31 março 2016

ETERNOS: GERRY CONWAY (1952 - ...)




   Com apenas 19 anos foi investido da espinhosa missão de suceder a ninguém menos do que Stan Lee em The Amazing Spider-Man. Apesar da sua juventude e do peso desse legado, logrou afirmar-se ao escrever algumas das mais memoráveis histórias do Escalador de Paredes. Dele são também os créditos pela criação de personagens icónicas, como Justiceiro e Nuclear.


Biografia: De ascendência irlandesa, Gerard F. "Gerry" Conway nasceu há 63 anos no Brooklyn (Nova Iorque). Criado no seio de uma modesta família de imigrantes de segunda geração, o pequeno Gerry lia historietas de super-heróis com devoção religiosa. A mesma que lhe falta hoje em dia, apesar de ter recebido uma educação baseada nos preceitos do Catolicismo.
   No seu blogue pessoal, Gerry Conway descreve nestes termos os seus antecedentes familiares: "Os meus avós maternos nasceram na Irlanda. Como muitos outros,antes e depois deles, vieram à procura do sonho americano. Viveram no entanto uma vida em tudo parecida com aquela que a minha empregada de limpeza latina vive hoje em dia. O meu avô trabalhava de sol a sol como estivador nas docas. A minha avó lavava escadas na Hunter College (subsidiária da Universidade de Nova Iorque, sediada em Manhattan). Por força do seu baixo estatuto social, eram os hispânicos daquela época. Ou seja, eram tolerados mas não respeitados pelos estratos sociais mais elevados. Até o meu pai, nascido nos EUA, sentiu na pele esse preconceito em relação aos irlandeses. Raramente falava contudo do assunto. Mas, quando o fazia, era evidente o seu amargor."
  Naquilo que alguns poderão interpretar como um sinal da sua predestinação de vir a ser um expoente da 9ª arte, aos 14 anos Gerry Conway teve uma carta da sua lavra publicada em Fantastic Four nº50 (vide texto anterior). Destino que começou a desenhar-se três anos depois, em setembro de 1969, quando viu ser dado à estampa o seu primeiro trabalho profissional. Consistindo este num conto de terror, composto por seis páginas e meia, publicado em House of Secrets nº81 (título da DC Comics).

Edição de The House of Secrets que marcou
 a estreia profissional de Gerry Conway.

   Por conta desta estreia auspiciosa, da pena de Gerry Conway continuou a sair um manancial de histórias de cariz sobrenatural, publicadas nos meses subsequentes tanto em títulos da Marvel como da DC. Apesar de cada vez mais requisitado, Gerry suspirava por uma oportunidade para trabalhar com a sua verdadeira paixão: super-heróis. Graças à ajuda de amigos bem colocados, em finais de 1970, Gerry entrou em contacto com Roy Thomas    ( à época, editor da Marvel e braço-direito de Stan Lee), que concordou em testar as capacidades do jovem aspirante a escriba, dando-lhe um argumento para desenvolver.
   Oportunidade de ouro que nem passaria pela cabeça de Gerry desperdiçar. Ciente de que tinha na mão a chave para abrir de par em par as portas do seu emprego de sonho, arregaçou as mangas e trabalhou com afinco. Impressionado com a prestação do jovem,. Roy Thomas logo lhe atribuiu outras histórias, inclusive uma de Ka-Zar, publicada em Astonishing Tales nº3 (dezembro de 1970).

O primeiro trabalho de Conway para a Marvel
 foi publicado  neste volume de Astonishing Tales
  Conquistada a admiração dos seus pares, num piscar de olhos Gerry Conway tornou-se parte da mobília da Casa das Ideias. Sendo-lhe confiadas personagens cada vez mais proeminentes: a Ka-Zar seguir-se-iam Demolidor, Viúva Negra, Homem de Ferro, Inumanos e o Incrível Hulk. Sobejando-lhe, ainda assim, tempo e criatividade para escrever a história inaugural da série The Tomb of Dracula, e para participar na conceção de personagens como Lobisomem e Homem-Coisa (Werewolf e Man-Thing, nos respetivos originais).
  O batismo de fogo de Gerry Conway chegaria, contudo, em meados de 1972. Ano em que foi o escolhido para suceder a ninguém menos do que Stan Lee à frente de The Amazing Spider-Man. Ironia do destino, já que, ao contrário de Roy Thomas, o Papa da Marvel não ficara impressionado com a amostra do trabalho de Gerry Conway,  Este, do alto dos seus 19 anos, não se fez rogado na hora de aceitar aquilo que bem poderia ter sido um presente envenenado: assumir o legado de uma lenda viva num título de charneira da Casa das Ideias.
   Malgrado a sua juventude e o natural ceticismo de alguns leitores, Gerry Conway não demorou a afirmar-se, dando um novo elã ao microcosmos do Homem-Aranha. Ao longo do triénio (1972-75) que durou o seu consulado em The Amazing Spider-Man, o escritor revitalizou as histórias do Escalador de Paredes. Algumas das quais, pelo seu escopo na vida do herói, se tornariam antológicas. Foi o caso, desde logo, de The Night Gwen Stacy Died (A Noite em que Gwen Stacy Morreu), que chegou às bancas norte-americanas em junho de 1973.

A morte de Gwen Stacy continua a ser uma das histórias
 mais impactantes na vida do Escalador de Paredes.

  Oito meses depois, em parceria com Ross Andru, Gerry Conway introduziria dois novos e carismáticos antagonistas do herói aracnídeo: o Chacal (The Jackal) e o Justiceiro (The Punisher). Enquanto o primeiro estaria na origem da controversa Saga do Clone (já aqui esmiuçada), o segundo teria uma ascensão fulgurante no Universo Marvel, depressa trocando as roupagens de vilão pelas de um anti-herói cujos métodos radicais no combate à criminalidade o tornaram numa das mais populares personagens dos quadradinhos (e fora deles).

O Justiceiro (aqui pelo traço de Ross Andru, seu cocriador)
rapidamente passou de coadjuvante a protagonista.

  Paralelamente ao trabalho desenvolvido em The Amazing Spider-Man, Gerry Conway escreveu também, durante cerca de ano meio, outro dos títulos mais emblemáticos da Casa das Ideias: The Fantastic Four. 
    Factos que, em 2009, lhe motivariam as seguintes reflexões: "Qualquer pessoa com uma atividade criativa está ciente de que a precocidade é uma maldição. No meu caso, a maior parte da pressão que senti quando era um jovem escritor de super-heróis foi autoinfligida. Aquilo que eu mais queria era ser aceite como igual pelos meus colegas mais velhos. Circunstância que me levou muitas vezes a projetar uma maturidade emocional e profissional superior à que tinha na altura. 
   Posso dizer, no entanto, que era bastante convincente nesse papel. Dele decorrendo vantagens mas, obviamente, também algumas desvantagens. Olhando para trás, julgo que as pessoas se esqueciam frequentemente de quão novo eu era, esperando desse modo que eu atingisse um nível que claramente não estava ao meu alcance. 
  A principal consequência foi eu ter passado os primeiros anos da minha carreira profissional esmagado por uma gigantesca pressão, sem saber muito bem o que fazer. Escrevia muitas vezes por instinto. Quando essa forma de escrever se adequava ao material que tinha em mãos, o resultado final era estupendo. Mesmo passados todos estes anos, continuo a orgulhar-me do trabalho que fiz em The Amazing Spider-Man. Outras situações houve em que fui notoriamente prejudicado pela minha inexperiência."



Houve um antes e um depois de Gerry Conway nas histórias do Homem-Aranha.
   Regressado à DC em meados de 1975, Gerry Conway assumiu de uma assentada três edições, todas datadas de novembro desse ano: Hercules Unbound nº1, Kong, The Untamed nº3 e Swamp Thing nº19. Carga de trabalho complementada pela revitalização por ele operada em All Star Comics. Foi, aliás, neste título histórico com origens na Idade do Ouro que Gerry deu a conhecer a Poderosa (Power Girl), uma das suas mais bem-sucedidas criações.
  Tal versatilidade valeu-lhe, pouco tempo depois, o convite para escrever Superman versus The Amazing Spider-Man, o primeiro crossover oficial Marvel/DC. Iniciativa editorial que associaria para sempre o nome de Gerry Conway à história das duas gigantes dos quadradinhos estadunidenses.
  Depois de mais alguns meses a trabalhar na Editora das Lendas, em março de 1976 Gerry Conway aceitou novo desafio de monta ao assumir o cargo de editor-chefe da Marvel. Funções que exerceria apenas durante pouco mais de um mês, logo renunciando a elas por motivos que permanecem até hoje obscuros.

