17 julho 2021

GALERIA DE VILÕES: DUENDE VERDE

  Nenhum outro inimigo do Homem-Aranha lhe infligiu tanta dor e sofrimento. Sempre que o bufão berrante se entrega à sua macabra folia, a tragédia enluta o coração de Peter Parker, eternamente assombrado pelo vil legado do seu némesis.

Denominação original: Green Goblin 
Editora: Marvel Comics 
Criadores: Stan Lee (conceito) e Steve Ditko (história e arte conceptual)
Estreia: The Amazing Spider-Man #14 (julho de 1964)
Identidade civil: Norman Virgil Osborn
Espécie: Humano quimicamente modificado
Local de nascimento: Hartford, Connecticut 
Parentes conhecidos: Alton Osborn Sr. (bisavô paterno, falecido); Alton Osborn Jr. (avô paterno, falecido); Ambrose Osborn (pai, falecido); mãe incógnita (presumivelmente falecida); Emily Lyman-Osborn (esposa, falecida); Harold "Harry" Osborn (filho, falecido); Liz Allan (ex-nora); Normie Osborn (neto)
Ocupação: Magnata, cientista, inventor, presidente executivo da Oscorp e senhor do crime.
Base operacional: Da Mansão Osborn, nas cercanias de Nova Iorque, o Duende Verde transferiu em tempos o seu covil secreto para a Torre Oscorp, no coração de Manhattan, e, mais recentemente, para uma estação de metro abandonada, nos túneis subterrâneos da cidade que nunca dorme.
Afiliações: Fundador da Oscorp e ex-líder dos Doze Sinistros.
Némesis: Homem-Aranha
Poderes e parafernália: Embora extraordinariamente ágil e atlético, nas suas primeiras aparições o Duende Verde aparentava ser um homem comum dependente do seu arsenal temático para se afirmar no submundo nova-iorquino. Depressa se perceberia, porém, que ele detinha afinal habilidades sobre-humanas, designadamente força, velocidade e resistência incrementadas. E que na origem de todas elas estava um composto biogénico chamado Soro do Duende.
No entanto, mesmo antes de consumi-lo, Norman Osborn era extremamente inteligente e talentoso, senhor de vasto conhecimento científico em áreas tão diferenciadas como Química, Mecânica e Eletrónica. Como bem comprovam, aliás, os aprimoramentos por ele realizados ao soro inventado pelo seu ex-sócio e professor, Dr. Mendel Stromm, ou o facto de ter construído do nada o seu império empresarial. Não menos impressionante, projetou sozinho toda a parafernália tecnológica que equipa a sua maléfica persona.
Composto por um leque de dispositivos bizarros que remetem para o folclore do Dia das Bruxas, o arsenal do Duende Verde permite-lhe defrontar em pé de igualdade adversários com níveis de poder superiores ao seu. Certa vez, por exemplo, derrotou o Tocha Humana com recurso a uma espuma retardante de fogo.
A imagem de marca do Duende Verde são, contudo, as Bombas Abóbora. Como o nome sugere, tratam-se de granadas de mão semelhantes a miniaturas das lanternas de abóbora usadas como enfeites durante o Halloween. Quando lançadas, acendem-se silenciosamente produzindo calor suficiente para derreter aço com vários milímetros de espessura. Algumas delas emitem também fumaça, clarões atordoantes ou um gás especial capaz de anular temporariamente o sentido de aranha do Escalador de Paredes. Foi graças a esse artifício que o vilão logrou descobrir a verdadeira identidade do seu arqui-inimigo.

Esquema de uma Bomba Abóbora.

Protótipo de um exoesqueleto desenvolvido pela Oscorp para fins militares, o uniforme do Duende Verde foi posteriormente adaptado às especificações de Norman Osborn. Destaque para a túnica tecida com uma fina malha de aço à prova de bala e para as luvas com microfilamentos elétricos que canalizam descargas de alta voltagem. Para se proteger dos efeitos dos próprios gases, Osborn embutiu um filtro na máscara, a qual foi projetada para instilar medo.
Numa clara referência ao Dia das Bruxas, originalmente o Duende Verde voava montado numa vassoura de aço com motor a jato. Esta seria, contudo, rapidamente substituída pelo seu icónico planador em forma de morcego. Além de melhor aerodinâmica, o aparato, controlado manualmente ou via rádio, dispõe de um impressionante poder de fogo. De metralhadoras a lança-chamas, passando até por pequenos mísseis equipados com sensores térmicos, o seu sistema de armas é tão eclético quanto mortífero. Voando à velocidade máxima (140 km/h) e com carga total (180 kg), o planador do Duende Verde tem autonomia para uma hora. Para maior estabilidade e manobrabilidade, as botas do usuário são fixadas magneticamente aos seus estribos metálicos. 

Originalmente, o Duende Verde montava uma vassoura voadora.

Além dos poderes enumerados acima, o Duende Verde consegue regenerar tecidos e órgãos severamente danificados. Embora mais lento do que o fator de cura de Wolverine ou Deadpool, essa habilidade já lhe permitiu sobreviver a ferimentos potencialmente fatais. A enorme cicatriz no peito de Norman Osborn, trespassado pelo próprio planador durante uma batalha com o Homem-Aranha, comprova-o.
Com recursos financeiros ilimitados provenientes da colossal fortuna do seu alter ego, o Duende Verde, fruto das motivações pessoais por detrás das suas ações, faz sempre um forte investimento emocional nos seus estratagemas para humilhar o Homem-Aranha. Torcendo-se de furor de cada vez que fracassa nos seus tenebrosos desígnios. "Desistir" é, porém, um verbo que Norman Osborn nunca aprendeu a conjugar.
Quando não afetado pela sua atávica loucura, o Duende Verde é um exímio estratega capaz de delinear planos de elevada complexidade. Apesar dessa sua componente cerebral, é também um lutador experiente que não teme o combate desarmado. Tanto mais que a sua força (estimada em 9 toneladas) se equivale, grosso modo, à do Homem-Aranha. 
Tudo somado, percebe-se porque são sempre os duelos entre ambos tão renhidos e de desfecho imprevisível. Um e outro podem apenas a aspirar a uma vitória pírrica, tão alto seria o preço a pagar por ela.

Cicatrizes de guerra.

Fraquezas: Putativo efeito colateral da fórmula química responsável pela amplificação das suas capacidade físicas, motoras e cognitivas, a insanidade é o calcanhar de Aquiles do Duende Verde. O histórico de distúrbios mentais na família Osborn sugere, todavia, que esta poderá ser hereditária, tendo sido apenas potenciada pelo Soro do Duende. Note-se que, além próprio Norman, também o seu pai Ambrose e o seu filho Harry sucumbiram à demência. Toda a linhagem Osborn parece, de facto, inquinada por ela.
Delírios de grandeza e fragmentação da personalidade constituem os sintomas mais evidentes da instabilidade mental de Norman Osborn. Que, condicionado por ela, toma frequentemente decisões irracionais pautadas pela impulsividade. Por conta dessa sua imprudência, cai repetidas vezes nas armadilhas preparadas pelos seus adversários, dá o flanco em combate e incorre noutras situações de elevada perigosidade.

Norman Osborn e o Duende Verde foram, durante algum tempo,
personalidades distintas em disputa pelo controlo.

Por ter, em diferentes ocasiões, enganado a morte, Norman Osborn julga-se invencível, subestimando amiúde os seus oponentes. Erros de avaliação que redundam quase sempre na sua derrota. Exemplo disso foi quando o Duende Verde capturou o Homem-Aranha pela primeira vez. Mesmo sabendo que o herói se preparava para escapar, nada fez para impedi-lo, convicto que estava da sua superioridade em combate.
Outro ponto fraco do Duende Verde radica na sua proverbial arrogância. Aquela que, entre outras coisas, o levou a desperdiçar a oportunidade de comandar o Sexteto Sinistro. Apenas porque unir-se ao grupo significaria reconhecer a sua incapacidade de vencer sozinho o Homem-Aranha. Algo impensável para alguém tão ufano como Norman Osborn. Apesar da sua empáfia, o vilão formaria mais tarde os Doze Sinistros, cujo elenco, por sinal, incluía alguns ex-membros do Sexteto Sinistro.


