14 fevereiro 2023

CLÁSSICO DA 9ª ARTE: «MORTE EM FAMÍLIA»


  35 anos atrás, uma inédita (e polémica) iniciativa interativa da DC selou o trágico destino do Menino-Prodígio. Impotente para salvar o seu fiel escudeiro da malquerença dos fãs, o Cavaleiro das Trevas, de coração contrito, é assombrado até hoje pelo espectro do seu maior fracasso.

Título original: A Death in the Family
Editora: DC
País: Estados Unidos da América
Data de publicação: agosto a novembro de 1988
Títulos abrangidos: Batman #426-429
Argumento: Jim Starlin
Arte: Jim Aparo e Mike Mignola (capas)
Protagonistas: Batman, Robin e Joker
Cenários: Gotham City, Líbano, Etiópia, Nova Iorque
Edições em português: Em novembro de 1989, precisamente um ano após o lançamento da saga original, a Abril brasileira editou a sua primeira versão em português tropical. Sob o título a Morte de Robin, os quatro capítulos da história foram compilados em DC Especial nº1. A Abril foi, de resto, a única editora que não privilegiou a tradução literal do título em inglês. Todas as reedições posteriores, sob a chancela alternada da Panini e da Eaglemoss, foram tituladas Morte em Família
A despeito da sua grada importância na continuidade do Cavaleiro das Trevas, Morte em Família, à semelhança de tantas outras obras capitais da Editora das Lendas, segue inédita em terras lusitanas.


A primeira edição em português da saga foi lançada pela Abril em 1989,
ano em que se celebrou o cinquentenário do Batman.


Chamada para a morte

Pajem adolescente do Cavaleiro das Trevas na sua obstinada cruzada contra o crime, Robin foi apresentado aos leitores em abril de 1940, no 38º número de Detective Comics. Vestia então a fantasia de cores garridas Dick Grayson, um pequeno órfão adotado por Bruce Wayne. Criação conjunta de Bob Kane, Bill Finger e Jerry Robinson, o Menino-Prodígio foi introduzido para aumentar o apelo das histórias do Batman junto do público infantil.
A fórmula resultou e, até ao início dos anos 1980, Robin foi a metade jovial do Duo Dinâmico. Por aqueles dias liderava também os Novos Titãs, saindo aos poucos da sombra do seu mentor. Perante esta evolução, fez-se necessário arranjar-lhe um substituto.
Jason Todd fez a sua primeira aparição em Batman #357 (março de 1983), nas vésperas de Dick Grayson renunciar às suas funções de adjunto do Homem-Morcego, para a assumir a identidade de Asa Noturna. Com a bênção do antecessor, Jason herdou então o manto de Robin.
Na sua versão original, a história de Jason Todd era tirada a papel químico da de Dick Grayson. Como este, Jason era filho de acrobatas circenses, tendo sido perfilhado por Bruce Wayne após o assassinato dos seus pais.
No entendimento da DC, manter o status quo era o mais importante. O Duo Dinâmico tinha de continuar a existir. Mesmo que o novo Robin fosse apenas uma cópia barata do original. Com efeito, o diferencial entre as duas personagens resumia-se à cor do cabelo (Jason era louro natural). 
Sem surpresa, aos olhos de muitos fãs Jason era um usurpador, ainda por cima sem metade do carisma do legítimo titular do cargo. Por mais que Jason se esforçasse, Dick Grayson sairia sempre vencedor daquele jogo de espelhos geracional.

Jason Todd era originalmente louro.

Tudo mudou após a Crise nas Infinitas Terras. Como tantas outras personagens da DC, Jason Todd teve a sua origem recontada na nova continuidade. Em Batman #408 (junho de 1987), foi reintroduzido como um menino de rua que cometia pequenos furtos para sobreviver e que, vez por outra, gostava de fumar um cigarro. Bruce Wayne tentou reabilitá-lo depois de Batman ter surpreendido o rapaz enquanto roubava os pneus do Batmóvel estacionado num beco esconso.
O novo Jason Todd provou-se, contudo, ainda mais impopular do que o original. A sua têmpera rebelde e impulsiva irritava solenemente os leitores, mas não só. Também Jim Starlin, o novo escritor das histórias do Batman, não escondia a sua aversão pela personagem, evitando usá-la sempre que possível.
Cientes de que Jason Todd era um problema que precisava ser resolvido, as equipas criativas do Batman começaram a discutir nova reformulação. Starlin, ao invés, defendia abertamente a morte de Jason Todd. Numa surdina cada vez mais ruidosa, outras vozes se lhe juntaram.
Aproveitando a preparação de uma edição especial destinada a sensibilizar os leitores para a prevenção do VIH/SIDA, Starlin, já com as mortes do Capitão Marvel e de Adam Warlock no currículo, sugeriu que Jason Todd sucumbisse ao vírus. Embora rejeitada, a proposta teve o condão de quebrar definitivamente o tabu em redor de uma possível eliminação do mal-amado Menino-Prodígio.

Jim Starlin tinha em Jason Todd um dos seus ódios de estimação.

Durante uma reunião com a Presidente da DC, Dennis O'Neill, à época editor do Batman, propôs que o destino de Jason Todd fosse decidido pelos leitores através de uma votação telefónica. Ideia inspirada naquele que tinha sido um exemplo pioneiro de televisão interativa. Em 1982, durante um episódio do Saturday Night Live, Eddie Murphy convidara os espectadores a decidirem se ele devia ferver uma lagosta viva ou poupar o pobre crustáceo. Para isso, teriam apenas de ligar para um dos dois números de valor acrescentado disponibilizados para o efeito. O meio milhão de chamadas recebidas excedeu todas as expectativas e, no final, a lagosta foi poupada. 
Intrigada, a Presidente da DC deu luz verde a O'Neill. Que, por sua vez, incumbiu Jim Starlin, recém-contratado à Marvel, de criar uma história com dois finais diferentes: um em que Robin sobrevivia, outro em que morria. Quanto ao potencial algoz do Menino-Prodígio, o Joker prefigurou-se como a escolha natural para todos. Mais a mais porque também fora o Palhaço do Crime a assassinar Jason Todd em The Dark Knight Returns (O Regresso do Cavaleiro das Trevas).
Importa ter presente que, até então,  a única iniciativa interativa da DC se tinha resumido a permitir que os leitores escolhessem o líder da Legião dos Super-Heróis. Por comparação com o que estaria em jogo na votação telefónica, era uma minudência.

Eddie Murphy anuncia a votação final no programa que inspirou Dennis O'Neill.

Ainda sem uma clara noção do alcance da saga, os leitores esgotaram os seus dois primeiros capítulos, publicados em Batman #426 e Batman #427. Este último terminava com o Homem-Morcego a carregar o corpo ensanguentado do Menino-Prodígio para fora do armazém que o Joker mandara pelos ares. Ao lado, um anúncio de página inteira rezava assim: "Robin irá morrer porque o Joker quer vingança, mas podes evitá-lo com um telefonema". 
A 15 de setembro de 1988, os dois números de telefone, com um custo associado de 50 cêntimos, foram ativados durante 35 horas. Enquanto a votação decorria, Dennis O'Neill, com os nervos à flor da pele, ia, de hora a hora, verificando a evolução dos resultados. Apesar de ter votado pela sobrevivência de Robin, O'Neill temia que muitos leitores votassem em sentido oposto apenas para ver se a DC respeitaria o veredito fatal.
No total, foram recebidos 10641 votos, 5343 dos quais favoráveis à morte do Menino-Prodígio - apenas mais 72 do que os contabilizados em prol da sua sobrevivência. De tão tangencial, esta diferença alimentou suspeitas de que os resultados poderiam ter sido falseados. Embora tal nunca tenha sido comprovado, circularam rumores de que um advogado californiano teria programado o seu computador para discar o número fatídico a cada poucos minutos.

A vida do Menino-Prodígio foi jogada numa votação telefónica.


Teorias conspiratórias à parte, a morte de Jason Todd dividiu os fãs. Foram tantos os que a celebraram como os que a lamentaram. Meses depois do lançamento do capítulo final da saga, as secções de correspondência das revistas do Batman continuavam em ebulição. Dennis O'Neill recebeu dezenas de telefonemas de fãs furiosos, mas também de avós lacrimosas, sem saberem o que dizer aos netos que idolatravam o Menino-Prodígio.
A exemplo do que, anos depois, sucederia com a morte do Super-Homem, o trágico fim de Robin teve grande ressonância mediática. A Reuters e o USA Today foram dois dos órgãos de comunicação social que lhe deram ampla cobertura. A generalidade dos relatos omitiam, porém, que Jason Todd não era o Menino-Prodígio original.
Apesar da polémica aguerrida que a envolveu (ou, mais provavelmente, por causa dela), A Death in the Family foi o maior best-seller de 1988. Numa verdadeira corrida contra o tempo, a DC conseguiu lançar o respetivo volume encadernado a tempo do Natal desse ano, impulsionando ainda mais as vendas. 
No ano seguinte, o Cavaleiro das Trevas comemoraria o seu cinquentenário sem a presença do seu fiel escudeiro. Uma ausência de peso lamentada por muitos fãs do Duo Dinâmico.

