22 julho 2019

HERÓIS EM AÇÃO: QUARTETO FANTÁSTICO


  Mesmo nos seus momentos menos felizes, a Primeira Família de Heróis - tão falha e disfuncional como qualquer outra - provou que o todo é maior do que a soma das partes. Argonautas do impossível sedentos de novas aventuras, enfrentam futuro incerto dentro e fora dos quadradinhos.

Denominação original: Fantastic Four
Editora: Marvel Comics
Criadores: Stan Lee e Jack Kirby
Estreia: The Fantastic Four nº1 (novembro de 1961)
Membros fundadores: Senhor Fantástico (Mister Fantastic), Mulher Invisível (Invisible Woman),  O Coisa (The Thing) e Tocha Humana (Human Torch)
Local de fundação: Central City, Califórnia
Outros membros: Cristalys, Medusa, Mulher-Hulk, Nova, Mulher-Coisa, Franklin Richards, Valeria Richards, Pantera Negra e Tempestade
Base operacional: Nas suas primeiras histórias, o Quarteto Fantástico operava a partir de Central City (cidade natal de Reed Richards e local de formação do grupo), mas depressa se instalaria em Nova Iorque. Na Grande Maçã ocupou vários quartéis-generais, o mais notável dos quais foi o Edifício Baxter, um arranha-céus de 35 andares situado no coração de Manhattan. Quando este foi destruído pelo filho adotivo de Victor Von Doom (o infame Doutor Destino), o grupo ficou temporariamente alojado na Mansão dos Vingadores antes de se transferir para o imponente e ultrasofisticado Four Freedoms Plaza (assim batizado em alusão a um célebre discurso ao Congresso pronunciado pelo Presidente Franklin D. Roosevelt nas vésperas da entrada dos EUA na II Guerra Mundial). Após a destruição do Four Freedoms Plaza em consequência de um devastador ataque dos Thunderbolts, o Quarteto Fantástico usou o Cais 4 - um discreto armazém no porto de Nova Iorque - como sede provisória. Quando o Cais 4 sofreu destino idêntico ao dos seus antecessores, o grupo foi presenteado com uma nova e melhorada versão do Edifício Baxter, cortesia de Noah Baxter, antigo professor de Reed Richards. Construído em órbita, o novo Edifício Baxter foi depois teletransportado para o exato local onde outrora se erguia o original.
Némesis: Doutor Destino 


O Edifício Baxter original (cima) e o Four Freedoms Plaza
 foram as duas primeiras moradas da Família Fundamental.

Primeiros inquilinos da Casa das Ideias

A história, com matizes lendárias mas nunca desmentida pelos saudosos intervenientes, reza assim: num belo dia de 1961, Martin Goodman (editor-chefe da Marvel) e Jack Liebowitz (seu homólogo da DC) disputavam uma das suas costumeiras partidas de golfe. Num intervalo entre tacadas, o segundo ter-se-á gabado do sucesso da Liga da Justiça da América. Para delírio dos fãs, aquela que era a nova coqueluche da Editora das Lendas reunia numa mesma revista alguns dos maiores astros da companhia.
A bazófia do rival terá desencadeado em Goodman um momento eureca. De volta aos escritórios da Marvel, exortou Stan Lee, editor do departamento super-heroico, a criar uma equipa de justiceiros fantasiados  para competir diretamente com a Liga da Justiça.
Ao princípio, Stan Lee não ficou propriamente empolgado com a ideia. Tanto mais que estava de malas aviadas. Por considerar que a indústria dos quadradinhos se encontrava estagnada - muito por culpa das restrições moralistas impostas pela Comic Code Authority -  Lee planeava abandoná-la tão logo expirasse o contrato que o vinculava à Marvel.
Convicto de que aquela seria a última história de super-heróis que escreveria na vida, Stan Lee encheu-se de brios para fechar com chave de ouro a sua já longa carreira nos quadradinhos, iniciada nos alvores da Idade de Ouro ao serviço da Timely Comics.
O destino tinha, no entanto, outros planos para Stan Lee. Sem que este o soubesse, aquele seria um momento crucial no percurso que faria dele uma lenda viva dos quadradinhos.  Nos dias seguintes, Lee não deu descanso à pena:«No que deveria ter sido a minha despedida, resolvi escrever uma história que eu próprio gostasse de ler. Uma história com personagens falíveis, ídolos com pés de barro com os quais a maioria de nós simpatizaria.»
Lee terá fornecido então uma sinopse a Jack Kirby, a quem coube desenhar a história. À arte de Kirby, Lee acrescentou depois as legendas e os diálogos. Um processo criativo a que foi dado o nome de Método Marvel, e que faria escola dentro e fora da Casa das Ideias.
Quando confrontado com esta versão dos acontecimentos, numa entrevista de 1990, Jack Kirby reagiu assim: «Não passa de uma mentira descarada! Fui eu quem apresentou a Martin Goodman a ideia para o Quarteto Fantástico. Lee limitou-se a adicionar os diálogos à história que eu havia desenhado." 
Kirby também reafirmou em diferentes ocasiões que tinha sido ele a conceptualizar os elementos visuais da história. Apontando, à laia de prova, as semelhanças com os Desafiadores do Desconhecido (Challengers of the Unknown), grupo de aventureiros científicos que havia criado para a DC em 1957.
«Se atentarem nos uniformes do Quarteto Fantástico, - explicou Kirby -  perceberão que são similares aos dos Desafiadores do Desconhecido. Sempre tive preferência por uniformes práticos e com cinto. Uns e outros seguem esse padrão. E, no caso do Quarteto, o Coisa serviu para quebrar a monotonia do azul."
Apesar dos relatos divergentes, é opinião unânime entre vários dos seus contemporâneos que Stan Lee e Jack Kirby partilham a "paternidade" da Primeira Família de Heróis.

Jack Kirby (esq.) e Stan Lee recordavam de forma diferente
 a criação da primeira super-equipa da Marvel.
Em baixo, os Desafiadores do Desconhecido pelo traço do Rei.
Já no que tange à criação da insígnia peitoral que adorna os uniformes do Quarteto (um 4 estilizado dentro de um círculo), não restam dúvidas de que foi Stan Lee o autor da ideia. No entanto, a equipa atuou à paisana nas suas duas primeiras histórias. Foi essa a forma encontrada para prevenir um eventual atrito com a DC que, além de concorrente direta, era também a proprietária da distribuidora que fazia chegar às bancas as revistas da Marvel.
Em novembro de 1961, o Quarteto Fantástico fez a sua estreia em The Fantastic Four nº1 (o "The" cairia no número 16) e o seu estrepitoso sucesso surpreendeu até os próprios autores. Ao ponto de fazer Stan Lee reconsiderar a sua decisão de abandonar a Marvel e, por extensão, a indústria dos comic books.
Antes de salvar o mundo, o Quarteto Fantástico salvou, portanto, a carreira de Stan Lee. Que retribuiu com um fortíssimo investimento emocional, escrevendo algumas das melhores histórias do grupo, sempre sublimadas pelo magnífico traço de Jack Kirby.
Numa época em que a palavra de ordem era "inovar", o realismo da caracterização dos membros do Quarteto Fantástico foi uma das coordenadas do sucesso. Apesar da constante tensão entre eles, dificultando o trabalho em equipa, sabiam sempre transformar as fraquezas individuais na força do coletivo.
Outro aspeto diferenciador do Quarteto Fantástico era a ausência de identidades secretas. Em vez do anonimato cultivado pela maioria dos super-heróis, os seus membros gozavam do estatuto de celebridades. A mesma multidão que, não raro, suspeitava dos vigilantes mascarados, idolatrava sem reservas Reed Richards e companhia.
Era, todavia, na sua dinâmica familiar que residia o principal atrativo do Quarteto Fantástico. Uma mistura volátil de emoções e personalidades contrastantes, nem sempre eram a mais funcional das famílias mas tinham sempre presente que, perante as provações, a união faz a força. Constituindo, desse modo, uma metáfora perfeita para o turbulento relacionamento entre Stan Lee e Jack Kirby, o alfa e o ómega da Casa das Ideias.
A mesma Casa das Ideais que teve no Quarteto Fantástico os seus primeiro inquilinos. Mas que, hoje, parece não ter espaço para eles. Depois do inusitado cancelamento da sua série mensal em 2015, a Primeira Família de Heróis regressou ao ativo no ano passado, mais na qualidade de hóspedes VIP do que de anfitriões de uma casa devoluta de imaginação mas sobrelotada de causas identitárias.

A estreia da Primeira Família de Heróis em Fantastic Four nº1 (1962).

Argonautas do impossível

Um dos maiores vultos mundiais da engenharia aeroespacial, Reed Richards inventou a primeira espaçonave capaz de viajar até aos confins do nosso Sistema Solar. Esta foi, no entanto, uma pequena alteração ao rascunho inicial da história que apresentava a origem do Quarteto Fantástico. Num primeiro momento, Stan Lee definira Marte como destino da abortada missão espacial que levaria à formação daquela que seria a primeira super-equipa da Marvel.
Dado o considerável avanço que, por aqueles dias, os soviéticos levavam sobre os americanos na corrida espacial, Lee considerou prudente ser mais abrangente na sua descrição. Não fosse dar-se o caso de, aquando da publicação da história, uma bandeira da URSS ter já sido plantada na superfície do Planeta Vermelho.
Quando, em vésperas da data lançamento do foguetão de Richards, o Governo americano anunciou a sua intenção de cortar o financiamento do projeto, o jovem cientista ficou desesperado face à perspetiva de todo o seu trabalho ter sido em vão.
Recusando-se a atirar a toalha ao chão, Reed convenceu então a sua namorada (Susan Storm), o irmão dela (Johnny Storm) e um seu amigo dos tempos da faculdade (Ben Grimm) a acompanhá-lo num voo orbital não-autorizado. Cabendo a Ben, um experiente ex-piloto de testes, assumir os comandos da nave.
A coberto da noite, e antes que os jatos da Força Aérea pudessem intercetá-lo, o foguetão descolou rumo às estrelas com os quatro astronautas improvisados a bordo. Logo depois de ter saído da atmosfera terrestre, a nave foi engolida por uma tempestade subespacial e exposta a um intenso bombardeamento de radiação cósmica.
Assustada e desorientada, a tripulação comandada por Reed não teve outra opção senão abortar a missão e regressar, a muito custo, à Terra. Apesar de a nave se ter despenhado numa zona florestal, os seus ocupantes saíram aparentemente ilesos. Depressa descobriram, porém, terem sofrido mutações induzidas pelos raios cósmicos, que os dotaram de incríveis poderes.
Reed Richards conseguia agora esticar o seu corpo e membros como se de um elástico humano se tratasse; Susan Storm conseguia ficar invisível; Johnny Storm incendiava-se e conseguia voar; Ben Grimm, o menos afortunado do grupo, teve o seu corpo recoberto por uma densa camada rochosa e era senhor de uma força descomunal.
Note-se como os poderes de cada membro do Quarteto Fantástico correspondem aos quatro elementos primordiais estabelecidos pela Filosofia grega clássica: Terra (Coisa), Ar (Mulher Invisível), Fogo (Tocha Humana) e Água (Senhor Fantástico).

