Man 2 (2014). Com a principal diferença a residir no cenário escolhido: nesta versão, o Duende Verde preferiu a torre de um relógio à icónica ponte George Washington para lançar a jovem para a morte. Numa sequência muito semelhante à da banda desenhada, ao tentar salvar a sua amada, o Homem-Aranha acaba acidentalmente por matá-la;

Emma Stone como Gwen Stacy em The Amazing Spider-Man 2 (2014).

Realidade alternativa: Numa história não-canónica publicada em What If nº24 (dezembro de 1980), o Homem-Aranha consegue salvar Gwen Stacy do seu destino fatídico, saltando e amparando com o corpo a queda da rapariga do alto da ponte George Washington, em vez de tentar sustê-la em pleno ar
com a sua teia. Estratégia idêntica àquela que o herói utilizaria para salvar Mary Jane no filme Spider-Man (2002).
   No seguimento desse resgate bem-sucedido, Peter Parker pede Gwen em casamento, depois de lhe revelar a sua identidade secreta. Paralelamente, Norman Osborn sucumbe uma vez mais ao seu lado insano após o seu filho, Harry, ter saído de casa receando pela própria vida.
   Apesar do amor incondicional que nutrem um pelo outro, o destino de Peter e Gwen é tudo menos risonho. Para garantir a sua vitória final, o Duende Verde envia a J. Jonah Jamenson provas relacionadas com a verdadeira identidade do Homem-Aranha. Sem pensar duas vezes, o diretor do Clarim Diário publica o material. Usando-o, de seguida, para obter um mandado de captura para Peter Parker. Circunstância que obriga o jovem a fugir à polícia meros instantes depois de ter trocado alianças com Gwen.
  Com Peter em paradeiro incerto, a história termina com uma desolada Gwen a acolher a promessa feita por Joe Robertson (editor do Clarim Diário) de tudo fazer para ajudá-la a encontrar o marido.

Capa de What If? nº24 (história publicada no Brasil em Homem-Aranha nº10, da Abril).


Edições em Português

   No Brasil, o arco de histórias apresentando a morte de Gwen Stacy teve, no decorrer dos anos, direito a várias republicações sob os auspícios de diferentes editoras. Aqui fica uma retrospetiva das mesmas:

* O Homem-Aranha nº54 (Ebal, setembro de 1973);
* Homem-Aranha nº18 (RGE, junho de 1980);
* Marvel Especial nº2 (Abril, dezembro de 1986);
* A Teia do Aranha nº61 (agosto de 1991);
* Os Maiores Clássicos do Homem-Aranha nº3 (Panini, novembro de 2004);
* Homem-Aranha: Grandes Desafios (Panini, junho de 2007);
* Coleção Histórica Marvel: Homem-Aranha nº1 (Panini, setembro de 2013)


Homem-Aranha nº18 (RGE, junho de 1980).


A Teia do Aranha nº23 (Abril, agosto de 1991).
Coleção Histórica Marvel: O Homem-Aranha nº1 (Panini, setembro de 2013).

Vale a pena ler?

   Sim, mil vezes sim! Vale a pena ler e reler esta que é uma das mais notáveis histórias do Escalador de Paredes e, convenhamos, da Marvel.
    A par do assassinato do tio Ben, a morte de Gwen Stacy foi o episódio mais marcante na vida de Peter Parker. Tragédias que esculpiram o caráter do herói e que influenciaram para sempre o seu destino. Num caso como no outro, nunca saberemos em que tipo de homem Peter se teria transformado se qualquer um desses seus entes queridos tivesse sobrevivido.
    Aqui entre nós, a relação de Peter com Gwen Stacy sempre foi uma das minhas favoritas. Como devem imaginar, emocionei-me com a morte prematura daquela que considero ter sido o grande amor da vida de Peter Parker. Que me perdoem, pois, os fãs de Mary Jane Watson mas, da forma como vejo as coisas, esse monumento vivo à lascívia e à frivolidade jamais poderia dar uma boa esposa. Mais: não tivesse sido Gwen tirada de cena, e a MJ restaria assistir de camarote à felicidade amorosa do casal.
  Inteligente, generosa e - perdoem-me a expressão - linda de morrer, Gwen era um anjo de graciosidade e uma namorada modelar que sempre demonstrou ser uma influência positiva na vida de Peter. Ela tê-lo-ia certamente inspirado a cometer proezas ainda maiores do que aquelas que ele logrou alcançar. Tanto mais que, em variadíssimas ocasiões, ficou bem patente a profunda devoção que a rapariga tinha por Peter. Com uma mulher dessas ao lado, o céu é o limite para qualquer homem.
   Não fosse, pois, pelos cruéis desígnios editoriais, o casal estaria fadado a viver um daqueles amores capazes de fazer suspirar as almas românticas. Haverá, portanto, tragédia maior do que ver a pessoa com quem imaginávamos passar o resto da vida ser-nos arrancada num abrir e fechar de olhos?
    Essa é, de resto, a grande lição a tirar da morte de Gwen Stacy: estimem as pessoas que amam, expressem-lhes o vosso afeto e apreço antes que seja tarde demais. Lembrem-se que a vida é uma vela acesa ao vento...

   
Não há amor como o primeiro...


31 março 2016

ETERNOS: GERRY CONWAY (1952 - ...)