O maior (e mais controverso) best-seller de 1988.


Laços de sangue

O Duo Dinâmico vive um momento conturbado. A relação entre Batman e o seu imberbe parceiro vem azedando por causa das ações cada mais mais imprudentes de Robin. O ponto de rutura ocorre quando, durante uma operação de vigilância a uma perigosa quadrilha, o impetuoso Menino-Prodígio avança sozinho. Agastado com a indisciplina do seu pupilo, o Homem-Morcego decide tomar medidas drásticas: Jason Todd é dispensado das suas funções de Robin.
Em conversa com Alfred, Bruce Wayne atribui a crescente instabilidade emocional de Jason ao facto de ele não ter ainda superado a morte dos pais. Apesar de se recusar a discutir o assunto, Jason visita o bairro onde cresceu, numa zona degradada de Gotham. De passagem pela sua antiga morada, uma vizinha entrega-lhe uma caixa com alguns pertences do pai.
Entre fotografias e documentos, Jason encontra a sua certidão de nascimento. Ao examiná-la constata que o nome da mãe, embora esborratado, tem um S - e não um C, como em Catherine Todd - como letra inicial. Ultrapassado o choque, Jason conclui que Catherine era afinal sua madrasta, e não a mulher que o trouxera ao mundo. Um segredo familiar que o pai levara para o túmulo.
Após voltar a vasculhar a papelada, Jason encontra a agenda de contactos do pai. Nela figuram três mulheres cujos nomes começam por S. Decide então investigar a identidade e paradeiro de cada uma delas com a ajuda do Batcomputador.

A imprudência de Robin levava-o a correr riscos desnecessários. 

Enquanto isso, o Joker consegue escapar, uma vez mais, do Asilo Arkham, deixando para trás uma pilha de cadáveres. Batman fica mortificado ao descobrir que o seu némesis obteve um míssil nuclear e que planeia vendê-la a terroristas do Médio Oriente.
Na Batcaverna, Jason recorre a técnicas forenses para localizar as candidatas a sua mãe biológica. Todas elas se encontram, no entanto, fora dos EUA. Duas vivem atualmente no Líbano, a terceira na Etiópia. Animado pelo desejo de reatar os últimos laços de sangue que lhe restam, Jason foge da Mansão Wayne para embarcar numa demanda que o levará ao outro lado do mundo.
Recém-chegado ao Líbano, Jason reencontra Bruce Wayne, em missão secreta para impedir que um grupo terrorista local use a bomba nuclear do Joker para destruir Tel Aviv. Assim reunido por um acaso do destino, o Duo Dinâmico consegue gorar esse diabólico plano.
Sharmin Rosen, uma agente da Mossad destacada no Líbano, é a primeira candidata interrogada por Jason. Contudo, ela nega ter alguma vez estado em Gotham City.
Perante o desalento de Jason, Bruce concorda em ajudá-lo a entrar em contacto com a segunda candidata. Por coincidência, uma velha conhecida do Batman: a mercenária Lady Shiva. Mas também ela, sob o efeito do soro da verdade, confirma não ser a mulher que procuram. A resposta para o enigma materno poderá estar a um continente de distância.
Na Etiópia, Jason encontra finalmente a sua mãe: Sheila Haywood, uma médica a prestar serviço humanitário naquele país do Corno de África. Apesar do reencontro emotivo, Sheila esconde segredos sórdidos e está a ser secretamente chantageada pelo Joker. O Palhaço do Crime descobrira que ela deixara Gotham depois de ter realizado abortos clandestinos que resultaram na morte de uma jovem. Em troca do seu silêncio, o vilão exigiu que Sheila lhe entregasse todos os suprimentos médicos armazenados pela sua ONG. A ideia era vender parte do material no mercado negro e substituir o restante pelo seu mortífero gás hilariante.
Sheila vinha também desviando verbas da agência e, ao descobrir que Jason é Robin, não hesita em entregar o próprio filho ao Joker, para ter os seus crimes acobertados. A traição materna foi ainda mais dolorosa do que a orgia de violência que se seguiu. 

O emotivo reencontro de Jason Todd com a mãe.

Entre risadas maníacas, o Palhaço do Crime espanca brutalmente o Menino-Prodígio com um pé-de-cabra, deixando-o inanimado numa poça de sangue. Em seguida, tranca-o juntamente com a mãe no interior de um armazém e aciona uma bomba-relógio. A vida do Menino-Prodígio acaba de entrar em contagem decrescente. 
Ao recobrar a consciência, Jason luta desesperadamente para soltar a mãe. Percebendo que não conseguirá fazê-lo a tempo, lança-se sobre a bomba, amortecendo com o corpo o impacto da explosão.
Horas mais tarde, Batman depara-se com os corpos estropiados de Jason e Sheila entre os escombros fumegantes do armazém. Jogando uma cartada fatal, Joker acrescentou o assassinato do Menino-Prodígio ao seu baralho de atrocidades.

A brutal vingança do Palhaço do Crime.

Traumatizado pela morte do seu protegido, Bruce Wayne leva os restos mortais de Jason para Gotham. Além de Alfred, ao funeral comparecem apenas o Comissário Gordon e a sua filha Barbara. O Cavaleiro das Trevas culpa-se pelo cruel destino do seu pajem e volta a ser o guardião solitário de Gotham, cuja noite amortalha o seu sofrimento.
Entretanto, Joker é nomeado embaixador do Irão nas Nações Unidas pelo próprio aiatolá Khomeini. Dias depois, chega a Nova Iorque para participar na Assembleia Geral da ONU. À entrada do edifício, Bruce Wayne é interpelado pelo Super-Homem. Enviado pelo Departamento de Estado americano, o Homem de Aço consegue, a custo, demover o seu velho amigo de atentar contra a vida de um alto dignitário estrangeiro, prevenindo um grave incidente diplomático.
Graças aos seus contactos de alto nível, Bruce obtém no entanto o estatuto de observador não-oficial que lhe garante acesso à Assembleia Geral. Durante o seu discurso perante os delegados, Joker acusa o mundo de tratar o regime iraniano como uma ameaça quase tão grande como ele próprio. De súbito, o vilão tenta libertar o seu gás tóxico, mas é impedido pelo Super-Homem, que a tudo assistia disfarçado de segurança.
Com Batman no seu encalço, Joker tem um helicóptero à sua espera. Enquanto ambos lutam a bordo do aparelho, um dos sequazes do Palhaço do Crime dispara uma rajada de metralhadora, atingindo mortalmente o piloto. O helicóptero despenca, desgovernado, em direção ao rio Hudson, mas Batman é salvo pelo Homem de Aço. Apesar dos esforços deste, o corpo do Joker não é encontrado.
Pesaroso, Batman lamenta que todos os confrontos com o seu arqui-inimigo terminem sem uma solução definitiva. Nunca antes se sentira, porém, tão tentado a ultrapassar a linha vermelha que o separa do Palhaço do Crime.

Dobre a finados pelo Menino-Prodígio.


Apontamentos

*Foi Dick Grayson quem, na origem pré-Crise de Jason Todd publicada em Detective Comics #526 (1983), se prontificou a adotá-lo depois de os pais do rapaz terem sido assassinados pelo Crocodilo. Apesar de Bruce Wayne ter chamado a si essa responsabilidade, é interessante imaginar quão diferente teria sido a vida de Jason se tivesse sido perfilhado pelo Robin original;
*Jason Todd tinha apenas 13 anos quando herdou o manto de Robin. O que significa que terá acolitado o Batman  por quase três anos, uma vez que foi assassinado nas vésperas de completar o seu 16º aniversário;
*Em sinal de respeito pelo seu antecessor, quando Jason Todd ocupou a  vaga de parceiro do Batman, considerou usar um nome diferente de Robin. Ás Voador (Flying Ace), Gaio Azul (Blue Jay), Cardeal (Cardinal) e Rapaz Dinamite (Kid Dynamite) foram algumas das alternativas sugeridas;
*O detetive Harvey Bullock reparou que o novo Robin era mais baixo e mais imaturo do que o original. Quando partilhou as suas suspeitas com o Comissário Gordon, este confirmou que as diferenças também não lhe tinham passado despercebidas. Nenhum deles se atreveu no entanto a interpelar Batman sobre o assunto;
*De todos os Robins, Jason Todd continua a ser o favorito do Joker. Não só porque foi o único que ele conseguiu matar, mas também porque a sua atitude sarcástica divertia genuinamente o Palhaço do Crime;
*Na Batcaverna existe um pequeno memorial dedicado a Jason Todd, cujo antigo uniforme se encontra permanentemente exposto numa cabina de vidro. Para o Batman, representa um doloroso lembrete do seu maior fracasso; para os outros Robins, um aviso para os perigos da função;

O memorial de Jason Todd na Batcaverna.