Terra, Ar, Fogo e Água.
Os 4 elementos primordiais estão representados no Quarteto Fantástico.
Apesar de ter decidido usar as suas habilidades em prol da Humanidade, o Quarteto Fantástico sempre se considerou mais uma família de cientistas e exploradores do que uma equipa de super-heróis. Foi Reed quem, por exemplo, descobriu a Zona Negativa, uma dimensão paralela composta por antimatéria, mas com uma atmosfera respirável que permite ao grupo visitá-la com regularidade.
Em todo o caso, o financiamento das atividades do Quarteto advém das inúmeras patentes registadas por Reed ao longo dos anos. Uma das mais lucrativas diz respeito às moléculas instáveis, usadas na confeção dos uniformes usados pelo grupo devido à sua capacidade de adaptação aos poderes de cada membro. É graças a elas que, por exemplo, o traje do Tocha Humana não arde sempre que ele se incendeia.
Para estes argonautas do impossível, habituados a viverem epopeias que desafiam os limites da imaginação e a contemplar as maiores maravilhas e horrores que o Universo tem para oferecer, viagens extradimensionais ou encontros com entidades cósmicas de incomensurável poder são apenas mais um dia no escritório.

Família alargada

À imagem e semelhança de qualquer outra família, o Quarteto Fantástico sofreu diversas reconfigurações no decurso dos anos. Em qualquer uma das suas formações, o grupo provou no entanto que o todo consegue ser maior do que a soma das partes, e soube sempre dar resposta coesa aos desafios que lhe foram sendo apresentados.
O seu núcleo duro é composto por quatro personalidades tão distintas entre si como as quatro estações do ano o costumavam ser antes de as alterações climáticas as baralharem. Fiquemos agora a conhecê-las um pouco melhor, assim como alguns apontamentos curiosos sobre cada um dos Quatro Fantásticos:

*Senhor Fantástico: Génio científico, Reed Richards representa a figura paterna do grupo, com perfil condizente: pragmático, autoritário e, não raro, enfadonho. Reed recrimina-se pelo fiasco da sua missão espacial e, particularmente, pela horrenda transformação do seu velho amigo Ben Grimm.
Capaz de esticar, deformar ou expandir o seu corpo em qualquer forma concebida pela sua imaginação, os seus poderes elásticos foram inspirados nos de Plastic Man (antiga propriedade da Quality Comics, agora detida pela DC). Apesar do seu Q.I. estratosférico, Reed tende a ser socialmente inábil e reprovou quatro vezes no seu exame de condução. Tem como passatempo preferido corrigir as teses de outros cientistas de elevada craveira, em especial as de Stephen Hawking.

Mister Fantastic (Reed Richards) by Ron Frenz #RonFrenz #MisterFantastic #ReedRichards #FantasticFour #FF #FutureFoundation #Avengers #Defenders #Illuminati
Reed Richards, o cérebro do grupo.

*Mulher Invisível: Única representante do belo sexo no conjunto, Susan Storm agrega os papéis tradicionalmente reservados às mulheres: esposa, mãe e amiga. Stan Lee concedeu-lhe o dom de manipular a luz para se tornar invisível porque não apreciava a ideia de ter um clone da Mulher-Maravilha a distribuir porrada. Preferindo, ao invés, criar uma contraparte feminina do Homem Invisível imaginado por H.G. Wells em 1897.
Nos anos 80 do século passado, durante a aclamada fase da autoria de John Byrne, Susan Storm ganharia a capacidade adicional de gerar campos de força invisíveis, usados tanto para efeitos defensivos como ofensivos. Pela mão do autor canadiano, Susan tornar-se-ia simultaneamente uma mulher independente e o membro mais poderoso da equipa.
Em harmonia com os costumes da época em que foi criada, Susan foi inicialmente retratada como modelo, mas um retcon conferiu-lhe um doutoramento numa área não especificada. Infeliz no seu casamento com Reed, viveu em tempos um tórrido affair com o Príncipe Submarino, do qual resultou o seu abandono temporário do grupo e consequente substituição pela Inumana Medusa.

Mulher Invisível
Susan Storm, a matriarca da Família Fundamental.
*Tocha Humana: Irmão mais novo de Susan Storm e benjamim do grupo, Johnny Storm foi agraciado com mimetismo pirocinético, ou seja, a capacidade de transformar o seu corpo em fogo. Em virtude disso, consegue voar e disparar rajadas incandescentes. A sua personalidade rebelde e impulsiva é em tudo semelhante à de um adolescente. Johnny ressente-se, por isso, de ser uma criança entre adultos, que nem sempre o levam a sério.Tem no Homem-Aranha um dos seus melhores amigos, apesar de a relação entre os dois ter começado com o pé esquerdo.
O seu nome e habilidades homenageiam o Tocha Humana da Idade de Ouro (prontuário disponível neste blogue), tendo mesmo Johnny chegado a adotar em tempos um uniforme idêntico ao do seu antecessor.
Uma vez que ao inflamar-se incinera todos os germes e bactérias presentes no seu corpo, Johnny não tem realmente necessidade de tomar banho ou escovar os dentes, ainda que não prescinda desses hábitos de higiene.

Human Torch of the Fantastic 4 (Marvel Comics) creating a 4 symbol in the sky
Johnny Storm, o eterno enfant terrible.

*O Coisa: Antigo colega de quarto dos tempos da faculdade e melhor amigo de Reed Richards, Ben Grimm não está ligado por qualquer grau de parentesco aos restantes membros do grupo. Representando, antes, uma espécie de tio por afinidade, daqueles que existem em quase todas as famílias.
Com uma personalidade decalcada da de Jack Kirby, Ben é temperamental e dono de um sentido de humor corrosivo. Apesar de amargurado pela impossibilidade de reverter a sua monstruosa aparência, o seu coração de manteiga faz dele o mais humano de todos os elementos que compõem a Família Fundamental, sendo por isso muito acarinhado pelos fãs.
À sua força descomunal (estima-se que conseguirá levantar, aproximadamente, 85 toneladas), o Coisa alia uma incrível resistência física e uma vontade inquebrantável. Judeu como Kirby, originalmente a sua aparência invocava a de um Golem - de acordo com o folclore hebraico, um gigante de pedra animado com recurso à magia. É também o alvo preferido das partidas do Tocha Humana, que se diverte com a sua crónica rabugice.

Ben Grimm, a alma e coração do Quarteto.
Da necessidade de substituir provisoriamente algum dos membros fundadores, resultou ao longo dos anos o recrutamento de vários integrantes temporários do Quarteto Fantástico. Foram os casos, por exemplo, da Inumana Cristalys (que ocupou a vaga da Mulher Invisível durante a primeira gravidez desta), de Medusa, ou ainda da Mulher-Hulk, que emprestou músculo à equipa durante o exílio autoimposto  do Coisa no final das primeiras Guerras Secretas.
No rescaldo da Guerra Civil (saga já aqui esmiuçada), também o Senhor Fantástico e a Mulher Invisível abandonaram o Quarteto, sendo respetivamente revezados pelo Pantera Negra e Tempestade.
Ainda que o grupo nunca tenha passado oficialmente a quinteto, em vários momentos da sua história contou, de facto, com cinco elementos. No rol de supletivos destacam-se, pela importância e duração das suas participações, Nova e Mulher-Coisa - ex-namoradas de Johnny Storm e Ben Grimm, respetivamente.
Houve ainda uma ocasião em que os quatro membros originais foram capturados por uma fugitiva Skrull, abrindo caminho a uma formação inédita composta por Hulk, Wolverine, Homem-Aranha e Motoqueiro Fantasma (Danny Ketch).


Em tempos, a Mulher-Hulk substituiu o Coisa.

