16 setembro 2022

RETROSPETIVA: «HOMEM-ARANHA 2»


  Fragilizado por uma crise existencial causada pelas tribulações da sua vida dupla, Peter Parker resolve pendurar as teias para enfrentar os seus dramas pessoais. Mas logo percebe que não tem como escapar ao seu destino, quando os tentáculos de um novo inimigo envolvem Nova Iorque num abraço mortal.

Título original: Spider-Man 2
Ano:  2004
País: Estados Unidos da América
Duração:  127 minutos
Género: Ação / Drama / Super-heróis
Produção: Columbia Pictures, Marvel Enterprises e Laura Ziskin Productions
Realização: Sam Raimi
Argumento: Alvin Sargent, Alfred Gough, Miles Millar e Michael Chabon
Distribuição: Sony Pictures Releasing
Elenco: Tobey Maguire (Peter Parker / Homem-Aranha); Alfred Molina (Otto Octavius / Doutor Octopus); Kirsten Dunst (Mary Jane Watson); James Franco (Harry Osborn); Rosemary Harris (May Parker); J.K. Simmons (J. Jonah Jameson); Donna Murphy (Rosie Octavius)
Orçamento: 200 milhões de dólares
Receitas globais: 798 milhões de dólares

Anatomia de uma sequela sublime

Antes mesmo de Homem-Aranha chegar aos cinemas, Avi Arad, presidente executivo da Marvel Enterprises (antecessora da Marvel Studios), renovou contrato com Sam Raimi para dirigir uma sequência. Apesar da ausência de um argumento e da indefinição em torno do orçamento da produção, Raimi não pensou duas vezes em aceitar a empreitada.
Em abril de 2002, Michael Gough e Miles Millar, guionistas de Smallville, foram contratados para escrever o argumento. No mês seguinte, depois de Homem-Aranha ter alcançado uma estreia recorde de 115 milhões de dólares, a Sony Pictures alocou 200 milhões de dólares ao projeto. Valor astronómico que, à data, faria de Homem-Aranha 2, ex aequo com Titanic (1997), o filme mais caro da história do cinema.
Reticentes quanto ao enredo proposto pela dupla Gough / Millar - que apresentava um tríptico de antagonistas composto pelo Dr. Octopus, Gata Negra e Lagarto - em setembro de 2002 os produtores contrataram Michael Chabon para escrever um argumento alternativo. Nesse segundo rascunho, Otto Octavius era um jovem e brilhante cientista enamorado por Mary Jane, sendo Peter Parker o outro vértice de um triângulo amoroso. Octavius era, também, o criador da aranha geneticamente modificada responsável pelos poderes de Peter. Sedento de vingança, Harry Osborn oferecia uma recompensa de dez milhões de dólares pela captura do Homem-Aranha. Uma vez transformado no Doutor Octopus, Octavius formava uma aliança com Harry contra o inimigo comum.


Lagarto e Gata Negra foram cogitados para vilões.

Raimi pretendia, ao invés, explorar o conflito entre os dramas pessoais de Peter Parker e as responsabilidades sociais da sua sua persona heroica. Com base nesse pressuposto, a maior parte das ideias de Chabon foram rejeitadas pelo realizador.
A título de favor pessoal à produtora Laura Ziskin, o veterano Alvin Sargent (vencedor de dois Óscares para melhor argumento adaptado), aceitou limar as arestas do enredo, indo ao encontro das pretensões temáticas de Sam Raimi. Por indicação deste, Sargent fez de Spider-Man No More (Homem-Aranha Nunca Mais), história clássica da Idade de Prata, a sua principal fonte de inspiração. Em homenagem à revista mensal homónima, o filme foi provisoriamente titulado The Amazing Spider-Man.
Apesar do seu reconhecido apego ao cânone, Raimi alterou significativamente a história de fundo do Doutor Octopus, acrescentando uma relação pessoal com Peter Parker. A ideia era que essa amizade prévia ajudasse a esconjurar os demónios de Octavius simbolicamente representados pelos seus tentáculos.

A história que inspirou o filme
 foi uma das mais marcantes da Idade de Prata.

Ed Harris, Chris Cooper, Robert De Niro e Christopher Walken foram alguns dos atores cogitados para dar vida a Otto Octavius. Por recomendação da esposa de Sam Raimi, rendida à atuação de Alfred Molina em Frida (2003), o ator britânico foi escalado para o papel. Grande fã do Universo Marvel, Molina fez questão de manter aquela que considerava ser a marca de água do Doutor Octopus: o seu sentido de humor cruel e retorcido.
Apesar de o contrato que assinou prever a sua participação em três filmes, Tobey Maguire esteve em risco de perder o papel principal.  Maguire alegava ter-se ressentido de uma antiga lesão nas costas, que o impedia de voltar a vestir a pele do herói aracnídeo. Os produtores suspeitavam que tudo não passaria de um estratagema do empresário do ator para obter um cachê mais robusto, e encetaram negociações com Jake Gyllenhaal com vista à substituição de Maguire. Este acabaria, contudo, por recuperar o papel graças à intercessão do pai da namorada - ninguém menos que o presidente da Universal Studios.

Jake Gyllenhaal quase substituiu Tobey Maguire.

Ainda sem uma versão finalizada do argumento, a produção arrancou em novembro de 2002, com uma pré-filmagem em Chicago. Raimi queria que a história tivesse como pano de fundo uma Nova Iorque idealizada, incluindo comboios elevados. Dada a inexistência desses veículos na Grande Maçã (o último saíra de circulação em 1940), o icónico Loop de Chicago fez as vezes de Manhattan naquela que seria a sequência mais memorável do filme.
Programadas para começar em janeiro de 2003, as filmagens, envolvendo mais de uma centena de localizações, foram adiadas para abril desse ano, para que Tobey Maguire terminasse a sua participação em Seabiscuit. Nelas foi extensivamente usado um sistema especial de câmaras - a Spydercam - para mostrar melhor o ponto de vista de Peter Parker enquanto se balançava a grande altura entre os arranha-céus de Nova Iorque.
De modo a facilitar os movimentos de Tobey Maguire, o revestimento muscular do traje do Homem-Aranha foi segmentado e ao capacete sob a máscara foi adicionada uma mandíbula postiça. Essas foram, de resto, algumas das muitas mudanças subtis feitas ao figurino do herói, que teve também as suas cores avivadas. 

A Spydercam já havia sido usada na sequência final de Homem-Aranha.

A rodagem de Homem-Aranha 2 ficou concluída em dezembro de 2003 e, ao contrário do que é habitual, a maior parte do material gravado foi incluído na edição final da película. Singularidade que, por si só, revela bem quão meticulosa foi a planificação de uma produção que, à vista desarmada, parecia ter sido feita em cima do joelho.
A 30 de junho de 2004, Homem-Aranha 2 fez a sua estreia oficial nos EUA e precisou apenas de oito dias para arrecadar 200 milhões de dólares, tornando-se assim o filme que mais rapidamente atingiu essa cifra.
Recebido com o clamor habitualmente reservado aos blockbusters, Homem-Aranha 2 foi louvado, em igual medida, pela crítica e pelo público. O Óscar de melhores efeitos visuais (o primeiro conquistado por um filme da Marvel), os cinco Saturn Awards e a inclusão na lista dos cem melhores filmes americanos de todos os tempos do American Film Institute consagraram-no como sequela sublime. 

Enredo

Dois anos após ter ganho os seus poderes aracnídeos, Peter Parker, eterno protagonista da desdita, vive dias difíceis. Cada um deles trazendo uma nova contrariedade e um novo rombo na dignidade daquele que é secretamente o anjo da guarda dos nova-iorquinos.
A enfrentar dificuldades financeiras desde que foi despedido do seu emprego como entregador de pizzas, Peter é pouco assíduo nas aulas e nas vidas dos seus entes queridos. Por conta dessas ausências, está em risco de reprovar nos exames, as suas relações com Mary Jane e Harry Osborn esfriaram e a sua tia May está em vias de ser despejada. Como se tudo isso não bastasse, o Homem-Aranha continua a ser alvo de uma virulenta campanha difamatória por parte do editor do Daily Bugle.

A vida não corre de feição a Peter Parker.