*A interação entre Batman e Joker nesta história sugere fortemente a possibilidade de o vilão conhecer a verdadeira identidade do herói. Referindo-se ao assassinato de Robin, o Palhaço do Crime diz que "até um louco pode somar dois mais dois". Ainda no mesmo diálogo, Batman refere-se ao seu parceiro como Jason, sendo do conhecimento público que era esse também o nome do pupilo de Bruce Wayne;
*Num arrepiante mau presságio, os três últimos dígitos do número de telefone que recebia os votos favoráveis à morte de Robin eram 666. Na Bíblia Sagrada, esse número representa a Besta que encarna o Mal e trará consigo o fim dos tempos;
*A apenas 15 minutos do encerramento da votação telefónica, a sobrevivência do Menino-Prodígio parecia assegurada por uma vantagem de 38 chamadas. Surpreendentemente, esse resultado seria repentinamente invertido, adensando assim as suspeitas de que o processo poderá ter sido de algum modo adulterado;
*Devido às suas representações estereotipadas dos muçulmanos, A Death in the Family foi acusada de cristalizar a islamofobia. Algumas das críticas mais contundentes partiram do ensaísta americano Jack Shaheen que, num estudo de 1991 intitulado Jack Shaheen versus the Comic Book Arab, se insurgiu contra a confusão entre terroristas, muçulmanos e fanáticos religiosos. O autor aponta também uma série de equívocos relacionados com a cultura do Médio Oriente. Desde logo a veste tradicional árabe usada pelo Joker enquanto embaixador do Irão, apesar de este não ser um país árabe. Shaheen considera que estas e outras gafes denunciam uma confrangedora ignorância por parte dos autores da saga;

Joker usa a roupa errada.

*O apreciável sucesso comercial de A Death in the Family não impediu que Jim Starlin fosse descartado pouco tempo após o lançamento do seu capítulo final. O departamento de licenciamento da DC ficou furioso com a morte de Robin por causa da enorme quantidade de merchandising com a imagem do Menino-Prodígio que ficaria encalhada. Regressado à Marvel, Starlin escreveu a saga cósmica Infinity Gauntlet (Desafio Infinito) que, ironicamente, ressuscitou outra personagem que ele havia matado: Adam Warlock;
*Até 2005, ano da sua ressurreição na saga Under the Hood (Sob o Capuz), Jason Todd integrou o restrito lote de personagens dos comics cujas mortes não foram revertidas. Nessa sua nova iteração, Jason, tomando emprestado o nome original do Joker, criou a persona Capuz Vermelho e passou a agir como um vigilante sanguinário. Continua. no entanto, a ser mais famoso por ter sido o único Menino-Prodígio morto em ação;
*Apesar de controversa, A Death in the Family figura entre as melhores histórias do Batman selecionadas por diferentes plataformas de entretenimento. No Top 10 da Newsarama, por exemplo, surge classificada em 5º lugar;
*Já anteriormente referenciada no filme Batman versus Superman: The Dawn of Justice e na segunda temporada de Titans, em 2020 a morte de Jason Todd deu origem à animação Batman: Death in the Family. Num exercício de interatividade inspirado na votação telefónica dos anos 80, ao espectador foi oferecida a possibilidade de escolher diferentes desfechos para a trama, acompanhando em seguida as ramificações de cada um desses cenários hipotéticos.;
*Por muitos anos, a versão alternativa de Batman #428 na qual Jason Todd sobrevivia permaneceu guardada nos arquivos da DC, em Burbank, Califórnia. Em março de 2020, o boletim online DC Daily divulgou finalmente essas páginas inéditas desenhadas por Jim Aparo.

O que aconteceria se Jason Todd não tivesse morrido?



Vale a pena ler?

Jason Todd estava condenado desde o início. De pálida imitação de Dick Grayson a delinquente juvenil, o segundo Robin nunca caiu nas boas graças dos leitores - que, legitimamente, questionavam o discernimento do Batman ao escolhê-lo para seu parceiro. A julgar pela maneira como lhe foram deformando a personalidade, os argumentistas também não morreriam de amores por ele.
A atitude insolente de Jason, o seu constante desvio do rigoroso código moral do Batman e as inevitáveis comparações com Dick Grayson foram criando cada vez mais anticorpos relativamente à personagem. Quando a DC, qual Pôncio Pilatos, colocou o destino do mal-amado Menino-Prodígio nas mãos dos fãs, foi como distribuir convites para um linchamento popular.
Historicamente, é fácil perceber a opção de dar aos leitores o poder de influenciarem ativamente o curso de uma narrativa tão importante. À época, a opinião pública americana ainda digeria uma sucessão de escândalos - coroada pelo caso Irão-Contras - que tinham exposto as fraquezas e contradições da política externa dos EUA.
Ao longo de toda a década de 1980, a cultura pop americana foi, pois, contaminada por um cinismo paranoico potenciado pela Guerra Fria. Obras como Watchmen e O Regresso do Cavaleiro das Trevas são exemplos pontuais dessa tendência, que perduraria até à viragem do século. Por sua vez, Morte em Família reflete inadvertidamente a desastrada abordagem feita pela Administração Reagan às complexas problemáticas do Médio Oriente. Aquelas que, nesta história, Jim Starlin reduz a uma caricatura baseada em equívocos e estereótipos. 
À ausência de nuances geopolíticas soma-se a crueldade do espetáculo montado a propósito do lançamento da saga. Anunciada como um grande evento, a morte de um mancebo de 15 anos foi orquestrada com um nível de visceralidade inaudito e sob os efeitos de um atroz eclipse moral.
A imagem do Joker a espancar alegremente Robin com um pé-de-cabra ficou para sempre esculpida no subconsciente coletivo. Mesmo passados 35 anos, as repercussões da saga são sentidas de cada vez que alguma das grandes editoras anuncia, com meses de antecedência, o fim de uma personagem importante. Morte em Família não teve apenas impacto nas histórias do Batman, mas em toda a indústria dos comics.
É, pois, de lamentar que os elementos mais controversos de Morte em Família tenham dominado a discussão acerca do seu enredo. Porque, em essência, trata-se de uma comovente tragédia familiar que realça os erros cruciais no relacionamento entre um pai e o seu filho adotivo. Chega a ser angustiante testemunhar o reforço da ligação emocional entre ambos, sabendo que a mesma não perdurará. Um suspiro de profundidade para uma trama que parece desenrolar-se ao acaso.
Com efeito, a desnecessária reviravolta que faz do Joker embaixador do Irão só contribui para o desgaste do arco, que poderia encerrar-se sem esse elemento absurdo - mesmo para os padrões do Palhaço do Crime. Ainda que aceitável, o desejo de vingança de Bruce Wayne nunca seria maior do que a dor resultante daquela que, depois da morte dos pais, foi a sua maior perda.  A morte de Jason Todd criou mais uma fissura no espírito fragilizado do Batman, evidenciando contornos sombrios que sempre estiveram presentes no herói
Vista com distanciamento, Morte em Família é um épico falhado. Tinha tudo para ser uma grande história, mas falta-lhe o nível adequado de dramatismo e suspense. Mesmo que o desenlace resulte da escolha do público, o argumento de Jim Starlin denota a inexistência de estudo prévio das consequências dos acontecimentos. Tanto a curto prazo, nas histórias subsequentes à morte do Menino-Prodígio, como a longo prazo, num futuro em que o surgimento de um terceiro Robin era expectável. Como um todo, o arco enferma de incoerência, como se minutos após a divulgação do resultado da votação telefónica que decidiu o destino de Jason Todd, a história completa se tivesse materializado nas bancas.
Sobra a sempre competente arte de Jim Aparo que, como é seu apanágio, se esmerou na representação das personagens e a transmitir clareza e dinamismo à narrativa visual. Igualmente dignas de nota são as capas desenhadas por Mike Mignola para as edições originais, cuja composição, rica em sombras, inspira uma crescente sensação de pavor e incerteza lúgubre.

Jason Todd: bad boy ou bode expiatório?


*Este blogue tem como Guia de Estilo o Acordo Ortográfico de 1990 aplicado à norma europeia da língua portuguesa.
*Artigos sobre Robin, Joker, Jim Aparo e Dennis O'Neill disponíveis para leitura complementar.














23 dezembro 2022

ETERNOS: CARMINE INFANTINO (1925-2013)


  Artista fundamental da Idade de Prata, delineou os contornos dessa nova era de esplendor dos super-heróis revividos pelo seu lápis. Ao leme da DC conjugou grandes talentos e tomou medidas controversas que lhe deslustraram o legado.

