01 julho 2019

CLÁSSICOS DA 9ªARTE: «PARA O HOMEM QUE TEM TUDO»




  No dia do seu aniversário, o Último Filho de Krypton recebe um presente envenenado de um velho inimigo. Preso num transe fatal, Kal-El vive aquele que é o seu mais íntimo desejo. Apenas para descobrir que a fantasia pode ser ainda mais cruel do que a realidade.

Título original: For the Man Who Has Everything...
Editora: Detective Comics (DC)
País: EUA
Autores: Alan Moore (argumento) e Dave Gibbons (arte)
Publicado em: Superman Annual Vol.1 nº11 (agosto de 1985)*
Protagonistas: Super-Homem / Kal-El
Coadjuvantes: Batman, Robin (Jason Todd), Mulher-Maravilha, Mongul, Jor-El, Lyra Ler-Rol, Allura In-Ze, Kara Zor-El, Van-El e Orna Kal-El
Cenários: Fortaleza da Solidão e Krypton (na fantasia do Super-Homem)

*Sucessivamente reeditada ao longo dos anos, em 2006 a história foi selecionada para integrar o volume antológico DC Universe: The Stories of Alan Moore, que compilava alguns dos melhores trabalhos do escritor britânico ao serviço da Editora das Lendas.

Edições em Português 

Sob o título "O Homem que Tinha Tudo", a história foi pela primeira vez apresentada ao público lusófono em maio de 1991, nas páginas de Super Powers nº21, cuja capa era um fac-símile da original. Ainda por terras de Vera Cruz, desde o início deste século vem sendo sucessivamente republicada sob a chancela de diferentes editoras.
A primeira a fazê-lo, logo em 2002, foi a Opera Graphica, numa controversa edição em formato americano mas a preto e branco. Seguiu-se a Panini Comics que, entre 2006 e 2013, a incluiu em três antologias, entre as quais DC 75 anos, coleção lançada no âmbito das comemorações das bodas de diamante da Editora das Lendas e que reunia algumas das suas histórias mais emblemáticas. Por fim, em 2018, a história foi inserta no 63º volume da Coleção DC Comics Graphic Novels, da Eaglemoss.


A edição original (cima) e a controversa republicação
 a preto branco da brasileira Opera Graphica.

Irreverência britânica

Coincidindo com o aumento de popularidade dos super-heróis em terras de Sua Majestade, desde a viragem da década de 1980 que Alan Moore era uma estrela em ascensão na indústria de quadradinhos britânica. Tanto a divisão local da Marvel Comics como a Quality Communications e a Fleetway requisitavam regularmente os seus serviços de argumentista para alguns dos seus principais títulos. Para esta última, por exemplo, Moore escreveu durante essa fase mais de meia centena de histórias publicadas em 2000 A.D., magazine de ficção científica no qual, em 1977, o Juiz Dredd fizera a sua estreia.
Em várias dessas ocasiões, as tramas de Moore haviam sido ilustradas pelo seu compatriota David Gibbons. Ambos faziam uma avaliação deveras positiva dessas colaborações, mas o talento de Gibbons foi o primeiro a chamar a atenção do outro lado do Atlântico. Logo em 1982, a DC Comics, na pessoa de Len Wein (à data, editor e argumentista de Green Lantern) contratou-o para desenhar a série mensal do Gladiador Esmeralda.
No ano seguinte, seria a vez de Moore, novamente por intermédio de Len Wein, ser cooptado para assumir os argumentos de Swamp Thing, cujas vendas vinham afundando a pique. Recebendo carta de alforria para levar a cabo as alterações que julgasse necessárias para reverter a situação, Moore não só fez disparar as vendas da série do Monstro do Pântano como, a par de artistas como Rick Veitch, reinventou a personagem, introduzindo temáticas inéditas nas suas tramas. Ao abordar, de forma experimental, questões sociais e ecológicas, Swamp Thing depressa concitou a atenção do público e da crítica, transformando o que parecia ser um caso perdido na nova coqueluche da Editora das Lendas.
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Alan Moore (esq.) e Dave Gibbons celebrando
 o lançamento de Watchmen,a obra que os imortalizou na história da Nona Arte.
Mesmo durante a fase em que assinava as histórias do Monstro do Pântano, Moore submeteu aos seus editores diversas propostas envolvendo personagens como o Caçador de Marte (consta que seria ele o protagonista original de For the Man Who Has Everything...) e os Desafiadores do Desconhecido (conceito desenvolvido por Jack Kirby após a sua zanga com a Marvel). Propostas essas que, invariavelmente, acabaram rejeitadas dada a circunstância de outros escritores estarem já a desenvolver projetos com as personagens cobiçadas por Moore.
Quando, no início de 1985, o Editor-Executivo e Vice-Presidente da DC, Dick Giordano, aprovou por fim o projeto que viria a ser consubstanciado na ovacionada minissérie Watchmen, Moore e Gibbons (autores da ideia) começaram de pronto a trabalhar na planificação das histórias.
Pouco depois, Julius Schwartz, o então todo-poderoso editor dos títulos do Homem de Aço, sondou Gibbons sobre a sua disponibilidade para desenhar uma história do herói. Gibbons declarou-se disponível, mas quis saber qual o escritor com quem iria trabalhar. Quando Schwartz lhe disse que poderia escolher o seu parceiro criativo, Gibbons imediatamente sugeriu Alan Moore.
Sem delongas, a Dupla Dinâmica da Velha Albion deitou mãos à obra e For the Man Who Has Everything... começou a ganhar forma. Levando em consideração duas importantes mudanças ocorridas na continuidade então estabelecida: 1) Em agosto de 1979, mais de duas décadas após a sua inclusão na mitologia do Super-Homem, Kandor - cidade kryptoniana miniaturizada por Brainiac antes da implosão do planeta- havia finalmente revertido ao tamanho normal, em Superman nº338; 2) Em março de 1983, Jason Todd, um órfão com passado de delinquência juvenil, sucedera a Dick Grayson como Robin, sendo agora ele quem acolitava o Cavaleiro das Trevas.
De referir ainda que os sucessivos êxitos de Moore e Gibbons impeliram a DC a contratar outros escribas britânicos para produzirem histórias de apelo similar. Grant Morrison, Neil Gaiman e Peter Milligan fizeram parte dessa armada britânica que, nos anos imediatos, aportaria na ex-colónia para revolucionar a forma de escrever banda desenhada. E que, no início dos anos 90, constituiriam o núcleo duro de Vertigo, a linha adulta da Editora das Lendas entretanto encerrada.

Enredo

No exterior da Fortaleza da Solidão, algures no Círculo Polar Ártico, a Mulher-Maravilha reúne-se à Dupla Dinâmica. É o aniversário do Super-Homem e os seus amigos trouxeram-lhe presentes especiais. Ao adentrar na estrutura kryptoniana, o trio depara-se, porém, com o anfitrião em estado catatónico e envolvido pelos tentáculos de uma grande planta alienígena presa ao seu peito.
Batman analisa rapidamente a situação e deduz que o presente envenenado terá chegado pelo canal de teletransporte, enviado por um dos muitos mundos agradecidos pela ajuda do Super-Homem, e que ignorava os efeitos nocivos da planta. Nesse instante, Mongul entra em cena e revela ter sido ele o responsável pelo envio da Clemência Negra. Assim se chama a misteriosa planta que, na realidade, é um organismo simbiótico. Uma vez acoplada ao seu hospedeiro, a Clemência Negra consome-lhe a força vital ao mesmo tempo que o infunde num sonho vívido baseado no seu desejo mais íntimo.
Durante a sua breve explanação, e perante a estupefação dos seus interlocutores, Mongul usa um par de gigantescas manoplas para tocar na Clemência Negra sem ser afetado por ela.

Os amigos do Super-Homem deparam-se com uma cena perturbadora
antes de serem surpreendidos por Mongul (baixo).
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Paralelamente, é mostrado o que se desenrola no subconsciente do Homem de Aço: um simples homem de família, Kal-El vive feliz em Krypton, que nunca foi destruído. Casado com a ex-atriz Lyla Ler-Rol e pai de dois filhos, Van e Orna, Kal trabalha no Instituto de Geologia de Kryptonopolis, a capital do planeta e sua cidade natal.
De volta à Fortaleza da Solidão, a Mulher-Maravilha investe sobre Mongul - cujo poder excede o seu - enquanto Batman e Robin procuram desesperadamente libertar o Homem de Aço. Devido a essa interferência, a sua fantasia começa a adquirir tons mais sombrios.
Ao regressar a casa no dia do seu aniversário, Kal-El tem um festa-surpresa à sua espera. Nela estão presentes quase todos os seus entes queridos. Todos menos um: o seu pai, Jor-El.
Depois de as suas previsões catastrofistas acerca da iminente destruição de Krypton se terem revelado infundadas, Jor-El fora expulso do Conselho Científico e caíra em desgraça junto da opinião pública. E ainda mais isolado e amargurado ficara após a morte da sua esposa, Lara (mãe de Kal), vítima de uma moléstia incurável. Nem mesmo o recente falecimento do seu irmão, Zor-El, tinha servido para reconciliar Jor-El com a sua cunhada, Allura, e com a sua sobrinha, Kara.
No dia seguinte, Kal desloca-se ao laboratório do pai e encontra-o reunido com duas eminências pardas de Krypton: Lor-Em, líder de uma seita religiosa autodenominada Espada de Rao, e Dax-Ar, oficial de elevada patente do exército kryptoniano. Os três conspiram com vista à instauração de uma teocracia em Krypton, encabeçada por Lor-Em.

Kal-El não aprova as novas companhias do pai.