Nos créditos da batalha do século XX figurava o nome de Gerry Conway.

  Novamente ao serviço da DC (agora em regime de exclusividade), na década seguinte Gerry Conway deixaria a sua marca em praticamente toda a linha de títulos da editora. De Superman a Detective Comics (onde Batman era cabeça de cartaz), passando por Justice League of America, poucas foram as personagens que não tiveram histórias escritas pela sua incansável pena. Fase seminal em que Gerry Ordway foi também cocriador de um lote de personagens emblemáticas. Citando apenas as mais afamadas: Nuclear (Firestorm), Vixen, Vibro (Vibe), Cigana (Gipsy) e Gládio (Steel, the Indestructible Man). Importa referir que, excetuando o herói atómico, os restantes formaram o contingente de neófitos da Liga da Justiça de Detroit.
   Durante esta sua segunda passagem pela DC, Gerry Conway reencontrou Roy Thomas, com quem teve ocasião de colaborar em diversos projetos. Dentre estes, o mais ambicioso - e, em certa medida, o mais frustrante - seria,muito provavelmente, JLA/Avengers, crossover cujo cancelamento foi ditado pelas disputas editoriais entre as duas licenciadoras.
   Constantemente em busca de novos desafios, em finais dos anos 80, Gerry Conway trocou uma vez mais a DC pela Marvel. Entre 1988 e 1990 escreveu em simultâneo The Spectacular Spider-Man e Web of Spider-Man, os dois títulos estrelados pelo Homem-Aranha. Sobre esta sua segunda experiência com o Escalador de Paredes, Conway declararia certa vez: "Entendia a personagem muito melhor nessa altura do que quando tinha 19 anos. Uma das vantagens deste trabalho é que podemos sempre refrescar conceitos consagrados por via de alterações subtis. Algo que me continua a dar gozo fazer."
   Convidado a produzir os guiões da série policial Father Dowling Mysteries, Gerry Conway trocaria entretanto a BD pela TV. Não tendo sido esta, contudo, a sua primeira incursão no panorama audiovisual. Em 1983, ele e Roy Thomas haviam sido os autores do enredo de Fire & Ice, película de animação baseada em personagens idealizadas por Ralph Bakshi e Frank Frazetta. No ano seguinte, a mesma dupla assinaria a trama do filme Conan. The Destroyer (sequela de Conan, The Barbarian ,ambos protagonizados por Arnold Schwarzenegger).

A série televisiva que levou Gerry Conway
a abandonar a indústria dos comics.

   No plano literário, Gerry Conway deu à estampa duas novelas de ficção científica: The Midnight Dancers (1971) e Mindship (1974). Nenhuma delas obteve, todavia, o estatuto de best-seller.
   Circunscrevendo atualmente a sua relação com os comics  a ocasionais colaborações com a Marvel e a DC, Gerry Conway continua, ainda assim, a expressar o seu afeto por esses produtos culturais através das múltiplas referências que lhes faz nas séries televisivas que escreve e produz. Num episódio de Law & Order, por exemplo, deu o nome de John Byrne a uma das personagens.Rendendo dessa forma tributo a outro grande vulto da 9ª arte, cujo perfil já aqui foi publicado.
  Casado em segundas núpcias com Karen Bitten - uma psicóloga especializada em autismo infantil -, Gerry Conway é pai de duas filhas. Sendo a mais velha fruto do seu matrimónio com Carla Conway. Além da parentalidade, o ex-casal divide os créditos pela criação de Miss Marvel.
    A residir desde 2009 em San Fernand Valley - subúrbio da buliçosa Los Angeles - Gerry Conway leva uma pacata vida familiar longe dos holofotes. Nada que impeça a sua legião de fãs de continuar a acalentar a esperança de o ver regressar em grande estilo à indústria dos quadradinhos, atravessando presentemente uma das mais amorfas fases da sua História.
   Mesmo que tal nunca venha a acontecer, pelo seu importante contributo para o prestígio da 9ª arte, o nome de Gerry Conway ficará para sempre entalhado com letras douradas no panteão dos seus mais preclaros autores.


Gerry Conway entrevistado durante a Comic Con de Seattle de 2013.

 Obras de referência:

* The Amazing Spider-Man (Marvel, 1972-75);
* Superman versus The Amazing Spider-Man (Marvel/DC, 1976);
* Superman versus Wonder Woman (DC, 1978);
* Superman versus Shazam (idem, ibidem)
.*The Spectacular Spider-Man (Marvel, 1988-90);
* Web of Spider-Man (idem, ibidem);
* DC Retroactive: Justice League- The '80s (DC, 2011);

Outro tesouro de papel com a assinatura de Gerry Conway.

Principais criações e cocriações:

* Justiceiro/Punisher (Marvel);
* Chacal/Jackal (Marvel);
* Poderosa/Power Girl (DC);
*Vibro/Vibe (DC);
*Cigana/Gipsy (DC);
*Gládio/Steel, The Indestructible Man (DC);
* Miss Marvel (Marvel);
*Homem-Coisa/Man-Thing (Marvel);
* Lobisomem/Werewolf (Marvel);
* Jason Todd*(DC);
* Nevasca/Killer Frost (DC);
* Nuclear/Firestorm (DC);
* Crocodilo/Killer Croc (DC);
*Ben Rilley** (Marvel);
* Halloween/Jack O'Lantern (Marvel)
*Drácula/Dracula (Marvel);
*Esquadrão Atari/Atari Force (DC)

* Identidade civil do segundo Robin (atual Capuz Vermelho);
** Identidade civil do Aranha Escarlate

Nuclear: umas das mais célebres criações de Gerry Conway.


16 março 2016

CLÁSSICOS DA 9ªARTE: «A CHEGADA DE GALACTUS»




   Meio século atrás, quando a imaginação e a criatividade escorriam pelas paredes da Casa das Ideias, Stan Lee e Jack Kirby gratificaram os fãs do Quarteto Fantástico com uma épico dos tempos modernos. Alegoria de inspiração bíblica, a história teve ainda o condão de introduzir duas personagens inéditas, logo consagradas: Galactus, o Devorador de Mundos e o seu amargurado arauto Surfista Prateado.

Título original: The Coming of Galactus! (também conhecida como Galactus Trilogy por conta do tríptico de volumes que compunha a saga)
Licenciadora: Marvel Comics
Autores: Stan Lee* (história) e Jack Kirby* (arte)
Publicada originalmente em: Fantastic Four nº 48 a 50 (março a maio de 1966)
Personagens principais: Quarteto Fantástico, Galactus, Surfista Prateado e o Vigia
Coadjuvantes: Inumanos, Skrulls e Alicia Masters
Cenários: Nova Iorque (lar do Quarteto Fantástico), Himalaias (localização secreta do Grande Refúgio dos Inumanos) e Tarnax IV (planeta-metrópole do império galáctico Skrull)

* Ainda que estes dois monstros sagrados da 9ª arte dispensem apresentações, podem consultar aqui as respetivas biografias: http://bdmarveldc.blogspot.pt/2011/09/eternos-stan-lee.html e http://bdmarveldc.blogspot.pt/2011/10/eternos-jack-kirby-1917-1994.html


Nunca antes o Quarteto Fantástico defrontara tão poderoso adversário.


Notas prévias:

Quem é o Vigia?



  Conceito desenvolvido por Stan Lee e Jack Kirby, o Vigia (The Watcher, no original) fez a sua primeira aparição em abril de 1963, numa história do Quarteto Fantástico publicada em Fantastic Four nº13. Com o decorrer dos anos, o enigmático ser tornar-se-ia presença assídua nas histórias da Família Fundamental da Marvel.
  Uatu - é esse o seu nome de batismo - faz parte de uma raça alienígena que se dedica a observar os eventos cruciais do Universo e do Multiverso. Estando contudo os Vigias terminantemente proibidos de qualquer interferência no curso da História das civilizações por eles monitorizadas.
  A partir da sua fortaleza sediada na chamada Área Azul da Lua, Uatu tem sido ao longo de incontáveis milénios testemunha silenciosa dos progressos e fracassos da nossa espécie.
  À imagem dos demais representantes da sua raça, o Vigia é extremamente poderoso e tem como marcas distintivas a sua calvície e a colossal estatura. Contrariamente, porém, aos seus homólogos, Uatu em várias ocasiões intercedeu em prol da humanidade. Infração que o levou a ser julgado e ostracizado pelos outros Vigias.