Lançada em outubro de 1956, Showcase #4 apresentou a reconfiguração moderna do Flash e assinalou o início da chamada Idade de Prata dos comics. A capa dessa edição histórica mostrava o Velocista Escarlate a sair, em passo de corrida, de uma tira de filme a preto e branco. O simbolismo da imagem era óbvio: anunciava-se o advento de uma nova geração de super-heróis. Mais dinâmica, otimista e de olhos postos no futuro.
Tanto a icónica capa como o belíssimo uniforme do novo Flash foram concebidos por Carmine Infantino, artista idiossincrático cujo traço suave e design inteligente ajudaram a definir o estilo visual de toda uma época.
A despeito de ter (re)criado personagens extremamente populares e de ser figura incontornável na história da 9ª Arte, o nome de Carmine Infantino pouco diz aos fãs atuais de super-heróis catequizados pelas megaproduções dos Estúdios Marvel ou pelas séries da CW. Foi, contudo, do lápis de Infantino que saiu a arquitetura da Idade de Prata, existindo um enlace entre o seu extraordinário percurso profissional e a história da DC. Ao serviço da qual viveu os seus momentos de maior glória mas, também, de maior controvérsia. O que só comprova que por detrás de cada lenda existe sempre um ser humano imperfeito que importa conhecer melhor.

Em 1956, Flash foi o arauto de uma nova era.

Carmine Michael Infantino nasceu a 24 de maio de 1925, no modesto apartamento que os seus pais, um casal de ascendência italiana, ocupavam no bairro nova-iorquino do Brooklyn. O seu pai, Pasquale "Patrick" Infantino, era violinista profissional antes de a Grande Depressão o obrigar a reinventar-se como canalizador. Apenas um dos muitos sacrifícios que fez para garantir o sustento da família. Carmine cresceu, por isso, a admirar o homem que lhe deu vida e o impediu de tomar decisões imprudentes.
Como tantas outras crianças daquela época de provações, o pequeno Carmine começou a trabalhar demasiado cedo. Aos 6 anos de idade já engraxava sapatos na rua com o avô materno; aos 10 levantava-se ainda de madrugada para fazer entregas com o tio, dono de uma mercearia. Biscates que reforçavam o magro orçamento familiar e que, de quando em vez, lhe permitiam comprar uma revista de banda desenhada.
Nos pouco tempos livres, Carmine gostava de ler a tira de Dick Tracy. Foi com ela que tomou o gosto pelo desenho e, sempre que podia, rabiscava figuras e edifícios. Sonhava ser arquiteto e foi animado por esse desejo que, na entrada para a puberdade, se matriculou na School of Industrial Arts (posteriormente renomeada High School of Art and Design), em Manhattan. Fizesse chuva ou fizesse sol, Carmine atravessava  a cidade a pé para assistir às aulas. Acompanhava-o nessa romaria diária Frank Giacoia, seu amigo de infância e  seu primeiro parceiro criativo.
Entre a escola e os biscates, Carmine passava o resto do tempo a tentar encontrar pessoas que trabalhassem nas histórias aos quadradinhos que tanto o fascinavam. Aos 15 anos, fez amizade com Charles Flanders, artista da tira Lone Ranger. Por sugestão de Flanders, Carmine tentou a sua sorte no estúdio de Harry "A" Chesler, um dos muitos que, desde a viragem da década de 30, providenciavam material às editoras que se aventuravam no emergente mercado dos comics.
Apesar da sua fama de velhaco, Harry Chesler revelou-se deveras atencioso com Carmine. Em vez de simplesmente despachar o jovem diletante, prontificou-se a pagar-lhe um dólar por dia para que ele aprendesse a desenhar com os profissionais do seu estúdio. Ao longo de todo o verão, Carmine aproveitou aquela espécie de estágio remunerado para aprender diferentes técnicas de ilustração e composição.
Demasiado jovens para cumprirem o serviço militar, Carmine Infantino e Frank Giacoia conseguiram o seu primeiro trabalho nos quadradinhos em 1942. Nesse ano, o primeiro passou a tinta os esboços do segundo para uma história de Jack Frost publicada em USA Comics #3, um dos títulos com maior tiragem da Timely. Joe Simon, o editor-chefe, ficou impressionado com o resultado final e ofereceu emprego aos dois amigos. Mas apenas um pôde agarrar aquela grande oportunidade.

Carmine Infantino teve o seu primeiro trabalho profissional
 publicado em USA Comics #3 (1942)

Enquanto Frank deixou a escola para começar a trabalhar na Timely, Carmine, então com 16 anos, foi impedido pelo pai de seguir as pisadas do amigo. Apesar das dificuldades económicas, agravadas pelo nascimento de um segundo filho, Patrick Infantino manteve-se irredutível na sua decisão. Para ele, a educação vinha em primeiro lugar. Carmine ficou naturalmente desapontado, mas o tempo encarregou-se de dar razão ao pai.
Nos anos imediatos, Carmine Infantino e Frank Giacoia continuaram a trabalhar em conjunto, mas já com os papéis invertidos. Era agora o primeiro quem trabalhava com o lápis, cabendo ao segundo arte-finalizar os seus esboços. Além da Timely, onde desenhavam as histórias do Tocha Humana e do Anjo, os dois amigos eram artistas freelancers na Hillman, na Holyoke e no estúdio de Jack Binder (fornecedor de material à Fawcett Comics).
1947 marcou o início da longa associação de Carmine Infantino com a DC. Em agosto desse ano saiu do prelo Flash Comics #86, que incluía o seu primeiro trabalho para a Editora das Lendas. A história, protagonizada por Johnny Trovoada, marcou a estreia da Canário Negro, cujo ousado visual concebido por Infantino se mantém praticamente inalterado até hoje. Apesar de ter sido criada como coadjuvante, a nova heroína depressa ascendeu a protagonista.
Antes de dobrar a esquina da década de 1940, Carmine Infantino era já o artista favorito do editor Julius Schwartz, que lhe confiou, entre outras, as histórias do Lanterna Verde (Alan Scott) e da Sociedade da Justiça da América.

Canário Negro foi a primeira criação de Carmine Infantino para a DC.

Com o declínio dos super-heróis trazido pelo pós-guerra, Carmine Infantino passou a desenhar histórias de faroeste, suspense e ficção científica. Admirador do trabalho de Milton Caniff, os seus protagonistas masculinos invocavam amiúde os da tira Terry e os Piratas. Independentemente do género, o trabalho de Infantino sobressaía sempre pela sua elevada qualidade. Era já apontado com um dos melhores artistas da sua geração.
Quando, em 1956, Julius Schwartz decidiu apostar no revivalismo dos super-heróis, Carmine Infantino e o escritor Robert Kanigher foram os escolhidos para criar uma nova versão do Flash. Muito diferente do seu antecessor da Idade de Ouro, Barry Allen fez a sua primeira aparição em outubro desse ano, no quarto número de Showcase. E não poderia ter causado melhor impressão junto dos leitores.
Parecendo saído de um filme de ficção científica, o novo Velocista Escarlate era um expoente de elegância retrofuturista. Funcional e de linhas simples, o seu uniforme, considerado um dos mais bonitos de sempre, transmitia uma sensação de agilidade mesmo quando o herói não estava em movimento. O seu emblema peitoral com um relâmpago estilizado depressa se tornou tão reconhecível como o S do Super-Homem ou o morcego do Batman. Nascia um novo ícone da cultura pop com assinatura de Carmine Infantino.
Estribado no dinamismo visual de Infantino e nas tramas invulgarmente maduras de Kanigher, o sucesso do novo Flash abriu caminho deslizante para a revitalização do Lanterna Verde e de outros heróis clássicos. Foi o dealbar de uma nova era de esplendor, que os historiadores adequadamente designariam como Idade de Prata. 

Sob o lápis de Infantino, as histórias do Flash eram sempre de alta rotação.

Em 1958, Infantino foi distinguido com o seu primeiro Alley Award (colecionaria 13 ao longo da carreira) pelo seu trabalho nas histórias do Velocista Escarlate. Sentiu, ainda assim, necessidade de sublimar alguns aspetos da sua arte. Nesse sentido, saudando os ensinamentos paternos, resolveu regressar à escola. Na Art Students League foi apresentado à obra impressionista de Edgar Degas e descobriu todo um novo horizonte de possibilidades. Durante essa fase de aprimoramento, o traço angular - e, por vezes, duro - de Infantino evoluiu gradualmente para um design de linhas finas influenciado pelas ilustrações de Lou Fine, Edd Cartier e outros artistas pulp.
Infantino continuou a refinar o seu estilo nos anos seguintes até se afirmar definitivamente como um dos melhores artistas da sua geração. Foi já com esse estatuto que, em setembro de 1961, desenhou outro marco importantíssimo na história da DC. Publicada em Flash #123, a história Flash of Two Worlds reintroduziu Jay Garrick e lançou as bases do Multiverso da Editora das Lendas. Curiosamente, a capa - uma das mais reproduzidas na história da 9ª Arte - foi esboçada por Infantino antes de Gardner Fox ter escrito a história. Método que se tornaria recorrente entre ambos, com as capas de Infantino a servirem de mote a ser glosado pelo escriba.
Alarmado com as fracas vendas da emblemática Detective Comics - sobre a qual impendia a ameaça de cancelamento -, em 1964 Julius Schwartz encarregou John Broome e Carmine Infantino de revitalizarem o Batman. A receita passou pela eliminação dos elementos pueris das histórias e pela modernização do visual do herói. À semelhança do Flash, sob o traço de Infantino o Cavaleiro das Trevas ganhou uma aparência ágil e elegante. De tão identificável que era o seu estilo, Infantino tornou-se o primeiro artista do Batman a não assinar o seu trabalho como Bob Kane - por quem, aliás, nunca escondeu a sua antipatia pessoal.
A alteração mais notável introduzida por Infantino no traje do Batman consistiu simplesmente na adição de uma elipse amarela ao redor do morcego estampado no peito, que se tornou parte integrante da personagem por mais de quatro décadas. 
No ar a partir de 1966, a série televisiva do Homem-Morcego com Adam West foi a primeira a adotar o novo figurino do herói, contribuindo decisivamente para o seu arreigamento no imaginário coletivo. No ano seguinte, quando os produtores exigiram uma coprotagonista feminina para a terceira temporada, Carmine Infantino criou, a meias com Gardner Fox, a versão definitiva da Batgirl. Por esta altura o artista já tinha ajudado a conceber outras personagens emblemáticas da DC, como Desafiador, Hera Venenosa e Homem-Elástico.