Agora chefe da divisão de pesquisa da Oscorp, Harry Osborn investiu parte considerável da sua fortuna no revolucionário projeto científico de Otto Octavius, físico brilhante idolatrado por Peter. Para assegurar a estabilidade do seu experimento de fusão atómica, Octavius concebeu quatro braços mecânicos dotados de inteligência artificial e controlados telepaticamente pelo seu usuário. Um chip neural inibidor foi adicionado à aparelhagem, de modo a prevenir que os braços se tornem sencientes.
Apresentado a Peter, Octavius fica impressionado com a paixão do jovem pela Ciência e, durante um jantar em sua casa, convida-o a assistir ao seu experimento. Contudo, quando este fracassa Octavius recusa-se a abortá-lo. Os resultados são catastróficos: o chip inibidor de Octavius é destruído e a sua esposa mortalmente ferida.
Enquanto um fortíssimo campo magnético começa a destruir o laboratório, Peter aproveita a confusão para intervir como Homem-Aranha. A custo, consegue desligar a energia, salvando as vidas dos presentes, Mas é demasiado tarde para Octavius. Embora vivo, o seu cérebro foi danificado e os braços mecânicos fundiram-se permanentemente à sua coluna. 
Horas mais tarde, uma equipa de cirurgiões procura remover os apêndices metálicos do corpo de Octavius, mas estes ganham vontade própria e massacram todo o pessoal médico antes de escaparem do hospital levando consigo o cientista.

Surge o Doutor Octopus.

Refugiado num armazém devoluto nas margens do rio Hudson, Octavius tem a sua mente corrompida pelos tentáculos, que o convencem a completar o seu experimento. Já apelidado de Doutor Octopus pelo Daily Bugle, Octavius resolve assaltar um banco para financiar o seu projeto. Coincidentemente, escolhe aquele onde Peter e a tia May tentam renegociar a hipoteca.
Na refrega que se segue, os poderes do Homem-Aranha falham momentaneamente, possibilitando ao Doutor Octopus fazer a tia May refém. Uma vez recuperado, o Escalador de Paredes resgata a idosa, que passa a vê-lo como um herói, ao invés de uma ameaça. Nesse emmeio, o Doutor Octopus consegue escapulir-se levando consigo alguns sacos de dinheiro. 
Ao fazer a cobertura fotográfica de uma festa no Planetário, Peter fica sem chão ao descobrir que Mary Jane está noiva do filho astronauta de J. Jonah Jameson. Quando a noite parecia não poder ficar pior, é injuriado por Harry que, embriagado, o acusa de ser cúmplice na morte do seu pai. Mais tarde nessa mesma noite, o Homem-Aranha volta a perder os seus poderes enquanto se balança nas suas teias, caindo desamparado.
Angustiado pela inconstância dos seus poderes - que intui ser efeito do stresse -, Peter resolve testá-los no dia seguinte. Apenas para constatar a sua incapacidade de tecer teias ou de aderir a superfícies. Também o seu sentido de aranha, apesar de funcional, está diminuído. 

Porque falham os poderes de Peter?

Após ter uma visão do tio Ben, Peter abandona o traje do Homem-Aranha num caixote do lixo e resolve viver uma vida normal. Sem grandes poderes, acabaram-se as grandes responsabilidades.
Durante uma conversa em casa da tia May, Peter confessa-lhe como foi parcialmente responsável pela morte do tio. Embora transtornada com aquela chocante revelação, May reconcilia-se com o sobrinho. Com a criminalidade em alta na cidade, May divaga sobre a esperança que o Homem-Aranha trazia às pessoas.
Ao mesmo tempo que Peter falha em reconquistar o amor de Mary Jane, o Doutor Octopus dá por terminada a reconstrução do seu reator nuclear. Falta-lhe apenas trítio para energizar o dispositivo, mas ele sabe exatamente como obtê-lo. 
Depois de coagir Harry a fornecer-lhe trítio, o Doutor Octopus aceita capturar o Homem-Aranha a troco da maior quantidade possível da substância. Harry aconselha-o a procurar Peter, porque ele consegue sempre as melhores fotografias do Cabeça de Teia.
A meio de um encontro num café com Mary Jane, Peter é surpreendido pelo ataque do Doutor Octopus. Perante a impotência de Peter, o vilão rapta MJ para usá-la como isca para atrair o Homem-Aranha para uma armadilha.
Ao perceber que recuperou plenamente os seus poderes, Peter apressa-se a resgatar o seu uniforme das instalações do Daily Bugle e parte no encalço do Doutor Octopus. Os dois digladiam-se através da cidade, acabando a trocar golpes em cima de um comboio elevado. No calor da contenda, o vilão acelera o veículo até à velocidade máxima, antes de inutilizar o respetivo sistema de travagem.
Graças a um esforço homérico do Homem-Aranha, o comboio desgovernado detém-se pouco antes de despencar de grande altura. Exausto, o herói desfalece mas é amparado pelos passageiros. O Doutor Octopus aproveita então a fraqueza do adversário para capturá-lo e entregá-lo a Harry Osborn.

O Homem-Aranha é levado ao limite das suas forças.

Ao descobrir o rosto do seu melhor amigo sob a máscara do suposto assassino do seu pai, Harry hesita em matá-lo. Peter conta-lhe que o Doutor Octopus sequestrou Mary Jane e como o seu experimento poderá varrer Nova Iorque do mapa. Depois de Harry lhe revelar o paradeiro do vilão, Peter parte para salvar MJ e milhões de outras vidas inocentes.
O Homem-Aranha volta a confrontar o Doutor Octopus, agora no covil do vilão. Perante a iminência de uma reação nuclear em cadeia, Peter retira a máscara e implora a Octavius que interrompa a fusão antes que seja tarde demais. Octavius recupera a sanidade mental, reassume o controlo dos tentáculos e afunda o reator nas águas do rio Hudson, sacrificando a própria vida.
Após resgatar Mary Jane - que agora conhece o seu maior segredo - , Peter diz-lhe que os dois nunca poderão ficar juntos porque ele sempre terá inimigos dispostos a tudo para atingi-lo.
Longe dali, Harry discute com o seu falecido pai num espelho. Norman Osborn exige ao filho que mate Peter Parker para vingar a sua morte. Harry recusa-se e estilhaça o espelho, revelando um compartimento secreto onde repousa a parafernália do Duende Verde.
No dia seguinte, Mary Jane deixa o seu noivo pendurado no altar e corre ao encontro de Peter, dizendo-lhe estar disposta a ficar com ele apesar de todos os riscos. Ato contínuo, soam sirenes na rua e, perante a hesitação de Peter, MJ encoraja-o a ir cumprir os seus deveres heroicos.

Trailer oficial:


Curiosidades

*Criação de Stan Lee e Steve Ditko, o Doutor Octopus fez a sua primeira aparição em Amazing Spider-Man #3 (abril de 1963). Apesar de ter há muito perdido esse estatuto para o Duende Verde, foi ele o primeiro némesis do Homem-Aranha e, também, o primeiro a derrotá-lo em combate. Além dos autores comuns, Otto Octavius é, tal como Peter Parker, um homem da Ciência que ganhou os seus poderes devido a um acidente radioativo;
*Idealizada por Sam Raimi ainda durante a rodagem do primeiro filme, a cena do comboio elevado foi a primeira grande sequência a ser gravada. Foram precisos cem efeitos visuais e várias semanas de trabalho intenso para lhe dar forma. Os dois meninos que, no final, devolvem a máscara ao Homem-Aranha são os meios-irmãos de Tobey Maguire;
*Quase todas as cenas em que o Homem-Aranha se balança nas suas teias pelo horizonte urbano procuram reproduzir os movimentos executados pelo herói no final de cada episódio de Spider-Man (1967), a primeira série animada do Escalador de Paredes. A batalha entre o Homem-Aranha e o Doutor Octopus na fachada de um edifício recria, de resto, aquela que os dois travaram num episódio intitulado "O Terrível Triunfo do Doutor Octopus";

Imagem promocional de Spider-Man (1967).