Inimigo íntimo

Na exuberante galeria de inimigos do Escalador de Paredes avultam alguns dos maiores expoentes de vilania da banda desenhada. Nenhum deles lhe proporcionou porém um festival de sofrimento como o Duende Verde. Foi ele o primeiro a descobrir a verdadeira identidade do herói aracnídeo e a assassinar um dos seus entes queridos. Como se isso não bastasse para consagrar a sua marca de maldade, foi também ele o arquiteto de uma monstruosa conspiração (eventos narrados na Saga do Clone, já aqui esmiuçada) que virou do avesso a vida de Peter Parker, mergulhando-o numa perturbadora crise de identidade.
Ao tomar a decisão fatal de eleger o Homem-Aranha como seu némesis, o Duende Verde prendeu ambos num interminável ciclo de horror e tragédia. Enfatizado pelo dramático enlace entre as suas vidas pessoais, uma vez que Norman Osborn é o pai do melhor amigo de Peter. Mas tudo teria sido muito diferente se as ideias originais dos seus autores tivessem vingado.
Na sinopse original do Duende Verde, Stan Lee descreveu-o como um antigo demónio mitológico despertado acidentalmente por uma equipa de filmagens que tropeçara numa espécie de sarcófago egípcio. Por considerá-lo desajustado ao registo realista na base do sucesso das histórias do Homem-Aranha, Steve Ditko reformulou por completo o conceito proposto pelo seu parceiro criativo.
Em vez de um ente sobrenatural, o Duende Verde seria, assim, apenas humano. Pensado para ser apenas outro antagonista de circunstância, o novo vilão fez a sua mise-en-scène em The Amazing Spider-Man #14, edição datada de julho de 1964. Apesar do mistério em torno da sua origem e identidade (ou por causa dele), o Duende Verde provou-se surpreendentemente popular entre os leitores.

A estreia oficial do Duende Verde em The Amazing Spider-Man #14 (1964)
teve o Incrível Hulk como convidado especial.

Mediante esse inesperado sucesso, o passo seguinte foi estabelecer o alter ego do Duende Verde, o qual seria pomo de discórdia entre os seus criadores. 
Enquanto Lee pretendia alguém conhecido do Homem-Aranha, Ditko preferia um anónimo sem qualquer ligação ao herói. Ditko sustentava a sua escolha no facto de, na vida real, as maiores inimizades despontarem aleatoriamente entre desconhecidos. A isto Lee contrapunha que uma ligação pessoal entre as duas personagens concederia (ainda) maior carga dramática às histórias do Escalador de Paredes. Acrescentando que, ao fim de tantos meses de suspense e pistas falsas, os leitores se sentiriam defraudados se assim não fosse.
Apesar de ter sido a visão de Lee a prevalecer, subsistem até hoje dúvidas acerca de quem terá partido afinal a ideia de estabelecer Norman Osborn como identidade civil do Duende Verde. Lee reclamava para si esse mérito, ao mesmo tempo que admitia poder ter sido atraiçoado pela sua péssima memória.
Ditko, por seu lado, afirmou sempre ter sido ele o autor da ideia, antes mesmo da conclusão do primeiro arco de histórias no qual o Duende Verde participou. Vários indícios parecem, de resto, corroborar esta tese.
Pese embora Norman Osborn não ter sido formalmente apresentado até The Amazing Spider-Man #37, Ditko afiançou ser ele a personagem que surgia em dois painéis no 23º número da série. Dando crédito a esta afirmação, o facto de a referida personagem - um discreto membro do Clube de Empresários da privança de J. Jonah Jameson - ter marcado presença nas edições seguintes. Numa delas, em The Amazing Spider-Man #25, Osborn visitou inclusivamente a redação do Daily Bugle - sem, contudo, se cruzar com Peter Parker.

O insuspeito Norman Osborn visita
 o seu amigo J.J. Jameson em The Amazing Spider-Man #25 (1965).

A grande revelação teve lugar em The Amazing Spider-Man #39. Naquela que foi a primeira história do Homem-Aranha a ser desenhada por outro artista - John Romita Sr. - que não Ditko, os leitores ficaram finalmente a saber que, por trás da máscara do Duende Verde, se escondia o rosto de Norman Osborn. Estava dado o mote para uma das mais trágicas rivalidades do Universo Marvel. E nem os seus criadores escaparam incólumes.
Devido a alegadas divergências criativas com Stan Lee, Ditko abandonara entretanto a série. O Homem-Aranha perdia um dos seus "pais", mas ganhava um inimigo íntimo. 
Ao tingir com o sangue de Gwen Stacy os anos terminais da Idade de Prata, o Duende Verde assinalou o fim da inocência nos comics. De então para cá, as trevas imiscuíram-se nas histórias de super-heróis, eles próprios cada vez menos exemplos de virtude e abnegação.


Legado Sinistro

Norman Osborn é um self made man com fome leonina de poder. Fervoroso adepto do darwinismo social, acredita que o mundo pertence aos fortes e que dos fracos não reza a História. Para predestinados como ele, nenhum fracasso é permanente e os fins justificam sempre os meios. O seu sucesso empresarial, baseado em doses iguais de genialidade e amoralidade, contrasta, porém, com a disfuncionalidade da sua vida familiar que compromete a sobrevivência do seu legado.
Primogénito de Ambrose Osborn, um magnata industrial, Norman Osborn nasceu em Hartford, no Connecticut. A sua infância despreocupada foi violentamente interrompida quando o pai perdeu a fortuna da família devido a uma alegada usurpação de patentes. 
Ambrose tornou-se um alcoólatra abusivo que descontava as suas frustrações na esposa e no filho. Norman depressa passou a desprezar o pai ao mesmo tempo que desenvolvia uma personalidade antissocial com precoces tendências homicidas.

Ambrose Osborn entregou-se à bebida após perder o seu negócio.

Numa noite de intempérie, Ambrose trancou o pequeno Norman numa das casas devolutas da família. Esperava assim curar a fobia do filho em relação à escuridão. Sozinho na penumbra, o apavorado Norman teve alucinações com um monstro esverdeado semelhante a um duende sinistro. Não era, porém, a primeira vez que a criatura o aterrorizava. Já antes lhe aparecera em pesadelos.
Temendo ser devorado pelo monstro assim que a escuridão cedesse lugar à luz do dia, Norman percebeu que era a primeira que o fortalecia. Naquele noite, abraçou para sempre as trevas.
Episódios traumáticos como este definiram o caráter de Norman, disposto a tudo para não ser um fracassado como o pai. Porque dinheiro é poder e um homem sem poder não é nada, o primeiro passo seria recuperar a fortuna da família. 
Com esse objetivo em mente, Norman mudou-se para Nova Iorque. Graças a uma bolsa de estudo, cursou Química e Gestão Empresarial na Universidade Empire State (UES, a mesma alma mater de Peter Parker). Foi lá que conheceu e se apaixonou por uma encantadora jovem chamada Emily Lyman. Apesar da cada vez mais evidente natureza rapace de Norman, Emily conseguiu trazer à tona o melhor dele.
Tão logo concluíram os respetivos cursos, o casal trocou alianças. Dessa união nasceu um filho, Harry Osborn. A felicidade familiar seria, no entanto, sol de pouca dura. Pouco meses após o nascimento de Harry, Emily faleceu em consequência de um problema de saúde. 

A morte prematura da sua esposa empurrou
 Norman Osborn para o abismo da loucura.