O novo visual do Batman tornou-se icónico.

Combinando publicidade comercial com Arte Pop, as capas desenhadas por Carmine Infantino possuíam uma jovialidade atraente que se tornou pedra de toque dos títulos da DC na Idade de Prata. Em vez de simplesmente colocarem em evidência uma determinada personagem ou situação, as capas de Infantino contavam pequenas histórias. Algumas quebravam igualmente a chamada quarta parede, com as personagens a interpelarem o público. De entre estas, a mais famosa é, provavelmente, a capa de Flash #163, na qual o Velocista Escarlate implora ao leitor: "Pare! Não deixe passar esta edição! A minha vida depende disso!". 
Em reconhecimento dos méritos de Infantino no campo do design e da composição, em 1967 a DC confiou-lhe a missão de desenhar todas as capas das suas revistas. Em concomitância, a arte interior de Infantino continuava a redefinir a linguagem visual das histórias de super-heróis. Mais notavelmente, a sua técnica de representação do frenético movimento do Flash - uma série de figuras numa enxurrada de linhas de velocidade - ainda hoje serve de modelo para desenhar o herói em ação.

As capas de Carmine Infantino eram um espetáculo à parte.

Quem também ficou rendido ao talento de Carmine Infantino foi Stan Lee. O então editor-chefe da Marvel aliciou-o a mudar-se para a Casa das Ideais a troco de 22 mil dólares. O que só não aconteceu porque Infantino preferiu aceitar - não sem alguma hesitação, dada a desvantagem salarial - o cargo de diretor de arte da DC. Mal teve, no entanto, tempo para aquecer o lugar.
Quando, em julho de 1967, a DC foi adquirida pela Kinney National Company (antecessora da Warner Bros.), Carmine Infantino foi surpreendentemente promovido a diretor editorial. No exercício dessas funções chancelou importantes mudanças com vista a reforçar a competitividade da Editora das Lendas num mercado onde a Marvel vinha ditando as regras.
Ao mesmo tempo que promovia artistas veteranos, como Joe Kubert e Mike Sekowski, a cargos editoriais, Infantino assegurou a contratação de um naipe de novos talentos. Neal Adams, Dennis O'Neill e Dick Giordano foram algumas das estrelas em ascensão trazidas para a DC pela mão do seu novo diretor editorial. Cujo mandato ficou igualmente marcado pelo lançamento de novos títulos e pela reformulação de praticamente todas as figuras de proa da DC. Outra aposta ganha foram as personagens licenciadas: Tarzan e Sombra tiveram o condão de atrair leitores da velha guarda.
Em 1970, tirando proveito das crescentes fricções entre Stan Lee e Jack Kirby, Carmine Infantino convenceu o Rei a trocar a Marvel pela DC. Nos cinco anos seguintes, Kirby, a quem foi concedida ampla liberdade criativa e outras regalias astrais, desenvolveu diferentes projetos, com destaque para a saga do Quarto Mundo protagonizada pelos Novos Deuses.
Apetrechada com grandes talentos e guiada pela visão de Infantino, a DC conseguia aos poucos equilibrar o jogo com a Marvel. Respirava-se confiança na Editora das Lendas, mas os ânimos não tardariam a ficar nublados.
A meteórica ascensão de Carmine Infantino na hierarquia da DC parecia imparável. Em 1971, assumiu as funções de publisher - espécie de diretor executivo -, dando início a um consulado tempestuoso em que, segundo os seus detratores, terá atingido o seu princípio de Peter.

Carmine Infantino fotografado no seu gabinete em 1973.

O período de Infantino como publisher correspondeu, com efeito, a uma retração das vendas mercê de más decisões de mercado e da competição acirrada - e, por vezes, desleal - da Marvel. O que não impediu as duas editoras de brindarem os leitores com o seu primeiro crossover
Apesar de ter escolhido pessoalmente Ross Andru para desenhar o histórico encontro entre o Super-Homem e o Homem-Aranha, Infantino, ao contrário do seu homólogo Stan Lee, não foi um entusiasta dessa iniciativa conjunta. Pouco tempo antes, a DC, por decisão de Infantino, aumentara o preço das suas revistas de 15 para 25 centavos. Subida inicialmente acompanhada pela Marvel, que entretanto baixara para os 20 centavos. 
Em virtude disso, Carmine Infantino ficou para sempre associado à chamada Implosão da DC, o cancelamento massivo de títulos lançados em barda para competir com o abundante material inédito que, desde o início da década de 1970, vinha sendo publicado pela Marvel. Somada ao aumento dos preços em contexto de crise económica, a proliferação de novas séries periódicas - quase sempre estreladas por personagens secundárias - revelou-se um erro estratégico que comprometeu o próprio futuro da Editora das Lendas.

Carmine Infantino apadrinhou, a contragosto, o primeiro crossover Marvel/DC.

Entre as medidas mais controversas tomadas por Carmine Infantino ao leme da DC esteve a demissão de artistas que reivindicavam royalties e outros direitos laborais, substituídos por mão-de-obra filipina muito mais barata. Ironicamente, em 2004 o próprio Infantino processou judicialmente a DC alegando ter sido espoliado dos direitos sobre várias das suas criações para a editora, incluindo o Flash. O processo seria no entanto arquivado quando as suas alegações foram consideradas improcedentes pelo tribunal.
Durante a pré-produção de Superman e Superman II, Carmine Infantino foi consultor de Mario Puzo na produção dos respetivos enredos. Apesar de o seu contributo ter sido determinante para o sucesso dos filmes, Infantino não foi sequer creditado. Isto depois de ter feito tudo ao seu alcance para boicotar a campanha pelo reconhecimento dos direitos de Jerry Siegel e Joe Shuster que antecedeu a chegada do Homem de Aço aos cinemas.
À beira da falência devido à má administração, em julho de 1976 a DC demitiu Carmine Infantino. Embora os contornos desta decisão permaneçam até hoje pouco nítidos, sabe-se que não se tratou de um processo amigável. Fazendo jus à sua forte costela italiana, Infantino terá reagido intempestivamente, jurando que nunca mais voltaria a trabalhar para a empresa.
Após a sua saída da Editora das Lendas, Infantino procurou, em vão, novo cargo executivo. Decidiu então regressar às origens, tornando-se artista freelancer da Warren Publishing e da Marvel. O ponto alto da sua passagem pela Casa das Ideias aconteceu quando desenhou Star Wars, título que ajudou a transformar no maior campeão de vendas do mercado. 

Na Marvel, Infantino fez de Star Wars um best-seller

Contra todas as expectativas, Carmine Infantino regressou à DC em 1981. Reassumindo, nesse mesmo ano, a série mensal do Flash, à qual continuou a emprestar o seu traço até ao cancelamento nas vésperas da Crise nas Infinitas Terras. The Daring New Adventures of Supergirl e V (título mensal vinculado à série televisiva homónima) foram outros dos projetos em que deixou a sua impressão digital durante essa segunda passagem pela Editora das Lendas. 
Antes de se aposentar, a meio da década de 1990, Carmine Infantino rendeu Marshall Rogers na tira diária do Batman e lecionou na prestigiada School of Visual Arts. Alçado ao patamar de lenda viva dos quadradinhos, continuou a atrair os holofotes mediáticos por via das suas aparições regulares em convenções de fãs, onde participava em conferências e vendia exemplares autografados da sua autobiografia intitulada The Amazing World of Carmine Infantino
O dia 4 de abril de 2013 foi o último que Carmine Infantino viu nascer. A poucas semanas de cumprir o seu 88º aniversário, o artista faleceu, de causas naturais, no seu apartamento em Manhattan. O homem que um dia sonhou ser arquiteto levou consigo a memória descritiva da Idade de Prata. Criou personagens que ainda hoje são amadas e elaborou o estilo visual da narrativa gráfica para as gerações vindouras. Apesar das controvérsias, o seu prestígio na comunidade artística saiu incólume. Desde 2000 que o nome de Carmine Infantino figura no Jack Kirby Hall of Fame que imortaliza outros grandes vultos da 9ª Arte. Homenagem merecida a quem teve na genialidade a fonte e o esteio da sua exuberante obra.