   Com apenas 19 anos foi investido da espinhosa missão de suceder a ninguém menos do que Stan Lee em The Amazing Spider-Man. Apesar da sua juventude e do peso desse legado, logrou afirmar-se ao escrever algumas das mais memoráveis histórias do Escalador de Paredes. Dele são também os créditos pela criação de personagens icónicas, como Justiceiro e Nuclear.


Biografia: De ascendência irlandesa, Gerard F. "Gerry" Conway nasceu há 63 anos no Brooklyn (Nova Iorque). Criado no seio de uma modesta família de imigrantes de segunda geração, o pequeno Gerry lia historietas de super-heróis com devoção religiosa. A mesma que lhe falta hoje em dia, apesar de ter recebido uma educação baseada nos preceitos do Catolicismo.
   No seu blogue pessoal, Gerry Conway descreve nestes termos os seus antecedentes familiares: "Os meus avós maternos nasceram na Irlanda. Como muitos outros,antes e depois deles, vieram à procura do sonho americano. Viveram no entanto uma vida em tudo parecida com aquela que a minha empregada de limpeza latina vive hoje em dia. O meu avô trabalhava de sol a sol como estivador nas docas. A minha avó lavava escadas na Hunter College (subsidiária da Universidade de Nova Iorque, sediada em Manhattan). Por força do seu baixo estatuto social, eram os hispânicos daquela época. Ou seja, eram tolerados mas não respeitados pelos estratos sociais mais elevados. Até o meu pai, nascido nos EUA, sentiu na pele esse preconceito em relação aos irlandeses. Raramente falava contudo do assunto. Mas, quando o fazia, era evidente o seu amargor."
  Naquilo que alguns poderão interpretar como um sinal da sua predestinação de vir a ser um expoente da 9ª arte, aos 14 anos Gerry Conway teve uma carta da sua lavra publicada em Fantastic Four nº50 (vide texto anterior). Destino que começou a desenhar-se três anos depois, em setembro de 1969, quando viu ser dado à estampa o seu primeiro trabalho profissional. Consistindo este num conto de terror, composto por seis páginas e meia, publicado em House of Secrets nº81 (título da DC Comics).

Edição de The House of Secrets que marcou
 a estreia profissional de Gerry Conway.

   Por conta desta estreia auspiciosa, da pena de Gerry Conway continuou a sair um manancial de histórias de cariz sobrenatural, publicadas nos meses subsequentes tanto em títulos da Marvel como da DC. Apesar de cada vez mais requisitado, Gerry suspirava por uma oportunidade para trabalhar com a sua verdadeira paixão: super-heróis. Graças à ajuda de amigos bem colocados, em finais de 1970, Gerry entrou em contacto com Roy Thomas    ( à época, editor da Marvel e braço-direito de Stan Lee), que concordou em testar as capacidades do jovem aspirante a escriba, dando-lhe um argumento para desenvolver.
   Oportunidade de ouro que nem passaria pela cabeça de Gerry desperdiçar. Ciente de que tinha na mão a chave para abrir de par em par as portas do seu emprego de sonho, arregaçou as mangas e trabalhou com afinco. Impressionado com a prestação do jovem,. Roy Thomas logo lhe atribuiu outras histórias, inclusive uma de Ka-Zar, publicada em Astonishing Tales nº3 (dezembro de 1970).

O primeiro trabalho de Conway para a Marvel
 foi publicado  neste volume de Astonishing Tales
  Conquistada a admiração dos seus pares, num piscar de olhos Gerry Conway tornou-se parte da mobília da Casa das Ideias. Sendo-lhe confiadas personagens cada vez mais proeminentes: a Ka-Zar seguir-se-iam Demolidor, Viúva Negra, Homem de Ferro, Inumanos e o Incrível Hulk. Sobejando-lhe, ainda assim, tempo e criatividade para escrever a história inaugural da série The Tomb of Dracula, e para participar na conceção de personagens como Lobisomem e Homem-Coisa (Werewolf e Man-Thing, nos respetivos originais).
  O batismo de fogo de Gerry Conway chegaria, contudo, em meados de 1972. Ano em que foi o escolhido para suceder a ninguém menos do que Stan Lee à frente de The Amazing Spider-Man. Ironia do destino, já que, ao contrário de Roy Thomas, o Papa da Marvel não ficara impressionado com a amostra do trabalho de Gerry Conway,  Este, do alto dos seus 19 anos, não se fez rogado na hora de aceitar aquilo que bem poderia ter sido um presente envenenado: assumir o legado de uma lenda viva num título de charneira da Casa das Ideias.
   Malgrado a sua juventude e o natural ceticismo de alguns leitores, Gerry Conway não demorou a afirmar-se, dando um novo elã ao microcosmos do Homem-Aranha. Ao longo do triénio (1972-75) que durou o seu consulado em The Amazing Spider-Man, o escritor revitalizou as histórias do Escalador de Paredes. Algumas das quais, pelo seu escopo na vida do herói, se tornariam antológicas. Foi o caso, desde logo, de The Night Gwen Stacy Died (A Noite em que Gwen Stacy Morreu), que chegou às bancas norte-americanas em junho de 1973.

A morte de Gwen Stacy continua a ser uma das histórias
 mais impactantes na vida do Escalador de Paredes.