Quem são os Inumanos?

  Igualmente frutos da prodigiosa imaginação da dupla Lee/Kirby, os Inumanos (Inhumans) são descendentes de vulgares homo sapiens que, muitos séculos atrás, serviram de cobaias a experimentalismos genéticos operados pelos Krees, uma avançada raça extraterrestre que usou o nosso planeta como tubo de ensaio.
  Em dezembro de 1965, os Inumanos surgiram pela primeira vez em Fantastic Four nº45 como coadjuvantes do Quarteto Fantástico. Antes dessa estreia coletiva, alguns dos seus membros já haviam, porém, aparecido individualmente como vilões (casos de Medusa e Gorgon).
   A comunidade inumana assenta num rígido sistema de castas, em cujo vértice se encontra a Família Real. Esta é composta por Raio Negro (Rei dos Inumanos), Medusa (sua consorte que chegou a substituir temporariamente a Mulher Invisível no Quarteto Fantástico), Maximus (irmão louco de Raio Negro), Karnak, Cristalys, Gorgon e Triton. Todos eles possuem habilidades meta-humanas em consequência da sua espécie ter tido o seu genoma reescrito pelos Krees.
  Originalmente, o Grande Refúgio (localizado algures na cordilheira dos Himalaias) servia de lar aos Inumanos. Este seria posteriormente transferido para a Área Azul da Lua (tornando, assim, os súbditos de Raio Negro vizinhos do Vigia), objetivando escapar aos efeitos da poluição da atmosfera terrestre que ameaçava a sobrevivência da comunidade.


A Família Real dos Inumanos pelo traço de Jack Kirby.
Da esq. para a dir.: Gorgon, Cristalys, Raio Negro, Medusa, Karnak e Triton.

E, já agora, quem são os Skrulls?

  Para não destoar, os Skrulls são outra criação conjunta de Stan Lee e Jack Kirby. Criação essa que é até anterior ao surgimento do Vigia e dos Inumanos, já que a sua estreia teve lugar logo no segundo número de Fantastic Four, com data de janeiro de 1962.
   Os Skrulls são alienígenas que, na sua aparência primordial, possuem pele verde, orelhas pontiagudas e um queixo com saliências. A maior peculiaridade desta espécie reside, contudo, nas suas habilidades transmorfas que lhes permitem assumir a forma de qualquer ser vivo ou objeto inanimado.
  Entre os arqui-inimigos dos Skrulls, além do Quarteto Fantástico, destacam-se os Krees, com quem já travaram diversas guerras sangrentas.

Figurino padrão dos Skrulls.


Histórico de publicação: Em 1966, aproximadamente cinco anos depois de terem lançado Fantastic Four (um dos títulos de charneira da Marvel Comics), Stan Lee e Jack Kirby afadigavam-se na conceção de um antagonista inédito para o Quarteto Fantástico. Um dos quesitos passava por evitar os estereótipos na base da criação da esmagadora maioria dos vilões daquela época. Tendo em conta este pressuposto, Lee e Kirby depressa consensualizaram o perfil da nova personagem: um ser com a estatura e o poder de um deus.
   No prefácio de Marvel Masterworks: Fantastic Four Volume 5 (coletânea que, em 1993, reuniu algumas das melhores sagas do Quarteto Fantástico), Stan Lee descreveu nos seguintes termos o desenvolvimento do Devorador de Mundos: "Galactus foi apenas mais um na longa linha de supervilões que eu e Jack tínhamos adorado criar. Depois de termos imaginado tantos mauzões com dons extraordinários, percebemos que a única maneira de nos superarmos seria criar um com poderes divinos. 
   Claro que a escolha natural foi um semideus. Mas logo surgiu a dúvida: o que faríamos com alguém assim tão poderoso? A última coisa que queríamos era usá-lo para alimentar o cliché estafado do vilão megalómano que quer dominar o mundo. E foi então que, quase como se tivéssemos sido fulminados por um raio, se fez luz nas nossas mentes. Porque não atribuir-lhe uma natureza amoral? Por que motivo haveria um ser dessa envergadura reger-se pelos padrões da moralidade humana? Bem vistas as coisas, uma criatura com esse perfil estaria certamente além do bem e do mal. Mais: e se ele retirasse o seu sustento da energia vital dos planetas?"
  Palavras que corroboram o depoimento de Jack Kirby em The Masters of the Comic Book Art, documentário produzido em 1987. Nele, o rei do desenho assume as inspirações bíblicas na conceção de Galactus e do Surfista Prateado: "Pressionados a aumentar as vendas de Fantastic Four, eu e Stan começámos a trocar ideias sobre a criação de um novo supervilão. Concordámos, no entanto, que teríamos de fugir aos lugares-comuns se queríamos manter os nossos empregos. 
   Com isto em mente, dei comigo certo dia a folhear a Bíblia. Bastou-me ler alguns trechos para  encontrar a inspiração que procurava. Quase pude ver materializar-se diante de mim a imponente figura de Galactus. Um ser que eu conhecia bem, porque sempre habitou a minha imaginação. Um ser de tão formidável poder que eu não o podia  abordar como se de um comum mortal se tratasse. E que sempre se faria anunciar por um arauto angélico. Foi assim que surgiu a ideia para o Surfista Prateado.
  Dei-me conta desde o primeiro momento que nunca antes personagens com tais características tinham sido usadas em histórias de super-heróis. Mais do que figuras mitológicas, Galactus e o Surfista Prateado eram divindades cósmicas. Estatuto que as coloca acima de qualquer julgamento moral. Afinal, o bem e o mal mais não são do que conceitos desenvolvidos pelos humanos para condicionarem as suas próprias ações. Ora, Galactus não respondia perante ninguém pelos seus atos. Em certa medida, ele seria uma alegoria de Deus e o Surfista Prateado representaria metaforicamente o seu anjo caído em desgraça."


Jack Kirby (esq.) e Stan Lee: o Rei e o Papa da Marvel.

  Na obra da sua autoria 500 Comic Book Villains (dada à estampa em 2004), o escritor Mike Conroy aprofundou a análise feita por Lee e Kirby. Aqui ficam, em discurso direto, as suas considerações: "Em apenas cinco anos, Lee e Kirby tinham introduzido nas histórias do Quarteto Fantástico uma panóplia de raças extraterrestres ou seus representantes. Havia os Skrulls, o Vigia, o Estranho e todo um rol infindável de personagens que ambos tinham usado na fundação do Universo que eles vinham construindo. E no qual tudo era possível, contanto que não fossem desprezadas as "leis naturais" desta cosmologia imaginária.
  Nos primórdios do Universo Marvel, as personagens agiam de forma consistente com o título em que estavam inseridas, sabendo de antemão que as suas ações reverberariam noutros. No fundo, tratava-se de uma espécie de telenovela à escala cósmica, com uma miríade de personagens a entroncar numa gigantesca trama. Corporizando Galactus a sua dimensão épica ."
  Findo o trabalho de bastidores, a entrada em cena do Devorador de Mundos e do seu acólito aconteceria em março de 1966, nas páginas de Fantastic Four nº48. Principiava assim a monumental saga precursora do subgénero cósmico. E cujo emocionante clímax mostrou o Surfista Prateado a desafiar o seu mestre com o intuito de salvar a humanidade, pagando um preço elevado pela sua rebeldia.
    
Galactus e Surfista Prateado, parábola divina.

Enredo:

Capítulo I: «A Chegada de Galactus» (The Coming of Galactus!)

Fantastic Four nº48 (março de 1966).