*A cena em que Peter Parker corre pelo beco enquanto desabotoa a camisa revelando a aranha estilizada do seu uniforme é uma referência a Superman (1978). Já aquela em que ele acelera e salta de um prédio para testar os seus poderes foi inspirada numa sequência idêntica de Matrix (1999);
*O figurino do Doutor Octopus era composto por vários adereços: um espartilho, um suporte dorsal e duas cintas ajustáveis que sustentavam os tentáculos de borracha. No total, a parafernália pesava cerca de 45 kg e foi utilizada nas cenas em que Octopus manobrava os seus tentáculos (o CGI ficou reservado para aquelas em que os tentáculos o carregavam);
*Alfred Molina batizou os seus tentáculos de Larry, Harry, Moe e Flo. Este último recebeu um nome feminino porque era operado por uma mulher, sendo também aquele que executava os movimentos mais delicados, como servir-lhe uma bebida ou colocar-lhe os óculos na face;
*Os efeitos sonoros dos tentáculos do Doutor Octopus foram obtidos com recurso a correntes de mota e cordas de piano. Na cena em que o vilão usa os seus apêndices robóticos para arrombar o cofre de um banco, o som produzido resulta de uma jante de automóvel a ser raspada no chão;
*O edifício semicolapsado que servia de covil ao Doutor Octopus era um retrato pardo do seu antigo laboratório e pretendia ser igualmente uma metáfora para o desmoronamento da sua vida pessoal. A ideia partiu do designer de produção, Neil Spisak, e o cenário, em tamanho real, demorou 15 semanas a ser construído;

Um covil repleto de simbolismo.
*Projetada para ter o dobro do tamanho da do primeiro filme, a cena do incêndio no prédio garantiu à produção controlo total sobre o ambiente. Isto porque, ao contrário da original, foi rodada num estúdio. Pretendia-se dessa forma aumentar o realismo da película e, nesse sentido, foram usadas labaredas reais. Essa foi, aliás, uma das muitas cenas perigosas protagonizadas pelo próprio Tobey Maguire, que dispensou quase sempre o seu duplo;
*Tobey Maguire é vegetariano e, por isso, estava na verdade a comer um cachorro-quente de tofu na cena em que os carros da polícia convergem na sua direção;
*Quando Peter atira o seu uniforme para dentro de um caixote do lixo e se afasta cabisbaixo, é uma recriação exata de um painel de Spider-Man No More, história originalmente publicada em Amazing Spider-Man #50 (julho de 1967). O título em apreço é também explicitamente referenciado por Peter durante a sua conversa imaginária com o Tio Ben;

Homem-Aranha nunca mais!

*Também conhecido como trício, o trítio não é tão raro como o filme sugere, podendo até ser sintetizado. Trata-se de um isótopo radioativo cuja principal aplicação consiste em eliminar a necessidade de baterias em miras térmicas e de visão noturna;
*Não estava previsto qualquer cameo de Willem Dafoe na sequela de Homem-Aranha. Certa noite, ao regressar a casa, o ator apercebeu-se da presença das filmagens na vizinhança, passou por lá para cumprimentar Sam Raimi, e foi assim que acabou convidado a fazer uma pequena participação no filme. Apesar de durar pouco mais de um minuto, a cena em causa serviu de gancho para o capítulo final da trilogia;
*Numa arrojada ação de marketing, bases com o logótipo do filme deveriam ter sido usadas nos jogos da principal liga de basebol americana. Em virtude da reação adversa dos fãs, o plano acabaria no entanto por ser descartado; 
*A banda Dashboard Confessional concordou em compor uma música para os créditos finais do filme, sob a condição de puderem vê-lo antes da respetiva estreia oficial. Satisfeito o pedido, Chris Carrabba, o vocalista, precisou apenas de dez minutos para escrever Vindicated, considerada por muitos a mais famosa canção do grupo.

Veredito: 90%

Foram oito as longas-metragens do Homem-Aranha produzidas na última vintena de anos. Nem todas foram consistentes, mas a maior partes dos filmes de super-heróis não o são. Sempre houve - e, muito provavelmente, sempre haverá - uma ou duas parcelas que se destacam na franquia. Às vezes, esses filmes marcam uma época e, apesar dos avanços tecnológicos, permanecem entre os melhores do género a que pertencem. Homem-Aranha 2 é inegavelmente um deles, continuando a servir de bitola para os seus sucessores.
Homem-Aranha 2 insere-se no restrito naipe de sequelas que, sem os depreciarem, superam os filmes originais em quase todas as vertentes. Sem incorrer no erro comum de simplesmente repetir a história do primeiro filme, substituindo o antagonista e expandindo as cenas de ação, Homem-Aranha 2 dá perfeita continuidade à trama do seu antecessor. Demonstrando, de caminho, o mesmo cuidado em conferir dimensão às suas personagens, através de um forte investimento nos diálogos (sem embargo para a fluidez da trama).
Peter Parker avalia constantemente as suas escolhas e as consequências que elas poderão ter nas pessoas que ama, revelando a insegurança típica de um jovem adulto chamado a assumir grandes responsabilidades. É nesta vulnerabilidade que reside boa parte do apelo emocional do Homem-Aranha junto do público. Um dos maiores méritos do argumento consiste precisamente na forma como aborda o homem por trás do herói.
A admiração de Peter por figuras paternas invariavelmente frustrada pelo eclipse moral dos seus ídolos é, aliás, um tema transversal na trilogia de Sam Raimi. Assim como, no primeiro filme, Norman Osborn começou por projetar em Peter as qualidades em falta no próprio filho, Otto Octavius, ao convidar o jovem para jantar em sua casa, proporciona-lhe um vislumbre da vida familiar que ele poderia ter tido. Apenas mais uma nota emotiva a realçar a humanidade do protagonista.
Tobey Maguire, que alguns consideram um ator limitado e com uma expressão sonolenta, oferece aqui um dos melhores desempenhos da sua carreira. Sendo igualmente eficiente a representar o angustiado Peter Parker e o confiante Homem-Aranha.
Alfred Molina, por seu turno, empresta uma dimensão trágica a Otto Octavius, impedindo-o de ser um cliché ambulante. Não menos ameaçador do que o Duende Verde de Willem Dafoe, o Doutor Octopus revela-se mais interessante do que este, beneficiando do facto de o espectador poder ver as suas expressões faciais.
Irrepreensíveis, as cenas de ação suplantam facilmente as do primeiro filme. O vibrante duelo do Homem-Aranha e do Doutor Octopus em cima de um comboio desgovernado é um daqueles momentos estelares, sempre reconhecíveis, que só grandes cineastas conseguem criar. 
A direção de Sam Raimi é, de resto, a principal responsável pela energia contagiante que emana da película. Ao voltar a beber na fonte das histórias clássicas do Homem-Aranha, o realizador prova o seu amor genuíno à personagem, sem contudo abdicar da sua própria identidade visual.
Contrariamente ao que afirma a sabedoria popular, a pressa nem sempre é inimiga da perfeição. Feito a toque de caixa, Homem-Aranha 2 tem os seus pequenos defeitos, mas continua a ser obra mais candente de Sam Raimi e um melhores filmes de super-heróis de sempre.




*Este blogue tem como Guia de Estilo o Acordo Ortográfico de 1990 aplicado à norma europeia da língua portuguesa.
*Resenha de Homem-Aranha (2002) disponível para leitura complementar.



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30 julho 2022

GALERIA DE VILÕES: RA'S AL GHUL


   A sua origem e nome verdadeiro perderam-se na noite dos tempos. Qual messias negro numa cruzada genocida, continua a regressar dos mortos para purgar a Terra do vírus da corrupção humana. No Batman encontrou um adversário digno e o tão desejado herdeiro para o seu império de sombras.