  Oito meses depois, em parceria com Ross Andru, Gerry Conway introduziria dois novos e carismáticos antagonistas do herói aracnídeo: o Chacal (The Jackal) e o Justiceiro (The Punisher). Enquanto o primeiro estaria na origem da controversa Saga do Clone (já aqui esmiuçada), o segundo teria uma ascensão fulgurante no Universo Marvel, depressa trocando as roupagens de vilão pelas de um anti-herói cujos métodos radicais no combate à criminalidade o tornaram numa das mais populares personagens dos quadradinhos (e fora deles).

O Justiceiro (aqui pelo traço de Ross Andru, seu cocriador)
rapidamente passou de coadjuvante a protagonista.

  Paralelamente ao trabalho desenvolvido em The Amazing Spider-Man, Gerry Conway escreveu também, durante cerca de ano meio, outro dos títulos mais emblemáticos da Casa das Ideias: The Fantastic Four. 
    Factos que, em 2009, lhe motivariam as seguintes reflexões: "Qualquer pessoa com uma atividade criativa está ciente de que a precocidade é uma maldição. No meu caso, a maior parte da pressão que senti quando era um jovem escritor de super-heróis foi autoinfligida. Aquilo que eu mais queria era ser aceite como igual pelos meus colegas mais velhos. Circunstância que me levou muitas vezes a projetar uma maturidade emocional e profissional superior à que tinha na altura. 
   Posso dizer, no entanto, que era bastante convincente nesse papel. Dele decorrendo vantagens mas, obviamente, também algumas desvantagens. Olhando para trás, julgo que as pessoas se esqueciam frequentemente de quão novo eu era, esperando desse modo que eu atingisse um nível que claramente não estava ao meu alcance. 
  A principal consequência foi eu ter passado os primeiros anos da minha carreira profissional esmagado por uma gigantesca pressão, sem saber muito bem o que fazer. Escrevia muitas vezes por instinto. Quando essa forma de escrever se adequava ao material que tinha em mãos, o resultado final era estupendo. Mesmo passados todos estes anos, continuo a orgulhar-me do trabalho que fiz em The Amazing Spider-Man. Outras situações houve em que fui notoriamente prejudicado pela minha inexperiência."



Houve um antes e um depois de Gerry Conway nas histórias do Homem-Aranha.
   Regressado à DC em meados de 1975, Gerry Conway assumiu de uma assentada três edições, todas datadas de novembro desse ano: Hercules Unbound nº1, Kong, The Untamed nº3 e Swamp Thing nº19. Carga de trabalho complementada pela revitalização por ele operada em All Star Comics. Foi, aliás, neste título histórico com origens na Idade do Ouro que Gerry deu a conhecer a Poderosa (Power Girl), uma das suas mais bem-sucedidas criações.
  Tal versatilidade valeu-lhe, pouco tempo depois, o convite para escrever Superman versus The Amazing Spider-Man, o primeiro crossover oficial Marvel/DC. Iniciativa editorial que associaria para sempre o nome de Gerry Conway à história das duas gigantes dos quadradinhos estadunidenses.
  Depois de mais alguns meses a trabalhar na Editora das Lendas, em março de 1976 Gerry Conway aceitou novo desafio de monta ao assumir o cargo de editor-chefe da Marvel. Funções que exerceria apenas durante pouco mais de um mês, logo renunciando a elas por motivos que permanecem até hoje obscuros.

Nos créditos da batalha do século XX figurava o nome de Gerry Conway.

  Novamente ao serviço da DC (agora em regime de exclusividade), na década seguinte Gerry Conway deixaria a sua marca em praticamente toda a linha de títulos da editora. De Superman a Detective Comics (onde Batman era cabeça de cartaz), passando por Justice League of America, poucas foram as personagens que não tiveram histórias escritas pela sua incansável pena. Fase seminal em que Gerry Ordway foi também cocriador de um lote de personagens emblemáticas. Citando apenas as mais afamadas: Nuclear (Firestorm), Vixen, Vibro (Vibe), Cigana (Gipsy) e Gládio (Steel, the Indestructible Man). Importa referir que, excetuando o herói atómico, os restantes formaram o contingente de neófitos da Liga da Justiça de Detroit.
   Durante esta sua segunda passagem pela DC, Gerry Conway reencontrou Roy Thomas, com quem teve ocasião de colaborar em diversos projetos. Dentre estes, o mais ambicioso - e, em certa medida, o mais frustrante - seria,muito provavelmente, JLA/Avengers, crossover cujo cancelamento foi ditado pelas disputas editoriais entre as duas licenciadoras.
   Constantemente em busca de novos desafios, em finais dos anos 80, Gerry Conway trocou uma vez mais a DC pela Marvel. Entre 1988 e 1990 escreveu em simultâneo The Spectacular Spider-Man e Web of Spider-Man, os dois títulos estrelados pelo Homem-Aranha. Sobre esta sua segunda experiência com o Escalador de Paredes, Conway declararia certa vez: "Entendia a personagem muito melhor nessa altura do que quando tinha 19 anos. Uma das vantagens deste trabalho é que podemos sempre refrescar conceitos consagrados por via de alterações subtis. Algo que me continua a dar gozo fazer."
   Convidado a produzir os guiões da série policial Father Dowling Mysteries, Gerry Conway trocaria entretanto a BD pela TV. Não tendo sido esta, contudo, a sua primeira incursão no panorama audiovisual. Em 1983, ele e Roy Thomas haviam sido os autores do enredo de Fire & Ice, película de animação baseada em personagens idealizadas por Ralph Bakshi e Frank Frazetta. No ano seguinte, a mesma dupla assinaria a trama do filme Conan. The Destroyer (sequela de Conan, The Barbarian ,ambos protagonizados por Arnold Schwarzenegger).