  Algures nas encostas geladas dos Himalaias, esconde-se o Grande Refúgio dos Inumanos. Em segredo, Maximus, o insano irmão de Raio Negro, projeta utilizar a sua nova arma - a que deu o nome de atomizador - para erradicar a humanidade. No entanto, por motivos inexplicados, o seu plano fracassa. À parte alguns terramotos à volta do globo, a humanidade permanece sã e salva.
 Maximus é, porém, fustigado por uma dantesca visão mostrando o perecimento de milhões de inocentes. Antes de ser capturado por Karnak e Gorgon, o irmão de Raio Negro logra reverter a polaridade do seu atomizador. Usando-o de seguida para gerar um campo de antimatéria que encapsula o Grande Refúgio, isolando-o do resto do mundo. Apenas instantes antes de o Quarteto Fantástico (velho aliado dos Inumanos) conseguir deixar o local, regressando a toda mecha para Nova Iorque.
   Entrementes, um ser de pele argentina cruza elegantemente os rincões do Cosmos montado na sua prancha metálica. Ao atingir a orla da galáxia Andrómeda, o Surfista Prateado chama a atenção dos Skrulls. A exemplo de muitas outras civilizações alienígenas, eles sabem que a aparição da criatura reluzente é um mau presságio, pois ele serve Galactus, o Devorador de Mundos.
  Apavorados com a possibilidade de o seu planeta ser consumido pela voracidade de Galactus, os Skrulls tudo fazem para se manterem ocultos aos olhos do solitário arauto que percorre o Universo em busca de alimento para o seu mestre.
   A milhões de anos-luz dali, em Nova Iorque, o Quarteto Fantástico e os demais habitantes da metrópole testemunham um fenómeno com tanto de assombroso como de intrigante. De um momento para o outro, o céu parece ser engolido por gigantescas labaredas. Cenário que leva, de pronto, o Quarteto Fantástico a sair para investigar.
   Para tentar ver o fenómeno mais de perto, o Tocha Humana voa o mais alto que pode pelos céus da cidade. Acabando, contudo, por gerar o pânico entre os nova-iorquinos, que o julgam responsável pela situação.
  De volta ao Edifício Baxter, o Senhor Fantástico enfurna-se no seu laboratório a fim de estudar o bizarro fenómeno. Antes que consiga, porém, obter uma explicação científica para ele, as labaredas dissipam-se no céu, dando lugar a uma espécie de redoma formada por detritos espaciais.
 Quase ao mesmo tempo, o majestoso ser conhecido como Vigia materializa-se no interior do laboratório do Senhor Fantástico. Perante a perplexidade do seu interlocutor humano, o gigante calvo explica-lhe ser ele o responsável pelas perturbações atmosféricas. Resultando estas da sua desesperada tentativa para tornar a terra indetetável ao Surfista Prateado.
   Pela voz do Vigia, o Senhor Fantástico fica a saber que o Surfista Prateado é o arauto de Galactus, um poderoso ser cósmico que extrai o seu sustento da energia vital dos planetas, reduzindo-os a cascas secas e sem vida. Estando agora a Terra na mira do servo do Devorador de Mundos.
  Enquanto isso, o Surfista Prateado investiga de perto o campo de detritos espaciais criado pelo Vigia, encontrando a Terra escondida sob ele. Sem hesitar, ele voa até ao topo do Edifício Baxter e emite um sinal cósmico para o seu amo.
  O Quarteto Fantástico acorre ao local para tentar impedir o Surfista de alertar Galactus. Um golpe desferido pelo Coisa derruba o alienígena, mas é já tarde demais. Nos céus acima de Manhattan, emerge a colossal nave do Devorador de Mundos. Perante o olhar estarrecido dos heróis, o gigante anuncia a sua intenção de se banquetear com o nosso mundo.

Capítulo II: «Dia do Juízo Final» (If This Be Doomsday!)

Fantastic Fout nº49 (abril de 1966).

  Violando o seu juramento de não-interferência, o Vigia tenta demover Galacuts dos seus funestos intentos. Quando a diplomacia falha, o Coisa e o Tocha Humana investem sobre o gigante, que se limita a enxotá-los como se de insetos se tratassem.
  Relutantemente, o Quarteto Fantástico acede ao pedido do Vigia para que cessem as hostilidades contra Galactus. Enquanto este procede à meticulosa montagem do colossal aparato que lhe permitirá drenar a força vital da Terra, o Vigia informa o Sr. Fantástico sobre a existência de uma poderosa arma no planeta natal do Devorador de Mundos que será capaz de detê-lo. A missão de ir buscá-la é então confiada ao Tocha Humana.
  Noutro ponto da cidade, o Surfista Prateado recobra os sentidos no apartamento de Alicia Masters, a escultora cega namorada do Coisa. Inteirada do desígnio do ser cósmico, a jovem suplica-lhe que ele se rebele contra o seu mestre para salvar a humanidade do extermínio iminente.
   Já com o seu aparato quase montado, Galactus é alvo de novo ataque por parte do Quarteto Fantástico. Imperturbável, o gigante ordena a um serviçal robótico que afaste os importunos. Aproveitando a distração, o Vigia amplifica os poderes incandescentes do Tocha Humana para que ele possa viajar até ao planeta natal do Devorador de Mundos e de lá trazer a única arma capaz de o intimidar: o Nulificador Definitivo.
  Comovido pela sensibilidade e nobreza de caráter de Alicia Masters, o Surfista Prateado prontifica-se, entretanto, a tentar evitar que a Terra sirva de acepipe ao seu amo.


Capítulo III: «A Fantástica Saga do Surfista Prateado (The Startling Saga of the Silver Surfer!)

Fantastic Four  nº50 (maio de 1966).

   No coração de Manhattan, o Surfista Prateado distrai Galactus, tentando desesperadamente ganhar tempo até ao regresso do Tocha Humana trazendo consigo o Nulificador Definitivo. Quando o Sr. Fantástico ameaça usá-lo, o Devorador de Mundos aquiesce em poupar a Terra, exigindo em troca que lhe seja entregue a arma.
   Honrando a sua palavra, Galactus abandona logo depois o nosso planeta. Não sem antes punir o Surfista Prateado pela sua insolência, erguendo uma barreira invisível que o impedirá de deixar a Terra.
 Alicia Masters procura consolar o angustiado Surfista Prateado, expressando-lhe a sua gratidão por ter tomado o partido da humanidade. Consumido pelo ciúme, o Coisa afasta-se cabisbaixo antes que a jovem tenha oportunidade de lhe dizer quão orgulhosa ele a deixou.
   À medida que a vida volta à normalidade, os tabloides insinuam que a ameaça de Galactus não terá passado de um embuste.

"Até quando durará o meu exílio?"- interroga-se o ex-arauto de Galactus.

Apontamentos:

* Referenciado como Grande Refúgio em The Coming of Galactus, o lar secreto dos Inumanos seria renomeado Attilan em Thor nº146 (1967);
* De igual modo, o aparente mutismo de Raio Negro também só seria explicitado meses depois, nas páginas de Fantastic Four nº59. Edição em que os leitores ficaram a saber que a voz do silente monarca dos Inumanos tem um enorme potencial destrutivo, ao ponto de conseguir elevar uma montanha com um simples murmúrio;
* A barreira de zona negativa erguida por Maximus ao redor do Grande Refúgio não tem qualquer relação com a Zona Negativa, dimensão paralela composta por antimatéria e governada pelo temível  Aniquilador;
* A insensibilidade evidenciada pelo Surfista Prateado no início da história é explicada pelas manipulações de Galactus, que havia suprimido as memórias e emoções do seu arauto;
* Conquanto Tarnax IV seja referido na narrativa como sendo o planeta natal dos Skrulls, esse dado seria posteriormente desmentido. Na verdade, a raça transmorfa abandonara o seu mundo primordial milhões de anos antes dos eventos mostrados na saga;
* Tarnax IV serviria, contudo, de repasto a Galactus, alguns anos depois. Sobrevindo essa hecatombe de uma falha na tecnologia de camuflagem que permitira durante largo tempo ocultar o planeta-metrópole dos Skrulls do olhar guloso do Devorador de Mundos e das ocasionais prospeções galácticas levadas a cabo pelos seus arautos;
*Pela primeira vez desde que assumira as funções de Vigia da Terra, Uatu violou conscientemente o seu voto solene de não-interferência na História humana. Regra sacramental da sua espécie desde que, milénios atrás, ela causara acidentalmente a extinção em massa de uma raça alienígena ao providenciar-lhe tecnologia nuclear.
* No Brasil, esta saga foi publicada, em abril e maio de 1984, nos números 58 e 59 da segunda série de Heróis da TV.


A 1ª parte da saga foi publicada em Heróis da TV nº58 (1984).