Após a saída dos comparsas de Jor-El, Kal tem uma acesa discussão com o pai. Que se insurge contra o que considera ser a deterioração dos valores da sociedade kryptoniana, a braços com a xenofobia e o tráfico de estupefacientes em larga escala. De nada adiantando Kal fazer notar ao pai que a sua associação com extremistas servirá somente para desbaratar o pouco prestígio que ainda lhe resta.
A altercação entre ambos metaforiza, aliás, a polarização da sociedade kryptoniana cujas bases vêm sendo sacudidas pela crescente convulsão política e social. Vive-se um clima de pré-guerra civil e um dos pomos da discórdia é a Zona Fantasma, a prisão extradimensional projetada por Jor-El para acomodar, a título perpétuo, criminosos irrecuperáveis.
Considerada um sistema desumano, a Zona Fantasma enfrentava uma onda de contestação, contribuindo sobremaneira para a impopularidade da Casa de El. Em consequência dessa animosidade para com os seus representantes, Kara Zor-El é brutalmente agredida por um grupo de manifestantes que usam Jax-Ur, um dos mais perigosos prisioneiros da Zona Fantasma, como mártir e símbolo.
Com a prima a lutar pela vida numa cama de hospital, Kal. temendo pela segurança da sua família, decide abandonar Kryptonopolis. Antes de partir, tem ainda tempo para testemunhar as escaramuças entre membros da Espada de Rao e manifestantes anti-Zona Fantasma nas ruas da cidade.
De visita à cratera de Kandor, Kal, cada vez mais consciente de que algo está errado, expressa o seu amor ao filho momentos antes de este se desvanecer como uma miragem nos seus braços. Esta dolorosa revelação coincide com o momento em que Batman consegue, por fim, arrancar a Clemência Negra do torso do Super-Homem. Ato contínuo, a planta atraca-se ao Homem-Morcego, submergindo-o num devaneio que dá forma ao seu mais profundo desejo.
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Kal-El despede-se do filho que nunca teve..
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Batman vive também o seu maior desejo.
Na fantasia de Batman, Thomas Wayne consegue desarmar o assaltante que cortara o caminho à sua família no Beco do Crime naquela fatídica noite em que o pequeno Bruce ficara órfão. Graças ao afeto e orientação dos pais, Bruce leva uma vida normal, chegando mesmo a casar e a ter uma filha.
Entretanto, dá-se o violento despertar do Super-Homem. Enfurecido pelo ataque da Clemência Negra e pela perda da sua família imaginária, ataca selvaticamente Mongul, que estava prestes a matar a Mulher-Maravilha tombada a seus pés.
Enquanto Super-Homem e Mongul se digladiam, destruindo secções inteiras da Fortaleza da Solidão e interferindo com os sismógrafos, Robin enfia as manoplas esquecidas pelo vilão e remove, a custo, a Clemência Negra do peito de Batman.

O violento despertar do Homem de Aço.
Prestes a desferir um golpe fatal no seu oponente, o Homem de Aço distrai-se momentaneamente ao entrever as estátuas dos seus pais kryptonianos. Mongul aproveita o ensejo para contra-atacar com ferocidade, deixando o herói à sua mercê. Antes que possa, no entanto, assestar a estocada final, o vilão é surpreendido pela presença de Robin.
Através de um buraco no teto, o Menino-Prodígio deixa cair a Clemência Negra sobre Mongul. Imediatamente capturado pela planta, o vilão extasia-se com o seu maior sonho: após assassinar o Super-Homem e vários outros heróis, conquista a Terra e, em seguida, todo o Universo.
Com os seus aliados ainda a recomporem-se, o Super-Homem informa-os do seu plano para se desenvencilhar de Mongul. Um plano que consiste em soltar a criatura no âmago de um buraco negro do outro lado da galáxia.
Chegado o momento de desembrulhar os presentes, o Homem de Aço agradece gentilmente a réplica de Kandor fabricada pelas joalheiras da Ilha Paraíso e ofertada pela Mulher-Maravilha. Sem que ninguém se aperceba, o herói voa a supervelocidade para esconder a sua própria réplica da Cidade Engarrafada guardada numa divisão adjacente, poupando assim a amiga ao embaraço.
Batman, por sua vez, pretendia presenteá-lo com uma nova espécie de rosa criada em laboratório e batizada de Krypton. A flor havia sido, porém, destruída durante a refrega com Mongul. Fleumático, o Super-Homem reconhece que talvez tenha sido melhor assim, antes de pedir que alguém prepare café enquanto ele arruma a casa.

Super-Homem usa a sua supervelocidade para esconder a sua réplica de Kandor
antes de receber a oferenda da Princesa Amazona.

Apontamentos 

*Superman Annual nº11 foi o penúltimo fascículo da primeira série desse título icónico do Homem de Aço, publicado de forma interpolada entre 1960 e 1986. Ao contrário do que o título sugere, a série teve periodicidade variável: de quadrimestral em 1961 passou a semestral em 1962 e novamente a anual no ano seguinte;
*Aclamada pelos leitores e pela crítica, em 1986 For the Man Who Has Everything... foi nomeada para o Kirby Award na categoria de Melhor História Individual e ocupa a 4ª posição na lista das cem melhores histórias de todos os tempos elaborada pela revista Wizard;
*Apesar de ser um dos melhores contos do Super-Homem e uma obra representativa da chamada Idade de Bronze (1970-1986), For the Man Who Has Everything... foi desconsiderada na continuidade pós-Crise nas Infinitas Terras. O que não impediu o escritor Geoff Johns de, já este século, recuperar a Clemência Negra para as histórias do Lanterna Verde;
*A par de Reign of the Supermen (O Regresso do Super-Homem, arco de histórias já aqui esmiuçado), For the Man Who Has Everything... alcandorou Mongul a arqui-inimigo do Homem de Aço; um dos poucos a conseguirem bater-se de igual para igual com o kryptoniano. Até então, Mongul (prontuário disponível neste blogue) era apenas mais um vilão intergaláctico com sonhos de conquista;

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Mongul é um dos mais formidáveis inimigos do Super-Homem.
*A história inclui também aquela que, com elevada quota de probabilidade, terá sido a primeira referência explícita à data de aniversário do Homem de Aço. Especula-se que a escolha de 29 de fevereiro terá sido uma brincadeira de Alan Moore para explicar a jovialidade do herói, que apenas celebraria o seu aniversário a cada quatro anos. Certo é que essa data seria consagrada pela DC, por altura das comemorações dos 50 anos do Super-Homem;
*Uma das mais belas e famosas atrizes de Krypton, Lyla Ler-Rol fizera a sua única aparição em Superman nº141 (novembro de 1960). Numa história típica da Idade de Prata (1956-1970), o Homem de Aço, com recurso à viagem no tempo, revisitava o seu planeta natal semanas antes da sua destruição. Tempo suficiente para Kal-El se enamorar e ficar noivo de Lyla. O casamento acabaria, contudo, por não se consumar. Lyla é também uma das várias coadjuvantes do Homem de Aço com as inicias LL;

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Super-Homem e Lyla Ler-Rol no primeiro encontro de ambos.
*Asa Noturna e Pássaro Flamejante (Nightwing e Flamebird no original) são outros dos elementos da Idade de Prata referenciados na trama. Tratam-se das identidades heroicas assumidas, respetivamente, por Super-Homem e Jimmy Olsen aquando das suas regulares visitas à cidade engarrafada de Kandor durante esse período editorial; 
*No seu ensaio Alan Moore´s Writing for Comics (Avatar Press, 2003), o polémico escriba britânico revelou que pretendia incluir a Supergirl na história, mas teve de substituí-la pela Mulher-Maravilha após ter sido informado da morte iminente da Última Prima de Krypton em Crise nas Infinitas Terras;
*O beijo trocado por Super-Homem e Mulher-Maravilha na ponta final da história sugere que, mesmo antes do romance vivido por ambos em Os Novos 52, a sua relação exorbitava a amizade platónica;
*Em 2004, quase vinte anos após a sua primeira publicação, For the Man Who Has Everything... serviu de mote a um episódio homónimo da primeira temporada de Justice League Unlimited, série animada da Liga da Justiça. A despeito das muitas licenças poéticas (como a omissão de Robin e de alguns trechos mais sombrios), Alan Moore, contrariamente ao que vem sendo seu apanágio, aprovou a adaptação. Mais recentemente, em 2016, um episódio da temporada inaugural de Supergirl (For the Girl Who Has Everything) foi também vagamente inspirado na história saída da pena de Moore.
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Kal-El à mercê de Mongul e da Clemência Negra em Justice League Unlimited.
Vale a pena ler?

Um dos melhores contos do Super-Homem alguma vez escritos, For the Man Who Has Everything... é, outrossim, uma obra-prima da 9ª Arte. O facto de ter sido produzida no período pré-Crise nas Infinitas Terras comprova ainda que as boas ideias não estavam esgotadas; eram os autores que tinham perdido o arrojo de outros tempos. Nesse sentido, a pirotecnia verbal de Alan Moore, polemista consagrado que continua a polarizar opiniões, foi uma pedrada no charco em que o Homem de Aço chapinhava há já um bom tempo.
De todas as histórias já escritas do Último Filho de Krypton, esta será, porventura, aquela que melhor aborda o conflito interno que o atormenta. Se o seu planeta natal não tivesse sido destruído e ele não tivesse sido enviado ainda bebé para um lugar aonde nunca iria, a sua vida teria sido totalmente diferente. Não teria assumido o papel de maior campeão do seu mundo adotivo e, por conseguinte, não teria enfrentado tantos e tão poderosos inimigos. Dito de outro modo, sobre os seus ombros não recairia o destino da Humanidade.
Escrita com mestria, a história conta com personagens bem definidas e maravilhosas referências à Idade de Prata, da qual Moore é um confesso nostálgico. Com a arte de Gibbons a torná-la ainda mais impactante ao retratar eficazmente a raiva do protagonista (algo raramente conseguido até então). Uma das sequências mais memoráveis é, precisamente, aquela em que o Super-Homem tenta incinerar Mongul com a sua visão de calor. Não por acaso, é ainda hoje considerada uma das mais intensas na história da banda desenhada.
For the Man Who Has Everything... é também um bom exemplo de como uma equipa criativa competente pode impor um registo adulto a uma história de super-heróis sem diminuir o glamour e a grandeza das personagens.
Com um final surpreendente, desenhos de excelente caracterização e expressionismo, ação e detalhismo em cada quadro, esta é, inquestionavelmente, uma obra capital no vastíssimo repertório do Homem de Aço. E que encerra uma pungente lição de humanismo: até o homem que tem tudo precisa de amigos, porquanto são eles o seu maior tesouro.