A série televisiva que levou Gerry Conway
a abandonar a indústria dos comics.

   No plano literário, Gerry Conway deu à estampa duas novelas de ficção científica: The Midnight Dancers (1971) e Mindship (1974). Nenhuma delas obteve, todavia, o estatuto de best-seller.
   Circunscrevendo atualmente a sua relação com os comics  a ocasionais colaborações com a Marvel e a DC, Gerry Conway continua, ainda assim, a expressar o seu afeto por esses produtos culturais através das múltiplas referências que lhes faz nas séries televisivas que escreve e produz. Num episódio de Law & Order, por exemplo, deu o nome de John Byrne a uma das personagens.Rendendo dessa forma tributo a outro grande vulto da 9ª arte, cujo perfil já aqui foi publicado.
  Casado em segundas núpcias com Karen Bitten - uma psicóloga especializada em autismo infantil -, Gerry Conway é pai de duas filhas. Sendo a mais velha fruto do seu matrimónio com Carla Conway. Além da parentalidade, o ex-casal divide os créditos pela criação de Miss Marvel.
    A residir desde 2009 em San Fernand Valley - subúrbio da buliçosa Los Angeles - Gerry Conway leva uma pacata vida familiar longe dos holofotes. Nada que impeça a sua legião de fãs de continuar a acalentar a esperança de o ver regressar em grande estilo à indústria dos quadradinhos, atravessando presentemente uma das mais amorfas fases da sua História.
   Mesmo que tal nunca venha a acontecer, pelo seu importante contributo para o prestígio da 9ª arte, o nome de Gerry Conway ficará para sempre entalhado com letras douradas no panteão dos seus mais preclaros autores.


Gerry Conway entrevistado durante a Comic Con de Seattle de 2013.

 Obras de referência:

* The Amazing Spider-Man (Marvel, 1972-75);
* Superman versus The Amazing Spider-Man (Marvel/DC, 1976);
* Superman versus Wonder Woman (DC, 1978);
* Superman versus Shazam (idem, ibidem)
.*The Spectacular Spider-Man (Marvel, 1988-90);
* Web of Spider-Man (idem, ibidem);
* DC Retroactive: Justice League- The '80s (DC, 2011);

Outro tesouro de papel com a assinatura de Gerry Conway.

Principais criações e cocriações:

* Justiceiro/Punisher (Marvel);
* Chacal/Jackal (Marvel);
* Poderosa/Power Girl (DC);
*Vibro/Vibe (DC);
*Cigana/Gipsy (DC);
*Gládio/Steel, The Indestructible Man (DC);
* Miss Marvel (Marvel);
*Homem-Coisa/Man-Thing (Marvel);
* Lobisomem/Werewolf (Marvel);
* Jason Todd*(DC);
* Nevasca/Killer Frost (DC);
* Nuclear/Firestorm (DC);
* Crocodilo/Killer Croc (DC);
*Ben Rilley** (Marvel);
* Halloween/Jack O'Lantern (Marvel)
*Drácula/Dracula (Marvel);
*Esquadrão Atari/Atari Force (DC)

* Identidade civil do segundo Robin (atual Capuz Vermelho);
** Identidade civil do Aranha Escarlate

Nuclear: umas das mais célebres criações de Gerry Conway.


16 março 2016

CLÁSSICOS DA 9ªARTE: «A CHEGADA DE GALACTUS»




   Meio século atrás, quando a imaginação e a criatividade escorriam pelas paredes da Casa das Ideias, Stan Lee e Jack Kirby gratificaram os fãs do Quarteto Fantástico com uma épico dos tempos modernos. Alegoria de inspiração bíblica, a história teve ainda o condão de introduzir duas personagens inéditas, logo consagradas: Galactus, o Devorador de Mundos e o seu amargurado arauto Surfista Prateado.

Título original: The Coming of Galactus! (também conhecida como Galactus Trilogy por conta do tríptico de volumes que compunha a saga)
Licenciadora: Marvel Comics
Autores: Stan Lee* (história) e Jack Kirby* (arte)
Publicada originalmente em: Fantastic Four nº 48 a 50 (março a maio de 1966)
Personagens principais: Quarteto Fantástico, Galactus, Surfista Prateado e o Vigia
Coadjuvantes: Inumanos, Skrulls e Alicia Masters
Cenários: Nova Iorque (lar do Quarteto Fantástico), Himalaias (localização secreta do Grande Refúgio dos Inumanos) e Tarnax IV (planeta-metrópole do império galáctico Skrull)

* Ainda que estes dois monstros sagrados da 9ª arte dispensem apresentações, podem consultar aqui as respetivas biografias: http://bdmarveldc.blogspot.pt/2011/09/eternos-stan-lee.html e http://bdmarveldc.blogspot.pt/2011/10/eternos-jack-kirby-1917-1994.html


Nunca antes o Quarteto Fantástico defrontara tão poderoso adversário.


Notas prévias:

Quem é o Vigia?