Legado:

* The Coming of Galactus! foi a principal inspiração para a trama do filme de 2007 Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado (já aqui esmiuçado);
* Foi através desta saga que o Surfista Prateado foi guindado para o estrelato, tornando-se presença assídua em Fantastic Four antes de servir como veículo filosófico a Stan Lee no título próprio a que o herói cósmico teria direito pouco tempo depois;
* Em 2009, uma votação promovida entre os leitores pela plataforma Comic Book Resources elegeu The Coming of Galactus! como a 19ª melhor história aos quadradinhos de todos os tempos;
* Logo no ano seguinte à sua publicação, a saga foi adaptada ao pequeno ecrã por via de alguns episódios da série animada Fantastic Four (1967). Facto que se repetiria em 1994 em nova produção do género baseada na Família Fundamental da Marvel;
* No terceiro volume de Marvels (ovacionada minissérie em quatro capítulos da autoria de Kurt Busiek e Alex Ross, datada de 1994), os segmentos da narrativa protagonizados por Galactus são recontados sob o ponto de vista do vilão;
* Marco incontornável na História da 9ª arte,  The Coming of Galactus! foi objeto de múltiplas reedições ao longo dos anos, entre as quais avultam Marvel Masterworks nº25 (1993), The 100 Greatest Marvels of All Time e Essential Fantastic Four Volume 3 (estas últimas lançadas em 2001);

Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado (2007).


Vale a pena ler?

    Com certeza que sim! Esta é, aliás, uma daquelas sagas que devia ser leitura obrigatória para qualquer genuíno aficionado da 9ª arte (e não apenas para os "maluquinhos" por super-heróis como este vosso humilde escriba).
   No meu caso, tive o prazer e o privilégio de lê-la pela primeira vez nas páginas dos números 58 e 59 de Heróis da TV, quando ainda era uma pessoa de palmo e meio recém-alfabetizada. Mesmo não possuindo então a maturidade intelectual para refletir sobre os dilemas morais e as questões teológicas nela vertidos, a história tocou-me o coração.
   Quase fui levado às lágrimas (era um miúdo do tipo emotivo, mas não tanto) pelo degredo a que o pobre Surfista Prateado foi sentenciado pelo seu desapiedado amo depois de ter ajudado a evitar o extermínio de uma espécie cujo comportamento, já naquela altura, era tudo menos exemplar. Interrogo-me, de resto, se o bom Norrin Radd teria tomado idêntica posição se tivesse travado conhecimento com a humanidade dos dias de hoje...
  Quando, anos mais tarde, me senti intelectual e emocionalmente capacitado para reler A Chegada de Galactus percebi que a trama não se restringia aos melodramáticos solilóquios de uma espécie de Hamlet extraterrestre. Havia todo um sortido de personagens cativantes e ação em quantidade suficiente para evitar o enfado de leitores menos propensos a divagações filosóficas.
   Ao passo que a generalidade dos escritores modernos de banda desenhada preferem ater-se às convenções do género, Lee e Kirby estiveram-se a marimbar para elas. Mais importante do que a sofisticação narrativa, para essa dupla de iconoclastas que revolucionou o conceito de super-heróis o fundamental era a vertente humana. E essa assenta sempre nas emoções. Aquelas que as personagens expressam no desenrolar da história e aquelas que despertam nos leitores. Era esse o grande segredo de Lee e Kirby: sabiam como ninguém captar a essência humana, falando diretamente ao coração dos fãs.
  Atrevo-me, não obstante, a fazer dois pequenos reparos a esta obra-prima (ouvi alguém gritar "herege"?): em primeiro lugar, a excessivamente rápida mudança de lado do Surfista Prateado e, depois, a insólita opção de situar o grosso da narrativa nas imediações do Edifício Baxter. Pormenores de somenos importância atendendo à excelência daquela que é, sem dúvida, a melhor história do Quarteto Fantástico alguma vez produzida (aqui entre nós, é por causa dela que ainda hoje sou fã do grupo).
  Contudo, apesar de toda as suas façanhas e glórias, a Família Fundamental da Marvel foi recentemente desalojada da Casa Sem Ideias. Ao fim de mais de meio século de aventuras e desventuras, o Quarteto Fantástico teve a sua série cancelada. Oxalá não seja um adeus, mas apenas um até breve. Quero por isso dedicar este meu singelo artigo aos quatro heróis cujas estórias me transportaram ao Infinito e mais além.

Os 4 eternamente Fantásticos.


04 março 2016

HEROÍNAS EM AÇÃO: ESTELAR



  Fez parte do fabuloso naipe de personagens propositadamente criadas pela dupla Wolfman/Pérez para impulsionar os Novos Titãs, em cujas fileiras conheceu o amor da sua vida. Princesa de um mundo paradisíaco, escolheu a Terra como lar adotivo, assim poupando o seu povo a um fatídico destino.

Nome original: Starfire
Licenciadora: DC Comics
Criadores: Marv Wolfman (história) e George Pérez (arte conceitual)
Primeira aparição: DC Comics Presents nº26 (outubro de 1980)
Identidade civil: Koriander (também conhecida, na Terra, como Kory Anders)
Espécie: Alienígena humanoide
Local de nascimento: Planeta Tamaran
Parentes conhecidos: Rei Myander (pai), Rainha Luander (mãe), Komander (irmã), Ryander (irmão), Príncipe Karras (marido falecido) e General Ph'yzzon ( segundo marido, também falecido)
Afiliação: Ex-integrante dos Novos Titãs, dos Renegados e da Liga da Justiça da América
Base de operações: Ao serviço dos Novos Titãs, Estelar operou a partir da Torre Titã (Nova Iorque) e da Ilha Titã (ao largo da costa de São Francisco). Atualmente, não dispõe de uma base de operações fixa.
Armas, poderes e habilidades: Como todos os nativos de Tamaran, a fisiologia de Koriander foi concebida para absorver a radiação ultravioleta e convertê-la em pura energia, permitindo-lhe dessa forma voar a velocidades supersónicas. Originalmente, ela conseguia usar esse poder para deslocar-se no espaço sideral. No entanto, a sua versão moderna, saída de Os Novos 52, é incapaz de fazê-lo sem os efeitos da gravidade.
   Além da capacidade de voo, o seu poder atávico confere-lhe igualmente força e resistência sobre-humanas que a habilitam a rivalizar com pesos-pesados do Universo DC, como a Mulher-Maravilha.
   Depois de ter sido submetida a experiências de bioengenharia conduzidas pelos Psions, Estelar adquiriu a capacidade de canalizar a radiação ultravioleta absorvida pelo seu organismo sob a forma de poderosas rajadas energéticas. Recentemente, já demonstrou, também, ser capaz de libertar de uma só vez toda a energia acumulada numa espécie de pequena explosão solar que a deixa completamente exaurida.
  Treinada pelos mestres guerreiros de Okaara, Estelar é uma exímia combatente, proficiente em diversas artes marciais. Dispõe ainda de outro talento inato na sua espécie: o de assimilar instantaneamente outros idiomas por via do contacto físico com os respetivos falantes. Tratando-se de representantes do sexo masculino, ela prefere desencadear o processo através de um beijo - por ser mais divertido.
Fraquezas: Emocionalmente instável, Estelar, habitualmente dócil e altruísta, tende a reagir violentamente quando se sente de alguma forma ameaçada. Na época em que fazia parte dos Novos Titãs, esses ocasionais acessos de fúria deixavam um rasto de destruição à sua volta e só eram aplacados por Dick Grayson.


Após a sua estreia em DC Comics Presents Nº26 (1980),
Estelar teve a sua origem revelada em Tales of  the New Teen Titans nº4 (1982).

Conceção: Admitindo ter empregado elementos de personagens preexistentes na conceção do visual de Estelar, George Pérez (perfil já publicado neste blogue) recorda como tudo se processou: "Baseando-me na descrição de Estelar que me foi fornecida por Marv Wolfman, deduzi que ele teria em mente uma espécie de versão espacial de Red Sonja (personagem detida pela Marvel Comics). Usei, por isso, a guerreira ruiva como principal modelo. Certo dia, porém, enquanto trabalhava nos esboços da Estelar, Joe Orlando (outro ilustrador ao serviço da DC), espreitou por cima do meu ombro e comentou que ela deveria ter o cabelo mais comprido. Achei uma excelente ideia e tratei logo de desenhá-la com uma farta juba, cujo efeito em voo foi inspirado no rasto colorido deixado pelo Mighty Mouse (personagem animada também conhecida como Super Mouse). Desta curiosa miscelânea de influências resultou uma das mais carismáticas heroínas da nona arte. .
  Importa ainda sublinhar que Estelar foi uma das três personagens propositadamente criadas pela dupla Wolfman/Pérez para lançar a nova geração de Titãs. Cyborg e Ravena foram as outras duas, ao passo que Mutano (Changeling, no original) transitou da Patrulha do Destino (Doom Patrol) para os Novos Titãs, completando assim o contingente de debutantes na rediviva série.