Privado do amor da esposa e angustiado pelo papel de pai solteiro, Norman retomou a sua obsessão de acumular riqueza e poder, negligenciando o filho. Em consequência desse desafeto, Harry desenvolveria, durante a adolescência, uma dependência de drogas que quase lhe foi fatal. Crescendo na sombra do pai, o jovem tornou-se um adulto depressivo, inseguro e solitário.
Já os negócios de Norman Osborn iam de vento em popa. Tendo como sócio minoritário o Dr. Mendel Stromm, seu antigo professor na UES, Norman fundou um conglomerado industrial, a Oscorp. Quando Stromm desviou dinheiro das contas da empresa, Norman, indiferente às suas justificativas, denunciou o sócio à policia.

Norman Osborn não perdoou o desfalque do ex-sócio.

Com Stromm atrás das grades, Norman assumiu o controlo total da Oscorp e apropriou-se do trabalho do seu ex-mentor. Socorrendo-se das anotações de Stromm, Norman tentou recriar um composto químico capaz de incrementar as capacidades físicas dos humanos. Sempre inescrupuloso, usou, com resultados desastrosos, um funcionário como cobaia.
Apesar de frustrado com a sua pesquisa, Norman não deitou a toalha ao chão. Uma nova mistura revelou-se volátil e explodiu-lhe no rosto. No hospital, Norman recuperou em tempo recorde e conseguia pensar com mais clareza do que nunca. Percebendo que a fórmula o deixara não só mais forte mas também mais inteligente, Norman decidiu banhar-se nela. Ao fazê-lo, abriu mão da última réstia de sanidade mental.
Determinado em alcançar o poder que tanto almejava, Norman Osborn sonhava liderar o cartel criminoso de Nova Iorque. Nesse sentido, criou a persona do Duende Verde (inspirado no monstro que,  na infância, lhe povoava os pesadelos) e procurou unir sob o seu comando todas as quadrilhas independentes a operar na cidade.
Ciente da necessidade de estabelecer uma reputação no submundo, Norman escolheu como alvo ninguém menos do que o Homem-Aranha. Após consecutivas derrotas dos seus sequazes, o Duende Verde resolveu tomar em mãos a missão de destruir o Escalador de Paredes.
Uma missão que ficou facilitada quando o Duende Verde descobriu que o Homem-Aranha era na verdade Peter Parker, um jovem universitário amigo do seu filho. Depois de capturar o herói, Norman desmascarou-se também, antes de permitir a fuga de Peter.

Os inimigos deixam cair as suas máscaras.

Na encarniçada refrega que se seguiu, o Homem-Aranha eletrocutou acidentalmente o Duende Verde. Este sobreviveu mas ficou amnésico.  Desejando resguardar Harry de novo trauma, o Homem-Aranha destruiu a fantasia do Duende Verde no incêndio resultante. À polícia, relatou que Norman Osborn perdera a memória depois de ter sido atacado pelo vilão. 
Meses mais tarde Norman recuperaria, porém, a memória. Sedento de vingança, reviveu o Duende Verde e raptou Gwen Stacy, a namorada de Peter Parker. Durante uma batalha noturna, o vilão, num assomo de sadismo, atirou Gwen do alto de uma ponte. Ao tentar resgatá.la com a sua teia, o Homem-Aranha partiu acidentalmente o pescoço da jovem, matando-a. Essa seria, no entanto, apenas a primeira tragédia na periferia da vida de Peter Parker com a marca do seu némesis.
Com a fúria a rasgar por ele acima, o herói aracnídeo perseguiu o Duende Verde até ao seu covil. No clímax da contenda, o Duende Verde teve o peito transfixado pelo próprio planador.

A morte do Duende Verde não seria o fim do seu vil legado.

Acoitado nas sombras, Harry Osborn testemunhou, impotente, a derrota fatal do pai às mãos do Homem-Aranha e jurou vingança. Seria ele o primeiro a assumir o sinistro legado do Duende Verde, durante o longo período em que Norman Osborn esteve morto para o mundo..
Harry foi curado da sua obsessão com o Homem-Aranha por um psiquiatra chamado Bart Hamilton. Ironicamente, Hamilton tornar-se-ia o terceiro Duende Verde. Mas outros sucessores se perfilaram. 
Anos mais tarde, seria a vez de Phil Urich - sobrinho de Ben Urich, repórter do Daily Bugle -, reclamar para si o legado do Duende Verde. Ao contrário dos seus antecessores, usou-o para benefício da comunidade. 
Por fim, Roderick Kingsley, um milionário excêntrico que descobriu um antigo esconderijo do Duende Verde, criou um pastiche do vilão original chamado Duende Macabro. De entre a chusma de imitadores, foi, sem dúvida, o mais bem-sucedido. 
Nenhum deles imaginava no entanto que Norman Osborn estava vivo, algures na Europa, marinando a sua vingança suprema. Aquela que, anos volvidos, seria servida sob a forma de uma rebuscada conspiração que levou Peter Parker a acreditar ser um clone criado em tempos pelo Professor Miles Warren (vulgo Chacal, outro velho inimigo do Cabeça de Teia). A verdade só seria reposta quando Ben Reilly, o verdadeiro clone, se sacrificou para salvar a vida de Peter. Na mórbida contabilidade da guerra sem quartel entre o Homem-Aranha e o Duende verde, foi ele o segundo ente querido do herói morto às mãos do seu arqui-inimigo.
Numa inesperada reviravolta, desde a morte do filho, devido aos efeitos adversos de uma versão experimental do Soro do Duende, Norman Osborn passou a ver em Peter Parker um herdeiro digno do seu legado. Uma "honra" que Peter rejeitou sem pensar duas vezes, Mas isso não impedirá que ele continue a ser assombrado pelo Duende Verde até ao final dos seus dias. 

Forças opostas em conflito perpétuo.


Miscelânea

*Grande e Terrível, Duende Rei do Crime e Senhor dos Duendes são cognomes pelos quais o Duende Verde está habituado a responder no submundo nova-iorquino onde há muito consolidou a sua temível reputação;
*O Duende Verde foi um dos supervilões a figurar na série A de selos de valor lançados pela Marvel em 1974. Esteve, no entanto, ausente de todas as séries subsequentes;
*Em Amazing Spider-Man #122, quando o Duende Verde morre empalado pelo próprio planador, o Homem-Aranha cita a Bíblia, numa notória referência ao complexo de Deus do seu inimigo: "Assim morrem os homens orgulhosos: crucificados, não numa cruz de ouro, mas numa modesta estaca de lata.";
*Ao matar Gwen Stacy, o Duende Verde destronou o Doutor Octopus como arqui-inimigo do Homem-Aranha. Norman Osborn, considera, aliás, esse um dos seus maiores feitos, dos quais gosta de vangloriar-se. No entanto, num controverso retcon de 2004, intitulado Sins Past (Pecados Pretéritos), foi revelado que ele tivera um affair com Gwen Stacy, poucos meses antes da morte da jovem e quando esta ainda namorava com Peter Parker. Mais escabrosa ainda, a revelação de que desse relacionamento resultara uma gravidez. Gwen terá dado secretamente à luz um casal de gémeos, que Norman criou algures na Europa durante a sua longa ausência. Escusado será dizer que tal heresia mereceu o repúdio dos leitores - em especial, os da velha guarda -, enojados com o revisionismo que transformou a angelical Gwen Stacy numa promíscua;

Norman Osborn e Gwen Stacy, o pecado da carne.