Denominação original:
 Ra's al Ghul
Editora: DC
Criadores: Julius Schwartz (nome e conceito), Dennis O'Neil (história) e Neal Adams (arte conceptual)
Estreia: Batman Vol.1 #232 (junho de 1971)
Identidade civil: Desconhecida
Espécie: Humano
Local de nascimento: Algures no Deserto Arábico
Parentes conhecidos: Sensei (pai); Sora (primeira esposa, falecida); segunda esposa não identificada (falecida); Melisande (terceira esposa, falecida); Nyssa Raatko (filha, falecida); Talia al Ghul (filha); Dusan al Ghul (filho, falecido); Bruce Wayne/Batman (ex-genro); Damian Wayne/ Robin V (neto)
Ocupação: Magnata e ecoterrorista internacional.
Base de operações: Ra's al Ghul possui dezenas de covis secretos em latitudes tão diferenciadas como os Alpes suíços ou os Himalaias. Cada um deles coincide com a localização de um Poço de Lázaro, sendo esse o motivo da sua itinerância compulsiva.
Afiliações: Líder e fundador do Demónio e da Liga de Assassinos.
Némesis: Batman
Poderes e parafernália: Ninguém - talvez nem mesmo o próprio- sabe ao certo há quanto tempo Ra's al Ghul caminha sobre a Terra. Mas a História da Humanidade seria decerto muito diferente sem a sua interferência. Como um maestro invisível, ele triunfa manipulando as suas orquestrações. As suas aparições são raras, mas cada uma é mais impactante do que a anterior.
Estrategista magistral, Ra's comandou exércitos em batalhas decisivas, ordenou assassinatos políticos e conspirou nos bastidores para alterar o curso de acontecimentos cruciais. Entre as suas façanhas mais notáveis, colocou em marcha a catastrófica cadeia de eventos que culminou na Grande Guerra. Ao desencadear uma conflagração à escala mundial, esperava conseguir fazer regredir a Humanidade à era pré-industrial, poupando a Terra aos efeitos da poluição. Em tempos mais recentes, lançou um mortífero vírus geneticamente modificado em Gotham City e derrotou a Liga da Justiça recorrendo aos planos de contingência elaborados secretamente pelo Batman com base nas principais vulnerabilidades dos seus membros.
Tudo isto só foi possível graças aos Poços de Lázaro, fontes místicas com propriedades regenerativas únicas. O líquido esverdeado de composição desconhecida que delas brota consegue cicatrizar instantaneamente ferimentos graves, doenças terminais e até reverter mortes recentes. Além de ter tido a sua longevidade expandida pelo Poço de Lázaro (assim chamado em referência à figura bíblica ressuscitada por Jesus Cristo), Ra's já perdeu a conta às vezes que se ergueu de entre os mortos.

O Poço de Lázaro tornou Ra's al Ghul imortal.

Ao longo dos séculos, Ra's al Ghul acumulou vastíssima riqueza, conhecimento e poder, dispondo, por conseguinte, de recursos praticamente ilimitados, incluindo um exército de seguidores fanatizados que o veneram como um messias. Ra's especializou-se também em diferentes campos de estudo, tanto científicos como esotéricos. O seu perfeito domínio da Microbiologia, por exemplo, permite-lhe modificar vírus em laboratório para originar epidemias ou pandemias.
Em várias ocasiões, Ra's demonstrou ser capaz de transferir a sua alma para os corpos de outras pessoas, assegurando assim a própria sobrevivência, mesmo quando não tem acesso ao Poço de Lázaro. Os pormenores exatos desse processo afiguram-se, porém, inconsistentes: tanto pode envolver um complexo ritual místico como pode ser apenas necessário o contacto direto de Ra's com o seu futuro hospedeiro.
Séculos de treino e experiência fizeram de Ra's um espadachim sem igual. Gaba-se mesmo de ter ensinado o manejo da espada aos mestres esgrimistas das primeiras academias europeias e de ter sobrevivido aos círculos de duelos cossacos.  Quando em combate, prefere armamento antigo - sabres, cimitarras, lanças... - ainda que seja igualmente proficiente com armas de fogo e outro material bélico moderno. 

Batman e Ra's al Ghul num duelo mortal sob o sol do deserto.

Além de ser mestre em diversas artes marciais, Ra's possui as aptidões físicas de um atleta olímpico e tem a sua força e reflexos ampliados a nível sobre-humano logo após cada mergulho no Poço de Lázaro. Apesar disso, raramente consegue levar de vencida o Batman num mano a mano. Na maior parte das vezes, os dois contendores acabam por sucumbir à exaustão e o combate termina empatado.
Mas nem só no plano físico Ra's pede meças ao Cavaleiro das Trevas. Com poder de fogo intelectual superior ao do seu némesis, a Cabeça do Demónio consegue frequentemente ocultar o seu envolvimento nos acontecimentos em curso até ser demasiado tarde.
Profeta aos olhos de uns, terrorista aos olhos de outros, Ra's al Ghul vê-se a si mesmo como um artista. A sua visão é a de uma Terra tão limpa e pura como uma montanha nevada ou o deserto de areias escaldantes que, incontáveis eras atrás, lhe serviu de berço. Claro que, para isso, terá primeiro de fazer correr rios de sangue...

Fraquezas: Apesar de os Poços de Lázaro garantirem semi-imortalidade aos seus usuários, essa dádiva tem um custo. Ao dar vida, o poço também tira vida. De cada vez que Ra's al Ghul se banha nas suas águas milagrosas fica mais próximo da morte que não pode ser revertida. Adicionalmente, o poço deixa-o temporariamente enlouquecido, tornando as suas ações erráticas e violentas. Numa dessas ocasiões, séculos atrás, Ra's matou acidentalmente a sua segunda esposa.
Mesmo tendo plena consciência dos efeitos perniciosos do Poço de Lázaro na sua saúde física e mental, Ra's não consegue deixar de usá-lo. Como se de uma potente droga se tratasse, o poço é extremamente viciante. Quanto mais Ra's o usa mais viciado fica. Ao fim de mais de 700 anos de (ab)uso, ele simplesmente não consegue parar.
No que ao Batman especificamente diz respeito, a principal fraqueza de Ra's al Ghul radica no profundo amor de Talia pelo herói. Nem um coração empedernido como o seu é totalmente insensível aos sentimentos da filha. Por outro lado, o desejo de Ra's de fazer do Cavaleiro das Trevas seu sucessor leva-o muitas vezes a poupar a vida àquele que sabe ser o seu mais formidável inimigo.

O Poço de Lázaro deixa Ra's al Ghul temporariamente ensandecido.


Vilão sui generis

Com a Guerra do Vietname num impasse e o martírio de profetas da esperança, como Martin Luther King, a década de 1970 alvoreceu nublada e com o Sonho Americano ligado às máquinas. Contagiados pelo espírito do tempo, os leitores do Batman naturalmente já não se identificavam com a versão kitsch do herói que marcara a década pregressa, e que tivera na série televisiva do Homem-Morcego com Adam West o seu maior expoente mediático. Resultando disso a imperiosa necessidade de adaptar as histórias do Homem-Morcego aos novos tempos. Tarefa que, no entendimento do então editor dos títulos do Batman, Julius Schwartz, requeria um escritor arrojado e um artista consagrado.
Depois da revolucionária passagem de Dennis O'Neill e Neal Adams por Green Lantern/Green Arrow, Schwartz sabia serem eles os homens certos para restaurar o apelo do Cavaleiro das Trevas junto do público, e tratou de reunir novamente a dupla-maravilha.

Julius Schwartz (1915-2004)  foi o editor que adaptou Batman aos novos tempos.

Se Adams já havia emprestado o seu traço dinâmico e realista a The Brave and the Bold, O'Neill, no seu primeiro contacto com Batman, não se fez rogado em introduzir uma série de alterações importantes na vida da personagem. Para além do tom mais melancólico das tramas, essas mudanças passaram pela ida de Dick Grayson para a Universidade de Hudson (separando, assim, a Dupla Dinâmica), e por levar Bruce Wayne e Alfred a trocarem a Mansão Wayne por uma luxuosa cobertura no centro de Gotham City. A mais importante dessas mudanças foi, porém, o surgimento de um novo inimigo do Cavaleiro das Trevas. Um inimigo a vários títulos diferente, porquanto a lógica das suas ações o faziam divergir do arquétipo vilanesco. Sem uniformes vistosos, superpoderes ou bugigangas tecnológicas, mas com os meios, a motivação e o intelecto que lhe permitiam afirmar-se como uma terrível ameaça à segurança global.
Por sugestão de Schwartz, o novo vilão foi crismado como Ra's al Ghul, expressão de origem árabe que significa "cabeça do demónio". E que referencia, também, a estrela Algol, à qual diversos povos da Antiguidade atribuíam uma influência nefasta nos destinos do mundo. Uma escolha deveras apropriada olhando ao escopo dos planos de Ra's al Ghul. 
Desde a sua entrada em cena, em Batman #232 (junho de 1971), que Ra's al Ghul demonstrou ser um vilão sui generis. Desde logo por ter sido ele o primeiro inimigo do Homem-Morcego a deslindar a identidade secreta do herói. Mas, sobretudo, pelo facto de ser um homem sem idade a quem não se aplicam as leis do tempo, uma vez que o Poço de Lázaro o tornou virtualmente imortal. Vive, ademais, obcecado com a ideia de transformar o mundo decadente que o rodeia numa utopia sem crime nem poluição. Missão que encara como sagrada e que deseja cumprir a todo o custo, independentemente dos milhões de vidas humanas que seria preciso sacrificar para tornar o seu sonho realidade.