Miscelânea

*O disforme regente de um império subterrâneo povoado por diferentes tipos de monstros, o Homem-Toupeira (Mole Man) foi o primeiro antagonista do Quarteto Fantástico, em Fantastic Four nº1;
*No âmbito de uma campanha promocional, em 1974 a Marvel lançou uma coleção de selos com as suas personagens mais emblemáticas. Distribuída em conjunto com as revistas mensais da editora, a coleção podia ser também adquirida por via postal. Cada um dos membros do Quarteto Fantástico teve direito a uma estampilha individual;


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O selo individual do Coisa na coleção lançada pela Marvel em 1974.
*Em 1980, John Byrne produziu uma edição especial de Fantastic Four para a Coca-Cola. A história seria, no entanto, vetada pelos executivos da empresa, que a consideraram demasiado violenta. Meses depois, a Marvel publicá-la-ia em Fantastic Four 220 e 221;
*Exercícios de metalinguagem e autorreferenciação eram frequentes nas histórias antigas do Quarteto Fantástico. No final dos anos 1960, por exemplo, o grupo vendeu os seus direitos de imagem à Marvel Comics, que os adaptou aos quadradinhos. Noutra ocasião, Stan Lee e Jack Kirby surgiram como coadjuvantes interagindo diretamente com as suas criações;
*Entre Reed Richards e Susan Storm existe uma considerável diferença de idades. Consoante a fonte consultada, a mesma varia entre os dez e os vinte anos. Ironicamente, na última aventura cinematográfica da Primeira Família de Heróis (vide texto seguinte), Kate Mara - atriz que sucedeu a Rebecca Staab e Jessica Alba no papel de Mulher Invisível - era quatro anos mais velha do que Milles Teller, a quem coube interpretar o Senhor Fantástico;
*Todos os membros do Quarteto Fantástico já passaram, em algum momento, pelas fileiras dos Vingadores, bem como de outros contingentes heroicos;
*Nos primórdios da sua carreira heroica, o Homem-Aranha procurou ingressar no Quarteto Fantástico, desistindo desse intento ao ser informado que não seria remunerado. As suas recorrentes colaborações com o grupo fariam porém dele uma espécie de quinto elemento oficioso. Em 2011, após a aparente morte do Tocha Humana, o Escalador de Paredes, acedendo ao último pedido do amigo, juntou-se à Fundação Futuro, organização filantrópica herdeira direta do Quarteto;
*No Brasil, a Primeira Família de Heróis debutou em 1969, na revista do Demolidor publicada pela EBAL. No ano seguinte ganharia título próprio, dando sequência às histórias iniciadas na série do Homem Sem Medo. Seguiu-se uma breve passagem pela GEA antes do regresso da equipa à EBAL, em finais de 1973. Durante essa fase, as histórias do Quarteto foram insertas na revista do Homem-Aranha. Na viragem da década de 1980, o grupo seria sucessivamente relançado em título próprio pela Bloch e RGE. Em 1983, foi a vez de a Abril adquirir os direitos do Quarteto Fantástico, os quais conservaria até 2000. Atualmente, é a Panini a sua detentora em Terras Tupiniquins. Já na pequena paróquia atlântica povoada pelos descendentes de Viriato, o grupo estreou-se em 1972, sob os auspícios da Palirex, na Série Fantástica. Nesse mesmo ano teria direito a título próprio: Os 4 Fantásticos  (nomenclatura que seria mantida pela Agência Portuguesa de Revistas até meados da década seguinte);

A série quinzenal a preto branco dos 4 Fantásticos editada pela Palirex.

Noutros media

Com forte penetração no segmento audiovisual refletindo a sua popularidade na banda desenhada, o Quarteto Fantástico protagonizou, até ao momento, quatro séries animadas e outros tantos filmes em ação real.
A transição do grupo para o pequeno ecrã verificou-se em 1967, ano em que o canal ABC exibiu Fantastic Four, produzida pela Hanna-Barbera e com desenhos de Alex Toth. Mais de uma década volvida, em 1978, a Primeira Família de Heróis regressaria à TV, desfalcada porém de um dos seus membros. Nessa segunda série animada saída dos estúdios DePatie-Freleng, o robô H.E.R.B.I.E. fez as vezes do Tocha Humana, cujos direitos haviam sido vendidos pela Marvel para um filme a solo nunca produzido.
Com introduções de Stan Lee e inserida no bloco The Marvel Action Hour, a terceira série animada do Quarteto Fantástico, outra vez titulada simplesmente Fantastic Four, manteve-se no ar entre 1994 e 1996. A reboque do filme lançado no ano anterior, em 2006 a última incursão do grupo no campo da animação - Fantastic Four: World's Greatest Heroes - teve a chancela da Moonscoop.

The 1967 series
A primeira série animada do Quarteto foi produzida pela Hanna-Barbera em 1967.
Oficialmente, a estreia cinematográfica do Quarteto Fantástico ocorreu em 2005, com o lançamento da longa-metragem epónima dirigida por Tim Story e com Ioan Gruffudd, Jessica Alba, Chris Evans e Michael Chiklis a interpretarem, respetivamente, Senhor Fantástico, Mulher Invisível, Tocha Humana e O Coisa. Apesar da reação morna da crítica e dos fãs, o filme daria, dois anos depois, origem à sequela Fantastic Four: Rise of the Silver Surfer.
Estas duas adaptações oficiais do grupo ao grande ecrã foram, todavia, precedidas de uma longa-metragem apócrifa produzida em 1994. Dirigida por Roger Corman, cineasta especializado em filmes de baixo orçamento, Fantastic Four nunca chegaria às salas de cinema ou sequer seria distribuído no circuito vídeo, na medida em que serviu exclusivamente para que a Constantin Films conservasse os direitos das personagens, adquiridos à Marvel Comics em meados da década anterior.
Em resposta ao débil desempenho comercial de Fantastic Four: Rise of the Silver Surfer, em 2015 foi lançado um reboot da franquia. Com realização a cargo de Josh Trank, Fant4stic contou com Milles Teller, Kate Mara, Michael B. Jordan e Jamie Bell nos principais papéis, sendo baseado na versão Ultimate do grupo. Desmantelado pela crítica, o filme soçobrou nas bilheteiras e é considerado por muitos fãs um dos piores dentro do género super-heroico.

Os filmes do Quarteto Fantástico ainda não convenceram os fãs.
Na sequência da aquisição da 21st Century Fox (detentora dos direitos cinematográficos do Quarteto Fantástico) pela Disney (proprietária dos Estúdios Marvel), em março deste ano, é expectável que, a exemplo do que já sucedeu com o Homem-Aranha, a Primeira Família de Heróis venha, num futuro próximo, a ser integrada no MCU.
Além dos filmes, séries animadas e jogos de vídeo, o Quarteto Fantástico deu também origem, em 1975, a um folhetim radiofónico. Apesar da sua curta duração, o projeto - que revisitava as histórias iniciais do grupo em episódios de 5 minutos - contava com a narração do próprio Stan Lee e ajudou a celebrizar o então desconhecido Bill Murray, ator escolhido para emprestar voz ao Tocha Humana.

The Fantastic Four returns to monthly comics in August, 2018.
Estará a Família Fundamental a caminho do MCU?
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01 julho 2019

CLÁSSICOS DA 9ªARTE: «PARA O HOMEM QUE TEM TUDO»




  No dia do seu aniversário, o Último Filho de Krypton recebe um presente envenenado de um velho inimigo. Preso num transe fatal, Kal-El vive aquele que é o seu mais íntimo desejo. Apenas para descobrir que a fantasia pode ser ainda mais cruel do que a realidade.

Título original: For the Man Who Has Everything...
Editora: Detective Comics (DC)
País: EUA
Autores: Alan Moore (argumento) e Dave Gibbons (arte)
Publicado em: Superman Annual Vol.1 nº11 (agosto de 1985)*
Protagonistas: Super-Homem / Kal-El
Coadjuvantes: Batman, Robin (Jason Todd), Mulher-Maravilha, Mongul, Jor-El, Lyra Ler-Rol, Allura In-Ze, Kara Zor-El, Van-El e Orna Kal-El
Cenários: Fortaleza da Solidão e Krypton (na fantasia do Super-Homem)

*Sucessivamente reeditada ao longo dos anos, em 2006 a história foi selecionada para integrar o volume antológico DC Universe: The Stories of Alan Moore, que compilava alguns dos melhores trabalhos do escritor britânico ao serviço da Editora das Lendas.

Edições em Português 

Sob o título "O Homem que Tinha Tudo", a história foi pela primeira vez apresentada ao público lusófono em maio de 1991, nas páginas de Super Powers nº21, cuja capa era um fac-símile da original. Ainda por terras de Vera Cruz, desde o início deste século vem sendo sucessivamente republicada sob a chancela de diferentes editoras.
A primeira a fazê-lo, logo em 2002, foi a Opera Graphica, numa controversa edição em formato americano mas a preto e branco. Seguiu-se a Panini Comics que, entre 2006 e 2013, a incluiu em três antologias, entre as quais DC 75 anos, coleção lançada no âmbito das comemorações das bodas de diamante da Editora das Lendas e que reunia algumas das suas histórias mais emblemáticas. Por fim, em 2018, a história foi inserta no 63º volume da Coleção DC Comics Graphic Novels, da Eaglemoss.


A edição original (cima) e a controversa republicação
 a preto branco da brasileira Opera Graphica.

Irreverência britânica

Coincidindo com o aumento de popularidade dos super-heróis em terras de Sua Majestade, desde a viragem da década de 1980 que Alan Moore era uma estrela em ascensão na indústria de quadradinhos britânica. Tanto a divisão local da Marvel Comics como a Quality Communications e a Fleetway requisitavam regularmente os seus serviços de argumentista para alguns dos seus principais títulos. Para esta última, por exemplo, Moore escreveu durante essa fase mais de meia centena de histórias publicadas em 2000 A.D., magazine de ficção científica no qual, em 1977, o Juiz Dredd fizera a sua estreia.
Em várias dessas ocasiões, as tramas de Moore haviam sido ilustradas pelo seu compatriota David Gibbons. Ambos faziam uma avaliação deveras positiva dessas colaborações, mas o talento de Gibbons foi o primeiro a chamar a atenção do outro lado do Atlântico. Logo em 1982, a DC Comics, na pessoa de Len Wein (à data, editor e argumentista de Green Lantern) contratou-o para desenhar a série mensal do Gladiador Esmeralda.
No ano seguinte, seria a vez de Moore, novamente por intermédio de Len Wein, ser cooptado para assumir os argumentos de Swamp Thing, cujas vendas vinham afundando a pique. Recebendo carta de alforria para levar a cabo as alterações que julgasse necessárias para reverter a situação, Moore não só fez disparar as vendas da série do Monstro do Pântano como, a par de artistas como Rick Veitch, reinventou a personagem, introduzindo temáticas inéditas nas suas tramas. Ao abordar, de forma experimental, questões sociais e ecológicas, Swamp Thing depressa concitou a atenção do público e da crítica, transformando o que parecia ser um caso perdido na nova coqueluche da Editora das Lendas.
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Alan Moore (esq.) e Dave Gibbons celebrando
 o lançamento de Watchmen,a obra que os imortalizou na história da Nona Arte.
Mesmo durante a fase em que assinava as histórias do Monstro do Pântano, Moore submeteu aos seus editores diversas propostas envolvendo personagens como o Caçador de Marte (consta que seria ele o protagonista original de For the Man Who Has Everything...) e os Desafiadores do Desconhecido (conceito desenvolvido por Jack Kirby após a sua zanga com a Marvel). Propostas essas que, invariavelmente, acabaram rejeitadas dada a circunstância de outros escritores estarem já a desenvolver projetos com as personagens cobiçadas por Moore.
Quando, no início de 1985, o Editor-Executivo e Vice-Presidente da DC, Dick Giordano, aprovou por fim o projeto que viria a ser consubstanciado na ovacionada minissérie Watchmen, Moore e Gibbons (autores da ideia) começaram de pronto a trabalhar na planificação das histórias.
Pouco depois, Julius Schwartz, o então todo-poderoso editor dos títulos do Homem de Aço, sondou Gibbons sobre a sua disponibilidade para desenhar uma história do herói. Gibbons declarou-se disponível, mas quis saber qual o escritor com quem iria trabalhar. Quando Schwartz lhe disse que poderia escolher o seu parceiro criativo, Gibbons imediatamente sugeriu Alan Moore.
Sem delongas, a Dupla Dinâmica da Velha Albion deitou mãos à obra e For the Man Who Has Everything... começou a ganhar forma. Levando em consideração duas importantes mudanças ocorridas na continuidade então estabelecida: 1) Em agosto de 1979, mais de duas décadas após a sua inclusão na mitologia do Super-Homem, Kandor - cidade kryptoniana miniaturizada por Brainiac antes da implosão do planeta- havia finalmente revertido ao tamanho normal, em Superman nº338; 2) Em março de 1983, Jason Todd, um órfão com passado de delinquência juvenil, sucedera a Dick Grayson como Robin, sendo agora ele quem acolitava o Cavaleiro das Trevas.
De referir ainda que os sucessivos êxitos de Moore e Gibbons impeliram a DC a contratar outros escribas britânicos para produzirem histórias de apelo similar. Grant Morrison, Neil Gaiman e Peter Milligan fizeram parte dessa armada britânica que, nos anos imediatos, aportaria na ex-colónia para revolucionar a forma de escrever banda desenhada. E que, no início dos anos 90, constituiriam o núcleo duro de Vertigo, a linha adulta da Editora das Lendas entretanto encerrada.