*O Duende Verde foi o primeiro supervilão da Marvel a aparecer num jogo de vídeo: Spider-Man foi desenvolvido em 1982 pela Parker Brothers para a consola Atari 2600;
*Desde 2016 que o Duende Verde ocupa o 24º lugar na tabela dos 100 melhores vilões de todos os tempos divulgada pelo IGN. Entre os seus congéneres da Marvel, apenas Magneto e Doutor Destino conseguiram melhor classificação. No ano anterior, o site Comics Alliance elegera o Duende Verde como o melhor inimigo do Homem-Aranha;
*Na continuidade da Amalgam Comics, o Duende Verde foi combinado com o Duas-Caras da DC, originando o Duende de Duas Caras (alter ego de Harvey Osborn). O uniforme do vilão dessa realidade paralela era em tudo idêntico ao do original. Sob a sua máscara, escondia-se, porém, o rosto desfigurado de Harvey Dent. Em aparições posteriores, o Duende de Duas Caras teria o seu visual retocado e ganharia um planador em forma de moeda gigante. Curiosamente, o Duende Verde é visto por muitos como o Joker da Marvel, ao passo que Norman Osborn tem muito em comum com Lex Luthor;

Duende de Duas Caras.

*O Duende Verde foi o primeiro antagonista do Escalador de Paredes em todas as suas adaptações audiovisuais. O seu salto para fora das vinhetas aconteceu num dos episódios iniciais de Spider-Man, série animada da ABC, no ar entre 1967 e 1970. No cinema, o Duende Verde começou por ser vivido, em 2002, por Willem Dafoe, na longa-metragem Homem-Aranha. Em 2014, seria a vez de Dane DeHann vestir-lhe a pele em O Espetacular Homem-Aranha 2: O Poder de Electro. O Duende Verde foi também o vilão de serviço em Spider-Man: Turn Off the Dark, musical levado à cena na Broadway, e que se manteve em cartaz durante quase três anos.

Dane DeHann (esq.) e Willem Dafoe encarnaram o Duende Verde no cinema.



*Este blogue tem como Guia de Estilo o Acordo Ortográfico de 1990 aplicado à norma europeia da Língua Portuguesa;
*Artigos sobre Steve Ditko, Saga do Clone, A Morte de Gwen Stacy, Homem-Aranha e Duende Macabro disponíveis para leitura suplementar.




 













17 junho 2021

ETERNOS: JERRY ROBINSON

  Ele próprio um menino-prodígio, cresceu na sombra do seu mentor apesar de ter criado várias figuras fundamentais da mitologia do Cavaleiro das Trevas. Artista por acaso, cartoonista por vocação e ativista por paixão, foi incansável como embaixador dos comics e na defesa dos direitos dos seus pares. 


Imagine-se um artista cuja carreira ímpar remonta à Idade de Ouro dos comics, criador de um dos mais carismáticos e infames vilões da banda desenhada. Imagine-se que esse mesmo autor, pioneiro da Era Heroica, foi um dos mais prestigiados cartoonistas do mundo, cumulando honrarias e reconhecido internacionalmente como um dos mais influentes do último século. Acrescente-se a tudo isso uma campanha sem fronteiras em prol dos direitos autorais e da liberdade de expressão dos seus colegas de ofício, e ter-se-á uma ligeira noção da importância de Jerry Robinson para a Arte Sequencial. No ano em que se cumpre uma década sobre o seu desaparecimento, evoquemos o essencial da vida e obra do mais novo dos três mosqueteiros que arvoraram o Batman a ícone global.
Batizado Sherrill David Robinson, Jerry Robinson nasceu no primeiro dia do ano da graça de 1922. Astrólogos e outros especialistas na leitura das linhas tortas dos bons e maus augúrios porventura lobrigariam nesse facto um sinal de que veio ao mundo predestinado a grandes feitos. Quinto filho de um casal pequeno-burguês - o pai um empresário com raízes judaicas, a mãe uma contabilista nova-iorquina - Robinson teve como berço Trenton, a melancólica capital da Nova Jérsia, banhada pelas águas turvas do rio Delaware. Influentes na comunidade, os seus pais haviam sido, no ano anterior, os responsáveis pela abertura do primeiro cinema na cidade. 
Ainda pessoa de palmo e meio, Robinson foi apresentado à pobreza, que se infiltrou no quotidiano familiar quando os desvarios de Wall Street reduziram a economia americana - e os negócios paternos - a um cemitério de sonhos destruídos. Para manter vivo o seu de ser jornalista, Robinson vendia gelados e alguns desenhos que fazia. Seriam aliás estes a mudar-lhe as agulhas do destino.
Então com 17 anos e prestes a ingressar na Universidade de Columbia no curso dos seus sonhos, em 1939 Robinson encontrava-se de férias numa modesta pousada nas montanhas Pocono (Pensilvânia). Durante um passeio matinal, os desenhos estampados no casaco que vestia atraíram a atenção de um desconhecido, que indagou sobre a autoria dos mesmos. Quando Robinson anunciou ser ele o artista, o desconhecido apresentou-se: Bob Kane.
Sete anos mais velho do que Robinson, Kane mostrou-lhe a primeira história do Batman - acabada de dar à estampa em Detective Comics #27 - e ofereceu-lhe um emprego como seu assistente. Sem particular apreço pelos quadradinhos, tampouco impressionado com o traço de Kane, Robinson aceitou contudo de bom grado o emprego. Desse encontro fortuito nasceria uma das mais brilhantes parcerias criativas da 9ª Arte, mas também uma das mais duradouras disputas por direitos autorais da sua história. 

Bill Finger, Bob Kane e Jerry Robinson: três homens e um destino.

Robinson viajou de imediato para Nova Iorque, levando na bagagem a missão de assistir Bob Kane e Bill Finger na produção da série mensal do Batman. O fenomenal sucesso desta apanhara desprevenidos os próprios autores que, atolados em trabalho, sentiam crescente dificuldade em cumprir os prazos estipulados pela National Comics (futura DC). 
Robinson assumiu inicialmente a arte-final e a legendagem das histórias, levando pouco tempo a perceber o enorme potencial narrativo e comercial dos comics. No entanto, o seu primeiro trabalho só apareceu no quarto número da revista.
Dono de um traço marcante - muito superior ao do próprio Kane - Robinson desenvolveu o seu estilo ao longo do ano seguinte. Graças a ele, o desenho quadrado e estático de Kane cedeu lugar a um visual mais dinâmico e refinado.
Mesmo após a contratação de George Roussos para preencher os cenários das histórias do Batman, Jerry Robinson - que Kane considerava seu protegido - continuou a ser o principal arte-finalista da equipa. Com a chegada de mais um elemento, esta mudou-se do estúdio improvisado no apartamento de Kane para um espaço alugado nas Times Towers, um dos mais icónicos edifícios da Grande Maçã. Robinson, por seu lado, permaneceu aboletado na casa de uma família do Bronx, da privança de Kane.
Descrito como dorminhoco por Roussos, Robinson odiava levantar-se cedo, preferindo trabalhar madrugada adentro. Conjugada com o seu perfecionismo, a indisciplina horária de Robinson originava constantes atrasos na entrega dos trabalhos que tinha em mãos, o que deixava os seus colegas - particularmente Bob Kane - à beira de um ataque de nervos.

Jerry Robinson fotografado
 nos estúdios da National Comics, por volta de 1942.