A fúria do último escuteiro.




13 junho 2019

GALERIA DE VILÕES: SINESTRO


  Antes de cair em desgraça foi o Lanterna Verde supremo e teve o igualmente lendário Hal Jordan como discípulo. À frente da sua Tropa Amarela, desfraldou a bandeira do medo sobre o Universo que sonha moldar à sua imagem.

Denominação original: Sinestro
Licenciadora: Detective Comics (DC)
Criadores: John Broome (história) e Gil Kane (arte conceptual)
Estreia: Green Lantern Vol.2 nº7 (agosto de 1961)
Identidade civil: Thaal Sinestro
Espécie: Korugariano 
Local de nascimento: Korugar City (capital do planeta Korugar, no Setor Espacial 1417)
Parentes conhecidos: Arin Sur (esposa, falecida), Soranik Natu (filha), Abin Sur (cunhado, falecido) e Amon Sur (sobrinho)
Ocupação: Ex-arqueólogo, ex-Lanterna Verde e ex-ditador, é como líder da Tropa Sinestro (vulgo Lanternas Amarelos) que dá agora prossecução às suas atividades de terrorista intergaláctico. 
Base operacional: Durante o seu tempo ao serviço da Tropa dos Lanternas Verdes, Sinestro encontrava-se aquartelado no planeta Oa, lar dos Guardiões do Universo, e tinha a seu cargo o policiamento do Setor Espacial 1417. Desde o fim do seu exílio em Qward, no Universo de Antimatéria, tem privilegiado a itinerância. Num passado recente, a gigantesca estação de combate conhecida como Mundo Bélico (anteriormente controlada por Mongul) serviu-lhe de base móvel.
Afiliações: Ex-membro da Tropa dos Lanternas Verdes, da Sociedade Secreta de Supervilões e da Liga da Injustiça, é líder e fundador da Tropa Sinestro.
Némesis: Lanterna Verde Hal Jordan (e, por extensão, toda a Tropa Esmeralda) 
Poderes e parafernália: Extremamente inteligente e astuto, mesmo desprovido do seu anel Sinestro é um adversário de respeito. Não só porque é um líder nato e um estrategista brilhante, mas porque aparenta possuir o dom natural de intuir o medo alheio, o qual usa para vergar os seus oponentes. É também esse dom que parece explicar a sua capacidade para estabelecer uma espécie de vínculo psíquico com os seus correlegionários da Tropa Sinestro.
Mais impressionante ainda é a sua vontade inquebrantável, sem paralelo em qualquer outra criatura senciente no Universo. Diagnóstico feito pelo próprio Ion, o avatar da Força de Vontade no Espectro Emocional (ver Miscelânea) e fonte de poder dos Lanternas Verdes.
É, porém, no seu anel energético - duplicata perfeita daqueles que são usados pelos Lanternas Verdes - que Sinestro tem a sua mais formidável arma. Graças a ele consegue, entre muitas outras coisas, gerar campos de força, projetar e absorver energia ou criar construtos de luz sólida cuja forma e funcionalidades dependem apenas da sua imaginação.
O anel permite-lhe, ademais, sobreviver em qualquer atmosfera, voar à velocidade da luz, curar-se e até viajar no tempo. Acresce ainda o facto de a sua luz amarela anular o poder dos anéis dos Lanternas Verdes.
Todas essas habilidades são potenciadas quando Sinestro serve de hospedeiro a Parallax, a entidade que incorpora o Medo. Quando isso acontece, Sinestro raia a transcendência, adicionando a manipulação da realidade ao seu índice de poderes.

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Graças à sua desmesurada força de vontade,
Sinestro consegue criar os anéis energéticos que apetrecham a tropa com o seu nome.
Fraquezas: Estribado na sua superioridade moral, Sinestro está convicto da benevolência das suas ações e despreza quem as contesta. A húbris é, de resto, a sua principal fraqueza e foi à conta dela que averbou múltiplas derrotas no passado. 
No entanto, também o seu anel energético possui limitações. Desde logo a necessidade de recarregamento a cada 24 horas ou sempre que a sua energia se esgota. Ao que se soma a sua ineficácia contra os portadores da luz azul que, no Espectro Emocional, representa a Esperança. Os Lanternas Azuis (atualmente resta apenas um, o Santo Andarilho) conseguem expurgar as emoções negativas, como o medo ou a ira, desabilitando dessa forma os anéis que por elas são energizados.

Segredos sinistros

Com os leitores rendidos à gesta intergaláctica do novíssimo Lanterna Verde, demorou precisamente um ano para o herói ser apresentado àquele que seria doravante o seu némesis. Com a assinatura de John Broome e Gil Kane - criadores do Gladiador Esmeralda - Sinestro fez a sua estreia em agosto de 1961, nas páginas de Green Lantern Vol.2 nº7. E logo tratou de mostrar ao que vinha.
Com efeito, Sinestro era ele próprio um Lanterna Verde renegado com desejos de vingança em relação aos seus antigos mestres, os Guardiões do Universo.
Cinéfilo assumido, John Broome sugeriu a Gil Kane que usasse o ator britânico David Niven (celebrizado, entre outros, pelo seu papel no primeiro filme da Pantera Cor de Rosa) como modelo para a aparência do vilão.
Originalmente, Sinestro era já um Lanterna Verde caído em desgraça e portador de um anel de luz amarela quando pela primeira vez cruzou o caminho de Hal Jordan. Esse e outros elementos (como a existência de uma irmã) tornar-se-iam apócrifos após Crise nas Infinitas Terras. Foi, pois, com recurso à continuidade retroativa que Sinestro se tornou mentor de Hal Jordan na Tropa dos Lanternas Verdes. À parte essas nuances, a origem do Mestre do Medo permaneceu praticamente inalterada até aos nossos dias.

Sinestro teve como modelo David Niven (em baixo) e debutou em
Green Lantern Vol.2 nº7 (1961).

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Nascido no longínquo planeta Korugar, no Setor Espacial 1417, à medida que crescia Sinestro desenvolveu uma obsessão pelo passado. A mesma que, na juventude, o levou a estudar ardorosamente Arqueologia.
Certo dia, quando se encontrava a reconstruir umas antigas ruínas, Sinestro testemunhou a queda de uma espaçonave. Chegado ao local do despenhamento, deparou-se com um alienígena gravemente ferido entre os destroços do veículo acidentado.
A criatura, de nome Prohl Gosgotha, explicou que fazia parte da força policial intergaláctica conhecida como Tropa dos Lanternas Verdes antes de repassar o seu anel a Sinestro, para que este pudesse enfrentar o seu atacante.
Antes que Sinestro conseguisse processar toda aquela informação, uma segunda personagem entrou em cena: um Armeiro de Qward. Originários do Universo de Antimatéria (negativo da nossa realidade), a cultura dos Armeiros, povo de cientistas e soldados, é totalmente baseada na guerra. O que faz deles inimigos jurados da Tropa dos Lanternas Verdes.
Ao enfiar instintivamente o anel no seu dedo, Sinestro teve a sua indumentária transformada num elegante uniforme verde. Sinestro intuiu rapidamente o modo de funcionamento da bijutaria e, dando mostras de uma extraordinária força de vontade, usou-a para neutralizar o Armeiro.
Quando, porém, o agonizante Prohl Gosgotha lhe pediu o anel de volta para cicatrizar os seus ferimentos, Sinestro recusou fazê-lo. Fascinado pelas potencialidades daquela que percebeu ser uma das mais poderosas armas do Universo, assistiu impávido à morte do seu antigo usuário, para assim poder tomar o seu lugar.
Sinestro seria pouco tempo depois contactado por Abin Sur, que o escoltou ao planeta Oa, lar dos Guardiões do Universo e quartel-general da Tropa dos Lanternas Verdes. Abin Sur tinha por missão policiar o Setor Espacial 2814 (ao qual pertence a Terra) e os dois rapidamente ficaram amigos. Uma amizade que se transformaria em laços familiares quando Sinestro desposou a irmã de Abin Sur. Escusado será dizer que tanto o cunhado como os Guardiões do Universo ignoravam as circunstâncias em que Sinestro se apropriara do anel.
Após jurar fidelidade aos preceitos da Tropa Esmeralda, Sinestro foi oficialmente designado Lanterna Verde do Setor Espacial 1417, substituindo o malogrado Prohl Gosgotha na proteção de Korugar. A sua coragem e eficiência depressa fizeram dele o melhor dos Lanternas Verdes, idolatrado pelos seus camaradas na exata medida em que era temido pelos seus inimigos.

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Criadores da Tropa dos Lanternas Verdes,
 os Guardiões do Universo ignoravam os pecados de Sinestro.
Sinestro usou então o quase ilimitado poder do seu anel para transformar o seu mundo natal num paraíso. Um paraíso livre de crime e desordem, mas de onde a própria liberdade foi aos poucos sendo expulsa. Embora se visse a si mesmo como um messias, aos olhos do seu povo Sinestro era um odioso tirano.
Cada vez mais crítico dos métodos obsoletos da Tropa dos Lanternas Verdes, Sinestro começou a incutir a sua filosofia totalitária aos novos recrutas. Quando, em consequência da morte de Abin Sur, Hal Jordan se tornou no primeiro terráqueo a ingressar nas fileiras da Tropa Esmeralda, os Guardiões do Universo incumbiram Sinestro de treiná-lo.
À semelhança do que acontecera com Abin Sur, Sinestro depressa travou amizade com Hal Jordan, em quem descortinava grande potencial. Tanto assim que o convidou a visitar Korugar, onde, segundo dizia, era reverenciado pelo seu povo. A verdade viria, contudo, a revelar-se muito diferente.
Em Korugar, Hal Jordan ficou aterrado com o nível de medo e opressão impostos por Sinestro aos seus compatriotas. Destapava-se enfim o poço de morte e corrupção onde jaziam os cadáveres e os pecados da sangrenta demanda de Sinestro.
Incapaz de persuadir Sinestro da iniquidade das suas ações, a Hal Jordan não restou outra alternativa senão denunciá-lo aos Guardiões do Universo.
Julgado em Oa pelos seus crimes, Sinestro foi expropriado do seu anel energético e banido para o Universo de Antimatéria. Para a sua condenação foi crucial o depoimento de Hal Jordan, uma "traição" que o Mestre do Medo nunca perdoaria.