Lançada em 2001, a autobiografia de Carmine Infantino é o testemunho de diferentes épocas.


*Este blogue tem como Guia de Estilo o Acordo Ortográfico de 1990 aplicado à norma europeia da Língua Portuguesa.
*Artigos sobre Gardner Fox, Neal Adams, Dennis O'Neill, Timely Comics, Super-Homem contra Homem-Aranha e Batgirl disponíveis para leitura complementar.







.

























































31 outubro 2022

HERÓIS EM AÇÃO: WOLVERINE


  De todos os animais selvagens, o mais perigoso é o homem sem passado. O de Logan foi-lhe roubado por aqueles que o transformaram numa arma viva e difícil de matar. Fera acuada com alma de samurai, ele é o melhor no que faz. Mas o que ele faz não é bonito de se ver.

Denominação original: Wolverine
Editora: Marvel Comics
Criadores: Roy Thomas (nome e conceito), Len Wein (história) e John Romita Sr. (arte conceptual)
Estreia: The Incredible Hulk #180 (outubro de 1974)
Identidade civil: James Howlett (vulgo Logan)
Espécie: Mutante
Local de nascimento: Cold Lake, na província canadiana de Alberta.
Parentes conhecidos: Thomas Logan (pai, falecido); Elizabeth Howlett (mãe, falecida); John Howlett (padrasto, falecido); Dog Logan (meio-irmão paterno); John Howlett Jr. (meio-irmão materno, presumivelmente falecido); Laura Kinney / X-23 (filha por doação genética); Itsu (esposa, falecida); Akihiro/Daken (filho)
Ocupação: Homem dos mil ofícios, Logan já foi mineiro, samurai, soldado, mercenário, espião, barman e até instrutor na Escola Xavier para Jovens Sobredotados.
Base de operações: Tradicionalmente, a Mansão X, quartel-general dos X-Men localizado em Salem Center, na periferia de Nova Iorque. Quando age à margem da equipa, o seu espírito errante pode levá-lo a qualquer parte do globo.
Afiliações: Apesar da sua reputação de lobo solitário, Wolverine gosta de andar em alcateia. Antes de se associar aos X-Men, com os quais mantém a sua ligação mais conhecida e duradoura, fez parte do Clã Yashida, do Programa Arma X e do Departamento H.
Némesis: Dentes-de-Sabre
Poderes e parafernália: Wolverine é um mutante com múltiplos aprimoramentos naturais e artificiais na sua fisiologia. Consistindo num processo natural de cicatrização acelerada, o seu poder principal é commumente designado fator de cura. Graças a ele, os ossos e tecidos moles do seu corpo, quando danificados, regeneram-se a uma velocidade muito superior ao normal. 
Adicionalmente, o fator de cura de Wolverine confere-lhe uma elevadíssima eficiência metabólica que aumenta a sua resistência a drogas e venenos. Ele pode, ainda assim, sentir os efeitos imediatos de tais substâncias, se administradas em grandes quantidades. Certa vez, a SHIELD conseguiu mantê-lo sedado durante vários dias bombeando ininterruptamente doses cavalares de um potente anestésico na sua corrente sanguínea.
Sem o seu milagroso fator de cura, Wolverine não teria sobrevivido ao procedimento cirúrgico experimental que infundiu, a nível molecular, o seu esqueleto com adamantium, tornando-o virtualmente indestrutível. 
Ao induzir um constante rejuvenescimento celular, o fator de cura de Wolverine retarda também, de forma drástica, o seu processo de envelhecimento. Apesar de ter vindo ao mundo no último quartel do século XIX, Logan conserva a aparência e a vitalidade de um homem de meia-idade no seu auge físico.
O fator de cura de Wolverine não suprime no entanto o sofrimento físico resultante dos ferimentos e traumas que lhe são infligidos. Mesmo após a cicatrização dos mesmos, ele afirma sentir dores fantasmas ao longo de semanas ou até meses.
A velocidade a que Wolverine consegue curar-se varia, aparentemente, consoante a extensão e gravidade das respetivas lesões. Quanto maior for o perigo de vida, mais rápido é o processo de regeneração. Mas nem sempre foi assim.
Originalmente, o fator de cura só era eficaz em pequenas lesões e requeria sempre a mesma quantidade de tempo para atuar. Com o passar dos anos, porém, a sua ação foi sendo maximizada, ao ponto de Wolverine poder agora regenerar, em questão de minutos, órgãos danificados e membros amputados. No limite, ele pode reconstituir-se depois de ter sido esquartejado e/ou incinerado. Matá-lo tornou-se missão quase impossível.

O fator de cura mutante de Wolverine
 permite-lhe sobreviver a ferimentos potencialmente fatais.
Devido à sinergia do seu fator de cura com os escudos psiónicos de alto nível implantados pelo Professor Xavier, a mente de Wolverine é quase inexpugnável a sondagens e agressões telepáticas. Derrubar essas defesas constitui tarefa árdua, mesmo para os telepatas mais poderosos.
O fator de cura de Wolverine afeta igualmente vários dos seus atributos físicos, aumentando-os para níveis sobre-humanos. Dotado de sentidos hiperaguçados, ele consegue ver com clareza a grandes distâncias, identificar alvos pelo cheiro e até ouvir batimentos cardíacos. Habilidades que fazem de Wolverine um dos melhores rastreadores do mundo. De tão apurado, o seu olfato permite-lhe, ademais, reconhecer transmorfos, mesmo quando estes assumem a aparência de outrem.
Contrariamente ao inicialmente sugerido, as garras retráteis de Wolverine (3 em cada mão, medindo cada uma exatos 30 cm) não são implantes biónicos aplicados pelo Programa Arma X. Antes de Logan ter tido o seu esqueleto reforçado com adamantium, as suas garras eram excrescências ósseas extremamente densas, que lhe permitiam cortar e perfurar facilmente a carne dos seus adversários. Dada a ausência de orifícios naturais para o efeito, desembainhá-las implica sempre rasgar a pele das mãos. Processo doloroso mitigado pelo fator de cura e pelos picos de adrenalina.
Atualmente revestidas com adamantium, as garras de Wolverine, inquebráveis como cada osso no seu corpo, podem cortar qualquer material sólido, incluindo metais, madeira e algumas variedades de pedra. As únicas exceções conhecidas são o próprio adamantium e a liga de vibranium e protoadamantium de que é feito o escudo do Capitão América. No entanto, a capacidade de Wolverine para cortar completamente uma substância depende tanto da espessura da mesma como da força que ele consegue exercer. Levando em conta que Logan consegue levantar aproximadamente meia tonelada, poucos são os materiais capazes de resistir às suas violentas arremetidas.
Ainda que Wolverine prefira, quase sempre, usá-las para fins ofensivos, as suas garras possuem diferentes utilidades: bloquear ataques, desviar projéteis ou escalar estruturas são algumas delas. Não raro, Logan usa-as também para intimidar inimigos ou como instrumentos de persuasão em interrogatórios.

De osso ou metal, as garras 
 causam sempre dor ao próprio Wolverine.
Durante a sua longa estada no país do Sol Nascente, Logan tornou-se proficiente em múltiplas artes marciais e no manejo de espadas e outras armas brancas. Lutador exímio, possui ainda amplo conhecimento do corpo humano e dos pontos de pressão suscetíveis de incapacitarem os seus adversários. Sem nunca dar uma luta por perdida, o seu lema é "antes quebrar que torcer".
Quando em combate, Wolverine é por vezes tomado por uma fúria assassina que traz à tona o seu lado animalesco. Nesse estado irracional, ele ataca ainda com maior ferocidade, estraçalhando os seus alvos das maneiras mais horríveis. Apesar da sua aparente facilidade em tirar vidas, Logan odeia ceder aos seus instintos homicidas, os quais procura reprimir aderindo ao draconiano código de honra dos antigos samurais.
Em contraste com esta sua natureza brutal, Wolverine demonstra uma enorme empatia pelos animais, com os quais consegue mesmo comunicar a um nível básico. Fruto das muitas viagens que fez pelo mundo, é também um profundo conhecedor de culturas estrangeiras, mormente da japonesa, sendo fluente em dezenas de idiomas e dialetos indígenas.
Devido ao treino recebido durante a sua colaboração com o Departamento H e outras agências governamentais, Wolverine é também um assassino altamente eficiente e um especialista em operações furtivas. Por tudo isto, ele é o melhor no que faz. Mas o que ele faz não é bonito de se ver.

