04 março 2016

HEROÍNAS EM AÇÃO: ESTELAR



  Fez parte do fabuloso naipe de personagens propositadamente criadas pela dupla Wolfman/Pérez para impulsionar os Novos Titãs, em cujas fileiras conheceu o amor da sua vida. Princesa de um mundo paradisíaco, escolheu a Terra como lar adotivo, assim poupando o seu povo a um fatídico destino.

Nome original: Starfire
Licenciadora: DC Comics
Criadores: Marv Wolfman (história) e George Pérez (arte conceitual)
Primeira aparição: DC Comics Presents nº26 (outubro de 1980)
Identidade civil: Koriander (também conhecida, na Terra, como Kory Anders)
Espécie: Alienígena humanoide
Local de nascimento: Planeta Tamaran
Parentes conhecidos: Rei Myander (pai), Rainha Luander (mãe), Komander (irmã), Ryander (irmão), Príncipe Karras (marido falecido) e General Ph'yzzon ( segundo marido, também falecido)
Afiliação: Ex-integrante dos Novos Titãs, dos Renegados e da Liga da Justiça da América
Base de operações: Ao serviço dos Novos Titãs, Estelar operou a partir da Torre Titã (Nova Iorque) e da Ilha Titã (ao largo da costa de São Francisco). Atualmente, não dispõe de uma base de operações fixa.
Armas, poderes e habilidades: Como todos os nativos de Tamaran, a fisiologia de Koriander foi concebida para absorver a radiação ultravioleta e convertê-la em pura energia, permitindo-lhe dessa forma voar a velocidades supersónicas. Originalmente, ela conseguia usar esse poder para deslocar-se no espaço sideral. No entanto, a sua versão moderna, saída de Os Novos 52, é incapaz de fazê-lo sem os efeitos da gravidade.
   Além da capacidade de voo, o seu poder atávico confere-lhe igualmente força e resistência sobre-humanas que a habilitam a rivalizar com pesos-pesados do Universo DC, como a Mulher-Maravilha.
   Depois de ter sido submetida a experiências de bioengenharia conduzidas pelos Psions, Estelar adquiriu a capacidade de canalizar a radiação ultravioleta absorvida pelo seu organismo sob a forma de poderosas rajadas energéticas. Recentemente, já demonstrou, também, ser capaz de libertar de uma só vez toda a energia acumulada numa espécie de pequena explosão solar que a deixa completamente exaurida.
  Treinada pelos mestres guerreiros de Okaara, Estelar é uma exímia combatente, proficiente em diversas artes marciais. Dispõe ainda de outro talento inato na sua espécie: o de assimilar instantaneamente outros idiomas por via do contacto físico com os respetivos falantes. Tratando-se de representantes do sexo masculino, ela prefere desencadear o processo através de um beijo - por ser mais divertido.
Fraquezas: Emocionalmente instável, Estelar, habitualmente dócil e altruísta, tende a reagir violentamente quando se sente de alguma forma ameaçada. Na época em que fazia parte dos Novos Titãs, esses ocasionais acessos de fúria deixavam um rasto de destruição à sua volta e só eram aplacados por Dick Grayson.


Após a sua estreia em DC Comics Presents Nº26 (1980),
Estelar teve a sua origem revelada em Tales of  the New Teen Titans nº4 (1982).

Conceção: Admitindo ter empregado elementos de personagens preexistentes na conceção do visual de Estelar, George Pérez (perfil já publicado neste blogue) recorda como tudo se processou: "Baseando-me na descrição de Estelar que me foi fornecida por Marv Wolfman, deduzi que ele teria em mente uma espécie de versão espacial de Red Sonja (personagem detida pela Marvel Comics). Usei, por isso, a guerreira ruiva como principal modelo. Certo dia, porém, enquanto trabalhava nos esboços da Estelar, Joe Orlando (outro ilustrador ao serviço da DC), espreitou por cima do meu ombro e comentou que ela deveria ter o cabelo mais comprido. Achei uma excelente ideia e tratei logo de desenhá-la com uma farta juba, cujo efeito em voo foi inspirado no rasto colorido deixado pelo Mighty Mouse (personagem animada também conhecida como Super Mouse). Desta curiosa miscelânea de influências resultou uma das mais carismáticas heroínas da nona arte. .
  Importa ainda sublinhar que Estelar foi uma das três personagens propositadamente criadas pela dupla Wolfman/Pérez para lançar a nova geração de Titãs. Cyborg e Ravena foram as outras duas, ao passo que Mutano (Changeling, no original) transitou da Patrulha do Destino (Doom Patrol) para os Novos Titãs, completando assim o contingente de debutantes na rediviva série.


Red Sonja (em cima) e Mighty Mouse foram
 as duas principais inspirações para o visual de Estelar

Biografia: Localizado no longínquo sistema estelar Vegan, Tamaran é um idílico planeta governado pelas emoções. Todos os seus habitantes nascem com a capacidade de voar graças à absorção de energia solar.
  Filha do meio dos monarcas Myander e Luander, a princesa Koriander cresceu feliz e despreocupada. Tudo mudou, porém, quando foi chamada a substituir a sua irmã mais velha na linha de sucessão ao trono. Por causa de uma rara deficiência contraída na infância, Komander (vulgo Estrela Negra) perdeu a capacidade de voar, sendo, por isso, preterida no seu direito dinástico. Contrariedade que acirrou nela um profundo rancor em relação a Koriander.
   Quando as duas irmãs foram enviadas para treinar técnicas de combate corpo a corpo sob os auspícios dos mestres guerreiros de Okaara, Komander aproveitou um dos exercícios para tentar matar Koriander. Infâmia que teve como consequência a sua expulsão de Tamaran. Antes, porém, da sua partida para o exílio, Komander jurou vingança.

Komander, a malévola irmã de Koriander, 
também conhecida como Estrela Negra.

    Promessa que ganharia expressão pouco tempo depois, quando Komander forneceu informações detalhadas acerca do sistema de defesa de Tamaran aos seus arqui-inimigos da Cidadela.
   Após a capitulação de Tamaran, a princesa Koriander foi entregue pela sua irmã mais velha como escrava, servindo assim de moeda de troca para impedir a destruição do planeta. No armistício que o Rei Myander foi obrigado a celebrar com a Cidadela, incluía-se uma cláusula que proibia o regresso de Koriander a Tamaran, sob pena de desencadear novo conflito entre os dois mundos.
   Tratada como uma mercadoria, Koriander passou por vários pontos da galáxia ao longo dos anos seguintes. Anos marcados pela servidão e por todo o tipo de abusos que a mudariam para sempre.
   Quando Koriander tirou a vida a um dos seus algozes, Komander resolveu executá-la pessoalmente. No entanto, ambas foram atacadas e sequestradas pelos Psions, uma raça alienígena de cientistas sádicos, especializados em bioengenharia.
  Submetidas a sinistros experimentos científicos, as duas irmãs conseguiram escapar devido à distração causada pelo ataque das forças de Komander à base dos Psions. Usando a sua recém-adquirida capacidade de disparar rajadas energéticas, Koriander libertou Komander, que ainda estava a absorver energia. Gesto compassivo que a vilã retribuiu usando as suas novas habilidades (idênticas às de Koriander, porém mais potentes) para subjugar a irmã.
   O calvário da princesa só chegaria ao fim quando conseguiu escapar do seu cativeiro a bordo de uma espaçonave roubada. Perseguida por caças da Cidadela, Koriander entrou na órbita da Terra, onde foi recapturada. Sendo, porém, prontamente libertada graças à intervenção dos Titãs, equipa de jovens super-heróis liderada por Robin (Dick Grayson). Por quem Koriander se enamorou desde o primeiro momento em que o viu, embora essa paixão assolapada tenha demorado a ser correspondida pelo antigo Menino-Prodígio.