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Sinestro foi instrutor de Hal Jordan,
 o primeiro humano admitido na Tropa dos Lanternas Verdes.
O exílio de Sinestro no Universo de Antimatéria não surtiu, todavia, o efeito desejado. Contra todas as expectativas, o antigo Lanterna Verde firmou uma aliança com os Armeiros de Qward, tirando proveito do ressentimento mútuo em relação aos Guardiões do Universo.
Apostados em fazer de Sinestro o seu instrumento de vingança, os Armeiros de Qward forjaram-lhe um novo anel energizado pelo Medo. Nascia assim o primeiro Lanterna Amarelo do Universo.
De regresso ao nosso Universo, Sinestro depressa se tornou o maior adversário da Tropa dos Lanternas Verdes. Sucedendo-se os duelos com o seu antigo pupilo, Hal Jordan, dos quais o Mestre do Medo saiu invariavelmente derrotado.

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Nos Armeiros de Qward (cima),
Sinestro encontrou aliados improváveis, e em Hal Jordan o seu eterno rival.
Dado como morto incontáveis vezes, numa dessas ocasiões Sinestro logrou transferir a sua essência para o interior da Bateria Central de onde provém a energia dos anéis dos Lanternas Verdes. E que servia também de prisão a Parallax, a entidade cósmica que incorpora o Medo. Voluntariando-se para servir-lhe de hospedeiro, Sinestro usou o formidável poder da criatura para dizimar boa parte da Tropa Esmeralda antes de ser novamente detido por Hal Jordan.
Percebendo que nem mesmo ele conseguiria derrotar a Tropa dos Lanternas Verdes sozinho, cuidou então de formar o seu próprio exército composto por alguns dos mais implacáveis guerreiros do Universo.
Sob o estandarte do Medo, os Lanternas Amarelos propõem-se impor a ordem por todos os meios necessários - incluindo a força letal. Tão temida quanto admirada, a Tropa Sinestro não mais cessou de disputar à sua congénere esmeralda a hegemonia no policiamento do Cosmos.
Em lados opostos da barricada, Sinestro e Hal Jordan continuam a defender aquilo em que acreditam, sem nunca esquecer a amizade que, em tempos, os uniu.

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A Tropa Sinestro usa o medo na sua cruzada pela ordem universal.

Miscelânea

*Apesar de ter sido introduzido na Idade de Prata e de ser um dos mais célebres supervilões dos quadradinhos, só em 2010 foi revelado o nome completo de Sinestro. Durante a saga A Noite Mais Densa (Blackest Night), Sinestro fundiu-se com a Entidade (personificação senciente da Vida), para combater Nekron, avatar da Morte e fonte do poder dos Lanternas Negros. Em resultado desse processo, Sinestro tornou-se o primeiro Lanterna Branco, cujo anel energético o identificou da seguinte forma: "Thaal Sinestro de Korugar, o Destino espera-te.";

thaal sinestro

sinestro white lantern
A revelação do nome completo de Sinestro
 e a sua transformação no primeiro Lanterna Branco.
*Dada a proximidade fonética do seu nome com "sinister" (palavra latina para "esquerdino"), Sinestro é habitualmente retratado como  canhoto - característica conotada, na época medieval, com profanidade;
*Entre junho de 2014 e julho de 2016, Sinestro estrelou o seu próprio título mensal em terras do Tio Sam. Nesse ínterim protagonizou igualmente dois volumes especiais: Sinestro: Futures End (2014) e Sinestro Annual nº1 (2015). Lançadas no âmbito de Os Novos 52, essas iniciativas editoriais objetivaram apresentá-lo como um anti-herói;
*Em algumas histórias, o antecessor de Sinestro na Tropa dos Lanternas Verdes surge identificado, não como Prohl Gosgotha, mas como Jewelius Blak. Curiosamente, a criação deste último precedeu em onze anos (1988 e 1999, respetivamente) a do primeiro;
*Malgrado as suas apregoadas boas intenções, Sinestro é reputado de tirano e assassino mesmo nos setores espaciais mais recônditos do Universo conhecido, o que lhe valeu ser cognominado de Maligno (Wicked no original);
*Antes da sua expulsão da Tropa dos Lanternas Verdes, Sinestro autoproclamara-se ditador vitalício de Korugar;
*O símbolo da Tropa Sinestro representa a bocarra escancarada de Parallax pronta a devorar todos aqueles que sucumbem ao medo que a entidade corporiza;
*O Espectro Emocional que rege o Universo DC é composto pelas sete cores do arco-íris, representando outras tantas emoções. Assim, ao azul corresponde a Esperança, ao verde a Força de Vontade, ao amarelo o Medo, ao laranja a Cobiça, ao violeta o Amor, ao vermelho a Ira e ao índigo a Compaixão. A elas somam-se ainda o branco (Vida) e o preto (Morte), sendo cada cor regida por uma entidade que incorpora a respetiva emoção e a representa fisicamente. Entidades essas que são tão antigas como o próprio Universo;

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No Espectro Emocional, o amarelo representa o Medo, incorporado por Parallax (cima).
*"No dia mais sombrio, na noite mais brilhante / Sente os teus medos tornarem-se luz cortante. / Todo aquele que a ordem tentar perturbar / Arderá em chamas quando o poder de Sinestro enfrentar". É este o juramento solene que os Lanternas Amarelos têm de recitar quando recebem os seus anéis, ou de cada vez que têm de recarregá-los;
*Surpreendentemente, apesar da eterna rivalidade que acalentam e das incontáveis vezes que se defrontaram em batalhas potencialmente fatais, Sinestro continua a considerar Hal Jordan um amigo. Desconhece-se, porém, se a recíproca é verdadeira, ainda que alguns indícios apontem nesse sentido. Uma relação muito semelhante àquela que é mantida pelo Professor X e Magneto, na Marvel;
*É possível traçar vários paralelismo entre a origem de Sinestro e a de Lúcifer, o Anjo Caído. Ambos foram outrora os favoritos dos seus criadores, caíram em desgraça devido à sua rebeldia, preferem governar a servir, comandam os seus próprios exércitos e sonham moldar o Universo à sua imagem;
*Entalado entre Adão Negro (DC) e Caveira Vermelha (Marvel), Sinestro ocupa desde 2009 o 15º lugar na lista dos cem melhores vilões de banda desenhada organizada pelo site IGN.

Será Sinestro uma alegoria luciferina? 

Noutros media

Desde 1978 que Sinestro, ao abrigo do seu duplo estatuto de arqui-inimigo de Hal Jordan e da Tropa dos Lanternas Verdes, vem sendo presença assídua no segmento audiovisual. Nesse ano o vilão exorbitou pela primeira vez os quadradinhos, estreando-se em Challenge of the Super Friends, série de animação baseada na Liga da Justiça e produzida pelos estúdios Hanna-Barbera. Tal como na banda desenhada, Sinestro detinha a capacidade viajar a seu bel-prazer para o Universo de Antimatéria.
Em 1979, Sinestro participou pela primeira vez numa produção em ação real. Em Legends of the Superheroes, minissérie televisiva em dois episódios, o vilão foi interpretado pelo ator cómico Charlie Callas.
Antagonista recorrente num sortido de animações baseadas no Universo DC, foi naquelas que tiveram o Lanterna Verde como protagonista - Green Lanterna: First Flight (2009) e Green Lantern: Emerald Knights (2011) - que Sinestro teve,  naturalmente, maior destaque.
Ao cinema Sinestro chegaria em 2011, ano em que foi lançada a primeira - e, até à data, única - longa-metragem do Lanterna Verde. Interpretado pelo britânico Mark Strong numa trama decalcada da origem clássica do herói, Sinestro surge ainda como um arrogante, porém eficiente, oficial da Tropa Esmeralda descrente nas capacidades de Hal Jordan e no discernimento dos Guardiões do Universo para fazer face às ameaças rondam o Cosmos.

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Sinestro em Challenge of the Super Friends (cima)
e interpretado por Mark Strong no filme do

Lanterna Verde de 2011.

24 maio 2019

ETERNOS: BILL FINGER (1914-1974)


  Sem o seu contributo o Batman seria muito diferente ou poderia nem existir. Sempre na sombra de Bob Kane, foi arquiteto e obreiro da mitologia daquele que é um dos mais icónicos super-heróis de todos os tempos. Nem a morte lhe escancarou, porém, os portões do Olimpo da 9ª Arte.

Enquanto o Sol se punha devagar numa praia deserta do Oregon, na Costa Oeste dos EUA, uma figura solitária executava um estranho ritual. Na areia molhada onde momentos antes espalhara cuidadosamente o montículo de cinzas transportado numa simples caixa de sapatos, desenhava agora, com dedos trémulos, a forma de um morcego. Em seguida, envolta num silêncio solene e de olhos fixos no horizonte incandescente, aguardou que o oceano reclamasse aquela pequena oferenda. Estava cumprida a derradeira vontade de Bill Finger, o autor secreto do Batman.
Quem naquele frio final de tarde por ali passasse, jamais imaginaria serem os restos mortais de um gigante da banda desenhada que as fortes correntes do Pacífico levavam para longe. Ou que a criação do Cavaleiro das Trevas configura uma das maiores traições à verdade inscritas na história da 9ª Arte.
Quando, há precisamente 80 anos, em maio de 1939, o Batman fez a sua primeira aparição em Detective Comics nº27, Bob Kane foi o único autor creditado, apesar de não o ser.
De fora ficou Bill Finger, velho amigo e fiel colaborador de Bob Kane desde os alvores da Idade de Ouro dos quadradinhos. E cujos contributos foram fundamentais para fazer do Cavaleiro das Trevas (cognome também cunhado por Finger) aquilo que ele é hoje: um dos três pilares do Universo DC (juntamente com o Super-Homem e a Mulher-Maravilha), um ícone cultural à escala planetária e, por inerência, um filão virtualmente inesgotável para os detentores dos seus direitos. Como, de resto, testifica a miríade de bandas desenhadas, filmes, séries televisivas e videojogos nele baseados.