Red Sonja (em cima) e Mighty Mouse foram
 as duas principais inspirações para o visual de Estelar

Biografia: Localizado no longínquo sistema estelar Vegan, Tamaran é um idílico planeta governado pelas emoções. Todos os seus habitantes nascem com a capacidade de voar graças à absorção de energia solar.
  Filha do meio dos monarcas Myander e Luander, a princesa Koriander cresceu feliz e despreocupada. Tudo mudou, porém, quando foi chamada a substituir a sua irmã mais velha na linha de sucessão ao trono. Por causa de uma rara deficiência contraída na infância, Komander (vulgo Estrela Negra) perdeu a capacidade de voar, sendo, por isso, preterida no seu direito dinástico. Contrariedade que acirrou nela um profundo rancor em relação a Koriander.
   Quando as duas irmãs foram enviadas para treinar técnicas de combate corpo a corpo sob os auspícios dos mestres guerreiros de Okaara, Komander aproveitou um dos exercícios para tentar matar Koriander. Infâmia que teve como consequência a sua expulsão de Tamaran. Antes, porém, da sua partida para o exílio, Komander jurou vingança.

Komander, a malévola irmã de Koriander, 
também conhecida como Estrela Negra.

    Promessa que ganharia expressão pouco tempo depois, quando Komander forneceu informações detalhadas acerca do sistema de defesa de Tamaran aos seus arqui-inimigos da Cidadela.
   Após a capitulação de Tamaran, a princesa Koriander foi entregue pela sua irmã mais velha como escrava, servindo assim de moeda de troca para impedir a destruição do planeta. No armistício que o Rei Myander foi obrigado a celebrar com a Cidadela, incluía-se uma cláusula que proibia o regresso de Koriander a Tamaran, sob pena de desencadear novo conflito entre os dois mundos.
   Tratada como uma mercadoria, Koriander passou por vários pontos da galáxia ao longo dos anos seguintes. Anos marcados pela servidão e por todo o tipo de abusos que a mudariam para sempre.
   Quando Koriander tirou a vida a um dos seus algozes, Komander resolveu executá-la pessoalmente. No entanto, ambas foram atacadas e sequestradas pelos Psions, uma raça alienígena de cientistas sádicos, especializados em bioengenharia.
  Submetidas a sinistros experimentos científicos, as duas irmãs conseguiram escapar devido à distração causada pelo ataque das forças de Komander à base dos Psions. Usando a sua recém-adquirida capacidade de disparar rajadas energéticas, Koriander libertou Komander, que ainda estava a absorver energia. Gesto compassivo que a vilã retribuiu usando as suas novas habilidades (idênticas às de Koriander, porém mais potentes) para subjugar a irmã.
   O calvário da princesa só chegaria ao fim quando conseguiu escapar do seu cativeiro a bordo de uma espaçonave roubada. Perseguida por caças da Cidadela, Koriander entrou na órbita da Terra, onde foi recapturada. Sendo, porém, prontamente libertada graças à intervenção dos Titãs, equipa de jovens super-heróis liderada por Robin (Dick Grayson). Por quem Koriander se enamorou desde o primeiro momento em que o viu, embora essa paixão assolapada tenha demorado a ser correspondida pelo antigo Menino-Prodígio.

Jogos mortais entre irmãs nas páginas de The New Teen Titans nº23 (1982).

  Verdadeira refugiada das estrelas, impedida de regressar ao seu mundo natal, Koriander fez da Terra o seu lar adotivo e, sob o codinome Estelar, juntou-se aos Novos Titãs. Ao lado dos quais viveu inúmeras aventuras e desventuras, encontrando em Donna Troy (a Moça-Maravilha) uma irmã afetiva.
  Por conta dos seus impressionantes atributos físicos, Koriander chegou a trabalhar algum tempo como modelo fotográfico, usando o pseudónimo Kory Anders, ao mesmo tempo que dividia um apartamento com Ravena e Donna Troy.

Com os Novos Titãs, Estelar viveu dias felizes na Terra.

   À semelhança da maioria das personagens que compõem o Universo DC, Estelar teve a sua história reescrita em Os Novos 52. Na nova versão da sua origem, as manas Koriander e Komander eram inseparáveis até ao dia em que viram os seus pais serem mortos e o seu planeta devastado pela Cidadela. Entronizada com apenas 14 anos, Komander teve de vender Koriander como escrava para manter a paz com os seus inimigos.
   Após vários anos de escravidão, Koriander conseguiu escapar e regressou a Tamaran. Com a ajuda de alguns antigos companheiros de cativeiro, libertou o seu mundo natal do jugo da Cidadela. Incapaz de perdoar a irmã pelas agruras sofridas, Koriander ofereceu-se para ser embaixadora do seu povo. Missão que serviu apenas de pretexto para uma solitária peregrinação sua pelos rincões da galáxia. Jornada interrompida quando a nave em que seguia se despenhou na Terra.
  Agora conhecida como Estelar (e com um visual remodelado), Koriander envolveu-se romanticamente com Dick Grayson. Quando, por motivos ainda por explicar, o casal se separou, Estelar isolou-se numa ilha tropical. Foi lá que conheceu Jason Todd (o Capuz Vermelho), com quem fundaria os Renegados. Aparentemente, as suas memórias dos Novos Titãs foram totalmente apagadas.

O novo figurino de Estelar em Os Novos 52.
 

Relacionamentos amorosos: Enquanto membro dos Novos Titãs, Koriander viveu um tórrido romance com o líder da equipa (Dick Grayson, o Asa Noturna), de quem chegou a ficar noiva. Quando os dois pombinhos resolveram dar o nó, tiveram a cerimónia de casamento arruinada por Ravena, que matou o padre antes que este pudesse declará-los marido e mulher.
   No entanto, Koriander já foi casada duas vezes, ambas em Tamaran. O primeiro enlace (com o Príncipe Karras) precedeu a sua vinda para a Terra e serviu para selar um tratado de paz. Karras morreria pouco tempo depois em combate, deixando Koriander precocemente viúva.
   Anos depois, após a sua separação de Dick Grayson, a heroína alienígena foi obrigada a desposar o impiedoso General Phy'zzon. União sem amor que terminou abruptamente com a morte de Phy'zzon às mãos do Devorador de Sóis.
   Em tempos mais recentes, Estelar teve um affair inconsequente com o Capitão Cometa, cujos  fortes sentimentos por ela nunca foram correspondidos.

Asa Noturna e Estelar: amor interespécies.

Nota adicional: Pese embora a inclusão de Estelar nos cânones da DC remonte ao período que precedeu Crise nas Infinitas Terras, a sua existência permaneceu intacta na nova continuidade da editora. Não obstante, alguns elementos da história da personagem foram alterados ou removidos, devendo, por isso, ser considerados apócrifos.

Estelar, princesa e guerreira de um mundo distante.

Noutros media: Na lista dos 25 maiores heróis do Universo DC, elaborada em 2013 pelo IGN, Estelar ocupava a 21ª posição. Nesse mesmo ano, a curvilínea princesa de Tamaran foi eleita pelo Comics Buyer's Guide como a vigésima mulher mais sensual dos quadradinhos, num universo de cem candidatas.
  Ainda com reduzida expressão no panorama audiovisual, a estreia televisiva de Estelar verificou-se em 2003, ano em que foi para o ar a primeira de cinco temporadas da série animada Teen Titans. Sempre com papel de relevo, a heroína marcaria depois presença em New Teen Titans (2011-14) e em Teen Titans Go! (2013-15).
  Após várias participações irrisórias em filmes de animação baseados na mitologia da DC, Estelar estará finalmente em primeiro plano em Justice League versus Teen Titans, com data de lançamento prevista para 29 deste mês. Segundo consta, Koriander será retratada como o membro mais velho dos Novos Titãs e líder do grupo.

Longe da sensualidade que sempre foi a sua imagem de marca,
 Estelar surgiu assim retratada em Teen Titans.



18 fevereiro 2016

RETROSPETIVA: «DREDD»




    Pela segunda vez, o mais implacável dos Juízes de Mega City 1 voltou ao  grande ecrã para aplicar a sua lei. Contudo, apesar do veredito favorável do público, foi sumariamente condenado pelo tribunal das bilheteiras. Sem direito a recurso ou a sequela, tornou-se um filme de culto enquanto aguarda pelo julgamento da História.