  Conceito desenvolvido por Stan Lee e Jack Kirby, o Vigia (The Watcher, no original) fez a sua primeira aparição em abril de 1963, numa história do Quarteto Fantástico publicada em Fantastic Four nº13. Com o decorrer dos anos, o enigmático ser tornar-se-ia presença assídua nas histórias da Família Fundamental da Marvel.
  Uatu - é esse o seu nome de batismo - faz parte de uma raça alienígena que se dedica a observar os eventos cruciais do Universo e do Multiverso. Estando contudo os Vigias terminantemente proibidos de qualquer interferência no curso da História das civilizações por eles monitorizadas.
  A partir da sua fortaleza sediada na chamada Área Azul da Lua, Uatu tem sido ao longo de incontáveis milénios testemunha silenciosa dos progressos e fracassos da nossa espécie.
  À imagem dos demais representantes da sua raça, o Vigia é extremamente poderoso e tem como marcas distintivas a sua calvície e a colossal estatura. Contrariamente, porém, aos seus homólogos, Uatu em várias ocasiões intercedeu em prol da humanidade. Infração que o levou a ser julgado e ostracizado pelos outros Vigias.


Quem são os Inumanos?

  Igualmente frutos da prodigiosa imaginação da dupla Lee/Kirby, os Inumanos (Inhumans) são descendentes de vulgares homo sapiens que, muitos séculos atrás, serviram de cobaias a experimentalismos genéticos operados pelos Krees, uma avançada raça extraterrestre que usou o nosso planeta como tubo de ensaio.
  Em dezembro de 1965, os Inumanos surgiram pela primeira vez em Fantastic Four nº45 como coadjuvantes do Quarteto Fantástico. Antes dessa estreia coletiva, alguns dos seus membros já haviam, porém, aparecido individualmente como vilões (casos de Medusa e Gorgon).
   A comunidade inumana assenta num rígido sistema de castas, em cujo vértice se encontra a Família Real. Esta é composta por Raio Negro (Rei dos Inumanos), Medusa (sua consorte que chegou a substituir temporariamente a Mulher Invisível no Quarteto Fantástico), Maximus (irmão louco de Raio Negro), Karnak, Cristalys, Gorgon e Triton. Todos eles possuem habilidades meta-humanas em consequência da sua espécie ter tido o seu genoma reescrito pelos Krees.
  Originalmente, o Grande Refúgio (localizado algures na cordilheira dos Himalaias) servia de lar aos Inumanos. Este seria posteriormente transferido para a Área Azul da Lua (tornando, assim, os súbditos de Raio Negro vizinhos do Vigia), objetivando escapar aos efeitos da poluição da atmosfera terrestre que ameaçava a sobrevivência da comunidade.


A Família Real dos Inumanos pelo traço de Jack Kirby.
Da esq. para a dir.: Gorgon, Cristalys, Raio Negro, Medusa, Karnak e Triton.

E, já agora, quem são os Skrulls?

  Para não destoar, os Skrulls são outra criação conjunta de Stan Lee e Jack Kirby. Criação essa que é até anterior ao surgimento do Vigia e dos Inumanos, já que a sua estreia teve lugar logo no segundo número de Fantastic Four, com data de janeiro de 1962.
   Os Skrulls são alienígenas que, na sua aparência primordial, possuem pele verde, orelhas pontiagudas e um queixo com saliências. A maior peculiaridade desta espécie reside, contudo, nas suas habilidades transmorfas que lhes permitem assumir a forma de qualquer ser vivo ou objeto inanimado.
  Entre os arqui-inimigos dos Skrulls, além do Quarteto Fantástico, destacam-se os Krees, com quem já travaram diversas guerras sangrentas.

Figurino padrão dos Skrulls.


Histórico de publicação: Em 1966, aproximadamente cinco anos depois de terem lançado Fantastic Four (um dos títulos de charneira da Marvel Comics), Stan Lee e Jack Kirby afadigavam-se na conceção de um antagonista inédito para o Quarteto Fantástico. Um dos quesitos passava por evitar os estereótipos na base da criação da esmagadora maioria dos vilões daquela época. Tendo em conta este pressuposto, Lee e Kirby depressa consensualizaram o perfil da nova personagem: um ser com a estatura e o poder de um deus.
   No prefácio de Marvel Masterworks: Fantastic Four Volume 5 (coletânea que, em 1993, reuniu algumas das melhores sagas do Quarteto Fantástico), Stan Lee descreveu nos seguintes termos o desenvolvimento do Devorador de Mundos: "Galactus foi apenas mais um na longa linha de supervilões que eu e Jack tínhamos adorado criar. Depois de termos imaginado tantos mauzões com dons extraordinários, percebemos que a única maneira de nos superarmos seria criar um com poderes divinos. 
   Claro que a escolha natural foi um semideus. Mas logo surgiu a dúvida: o que faríamos com alguém assim tão poderoso? A última coisa que queríamos era usá-lo para alimentar o cliché estafado do vilão megalómano que quer dominar o mundo. E foi então que, quase como se tivéssemos sido fulminados por um raio, se fez luz nas nossas mentes. Porque não atribuir-lhe uma natureza amoral? Por que motivo haveria um ser dessa envergadura reger-se pelos padrões da moralidade humana? Bem vistas as coisas, uma criatura com esse perfil estaria certamente além do bem e do mal. Mais: e se ele retirasse o seu sustento da energia vital dos planetas?"
  Palavras que corroboram o depoimento de Jack Kirby em The Masters of the Comic Book Art, documentário produzido em 1987. Nele, o rei do desenho assume as inspirações bíblicas na conceção de Galactus e do Surfista Prateado: "Pressionados a aumentar as vendas de Fantastic Four, eu e Stan começámos a trocar ideias sobre a criação de um novo supervilão. Concordámos, no entanto, que teríamos de fugir aos lugares-comuns se queríamos manter os nossos empregos. 
   Com isto em mente, dei comigo certo dia a folhear a Bíblia. Bastou-me ler alguns trechos para  encontrar a inspiração que procurava. Quase pude ver materializar-se diante de mim a imponente figura de Galactus. Um ser que eu conhecia bem, porque sempre habitou a minha imaginação. Um ser de tão formidável poder que eu não o podia  abordar como se de um comum mortal se tratasse. E que sempre se faria anunciar por um arauto angélico. Foi assim que surgiu a ideia para o Surfista Prateado.
  Dei-me conta desde o primeiro momento que nunca antes personagens com tais características tinham sido usadas em histórias de super-heróis. Mais do que figuras mitológicas, Galactus e o Surfista Prateado eram divindades cósmicas. Estatuto que as coloca acima de qualquer julgamento moral. Afinal, o bem e o mal mais não são do que conceitos desenvolvidos pelos humanos para condicionarem as suas próprias ações. Ora, Galactus não respondia perante ninguém pelos seus atos. Em certa medida, ele seria uma alegoria de Deus e o Surfista Prateado representaria metaforicamente o seu anjo caído em desgraça."