O escudo do Capitão América é uma das raras coisas
que as garras afiadas de Wolverine não conseguem cortar.

Fraquezas: Nos chamados Protocolos Xavier, planos de contingência elaborados pelo Professor X para neutralizar os mutantes mais poderosos caso eles se tornem ameaças, teoriza-se que a decapitação poderá ser a forma mais eficaz de matar Wolverine.
Separar a cabeça do corpo impediria o cérebro de Logan de enviar sinais para os tecidos destruídos, inibindo assim a ação do seu fator de cura. Devido ao seu esqueleto inquebrável, tal só seria no entanto possível se o golpe fosse desferido pela lâmina mística da espada Muramasa.
Forjada, quase um século atrás, por um lendário ferreiro japonês do mesmo nome, a espada Muramasa é capaz de cortar qualquer coisa - inclusive adamantium - ao nível molecular. Por também lhe anular o fator de cura, o próprio Wolverine já admitiu ser ela a única arma capaz de matá-lo.
Não obstante ser um excelente nadador, Wolverine tem a sua flutuabilidade reduzida pelo peso extra (aproximadamente 45 kg) que o adamantium acrescenta ao seu corpo. Em razão disso, o afogamento constitui uma alternativa mais simples do que a decapitação.
Com efeito, mesmo conseguindo suster a respiração debaixo de água por largos minutos, a privação de oxigénio no cérebro de Wolverine acabaria por induzir a morte celular. Nesse cenário, o seu fator de cura serviria apenas para prolongar-lhe a agonia.
A presença de metal no organismo de Wolverine, torna-o também extremamente vulnerável a ataques magnéticos. Ninguém soube explorar melhor essa sua fraqueza do que Magneto quando lhe arrancou o esqueleto de adamantium, quase matando-o no processo.
O próprio adamantium pode, de resto, virar-se contra Wolverine. Se o seu fator de cura falhar ou for desabilitado por tempo suficiente, o envenenamento causado pelo metal poderá custar-lhe a vida. É, pois, caso para dizer que aquilo que o mata também o torna mais forte.

Afogamento é um dos métodos mais simples de matar Wolverine.


Animal feroz

No início dos anos 1970, os super-heróis estavam novamente em alta no Canadá, cuja indústria dos comics colapsara no pós-guerra. Ansioso por explorar o gigantesco mercado do Grande Vizinho do Norte, Roy Thomas, editor-chefe da Marvel, incumbiu Len Wein, argumentista do Hulk, de criar um coadjuvante canadiano para uma história do Golias Esmeralda.
Thomas tinha em mente uma personagem cuja baixa estatura seria inversamente proporcional à sua ferocidade. Características correspondentes a dois dos mamíferos mais comuns na fauna canadiana: o texugo (badger) e o glutão (wolverine). Devido à proximidade fonética com wolf (lobo), a escolha de Thomas incidiu sobre o segundo. Curiosamente, menos de uma década depois Mike Baron criaria, para a defunta Capital Comics, um pastiche de Wolverine chamado Badger.

Pequeno e feroz, o glutão é também conhecido como carcaju.

Chamado a conceber o visual de Wolverine, John Romita, diretor artístico da Marvel, apetrechou-o com garras retráteis, originalmente acopladas às luvas do seu uniforme. Embora tenha feito a sua primeira aparição no último painel de The Incredible Hulk #180, foi só no número seguinte que os leitores viram Wolverine em ação. À primeira vista, tratava-se apenas de outra personagem genérica sem história de fundo. Ninguém - nem os próprios autores - poderia, pois, imaginar o fulgurante destino que lhe estava reservado.
Ao longo da história em questão, Wolverine gabava-se constantemente da letalidade das suas garras de adamantium, que quase ninguém sabia o que era (ver Miscelânea). Ademais, a palavra "mutante" era ainda estranha ao vocabulário de muitos leitores, pelo que esta sua primeira aparição foi insuficiente para classificá-lo como herói ou vilão. Essa ambiguidade moral seria, aliás, uma das chaves para o vindouro sucesso de Wolverine.

Alguns dos esboços iniciais de John Romita para o visual de Wolverine.

Perante a reação positiva dos fãs, Roy Thomas acelerou o relançamento dos X-Men, que vinha preparando já há algum tempo. A hipotética inclusão de Wolverine na nova formação internacional da equipa era agora ponto assente.
Wolverine só voltaria, assim, a dar um ar da sua graça em Giant Size X-Men #1, edição histórica que, em maio de 1975, apresentou ao mundo a iteração moderna dos Filhos do Átomo. Apesar de a arte interior ter ficado a cargo de Dave Cockrum, foi o veterano Gil Kane quem desenhou a respetiva capa. Descontente com a máscara que Romita criara para Wolverine, Kane tomou a liberdade de modificá-la, ampliando-lhe as hastes laterais. Visual distinto que, tal como o penteado diabólico de Logan, se tornaria uma das imagens de marca da personagem.
Apesar da estreia auspiciosa na revista do Hulk, Wolverine foi inicialmente ofuscado pelos outros X-Men. Arrogante e truculento, gerava tensões no grupo e estava longe de ser benquisto pelos leitores. O próprio escriba de Uncanny X-Men, Chris Claremont, antipatizava com Logan e chegou mesmo a ponderar eliminá-lo.

O regresso de Wolverine em Giant Size X-Men #1 (1975).

A roda da fortuna de Logan recomeçou a girar com a chegada de John Byrne. Também ele cidadão naturalizado da Terra do Xarope de Ácer, Byrne bateu-se pela continuidade do seu compatriota, modelando a sua versão de Wolverine no ator Paul D'Amato no filme Slap Shot (1977). Isto apesar de ter sido Dave Cockrum o primeiro a desenhar Logan desmascarado, apresentando-o como um homem de meia-idade hirsuto e de olhar penetrante.
Sob o virtuoso lápis de Byrne (que era, também, coargumentista), Wolverine passou de mal-amado a coqueluche. A sua crescente importância nos X-Men exigia que fosse levantado o véu que ainda cobria a sua origem. Se a proposta de Claremont tivesse vingado, Wolverine seria um filhote de glutão transformado em humano por meio da bioengenharia do Alto Evolucionário. Uma bizarria que mereceu a rejeição epidérmica do próprio Stan Lee.
Antes de trocar a Marvel pela DC, a meio da década de 80, Byrne criou um novo uniforme para Wolverine, em tons de castanho e laranja, e apresentou a sua própria origem da personagem. Nesta versão (nunca publicada), Wolverine era o filho de Dentes-de-Sabre e o seu esqueleto fora revestido com adamantium porque o fator de cura mutante não funcionava nos seus ossos.

Paul D'Amato serviu de modelo ao Wolverine de John Byrne.

Em 1988, já depois de ter protagonizado duas aclamadas minisséries ambientadas no Japão, Wolverine tornou-se o primeiro mutante a ter a sua própria revista mensal. A reboque da sua popularidade, na década seguinte multiplicar-se-iam os títulos estrelados pelos X-Men e seus derivados. Um autêntico boom de mutantes que teve o seu culminar mediático com a chegada dos X-Men ao cinema em 2000.
Wolverine teve, por fim, o seu passado revelado em Origin, minissérie lançada em 2001 que revisitava os verdes anos do mais famoso dos X-Men, trazendo à luz factos surpreendentes.(ver texto seguinte).
Se é verdade que Wolverine deve boa parte do seu sucesso aos X-Men, a recíproca não é menos verdadeira. Chris Claremont sempre definiu Wolverine como uma personagem universal e atemporal, a encarnação moderna do aventureiro arquetípico que existiu em todas as épocas e lugares. Ao enlaçar a história de Logan com a do Japão feudal, Claremont transformou-o num samurai fracassado para quem a honra é tudo, ao mesmo tempo que deseja secretamente uma morte graciosa. Tantas vezes marcado para morrer, Wolverine é no entanto difícil de matar e promete andar por cá ainda por muitos e bons anos.

Wolverine foi o primeiro mutante a ter revista própria, em 1988.


Memórias mutiladas

Marcado por tragédias, traições e manipulações, o passado de Wolverine é ainda um quebra-cabeças incompleto onde ele tenta, a custo, encaixar as suas memórias mutiladas. Sem registo conhecido da sua data de nascimento e com a longevidade expandida pelo seu fator de cura mutante, ninguém sabe ao certo há quanto tempo caminha ele pelo mundo. Apenas que os seus passos deixam sempre um rasto de sangue e morte.
Durante muito tempo conhecido apenas como Logan, sabe-se agora que James Howlett é o nome batismal de Wolverine. Cuja misteriosa vida terá principiado algures na penúltima década do século XIX em Cold Lake, na província canadiana de Alberta.
Apesar de ter sido perfilhado em bebé por John Howlett, um abastado proprietário agrícola, James é na verdade o filho ilegítimo da sua esposa Elizabeth com Thomas Logan, o caseiro da herdade familiar. Frágil e com várias alergias, o pequeno James passou os primeiros anos de vida trancafiado em casa. À saúde precária somava-se a indiferença da mãe, ainda emocionalmente devastada pela morte súbita do primogénito.
Certo dia, uma menina irlandesa chamada Rose foi trazida para ser amiga e cuidadora de James. Os dois logo se tornaram inseparáveis, oferecendo também a sua amizade ao outro filho de Thomas Logan, conhecido simplesmente como Cão (presumivelmente, o futuro Dentes-de-Sabre).