Título original: Dredd
Ano: 2012
País: Reino Unido / África do Sul
Género: Ação/Aventura/Ficção Científica
Duração: 95 minutos
Produção: DNA Films, IM Global e Reliance Entertainment
Realização: Pete Travis
Argumento: Alex Garland
Distribuição: Liongate e Entertainment Film Distributors 
Elenco: Karl Urban (Juiz Dredd); Olivia Thirlby (Juíza Cassandra Anderson); Lena Headey (Madeline "Ma-Ma" Madrigal) e Wood Harris  (Kay)
Orçamento: 45 milhões de dólares
Receitas: 41,5 milhões de dólares

Outro dos pósteres promocionais de Dredd.

Desenvolvimento: Apesar do argumentista Alex Garland ter começado a trabalhar no enredo em meados de 2006, só dois anos depois foi anunciado oficialmente o desenvolvimento de uma nova longa-metragem baseada no taciturno universo do anti-herói criado em 1977 por John Wagner e Carlos Ezquerra. Projeto que seria produzido pelo estúdio britânico DNA Films, em parceria com a agência de marketing norte-americana IM Global.
  Em maio de 2010, a Reliance Big Pictures (proprietária da IM Global) concordou em cofinanciar a produção em 3D orçamentada em 45 milhões de dólares. Joanesburgo, na África do Sul, foi o local escolhido para acolher as filmagens, a terem início antes do final desse mesmo ano.
  Depois de Duncan Jones ter recusado dirigir o filme, Pete Travis foi o escolhido para ocupar a cadeira de realizador. Numa entrevista concedida ainda antes do arranque das filmagens, o cineasta inglês falou sobre a sua visão pouco convencional do projeto. Descrevendo-a como bizarra, negra e divertida, reconheceu, no entanto, que talvez não casasse bem com o enredo produzido por Garland.
  Um mês antes de ter sido divulgado o título do filme (setembro de 2010), Karl Urban havia já sido oficialmente confirmado no papel principal. Seguindo-se o anúncio de que a atriz Olivia Thirlby interpretaria Cassandra Anderson, a parceira precognitiva de Dredd.

Alex Garland (esq.) e Pete Travis deram um novo elã a Dredd no cinema.

  Na edição desse ano do Festival de Cinema de Toronto, Dredd arrecadou 30 milhões de dólares em pré-vendas a distribuidores que representavam 90% do mercado cinematográfico. Montante no qual se incluíam os 7 milhões de dólares referentes ao negócio efetuado com a distribuidora britânica Entertainment Film Distributors. Quanto à distribuição nos EUA, seria assegurada pela Lions Gate Entertainment.
  Em janeiro de 2011, Lena Headey juntou-se ao elenco para vestir a pele da má da fita, uma impiedosa rainha do narcotráfico afetuosamente apelidada de Ma-Ma pelos seus súbditos. Mais ou menos na mesma altura, John Wagner - um dos criadores do Juiz Dredd - foi contratado como consultor criativo. A quem coube, também, anunciar que Dredd era uma nova adaptação da personagem ao grande ecrã, e não um remake de Judge Dredd (película de 1995 com Sylvester Stallone como cabeça de cartaz).
  Com um orçamento de 45 milhões de dólares, o projeto começaria a ganhar forma e substância em novembro de 2010, data em que principiaram as filmagens. Com as metrópoles sul-africanas Joanesburgo e Cidade do Cabo a servirem de cenário, estas prolongaram-se durante cerca de 13 meses.

Karl Urban e Olivia Thirlby com Alex Garland numa ação promocional de Dredd.    

Enredo: Num futuro distópico, tudo o que resta do território em tempos ocupado pelos EUA é um vastíssimo deserto radioativo sugestivamente batizado de Terra Amaldiçoada. Localizada na antiga Costa Leste, Mega City 1 é uma violenta megalópole com 800 milhões de habitantes e um rácio diário de 17 mil crimes.
   Em meio à anarquia quotidiana, os Juízes são os únicos a manter a ordem. Cada um desses agentes da Lei age simultaneamente como juiz, júri e executor. Entre eles, o mais severo é Dredd, que é designado pelo seu comandante para avaliar o desempenho de uma jovem recruta. Dotada de talentos psíquicos, Cassandra Anderson reprovara, todavia, nos testes de aptidão para Juiz.
   Apesar da renitência em aceitar a missão de supervisionar uma novata, Dredd não tem outro remédio senão acatar a ordem do seu superior.
  Em Peach Trees, um gigantesco complexo habitacional ocupado por um exército de párias e delinquentes, é a rainha do narcotráfico Madeline "Ma-Ma" Madrigal quem impõe a sua própria lei. Três pequenos traficantes que haviam ousado roubá-la são esfolados vivos, infundidos com Slo-Mo (droga altamente aditiva que diminui a perceção temporal do consumidor a 1% do normal) e atirados do alto de uma torre.

Ma-Ma, uma mulher de armas.

  Destacados para investigar o crime, ao chegarem ao local Dredd e Anderson intercetam um dos lugares-tenentes de Ma-Ma chamado Kay. Uma sondagem telepática efetuada pela rapariga revela que foi ele um dos autores da matança.
   A partir da sala de comando da torre, Ma-Ma observa atentamente as movimentações do casal de Juízes. Quando Dredd prende Kay e se prepara para levá-lo para interrogatório, a vilã aciona as blindagens antibomba, selando automaticamente todas as entradas e saídas do edifício. Ordenando, de seguida, aos seus homens que matem os Juízes.
   Encurralados nos labirínticos corredores do edifício, Dredd e Anderson veem-se obrigados a abrir caminho por entre dezenas de meliantes armados até aos dentes. Ao chegarem ao 76º andar, os dois Juízes são atacados com metralhadoras pesadas, cujas balas conseguem perfurar as paredes, causando assim a morte a dezenas de residentes.
   Enquanto Dredd chama reforços, Ma-Ma envia Caleb - outro dos seus lugares-tenentes- no encalço dos Juízes. Quando, por fim, ele os encontra, envolve-se numa violenta luta corpo a corpo com Dredd. Petrificada, Ma-Ma vê o Juiz empurrar Caleb para a morte.
  Convicto de que Ma-Ma está desesperada por silenciar Kay, Dredd espanca-o para lhe arrancar informações. Após insistência de Anderson, Dredd permite que a rapariga sonde a mente de Kay. É assim que ficam a saber que Ma-Ma fez de Peach Trees o seu centro de produção e distribuição de Slo-Mo.
   Anderson sugere que se mantenham escondidos até a ajuda chegar, mas Dredd resolve ir no encalço de Ma-Ma.
  Enquanto isso, dois Juízes respondem ao chamado de Dredd, mas são convencidos pelo perito informático de Ma-Ma de que as portas não podem ser abertas devido a uma avaria no sistema de segurança da torre.
   Vários andares acima, Dredd e Anderson são emboscados por um bando de adolescentes armados. Depois de desarmar Anderson, Kay fá-la refém, fugindo com ela para o esconderijo de Ma-Ma, localizado no cimo da torre.

Cassandra Anderson feita refém pelos homens de Ma-Ma.  

   Com Dredd a aproximar-se perigosamente, Ma-Ma convoca os Juízes corruptos Lex, Kaplan, Chan e Alvarez, a quem é permitida a entrada no edifício. Quando Dredd dá de caras com Chan, suspeita da atitude do colega por este não o questionar acerca do paradeiro de Anderson. Desmascarado, Chan ataca Dredd mas acaba morto por este.
    Kay, entretanto, tenta executar Anderson com a sua própria arma. Ao não reconhecer o ADN do seu usuário, a Lawgiver explode, decepando o braço do patife. Em fuga, Anderson depara-se com Kaplan, que prontamente liquida depois ter ficado a conhecer as intenções do colega por via de uma sondagem mental.
    Noutro local, também Alvarez é abatido por Dredd, que fica no entanto sem munição. Contrariedade de que Lex não hesita em tirar vantagem, ao alvejar o seu camarada de armas no abdómen. À mercê de Lex, Dredd consegue ainda assim empatá-lo tempo suficiente para que Anderson chegue ao local e mate o Juiz traidor.
    Após extorquirem o código de acesso ao apartamento de Ma-Ma ao seu perito informático, Dredd e Anderson vão até lá para confrontá-la. Acuada, a vilã exibe aos Juízes um dispositivo no seu pulso que deteta o seu batimento cardíaco. Caso este cesse, serão acionadas automaticamente cargas explosivas plantadas nos andares superiores da torre, provocando dessa forma o seu desabamento.
   Dredd deduz que o sinal do dispositivo não será capaz de acionar os explosivos a grande distância e, por isso, obriga Ma-Ma a inalar Slo-Mo antes de atirá-la para o pátio, numa queda de centenas de metros.
   Quando o casal de Juízes consegue finalmente abandonar Peach Trees, Anderson reconhece ter falhado no teste de campo ao permitir que Kay a desarmasse. Depois de ela se afastar, o Juiz-Chefe questiona Dredd sobre o desempenho da recruta. Dredd responde que a  jovem está apta a assumir as funções de Juíza.

Trailer:



Curiosidades:

* Fiel à banda desenhada original - e por oposição ao primeiro filme -, em momento algum da história Dredd remove o capacete;
* Tanto na sala de aula como no centro comercial instalados em Peach Trees é possível ver o novo estandarte dos EUA, o qual conta agora com somente 6 estrelas (correspondendo às 6 megalópoles que formam o país naquele futuro distópico);
* Peach Trees, o gigantesco bloco de apartamentos que serve de cenário a grande parte da ação, foi assim batizado em homenagem ao restaurante em que Alex Garland e John Wagner se reuniram pela primeira vez para discutir o filme;
* Nas paredes grafitadas de Peach Trees é possível ver o nome de várias personagens proeminentes das histórias de Dredd, tais como Chopper e Kenny Who?;

Ninguém alguma vez viu o rosto de Dredd na BD.

* Para replicar as Lawgivers (as armas personalizadas portadas pelos Juízes), foram utilizadas pistolas Glock 17 modificadas, um dos modelos mais populares entre as forças de segurança de todo o mundo;
* No primeiro rascunho do argumento, a vilã Ma-Ma era retratada como uma anciã. Alex Garland foi, porém, convencido por Lena Headey a converter a vilã numa mulher de meia-idade com um profundo desprezo pelo sexo masculino;
* As Lawmasters eram motociclos verdadeiros e funcionais, conduzidos por atores (Karl Urban fez questão de conduzir a sua) e duplos durante as filmagens. Pneus maiores e chassis alongados foram algumas das alterações levadas a cabo nos modelos originais, visando emular os icónicos veículos de duas rodas em que os Juízes habitualmente se fazem transportar na BD;
* Karl Urban procurou mimetizar a voz sibilante e alguns dos trejeitos faciais de Clint Eastwood na sua interpretação de Dredd. Opção que nada teve de casual, uma vez que a personagem foi parcialmente decalcada do eficiente - porém, politicamente incorreto - protagonista de Dirty Harry, clássico da 7ª arte produzido em 1971;

Clint Eastwood em Dirty Harry.

* Na cena que precede a entrada de Dredd e Anderson em Peach Trees, todos os delitos em curso naquele momento em Mega City 1 são mostrados num painel de ecrãs de computador instalado no quartel-general dos Juízes. Para acorrer a um deles, é designado o Juiz Hershey, personagem de relevo em Judge Dredd (1995);
* Dredd tem precisamente a mesma duração (95 minutos) do seu antecessor, com a diferença de que a ação se desenrola num único dia;
* Mais sangrento do que o filme original, a contagem de corpos em Dredd ascende aos 102.

Dredd demonstra ter mira certeira.

Sequela?

  Atendendo à reação globalmente positiva do público e da crítica, muito se tem especulado nos últimos anos acerca de uma possível sequela de Dredd. À medida que o tempo vai passando, essa hipótese vai, contudo, ganhando contornos mais improváveis.
  Logo em junho de 2012 (um mês antes da estreia oficial de Dredd na San Diego Comic-Con), Alex Garland estimava que uma receita de bilheteira na ordem dos 50 milhões de dólares viabilizaria a produção de um segundo filme. Anunciando de caminho que tinha planos ainda para um terceiro.
  De acordo com o argumentista de Dredd, o segundo capítulo da trilogia seria focado nas origens do protagonista e de Mega City 1. Ficando reservado para o terceiro filme o confronto de Dredd com os seus némesis Juiz Morte e os seus Juízes Negros (Judge Death e Dark Judges, no original).
  Confrontado com as fracas receitas de bilheteira (que não deram sequer para cobrir as despesas de produção), em agosto do mesmo ano Garland admitia já que o futuro do projeto poderia passar por uma série televisiva baseada no Juiz Dredd.
   Menos de um ano depois, em março de 2013, o produtor Adi Shankar afirmou publicamente que a produção de um segundo filme seria improvável. Declarações contraditadas meses depois por Karl Urban, que disse ainda acreditar nessa possibilidade.
  Tentando resolver o impasse, os fãs de Dredd lançaram uma petição no Facebook exigindo uma sequela. Iniciativa que levou a 2000 AD (licenciadora britânica detentora dos direitos da personagem) a associar-se à campanha, divulgando a petição na sua linha de títulos mensais. No espaço de poucas semanas, foram recolhidas mais de 80 mil assinaturas. Número que, ainda assim, não impressionou os produtores de Hollywood.
   Recusando-se a atirar a toalha ao chão - e crendo, porventura, que a sorte realmente sorri aos audazes - a 2000 AD divulgaria entretanto uma imagem promocional de Dredd 2, apontando setembro de 2013 como data de estreia. Aconteceu nas páginas de Judge Dredd Megazine  nº340, que chegaria às bancas precisamente nesse mês. Apesar da profecia não se ter realizado, os fãs mantiveram acesa a esperança quando, no início do ano seguinte, vieram a lume notícias dando conta de contactos exploratórios mantidos entre Alex Garland e um estúdio de cinema. Esperanças que cairiam definitivamente por terra em março de 2015, quando o mesmo Garland anunciou não ser possível a realização de uma sequência direta de Dredd num futuro próximo; menos ainda com a equipa responsável pela produção do primeiro filme.

Quadrinização de uma sequela que nunca viu a luz do dia
em Judge Dredd Megazine nº340 (2013).
Veredito: 73%

   Mesmo não tendo qualquer ligação com o filme de 1995, são inevitáveis as comparações entre Dredd e o seu antecessor. Podendo afirmar-se com justeza que o reboot bate aos pontos a película original.
  Desde logo porque estamos em presença de uma adaptação mais fidedigna do conceito primordial. Não apenas porque, desta vez, o protagonista não passa dois terços da história com o rosto descoberto, mas, essencialmente, pelo registo mais violento que pauta a sua ação. Importa observar que Dredd é, em derradeira análise, um fascista com requintes de sadismo. Muito longe, portanto, do arquétipo heroico encarnado por Stallone em Judge Dredd. Carecendo, no entanto, ambas as versões do elemento satírico que configura uma das pedras de toque da BD em que se baseiam.
  Despretensioso e direcionado para um público adulto, Dredd inebria os espectadores com um tipo de violência gráfica a remeter para o universo dos jogos de vídeo. Levando ao limite a criatividade em 3D, as numerosas sequências de ação mais parecem painéis de quadradinhos a explodir no ecrã.
 Ao imitar os maneirismos de Clint Eastwood e falando apenas o estritamente necessário (por contraponto a um Stallone palavroso em Judge Dredd), Karl Urban capta eficazmente a essência da personagem a quem emprestou corpo e alma (mais corpo do que alma, convenhamos). Rubricando dessa forma uma interpretação consistente que, a espaços, não evita contudo ser ofuscada pela de Lena Headey, no papel da cruel Ma-Ma.
   Escrevi no início deste comentário que Dredd supera o seu antecessor em quase todos os quesitos. De facto, os cenários são a única exceção em que ele perde na comparação com o primeiro filme. Visualmente, Judge Dredd (cuja resenha já aqui publiquei) era bastante mais apelativo.  Quem não vibrou, por exemplo, com as suas feéricas panorâmicas aéreas de Mega City 1? Num flagrante contraste com a opção de confinar a quase totalidade da ação de Dredd no interior de um bloco de apartamentos. Circunstância que, por um lado, confere uma atmosfera claustrofóbica à narrativa e, por outro, cansa o espectador com o que parece ser a repetição incessante do mesmo corredor.
   Apesar do elevado potencial para uma sequela, Dredd, que caíra nas boas graças do júri composto pelo público e pela crítica, acabou ainda assim condenado ao degredo pelo impiedoso tribunal do deve e do haver. Resta-lhe gozar do seu estatuto de filme de culto enquanto espera que o tempo lhe faça justiça.

Stallone em Judge Dredd versus Karl Urban em Dredd:
qualquer semelhança será (ou não) mera coincidência.