Batman #232 (1971) introduziu
 um novo e perigoso inimigo do Cavaleiro das Trevas.

Alguns terão porventura visto no nome de origem árabe e no recurso ao terrorismo como instrumento para impor as suas crenças uma pouco subtil alusão ao fundamentalismo islâmico. Esta é, contudo, uma interpretação abusiva, visto, que, à época, o jihadismo era um movimento mais inorgânico, ainda desprovido de um líder carismático e facilmente identificável, como o foi este século Osama bin Laden.
Com efeito, a principal fonte de inspiração para Ra's al Ghul foi o Dr. Fu Manchu, vilão da literatura pulp criado, em 1913, por Sax Rohmer. Além da origem asiática, remetendo para o Perigo Amarelo tão em voga nos anos 1930, ambos são génios científicos em cruzada para moldar o mundo aos seus ideais; ambos dispõem de exércitos particulares (Liga de Assassinos e Si-Fan) e ambos têm filhas belas e perigosas (Talia al Ghul e Fah Lo Suee) que se envolvem romanticamente com os arqui-inimigos dos seus diabólicos pais (Batman e Sir Dennis Nayland Smith). Outra possível influência visual terá sido o Imperador Ming, das tiras clássicas de Flash Gordon.
Em todo o caso, a aparência de Ra's al Ghul foi da inteira responsabilidade de Neal Adams. O artista empenhou-se em tornar a personagem facilmente reconhecível, mesmo sem os paramentos coloridos da praxe. Nesse sentido, desenhou Ra's com a testa larga, bigode à mandarim e sem sobrancelhas, para lhe acentuar o olhar penetrante.

Expoente do Perigo Amarelo, o Dr. Fu Manchu serviu de modelo a Ra's al Ghul.

Ra's al Ghul possui ainda outras características que o fazem funcionar como um verso solto na galeria de vilões do Batman. Sem veio maligno, movem-no ideais nobres, embora potencialmente genocidas. Tudo o que ele deseja é um mundo melhor em que os humanos vivam em comunhão com a Mãe Natureza, ao invés de depredá-la. Em certa medida, ele foi um pioneiro do ativismo ambiental, que alertou para os perigos da industrialização acelerada e do crescimento exponencial da população. Como os homens não lhe deram ouvidos, ele resolveu puni-los pela lenta destruição do planeta.
No fundo, Ra's al Ghul representa o reverso extremista do Batman. Com quem, aliás, mantém uma dialética em tudo semelhante à do Professor X com Magneto. Ele faz tudo o que o Batman deseja fazer, mas, ao contrário dele, não se deixa condicionar por um código moral. Ra's não faz prisioneiros e não tem escrúpulos em matar por aquilo que acredita ser o bem maior. Ambos sonham erradicar o Mal do mundo, mas apenas Ra's está disposto a tudo para alcançar esse desígnio.
Por tudo isto e muito mais, Ra's al Ghul ocupa lugar de destaque na extensa galeria de vilões do Homem-Morcego, disputando ao Joker o estatuto de verdadeiro némesis do herói.

Para alguns, Ra's al Ghul é o verdadeiro némesis do Batman.


A Cabeça do Demónio

O homem que o mundo aprendeu a temer como Ra's al Ghul terá nascido há mais de 700 anos num dos vastos desertos da Península Arábica, no seio de uma tribo nómada presumivelmente originária da China. Junto com o seu coração outrora bondoso, o seu nome batismal ficou para sempre soterrado pelas areias do tempo.
Fascinado, desde os seus verdes anos, pela Ciência, Ra's trocou a vida no deserto pela vida na cidade, onde poderia iniciar os seus estudos. Era já um médico renomado, habituado a distribuir sentenças de vida, quando conheceu Sora, o amor da sua vida que desposaria logo depois.
A viver uma breve etapa de felicidade conjugal, Ra's fez uma descoberta que lhe mudaria para sempre a vida: o Poço de Lázaro. Cujas propriedades milagrosas usou para salvar a vida de um príncipe moribundo, filho do sultão que governava a cidade onde ele e Sora moravam. Sem que Ra's o soubesse, o príncipe era na verdade um tiranete que tratava os seus súbditos com grande crueldade.
Ato contínuo à sua ressurreição pelo Poço de Lázaro, o príncipe, completamente fora de si, estrangulou Sora até à morte. Ra's clamou ao sultão por justiça, mas este, para proteger o filho, culpou-o pelo crime e condenou-o a um sórdido calvário. No meio do deserto, trancado numa jaula com o cadáver em decomposição de Sora, Ra's foi deixado para morrer à fome e à sede.


Acusado de um crime que não cometeu,
 o jovem Ra's foi condenado a uma morte agonizante.

Antes que isso acontecesse, Ra's foi no entanto libertado por Huwe, o filho de uma anciã a quem ele mitigara o sofrimento no seu leito de morte. Acompanhado pelo mancebo, Ra's regressou à sua tribo em busca de auxílio para levar a cabo a sua vingança. O tio de Ra's, que agora liderava o clã, concordou em lavar a honra do sobrinho com sangue.
Compreendendo a teoria dos germes causadores de doenças centenas de anos antes de qualquer outro cientista, Ra's logrou infetar o príncipe com um vírus mortal enviando-lhe luxuosos tecidos contaminados. Quando o desesperado sultão lhe implorou que curasse novamente o filho, Ra's matou ambos, sem dó nem piedade. Em seguida, ordenou à sua tribo que arrasasse a cidade e massacrasse todos os seus habitantes.
De entre as ruínas fumegantes juncadas de corpos dilacerados, ergueu-se naquele infausto dia a Cabeça do Demónio. Que, desde então, não mais deixou de sombrear de medo as almas dos homens.
Tornado imortal pelo Poço de Lázaro, Ra's passou os séculos seguintes a viajar pelo mundo, tendo Huwe e o tio - também eles imortais - como companheiros nessa longa jornada. Pouco tempo depois de o trio ter assentado arraiais em Londres, Ra's surpreendeu Huwe a escrever as próprias memórias na sua língua materna. Uma inaceitável transgressão que poderia expor ao mundo os segredos da Cabeça do Demónio.
Durante uma batalha da Guerra dos Cem Anos, Ra's matou Huwe e regressou a Londres. Apenas para descobrir que o seu tio havia desparecido, levando consigo os manuscritos do rapaz. Mercê dessa traição familiar (a primeira de muitas), a Cabeça do Demónio passou a exigir devoção cega aos seus seguidores, dispostos a matar e a morrer em seu nome.
Agora um viajante solitário, Ra's contemplou de perto a pior face da Humanidade. Ao longo dos séculos, assistiu de camarote à ópera de horrores que é a História Mundial: uma interminável sucessão de guerras, revoluções e genocídios. Viu como o poder corrompe o coração dos homens, e como estes brutalizam a Mãe Natureza.
Por conta de tudo isto, Ra's começou a desprezar profundamente os seus semelhantes, comparando-os a uma praga que parasita a Terra. Exterminá-la seria, pois, a sua missão sagrada. Mas ele sabia que não poderia cumpri-la sozinho.
Sem nunca parar de acumular riqueza, conhecimento e poder, Ra's al Ghul usou os seus imensos recursos para fundar o Demónio. Uma organização secreta que conspirava nas sombras para restaurar a pureza e harmonia da Terra, diminuindo drasticamente o seu número de habitantes. Dela emanou posteriormente a Liga de Assassinos (ver Miscelânea), cujo objetivo primordial consiste em liquidar os inimigos do Demónio.

Ra's al Ghul fundou a Liga de Assassinos.