Jack Kirby (esq.) e Stan Lee: o Rei e o Papa da Marvel.

  Na obra da sua autoria 500 Comic Book Villains (dada à estampa em 2004), o escritor Mike Conroy aprofundou a análise feita por Lee e Kirby. Aqui ficam, em discurso direto, as suas considerações: "Em apenas cinco anos, Lee e Kirby tinham introduzido nas histórias do Quarteto Fantástico uma panóplia de raças extraterrestres ou seus representantes. Havia os Skrulls, o Vigia, o Estranho e todo um rol infindável de personagens que ambos tinham usado na fundação do Universo que eles vinham construindo. E no qual tudo era possível, contanto que não fossem desprezadas as "leis naturais" desta cosmologia imaginária.
  Nos primórdios do Universo Marvel, as personagens agiam de forma consistente com o título em que estavam inseridas, sabendo de antemão que as suas ações reverberariam noutros. No fundo, tratava-se de uma espécie de telenovela à escala cósmica, com uma miríade de personagens a entroncar numa gigantesca trama. Corporizando Galactus a sua dimensão épica ."
  Findo o trabalho de bastidores, a entrada em cena do Devorador de Mundos e do seu acólito aconteceria em março de 1966, nas páginas de Fantastic Four nº48. Principiava assim a monumental saga precursora do subgénero cósmico. E cujo emocionante clímax mostrou o Surfista Prateado a desafiar o seu mestre com o intuito de salvar a humanidade, pagando um preço elevado pela sua rebeldia.
    
Galactus e Surfista Prateado, parábola divina.

Enredo:

Capítulo I: «A Chegada de Galactus» (The Coming of Galactus!)

Fantastic Four nº48 (março de 1966).

  Algures nas encostas geladas dos Himalaias, esconde-se o Grande Refúgio dos Inumanos. Em segredo, Maximus, o insano irmão de Raio Negro, projeta utilizar a sua nova arma - a que deu o nome de atomizador - para erradicar a humanidade. No entanto, por motivos inexplicados, o seu plano fracassa. À parte alguns terramotos à volta do globo, a humanidade permanece sã e salva.
 Maximus é, porém, fustigado por uma dantesca visão mostrando o perecimento de milhões de inocentes. Antes de ser capturado por Karnak e Gorgon, o irmão de Raio Negro logra reverter a polaridade do seu atomizador. Usando-o de seguida para gerar um campo de antimatéria que encapsula o Grande Refúgio, isolando-o do resto do mundo. Apenas instantes antes de o Quarteto Fantástico (velho aliado dos Inumanos) conseguir deixar o local, regressando a toda mecha para Nova Iorque.
   Entrementes, um ser de pele argentina cruza elegantemente os rincões do Cosmos montado na sua prancha metálica. Ao atingir a orla da galáxia Andrómeda, o Surfista Prateado chama a atenção dos Skrulls. A exemplo de muitas outras civilizações alienígenas, eles sabem que a aparição da criatura reluzente é um mau presságio, pois ele serve Galactus, o Devorador de Mundos.
  Apavorados com a possibilidade de o seu planeta ser consumido pela voracidade de Galactus, os Skrulls tudo fazem para se manterem ocultos aos olhos do solitário arauto que percorre o Universo em busca de alimento para o seu mestre.
   A milhões de anos-luz dali, em Nova Iorque, o Quarteto Fantástico e os demais habitantes da metrópole testemunham um fenómeno com tanto de assombroso como de intrigante. De um momento para o outro, o céu parece ser engolido por gigantescas labaredas. Cenário que leva, de pronto, o Quarteto Fantástico a sair para investigar.
   Para tentar ver o fenómeno mais de perto, o Tocha Humana voa o mais alto que pode pelos céus da cidade. Acabando, contudo, por gerar o pânico entre os nova-iorquinos, que o julgam responsável pela situação.
  De volta ao Edifício Baxter, o Senhor Fantástico enfurna-se no seu laboratório a fim de estudar o bizarro fenómeno. Antes que consiga, porém, obter uma explicação científica para ele, as labaredas dissipam-se no céu, dando lugar a uma espécie de redoma formada por detritos espaciais.
 Quase ao mesmo tempo, o majestoso ser conhecido como Vigia materializa-se no interior do laboratório do Senhor Fantástico. Perante a perplexidade do seu interlocutor humano, o gigante calvo explica-lhe ser ele o responsável pelas perturbações atmosféricas. Resultando estas da sua desesperada tentativa para tornar a terra indetetável ao Surfista Prateado.
   Pela voz do Vigia, o Senhor Fantástico fica a saber que o Surfista Prateado é o arauto de Galactus, um poderoso ser cósmico que extrai o seu sustento da energia vital dos planetas, reduzindo-os a cascas secas e sem vida. Estando agora a Terra na mira do servo do Devorador de Mundos.
  Enquanto isso, o Surfista Prateado investiga de perto o campo de detritos espaciais criado pelo Vigia, encontrando a Terra escondida sob ele. Sem hesitar, ele voa até ao topo do Edifício Baxter e emite um sinal cósmico para o seu amo.
  O Quarteto Fantástico acorre ao local para tentar impedir o Surfista de alertar Galactus. Um golpe desferido pelo Coisa derruba o alienígena, mas é já tarde demais. Nos céus acima de Manhattan, emerge a colossal nave do Devorador de Mundos. Perante o olhar estarrecido dos heróis, o gigante anuncia a sua intenção de se banquetear com o nosso mundo.