Jogos mortais entre irmãs nas páginas de The New Teen Titans nº23 (1982).

  Verdadeira refugiada das estrelas, impedida de regressar ao seu mundo natal, Koriander fez da Terra o seu lar adotivo e, sob o codinome Estelar, juntou-se aos Novos Titãs. Ao lado dos quais viveu inúmeras aventuras e desventuras, encontrando em Donna Troy (a Moça-Maravilha) uma irmã afetiva.
  Por conta dos seus impressionantes atributos físicos, Koriander chegou a trabalhar algum tempo como modelo fotográfico, usando o pseudónimo Kory Anders, ao mesmo tempo que dividia um apartamento com Ravena e Donna Troy.

Com os Novos Titãs, Estelar viveu dias felizes na Terra.

   À semelhança da maioria das personagens que compõem o Universo DC, Estelar teve a sua história reescrita em Os Novos 52. Na nova versão da sua origem, as manas Koriander e Komander eram inseparáveis até ao dia em que viram os seus pais serem mortos e o seu planeta devastado pela Cidadela. Entronizada com apenas 14 anos, Komander teve de vender Koriander como escrava para manter a paz com os seus inimigos.
   Após vários anos de escravidão, Koriander conseguiu escapar e regressou a Tamaran. Com a ajuda de alguns antigos companheiros de cativeiro, libertou o seu mundo natal do jugo da Cidadela. Incapaz de perdoar a irmã pelas agruras sofridas, Koriander ofereceu-se para ser embaixadora do seu povo. Missão que serviu apenas de pretexto para uma solitária peregrinação sua pelos rincões da galáxia. Jornada interrompida quando a nave em que seguia se despenhou na Terra.
  Agora conhecida como Estelar (e com um visual remodelado), Koriander envolveu-se romanticamente com Dick Grayson. Quando, por motivos ainda por explicar, o casal se separou, Estelar isolou-se numa ilha tropical. Foi lá que conheceu Jason Todd (o Capuz Vermelho), com quem fundaria os Renegados. Aparentemente, as suas memórias dos Novos Titãs foram totalmente apagadas.

O novo figurino de Estelar em Os Novos 52.
 

Relacionamentos amorosos: Enquanto membro dos Novos Titãs, Koriander viveu um tórrido romance com o líder da equipa (Dick Grayson, o Asa Noturna), de quem chegou a ficar noiva. Quando os dois pombinhos resolveram dar o nó, tiveram a cerimónia de casamento arruinada por Ravena, que matou o padre antes que este pudesse declará-los marido e mulher.
   No entanto, Koriander já foi casada duas vezes, ambas em Tamaran. O primeiro enlace (com o Príncipe Karras) precedeu a sua vinda para a Terra e serviu para selar um tratado de paz. Karras morreria pouco tempo depois em combate, deixando Koriander precocemente viúva.
   Anos depois, após a sua separação de Dick Grayson, a heroína alienígena foi obrigada a desposar o impiedoso General Phy'zzon. União sem amor que terminou abruptamente com a morte de Phy'zzon às mãos do Devorador de Sóis.
   Em tempos mais recentes, Estelar teve um affair inconsequente com o Capitão Cometa, cujos  fortes sentimentos por ela nunca foram correspondidos.

Asa Noturna e Estelar: amor interespécies.

Nota adicional: Pese embora a inclusão de Estelar nos cânones da DC remonte ao período que precedeu Crise nas Infinitas Terras, a sua existência permaneceu intacta na nova continuidade da editora. Não obstante, alguns elementos da história da personagem foram alterados ou removidos, devendo, por isso, ser considerados apócrifos.

Estelar, princesa e guerreira de um mundo distante.

Noutros media: Na lista dos 25 maiores heróis do Universo DC, elaborada em 2013 pelo IGN, Estelar ocupava a 21ª posição. Nesse mesmo ano, a curvilínea princesa de Tamaran foi eleita pelo Comics Buyer's Guide como a vigésima mulher mais sensual dos quadradinhos, num universo de cem candidatas.
  Ainda com reduzida expressão no panorama audiovisual, a estreia televisiva de Estelar verificou-se em 2003, ano em que foi para o ar a primeira de cinco temporadas da série animada Teen Titans. Sempre com papel de relevo, a heroína marcaria depois presença em New Teen Titans (2011-14) e em Teen Titans Go! (2013-15).
  Após várias participações irrisórias em filmes de animação baseados na mitologia da DC, Estelar estará finalmente em primeiro plano em Justice League versus Teen Titans, com data de lançamento prevista para 29 deste mês. Segundo consta, Koriander será retratada como o membro mais velho dos Novos Titãs e líder do grupo.

Longe da sensualidade que sempre foi a sua imagem de marca,
 Estelar surgiu assim retratada em Teen Titans.



18 fevereiro 2016

RETROSPETIVA: «DREDD»




    Pela segunda vez, o mais implacável dos Juízes de Mega City 1 voltou ao  grande ecrã para aplicar a sua lei. Contudo, apesar do veredito favorável do público, foi sumariamente condenado pelo tribunal das bilheteiras. Sem direito a recurso ou a sequela, tornou-se um filme de culto enquanto aguarda pelo julgamento da História.

Título original: Dredd
Ano: 2012
País: Reino Unido / África do Sul
Género: Ação/Aventura/Ficção Científica
Duração: 95 minutos
Produção: DNA Films, IM Global e Reliance Entertainment
Realização: Pete Travis
Argumento: Alex Garland
Distribuição: Liongate e Entertainment Film Distributors 
Elenco: Karl Urban (Juiz Dredd); Olivia Thirlby (Juíza Cassandra Anderson); Lena Headey (Madeline "Ma-Ma" Madrigal) e Wood Harris  (Kay)
Orçamento: 45 milhões de dólares
Receitas: 41,5 milhões de dólares

Outro dos pósteres promocionais de Dredd.