À cabeça do seu próprio exército, Ra's pôde, enfim, colocar em prática a sua visão distorcida de justiça. Essa sinistra mistura de darwinismo social e ecoterrorismo fizeram dele uma espécie de extremista bem intencionado, mas nem por isso menos perigoso.
Ra's al Ghul já contava séculos de vida e carregava milhares de mortes na consciência aquando do seu primeiro encontro com o Batman. Este teve lugar pouco tempo depois de o Cavaleiro das Trevas salvar a vida de Talia. Ao saber a filha perdida de amores pelo enigmático campeão de Gotham City, Ra's resolveu investigá-lo. Depressa deduziu que somente Bruce Wayne disporia dos recursos necessários para financiar a sofisticada logística do Batman. Ao invés de divulgar essa informação, preferiu no entanto guardar segredo.
Mais tarde, Ra's engendrou um plano para testar as capacidades do herói. Encenou o rapto de Talia e Dick Grayson e procurou a ajuda de Batman para resgatá-los. A farsa foi, contudo, rapidamente desmontada pelo maior detetive do mundo.
Impressionado com o caráter e as capacidades intelectuais de Bruce Wayne, Ra's ofereceu-lhe o comando da Liga de Assassinos e a mão de Talia. Perante a dupla recusa do herói, Ra's acusou-o de ser o guardião da Sodoma moderna e jurou destruir Gotham.
Nascia assim uma das mais fascinantes rivalidades do Universo DC. Entre Batman e Ra's al Ghul é mais aquilo que os une do que aquilo que os separa. Ambos foram moldados pela tragédia, partilham o mesmo desiderato, admiram-se mutuamente e disputam a lealdade de Talia, cujo coração balança dolorosamente entre o pai e o homem que ama.
Sempre que uma civilização atinge o seu pináculo de decadência, a Cabeça do Demónio ressurge para restaurar o equilíbrio. Depois de ter incendiado Londres e de ter lançado a Peste Negra na Europa, qual será o próximo alvo da sua ira? Seja ele qual for, Ra's sabe que o Cavaleiro das Trevas tudo fará para lhe frustrar os planos.

A Cabeça do Demónio continua a engendrar novos planos genocidas para purgar a Terra.

Miscelânea

*Embora de etimologia árabe, a pronúncia oficial de Ra's al Ghul - Reysh al Gool - é hebraica. Na base desta opção poderá ter estado a proximidade fonética com o vocábulo "resh" que, em Hebreu, significa "chefe" ou "cabeça". Outra possibilidade é ter-se tratado de um subterfúgio da DC para realçar as raízes multiétnicas e multiculturais da personagem;
*Ra's al Ghul faz-se sempre acompanhar de Ubu, um gigante carrancudo que, além de guarda-costas, é também o seu servo mais leal. Na verdade, Ubu não é um nome, mas sim um título atribuído aos homens mais fortes e valentes de um antigo clã do deserto. À luz de cuja tradição servir a Cabeça do Demónio é a maior honra a que qualquer um dos seus membros pode aspirar;

Ubu segue o seu mestre como uma sombra.

*Também conhecida como Liga das Sombras, Sociedade de Assassinos ou Presa do Demónio, a Liga de Assassinos é uma fação do Demónio, a primeira organização secreta fundada, vários séculos atrás, por Ra's al Ghul. Pelas suas fileiras passaram alguns dos mais eficientes e desapiedados assassinos de diferentes épocas, incluindo o mestre arqueiro Merlyn e Lady Shiva (arqui-inimigos, respetivamente, do Arqueiro Verde e da Canário Negro). A partir de uma análise minuciosa dos seus relatórios anuais de atividades, Tim Drake (o terceiro Robin) calculou que a Liga de Assassinos matará a cada mês uma centena de pessoas em todo o mundo. Os métodos, hierarquia e fanatismo dos seus membros evocam a Hashshashin, uma lendária ordem de assassinos fundada na Pérsia no ano 1090 d.C. e que, ao longo dos dois séculos seguintes, expandiu a sua sangrenta influência ao resto do Médio Oriente. Especializada em assassinatos políticos, designadamente de líderes cristãos, era comandada por um misterioso Velho da Montanha, cuja verdadeira identidade permanece um mistério até aos dias de hoje;
*Apesar de se arvorar em defensor dos valores e tradições familiares, Ra's al Ghul foi sempre um pai abusivo. Depois de Nyssa Raatko, a sua filha mais velha, ter desertado da Liga de Assassinos para levar uma vida normal, Ra's deixou-a para morrer num campo de concentração nazi. Por sua vez, Talia, a sua filha favorita, foi submetida, praticamente desde o berço, a uma série de duríssimas provações físicas, mentais e emocionais, para se provar uma digna herdeira do pai. Apesar de a jovem as ter superado a todas sem nunca demonstrar fraqueza, Ra's, o mais antigo dos misóginos, continua a desejar ardentemente um varão para lhe suceder. No entanto, também Dusan, o seu único filho conhecido, foi considerado um herdeiro inadequado, em virtude de ter nascido albino e com uma saúde frágil. Perante estes fracassos filiais e a irredutível recusa do Batman em assumir o controlo do seu império das sombras, Ra's encara agora o seu neto, Damian Wayne (fruto do casamento anulado de Talia e Bruce Wayne), como o candidato ideal para a função;

A prole do Demónio: Talia al Ghul, Nyssa Ratko e Dusan al Ghul.

*Em sinal de deferência e admiração pelas capacidades intelectuais de Bruce Wayne, Ra's al Ghul trata-o sempre por "Detetive", nunca por "Batman" (que considera um simples disfarce). De igual modo, trata o Super-Homem por "Ícone", reconhecendo-o como um símbolo de esperança para o mundo;
*No universo paralelo da Amalgam Comics (iniciativa editorial conjunta Marvel/DC, nos anos 1990), Ra's al Ghul foi fundido com o vilão dos X-Men  Apocalipse, dando origem ao poderoso Ra's Al-Pocalypse;
*Ra's al Ghul surge em 7º lugar na lista dos cem maiores vilões dos comics, divulgada em 2011 pelo site IGN. É, de resto, um dos expoentes de malignidade da DC mais bem cotados, apenas atrás de Darkseid (6º), Lex Luthor (4º) e Joker (2º);
*Emitido em novembro de 1992, o 50º episódio de Batman: The Animated Series marcou a estreia de Ra's al Ghul no segmento audiovisual. Off Balance era baseado no arco de histórias que, duas décadas antes, apresentara a Cabeça do Demónio aos leitores do Homem-Morcego. Foi, no entanto, a participação de Ra's em Batman Begins (2005) a dar-lhe verdadeira ressonância mediática. Depois de ter sido interpretado por Liam Neeson naquele que foi o capítulo inaugural da trilogia cinematográfica do Cavaleiro das Trevas, em 2013, o vilão fez a sua primeira aparição live action no pequeno ecrã, agora vivido pelo australiano Matthew Nable na terceira temporada de Arrow.

As muitas faces de Ra's al Ghul no pequeno e grande ecrã.



*Este blogue tem como Guia de Estilo o Acordo Ortográfico de 1990 aplicado à norma europeia da Língua Portuguesa.
*Artigos sobre Talia al Ghul, Neal Adams e Dennis O'Neill disponíveis para leitura complementar.
















20 maio 2022

ETERNOS: WILLIAM MOULTON MARSTON (1893-1947)

 

  Guru da Psicologia, genialmente excêntrico, escandalizou meio mundo com as suas teorias de género, taras sexuais e poligamia. Nos comics encontrou a boia de salvação para a sua carreira naufragada, fazendo da Mulher-Maravilha um ícone feminista e uma campeã da Verdade, apesar de ser ele próprio  mestre na arte da dissimulação.

Mais bela do que Afrodite, mais sábia do que Atena, mais veloz do que Hermes e mais forte do que Hércules. Diana de Temiscira, conhecida como Mulher-Maravilha no Mundo do Patriarcado, já nasceu sui generis. A despeito de ser a mais famosa das super-heroínas, a Princesa Amazona destoou sempre das suas congéneres. Na exata medida em que o seu autor foi, também ele, uma figura ímpar no mundo dos quadradinhos norte-americanos.
William Moulton Marston não era um escritor frustrado nem um aspirante a artista. Era um polímata, um académico reverenciado com extensa e eclética obra publicada. Isto, claro, antes do anátema que lhe foi lançado por conta da sua indecorosa vida pessoal. Muito antes do amor livre propalado pelo movimento hippie, Marston vivia uma relação polígama com três mulheres igualmente brilhantes e excêntricas. Numa época em que as descendentes de Eva eram ainda consideradas cidadãs de segunda, ele foi um dos primeiros homens a abraçar a militância feminista. Marston era, também, um fervoroso adepto da amarração erótica (vulgo bondage), numa variante menos adocicada do que aquela que foi descrita em As Cinquenta Sombras de Grey. E porque a arte imita a vida, a Mulher-Maravilha começou por refletir as facetas mais controversas do seu criador. 