Capítulo II: «Dia do Juízo Final» (If This Be Doomsday!)

Fantastic Fout nº49 (abril de 1966).

  Violando o seu juramento de não-interferência, o Vigia tenta demover Galacuts dos seus funestos intentos. Quando a diplomacia falha, o Coisa e o Tocha Humana investem sobre o gigante, que se limita a enxotá-los como se de insetos se tratassem.
  Relutantemente, o Quarteto Fantástico acede ao pedido do Vigia para que cessem as hostilidades contra Galactus. Enquanto este procede à meticulosa montagem do colossal aparato que lhe permitirá drenar a força vital da Terra, o Vigia informa o Sr. Fantástico sobre a existência de uma poderosa arma no planeta natal do Devorador de Mundos que será capaz de detê-lo. A missão de ir buscá-la é então confiada ao Tocha Humana.
  Noutro ponto da cidade, o Surfista Prateado recobra os sentidos no apartamento de Alicia Masters, a escultora cega namorada do Coisa. Inteirada do desígnio do ser cósmico, a jovem suplica-lhe que ele se rebele contra o seu mestre para salvar a humanidade do extermínio iminente.
   Já com o seu aparato quase montado, Galactus é alvo de novo ataque por parte do Quarteto Fantástico. Imperturbável, o gigante ordena a um serviçal robótico que afaste os importunos. Aproveitando a distração, o Vigia amplifica os poderes incandescentes do Tocha Humana para que ele possa viajar até ao planeta natal do Devorador de Mundos e de lá trazer a única arma capaz de o intimidar: o Nulificador Definitivo.
  Comovido pela sensibilidade e nobreza de caráter de Alicia Masters, o Surfista Prateado prontifica-se, entretanto, a tentar evitar que a Terra sirva de acepipe ao seu amo.


Capítulo III: «A Fantástica Saga do Surfista Prateado (The Startling Saga of the Silver Surfer!)

Fantastic Four  nº50 (maio de 1966).

   No coração de Manhattan, o Surfista Prateado distrai Galactus, tentando desesperadamente ganhar tempo até ao regresso do Tocha Humana trazendo consigo o Nulificador Definitivo. Quando o Sr. Fantástico ameaça usá-lo, o Devorador de Mundos aquiesce em poupar a Terra, exigindo em troca que lhe seja entregue a arma.
   Honrando a sua palavra, Galactus abandona logo depois o nosso planeta. Não sem antes punir o Surfista Prateado pela sua insolência, erguendo uma barreira invisível que o impedirá de deixar a Terra.
 Alicia Masters procura consolar o angustiado Surfista Prateado, expressando-lhe a sua gratidão por ter tomado o partido da humanidade. Consumido pelo ciúme, o Coisa afasta-se cabisbaixo antes que a jovem tenha oportunidade de lhe dizer quão orgulhosa ele a deixou.
   À medida que a vida volta à normalidade, os tabloides insinuam que a ameaça de Galactus não terá passado de um embuste.

"Até quando durará o meu exílio?"- interroga-se o ex-arauto de Galactus.

Apontamentos:

* Referenciado como Grande Refúgio em The Coming of Galactus, o lar secreto dos Inumanos seria renomeado Attilan em Thor nº146 (1967);
* De igual modo, o aparente mutismo de Raio Negro também só seria explicitado meses depois, nas páginas de Fantastic Four nº59. Edição em que os leitores ficaram a saber que a voz do silente monarca dos Inumanos tem um enorme potencial destrutivo, ao ponto de conseguir elevar uma montanha com um simples murmúrio;
* A barreira de zona negativa erguida por Maximus ao redor do Grande Refúgio não tem qualquer relação com a Zona Negativa, dimensão paralela composta por antimatéria e governada pelo temível  Aniquilador;
* A insensibilidade evidenciada pelo Surfista Prateado no início da história é explicada pelas manipulações de Galactus, que havia suprimido as memórias e emoções do seu arauto;
* Conquanto Tarnax IV seja referido na narrativa como sendo o planeta natal dos Skrulls, esse dado seria posteriormente desmentido. Na verdade, a raça transmorfa abandonara o seu mundo primordial milhões de anos antes dos eventos mostrados na saga;
* Tarnax IV serviria, contudo, de repasto a Galactus, alguns anos depois. Sobrevindo essa hecatombe de uma falha na tecnologia de camuflagem que permitira durante largo tempo ocultar o planeta-metrópole dos Skrulls do olhar guloso do Devorador de Mundos e das ocasionais prospeções galácticas levadas a cabo pelos seus arautos;
*Pela primeira vez desde que assumira as funções de Vigia da Terra, Uatu violou conscientemente o seu voto solene de não-interferência na História humana. Regra sacramental da sua espécie desde que, milénios atrás, ela causara acidentalmente a extinção em massa de uma raça alienígena ao providenciar-lhe tecnologia nuclear.
* No Brasil, esta saga foi publicada, em abril e maio de 1984, nos números 58 e 59 da segunda série de Heróis da TV.