No início de 1940, Bob Kane e Bill Finger discutiram a introdução de um parceiro que adjuvasse o Homem-Morcego na sua cruzada contra o crime em Gotham City. Apesar de a ideia não ter partido dele, foi Robinson quem sugeriu o nome Robin (em homenagem a Robin Hood, seu ídolo de infância) e concebeu o  colorido visual ( inspirado nas ilustrações de um livro de Newell Convers Wyeth) do jovem escudeiro do Cavaleiro das Trevas.
O Menino-Prodígio debutou em abril desse mesmo ano, nas páginas de Detective Comics #38, sendo considerado o protótipo do sidekick. Robin prenunciou, com efeito, um figurino que se tornaria moda nos anos imediatos. O seu sucesso junto dos leitores mais novos aplanou caminho para uma multidão de epígonos. Muitos dos heróis seniores passaram, assim, a não dispensar a ajuda dos seus imberbes companheiros.
Se a referência a Bob Kane e Bill Finger na criação do Menino-Prodígio é uma mera formalidade, a discussão em redor da autoria do tétrico némesis do Batman ainda hoje faz correr rios de prosa.
Segundo rezam as crónicas oficiais, Finger, à beira do esgotamento, terá pedido ajuda a Robinson para conceber um novo vilão capaz de testar as capacidades do Homem-Morcego, habituado a lidar apenas com bandidos comuns. Robinson passou a noite a matutar na ideia, voltando no dia seguinte com uma carta de baralho representando o Joker. Em entrevistas concedidas ao longo dos anos, Robinson explicou que o bridge sempre preenchera os seus serões familiares, tendo sido essa a fonte de inspiração para o Palhaço do Crime. 

A carta original desenhada por Jerry Robinson
 é hoje uma peça de museu.

Ao examinar os esboços do vilão, Finger, cinéfilo apreciador de filmes europeus, notou as semelhanças com a sinistra personagem interpretada por Conrad Veidt em O Homem Que Ri (1928). Robinson explicou aos seus companheiros que Joker seria o Professor Moriarty do Batman: um arqui-inimigo capaz de pôr à prova os talentos dedutivos do maior detetive do mundo. Outra peculiaridade da personagem radicava no seu retorcido sentido de humor, por contraponto à circunspeção do Cavaleiro das Trevas. 
Kane e Finger avalizaram a proposta de Robinson, e o Joker foi apresentado aos leitores em Batman #1 (abril de 1940). Robinson não foi, contudo, creditado pela criação daquele que viria a ser um dos maiores ícones da cultura popular. Estatuto que só foi alcançado graças à intervenção providencial de um editor que, percebendo o enorme potencial do vilão, evitou que este morresse no final da sua primeira aparição.
Até ao dia da sua morte, em 1998, Bob Kane, conhecido pela sua renitência em dividir os louros pelo sucesso do Batman, foi sempre perentório em afirmar que Robinson nada tivera que ver com o processo criativo do Joker. Atribuindo, ao invés, a "paternidade" do vilão a si próprio e a Bill Finger, resumindo o contributo de Robinson à carta de baralho que serviu de cartão de visita ao Palhaço do Crime nas suas primeiras aparições. Salvo algumas vozes dissonantes, a generalidade dos historiadores apontam, porém, Robinson como o único e verdadeiro autor do Joker.
A partir de 1941, com Kane focado exclusivamente na tira do Batman, Robinson e Finger passaram a trabalhar diretamente com a National Comics. Num claro sinal de reconhecimento do seu talento, Robinson teve os seus serviços requisitados por várias editoras concorrentes. Na Harvey Comics e na Nedor Comics - citando apenas dois exemplos - assumiu, respetivamente, a arte de Green Hornet e Black Terror. Ao passo que a Spark Publications lhe apadrinhou a sua primeira criação a solo: Atoman.

Atoman foi a primeira criação a solo de Jerry Robinson.

Foi também nessa sua fase seminal que Robinson, percebendo o valor estético e comercial da arte original, começou a requerer a devolução dos seus desenhos junto das editoras. Passando, em seguida, a recolher também os desenhos dos seus colegas que, depois de impressos, teriam como destino o lixo. Ao longo das décadas seguintes reuniu apreciável quantidade desse material, algum do qual avaliado em milhões de dólares. Seja em museus ou em exposições itinerantes, esse valioso acervo serve a preservação da memória dos comics e dos seus autores.
Antes de trocar os quadradinhos pelo ensino, Jerry Robinson participou na conceção visual do Pinguim e criou Alfred Pennyworth, o fiel mordomo de Bruce Wayne. Em meados da década 50, reforçou o corpo docente da School of Visual Arts, acrescentando dessa forma ao seu currículo a formação de novas gerações de artistas. Em Steve Ditko, cocriador do Homem-Aranha, teve o seu aluno mais ilustre.
Nessa sua nova senda, Jerry Robinson explorou uma amplitude de registos. Ao mesmo tempo que ilustrava as capas da revista Playbill (dedicada aos espectadores de teatro) e livros infantis, assinava diariamente Jet Scott, uma bem-sucedida tira de ficção científica distribuída nacionalmente pelo Herald Tribune Syndicate.
Sem embargo para o seu importantíssimo contributo para a elevação dos comics a arte respeitável, foi nos cartoons que Jerry Robinson encontrou a sua verdadeira vocação. Dois dos seus maiores sucessos nessa área foram Flubbs and Fluffs e Still Life. A primeira reproduzia algumas das mais hilariantes gafes cometidas pelos alunos americanos; a segunda, protagonizada apenas por objetos inanimados, analisava com humor as notícias que marcavam a atualidade.
A sátira política e a crítica de costumes eram, com efeito, as pedras angulares do seu trabalho. Em plena Guerra Fria, Robinson foi diretor artístico e coargumentista de Stereotypes, filme de animação que mostrava a forma como russos e americanos se percecionavam mutuamente.

Still Life rendeu vários prémios ao seu autor.

Às inquestionáveis capacidade técnicas Jerry Robinson somava igualmente inquestionáveis qualidades humanas. Entre 1967 e 1969, presidiu à Sociedade Nacional de Cartoonistas, precedendo o seu mandato de dois anos (1973-75) à frente da Associação de Cartoonistas Editorais Americanos. Ambas as organizações forneceram uma plataforma poderosa para Robinson contactar artistas de todo o mundo, lançando assim as bases de um sindicato global. Sob a égide do qual foi conseguida a libertação de cartoonistas presos pelas suas opções políticas, em países como a ex-União Soviética ou o Chile.
Mais ou menos pela mesma altura, Jerry Robinson - assistido por Neal Adams - foi crucial na resolução do contencioso que opunha Jerry Siegel e Joe Shuster à DC Comics. Graças à sua campanha solidária para com os desafortunados criadores do Super-Homem, a Editora das Lendas concordou em pagar-lhes uma pensão vitalícia e creditá-los em todas as vindouras publicações e adaptações do Homem de Aço aos diferentes meios de comunicação.

Jerry Robinson (dir.) com Neal Adams, Jerry Siegel e Joe Shuster.

Autor de vasta bibliografia acerca da história dos comics, Jerry Robinson, o homem que nunca se viu apenas como um artista dos quadradinhos, foi seu embaixador incansável. A sua devoção à causa beneficiou as carreiras de centenas de oficiais do mesmo ofício. Estes retribuíram cobrindo-o de prémios e honrarias, algumas das quais pecaram apenas por tardias. Foi o caso, por exemplo, da inclusão do seu nome, em 2004, no Comic Book Hall of Fame, que, na era do efémero, eterniza os demiurgos da 9ª Arte. Robinson, por sua vez, instituiu no ano seguinte o Prémio Bill Finger, atribuído postumamente a escritores a quem foi negado o devido reconhecimento em vida. Jerry Siegel foi o primeiro contemplado.
A 7 de dezembro de 2011 (Dia de Pearl Harbor, data tão simbólica como a do seu nascimento), Jerry Robinson, prestes a completar 90 anos, partiu tranquilamente durante o sono. O sonho de qualquer dorminhoco. Sobreviveram-lhe a esposa, dois filhos, dois netos e um riquíssimo legado cultural, sem precedentes nem paralelo. 
Se a grandeza de um homem é mensurável pela nobreza das causas que abraçou ao longo da vida, Jerry Robinson foi, sem sombra de dúvida, um gigante. Cujas pegadas no imaginário coletivo jamais serão apagadas.


O dia em que o Palhaço chorou a morte do seu criador.