Dias felizes do pequeno James Howlett.

As três crianças cresceram juntas até ao dia em que o Cão, ressentido pelos abusos do seu pai alcoólico, tentou violar Rose. Na esteira desse incidente, Thomas Logan e o filho foram expulsos da herdade. Antes de partir, Logan, tentou, porém, forçar Elizabeth a acompanhá-lo. Da violenta refrega que se seguiu resultou a morte de John Howlett, baleado à queima-roupa por Logan.
O choque de testemunhar o assassínio do pai desencadeou a primeira manifestação dos poderes mutantes de James. Com a fúria a revirar-lhe as entranhas, o rapaz, qual fera selvagem, usou as garras que lhe afloraram das mãos para estraçalhar Logan e desfigurar o rosto do Cão.
Profundamente transtornada, Elizabeth usou a arma do ex-amante para tirar a própria vida e acrescentar mais uma conta ao rosário de desgraças que seria a vida de James.
Depois de uma fuga alucinada que os levou até à Colúmbia Britânica, James e Rose instalaram-se numa pedreira, na esperança de lá poderem viver em paz. Sabendo que a polícia andava no encalço de James, Rose rebatizou-o de Logan. Já os colegas de James, divertidos com a obstinação com que ele escavava, alcunharam-no de Wolverine.
Anos mais tarde, quando o Cão reapareceu para ajustar contas, Logan enfrentou-o, acabando por ferir mortalmente Rose com as suas garras. Com o remorso aninhado na alma, Logan abandonou o acampamento e passou uma longa temporada no deserto a viver entre os lobos.
A partir daqui, tudo se torna nubloso. Logan possui várias memórias do período que se seguiu ao seu regresso à civilização - entre elas, a vida como samurai ao serviço do Clã Yashida, no Japão - , ignorando, todavia, se as mesmas são reais ou se lhe foram implantadas durante a sua participação forçada no Programa Arma X.
Logo após a II Guerra Mundial - em que terá combatido pelos Aliados - , Logan foi usado como cobaia nesse projeto militar ultrassecreto do Governo canadiano, que tinha como propósito a criação do assassino perfeito. Submetido a um complexo recondicionamento mental, Logan recebeu memórias falsas e teve o seu esqueleto recoberto com adamantium.

O Programa Arma X transformou Wolverine no assassino perfeito.

Quando, por fim, logrou evadir-se do seu cativeiro, Logan foi recrutado pelo Departamento H, agência federal responsável pela monitorização das atividades meta-humanas em solo canadiano. Na sua primeira missão oficial, Wolverine foi mobilizado para travar a destruição causada pelo Hulk.
Apesar de Logan quase não ter sobrevivido ao confronto com o Gigante Verde, as suas capacidades impressionaram o Professor Charles Xavier. Recrutado para os X-Men - exilados, como ele, da raça humana - Wolverine, ultrapassadas as desconfianças mútuas, encontrou neles a sua nova família. Pela qual já tantas vezes provou estar disposto a matar e a morrer.

Miscelânea

*Devido à sua pequena estatura (mede apenas 1,60m), Wolverine é habitualmente alvo de chacota tanto por parte de amigos como de inimigos. Ironicamente, a sua alcunha mais conhecida referencia o Monte Logan. Chris Claremont pensou que seria engraçado batizar o mais baixinho dos X-Men com o nome da montanha mais alta do Canadá. Indiferente à galhofa, Logan continua a provar que, quando se tem um fator de cura e garras afiadas, o tamanho deixa de ser importante;
*350 dólares. Foi essa a irrisória quantia que a criação de Wolverine, um dos mais valiosos ativos da Casa das Ideias, rendeu a Len Wein. Isto porque a Marvel detém automaticamente os direitos de todas as personagens e conceitos publicados sob a sua chancela. No início dos anos 1990, essa cláusula contratual motivou a debandada de  muitos dos talentos da editora, alguns dos quais fundariam depois a Image Comics;
*Adamantium, o metal fictício virtualmente inquebrável que reforça o esqueleto de Wolverine, é uma liga de aço artificial cuja composição química exata é um dos mais bem guardados segredos do Governo americano. Sabe-se apenas que as suas propriedades únicas não o qualificam para nenhum espaço conhecido na Tabela Periódica de Elementos, e que o seu processo de fabrico, mesmo em quantidades reduzidas, é extremamente dispendioso. Conceito desenvolvido por Roy Thomas e Barry Windsor-Smith, o adamantium foi referenciado pela primeira vez em maio de 1969, no 66º número de Avengers;

Ultron foi o primeiro usuário do adamantium. 

*Chris Claremont foi missionário da ideia de que Apocalipse seria o responsável pela colocação de adamantium no esqueleto de Wolverine. Quando explorou o passado de Logan no Programa Arma X, Barry Windsor-Smith introduziu, por isso, uma figura misteriosa que atuava nos bastidores e cujas ordens eram obedecidas pelo Professor Truett Hudson. Tratou-se, porém, de um cortesia profissional de Windsor-Smith, a quem o envolvimento de Apocalipse na origem de Wolverine não agradava particularmente;
*De modo a contornar os detetores de metais nos aeroportos e noutras instalações de alta segurança, Logan é portador de um certificado médico informando da sua condição de veterano de guerra com uma placa de platina na cabeça;
*Um estudo realizado em 2013 pela Universidade da Colúmbia Britânica compara o fator de cura mutante de Wolverine à capacidade do axolote regenerar membros perdidos. Os cientistas deram, por isso, o nome de Howlett à nova proteína descoberta em amostras de tecidos desse pequeno anfíbio aparentado com as salamandras;
*Até então inseparável do seu charuto, Wolverine desistiu de fumar quando, em 2001, Joe Quesada foi promovido a editor-chefe da Marvel. Quesada, cujo avô, fumador inveterado, sucumbira a um cancro no pulmão, proibiu os artistas da editora de desenharem cigarros e afins. Na senda desse fundamentalismo antitabágico, algumas capas antigas em que Logan surgia a fumar foram digitalmente retocadas;
*De Badger (First Comics) a Ripclaw (Image), passando por Bloodshot (Valiant), é difícil enumerar todos os pastiches, mais ou menos óbvios, de Wolverine. Também ele foi, no entanto, inspirado numa personagem preexistente: Lobo Cinzento, da Legião dos Super-Heróis. Às inegáveis semelhanças visuais, acresce a circunstância de ambos terem sido infundidos com um metal exótico (zuunium, no caso do seu congénere da DC);

Lobo Cinzento foi criado exatos 10 anos antes de Wolverine.

*No Universo Amálgama, Wolverine foi fundido com Batman, originando o Garra das Trevas (Dark Claw. em inglês). A sua história de fundo combinava igualmente elementos retirados das origens das duas personagens: ainda criança, Logan Wayne testemunhara o assassínio dos seus pais e, em adulto, fora recrutado para o Programa Arma X. Na sua campanha em prol da justiça, Garra das Trevas era adjuvado por uma adolescente chamada Pardal (mescla de Robin e Jubileu) e tinha no sádico Hiena (híbrido Joker / Dentes-de-Sabre) o seu arqui-inimigo;
*Um dos super-heróis mais populares em todo o mundo, em 2008 Wolverine encabeçava a lista das 200 melhores personagens dos comics divulgada pela revista Wizard. Por conta da sua presença maciça nos quadradinhos (12912 aparições registadas até março deste ano), Wolverine é a terceira personagem mais publicada de todos os tempos, atrás  apenas de Batman e Super-Homem. Note-se, no entanto, que o histórico de publicação dos dois primeiros classificados teve início no final da década de 1930;
*Ao lado dos X-Men, Wolverine fez a sua estreia no segmento audiovisual em 1982, num episódio da 2ª temporada de Spider-Man and His Amazing Friends, intitulado "A Fire-Star is Born". Entre 2000 e 2017, foi interpretado no cinema pelo australiano Hugh Jackman, que, a despeito do ceticismo inicial dos fãs, se tornou o ator que durante mais tempo deu vida a um super-herói. 

Hugh Jackman interpretou Wolverine em seis filmes, três dos quais a solo.



*Este blogue tem como Guia de Estilo o Acordo Ortográfico de 1990 aplicado à norma europeia da Língua Portuguesa.
*Artigos sobre Roy Thomas, John Byrne, Dentes-de-Sabre, X-23 e X-Men, o filme  disponíveis para leitura complementar.