Desenvolvimento: Apesar do argumentista Alex Garland ter começado a trabalhar no enredo em meados de 2006, só dois anos depois foi anunciado oficialmente o desenvolvimento de uma nova longa-metragem baseada no taciturno universo do anti-herói criado em 1977 por John Wagner e Carlos Ezquerra. Projeto que seria produzido pelo estúdio britânico DNA Films, em parceria com a agência de marketing norte-americana IM Global.
  Em maio de 2010, a Reliance Big Pictures (proprietária da IM Global) concordou em cofinanciar a produção em 3D orçamentada em 45 milhões de dólares. Joanesburgo, na África do Sul, foi o local escolhido para acolher as filmagens, a terem início antes do final desse mesmo ano.
  Depois de Duncan Jones ter recusado dirigir o filme, Pete Travis foi o escolhido para ocupar a cadeira de realizador. Numa entrevista concedida ainda antes do arranque das filmagens, o cineasta inglês falou sobre a sua visão pouco convencional do projeto. Descrevendo-a como bizarra, negra e divertida, reconheceu, no entanto, que talvez não casasse bem com o enredo produzido por Garland.
  Um mês antes de ter sido divulgado o título do filme (setembro de 2010), Karl Urban havia já sido oficialmente confirmado no papel principal. Seguindo-se o anúncio de que a atriz Olivia Thirlby interpretaria Cassandra Anderson, a parceira precognitiva de Dredd.

Alex Garland (esq.) e Pete Travis deram um novo elã a Dredd no cinema.

  Na edição desse ano do Festival de Cinema de Toronto, Dredd arrecadou 30 milhões de dólares em pré-vendas a distribuidores que representavam 90% do mercado cinematográfico. Montante no qual se incluíam os 7 milhões de dólares referentes ao negócio efetuado com a distribuidora britânica Entertainment Film Distributors. Quanto à distribuição nos EUA, seria assegurada pela Lions Gate Entertainment.
  Em janeiro de 2011, Lena Headey juntou-se ao elenco para vestir a pele da má da fita, uma impiedosa rainha do narcotráfico afetuosamente apelidada de Ma-Ma pelos seus súbditos. Mais ou menos na mesma altura, John Wagner - um dos criadores do Juiz Dredd - foi contratado como consultor criativo. A quem coube, também, anunciar que Dredd era uma nova adaptação da personagem ao grande ecrã, e não um remake de Judge Dredd (película de 1995 com Sylvester Stallone como cabeça de cartaz).
  Com um orçamento de 45 milhões de dólares, o projeto começaria a ganhar forma e substância em novembro de 2010, data em que principiaram as filmagens. Com as metrópoles sul-africanas Joanesburgo e Cidade do Cabo a servirem de cenário, estas prolongaram-se durante cerca de 13 meses.

Karl Urban e Olivia Thirlby com Alex Garland numa ação promocional de Dredd.    

Enredo: Num futuro distópico, tudo o que resta do território em tempos ocupado pelos EUA é um vastíssimo deserto radioativo sugestivamente batizado de Terra Amaldiçoada. Localizada na antiga Costa Leste, Mega City 1 é uma violenta megalópole com 800 milhões de habitantes e um rácio diário de 17 mil crimes.
   Em meio à anarquia quotidiana, os Juízes são os únicos a manter a ordem. Cada um desses agentes da Lei age simultaneamente como juiz, júri e executor. Entre eles, o mais severo é Dredd, que é designado pelo seu comandante para avaliar o desempenho de uma jovem recruta. Dotada de talentos psíquicos, Cassandra Anderson reprovara, todavia, nos testes de aptidão para Juiz.
   Apesar da renitência em aceitar a missão de supervisionar uma novata, Dredd não tem outro remédio senão acatar a ordem do seu superior.
  Em Peach Trees, um gigantesco complexo habitacional ocupado por um exército de párias e delinquentes, é a rainha do narcotráfico Madeline "Ma-Ma" Madrigal quem impõe a sua própria lei. Três pequenos traficantes que haviam ousado roubá-la são esfolados vivos, infundidos com Slo-Mo (droga altamente aditiva que diminui a perceção temporal do consumidor a 1% do normal) e atirados do alto de uma torre.

Ma-Ma, uma mulher de armas.

  Destacados para investigar o crime, ao chegarem ao local Dredd e Anderson intercetam um dos lugares-tenentes de Ma-Ma chamado Kay. Uma sondagem telepática efetuada pela rapariga revela que foi ele um dos autores da matança.
   A partir da sala de comando da torre, Ma-Ma observa atentamente as movimentações do casal de Juízes. Quando Dredd prende Kay e se prepara para levá-lo para interrogatório, a vilã aciona as blindagens antibomba, selando automaticamente todas as entradas e saídas do edifício. Ordenando, de seguida, aos seus homens que matem os Juízes.
   Encurralados nos labirínticos corredores do edifício, Dredd e Anderson veem-se obrigados a abrir caminho por entre dezenas de meliantes armados até aos dentes. Ao chegarem ao 76º andar, os dois Juízes são atacados com metralhadoras pesadas, cujas balas conseguem perfurar as paredes, causando assim a morte a dezenas de residentes.
   Enquanto Dredd chama reforços, Ma-Ma envia Caleb - outro dos seus lugares-tenentes- no encalço dos Juízes. Quando, por fim, ele os encontra, envolve-se numa violenta luta corpo a corpo com Dredd. Petrificada, Ma-Ma vê o Juiz empurrar Caleb para a morte.
  Convicto de que Ma-Ma está desesperada por silenciar Kay, Dredd espanca-o para lhe arrancar informações. Após insistência de Anderson, Dredd permite que a rapariga sonde a mente de Kay. É assim que ficam a saber que Ma-Ma fez de Peach Trees o seu centro de produção e distribuição de Slo-Mo.
   Anderson sugere que se mantenham escondidos até a ajuda chegar, mas Dredd resolve ir no encalço de Ma-Ma.
  Enquanto isso, dois Juízes respondem ao chamado de Dredd, mas são convencidos pelo perito informático de Ma-Ma de que as portas não podem ser abertas devido a uma avaria no sistema de segurança da torre.
   Vários andares acima, Dredd e Anderson são emboscados por um bando de adolescentes armados. Depois de desarmar Anderson, Kay fá-la refém, fugindo com ela para o esconderijo de Ma-Ma, localizado no cimo da torre.

Cassandra Anderson feita refém pelos homens de Ma-Ma.  