*Este blogue tem como Guia de Estilo o Acordo Ortográfico de 1990 aplicado à variante europeia da Língua Portuguesa.
*Textos sobre Bob Kane, Bill Finger, Joker e Robin disponíveis para leitura complementar.
 














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20 maio 2021

HERÓIS EM AÇÃO: JUIZ DREDD


  Num futuro distópico sob o signo do autoritarismo, polícias urbanos são juízes, júris e executores. Mas nenhum é tão temido como aquele que representa a face empedernida da Lei. No implacável tribunal das ruas, o seu nome ecoa como uma sentença de morte.

Denominação original: Judge Dredd
Editoras: Fleetway/ IPC Media (1977-2000); Rebellion Developments (desde 2000)
Criadores: Pat Mills (nome), John Wagner (conceito) e Carlos Ezquerra (arte conceptual)
Estreia: 2000 A.D. #2 (março de 1977)
Identidade civil: Joseph Dredd
Espécie: Humano
Local de nascimento: Mega City 1
Parentes conhecidos: Eustace Fargo ("pai"); Rico Dredd (irmão gémeo, falecido); Vienna Dredd (sobrinha); Jessica Paris (clone); Dolman (clone)
Ocupação: Juiz de Rua
Base operacional: Mega City 1
Afiliações: Departamento de Justiça de Mega City 1
Némesis: Juiz Morte
Poderes e parafernália: Dredd é o Juiz supremo, um agente veterano e altamente treinado da melhor força policial alguma vez criada. Especialista em técnicas de autodefesa, é exímio no combate corpo a corpo. O seu físico imponente torna a sua presença intimidante em qualquer contexto. Também já provou possuir força superior à de um homem da sua idade e tamanho. É frequente derrubar adversários mais corpulentos com um único golpe.
Por razões nunca explicitadas, Dredd é imune a sondagens telepáticas e ataques psíquicos. Nem a Juíza Anderson, sua ocasional parceira precognitiva, lhe consegue perscrutar a mente. Este talento reveste-se de grande utilidade, considerando a profusão de mutantes telepatas recenseados em Mega City 1.
Do equipamento-padrão dos Juízes de Rua fazem parte uma espingarda compacta com munição de alto calibre, um bastão extensível com preenchimento de titânio e uma faca balística. Originalmente, Dredd dispunha também de um detetor de mentiras portátil. Apesar de virtualmente infalível, o aparelho depressa seria descartado pelos argumentistas, a fim de evitar óbvios constrangimentos narrativos.
O uniforme de Dredd é isotérmico e  reforçado por uma liga especial de plástico e aço, assegurando-lhe proteção eficaz contra esfaqueamentos ou ataques com outro tipo de objetos contundentes. Depois de ter tido as suas córneas danificadas em combate, Dredd recebeu implantes biónicos que lhe proporcionam visão noturna de elevadíssima resolução. 
Fabricado com o mesmo material ultrarresistente do seu uniforme, o capacete de Dredd possui um comunicador e um respirador embutidos, além de uma viseira polarizada.
No entanto, a verdadeira coqueluche do arsenal ambulante de qualquer Juiz de Rua é a Lawgiver. Trata-se de uma sofisticada pistola programada para reagir apenas à impressão palmar do respetivo usuário, autodestruindo-se se manuseada por outrem. A Lawgiver usa seis tipos de munição diferentes: balas comuns, de borracha, de rastreamento, perfurantes, incendiárias e explosivas. Pode ainda efetuar disparos paralisantes, embora careça, para esse efeito, de munição especial.

A munição incendiária da Lawgiver
 incinera instantaneamente os seus alvos.

Nas suas ações diárias de patrulhamento urbano, Dredd faz-se habitualmente transportar na sua Lawmaster. Um motociclo de alta cilindrada, com blindagem antibala, dois pequenos canhões montados nas laterais e um feixe laser de alta precisão embutido centralmente. Equipada com inteligência artificial, esta autêntica máquina de guerra de duas rodas responde aos comandos vocais do seu usuário, pode operar autonomamente e dispõe de um sistema de videocomunicação integrado. A interface do veículo com o Departamento de Justiça permite, adicionalmente, receber e transmitir informação em tempo real. Apesar da Lawmaster ser o meio de transporte favorito de Dredd, ele já foi visto a montar um alazão negro chamado Henry Ford (em homenagem ao visionário da indústria automóvel americana) e até um alce(!).
Ao cabo de décadas a policiar as violentas ruas de Mega City 1, tendo sobrevivido a incontáveis atentados contra a sua vida, Dredd desenvolveu sentidos aguçados quase ao nível de um felino. Graças a eles e ao seu instinto apurado, raramente é apanhado de surpresa. Tanto mais que é também um perito em contraguerrilha urbana.
Apesar de enfrentar ameaças tão diversificadas como mutantes, canibais ou juízes exterminadores de outra dimensão, Dredd confia plenamente nas suas capacidades. Porque ele é o braço forte da Lei, a Justiça com nervos de aço que não vacila perante nada nem ninguém.

Lawmaster, máquina de guerra de duas rodas.
 
Fraquezas: Em virtude da sua condição humana, Dredd é tão suscetível a maleitas, ferimentos e lesões incapacitantes como qualquer outra pessoa. Anos atrás, foi-lhe diagnosticado um tumor benigno no duodeno que, apesar de operável, representou um memento mori. Também os seus olhos biónicos podem ser permanentemente inutilizados por um pulso eletromagnético, deixando-o cego e indefeso em plena batalha. 
O principal ponto fraco de Dredd radica, porém, no seu fanatismo. O zelo apostólico com que aplica a Lei afeta-lhe o discernimento e isenta-o de empatia. Desse desacoplamento moral resulta a sua incapacidade para julgar de forma diferenciada delitos graves e infrações menores (como atirar lixo para o chão ou atravessar a rua fora da passadeira) cometidas pelos cidadãos que deveria proteger. Para ele, mais importante do que salvar inocentes é castigar os culpados. Dredd personifica, em última análise, a Justiça desumanizada que atua de forma arbitrária e sem autocrítica.

Fascismo chic

Quando, no final de 1976, o veterano editor da Fleetway, Pat Mills, preparava o lançamento de um novo magazine de ficção científica, convidou o escritor John Wagner a assessorá-lo no desenvolvimento de personagens para o número inaugural. Pouco tempo antes, Wagner idealizara um polícia austero ao estilo de Dirty Harry e sugeriu-o como mote. Mills, por seu turno, escrevera uma tira de terror chamada Judge Dread (Juiz Pavor, em tradução livre), tomando emprestado o pseudónimo artístico de Alexander Minto Hughes, um cantor britânico de reggae. Apesar de a ideia ter sido descartada, o nome, com a grafia alterada para "Dredd" por sugestão do subeditor Kelvin Gosnell, acabaria por ser aproveitado para o novo projeto.
A conceção visual do Juiz Dredd ficou a cargo de Carlos Ezquerra, artista espanhol (já falecido) que colaborara anteriormente com Mills em Battle Picture Weekly, uma antologia de contos de guerra ilustrados também editada com a chancela da Fleetway. 
Como sugestão de aparência, Wagner forneceu a Ezquerra um poster promocional do filme Death Race 2000  em que pontuava uma burlesca figura vestida de couro preto ao volante de um potente bólide. Tratava-se de Frankenstein, anti-herói de um futuro distópico interpretado por David Carradine.

A  inspiração para o visual de Dredd.