Se por trás de um grande homem há sempre uma grande mulher,
por trás da Mulher-Maravilha esteve um homem controverso.

Homem dos mil ofícios e das mil máscaras, habituado a camuflar-se na floresta de lugares-comuns que serve de habitat às pessoas ditas normais, Marston é um enigma ainda não totalmente decifrado. Mas um que vale a pena perscrutar, no pressuposto que a realidade será tão (ou mais) fascinante do que a ficção. Não por acaso, as peripécias biográficas do "pai" da Mulher-Maravilha foram adaptadas ao cinema. Seguem-se as coordenadas para explorar tão complexa personagem.
William Moulton Marston nasceu a 9 de maio de 1893 em Saugus, pequena cidade industrial do Massachusetts onde, no segundo quartel do século XVII, foram instaladas as primeiras siderúrgicas integradas da América do Norte. Único filho de um casal abastado, cresceu rodeado de privilégio e de mulheres fortes e independentes, com a mãe e as tias solteironas a moldarem-lhe a personalidade. Pouco mais se conhece da sua infância, marcada por uma mui precoce volúpia pelo conhecimento que o acompanharia pelo resto da vida.
Aos 17 anos, Marston foi admitido na prestigiadíssima Universidade de Harvard, onde começou por estudar Direito. Apesar da sua reconhecida capacidade intelectual, os primeiros tempos na instituição foram pouco auspiciosos. As más notas a algumas disciplinas levaram-no mesmo a ponderar o suicídio, com recurso a uma cápsula de cianeto. Repensou, no entanto, essa sua macabra decisão quando Emmeline Pankhurst, a maior referência do sufragismo britânico, foi proibida de discursar no campus. Indignado com aquele tratamento ultrajante a uma das suas heroínas de infância, Marston encontrou novo propósito de vida na revolução sexual que dava então os primeiros passos. Nesse sentido, dedicou-se aos estudos com redobrado afinco.
Do namoro inconsequente do jovem Marston com o cianeto, resultaria, em 1942, a criação da Doutora Veneno. Génio da química ao serviço do Eixo, foi ela a primeira supervilã fantasiada das histórias da Mulher-Maravilha.


Marston durante os seus tempos de estudante em Harvard.

Em 1918, Marston licenciou-se em Direito com Phil Beta Kappa, honraria académica outorgada aos melhores alunos a nível nacional. Três anos mais tarde, animado pelo seu fascínio pela mente humana, averbou ao currículo um doutoramento em Psicologia, área em que alcançaria maior notoriedade. Ironicamente, Marston teve como mentor Hugo Münsterberg, acérrimo opositor da concessão do direito de voto às mulheres. As posições misóginas de Münsterberg serviriam de matéria-prima para a criação, em 1943, de outro inimigo clássico da Princesa Amazona: o Doutor Psycho.
Foi também durante os seus tempos de estudante em Harvard que Marston conheceu a sua alma gémea. Elizabeth Holloway era aquilo que a gíria da época designava como "amazona": uma mulher culta, rebelde e emancipada. Além do feminismo e das insígnias académicas, o casal de intelectuais progressistas tinha em comum o bondage como fetiche sexual.
Marston e Elizabeth trocaram alianças em 1915, ano em que colaboraram também no desenvolvimento da segunda invenção mais famosa do criador da Mulher-Maravilha: o polígrafo. Enquanto o casal estudava a tensão arterial para a dissertação de Marston, Elizabeth reparara que esta subia em função do seu grau de excitação ou nervosismo. Do aprofundamento da pesquisa resultou a criação do teste da pressão arterial sistólica, antecessor do moderno detetor de mentiras.
Alguns historiadores sugerem, todavia, que o mérito da invenção terá pertencido, por inteiro, a Elizabeth Holloway, que terá permitido que o marido a apresentasse como sua. Depois de Harvard lhe ter barrado a entrada apenas por causa do seu género, ela sabia que qualquer descoberta científica apresentada por uma mulher incorreria no desdém dos seus pares masculinos. Conjeturas à parte, certo é que a engenhoca também seria incorporada no imaginário da Mulher-Maravilha, sob a forma de um laço mágico que compele os cativos a falarem verdade.

Marston (dir.) supervisiona um teste do polígrafo.

Ao serviço do Exército americano durante a I Guerra Mundial, Marston tentou, sem sucesso, vender o seu teste da pressão arterial sistólica ao Governo. Marston considerava-o um método simples e eficaz para desmascarar espiões, mas o ceticismo das autoridades inviabilizou o negócio. Apesar de frequentemente utilizado em julgamentos e interrogatórios policiais nos EUA, o detetor de mentiras (patenteado, em 1921, por John Larson com base nas descobertas de Marston) continua a ter a sua fiabilidade contestada pela Associação Americana de Psicologia.
O regresso de Marston à vida civil assinalou também o seu regresso ao meio académico. Em 1922, começou a dar aulas de Psicologia nas universidades de Washington D.C, e de Medford (no seu Massachusetts natal) ao mesmo tempo que escrevia ensaios sobre bondage e livros de autoajuda. 
No auge da luta das mulheres americanas pelo direito ao voto, Marston era habitué nas passeatas organizadas pelas sufragistas. Foi numa delas que conheceu uma recatada, porém obstinada, bibliotecária chamada Marjorie Huntley. Os dois perderam-se de amores um pelo outro, e Marston convenceu a esposa a acolher a amante na residência do casal, onde o trio coabitou maritalmente durante vários anos. Com o tempo, Marjorie passaria no entanto de residente a hóspede ocasional na casa dos Marstons.
Em 1925, na berlinda por causa das suas teorias relacionadas com as emoções humanas, Marston teve o coração arrebatado por uma das suas mais jovens e promissoras alunas. Olive Byrne tinha pedigree feminista, uma vez que era filha e sobrinha das mulheres - Ethel Byrne e Margaret Sanger - que, uma década antes, tinham feito História ao abrirem a primeira clínica de controlo de natalidade em terras do Tio Sam.
Dona de um corpo escultural e de uma mente irrequieta, Olive era também uma ninfómana entusiasta das práticas BDSM. Credenciais mais do que suficientes para fazer dela o novo elemento do culto de amor livre secretamente desenvolvido por Marston. Formava-se assim o triângulo amoroso que daria ao mundo a sua maior super-heroína.

O ménage à trois que deu origem à Mulher-Maravilha.

Por menos ortodoxa que fosse a vida familiar de William Moulton Marston, as mulheres pareciam ser, em última análise, as principais beneficiadas. Marston concebeu dois filhos com Elizabeth e outros tantos com Olive. Enquanto esta ficava em casa a cuidar das quatro crianças, Elizabeth e o marido podiam concentrar-se nas suas carreiras académicas. De quando em quando, Olive também dava o seu contributo para o orçamento familiar escrevendo artigos para a Family Circle. Distribuída em mercearias e postos de combustível, era uma revista muito popular entre as donas de casa, que nela encontravam dicas e conselhos para serem verdadeiras fadas do lar. Na maior parte das vezes, os textos de Olive, assinados com o pseudónimo Olive Richard, ensinavam as leitoras a educarem os filhos da forma mais tradicional possível...
A fim de manterem as aparências, os Marstons, quando questionados sobre Olive, diziam tratar-se de uma cunhada, viúva e desamparada, que eles, num gesto de caridade, haviam contratado como governanta. Apesar de viverem sob o mesmo teto do pai, aos filhos de Olive foi contada a mesma patranha e, por isso, cresceram julgando-se órfãos. Só em adultos ficariam a conhecer a sua verdadeira filiação e a verdadeira natureza da relação dos seus progenitores.

 O clã Marston escondia muitos segredos.

Nem mesmo um mestre na arte da dissimulação consegue no entanto enganar toda a gente durante todo o tempo. Quando, por fim, a poligamia de Marston foi exposta, os seus pares passaram a tratá-lo como um leproso, culminando na sua expulsão de todas as universidades onde lecionava. Caído em desgraça, o guru da Psicologia passaria a maior parte da década de 1930 desempregado e sustentado pela esposa.
A sua derrocada profissional principiara, contudo, alguns anos antes. Em 1923, Marston andara nas bocas do mundo pelos piores motivos. Após a falência da sua empresa de vestuário, fora acusado de fraude comercial. Apesar das acusações terem sido entretanto retiradas, Marston sofreu graves danos reputacionais por conta desse escândalo.
Outra razão que ajuda a explicar o gradual isolamento de Marston no meio académico foram as suas radicais teorias de género. Ele considerava os homens agressivos por natureza, logo propensos a conflitos. Acreditava, por outro lado, na superioridade das mulheres, descritas como mais honestas e eficientes, ainda que submissas. Numa das raras palestras que proferiu após o naufrágio da sua carreira como psicólogo, Marston defendeu mesmo que o mundo só viveria em paz quando fosse governado pelo sexo feminino. Nos comics, Marston encontraria, inesperadamente, um veículo privilegiado para as suas teses.
Devido ao seu baixo custo, as histórias aos quadradinhos eram uma das formas de escapismo mais populares durante a Grande Depressão. Com o advento dos super-heróis, nos anos terminais da década de 1930, a indústria entrou em franca expansão. Novos títulos e novos personagens eram lançados em barda por uma pletora de editoras. Não faltava, contudo, quem apontasse o excesso de violência dos justiceiros fantasiados,  que preferiam a lei da força à força da Lei. Nos jornais da época, editoriais inflamados comparavam-nos aos fascistas que assolavam o continente europeu. Alguns iam ainda mais longe nos seus impulsos farisaicos, apelidando os super-heróis de desgraça nacional, responsabilizando--os pela corrupção moral da juventude americana.
Marston, ao invés, reconhecia elevado potencial pedagógico às histórias de super-heróis, e deu conta disso mesmo numa extensa entrevista concedida a Olive Byrne para a Family Circle. Publicado em outubro de 1940, sob o sugestivo título Don't Laugh at the Comics (Não se riam dos comics), o artigo captou a atenção de Maxwell C. Gaines, editor e cofundador da All-American Publications (antepassada da DC). Gaines - que, ao que tudo indica, ignorava o lastro de escândalos e polémicas de Marston - apressou-se a contratá-lo como consultor educativo do seu Conselho Editorial.

Os comics relançaram a carreira de Marston, que lhes dedicou os últimos anos de vida.

Face à predominância masculina e ao culto da violência que caracterizavam a subcultura dos super-heróis, Marston, por sugestão da esposa, propôs a criação de uma heroína que, em vez da força bruta, usasse o amor como arma principal no combate ao Mal. Max Gaines deu o seu aval à ideia, mediante a condição de que fosse o próprio Marston a desenvolvê-la. Desafio que ele, apesar da sua inexperiência,  não se fez rogado em aceitar.
Mais do que uma mera interação feminina do Super-Homem ou do Batman, Marston tinha em mente uma heroína que fosse um modelo para as jovens, inspirando-as a baterem-se pelos seus direitos e a alcançarem sucesso em áreas dominadas pelos homens. Nesse sentido, apetrechou-a com o caráter e a inteligência de Elizabeth Holloway, e a sensualidade e sensibilidade de Olive Byrne. A mulher ideal começava lentamente a tomar forma, mas era preciso transpô-la para o papel.
Essa tarefa coube a Harry G. Peter, escolhido por Marston por se tratar de um artista veterano famoso pelos seus cartoons pró-sufragistas. Peter preferiu, todavia, usar as voluptuosas pin-ups da Esquire como modelos anatómicos da nova musa de tinta.
Marston começou por crismar a sua criação de Suprema, the Wonder Woman, mas Max Gaines abreviou-lhe o nome. No jargão da época, "wonder woman" designava uma mulher excecionalmente talentosa, pelo que o título lhe assentava como uma luva.

Esboço inicial da Mulher-Maravilha com anotações manuscritas de Marston.

Coincidindo com o ataque japonês a Pearl Harbor, a Mulher-Maravilha debutou discretamente em dezembro de 1941, na oitava edição de All-Star Comics. A sua origem bebia diretamente na mitologia grega: Diana era a princesa das Amazonas, uma tribo de ferozes guerreiras que viviam insuladas numa utopia feminista chamada Ilha Paraíso. Moldada no barro pela mãe - a Rainha Hipólita - , Diana fora agraciada pelo Olimpo com poderes divinos. Ao atingir a idade adulta, trocara a Ilha Paraíso pelo convulso mundo dos homens.
Sempre com o laço mágico à ilharga, Diana era também inseparável das suas refulgentes braceletes, inspiradas no mesmo adereço usado por Olive Byrne para simbolizar a sua união sigilosa com William Moulton Marston. Com elas, a Princesa Amazona defletia as balas disparadas pelos soldados nazis e pelos malfeitores que tinha inicialmente como inimigos.
Apreciada, em idêntica medida, pelo público masculino e feminino (embora o primeiro, para frustração de Marston, continuasse a ser largamente maioritário), a Mulher-Maravilha recebeu a sua própria série periódica apenas seis meses após ter sido apresentada ao mundo. Apesar do sucesso, a Princesa Amazona não escapou às críticas. Por conta da sua vestimenta sumária e das suas poses reveladoras, a Organização Nacional para a Literatura Decente, fundada por bispos católicos, incluiu Wonder Woman no seu índex.

A Mulher-Maravilha passou a estrelar a sua própria revista em junho de 1942.
.Foram, contudo, as recorrentes cenas de bondage a suscitar as críticas mais acerbas. Nas erotizadas histórias escritas por Marston sob o pseudónimo Charles Moulton, a Mulher-Maravilha passava boa parte do tempo amarrada, acorrentada e/ou amordaçada. As correntes constituíam, com efeito, um elemento simbólico fundamental no imaginário da heroína, representando a sua principal fraqueza. Assim como o Super-Homem era vulnerável à kryptonita, a Mulher-Maravilha ficava enfraquecida quando um homem a manietava. 
Ao coro de críticas, Marston - que, entretanto, assumira a "paternidade" da Mulher-Maravilha - respondeu dizendo que as correntes eram uma alegoria para a emancipação feminina. Marston crescera a admirar as sufragistas, que tinham por hábito acorrentar-se a vedações como forma de protesto contra a sonegação de direitos.
Metaforicamente, a criação da Mulher-Maravilha foi também a reação da alma feminina, mesmo tendo um homem como porta-voz, contra a tirania do patriarcado que há muito havia lançado às mulheres as algemas da escravidão. Era, pelo menos, essa a interpretação de Marston e das suas companheiras que o assessoravam na produção das histórias.

A Mulher-Maravilha perdia os seus poderes quando manietada por homens.
Imune a todas as polémicas que a circundavam, a Mulher-Maravilha depressa consolidou o contraditório estatuto de ícone feminista e símbolo sexual. No campeonato da popularidade, perdia apenas para Batman e Super-Homem, ofuscando todas as imitações entretanto lançadas pela concorrência. No entanto, Marston não viveria muito mais tempo para acompanhar a fulgurante trajetória da sua criação.
William Moulton Marston morreu de cancro da pele em maio de 1947, uma semana antes de completar 54 anos. Previdente, assinara um lucrativo contrato com a DC, obrigada a publicar um mínimo de quatro edições anuais da Mulher-Maravilha, sob pena de perder os respetivos direitos. Em resultado dessa salvaguarda jurídica, Marston foi um dos raros autores da Idade de Ouro a enriquecerem com a sua criação. Dessa forma garantiu também a segurança financeira dos membros sobreviventes da sua família, designadamente das suas duas "esposas", que continuaram a viver juntas após a sua partida do mundo terreno.
Embora muitos continuem a considerar Marston um pervertido que, a pretexto do feminismo, promoveu os seus fetiches sexuais, foi ele o criador da maior super-heroína de todos os tempos. Cuja força, coragem e compaixão continuam a inspirar pessoas em todo o mundo. Como bem comprovou, aliás, a  nomeação, em 2016, da Mulher-Maravilha para Embaixadora Honorária da ONU para a igualdade de género. Título que, apesar de ter sido revogado pouco tempo depois, decerto faria com que o seu criador vertesse lágrimas de esplendor.

Sem a Mulher-Maravilha, o nome e obra de Marston
 teriam sido engolidos pelas brumas da memória.



*Este blogue tem como Guia de Estilo o Acordo Ortográfico de 1990 aplicado à norma europeia da Língua Portuguesa.