A 1ª parte da saga foi publicada em Heróis da TV nº58 (1984).

Legado:

* The Coming of Galactus! foi a principal inspiração para a trama do filme de 2007 Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado (já aqui esmiuçado);
* Foi através desta saga que o Surfista Prateado foi guindado para o estrelato, tornando-se presença assídua em Fantastic Four antes de servir como veículo filosófico a Stan Lee no título próprio a que o herói cósmico teria direito pouco tempo depois;
* Em 2009, uma votação promovida entre os leitores pela plataforma Comic Book Resources elegeu The Coming of Galactus! como a 19ª melhor história aos quadradinhos de todos os tempos;
* Logo no ano seguinte à sua publicação, a saga foi adaptada ao pequeno ecrã por via de alguns episódios da série animada Fantastic Four (1967). Facto que se repetiria em 1994 em nova produção do género baseada na Família Fundamental da Marvel;
* No terceiro volume de Marvels (ovacionada minissérie em quatro capítulos da autoria de Kurt Busiek e Alex Ross, datada de 1994), os segmentos da narrativa protagonizados por Galactus são recontados sob o ponto de vista do vilão;
* Marco incontornável na História da 9ª arte,  The Coming of Galactus! foi objeto de múltiplas reedições ao longo dos anos, entre as quais avultam Marvel Masterworks nº25 (1993), The 100 Greatest Marvels of All Time e Essential Fantastic Four Volume 3 (estas últimas lançadas em 2001);

Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado (2007).


Vale a pena ler?

    Com certeza que sim! Esta é, aliás, uma daquelas sagas que devia ser leitura obrigatória para qualquer genuíno aficionado da 9ª arte (e não apenas para os "maluquinhos" por super-heróis como este vosso humilde escriba).
   No meu caso, tive o prazer e o privilégio de lê-la pela primeira vez nas páginas dos números 58 e 59 de Heróis da TV, quando ainda era uma pessoa de palmo e meio recém-alfabetizada. Mesmo não possuindo então a maturidade intelectual para refletir sobre os dilemas morais e as questões teológicas nela vertidos, a história tocou-me o coração.
   Quase fui levado às lágrimas (era um miúdo do tipo emotivo, mas não tanto) pelo degredo a que o pobre Surfista Prateado foi sentenciado pelo seu desapiedado amo depois de ter ajudado a evitar o extermínio de uma espécie cujo comportamento, já naquela altura, era tudo menos exemplar. Interrogo-me, de resto, se o bom Norrin Radd teria tomado idêntica posição se tivesse travado conhecimento com a humanidade dos dias de hoje...
  Quando, anos mais tarde, me senti intelectual e emocionalmente capacitado para reler A Chegada de Galactus percebi que a trama não se restringia aos melodramáticos solilóquios de uma espécie de Hamlet extraterrestre. Havia todo um sortido de personagens cativantes e ação em quantidade suficiente para evitar o enfado de leitores menos propensos a divagações filosóficas.
   Ao passo que a generalidade dos escritores modernos de banda desenhada preferem ater-se às convenções do género, Lee e Kirby estiveram-se a marimbar para elas. Mais importante do que a sofisticação narrativa, para essa dupla de iconoclastas que revolucionou o conceito de super-heróis o fundamental era a vertente humana. E essa assenta sempre nas emoções. Aquelas que as personagens expressam no desenrolar da história e aquelas que despertam nos leitores. Era esse o grande segredo de Lee e Kirby: sabiam como ninguém captar a essência humana, falando diretamente ao coração dos fãs.
  Atrevo-me, não obstante, a fazer dois pequenos reparos a esta obra-prima (ouvi alguém gritar "herege"?): em primeiro lugar, a excessivamente rápida mudança de lado do Surfista Prateado e, depois, a insólita opção de situar o grosso da narrativa nas imediações do Edifício Baxter. Pormenores de somenos importância atendendo à excelência daquela que é, sem dúvida, a melhor história do Quarteto Fantástico alguma vez produzida (aqui entre nós, é por causa dela que ainda hoje sou fã do grupo).
  Contudo, apesar de toda as suas façanhas e glórias, a Família Fundamental da Marvel foi recentemente desalojada da Casa Sem Ideias. Ao fim de mais de meio século de aventuras e desventuras, o Quarteto Fantástico teve a sua série cancelada. Oxalá não seja um adeus, mas apenas um até breve. Quero por isso dedicar este meu singelo artigo aos quatro heróis cujas estórias me transportaram ao Infinito e mais além.

Os 4 eternamente Fantásticos.