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Detective Comics nº27 (1939) apresentou Batman ao mundo
 e Bob Kane (em baixo) como seu único autor.

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A despeito de o verdadeiro papel de Bill Finger na conceção do Batman e no desenvolvimento da sua mitologia ser um dos maiores segredos de Polichinelo da indústria dos quadradinhos, a verdade só este século começou a ser reposta. Finger continua, ainda assim, a ser um ilustre desconhecido para muitos fãs do taciturno guardião de Gotham City, que ignoram por completo a dimensão e a importância da sua obra.
Como se perceberá, Finger, conquanto inextrincavelmente ligado ao imaginário do Homem-Morcego, enriqueceu de diferentes formas o panteão da Editora das Lendas. No qual tem também lugar cativo desde que, em 1985, o seu nome foi incluído em Fifty Who Made DC Great, o livro de ouro lançado pela DC por ocasião do seu 50º aniversário, e que imortalizava as cinquenta personalidades que mais contribuíram para o sucesso da companhia.
Mas quem era, afinal, esse segundo homem por detrás da criação do Batman? E como foi possível ter permanecido na obscuridade durante tanto tempo? Era Bob Kane um oportunista sem ética ou limitou-se, ao invés, a tirar partido das regras viciadas de uma indústria particularmente iníqua?
No mês em que o Batman, fenómeno de popularidade e de longevidade (vem sendo ininterruptamente publicado desde 1939), ingressa no restrito escol de super-heróis octogenários, importa verter alguma luz sobre os segredos da sua criação e assegurar um módico de justiça ao seu criador secreto.
Um dos mais prolíficos - e menosprezados - escribas da sua geração, Milton "Bill" Finger nasceu a 8 de fevereiro de 1914, em Denver (Colorado), a jovem casal judaico de raízes humildes. Louis Finger, o pai, trocara, ainda adolescente, a sua Áustria natal pelos EUA, na senda do Sonho Americano que a Grande Depressão haveria de reduzir a pó. Foi, pois, em terras do Tio Sam que conheceu Tessie, a discreta nova-iorquina que haveria de desposar logo depois. Do enlace resultaram, além de Bill, duas filhas, Emily e Gilda. Em 1933, a família rumaria a Nova Iorque, depois de a míngua de fregueses ter ditado o encerramento da alfaiataria de que Louis retirava o sustento de todos.
Na Grande Maçã, o clã Finger assentou arraiais no Bronx. Foi nas ruas desse pitoresco bairro nova-iorquino que Bill Finger se fez homem enquanto frequentava o DeWitt Clinton, o mesmo liceu onde, num daqueles obséquios do acaso, Bob Kane estudava também. Kane era apenas um ano mais velho do que Finger e os passos de ambos acabaram inevitavelmente por cruzar-se nos corredores da escola. Apesar das personalidades dissonantes (Kane era conhecido pela sua lábia; Finger pela sua timidez), floresceu uma amizade entre ambos. Terminados os estudos, os dois seguiram, porém, caminhos muito diferentes.

Bill Finger na juventude.
Enquanto Bill Finger, um aspirante a escritor, trabalhava a tempo parcial numa sapataria, Bob Kane optou por ganhar dinheiro a fazer aquilo de que mais gostava: desenhar. Os dois mantiveram contacto e, em 1938, Bob Kane convidou o amigo a trocar a sapataria pelo seu recém-fundado estúdio. Cansado de um emprego que mal lhe permitia pagar as contas, Finger aceitou de bom grado o convite e a sua primeira colaboração consistiu em escrever Clip Carson e Rusty and his pals, tiras vendidas por Bob Kane à National Comics (uma das antecessoras da DC). Apesar de Kane não ter escrito uma só palavra das que acompanhavam as suas ilustrações, apenas a sua assinatura surgia nas tiras. Finger tornava-se assim o primeiro de uma legião de escritores-fantasma que no rolar das décadas coadjuvariam secretamente Kane.

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Bill Finger foi o escritor-fantasma de Bob Kane em Rusty and his pals.
Após o estrepitoso sucesso do Super-Homem no ano anterior, em 1939 a National Comics, na pessoa do seu editor-chefe Vin Sullivan, incumbiu Bob Kane de criar um novo herói fantasiado capaz de fazer disparar ainda mais as vendas da companhia. Era véspera de fim de semana e Kane comprometeu-se a apresentar o seu protótipo na segunda-feira seguinte. Essa seria, aliás, uma das poucas promessas que honraria em toda a sua vida.
Durante o fim de semana, Kane afadigou-se na criação da nova personagem, que batizou de Bat-Man (era esta a grafia original) antes de submetê-la à apreciação de Bill Finger. Este ficou agradado com o nome mas propôs várias modificações ao visual, conforme recordaria em diferentes entrevistas concedidas em vida: "Bob mostrou-me alguns esboços do seu Bat-Man. Gostei do conceito, mas a aparência fazia lembrar demasiado a do Super-Homem. Recordo-me que vestia um uniforme vermelho, sem luvas e com um par de asas rígidas acopladas nas costas. Tinha a face parcialmente coberta por uma mascarilha e baloiçava-se numa corda suspensa. Sugeri a Bob que fizesse algumas alterações e ele acolheu as minhas ideias."
As alterações propostas por Bill Finger deixaram quase irreconhecível o conceito original. Num ápice, o uniforme do Batman adquiriu tonalidades escuras, as asas deram lugar a uma capa e a mascarilha foi substituída por um capuz. A influência de Finger repercutiu-se igualmente na têmpera do herói.
Kane não tinha ainda definido a identidade secreta do Batman, e partiu de Finger a ideia de lhe atribuir um insuspeito playboy milionário como alter ego. Foi também ele quem o crismou de Bruce Wayne, combinação dos nomes de duas figuras históricas: Robert the Bruce (rei dos escoceses que, no século XIV, liderou o seu povo na primeira guerra pela independência face a Inglaterra) e Anthony Wayne, general notabilizado pelas suas façanhas militares durante a Revolução Americana. Anos mais tarde, o próprio Kane reconheceria ter concebido o Batman para ser um vigilante mascarado, tendo sido Finger a transformá-lo numa espécie de detetive científico notoriamente inspirado em Sherlock Holmes.

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O Bat-Man de Bob Kane.
Alheio a tudo isto, Vin Sullivan, o mandachuva da National, apressou-se a adquirir os direitos da personagem que Bob Kane, como prometido, lhe apresentou em tempo recorde. Sem nunca mencionar Bill Finger, Kane, entre outras contrapartidas, exigiu ser creditado como o único autor de Batman em todas as histórias e adaptações vindouras. Cláusula contratual inédita que destoava daquela que era então a prática consagrada na incipiente indústria dos comics. Raramente os criadores eram creditados ou conservavam os direitos das sua criações. Sendo o caso mais dramático o de Jerry Siegel e Joe Shuster, os desafortunados autores do Super-Homem cujos perfis se encontram disponíveis neste blogue.
Porquanto era o nome de Bob Kane o único que figurava no contrato celebrado com a National, somente ele receberia os futuros proventos do negócio. Apesar de Kane se ter comprometido informalmente a dividi-los com Finger, a verdade é que este nunca recebeu um cêntimo dos milhões de dólares gerados pelo Homem-Morcego nos diferentes segmentos culturais.
Não obstante, foi da pena de Finger que saiu a primeira história do Batman publicada em Detective Comics nº27, ficando a arte a cargo de Bob Kane. Mas apenas este foi creditado nessa edição e em todas as que foram dadas à estampa nas duas décadas subsequentes. Coincidindo esse período com a expansão da mitologia do Homem-Morcego.
Sempre na sombra de Kane, da imaginação de Finger saíram personagens-chave, como o mordomo Alfred Pennyworth, o Comissário James Gordon, a Mulher-Gato ou o Charada. Finger participou ainda na criação de Joker e Robin (respetivamente, némesis mortal e fiel escudeiro do Cavaleiro das Trevas), e deu nome à opressiva metrópole (Gotham City) que servia de habitat a toda esta exótica fauna. A Bat-Caverna e o Bat-Móvel foram outros dos conceitos icónicos introduzidos por Finger, normalizando dessa forma a aplicação do prefixo "Bat" a todo e qualquer acessório utilizado pelo herói que escolheu o morcego como símbolo.
Outra das marcas distintivas de Finger enquanto argumentista do Batman era a utilização recorrente de adereços gigantes - por norma, objetos do quotidiano como máquinas de costura ou de escrever. Um bom exemplo dessa tendência é a moeda gigante guardada na sala de troféus da Bat-Caverna, e que reporta originalmente a uma história da Idade de Ouro da autoria de Finger.

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Mulher-Gato e a moeda gigante com a efígie de Abraham Lincoln:
duas criações icónicas de Bill Finger na Idade de Ouro.
Arte-finalista das primeiras histórias do Batman, o saudoso George Roussos assinalava a minúcia de Finger como uma das suas características mais ambivalentes. Segundo ele, Finger facilitava consideravelmente o trabalho dos desenhistas ao fornecer-lhes referências fotográficas (normalmente retiradas da National Geographic) de prédios ou infraestruturas, como fábricas ou estações ferroviárias. Essas pesquisas exaustivas atrasavam, porém, o processo de escrita. Finger sentia sempre grande dificuldade em cumprir prazos, contingência que, em meados dos anos 1940, ditou a sua substituição temporária por Gardner Fox. Não sem antes ter assinado a história de origem do Homem-Morcego que, a despeito das múltiplas revisitações, se mantém praticamente inalterada até hoje.
Com o tempo Bill Finger começou a trabalhar diretamente para a DC. Superman e Superboy foram dois títulos em que deixou marca. Foi ele quem, por exemplo, incorporou a kryptonita (conceito apresentado anos antes num folhetim radiofónico) no cânone do Homem de Aço. Já o Superboy foi presenteado com um interesse amoroso: ninguém menos do que Lana Lang. Pelo meio, Finger foi creditado como coautor do primeiro Lanterna Verde e do Pantera (Wildcat, no original). No caso do Gladiador Esmeralda esse reconhecimento decorreu do simples facto de ter escrito a primeira história do herói, para cuja conceção em nada contribuiu.
Numa época marcada pela itinerância dos profissionais da 9ª Arte, Bill Finger colaborou igualmente com editoras concorrentes da DC. Quality Comics, Fawcett Comics e Timely Comics foram algumas das que requisitaram os seus préstimos. Para esta última, em 1946, ajudou a criar, em resposta ao êxito da Sociedade da Justiça da América (DC), o Esquadrão Vitorioso (All-Winners Squad), a primeira equipa de super-heróis dessa antepassada da Marvel.