   Com Dredd a aproximar-se perigosamente, Ma-Ma convoca os Juízes corruptos Lex, Kaplan, Chan e Alvarez, a quem é permitida a entrada no edifício. Quando Dredd dá de caras com Chan, suspeita da atitude do colega por este não o questionar acerca do paradeiro de Anderson. Desmascarado, Chan ataca Dredd mas acaba morto por este.
    Kay, entretanto, tenta executar Anderson com a sua própria arma. Ao não reconhecer o ADN do seu usuário, a Lawgiver explode, decepando o braço do patife. Em fuga, Anderson depara-se com Kaplan, que prontamente liquida depois ter ficado a conhecer as intenções do colega por via de uma sondagem mental.
    Noutro local, também Alvarez é abatido por Dredd, que fica no entanto sem munição. Contrariedade de que Lex não hesita em tirar vantagem, ao alvejar o seu camarada de armas no abdómen. À mercê de Lex, Dredd consegue ainda assim empatá-lo tempo suficiente para que Anderson chegue ao local e mate o Juiz traidor.
    Após extorquirem o código de acesso ao apartamento de Ma-Ma ao seu perito informático, Dredd e Anderson vão até lá para confrontá-la. Acuada, a vilã exibe aos Juízes um dispositivo no seu pulso que deteta o seu batimento cardíaco. Caso este cesse, serão acionadas automaticamente cargas explosivas plantadas nos andares superiores da torre, provocando dessa forma o seu desabamento.
   Dredd deduz que o sinal do dispositivo não será capaz de acionar os explosivos a grande distância e, por isso, obriga Ma-Ma a inalar Slo-Mo antes de atirá-la para o pátio, numa queda de centenas de metros.
   Quando o casal de Juízes consegue finalmente abandonar Peach Trees, Anderson reconhece ter falhado no teste de campo ao permitir que Kay a desarmasse. Depois de ela se afastar, o Juiz-Chefe questiona Dredd sobre o desempenho da recruta. Dredd responde que a  jovem está apta a assumir as funções de Juíza.

Trailer:



Curiosidades:

* Fiel à banda desenhada original - e por oposição ao primeiro filme -, em momento algum da história Dredd remove o capacete;
* Tanto na sala de aula como no centro comercial instalados em Peach Trees é possível ver o novo estandarte dos EUA, o qual conta agora com somente 6 estrelas (correspondendo às 6 megalópoles que formam o país naquele futuro distópico);
* Peach Trees, o gigantesco bloco de apartamentos que serve de cenário a grande parte da ação, foi assim batizado em homenagem ao restaurante em que Alex Garland e John Wagner se reuniram pela primeira vez para discutir o filme;
* Nas paredes grafitadas de Peach Trees é possível ver o nome de várias personagens proeminentes das histórias de Dredd, tais como Chopper e Kenny Who?;

Ninguém alguma vez viu o rosto de Dredd na BD.

* Para replicar as Lawgivers (as armas personalizadas portadas pelos Juízes), foram utilizadas pistolas Glock 17 modificadas, um dos modelos mais populares entre as forças de segurança de todo o mundo;
* No primeiro rascunho do argumento, a vilã Ma-Ma era retratada como uma anciã. Alex Garland foi, porém, convencido por Lena Headey a converter a vilã numa mulher de meia-idade com um profundo desprezo pelo sexo masculino;
* As Lawmasters eram motociclos verdadeiros e funcionais, conduzidos por atores (Karl Urban fez questão de conduzir a sua) e duplos durante as filmagens. Pneus maiores e chassis alongados foram algumas das alterações levadas a cabo nos modelos originais, visando emular os icónicos veículos de duas rodas em que os Juízes habitualmente se fazem transportar na BD;
* Karl Urban procurou mimetizar a voz sibilante e alguns dos trejeitos faciais de Clint Eastwood na sua interpretação de Dredd. Opção que nada teve de casual, uma vez que a personagem foi parcialmente decalcada do eficiente - porém, politicamente incorreto - protagonista de Dirty Harry, clássico da 7ª arte produzido em 1971;

Clint Eastwood em Dirty Harry.

* Na cena que precede a entrada de Dredd e Anderson em Peach Trees, todos os delitos em curso naquele momento em Mega City 1 são mostrados num painel de ecrãs de computador instalado no quartel-general dos Juízes. Para acorrer a um deles, é designado o Juiz Hershey, personagem de relevo em Judge Dredd (1995);
* Dredd tem precisamente a mesma duração (95 minutos) do seu antecessor, com a diferença de que a ação se desenrola num único dia;
* Mais sangrento do que o filme original, a contagem de corpos em Dredd ascende aos 102.

Dredd demonstra ter mira certeira.

Sequela?

  Atendendo à reação globalmente positiva do público e da crítica, muito se tem especulado nos últimos anos acerca de uma possível sequela de Dredd. À medida que o tempo vai passando, essa hipótese vai, contudo, ganhando contornos mais improváveis.
  Logo em junho de 2012 (um mês antes da estreia oficial de Dredd na San Diego Comic-Con), Alex Garland estimava que uma receita de bilheteira na ordem dos 50 milhões de dólares viabilizaria a produção de um segundo filme. Anunciando de caminho que tinha planos ainda para um terceiro.
  De acordo com o argumentista de Dredd, o segundo capítulo da trilogia seria focado nas origens do protagonista e de Mega City 1. Ficando reservado para o terceiro filme o confronto de Dredd com os seus némesis Juiz Morte e os seus Juízes Negros (Judge Death e Dark Judges, no original).
  Confrontado com as fracas receitas de bilheteira (que não deram sequer para cobrir as despesas de produção), em agosto do mesmo ano Garland admitia já que o futuro do projeto poderia passar por uma série televisiva baseada no Juiz Dredd.
   Menos de um ano depois, em março de 2013, o produtor Adi Shankar afirmou publicamente que a produção de um segundo filme seria improvável. Declarações contraditadas meses depois por Karl Urban, que disse ainda acreditar nessa possibilidade.
  Tentando resolver o impasse, os fãs de Dredd lançaram uma petição no Facebook exigindo uma sequela. Iniciativa que levou a 2000 AD (licenciadora britânica detentora dos direitos da personagem) a associar-se à campanha, divulgando a petição na sua linha de títulos mensais. No espaço de poucas semanas, foram recolhidas mais de 80 mil assinaturas. Número que, ainda assim, não impressionou os produtores de Hollywood.
   Recusando-se a atirar a toalha ao chão - e crendo, porventura, que a sorte realmente sorri aos audazes - a 2000 AD divulgaria entretanto uma imagem promocional de Dredd 2, apontando setembro de 2013 como data de estreia. Aconteceu nas páginas de Judge Dredd Megazine  nº340, que chegaria às bancas precisamente nesse mês. Apesar da profecia não se ter realizado, os fãs mantiveram acesa a esperança quando, no início do ano seguinte, vieram a lume notícias dando conta de contactos exploratórios mantidos entre Alex Garland e um estúdio de cinema. Esperanças que cairiam definitivamente por terra em março de 2015, quando o mesmo Garland anunciou não ser possível a realização de uma sequência direta de Dredd num futuro próximo; menos ainda com a equipa responsável pela produção do primeiro filme.