Enredo

No exterior da Fortaleza da Solidão, algures no Círculo Polar Ártico, a Mulher-Maravilha reúne-se à Dupla Dinâmica. É o aniversário do Super-Homem e os seus amigos trouxeram-lhe presentes especiais. Ao adentrar na estrutura kryptoniana, o trio depara-se, porém, com o anfitrião em estado catatónico e envolvido pelos tentáculos de uma grande planta alienígena presa ao seu peito.
Batman analisa rapidamente a situação e deduz que o presente envenenado terá chegado pelo canal de teletransporte, enviado por um dos muitos mundos agradecidos pela ajuda do Super-Homem, e que ignorava os efeitos nocivos da planta. Nesse instante, Mongul entra em cena e revela ter sido ele o responsável pelo envio da Clemência Negra. Assim se chama a misteriosa planta que, na realidade, é um organismo simbiótico. Uma vez acoplada ao seu hospedeiro, a Clemência Negra consome-lhe a força vital ao mesmo tempo que o infunde num sonho vívido baseado no seu desejo mais íntimo.
Durante a sua breve explanação, e perante a estupefação dos seus interlocutores, Mongul usa um par de gigantescas manoplas para tocar na Clemência Negra sem ser afetado por ela.

Os amigos do Super-Homem deparam-se com uma cena perturbadora
antes de serem surpreendidos por Mongul (baixo).
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Paralelamente, é mostrado o que se desenrola no subconsciente do Homem de Aço: um simples homem de família, Kal-El vive feliz em Krypton, que nunca foi destruído. Casado com a ex-atriz Lyla Ler-Rol e pai de dois filhos, Van e Orna, Kal trabalha no Instituto de Geologia de Kryptonopolis, a capital do planeta e sua cidade natal.
De volta à Fortaleza da Solidão, a Mulher-Maravilha investe sobre Mongul - cujo poder excede o seu - enquanto Batman e Robin procuram desesperadamente libertar o Homem de Aço. Devido a essa interferência, a sua fantasia começa a adquirir tons mais sombrios.
Ao regressar a casa no dia do seu aniversário, Kal-El tem um festa-surpresa à sua espera. Nela estão presentes quase todos os seus entes queridos. Todos menos um: o seu pai, Jor-El.
Depois de as suas previsões catastrofistas acerca da iminente destruição de Krypton se terem revelado infundadas, Jor-El fora expulso do Conselho Científico e caíra em desgraça junto da opinião pública. E ainda mais isolado e amargurado ficara após a morte da sua esposa, Lara (mãe de Kal), vítima de uma moléstia incurável. Nem mesmo o recente falecimento do seu irmão, Zor-El, tinha servido para reconciliar Jor-El com a sua cunhada, Allura, e com a sua sobrinha, Kara.
No dia seguinte, Kal desloca-se ao laboratório do pai e encontra-o reunido com duas eminências pardas de Krypton: Lor-Em, líder de uma seita religiosa autodenominada Espada de Rao, e Dax-Ar, oficial de elevada patente do exército kryptoniano. Os três conspiram com vista à instauração de uma teocracia em Krypton, encabeçada por Lor-Em.

Kal-El não aprova as novas companhias do pai.

Após a saída dos comparsas de Jor-El, Kal tem uma acesa discussão com o pai. Que se insurge contra o que considera ser a deterioração dos valores da sociedade kryptoniana, a braços com a xenofobia e o tráfico de estupefacientes em larga escala. De nada adiantando Kal fazer notar ao pai que a sua associação com extremistas servirá somente para desbaratar o pouco prestígio que ainda lhe resta.
A altercação entre ambos metaforiza, aliás, a polarização da sociedade kryptoniana cujas bases vêm sendo sacudidas pela crescente convulsão política e social. Vive-se um clima de pré-guerra civil e um dos pomos da discórdia é a Zona Fantasma, a prisão extradimensional projetada por Jor-El para acomodar, a título perpétuo, criminosos irrecuperáveis.
Considerada um sistema desumano, a Zona Fantasma enfrentava uma onda de contestação, contribuindo sobremaneira para a impopularidade da Casa de El. Em consequência dessa animosidade para com os seus representantes, Kara Zor-El é brutalmente agredida por um grupo de manifestantes que usam Jax-Ur, um dos mais perigosos prisioneiros da Zona Fantasma, como mártir e símbolo.
Com a prima a lutar pela vida numa cama de hospital, Kal. temendo pela segurança da sua família, decide abandonar Kryptonopolis. Antes de partir, tem ainda tempo para testemunhar as escaramuças entre membros da Espada de Rao e manifestantes anti-Zona Fantasma nas ruas da cidade.
De visita à cratera de Kandor, Kal, cada vez mais consciente de que algo está errado, expressa o seu amor ao filho momentos antes de este se desvanecer como uma miragem nos seus braços. Esta dolorosa revelação coincide com o momento em que Batman consegue, por fim, arrancar a Clemência Negra do torso do Super-Homem. Ato contínuo, a planta atraca-se ao Homem-Morcego, submergindo-o num devaneio que dá forma ao seu mais profundo desejo.
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Kal-El despede-se do filho que nunca teve..
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Batman vive também o seu maior desejo.
Na fantasia de Batman, Thomas Wayne consegue desarmar o assaltante que cortara o caminho à sua família no Beco do Crime naquela fatídica noite em que o pequeno Bruce ficara órfão. Graças ao afeto e orientação dos pais, Bruce leva uma vida normal, chegando mesmo a casar e a ter uma filha.
Entretanto, dá-se o violento despertar do Super-Homem. Enfurecido pelo ataque da Clemência Negra e pela perda da sua família imaginária, ataca selvaticamente Mongul, que estava prestes a matar a Mulher-Maravilha tombada a seus pés.
Enquanto Super-Homem e Mongul se digladiam, destruindo secções inteiras da Fortaleza da Solidão e interferindo com os sismógrafos, Robin enfia as manoplas esquecidas pelo vilão e remove, a custo, a Clemência Negra do peito de Batman.

O violento despertar do Homem de Aço.
Prestes a desferir um golpe fatal no seu oponente, o Homem de Aço distrai-se momentaneamente ao entrever as estátuas dos seus pais kryptonianos. Mongul aproveita o ensejo para contra-atacar com ferocidade, deixando o herói à sua mercê. Antes que possa, no entanto, assestar a estocada final, o vilão é surpreendido pela presença de Robin.
Através de um buraco no teto, o Menino-Prodígio deixa cair a Clemência Negra sobre Mongul. Imediatamente capturado pela planta, o vilão extasia-se com o seu maior sonho: após assassinar o Super-Homem e vários outros heróis, conquista a Terra e, em seguida, todo o Universo.
Com os seus aliados ainda a recomporem-se, o Super-Homem informa-os do seu plano para se desenvencilhar de Mongul. Um plano que consiste em soltar a criatura no âmago de um buraco negro do outro lado da galáxia.
Chegado o momento de desembrulhar os presentes, o Homem de Aço agradece gentilmente a réplica de Kandor fabricada pelas joalheiras da Ilha Paraíso e ofertada pela Mulher-Maravilha. Sem que ninguém se aperceba, o herói voa a supervelocidade para esconder a sua própria réplica da Cidade Engarrafada guardada numa divisão adjacente, poupando assim a amiga ao embaraço.
Batman, por sua vez, pretendia presenteá-lo com uma nova espécie de rosa criada em laboratório e batizada de Krypton. A flor havia sido, porém, destruída durante a refrega com Mongul. Fleumático, o Super-Homem reconhece que talvez tenha sido melhor assim, antes de pedir que alguém prepare café enquanto ele arruma a casa.

Super-Homem usa a sua supervelocidade para esconder a sua réplica de Kandor
antes de receber a oferenda da Princesa Amazona.