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Alan Scott, o primeiro Lanterna Verde, e Lana Lang.
Outras das criações emblemáticas de Bill Finger.
Em 1961, numa conjuntura de renascimento dos super-heróis, Bill Finger abandonou quase por completo a indústria dos quadradinhos para abraçar uma nova carreira como argumentista no cinema e na TV. Foi nessa qualidade que, cinco anos depois, escreveu dois episódios da série televisiva do Batman estrelada por Adam West. Tendo sido essa a primeira vez que recebeu crédito por uma história do herói que ajudara a criar. Algo que certamente não terá agradado a Bob Kane.
Por essa altura a relação entre ambos já se deteriora em consequência de uma controvérsia relacionada, precisamente, com a criação do Homem-Morcego. Em 1965, na edição inaugural da Comic Con de Nova Iorque, Bill Finger participou num painel composto por autores de banda desenhada. Questionado sobre o seu papel na criação do Batman, Finger revelou a verdadeira dimensão do seu contributo para a definição do herói.
A resposta de Bob Kane não se fez esperar e foi tudo menos polida. Numa contundente missiva publicada no fanzine Batmania, apelidou de fraude o seu ex-associado, sonegando-lhe uma vez mais o direito a ser reconhecido como coautor do Cavaleiro das Trevas.
No que poderá ser interpretado como uma expressão de atroz cinismo ou um tardio rebate de consciência, na sua autobiografia lançada em 1989 (na verdade, um panegírico escrito a meias com Tom Andrea), Bob Kane escreveu: "Agora que o meu velho amigo Bill Finger nos deixou, devo admitir que ele nunca obteve a fama e o reconhecimento merecidos. Ele foi a força motriz do desenvolvimento do Batman. Foi um herói anónimo." Diga-se, no entanto, que Kane tudo fez para garantir esse anonimato.
Traído pelo seu coração, Bill Finger foi encontrado morto no seu apartamento num condomínio de Manhattan a poucos dias de completar 60 anos, e quando o movimento pela defesa dos direitos autorais ainda gatinhava. Corria o ano de 1974 e durante muito tempo especulou-se que o seu corpo teria sido sepultado numa campa anónima. A verdade, porém, é que foi cremado e as suas cinzas espalhadas pelo seu único filho, Frederick (era ele a misteriosa figura no início do texto), numa praia do Oregon. E esse poderia ter sido o epílogo desta apaixonante história se, em 2012, Marc Tyler Nobleman, um estudioso da 9ª Arte, não tivesse lançado Bill the Boy Wonder (Bill, o Menino-Prodígio), uma biografia ilustrada que exumou verdades incómodas.

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Em 2012, a biografia ilustrada de Bill Finger
 abriu caminho para o seu reconhecimento público.
A aturada investigação levada a cabo por Nobleman possibilitou a descoberta da única herdeira viva de Bill Finger: a sua neta Athena, nascida dois anos após a morte do avô. No corolário de uma árdua disputa judicial travada por Athena, em 2015 a DC consagrou por fim Bill Finger como cocriador do Batman. Mesmo a tempo da estreia do filme Batman versus Superman: O Despertar da Justiça. Pela primeira vez surgiu no grande ecrã a inscrição "Batman criado por Bob Kane com Bill Finger".
Num mundo perfeito, ler-se-ia "Batman criado por Bob Kane e Bill Finger". Num mundo perfeito, Bill Finger, há muito reconhecido pelos seus pares que até criaram um prémio com o seu nome, teria reclamado em vida o lugar no Olimpo da 9º Arte que é seu por direito. Mas este não é um mundo perfeito e nem sempre a amizade prevalece.
Desde dezembro de 2017 que uma esquina do Bronx tem o nome de Bill Finger. Uma homenagem toponímica que nada teve de aleatória. A esquina em questão dista poucos metros do Poe Park, local onde tantas vezes dois jovens amigos se encontraram para trocar ideias sobre a personagem que os haveria de imortalizar, mas também separar.

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Em Batman vs Superman, Bill Finger foi creditado
 pela primeira vez como coautor do Cavaleiro das Trevas.
Athena Finger na inauguração da esquina com o nome do avô:
 uma via para a eternidade.




04 maio 2019

RETROSPETIVA: «FLASH GORDON»



  Ao som da eletrizante banda sonora dos Queen, o herói interplanetário imaginado por Alex Raymond voltou a salvar o Universo, mas não o próprio filme. Uma extravagante ópera espacial a meio caminho entre o ridículo e o sublime que continua a ser reverenciada por muitos cinéfilos.

Titulo original: Flash Gordon 
Ano: 1980
País: EUA/ Reino Unido
Duração: 111 minutos
Género: Ficção Científica / Aventura / Super-heróis
Produção: Dino De Laurentiis Company
Realização: Mike Hodges 
Argumento: Lorenzo Sample Jr. e Michael Allin 
Distribuição: Universal Pictures 
Elenco: Sam J. Jones (Flash Gordon), Melody Anderson (Dale Arden), Max Von Sydow (Imperador Ming), Topol (Hans Zarkov), Ornella Muti (Princesa Aura), Timothy Dalton (Príncipe Barin), Brian Blessed (Príncipe Vultan), Peter Wyngarde (Klytus) e Mariangela Melato (Kala)
Orçamento: 35 milhões de dólares
Receitas: 27, 2 milhões de dólares (valor referente apenas ao mercado doméstico)

No reino do improviso

Por certo um dos mais caros improvisos da história da 7ª Arte, à primeira vista Flash Gordon tinha tudo para ser um sucesso. Ao orçamento milionário somava-se um elenco estelar, um realizador consagrado e uma das mais icónicas bandas sonoras de sempre. Apesar de tudo isso, o filme naufragou nas bilheteiras, sendo ainda hoje apontado como exemplo de trash movie. O que correu mal, afinal? Como foi possível uma promissora ópera espacial descambar numa espalhafatosa marcha dos desalinhados?
Revisitar os segredos de bastidores de Flash Gordon equivale a elencar os capítulos de um desastre anunciado. Difícil é perceber o exato momento em que o projeto descarrilou e entrou numa roda viva.
Para melhor percebermos o que se passou, temos de começar por retroceder no tempo; mais precisamente até meio da década de 1970. Quando George Lucas, então um jovem e desconhecido cineasta que crescera a ler as histórias de Flash Gordon, procurou obter os direitos da personagem junto do produtor italiano Dino De Laurentiis. Adaptar o seu ídolo de infância ao grande ecrã era um sonho antigo de George Lucas. Face à recusa de De Laurentiis, o realizador decidiu criar (com os resultados sobejamente conhecidos) a sua própria saga espacial. O sucesso retumbante de Star Wars seria, de resto, o mote para o lançamento de Flash Gordon. E, como mais adiante se perceberá, uma das causas do seu fracasso.
Com a revitalização do género ficção científica em curso, De Laurentiis percebeu que a conjuntura seria propícia ao regresso de Flash Gordon ao grande ecrã, após uma longa ausência de quase 30 anos. Frederico Fellini, seu compatriota, foi o primeiro realizador escolhido para capitanear o projeto. Apesar do cineasta italiano ter adquirido os direitos da personagem, acabaria, inexplicavelmente, por nunca fazer o filme. Fellini seria, ainda assim, homenageado no filme ao emprestar o seu nome à mascote da Princesa Aura.

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Falecido em 2010, Dino De Laurentiis
 produziu em vida mais de 250 filmes, 

entre eles Barbarella (1968).
De Laurentiis não esmoreceu e escolheu então o britânico Nicolas Roeg para escrever e dirigir a almejada longa-metragem baseada no aventureiro interplanetário imaginado por Alex Raymond (perfil disponível neste blogue). Roeg realizara em 1976 The Man Who Fell to Earth, obra cultuada pelos fãs de ficção científica. Prefigurando-se, portanto, como o homem certo para a função. Algo que o tempo (e De Laurentiis) se encarregariam de desmentir.
Após um ano de isolamento autoimposto ( período em que leu todo o material relacionado com Flash Gordon a que conseguiu deitar a mão), Roeg apresentou a sua proposta de argumento a De Laurentiis. Este não ficou, porém, nada impressionado com o que leu e vetou-a sem apelo nem agravo. Ao que parece, a abordagem de Roeg não primava pela fidelidade às histórias canónicas. O próprio reconheceria mais tarde ter feito uma arrojada reinterpretação do conceito original, infundindo-o de elementos metafísicos, como apresentar Flash Gordon como uma espécie de messias simbólico.
Precavendo novas divergências criativas - e já após a inevitável demissão de Roeg -, De Laurentiis contratou Mentor Hubner para desenhar os storyboards que serviriam de suporte gráfico à produção. Emulando a sofisticada estética das tiras originais, as ilustrações de Hubner invocavam amiúde painéis de banda desenhada.
Em paralelo, Sam Peebles, autor de um dos mais emblemáticos episódios de Star Trek, escrevia uma nova versão do enredo. A qual nunca viria a ser conhecida, já que, por razões que a própria razão desconhece, De Laurentiis dispensou os serviços de Peebles e contratou Lorenzo Sample Jr., seu habitual colaborador com quem havia trabalhado recentemente no remake de King Kong. Sample fora também argumentista e produtor-executivo da série televisiva de Batman com Adam West, celebrizada pelos seus elementos kitsch.
A diretiva de De Laurentiis era clara: ele queria que o filme fosse divertido e fiel ao material original. O problema é que, no seu entendimento, isso significava ser necessariamente engraçado, algo que Flash Gordon nunca foi.
De Laurentiis prosseguia entretanto a sua demanda por um realizador. Após ter recebido uma "nega" de outro seu patrício, Sergio Leone, a sua escolha recairia sobre Mike Hodges. Nascido em terras de Sua Majestade, Hodges alcançara a consagração ao dirigir Get Carter, em 1971.

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Mike Hodges foi o 8º realizador cogitado
 para dirigir Flash Gordon.
Com o projeto em marcha avançada, seguiu-se a escolha do elenco. Kurt Russell era o preferido de De Laurentiis para interpretar Flash Gordon. Por considerar a personagem unidimensional, o ator recusou, no entanto, o papel. Já Arnold Schwarzenegger seria descartado devido ao seu denso sotaque austríaco. Abrindo dessa forma caminho a um protagonista improvável.
Um ilustre desconhecido praticamente sem experiência de representação, Sam J. Jones foi o eleito para assumir o papel que pertencera no passado a Buster Crabbe e Steve Holland. Ao que consta, Jones chamara a atenção da madrasta de De Laurentiis ao participar num episódio de The Dating Game, programa televisivo que, nos anos 60 e 70, promovia encontros às cegas, e que, entre outros, retirou do anonimato Tom Selleck e Farrah Fawcett. Mais habituado a posar para revistas como a Playgirl, o currículo de ator de Sam Jones resumia-se a uma pequena participação em 10, filme erótico em que contracenara com Bo Derek.

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Sam Jones numa produção fotográfica para a Playgirl.
Outra das escolhas pessoais de De Laurentiis, Melody Anderson relutou em aceitar o papel de Dale Anderson. A exemplo de Kurt Russel, a atriz considerava a sua personagem demasiado monótona. Se o apolíneo Flash Gordon era um arquétipo varonil, de Dale Arden esperava-se que fosse a típica rapariga da porta ao lado. Graças à insistência de De Laurentiis, Melody Anderson acabaria mesmo por aceitar aquele que, ironicamente, seria o papel mais importante da sua medíocre carreira.
Quem aceitou de bom grado interpretar o crudelíssimo Imperador Ming foi Max Von Sydow, admirador incondicional de Flash Gordon desde os seus verdes anos. A sua prestação dramática destoaria aliás num filme  em que vários dos seus colegas pareciam atuar em piloto automático (ou não saber, de todo, representar).
Entre os inúmeros estorvos nocivos que marcaram a rodagem da película, destacou-se desde logo a barreira linguística. Metade da equipa era britânica, a outra italiana e nem sempre era fácil a comunicação entre elas. Apesar de fluente em Inglês, De Laurentiis contratou uma conterrânea para lhe traduzir todos os textos para italiano. Sucede que os conhecimentos da senhora em relação à língua de Shakespeare eram, na melhor das hipóteses, rudimentares, o que deu azo a todo o tipo de equívocos, para desespero do realizador Mike Hodges. Que, a dada altura, perdeu por completo o controlo da produção.
Um bom exemplo do regabofe instalado no set foi a partida de futebol americano improvisada por Sam Jones em plena Sala do Trono. Apesar de inspirada, a cena não constava no guião, tão-pouco a coreografia de cheerleader executada por Melody Anderson. Saltar para a frente da câmara enquanto gritava "YEAH!" foi outro improviso de Sam Jones, uma vez que ninguém fazia ideia de como terminar o filme.

Uma das mais memoráveis cenas de Flash Gordon
foi na verdade um improviso de Sam Jones.
Como se isso não bastasse, Sam Jonse, uma bomba de testosterona, envolveu-se em várias escaramuças nos intervalos das filmagens. De uma delas resultou um enorme arranhão na face que só seria disfarçado com recurso a uma cirurgia plástica, e que deixou De Laurentiis à beira de um ataque de nervos. O limiar crítico da paciência do produtor seria, porém, ultrapassado após nova tropelia de Jones. Alegadamente devido à falta de pagamento, o ator não regressou ao set após as férias natalícias.
Com o protagonista em paradeiro incerto quando faltava ainda fazer a edição final, coube a um ator anónimo dobrar as suas falas no filme. Nada que impedisse Jones de processar De Laurentiis por violação contratual. Tal como o restante elenco, o contrato de Jones contemplava duas sequelas, as quais foram inviabilizadas pelo fracasso comercial daquele que deveria ter sido o primeiro capítulo de uma trilogia.
Mesmo os que desprezam Flash Gordon já em algum momento das suas vidas vibraram ao som do eletrizante tema principal da sua banda sonora com a assinatura dos Queen. No entanto, se tivesse dependido da vontade de Mike Hodges, esta teria ficado a cargo dos Pink Floyd. De Laurentiis nunca tinha sequer ouvido falar nos Queen, cujo empresário foi determinante para a sua inclusão no projeto. Depois do exemplo pioneiro dos The Who em Tommy (1975), Flash Gordon tornou-se, assim, um dos primeiros filmes a ter uma banda sonora composta, produzida e interpretada por um grupo rock.

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Da autoria dos Queen, a banda sonora de Flash Gordon
 é uma das mais icónicas da história do cinema.
Sob uma revoada de críticas e elogios, a estreia mundial de Flash Gordon teve lugar a 5 de dezembro de 1980. No mercado norte-americano, as suas receitas ficaram, porém, muito abaixo do esperado. A culpa, segundo Lorenzo Sample Jr., foi de Star Wars, que instituíra um novo paradigma para o género.
Mesmo com um orçamento três vezes inferior, o capítulo inaugural da saga de George Lucas cativara o público com uma trama sólida e efeitos especiais convincentes. Ou seja, tudo aquilo que faltava a Flash Gordon. Que, com o tempo, se transformaria num obra de culto para cinéfilos de todo o mundo, sendo amplamente referenciada em filmes como Ted (2012).

Enredo

Para aliviar o tédio, o Imperador Ming do planeta Mongo diverte-se a causar furacões, sismos e outros desastres aparentemente naturais na Terra.
Em Nova Iorque, o astro do futebol americano Flash Gordon embarca num pequeno avião onde viaja também Dale Arden, uma agente de viagens. Em pleno voo, o cockpit da aeronave é atingido por fragmentos de rocha incandescente e os pilotos desaparecem sem deixar rasto.
Flash assume os comandos do avião e, a muito custo, consegue aterrá-lo na estufa do Dr. Hans Zarkov. O destrambelhado cientista acredita que as catástrofes que vêm assolando o mundo têm origem extraterrestre, e que algo (ou alguém) anda a interferir com a órbita da Lua.
Convicto da sua teoria, Zarkov construíra em segredo um foguete espacial para poder investigar os estranhos fenómenos atmosféricos. Quando o seu assistente se recusa a embarcar na nave, Zarkov, de pistola em punho, obriga Flash e Dale a acompanharem-no na sua jornada nas estrelas.
O foguete espacial de Zarkov despenha-se no exótico planeta Mongo e o trio de ocupantes é imediatamente capturado por soldados e levado à majestática presença do Imperador Ming. Feitas as devidas apresentações, o déspota, tomado pela lascívia, ordena que Dale seja incluída no seu harém. Flash ainda procura resistir, mas é subjugado e deixado inconsciente.

Dr. Hans Zarkov (Chain Topol), Dale Arden (Melody Anderson) e Flash Gordon (Sam J. Jones)
Flash, Dale e Zarkov num tête-à-tête com Ming (em baixo, ladeado por Klytus, chefe da sua polícia secreta).
Max von Sydow no papel do Imperador Ming
Intuindo a ameaça que Flash Gordon poderá representar para o seu poderio, Ming ordena a sua execução e a reprogramação mental de Zarkov, cujo brilhante intelecto pretende colocar ao seu serviço.
Transportado para uma câmara subterrânea, Flash Gordon recebe uma injeção letal. No entanto, seduzido pela Princesa Aura ( filha de Ming), o médico responsável pela execução aplica-lhe um antídoto que reverte o processo.
Durante a fuga que se segue, Flash vê Zarkov a ser lobotomizado por Klytus, o tenebroso chefe da polícia secreta de Ming. Sem tempo para acudir ao amigo, Flash parte com Aura para Arbória, reino governado pelo Príncipe Barin, o amante secreto da princesa.
A meio da viagem a bordo de uma nave roubada, Aura, rendida aos encantos de Flash, ensina-o a usar um comunicador telepático para contactar Dale. A jovem rejubila ao saber que Flash está afinal vivo e, encorajada por ele, consegue escapulir-se para fora dos aposentos de Ming após drogar uma das suas aias.
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Flash recebe a inesperada ajuda da filha de Ming.
Dado o alerta, Klytus envia Zarkov para intercetar Dale, ignorando que o cientista resistira à reprogramação mental a que fora submetido. Dale informa Zarkov que Flash está vivo e, juntos, escapam de Mingo City, a capital de Mongo. A sua fuga é, contudo, interrompida pelos Homens-Falcão do Príncipe Vultan, sendo levados para Sky City, a cidade flutuante que serve de lar ao povo alado.
Flash e Aura chegam, entretanto, a Arbória. Acedendo ao pedido da amante, o Príncipe Barin oferece guarida a Flash, prometendo mantê-lo são e salvo.
No entanto, tão logo Aura abandona Arbória, Barin, consumido pelo ciúme, impele Flash a participar num antigo ritual de iniciação. Consistindo este em enfiar a mão através dos buracos abertos no tronco oco de uma árvore, dentro do qual repousa um escorpião cujo veneno causa uma morte lenta e agonizante precedida de loucura.
Depois de Flash ter conseguido escapar à picada letal, Barin força-o a nova tentativa. Numa manobra de distração, Flash finge ter sido picado pelo escorpião e coloca-se em fuga. Com Barin no seu encalço, são ambos capturados pelos Homens-Falcão.
No palácio imperial, Klytus informa Ming de que Flash Gordon está vivo e este concede-lhe plena autoridade para descobrir o responsável. Acabada de regressar a Mongo, a Princesa Aura é presa e sujeita às sádicas sevícias de Kala e Klytus, os torcionários de Ming.
Extorquida a confissão de Aura, Ming condena a filha ao degredo na lua gelada de Frigia. Mas apenas depois de o seu enlace com Dale Arden ter sido consumado.
Em Sky City, Flash e Barin são obrigados a travar um duelo mortal para diversão de Vultan e horror de Dale e Zarkov. Apesar de levar a melhor sobre o seu adversário, Flash poupa a vida de Barin, que assim se torna seu aliado.

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Flash e Barin num duelo mortal.
Klytus e os seus sequazes chegam a Sky City, mas são mortos por Barin e Flash. Temendo as previsíveis represálias por parte de Ming, o Príncipe Vultan ordena a evacuação da cidade, deixando o quarteto de forasteiros entregue à sua sorte.
Ming desembarca em Sky City e, impressionado com as façanhas de Flash Gordon, oferece-lhe a regência de um território de Mongo em troca da sua lealdade. Perante a firme recusa do seu interlocutor, Ming ordena a prisão de Barin, Dale e Zarkov e a destruição do reino dos Homens-Falcão.
Deixado para morrer, Flash encontra um jet ski voador e consegue escapar à iminente destruição de Sky City. Enquanto cruza os céus de Mongo, o herói entra em contacto com Vultan, refugiado com o seu povo em Arbória, e convence-o a participar numa ofensiva contra Mingo City.
Montado no seu jet ski voador, Flash finge atacar sozinho a capital de Mongo. Ato contínuo, Kala envia Ajax, um imponente foguetão de guerra, para intercetá-lo. A nave é emboscada pelos Homens-Falcão e Flash assume os comandos, investindo com ela sobre Mingo City. Quase em simultâneo, a Princesa Aura liberta Barin e Zarkov da masmorra onde se encontravam confinados.
Sam J. Jones como Flash Gordon
Flash lidera o ataque dos Homens-Falcão a Mingo City.
Ao mesmo tempo que a sumptuosa cerimónia de casamento de Ming e Dale Arden tem início e Flash se aproxima de Mingo City, Kala ativa um campo de força para rechaçar o ataque. Vultan informa Flash que o campo de força só poderá ser atravessado numa manobra suicida. Sem hesitar, Flash voluntaria-se para pilotar o Ajax, abrindo caminho para a invasão dos Homens-Falcão.
Numa tentativa desesperada para evitar o sacrifício de Flash, Barin e Zarkov invadem a sala de comando a partir da qual é ativado o campo de força. Kala recusa-se a desativá-lo e é morta por Barin.
Sem saberem como desativar os escudos, Barin pede a Zarkov que continue a tentar fazê-lo enquanto ele se dirige ao Setor Alfa 9. É lá que se encontram os geradores atómicos que alimentam o campo de força, o qual Barin consegue desligar segundos ante da colisão fatal.
Flash aponta Ajax para o salão do palácio imperial onde decorre o casamento, e Ming é empalado pela antena pontiaguda que adorna a proa da nave.
Gravemente ferido, Ming recusa a oferta de Flash de lhe poupar a vida se ele deixar a Terra em paz. Em resposta, Ming usa o seu anel energético para tentar matar Flash. Mas o aparato claudica e nada acontece. Ming aponta então o anel sobre si próprio, sendo aparentemente vaporizado segundos antes de terminar a contagem decrescente para a destruição do nosso mundo.
Com Mongo libertado do jugo imposto por Ming, Aura e Barin são aclamados como os novos governantes e Vultan é nomeado comandante supremo do Exército Imperial.
Zarkov confidencia a Flash e Dale que não sabe como irão regressar a casa. Barin convida-os a ficarem mas Dale anseia por voltar ao bulício de Nova Iorque.
A cena final mostra o anel de Ming a ser apanhado do chão ensanguentado por uma mão enluvada. Os créditos começam a rolar no ecrã ao som da ferina gargalhada do vilão até surgir a palavra "Fim" antes de lhe ser acrescentado um ponto de interrogação.

Trailer 




Prémios e nomeações: Apesar das várias indicações para prémios de grande prestígio, designadamente os BAFTA e os Saturn Awards (respetivamente, nas categorias de melhor banda sonora e melhor filme de ficção científica), Flash Gordon não logrou arrecadar nenhum deles. A título individual, porém, Max Von Sydow teve o seu currículo abrilhantado com um Marshall Trophy para melhor ator secundário. Em sentido inverso, Sam Jones foi nomeado para o Razzie Award de pior ator e dividiria com Melody Anderson o Stinker Award para pior casal protagonista.

Curiosidades

*Alex Raymond criou Flash Gordon em 1934 para competir diretamente com Buck Rogers, aventureiro espacial de matriz literária surgido meia dúzia de anos antes. As tiras de Flash Gordon depressa ofuscaram as do rival, sendo adaptado ao cinema pouco tempo depois. Entre 1936 e 1940, o herói protagonizou três séries no grande ecrã (Flash Gordon, Flash Gordon Trips to Mars e Flash Gordon Conquers de Universe) estreladas pelo ex-nadador olímpico Buster Crabbe. Ironicamente, Crabbe interpretaria também Buck Rogers numa produção similar;
*Originalmente um jogador de polo, na sua longa-metragem Flash Gordon é apresentado como um astro do futebol americano por ser esse um desporto muito mais popular em terras do Tio Sam;

FLASH GORDON - 70 ANOS DE GIBIS -  :: Breve Histórico sobre GIBIS - Década de 1940 - Belíssimo desenho de Alex Raymond, seu criador.

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Flash Gordon pelo traço do seu criador (cima)
 e interpretado por Buster Crabbe.
*Envergar os sumptuosos paramentos de Ming requeria apreciável esforço físico da parte de Max Von Sydow, já que o peso dos mesmos ultrapassava os 30 quilos. Devido ao desconforto que daí advinha, o ator conseguia apenas manter-se de pé durante breves minutos;
*Ming destrói planetas em tributo ao grande deus Daizan, palavra japonesa para "crueldade extrema";
*A T-shirt branca com o logótipo "Flash" estampado no peito foi ofertada por uma fã anónima. Sam Jones fez questão de usá-la em diversas cenas, na expectativa de poder vir a conhecer a misteriosa mulher cuja identidade nunca foi, porém, revelada;
*O apalpão de Vultan a Dale Arden foi um improviso de Brian Blessed, sendo portanto genuína a reação surpreendida de Melody Anderson ao atrevimento do colega com quem contracenava;
*Antes de ceder a cadeira de realizador a Mike Hodges, Nicolas Roeg escolhera Debbie Harry (à época, vocalista da banda new wave Blondie) para o papel de Dale Arden. Ming, por seu turno, teria sido interpretado por Keith Carradine, o meio-irmão do lendário David Carradine, da não menos lendária série televisiva Kung Fu;
*O símbolo de Ming inclui um esquadro e um compasso estilizados, elementos tradicionalmente conotados com a Maçonaria. O tirano de Mongo faz também a saudação maçónica em dois momentos distintos da película;
*Os efeitos psicadélicos nos céus de Mongo foram obtidos com recurso à mistura de tintas multicoloridas em tanques cheios de água e criativamente iluminados;
*Nas tiras originais, Kala (no filme, uma general do Exército Imperial de Ming) era a soberana dos Homens-Tubarões de um reino submarino de Mongo. Inexistente no cânone (e também nas séries clássicas que o filme homenageia), Klytus foi uma inovação cinematográfica. No primeiro rascunho do enredo, ambas as personagens possuiriam poderes psíquicos e estava igualmente prevista a participação de Thun, o Homem-Leão que, na BD, é um fiel aliado de Flash Gordon. Apesar de omisso na película, Thun figurava em alguns dos cartazes promocionais distribuídos nos cinemas de vários países meses antes da estreia oficial de Flash Gordon;

Thun, o Homem-Leão figurava num
 dos cartazes promocionais de Flash Gordon.
*Artista das histórias de Flash Gordon na segunda metade da década de 1960, coube a Al Williamson ilustrar a adaptação oficial do filme aos quadradinhos. Williamson nunca disfarçou contudo o seu desagrado quer em relação a esta releitura do herói quer em relação à escolha do ator para representá-lo. Publicado originalmente pela Whitman em 1981, esse volume especial seria lançado no ano seguinte em Portugal pela TV Guia;

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Em Portugal, a adaptação oficial do filme
 foi lançada em 1982 pela TV Guia.
*A par do Reino Unido, Itália foi outro dos países onde Flash Gordon foi bem-sucedido nas bilheteiras. Facto que ficou a dever-se, essencialmente, à participação de duas beldades autóctones: Ornella Muti (Princesa Aura) e Mariangela Melato (Kala);
*Cunhado em 1941 por Wilson Tucker, o termo "space opera" (ópera espacial) não possui qualquer relação com música. Define, sim, um subgénero da ficção científica que enfatiza a aventura melodramática, as batalhas interplanetárias e o romance cavalheiresco ambientados principalmente no espaço sideral. O termo é também um trocadilho com "soap opera", nome dado aos folhetins radiofónicos dos anos 30 e 40 vulgarmente patrocinados por fabricantes de sabão;

Veredito: 63% 

Flash Gordon é um daqueles estranhos exemplares cinematográficos que tem de ser visto com o espírito certo para ser devidamente compreendido e apreciado. Aos olhos de um espectador desconhecedor das tiras originais ou das séries clássicas do herói, o filme, pelo seu envoltório espampanante, surgirá como um hino ao mau gosto. Isto porque toda a estética que, na década de 1930, Alex Raymond considerava avançada foi conservada em cada detalhe da película.
Trocando por miúdos, a ideia era recriar toda a atmosfera das histórias clássicas, com figurinos carnavalescos, cores berrantes e um ingénuo maniqueísmo. Elementos que reforçam o apelo nostálgico do filme, cujo valor intrínseco varia, obviamente, consoante o lugar que ocupa na memória afetiva de cada um. Sendo, naturalmente, mais suscetível de agradar aos fãs da velha guarda do que aos mais jovens. Mas mesmo estes ficarão, por certo, rendidos à sensacional banda sonora dos Queen.
Depois de Superman, the Movie, Flash Gordon foi o segundo filme de super-heróis que vi quando era ainda pessoa de palmo e meio. Mesmo após tantos anos, continua a ser, para mim, sinónimo de pura diversão e uma das mais bem conseguidas adaptações de BD.