Quadrinização de uma sequela que nunca viu a luz do dia
em Judge Dredd Megazine nº340 (2013).
Veredito: 73%

   Mesmo não tendo qualquer ligação com o filme de 1995, são inevitáveis as comparações entre Dredd e o seu antecessor. Podendo afirmar-se com justeza que o reboot bate aos pontos a película original.
  Desde logo porque estamos em presença de uma adaptação mais fidedigna do conceito primordial. Não apenas porque, desta vez, o protagonista não passa dois terços da história com o rosto descoberto, mas, essencialmente, pelo registo mais violento que pauta a sua ação. Importa observar que Dredd é, em derradeira análise, um fascista com requintes de sadismo. Muito longe, portanto, do arquétipo heroico encarnado por Stallone em Judge Dredd. Carecendo, no entanto, ambas as versões do elemento satírico que configura uma das pedras de toque da BD em que se baseiam.
  Despretensioso e direcionado para um público adulto, Dredd inebria os espectadores com um tipo de violência gráfica a remeter para o universo dos jogos de vídeo. Levando ao limite a criatividade em 3D, as numerosas sequências de ação mais parecem painéis de quadradinhos a explodir no ecrã.
 Ao imitar os maneirismos de Clint Eastwood e falando apenas o estritamente necessário (por contraponto a um Stallone palavroso em Judge Dredd), Karl Urban capta eficazmente a essência da personagem a quem emprestou corpo e alma (mais corpo do que alma, convenhamos). Rubricando dessa forma uma interpretação consistente que, a espaços, não evita contudo ser ofuscada pela de Lena Headey, no papel da cruel Ma-Ma.
   Escrevi no início deste comentário que Dredd supera o seu antecessor em quase todos os quesitos. De facto, os cenários são a única exceção em que ele perde na comparação com o primeiro filme. Visualmente, Judge Dredd (cuja resenha já aqui publiquei) era bastante mais apelativo.  Quem não vibrou, por exemplo, com as suas feéricas panorâmicas aéreas de Mega City 1? Num flagrante contraste com a opção de confinar a quase totalidade da ação de Dredd no interior de um bloco de apartamentos. Circunstância que, por um lado, confere uma atmosfera claustrofóbica à narrativa e, por outro, cansa o espectador com o que parece ser a repetição incessante do mesmo corredor.
   Apesar do elevado potencial para uma sequela, Dredd, que caíra nas boas graças do júri composto pelo público e pela crítica, acabou ainda assim condenado ao degredo pelo impiedoso tribunal do deve e do haver. Resta-lhe gozar do seu estatuto de filme de culto enquanto espera que o tempo lhe faça justiça.

Stallone em Judge Dredd versus Karl Urban em Dredd:
qualquer semelhança será (ou não) mera coincidência.



    
    
    

11 fevereiro 2016

GALERIA DE VILÕES: CARNIFICINA



  Projetado para ser o herdeiro de Venom, afirmou-se como uma sua versão mais violenta e amoral. Traços de personalidade decalcados de um outro infame maníaco homicida dos quadradinhos. Tal como ele, à sua passagem deixa sempre para trás uma enorme pilha de cadáveres.


Nome original da personagem: Carnage
Licenciadora: Marvel Comics
Criadores: David Michelinie (história), Erik Larsen (arte conceitual de Cletus Kasady) e Mark Bagley (arte conceitual de Carnificina)
Primeira aparição (como Cletus Kasady): Amazing Spider-Man nº344 (fevereiro de 1991)
Primeira aparição (como Carnificina): Amazing Spider-Man nº361 (abril de 1992)
Identidade civil: Cletus Kasady
Espécie: Humano hospedeiro de um simbionte alienígena
Local de nascimento: Brooklyn, Nova Iorque
Parentes conhecidos: Avó (nome desconhecido, falecida) e pais (nomes desconhecidos, igualmente falecidos). Além destes antepassados do seu alter ego humano, Carnificina gerou uma extensa prole simbiótica, onde pontificam, entre outros, os "filhos" Carniça e Toxina (Carrion e Toxin, nas respetivas versões originais).
Afiliação: Ex-parceiro de Venom, ex-membro dos Vingadores (grupo de supervilões reunido por Magneto para enfrentar o Caveira Vermelha, logo após os eventos de Guerra Civil) e patriarca da Família Carnificina.
Base de operações: Móvel
Armas, poderes e habilidades: Devido à sua personalidade antissocial e às suas compulsões homicidas, quando ainda não passava de um criminoso comum Cletus Kasady era já considerado um indivíduo altamente perigoso. Perigosidade essa que sobrevinha, precisamente, da sua amoralidade e do seu mais profundo desprezo pela vida humana.
  Ao mesclar-se com o simbionte alienígena, Kasady teve o seu corpo recoberto por uma viscosa biomassa vermelha e preta, adquirindo por essa via uma impressionante gama de habilidades meta-humanas. Conquanto muitas delas sejam similares às de Venom, outras são ímpares. É o caso da sua capacidade de manipular a forma do simbionte. Circunstância que lhe permite, por exemplo, gerar apêndices orgânicos em forma de tentáculos passíveis de serem usados em situações de combate corpo a corpo ou para manietar os seus oponentes.
  Entre os poderes que são comuns a todos os hospedeiros do simbionte, destacam-se: força, resistência e velocidade ampliadas; propriedades regenerativas aceleradas; aderência a praticamente qualquer tipo de superfície; produção de uma teia orgânica ultrarresistente; imunidade ao sentido de aranha de Peter Parker.
Fraquezas: À semelhança de Venom e de todos os outros simbiontes da sua espécie, Carnificina é vulnerável ao som e às altas temperaturas. Ataques baseados nestes dois elementos são pois suscetíveis de lhe causarem dor excruciante. Alguns indícios sugerem, no entanto, que devido ao facto de a cria de Venom ter nascido na Terra, essa suscetibilidade será consideravelmente inferior à dos simbiontes de origem alienígena.
  Outro dos pontos fracos de Carnificina reside na instabilidade mental do seu hospedeiro. Mesmo antes da sua transformação, a Cletus Kasady já havia sido diagnosticada uma psicose com laivos de sadismo, a que se somava uma obsessão pelo caos.

Em Carnificina a maldade é orgânica.

Histórico de publicação: Em finais de 1990, o escritor David Michelinie idealizou Carnificina (Carnage, em inglês) para ser uma versão ainda mais sórdida de Venom, cujo alter ego humano (Eddie Brock) tencionava matar em Amazing Spider-Man nº400. O simbionte, esse, sobreviveria e continuaria a usar vários hospedeiros para disseminar o terror e atormentar um certo Escalador de Paredes.
  Projeto que acabaria, contudo, por não receber luz verde dos mandachuvas da Marvel em virtude de um súbito pico de popularidade da dupla Venom/Brock junto dos leitores. Recusando-se a atirar a toalha ao chão, Michelinie propôs, em alternativa, a conceção de uma personagem inédita: um sociopata sanguinário que, por contraste com Eddie Brock, não obedecia a qualquer código de honra.
   Aprovada a ideia, o passo seguinte consistiu em encontrar um bom nome para o novo vilão. Chaos e Ravage foram duas das opções equacionadas, acabando, no entanto, por recair a escolha sobre Carnage. Usando como referência o Joker (da concorrente DC), Erik Larsen desenvolveu o visual de Cletus Kasady. Ficando os primeiros esboços da sua contraparte simbiótica a cargo de Mark Bagley.