Apontamentos 

*Superman Annual nº11 foi o penúltimo fascículo da primeira série desse título icónico do Homem de Aço, publicado de forma interpolada entre 1960 e 1986. Ao contrário do que o título sugere, a série teve periodicidade variável: de quadrimestral em 1961 passou a semestral em 1962 e novamente a anual no ano seguinte;
*Aclamada pelos leitores e pela crítica, em 1986 For the Man Who Has Everything... foi nomeada para o Kirby Award na categoria de Melhor História Individual e ocupa a 4ª posição na lista das cem melhores histórias de todos os tempos elaborada pela revista Wizard;
*Apesar de ser um dos melhores contos do Super-Homem e uma obra representativa da chamada Idade de Bronze (1970-1986), For the Man Who Has Everything... foi desconsiderada na continuidade pós-Crise nas Infinitas Terras. O que não impediu o escritor Geoff Johns de, já este século, recuperar a Clemência Negra para as histórias do Lanterna Verde;
*A par de Reign of the Supermen (O Regresso do Super-Homem, arco de histórias já aqui esmiuçado), For the Man Who Has Everything... alcandorou Mongul a arqui-inimigo do Homem de Aço; um dos poucos a conseguirem bater-se de igual para igual com o kryptoniano. Até então, Mongul (prontuário disponível neste blogue) era apenas mais um vilão intergaláctico com sonhos de conquista;

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Mongul é um dos mais formidáveis inimigos do Super-Homem.
*A história inclui também aquela que, com elevada quota de probabilidade, terá sido a primeira referência explícita à data de aniversário do Homem de Aço. Especula-se que a escolha de 29 de fevereiro terá sido uma brincadeira de Alan Moore para explicar a jovialidade do herói, que apenas celebraria o seu aniversário a cada quatro anos. Certo é que essa data seria consagrada pela DC, por altura das comemorações dos 50 anos do Super-Homem;
*Uma das mais belas e famosas atrizes de Krypton, Lyla Ler-Rol fizera a sua única aparição em Superman nº141 (novembro de 1960). Numa história típica da Idade de Prata (1956-1970), o Homem de Aço, com recurso à viagem no tempo, revisitava o seu planeta natal semanas antes da sua destruição. Tempo suficiente para Kal-El se enamorar e ficar noivo de Lyla. O casamento acabaria, contudo, por não se consumar. Lyla é também uma das várias coadjuvantes do Homem de Aço com as inicias LL;

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Super-Homem e Lyla Ler-Rol no primeiro encontro de ambos.
*Asa Noturna e Pássaro Flamejante (Nightwing e Flamebird no original) são outros dos elementos da Idade de Prata referenciados na trama. Tratam-se das identidades heroicas assumidas, respetivamente, por Super-Homem e Jimmy Olsen aquando das suas regulares visitas à cidade engarrafada de Kandor durante esse período editorial; 
*No seu ensaio Alan Moore´s Writing for Comics (Avatar Press, 2003), o polémico escriba britânico revelou que pretendia incluir a Supergirl na história, mas teve de substituí-la pela Mulher-Maravilha após ter sido informado da morte iminente da Última Prima de Krypton em Crise nas Infinitas Terras;
*O beijo trocado por Super-Homem e Mulher-Maravilha na ponta final da história sugere que, mesmo antes do romance vivido por ambos em Os Novos 52, a sua relação exorbitava a amizade platónica;
*Em 2004, quase vinte anos após a sua primeira publicação, For the Man Who Has Everything... serviu de mote a um episódio homónimo da primeira temporada de Justice League Unlimited, série animada da Liga da Justiça. A despeito das muitas licenças poéticas (como a omissão de Robin e de alguns trechos mais sombrios), Alan Moore, contrariamente ao que vem sendo seu apanágio, aprovou a adaptação. Mais recentemente, em 2016, um episódio da temporada inaugural de Supergirl (For the Girl Who Has Everything) foi também vagamente inspirado na história saída da pena de Moore.
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Kal-El à mercê de Mongul e da Clemência Negra em Justice League Unlimited.
Vale a pena ler?

Um dos melhores contos do Super-Homem alguma vez escritos, For the Man Who Has Everything... é, outrossim, uma obra-prima da 9ª Arte. O facto de ter sido produzida no período pré-Crise nas Infinitas Terras comprova ainda que as boas ideias não estavam esgotadas; eram os autores que tinham perdido o arrojo de outros tempos. Nesse sentido, a pirotecnia verbal de Alan Moore, polemista consagrado que continua a polarizar opiniões, foi uma pedrada no charco em que o Homem de Aço chapinhava há já um bom tempo.
De todas as histórias já escritas do Último Filho de Krypton, esta será, porventura, aquela que melhor aborda o conflito interno que o atormenta. Se o seu planeta natal não tivesse sido destruído e ele não tivesse sido enviado ainda bebé para um lugar aonde nunca iria, a sua vida teria sido totalmente diferente. Não teria assumido o papel de maior campeão do seu mundo adotivo e, por conseguinte, não teria enfrentado tantos e tão poderosos inimigos. Dito de outro modo, sobre os seus ombros não recairia o destino da Humanidade.
Escrita com mestria, a história conta com personagens bem definidas e maravilhosas referências à Idade de Prata, da qual Moore é um confesso nostálgico. Com a arte de Gibbons a torná-la ainda mais impactante ao retratar eficazmente a raiva do protagonista (algo raramente conseguido até então). Uma das sequências mais memoráveis é, precisamente, aquela em que o Super-Homem tenta incinerar Mongul com a sua visão de calor. Não por acaso, é ainda hoje considerada uma das mais intensas na história da banda desenhada.
For the Man Who Has Everything... é também um bom exemplo de como uma equipa criativa competente pode impor um registo adulto a uma história de super-heróis sem diminuir o glamour e a grandeza das personagens.
Com um final surpreendente, desenhos de excelente caracterização e expressionismo, ação e detalhismo em cada quadro, esta é, inquestionavelmente, uma obra capital no vastíssimo repertório do Homem de Aço. E que encerra uma pungente lição de humanismo: até o homem que tem tudo precisa de amigos, porquanto são eles o seu maior tesouro.

A fúria do último escuteiro.




13 junho 2019

GALERIA DE VILÕES: SINESTRO


  Antes de cair em desgraça foi o Lanterna Verde supremo e teve o igualmente lendário Hal Jordan como discípulo. À frente da sua Tropa Amarela, desfraldou a bandeira do medo sobre o Universo que sonha moldar à sua imagem.

Denominação original: Sinestro
Licenciadora: Detective Comics (DC)
Criadores: John Broome (história) e Gil Kane (arte conceptual)
Estreia: Green Lantern Vol.2 nº7 (agosto de 1961)
Identidade civil: Thaal Sinestro
Espécie: Korugariano 
Local de nascimento: Korugar City (capital do planeta Korugar, no Setor Espacial 1417)
Parentes conhecidos: Arin Sur (esposa, falecida), Soranik Natu (filha), Abin Sur (cunhado, falecido) e Amon Sur (sobrinho)
Ocupação: Ex-arqueólogo, ex-Lanterna Verde e ex-ditador, é como líder da Tropa Sinestro (vulgo Lanternas Amarelos) que dá agora prossecução às suas atividades de terrorista intergaláctico. 
Base operacional: Durante o seu tempo ao serviço da Tropa dos Lanternas Verdes, Sinestro encontrava-se aquartelado no planeta Oa, lar dos Guardiões do Universo, e tinha a seu cargo o policiamento do Setor Espacial 1417. Desde o fim do seu exílio em Qward, no Universo de Antimatéria, tem privilegiado a itinerância. Num passado recente, a gigantesca estação de combate conhecida como Mundo Bélico (anteriormente controlada por Mongul) serviu-lhe de base móvel.
Afiliações: Ex-membro da Tropa dos Lanternas Verdes, da Sociedade Secreta de Supervilões e da Liga da Injustiça, é líder e fundador da Tropa Sinestro.
Némesis: Lanterna Verde Hal Jordan (e, por extensão, toda a Tropa Esmeralda) 
Poderes e parafernália: Extremamente inteligente e astuto, mesmo desprovido do seu anel Sinestro é um adversário de respeito. Não só porque é um líder nato e um estrategista brilhante, mas porque aparenta possuir o dom natural de intuir o medo alheio, o qual usa para vergar os seus oponentes. É também esse dom que parece explicar a sua capacidade para estabelecer uma espécie de vínculo psíquico com os seus correlegionários da Tropa Sinestro.
Mais impressionante ainda é a sua vontade inquebrantável, sem paralelo em qualquer outra criatura senciente no Universo. Diagnóstico feito pelo próprio Ion, o avatar da Força de Vontade no Espectro Emocional (ver Miscelânea) e fonte de poder dos Lanternas Verdes.
É, porém, no seu anel energético - duplicata perfeita daqueles que são usados pelos Lanternas Verdes - que Sinestro tem a sua mais formidável arma. Graças a ele consegue, entre muitas outras coisas, gerar campos de força, projetar e absorver energia ou criar construtos de luz sólida cuja forma e funcionalidades dependem apenas da sua imaginação.
O anel permite-lhe, ademais, sobreviver em qualquer atmosfera, voar à velocidade da luz, curar-se e até viajar no tempo. Acresce ainda o facto de a sua luz amarela anular o poder dos anéis dos Lanternas Verdes.
Todas essas habilidades são potenciadas quando Sinestro serve de hospedeiro a Parallax, a entidade que incorpora o Medo. Quando isso acontece, Sinestro raia a transcendência, adicionando a manipulação da realidade ao seu índice de poderes.

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Graças à sua desmesurada força de vontade,
Sinestro consegue criar os anéis energéticos que apetrecham a tropa com o seu nome.
Fraquezas: Estribado na sua superioridade moral, Sinestro está convicto da benevolência das suas ações e despreza quem as contesta. A húbris é, de resto, a sua principal fraqueza e foi à conta dela que averbou múltiplas derrotas no passado. 
No entanto, também o seu anel energético possui limitações. Desde logo a necessidade de recarregamento a cada 24 horas ou sempre que a sua energia se esgota. Ao que se soma a sua ineficácia contra os portadores da luz azul que, no Espectro Emocional, representa a Esperança. Os Lanternas Azuis (atualmente resta apenas um, o Santo Andarilho) conseguem expurgar as emoções negativas, como o medo ou a ira, desabilitando dessa forma os anéis que por elas são energizados.

Segredos sinistros

Com os leitores rendidos à gesta intergaláctica do novíssimo Lanterna Verde, demorou precisamente um ano para o herói ser apresentado àquele que seria doravante o seu némesis. Com a assinatura de John Broome e Gil Kane - criadores do Gladiador Esmeralda - Sinestro fez a sua estreia em agosto de 1961, nas páginas de Green Lantern Vol.2 nº7. E logo tratou de mostrar ao que vinha.
Com efeito, Sinestro era ele próprio um Lanterna Verde renegado com desejos de vingança em relação aos seus antigos mestres, os Guardiões do Universo.
Cinéfilo assumido, John Broome sugeriu a Gil Kane que usasse o ator britânico David Niven (celebrizado, entre outros, pelo seu papel no primeiro filme da Pantera Cor de Rosa) como modelo para a aparência do vilão.
Originalmente, Sinestro era já um Lanterna Verde caído em desgraça e portador de um anel de luz amarela quando pela primeira vez cruzou o caminho de Hal Jordan. Esse e outros elementos (como a existência de uma irmã) tornar-se-iam apócrifos após Crise nas Infinitas Terras. Foi, pois, com recurso à continuidade retroativa que Sinestro se tornou mentor de Hal Jordan na Tropa dos Lanternas Verdes. À parte essas nuances, a origem do Mestre do Medo permaneceu praticamente inalterada até aos nossos dias.

Sinestro teve como modelo David Niven (em baixo) e debutou em
Green Lantern Vol.2 nº7 (1961).

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Nascido no longínquo planeta Korugar, no Setor Espacial 1417, à medida que crescia Sinestro desenvolveu uma obsessão pelo passado. A mesma que, na juventude, o levou a estudar ardorosamente Arqueologia.
Certo dia, quando se encontrava a reconstruir umas antigas ruínas, Sinestro testemunhou a queda de uma espaçonave. Chegado ao local do despenhamento, deparou-se com um alienígena gravemente ferido entre os destroços do veículo acidentado.
A criatura, de nome Prohl Gosgotha, explicou que fazia parte da força policial intergaláctica conhecida como Tropa dos Lanternas Verdes antes de repassar o seu anel a Sinestro, para que este pudesse enfrentar o seu atacante.
Antes que Sinestro conseguisse processar toda aquela informação, uma segunda personagem entrou em cena: um Armeiro de Qward. Originários do Universo de Antimatéria (negativo da nossa realidade), a cultura dos Armeiros, povo de cientistas e soldados, é totalmente baseada na guerra. O que faz deles inimigos jurados da Tropa dos Lanternas Verdes.
Ao enfiar instintivamente o anel no seu dedo, Sinestro teve a sua indumentária transformada num elegante uniforme verde. Sinestro intuiu rapidamente o modo de funcionamento da bijutaria e, dando mostras de uma extraordinária força de vontade, usou-a para neutralizar o Armeiro.
Quando, porém, o agonizante Prohl Gosgotha lhe pediu o anel de volta para cicatrizar os seus ferimentos, Sinestro recusou fazê-lo. Fascinado pelas potencialidades daquela que percebeu ser uma das mais poderosas armas do Universo, assistiu impávido à morte do seu antigo usuário, para assim poder tomar o seu lugar.
Sinestro seria pouco tempo depois contactado por Abin Sur, que o escoltou ao planeta Oa, lar dos Guardiões do Universo e quartel-general da Tropa dos Lanternas Verdes. Abin Sur tinha por missão policiar o Setor Espacial 2814 (ao qual pertence a Terra) e os dois rapidamente ficaram amigos. Uma amizade que se transformaria em laços familiares quando Sinestro desposou a irmã de Abin Sur. Escusado será dizer que tanto o cunhado como os Guardiões do Universo ignoravam as circunstâncias em que Sinestro se apropriara do anel.
Após jurar fidelidade aos preceitos da Tropa Esmeralda, Sinestro foi oficialmente designado Lanterna Verde do Setor Espacial 1417, substituindo o malogrado Prohl Gosgotha na proteção de Korugar. A sua coragem e eficiência depressa fizeram dele o melhor dos Lanternas Verdes, idolatrado pelos seus camaradas na exata medida em que era temido pelos seus inimigos.

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Criadores da Tropa dos Lanternas Verdes,
 os Guardiões do Universo ignoravam os pecados de Sinestro.
Sinestro usou então o quase ilimitado poder do seu anel para transformar o seu mundo natal num paraíso. Um paraíso livre de crime e desordem, mas de onde a própria liberdade foi aos poucos sendo expulsa. Embora se visse a si mesmo como um messias, aos olhos do seu povo Sinestro era um odioso tirano.
Cada vez mais crítico dos métodos obsoletos da Tropa dos Lanternas Verdes, Sinestro começou a incutir a sua filosofia totalitária aos novos recrutas. Quando, em consequência da morte de Abin Sur, Hal Jordan se tornou no primeiro terráqueo a ingressar nas fileiras da Tropa Esmeralda, os Guardiões do Universo incumbiram Sinestro de treiná-lo.
À semelhança do que acontecera com Abin Sur, Sinestro depressa travou amizade com Hal Jordan, em quem descortinava grande potencial. Tanto assim que o convidou a visitar Korugar, onde, segundo dizia, era reverenciado pelo seu povo. A verdade viria, contudo, a revelar-se muito diferente.
Em Korugar, Hal Jordan ficou aterrado com o nível de medo e opressão impostos por Sinestro aos seus compatriotas. Destapava-se enfim o poço de morte e corrupção onde jaziam os cadáveres e os pecados da sangrenta demanda de Sinestro.
Incapaz de persuadir Sinestro da iniquidade das suas ações, a Hal Jordan não restou outra alternativa senão denunciá-lo aos Guardiões do Universo.
Julgado em Oa pelos seus crimes, Sinestro foi expropriado do seu anel energético e banido para o Universo de Antimatéria. Para a sua condenação foi crucial o depoimento de Hal Jordan, uma "traição" que o Mestre do Medo nunca perdoaria.

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Sinestro foi instrutor de Hal Jordan,
 o primeiro humano admitido na Tropa dos Lanternas Verdes.
O exílio de Sinestro no Universo de Antimatéria não surtiu, todavia, o efeito desejado. Contra todas as expectativas, o antigo Lanterna Verde firmou uma aliança com os Armeiros de Qward, tirando proveito do ressentimento mútuo em relação aos Guardiões do Universo.
Apostados em fazer de Sinestro o seu instrumento de vingança, os Armeiros de Qward forjaram-lhe um novo anel energizado pelo Medo. Nascia assim o primeiro Lanterna Amarelo do Universo.
De regresso ao nosso Universo, Sinestro depressa se tornou o maior adversário da Tropa dos Lanternas Verdes. Sucedendo-se os duelos com o seu antigo pupilo, Hal Jordan, dos quais o Mestre do Medo saiu invariavelmente derrotado.

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Nos Armeiros de Qward (cima),
Sinestro encontrou aliados improváveis, e em Hal Jordan o seu eterno rival.
Dado como morto incontáveis vezes, numa dessas ocasiões Sinestro logrou transferir a sua essência para o interior da Bateria Central de onde provém a energia dos anéis dos Lanternas Verdes. E que servia também de prisão a Parallax, a entidade cósmica que incorpora o Medo. Voluntariando-se para servir-lhe de hospedeiro, Sinestro usou o formidável poder da criatura para dizimar boa parte da Tropa Esmeralda antes de ser novamente detido por Hal Jordan.
Percebendo que nem mesmo ele conseguiria derrotar a Tropa dos Lanternas Verdes sozinho, cuidou então de formar o seu próprio exército composto por alguns dos mais implacáveis guerreiros do Universo.
Sob o estandarte do Medo, os Lanternas Amarelos propõem-se impor a ordem por todos os meios necessários - incluindo a força letal. Tão temida quanto admirada, a Tropa Sinestro não mais cessou de disputar à sua congénere esmeralda a hegemonia no policiamento do Cosmos.
Em lados opostos da barricada, Sinestro e Hal Jordan continuam a defender aquilo em que acreditam, sem nunca esquecer a amizade que, em tempos, os uniu.

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A Tropa Sinestro usa o medo na sua cruzada pela ordem universal.

Miscelânea

*Apesar de ter sido introduzido na Idade de Prata e de ser um dos mais célebres supervilões dos quadradinhos, só em 2010 foi revelado o nome completo de Sinestro. Durante a saga A Noite Mais Densa (Blackest Night), Sinestro fundiu-se com a Entidade (personificação senciente da Vida), para combater Nekron, avatar da Morte e fonte do poder dos Lanternas Negros. Em resultado desse processo, Sinestro tornou-se o primeiro Lanterna Branco, cujo anel energético o identificou da seguinte forma: "Thaal Sinestro de Korugar, o Destino espera-te.";

thaal sinestro

sinestro white lantern
A revelação do nome completo de Sinestro
 e a sua transformação no primeiro Lanterna Branco.
*Dada a proximidade fonética do seu nome com "sinister" (palavra latina para "esquerdino"), Sinestro é habitualmente retratado como  canhoto - característica conotada, na época medieval, com profanidade;
*Entre junho de 2014 e julho de 2016, Sinestro estrelou o seu próprio título mensal em terras do Tio Sam. Nesse ínterim protagonizou igualmente dois volumes especiais: Sinestro: Futures End (2014) e Sinestro Annual nº1 (2015). Lançadas no âmbito de Os Novos 52, essas iniciativas editoriais objetivaram apresentá-lo como um anti-herói;
*Em algumas histórias, o antecessor de Sinestro na Tropa dos Lanternas Verdes surge identificado, não como Prohl Gosgotha, mas como Jewelius Blak. Curiosamente, a criação deste último precedeu em onze anos (1988 e 1999, respetivamente) a do primeiro;
*Malgrado as suas apregoadas boas intenções, Sinestro é reputado de tirano e assassino mesmo nos setores espaciais mais recônditos do Universo conhecido, o que lhe valeu ser cognominado de Maligno (Wicked no original);
*Antes da sua expulsão da Tropa dos Lanternas Verdes, Sinestro autoproclamara-se ditador vitalício de Korugar;
*O símbolo da Tropa Sinestro representa a bocarra escancarada de Parallax pronta a devorar todos aqueles que sucumbem ao medo que a entidade corporiza;
*O Espectro Emocional que rege o Universo DC é composto pelas sete cores do arco-íris, representando outras tantas emoções. Assim, ao azul corresponde a Esperança, ao verde a Força de Vontade, ao amarelo o Medo, ao laranja a Cobiça, ao violeta o Amor, ao vermelho a Ira e ao índigo a Compaixão. A elas somam-se ainda o branco (Vida) e o preto (Morte), sendo cada cor regida por uma entidade que incorpora a respetiva emoção e a representa fisicamente. Entidades essas que são tão antigas como o próprio Universo;

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No Espectro Emocional, o amarelo representa o Medo, incorporado por Parallax (cima).
*"No dia mais sombrio, na noite mais brilhante / Sente os teus medos tornarem-se luz cortante. / Todo aquele que a ordem tentar perturbar / Arderá em chamas quando o poder de Sinestro enfrentar". É este o juramento solene que os Lanternas Amarelos têm de recitar quando recebem os seus anéis, ou de cada vez que têm de recarregá-los;
*Surpreendentemente, apesar da eterna rivalidade que acalentam e das incontáveis vezes que se defrontaram em batalhas potencialmente fatais, Sinestro continua a considerar Hal Jordan um amigo. Desconhece-se, porém, se a recíproca é verdadeira, ainda que alguns indícios apontem nesse sentido. Uma relação muito semelhante àquela que é mantida pelo Professor X e Magneto, na Marvel;
*É possível traçar vários paralelismo entre a origem de Sinestro e a de Lúcifer, o Anjo Caído. Ambos foram outrora os favoritos dos seus criadores, caíram em desgraça devido à sua rebeldia, preferem governar a servir, comandam os seus próprios exércitos e sonham moldar o Universo à sua imagem;
*Entalado entre Adão Negro (DC) e Caveira Vermelha (Marvel), Sinestro ocupa desde 2009 o 15º lugar na lista dos cem melhores vilões de banda desenhada organizada pelo site IGN.

Será Sinestro uma alegoria luciferina? 

Noutros media

Desde 1978 que Sinestro, ao abrigo do seu duplo estatuto de arqui-inimigo de Hal Jordan e da Tropa dos Lanternas Verdes, vem sendo presença assídua no segmento audiovisual. Nesse ano o vilão exorbitou pela primeira vez os quadradinhos, estreando-se em Challenge of the Super Friends, série de animação baseada na Liga da Justiça e produzida pelos estúdios Hanna-Barbera. Tal como na banda desenhada, Sinestro detinha a capacidade viajar a seu bel-prazer para o Universo de Antimatéria.
Em 1979, Sinestro participou pela primeira vez numa produção em ação real. Em Legends of the Superheroes, minissérie televisiva em dois episódios, o vilão foi interpretado pelo ator cómico Charlie Callas.
Antagonista recorrente num sortido de animações baseadas no Universo DC, foi naquelas que tiveram o Lanterna Verde como protagonista - Green Lanterna: First Flight (2009) e Green Lantern: Emerald Knights (2011) - que Sinestro teve,  naturalmente, maior destaque.
Ao cinema Sinestro chegaria em 2011, ano em que foi lançada a primeira - e, até à data, única - longa-metragem do Lanterna Verde. Interpretado pelo britânico Mark Strong numa trama decalcada da origem clássica do herói, Sinestro surge ainda como um arrogante, porém eficiente, oficial da Tropa Esmeralda descrente nas capacidades de Hal Jordan e no discernimento dos Guardiões do Universo para fazer face às ameaças rondam o Cosmos.

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Sinestro em Challenge of the Super Friends (cima)
e interpretado por Mark Strong no filme do

Lanterna Verde de 2011.

24 maio 2019

ETERNOS: BILL FINGER (1914-1974)


  Sem o seu contributo o Batman seria muito diferente ou poderia nem existir. Sempre na sombra de Bob Kane, foi arquiteto e obreiro da mitologia daquele que é um dos mais icónicos super-heróis de todos os tempos. Nem a morte lhe escancarou, porém, os portões do Olimpo da 9ª Arte.

Enquanto o Sol se punha devagar numa praia deserta do Oregon, na Costa Oeste dos EUA, uma figura solitária executava um estranho ritual. Na areia molhada onde momentos antes espalhara cuidadosamente o montículo de cinzas transportado numa simples caixa de sapatos, desenhava agora, com dedos trémulos, a forma de um morcego. Em seguida, envolta num silêncio solene e de olhos fixos no horizonte incandescente, aguardou que o oceano reclamasse aquela pequena oferenda. Estava cumprida a derradeira vontade de Bill Finger, o autor secreto do Batman.
Quem naquele frio final de tarde por ali passasse, jamais imaginaria serem os restos mortais de um gigante da banda desenhada que as fortes correntes do Pacífico levavam para longe. Ou que a criação do Cavaleiro das Trevas configura uma das maiores traições à verdade inscritas na história da 9ª Arte.
Quando, há precisamente 80 anos, em maio de 1939, o Batman fez a sua primeira aparição em Detective Comics nº27, Bob Kane foi o único autor creditado, apesar de não o ser.
De fora ficou Bill Finger, velho amigo e fiel colaborador de Bob Kane desde os alvores da Idade de Ouro dos quadradinhos. E cujos contributos foram fundamentais para fazer do Cavaleiro das Trevas (cognome também cunhado por Finger) aquilo que ele é hoje: um dos três pilares do Universo DC (juntamente com o Super-Homem e a Mulher-Maravilha), um ícone cultural à escala planetária e, por inerência, um filão virtualmente inesgotável para os detentores dos seus direitos. Como, de resto, testifica a miríade de bandas desenhadas, filmes, séries televisivas e videojogos nele baseados.

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Detective Comics nº27 (1939) apresentou Batman ao mundo
 e Bob Kane (em baixo) como seu único autor.

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A despeito de o verdadeiro papel de Bill Finger na conceção do Batman e no desenvolvimento da sua mitologia ser um dos maiores segredos de Polichinelo da indústria dos quadradinhos, a verdade só este século começou a ser reposta. Finger continua, ainda assim, a ser um ilustre desconhecido para muitos fãs do taciturno guardião de Gotham City, que ignoram por completo a dimensão e a importância da sua obra.
Como se perceberá, Finger, conquanto inextrincavelmente ligado ao imaginário do Homem-Morcego, enriqueceu de diferentes formas o panteão da Editora das Lendas. No qual tem também lugar cativo desde que, em 1985, o seu nome foi incluído em Fifty Who Made DC Great, o livro de ouro lançado pela DC por ocasião do seu 50º aniversário, e que imortalizava as cinquenta personalidades que mais contribuíram para o sucesso da companhia.
Mas quem era, afinal, esse segundo homem por detrás da criação do Batman? E como foi possível ter permanecido na obscuridade durante tanto tempo? Era Bob Kane um oportunista sem ética ou limitou-se, ao invés, a tirar partido das regras viciadas de uma indústria particularmente iníqua?
No mês em que o Batman, fenómeno de popularidade e de longevidade (vem sendo ininterruptamente publicado desde 1939), ingressa no restrito escol de super-heróis octogenários, importa verter alguma luz sobre os segredos da sua criação e assegurar um módico de justiça ao seu criador secreto.
Um dos mais prolíficos - e menosprezados - escribas da sua geração, Milton "Bill" Finger nasceu a 8 de fevereiro de 1914, em Denver (Colorado), a jovem casal judaico de raízes humildes. Louis Finger, o pai, trocara, ainda adolescente, a sua Áustria natal pelos EUA, na senda do Sonho Americano que a Grande Depressão haveria de reduzir a pó. Foi, pois, em terras do Tio Sam que conheceu Tessie, a discreta nova-iorquina que haveria de desposar logo depois. Do enlace resultaram, além de Bill, duas filhas, Emily e Gilda. Em 1933, a família rumaria a Nova Iorque, depois de a míngua de fregueses ter ditado o encerramento da alfaiataria de que Louis retirava o sustento de todos.
Na Grande Maçã, o clã Finger assentou arraiais no Bronx. Foi nas ruas desse pitoresco bairro nova-iorquino que Bill Finger se fez homem enquanto frequentava o DeWitt Clinton, o mesmo liceu onde, num daqueles obséquios do acaso, Bob Kane estudava também. Kane era apenas um ano mais velho do que Finger e os passos de ambos acabaram inevitavelmente por cruzar-se nos corredores da escola. Apesar das personalidades dissonantes (Kane era conhecido pela sua lábia; Finger pela sua timidez), floresceu uma amizade entre ambos. Terminados os estudos, os dois seguiram, porém, caminhos muito diferentes.

Bill Finger na juventude.
Enquanto Bill Finger, um aspirante a escritor, trabalhava a tempo parcial numa sapataria, Bob Kane optou por ganhar dinheiro a fazer aquilo de que mais gostava: desenhar. Os dois mantiveram contacto e, em 1938, Bob Kane convidou o amigo a trocar a sapataria pelo seu recém-fundado estúdio. Cansado de um emprego que mal lhe permitia pagar as contas, Finger aceitou de bom grado o convite e a sua primeira colaboração consistiu em escrever Clip Carson e Rusty and his pals, tiras vendidas por Bob Kane à National Comics (uma das antecessoras da DC). Apesar de Kane não ter escrito uma só palavra das que acompanhavam as suas ilustrações, apenas a sua assinatura surgia nas tiras. Finger tornava-se assim o primeiro de uma legião de escritores-fantasma que no rolar das décadas coadjuvariam secretamente Kane.