A esse já de si bizarro figurino, Ezquerra adicionou um sortido de adereços retirados da memorabilia punk: ombreiras, joelheiras, fechos e correntes. O resultado final desagradou, contudo, a Wagner, que comparou a personagem a um pirata espanhol. Ademais, a tecnologia e as paisagens urbanas imaginadas por Ezquerra eram demasiado futuristas para o primeiro quartel do século XXI que fora escolhido como enquadramento. A solução passou, então, por transplantar a história para o século XXII, cabendo a Mills fazer os ajustes necessários à narrativa original.
Mills baseou a caracterização do Juiz Dredd num dos seus antigos professores do colégio católico onde estudara na infância. Tal como essa figura do mundo real, Dredd seria um excelente profissional, mas também um disciplinador excessivamente rígido e, a espaços, abusivo. 
Por essa altura, Wagner, desiludido com o fracasso de uma proposta de compra do seu conceito por outra empresa, tinha já desistido de participar no projeto. Relutante em abrir mão do seu conceito, Wagner incumbiu vários escritores freelance de aprimorá-lo. Em consequência desse constrangimento de última hora, a história não ficaria pronta a tempo do lançamento do primeiro número de 2000 AD.
Por fim, a história escolhida para apresentar o Juiz Dredd aos leitores saiu da pena de Pete Harris. Por considerá-la demasiado violenta, o conselho de administração da Fleetway vetou-a sem apelo nem agravo. Uma vez mais, a solução passou por Mills reescrever a história, alterando-lhe inclusivamente o final.
Contrariamente ao previsto, não foi Ezquerra a assumir a respetiva arte, mas o recém-chegado Mike McMahon. Decisão que originou alguns atritos no seio da equipa criativa, com Ezquerra a não esconder o seu desagrado por ter sido preterido. 

Carlos Ezquerra (esq.) e John Wagner.

Dredd fez a sua mise-en-scène no segundo número de 2000 AD (março de 1977) e não deixou ninguém indiferente. Desde logo porque o seu rosto inteiro nunca era mostrado, conferindo-lhe uma aura de mistério e desumanidade. De facto, o que começou por ser uma diretriz não oficial, rapidamente se transformou num sacramento. A ideia era que Dredd simbolizasse a Justiça anónima e sem alma. Aquela que não poupava ninguém e que infundia temor. Mais do que um homem, Dredd era, pois, um instrumento repressivo do sistema.
Nos esboços iniciais de Ezquerra, Dredd possuía lábios grossos, tornando ambígua a sua origem racial. Nem todos os artistas que passaram pela tira levaram, porém, esse pormenor em conta. Ao passo que McMahon desenhou Dredd como um afro-americano, outros, como Brian Bolland, atribuíram-lhe traços caucasianos. Diferenças que passaram despercebidas aos leitores, porquanto a tira era impressa a preto e branco. De todo o modo, com o tempo essa ideia seria abandonada prevalecendo o biótipo branco do herói. 
Nas suas primícias, a tira de Dredd era uma sátira mordaz à burocracia e à violência policial. Caricatura da autoridade, Dredd interpretava literalmente as leis, sem atenuantes e sem compreender o espírito das mesmas.

Nos esboços iniciais de Dredd,
os lábios carnudos sugeriam uma origem não-caucasiana.

O envoltório espampanante de Dredd combinava de forma pouco harmoniosa elementos retirados da iconografia fascista (capacete e águia como insígnia) com os já citados elementos da estética punk. Uma associação contranatura explicada pelo facto de Ezquerra ter crescido sob o regime franquista na sua Espanha natal e de ter presenciado de perto o nascimento da contracultura punk em terras de Sua Majestade. 
Essa ênfase no fascismo chic empurrou a personagem para um inusitado território narrativo. Em algumas histórias, Dredd era o herói, noutras o vilão, e, muitas vezes, sequer era o protagonista. Consequentemente, a sua tira semanal transitou por diferentes géneros: ficção científica, terror, comédia, etc. Sempre pautada por um humor coriscante, fez particular furor durante o consulado conservador de Margaret Thatcher. 
Inicialmente, as histórias de Dredd eram ambientadas no ano 2099. No entanto, contrariamente ao que é habitual na banda desenhada, aplicam-se-lhe as leis do tempo. Cada ano na tira corresponde a um ano na vida real. Por conseguinte, Dredd, que contava 33 anos em 1977, é hoje um octogenário e o decano dos Juízes de Rua. Após muita controvérsia e especulação, em 2016 foi finalmente revelado o segredo da sua jovialidade: tratamentos de rejuvenescimento. Dredd submete-se ciclicamente a eles, tendo a sua epiderme, tecido muscular e sistema vascular reconstruídos ao nível celular. É assim que se mantém eternamente jovem e vigoroso.
Às suas histórias serve de cenário um futuro distópico em que sucessivos conflitos em grande escala transformaram grande parte do planeta num imenso deserto radioativo chamado Terra Amaldiçoada. Quais oásis de civilização, gigantescos aglomerados urbanos acomodam milhões de pessoas. Mega City 1 é a maior dessas megalópoles. No seu interior, a automatização extensiva deixou a maioria da população desempregada, pelo que a criminalidade atinge níveis estratosféricos. Embora existam outras megacidades, grande parte da geografia mundial é vaga.
Além de ser um caso raro de longevidade editorial no Reino Unido (marcando presença em mais de mil edições de 2000 AD e dos seus próprios títulos), Dredd afirmou-se também na outra margem do Atlântico. Em 1983, a IPC (proprietária da Fleetway) lançou uma subsidiária nos EUA - a Eagle Comics -,  a qual distribuía, essencialmente, reimpressões das tiras originais.
À parte algumas minisséries lançadas pontualmente pela IDW Publishing, Dredd não tem sido visto com muita frequência em terras do Tio Sam. Por contraponto, na Velha Albion continua a ser a figura de proa do magazine 2000 AD, agora publicado pela Rebellion, uma produtora de jogos de vídeo convertida em editora de quadradinhos.
Semana após semana, Dredd continua a arrastar uma legião de fãs de diferentes gerações e parece ter ganho novo fôlego com o totalitarismo sanitário que vai fazendo o seu caminho à boleia da pandemia de Covid-19. Com a indústria britânica de quadradinhos a fazer ponto de honra que o seu maior ícone seja também o mais subversivo.

2000 AD continua a ter Dredd como astro principal.


Juiz Supremo

O Sistema de Juízes foi idealizado por Eustace Fargo, Procurador Especial nomeado pelo Governo entre 2027 e 2031, em resposta à onda de criminalidade violenta que empurrava a sociedade americana para a anarquia. Ultrapassada a resistência do Congresso, que contestava a suspensão do Estado de Direito, o plano de Fargo foi aprovado com o inequívoco apoio do povo e do próprio Presidente.
Investidos de autoridade para agirem como juízes, júris e executores, os membros da nova força policial de elite conseguiram suster o crime e a desordem que campeavam um pouco por todo o país. Enquanto os Juízes de Rua assumiam o patrulhamento urbano, os Juízes Administrativos encarregavam-se dos procedimentos burocráticos. A incorruptibilidade de uns e outros era, aparentemente, preservada pelo Conselho Superior da Magistratura - ainda que alguns dos seus membros tenham, também, infringido a Lei. 
No rescaldo da III Guerra Mundial (2070) e da descoberta de que o Presidente em funções adulterara o processo eleitoral, os Juízes invocaram a "mãe de todas as leis" (a  Constituição dos EUA) para derrubarem o Governo federal e legitimarem a sua consequente tomada do poder. 
Sempre estribados no forte apoio dos seus concidadãos, os Juízes extinguiram o cargo presidencial e indigitaram o Juiz-Chefe como novo líder da nação. Com o passar dos anos, o Sistema de Juízes disseminou-se por quase todo o globo, tornando-se o modelo mais comum de governação na viragem do século XXI.
Pouco anos antes, em 2066, Joseph e Rico Dredd haviam sido clonados a partir do ADN do Juiz-Chefe Fargo, dado como morto no cumprimento do dever. A ideia era criar uma estirpe superior de Juízes, que serviria de modelo aos restantes. Nesse sentido, o crescimento dos gémeos foi artificialmente acelerado durante a gestação. 
Em resultado desse processo de bioengenharia, eles nasceram com o desenvolvimento fisiológico e mental de uma criança de 5 anos, com conhecimento e treino adequados às futuras funções já implantados nos seus cérebros. Ufano do seu trabalho, o  cientista que os criou escolheu o apelido Dredd  para instilar medo na população. 