O "pai" de Venom e de Carnificina.

  Ultimado o processo criativo, Cletus Kasady fez a sua primeira aparição em fevereiro de 1991, nas páginas de Amazing Spider-Man nº344. Mais de um ano depois, em abril de 1992, seria a vez de Carnificina fazer a sua sangrenta estreia em Amazing Spider-Man nº361.
  Sucesso instantâneo, nos anos seguintes Carnificina afirmou-se como um dos vilões de charneira do Universo Marvel. Logo em 1993, viu ser-lhe conferido o estatuto de antagonista principal do Homem-Aranha na saga Maximum Carnage (publicada no Brasil pela Abril sob o título Carnificina Total). Tendo posteriormente direito, em 1996, a dois volumes especiais inteiramente dedicados a si: Carnage: Mind Bomb e Carnage: It's a Wonderful Life.

Eddie Brock e Cletus Kasady recebem uma visita inesperada
em Amazing Spider-Man nº344 (1991)
  À medida que os anos foram passando, o sinistro glamour de Carnificina foi-se desvanecendo. Após uma fugaz aparição em 2004, no título New Avengers, o vilão foi dado como morto. Assim permanecendo na meia dúzia de anos seguintes, até que a minissérie Carnage o trouxe de volta ao mundo dos vivos. Antes, porém, da sua reunião com Cletus Kasady, o simbionte usou uma hospedeira temporária chamada Tanis Nieves.
  Em novembro de 2015, no âmbito do reboot do Universo Marvel decorrente da saga Secret Wars III, chegou às bancas norte-americanas Carnage, uma nova série mensal da autoria de Gerry Conway e Mike Perkins, que promete trazer Carnificina de volta à ribalta..
 
Capa do número inaugural da nova série de Carnificina.

Biografia: Foi tudo menos idílica a infância de Cletus Kasady. Devido à sua personalidade psicótica, o futuro hospedeiro do Carnificina teve sempre uma relação conturbada com a sua família, em particular com os seus progenitores.
   Ainda criança, Cletus assassinou a avó, empurrando-a por um lanço de escadas. Proeza que tentou reeditar pouco tempo depois com a mãe, ao atirar um secador de cabelo ligado à corrente para dentro da banheira onde a mulher fazia as suas abluções. Frustrado o matricídio, a vítima seguinte dos instintos sádicos do catraio foi o cão da família.
  Apanhado em flagrante pela mãe enquanto torturava o pobre animal, Cletus foi violentamente espancado por ela. Era tal o desespero da sua progenitora, que esta tentou matá-lo com as próprias mãos. Apenas a intervenção do pai de Cletus evitou nova tragédia familiar. Acabando, no entanto, por originar outra, ao matar a esposa com uma pancada certeira.
  Julgado pelo homicídio da sua cara-metade, o pai de Cletus foi incriminado em tribunal pelo filho. Acabando dessa forma sentenciado à morte na cadeira elétrica.
  Quanto a Cletus, foi enviado para um orfanato, onde as suas condutas antissociais fizeram dele o alvo preferencial dos abusos tanto dos outros residentes como do staff da instituição. Esse acúmulo de violência e rancor teria consequências explosivas: antes de deitar fogo ao orfanato, Cletus assassinou um dos seus administradores e uma rapariga que havia escarnecido o seu pedido de namoro.

Cletus Kasady escreve as suas próprias regras.

  Nos anos seguintes, Cletus passaria a justificar as suas atrocidades com uma bizarra doutrina libertária que preconiza que o Universo é, por definição, caótico. Do seu ponto de vista, a vida e as leis são fúteis, porquanto desprovidas de sentido. Por conseguinte, a propagação do caos e da desordem por via de chacinas aleatórias configuraria a suprema expressão de liberdade individual.
   Fiel a este postulado, Cletus tornou-se um assassino em série. Antes de ser finalmente capturado pelas autoridades, deixou uma pilha de cadáveres atrás de si. Crimes macabros que lhe valeriam uma pena de prisão perpétua a ser cumprida em Riker's Island.
   Num golpe de asa do Destino, Cletus Kasady teve como companheiro de cela ninguém menos do que Eddie Brock, a metade humana do famigerado Venom. Em atroz sofrimento, o simbionte invadiu a penitenciária a fim de libertar o seu hospedeiro. Causando, para esse efeito, uma fuga em massa dos reclusos.
   Brock estava no entanto longe de imaginar que a criatura estava grávida, e que dera à luz no meio do pandemónio instalado. Deixado para trás, o filhote do simbionte reclamou Cletus Kasady como seu hospedeiro. Dessa união nasceu o infame Carnificina.

O primeiro contacto do simbionte com o seu novo hospedeiro.

   Além de dotá-lo de superpoderes, o processo de simbiose potenciou a natureza psicótica de Kasady, tornando-o ainda mais sanguinário e mentalmente instável. Determinado em colocar em prática a sua doutrina homicida, Carnificina recorreu à lista telefónica para escolher a sua primeira vítima mortal. Seguindo-se um cortejo de mortes aleatórias que deixaram os nova-iorquinos em estado de choque.
  Previsivelmente, o rasto sangrento de Carnificina atraiu a atenção do Homem-Aranha. Levando em conta os depoimentos de testemunhas oculares dos crimes -que afirmavam que o assassino usava uma espécie de traje vivo - o Escalador de Paredes começou por atribui-los a Venom, mesmo não reconhecendo o modus operandi. No entanto, após uma investigação levada a cabo como Peter Parker, o herói concluiu que o culpado era na verdade o ex-colega de cela de Eddie Brock, Cletus Kasady.
  As pistas recolhidas pelo Homem-Aranha conduziram-no ao velho orfanato onde, em tempos, Cletus Kasady estivera internado. Local que serviu de palco ao primeiro confronto entre ambos, com o vilão a conseguir escapar.
  Percebendo que mesmo as suas fantásticas habilidades seriam insuficientes para derrotar Carnificina, o Homem-Aranha requisitou a ajuda do Quarteto Fantástico e de Venom, com quem forjou uma aliança temporária.
  Subjugado por esta coligação heterodoxa, Carnificina desapareceu da face da terra depois de ter, aparentemente, abandonado o seu hospedeiro.
 Cletus Kasady foi então enviado para o Asilo Ravencroft, instituição psiquiátrica especializada no tratamento de criminosos insanos. Transportando, sem que ninguém soubesse, o simbionte na sua corrente sanguínea. Ao que tudo indica, a criatura terá usado uma ferida no corpo de Cletus para se esconder no interior do seu organismo, evitando dessa forma ser detetada.
  Quando, algum tempo depois, um dos médicos de Ravencroft recolheu uma amostra de sangue de Cletus Kasady para análise, libertou inadvertidamente o simbionte. Sem perder tempo, Carnificina arrebanhou vários psicopatas superpoderosos, nomeadamente Carniça e Shriek, para tomarem de assalto Nova Iorque. Apesar da rápida intervenção do Homem-Aranha e seus aliados (entre os quais se incluía, uma vez mais, Venom), Shriek usou as suas habilidades psiónicas para induzir uma insaciável sede de sangue nos habitantes da cidade, fazendo com que eles se matassem uns aos outros.
   Na batalha final que opôs o séquito de Carnificina aos heróis reunidos para detê-los, estes últimos, ainda que a duras penas, saíram vitoriosos. Com Cletus Kasady a ser novamente confinado em Ravencroft (eventos narrados em Maximum Carnage/Carnificina Total).
  Mais recentemente, o vilão foi dado como morto após ter sido despedaçado em órbita pelo Sentinela. No entanto, seria mais tarde revelado que tanto o simbionte como o seu hospedeiro haviam, afinal, sobrevivido. Tudo indica que não seria Cletus Kasady a estar dentro do Carnificina quando tudo aconteceu.