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Bill Finger foi o escritor-fantasma de Bob Kane em Rusty and his pals.
Após o estrepitoso sucesso do Super-Homem no ano anterior, em 1939 a National Comics, na pessoa do seu editor-chefe Vin Sullivan, incumbiu Bob Kane de criar um novo herói fantasiado capaz de fazer disparar ainda mais as vendas da companhia. Era véspera de fim de semana e Kane comprometeu-se a apresentar o seu protótipo na segunda-feira seguinte. Essa seria, aliás, uma das poucas promessas que honraria em toda a sua vida.
Durante o fim de semana, Kane afadigou-se na criação da nova personagem, que batizou de Bat-Man (era esta a grafia original) antes de submetê-la à apreciação de Bill Finger. Este ficou agradado com o nome mas propôs várias modificações ao visual, conforme recordaria em diferentes entrevistas concedidas em vida: "Bob mostrou-me alguns esboços do seu Bat-Man. Gostei do conceito, mas a aparência fazia lembrar demasiado a do Super-Homem. Recordo-me que vestia um uniforme vermelho, sem luvas e com um par de asas rígidas acopladas nas costas. Tinha a face parcialmente coberta por uma mascarilha e baloiçava-se numa corda suspensa. Sugeri a Bob que fizesse algumas alterações e ele acolheu as minhas ideias."
As alterações propostas por Bill Finger deixaram quase irreconhecível o conceito original. Num ápice, o uniforme do Batman adquiriu tonalidades escuras, as asas deram lugar a uma capa e a mascarilha foi substituída por um capuz. A influência de Finger repercutiu-se igualmente na têmpera do herói.
Kane não tinha ainda definido a identidade secreta do Batman, e partiu de Finger a ideia de lhe atribuir um insuspeito playboy milionário como alter ego. Foi também ele quem o crismou de Bruce Wayne, combinação dos nomes de duas figuras históricas: Robert the Bruce (rei dos escoceses que, no século XIV, liderou o seu povo na primeira guerra pela independência face a Inglaterra) e Anthony Wayne, general notabilizado pelas suas façanhas militares durante a Revolução Americana. Anos mais tarde, o próprio Kane reconheceria ter concebido o Batman para ser um vigilante mascarado, tendo sido Finger a transformá-lo numa espécie de detetive científico notoriamente inspirado em Sherlock Holmes.

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O Bat-Man de Bob Kane.
Alheio a tudo isto, Vin Sullivan, o mandachuva da National, apressou-se a adquirir os direitos da personagem que Bob Kane, como prometido, lhe apresentou em tempo recorde. Sem nunca mencionar Bill Finger, Kane, entre outras contrapartidas, exigiu ser creditado como o único autor de Batman em todas as histórias e adaptações vindouras. Cláusula contratual inédita que destoava daquela que era então a prática consagrada na incipiente indústria dos comics. Raramente os criadores eram creditados ou conservavam os direitos das sua criações. Sendo o caso mais dramático o de Jerry Siegel e Joe Shuster, os desafortunados autores do Super-Homem cujos perfis se encontram disponíveis neste blogue.
Porquanto era o nome de Bob Kane o único que figurava no contrato celebrado com a National, somente ele receberia os futuros proventos do negócio. Apesar de Kane se ter comprometido informalmente a dividi-los com Finger, a verdade é que este nunca recebeu um cêntimo dos milhões de dólares gerados pelo Homem-Morcego nos diferentes segmentos culturais.
Não obstante, foi da pena de Finger que saiu a primeira história do Batman publicada em Detective Comics nº27, ficando a arte a cargo de Bob Kane. Mas apenas este foi creditado nessa edição e em todas as que foram dadas à estampa nas duas décadas subsequentes. Coincidindo esse período com a expansão da mitologia do Homem-Morcego.
Sempre na sombra de Kane, da imaginação de Finger saíram personagens-chave, como o mordomo Alfred Pennyworth, o Comissário James Gordon, a Mulher-Gato ou o Charada. Finger participou ainda na criação de Joker e Robin (respetivamente, némesis mortal e fiel escudeiro do Cavaleiro das Trevas), e deu nome à opressiva metrópole (Gotham City) que servia de habitat a toda esta exótica fauna. A Bat-Caverna e o Bat-Móvel foram outros dos conceitos icónicos introduzidos por Finger, normalizando dessa forma a aplicação do prefixo "Bat" a todo e qualquer acessório utilizado pelo herói que escolheu o morcego como símbolo.
Outra das marcas distintivas de Finger enquanto argumentista do Batman era a utilização recorrente de adereços gigantes - por norma, objetos do quotidiano como máquinas de costura ou de escrever. Um bom exemplo dessa tendência é a moeda gigante guardada na sala de troféus da Bat-Caverna, e que reporta originalmente a uma história da Idade de Ouro da autoria de Finger.

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Mulher-Gato e a moeda gigante com a efígie de Abraham Lincoln:
duas criações icónicas de Bill Finger na Idade de Ouro.
Arte-finalista das primeiras histórias do Batman, o saudoso George Roussos assinalava a minúcia de Finger como uma das suas características mais ambivalentes. Segundo ele, Finger facilitava consideravelmente o trabalho dos desenhistas ao fornecer-lhes referências fotográficas (normalmente retiradas da National Geographic) de prédios ou infraestruturas, como fábricas ou estações ferroviárias. Essas pesquisas exaustivas atrasavam, porém, o processo de escrita. Finger sentia sempre grande dificuldade em cumprir prazos, contingência que, em meados dos anos 1940, ditou a sua substituição temporária por Gardner Fox. Não sem antes ter assinado a história de origem do Homem-Morcego que, a despeito das múltiplas revisitações, se mantém praticamente inalterada até hoje.
Com o tempo Bill Finger começou a trabalhar diretamente para a DC. Superman e Superboy foram dois títulos em que deixou marca. Foi ele quem, por exemplo, incorporou a kryptonita (conceito apresentado anos antes num folhetim radiofónico) no cânone do Homem de Aço. Já o Superboy foi presenteado com um interesse amoroso: ninguém menos do que Lana Lang. Pelo meio, Finger foi creditado como coautor do primeiro Lanterna Verde e do Pantera (Wildcat, no original). No caso do Gladiador Esmeralda esse reconhecimento decorreu do simples facto de ter escrito a primeira história do herói, para cuja conceção em nada contribuiu.
Numa época marcada pela itinerância dos profissionais da 9ª Arte, Bill Finger colaborou igualmente com editoras concorrentes da DC. Quality Comics, Fawcett Comics e Timely Comics foram algumas das que requisitaram os seus préstimos. Para esta última, em 1946, ajudou a criar, em resposta ao êxito da Sociedade da Justiça da América (DC), o Esquadrão Vitorioso (All-Winners Squad), a primeira equipa de super-heróis dessa antepassada da Marvel.

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Alan Scott, o primeiro Lanterna Verde, e Lana Lang.
Outras das criações emblemáticas de Bill Finger.
Em 1961, numa conjuntura de renascimento dos super-heróis, Bill Finger abandonou quase por completo a indústria dos quadradinhos para abraçar uma nova carreira como argumentista no cinema e na TV. Foi nessa qualidade que, cinco anos depois, escreveu dois episódios da série televisiva do Batman estrelada por Adam West. Tendo sido essa a primeira vez que recebeu crédito por uma história do herói que ajudara a criar. Algo que certamente não terá agradado a Bob Kane.
Por essa altura a relação entre ambos já se deteriora em consequência de uma controvérsia relacionada, precisamente, com a criação do Homem-Morcego. Em 1965, na edição inaugural da Comic Con de Nova Iorque, Bill Finger participou num painel composto por autores de banda desenhada. Questionado sobre o seu papel na criação do Batman, Finger revelou a verdadeira dimensão do seu contributo para a definição do herói.
A resposta de Bob Kane não se fez esperar e foi tudo menos polida. Numa contundente missiva publicada no fanzine Batmania, apelidou de fraude o seu ex-associado, sonegando-lhe uma vez mais o direito a ser reconhecido como coautor do Cavaleiro das Trevas.
No que poderá ser interpretado como uma expressão de atroz cinismo ou um tardio rebate de consciência, na sua autobiografia lançada em 1989 (na verdade, um panegírico escrito a meias com Tom Andrea), Bob Kane escreveu: "Agora que o meu velho amigo Bill Finger nos deixou, devo admitir que ele nunca obteve a fama e o reconhecimento merecidos. Ele foi a força motriz do desenvolvimento do Batman. Foi um herói anónimo." Diga-se, no entanto, que Kane tudo fez para garantir esse anonimato.
Traído pelo seu coração, Bill Finger foi encontrado morto no seu apartamento num condomínio de Manhattan a poucos dias de completar 60 anos, e quando o movimento pela defesa dos direitos autorais ainda gatinhava. Corria o ano de 1974 e durante muito tempo especulou-se que o seu corpo teria sido sepultado numa campa anónima. A verdade, porém, é que foi cremado e as suas cinzas espalhadas pelo seu único filho, Frederick (era ele a misteriosa figura no início do texto), numa praia do Oregon. E esse poderia ter sido o epílogo desta apaixonante história se, em 2012, Marc Tyler Nobleman, um estudioso da 9ª Arte, não tivesse lançado Bill the Boy Wonder (Bill, o Menino-Prodígio), uma biografia ilustrada que exumou verdades incómodas.

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Em 2012, a biografia ilustrada de Bill Finger
 abriu caminho para o seu reconhecimento público.
A aturada investigação levada a cabo por Nobleman possibilitou a descoberta da única herdeira viva de Bill Finger: a sua neta Athena, nascida dois anos após a morte do avô. No corolário de uma árdua disputa judicial travada por Athena, em 2015 a DC consagrou por fim Bill Finger como cocriador do Batman. Mesmo a tempo da estreia do filme Batman versus Superman: O Despertar da Justiça. Pela primeira vez surgiu no grande ecrã a inscrição "Batman criado por Bob Kane com Bill Finger".
Num mundo perfeito, ler-se-ia "Batman criado por Bob Kane e Bill Finger". Num mundo perfeito, Bill Finger, há muito reconhecido pelos seus pares que até criaram um prémio com o seu nome, teria reclamado em vida o lugar no Olimpo da 9º Arte que é seu por direito. Mas este não é um mundo perfeito e nem sempre a amizade prevalece.
Desde dezembro de 2017 que uma esquina do Bronx tem o nome de Bill Finger. Uma homenagem toponímica que nada teve de aleatória. A esquina em questão dista poucos metros do Poe Park, local onde tantas vezes dois jovens amigos se encontraram para trocar ideias sobre a personagem que os haveria de imortalizar, mas também separar.

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Em Batman vs Superman, Bill Finger foi creditado
 pela primeira vez como coautor do Cavaleiro das Trevas.
Athena Finger na inauguração da esquina com o nome do avô:
 uma via para a eternidade.