Os gémeos Joseph e Rico Dredd
 nos teus tempos de cadetes na Academia de Direito.

Chamados, uma vez mais, a restaurar a ordem e o primado da Lei, os Juízes tiveram os seus poderes ainda mais reforçados no pós-guerra. Sob a supervisão de um Juiz sénior, os irmãos Dredd, cadetes recém-admitidos na Academia de Direito, foram nomeados Juízes temporários. Apesar de serem apenas crianças, eles cumpriram exemplarmente a sua missão, exibindo sangue-frio quando foram obrigados a tirar a vida a criminosos.
Num feliz acaso, Joseph e Rico descobriram que o seu "pai", o Juiz-Chefe Fargo, estava afinal vivo e de boa saúde. Agora um crítico acerbo do sistema que ajudou a fundar, Fargo partilhou com os "filhos" as suas dúvidas acerca das virtudes do Departamento de Justiça. E, sobretudo, em relação à forma como este sonegara liberdades e direitos para erigir um estado policial sobre as ruínas da democracia. Contudo, nenhum dos irmãos questionou o papel que o sistema lhes atribuíra e Fargo, por conta das suas diatribes, foi colocado em animação suspensa.
De regresso à Academia de Direito, os irmãos Dredd destacaram-se dos restantes cadetes pela sua disciplina e eficiência. Rico formou-se em primeiro lugar na classe de 79, logo seguido por Joseph. A rivalidade corria-lhes no sangue, com Rico a superar invariavelmente o irmão. Apesar disso, mantiveram-se inseparáveis até o destino intervir. 
Anos mais tarde, ao tomar conhecimento de um esquema de extorsão montado por Rico, Joseph não hesitou em prender o irmão. Finalmente livre da sombra de Rico, ele logo conquistou a reputação de Juiz supremo de Mega City 1, a caótica e sobrepovoada megalópole que ocupa o território correspondente à antiga Costa Leste dos EUA.
No implacável tribunal das ruas da sua cidade, Dredd é a Lei e o seu nome ecoa como uma sentença de morte.

Justiça sem rosto.


Miscelânea

*Numa alusão à expressão granítica de Dredd é à rigidez da sua conduta, os seus tutores da Academia de Direito deram-lhe a alcunha de Velho Cara de Pedra. Nas ruas de Mega City 1, o mais famoso dos Juízes é também conhecido por Homem Morto e Rei Queixo (devido à mandíbula proeminente que é sua imagem de marca);
*Em mais de quatro décadas de publicação, Dredd quase nunca removeu o capacete. Numa das raríssimas ocasiões em que o fez (2000 AD #7), a imagem foi sombreada e o diálogo que a acompanhava sugeria que o seu rosto seria horrivelmente desfigurado. Numa outra ocasião, quando assaltantes surpreenderam Dredd no seu apartamento durante a madrugada, ficou implícito que ele dormiria de capacete. Houve ainda uns quantos flashbacks mostrando o rosto de Dredd na puberdade mas, fora isso, a sua verdadeira aparência permanece uma incógnita;
*Dredd é o autor de A Conduta do Juiz, compêndio usado para doutrinar subliminarmente os candidatos a Juízes com recurso às máquinas de sono;
*Num raro momento de lazer, mostrado em 2000 AD #33, Dredd foi visto a ler Crime e Castigo, a obra-prima de Dostoievski, que se presume ser o seu livro favorito;
*Embora vigente no ordenamento jurídico de Mega City 1, a pena capital raramente é aplicada. Em contrapartida, as execuções sumárias motivadas por resistência à autoridade são corriqueiras;
*Dredd está legalmente habilitado a unir duas ou mais pessoas pelos laços do matrimónio, assim como a oficializar divórcios;
*A Classe de 79 da Academia de Direito incluiu um número excecionalmente alto de juízes moralmente enviesados. Rico Dredd, Gibson e Raider traíram o seu juramento solene e foram sumariamente executados por Dredd. Após ser encontrado na posse de imagens indecorosas, o Juiz Nestor foi destacado para administrar uma colónia penal na Terra Amaldiçoada, acabando por suicidar-se no seu posto. Já o Juiz Kimble foi preso devido a um esquema de peculato. Por fim, a conduta do próprio Dredd, apesar de completamente legal, causou a morte a 500 milhões de pessoas durante a Guerra do Apocalipse, naquele que foi considerado o maior genocídio da História;
*Dredd tem como arqui-inimigo o Juiz Morte, líder dos Juízes Negros originários de uma dimensão paralela onde a vida foi criminalizada. No fundo, o Juiz Morte é um reflexo distorcido do próprio Dredd;

Para o Juiz Morte, a vida é o crime supremo.

*Em 2012, o Juiz Dredd foi uma das dez personagens dos quadradinhos britânicos homenageadas numa série especial de selos emitidos pelo Royal Mail. Isto depois de, no ano anterior, ter sido escolhido para figurar na capa da edição europeia da antologia 1001 Comics You Must Read Before You Die;
*Espremido entre Spawn (Image Comics) e Preacher (DC), o Juiz Dredd surge em 35º lugar entre os 100 melhores super-heróis de todos os tempos selecionados em 2011 pelo IGN;
*I Am the Law, um dos temas mais conhecidos da banda americana de trash metal Anthrax, foi inspirado no Juiz Dredd. O grupo lançou também um single com a imagem do herói estampada na capa;
*Dredd é frequentemente invocado no âmbito de debates sobres estados policiais, autoritarismo e direitos humanos organizados em fóruns britânicos. Aos olhos de muitos políticos e académicos, ele representa uma das melhores sátiras do justicialismo fascizante arreigado na cultura anglo-saxónica;
*À semelhança de tantas outras obras de ficção científica, as histórias de Dredd anteciparam, com estranha precisão, diversas tendências e acontecimentos futuros. Foram os casos, por exemplo, da obesidade epidémica, do advento dos reality shows televisivos, da ascensão dos políticos populistas, da vigilância em massa e da arte urbana como instrumento subversivo. Por realizar estão ainda as competições de taxidermia humana e o túnel submarino entre as ilhas britânicas e a Costa Leste dos EUA;

Dredd imortalizado na capa do single mais famoso dos Anthrax.

*No Brasil, as histórias do Juiz Dredd foram inicialmente publicadas pela EBAL que, em 1979, as incluiu no alinhamento do seu magazine Ano 2000 (versão traduzida de 2000 AD). A partir da década de 1990, da Abril à Mythos, passando pela Pandora Books, foram várias as editoras a assumirem a publicação desse material em terras de Vera Cruz. Ao passo que, em Portugal, o ineditismo de Dredd foi apenas interrompido em 1995, quando a Meribérica, numa tentativa de capitalizar a estreia cinematográfica do herói nesse mesmo ano, lançou o crossover Batman / Juiz Dredd: Julgamento em Gotham;
*Já adaptado a diferentes media, foram até ao momento produzidos dois filmes do Juiz Dredd: A Lei de Dredd (1995), com Sylvester Stallone como protagonista, e Dredd (2012), com Karl Urban como cabeça de cartaz. Apesar do pífio desempenho comercial de ambos, serviram para reforçar o  estatuto de totem da cultura popular de uma personagem que Hollywood descaracterizou grosseiramente. 

Dois juízes, o mesmo veredito: fiasco!




*Este blogue tem como Guia de Estilo o Acordo Ortográfico de 1990 aplicado à norma europeia da Língua Portuguesa.
*Resenha do filme Dredd disponível para leitura complementar.