Venom versus Carnificina: duelo simbiótico.

Apontamentos:

* Aquando da sua passagem pelo orfanato, o pequeno Cletus Kasady era inseparável do seu ursinho de peluche chamado Blinky. Brinquedo que fez questão de resgatar após a sua fuga da prisão;
* Kasady acredita que o seu simbionte é, na verdade, uma fêmea;
* Fã da banda de trash metal Anthrax, Kasady é obrigado a usar auscultadores para ouvir a sua música preferida sem ferir o simbionte;
* Tempos atrás, Kasady viu ser-lhe diagnosticado um cancro do estômago em fase terminal. Não voltaram, contudo, a ser feitas quaisquer referências à doença desde então;
* Em 2002, Carnificina foi a atração principal do parque temático da Marvel Halloween Horror Nights: Islands of Fear, baseado na saga Maximum Carnage. Por contraponto à história original, o vilão e seus aliados, depois de matarem todos os super-heróis, conseguiam mesmo dominar o mundo;
* O simbionte que atualmente usa Cletus Kasady como hospedeiro não é o original. Trata-se de um espécime similar proveniente da Zona Negativa.


Um aranhiço prestes a servir de refeição a dois simbiontes famintos.
Outros hospedeiros: 

  A despeito de ter em Cletus Kasady o seu hospedeiro primário, Carnificina já se fundiu temporariamente com outros indivíduos. A saber: John Jameson (filho do irascível diretor do Clarim Diário), Ben Reilly (o Aranha Escarlate), o Surfista Prateado (com quem formou o Carnificina Cósmico) e Tanis Nieves (a quem recorreu após a aparente morte de Kasady).
  Em qualquer dos casos, porém, o simbionte acabou sempre por voltar a mesclar-se com Cletus Kasady, a quem já por diversas ocasiões salvou de uma morte certa. Como aconteceu quando um médico, aproveitando a separação de Kasady do simbionte, tentou matá-lo para se tornar o novo Carnificina. A criatura, no entanto, rejeitou o hospedeiro alternativo e usou as suas propriedades regenerativas para curar os ferimentos infligidos a Kasady.

Lista (abreviada) de vítimas mortais:

*Avó Kasady;
* O diretor do orfanato onde Cletus passou parte da infância;
* Uma rapariga que rejeitou o seu pedido de namoro;
* Um guarda prisional;
* Vários agentes policiais;
* O vocalista dos Headbanger's Heaven;
* Vários passageiros do metro nova-iorquino;
* Todo os reclusos e guardas da penitenciária Kramer;
* Centenas de cidadãos anónimos que tiveram o azar de estar no sítio errado, à hora errada.

Quem disse que os monstros não existem?

Noutros media: Desde 2009 que Carnificina ocupa a 90ª posição na lista dos Melhores Vilões dos Quadradinhos de Todos os Tempos do IGN. Fora deles, a sua estreia no panorama audiovisual remonta a 1996. Ano em que participou em alguns episódios da terceira temporada da série Spider-Man. Apesar de algumas cambiantes, a sua versão animada era bastante fiel ao conceito primordial. Situação que se verificou, também. nas restantes séries de animação estreladas pelo Homem-Aranha em que foi marcando presença ao longo dos anos.
 Ainda sem lugar no efervescente Universo Cinemático da Marvel, Carnificina continua, no entanto, a marcar pontos nos jogos de vídeo baseados na mitologia da Casa das Ideias.E até já subiu ao palco na Broadway. Aconteceu em 2011, quando lá estreou a peça musical Spider-Man: Turn Off the Dark, com banda sonora de Bono e The Edge, dos U2. Retratado como um membro do Sexteto Sinistro, o vilão foi interpretado por Collin Baja.

Spider-Man musical.jpg
Cartaz promocional do musical do Homem-Aranha
 que deu a conhecer Carnificina ao espectadores da Broadway.

 
   

03 fevereiro 2016

ETERNOS: DAN JURGENS (1959 - ... )



   Apadrinhado por um grande vulto da 9ª arte, entrou, ainda jovem, pela porta grande da indústria dos comics. Na DC encontrou uma segunda casa, retribuindo a hospitalidade com a conceção de algumas das mais emblemáticas sagas e personagens da companhia. Suspira, porém, até hoje por uma segunda oportunidade com um certo Escalador de Paredes.

Biografia e carreira: Casado e pai de duas filhas, Dan Jurgens nasceu há 56 anos na pequena cidade de Ortonville, no estado norte-americano do Minnesota. Isto é praticamente tudo o que se sabe acerca da sua vida familiar.
  Já o seu extenso e multifacetado percurso profissional é do domínio público e remonta a 1982. Então com apenas 23 anos - e depois de, no ano anterior, ter concluído os seus estudos no Minneapolis College of Art and Design - Dan foi o escolhido para ilustrar as estórias de Warlord (conceito desenvolvido por Mike Grell e publicado sob os auspícios da DC).
  Impressionado com o portefólio que um jovem e promissor desenhista lhe mostrara numa convenção dedicada à 9ª arte, foi o próprio Grell quem recomendou Dan aos seus editores da DC. Percebendo estarem em presença de um fora de série, eles nem pensaram duas vezes antes de contratá-lo.

Edição de Warlord que marcou a estreia profissional de Dan Jurgens em 1982.

   A Dan Jurgens foi assim dada oportunidade de colaborar de perto com diversos nomes sonantes dos quadradinhos. Jerry Conway e Roy Thomas foram dois deles. Escritores consagrados que, anos mais tarde, aquando da sua estreia como argumentista, lhe serviriam de referências.
   Um dos momentos capitais desta primeira passagem de Dan Jurgens pela DC ocorreu em 1985. Ano em que criou aquele que seria o primeiro herói de relevo no período pós-Crise e membro proeminente da renovada Liga da Justiça: o Gladiador Dourado (vide biografia ficcionada já publicada neste blogue).
   Prosseguindo a sua ascensão meteórica na Editora das Lendas, em 1987 Dan Jurgens foi escalado para assumir a arte de The Adventures of Superman Annual nº1. Começava, assim, a sua longa e umbilical ligação ao Homem de Aço. Personagem com a qual, dois anos mais tarde, passaria a trabalhar a tempo inteiro. E cuja "morte" ajudaria a orquestrar em 1992. Foi aliás da sua imaginação que saiu Apocalypse (Doomsday, no original), o hediondo verdugo do campeão de Metrópolis.
   The Death of Superman (saga já aqui esmiuçada) constituiu, de facto, a coroa de glória de Dan Jurgens, valendo-lhe inclusivamente o prémio para melhor arco de histórias atribuído pela National Cartoonist Society. Escusado será dizer que tamanho esplendor não passou despercebido à concorrência, que há muito cobiçava a coqueluche da eterna rival.

A morte do Super-Homem trouxe fama e glória a Dan Jurgens.

   Com efeito, ao fim de quase 15 anos de casamento com a DC, em 1996 Dan Jurgens resolveu trocá-la pela Marvel. Desenganem-se, porém, se pensam que se tratou de um affair inconsequente. Na verdade, essas segundas núpcias durariam sete anos, vividos em quase permanente lua de mel.
   Antes, porém, de assentar arraiais na Casa das Ideias, Dan Jurgens teve ainda tempo para vincar a sua impressão digital na memorabilia da DC, associando-se à produção de três sagas de referência: Armageddon 2001 (1991), Panic in the Sky (1993) e Zero Hour (1994). Reportório assinalável a que se somou ainda o lendário crossover Superman versus Aliens (publicado em 1995 numa iniciativa conjunta da DC e da Dark Horse Comics).

Dan Jurgens com dois dos heróis que mais estima.

   Na Marvel, começou por ser incumbido de lançar The Sensational Spider-Man, série mensal inicialmente projetada para acolher as aventuras e desventuras do novo Escalador de Paredes (Ben Reilly) saído da Saga do Clone. A despeito desse pressuposto, as coisas não correram sobre rodas. Com Dan Jurgens a exercer forte pressão no sentido de trazer de volta Peter Parker. E, invariavelmente, a esbarrar na intransigência de Bob Harras, o recém-nomeado Editor-chefe da Casa das Ideias. Braço de ferro que tinha, obviamente, vencedor anunciado.
  Harras deliberara que o regresso do Homem-Aranha original só aconteceria após o término de Onslaught (saga protagonizada pelos X-Men, traduzida como Devastação em Portugal e Massacre no Brasil). E nem ventos nem marés o fariam mudar de ideias.
  Vencido mas não convencido, Dan Jurgens bateu com a porta, em protesto com o que entendia serem desmandos editoriais. A propósito deste percalço na sua carreira, ele afirmaria anos mais tarde numa entrevista que gostaria muito de poder ter nova oportunidade para trabalhar com o Homem-Aranha. Admitindo que se sentia de certo modo defraudado por ter apenas podido fazê-lo com a versão genérica daquele que é um dos símbolos da Marvel.
   Apesar deste passo em falso, nos anos seguintes Dan Jurgens continuou a sua corrida de fundo pelo Universo Marvel. The Mighty Thor e Captain America foram os dois títulos em que intercalou o seu trabalho (escrevendo o primeiro e acumulando as funções de argumentista e desenhador no segundo).

A fase do Deus do Trovão escrita por Dan Jurgens.

   Fazendo ouvidos de mercador ao velho aforismo de que nunca devemos voltar aos sítios onde fomos felizes, no dealbar deste século Dan Jurgens regressou à DC. Um regresso em grande estilo e a tempo de se associar às comemorações do décimo aniversário da morte do Super-Homem. Narrada sob o ponto de vista de algumas das vítimas colaterais daquele fatídico dia, a minissérie Superman: Day of Doom (2003) mostrou um Dan Jurgens em grande forma.
  Em 2005, Dan Jurgens produziu You Can Draw Marvel Characters, guia ilustrado editado pela Dorling Kindersley Publishing que ensinava passo a passo a desenhar os mais ilustres inquilinos da Casa das Ideias. Obra que tem desde então servido de referência a muitos aspirantes a uma carreira ligada à 9ª arte.
  Quando, em 2011, a DC revitalizou a sua mitologia através de The New 52, Dan Jurgens teve participação importante em dois projetos. Depois de escrever as histórias da rediviva Liga da Justiça Internacional (agora capitaneada pelo Gladiador Dourado e destituída do seu tom humorístico de outrora), assumiu a arte de Green Arrow, a aclamada nova série mensal do Arqueiro Verde. Seguindo-se o inevitável regresso às páginas de Superman, por cujos enredos e ilustrações ficaria responsável por um largo período.
   Dado  o seu traquejo com sagas de grande envergadura, foi sem surpresa que, em 2014, Dan Jurgens foi um dos argumentistas escolhidos para The New 52: Futures End, prelúdio de novo ajustamento cronológico do Universo DC. E na esteira do qual ajudou também a lançar Aquaman & The Others, título mensal tendo o Soberano dos Sete Mares e um enigmático grupo de aliados chamados Os Outros como cabeças de cartaz.
  A conclusão de The New 52: Futures End e de Convergence (seu desdobramento) permitiu a Dan Jurgens abraçar novos projetos. Assim, no verão de 2015, os leitores norte-americanos foram presenteados com duas novas séries baseadas na mitologia do Homem-Morcego. São elas Batman Beyond e Bat-Mite, ambas escritas por Dan. Mais recentemente, em outubro passado, foi lançada a minissérie Superman: Lois & Clark através da qual Dan Jurgens retomou a sua ligação ao Homem de Aço.
  Independentemente do que o futuro lhe reserve, Dan Jurgens há muito inscreveu o seu nome nos anais da História da 9ªarte, sendo portanto um dos seus maiores expoentes da atualidade.

O mais recente projeto de Dan Jurgens ao serviço da DC.


Principais criações:

* Agent Liberty/Agente Liberdade (DC)
* Booster Gold/Gladiador Dourado (DC)
*Cyborg Superman/Supercyborg (DC)
*Doomsday/Apocalypse (DC)
*Monarch/Monarca (DC)
*Thor Girl (Marvel)
*Waverider/Tempus (DC)

Gladiador Dourado, uma das mais célebres criações de Dan Jurgens para a DC.




Bibliografia de referência: 

*Armageddon 2001 (DC, 1991);
*The Death of Superman/ A Morte do Super-Homem (DC,1992);
* Panic in the Sky/Pânico no Céu (DC, 1993);
* Zero Hour/Zero Hora (DC, 1994);
*Superman versus Aliens (DC/Dark Horse, 1995);
* Superman/Fantastic Four (DC/Marvel, 1999);
*Superman: Day of Doom/ Super-Homem: Dia do Juízo Final (DC,2003);
* You Can Draw Marvel Characters (Dorling Kindersley Publishing, 2005);
* The New 52: Futures End/Os Novos 52: Fim dos Tempos (DC, 2014)



Dois dos trabalhos que notabilizaram Dan Jurgens.
 
 


 
 
 





    



Principais criações: