25 fevereiro 2022

CLÁSSICOS DA 9ª ARTE: «A MORTE DO SUPER-HOMEM»



   Numa batalha épica ante um inimigo indestrutível, o Homem de Aço, confrontado com a sua finitude, lutou até ao último suspiro para salvar a Cidade do Amanhã e a indústria dos comics. À fria luz do crepúsculo da esperança, o mundo chorou a queda do seu maior herói e nada voltaria a ser como antes.

Título original: The Death of Superman
Editora: DC
País: Estados Unidos da América
Data de lançamento: Dezembro de 1992
Títulos abrangidos: Action Comics #684; Adventures of Superman #497; Justice League America #69; Superman Vol.2 #74-75; Superman: Man of Steel #18-19
Argumento: Dan Jurgens, Louise Simonson, Roger Stern e Jerry Ordway
Arte: Dan Jurgens, Jon Bogdanove, Jerry Ordway, Jackson Guice e Tom Grummett
Protagonistas: Super-Homem, Apocalypse, Liga da Justiça América (Máxima, Bloodwynd, Fogo, Gelo, Besouro Azul, Gladiador Dourado, Guy Gardner) e Lois Lane
Cenários: Ohio, Metrópolis e vários estados do Centro-Oeste americano
Edições em português: Com direito a uma providencial nota explicativa acerca de personagens e eventos ainda desconhecidos do público lusófono, em novembro de 1993, antecipando em quase um ano a sua cronologia do Último Filho de Krypton, a Abril brasileira lançou a primeira versão traduzida de A Morte do Super-Homem. Uma requintada antologia com papel de qualidade superior e capa em alto relevo e efeito metalizado. Além da saga completa, o kit de colecionador incluía ainda vários brindes: um fac-simile em formato americano do histórico Superman #75; um exemplar da revista Newstime com artigos e depoimentos relacionados com a queda do campeão de Metrópolis e um poster desenhado por Dan Jurgens retratando as exéquias do herói.
Coincidindo com o relançamento desse material (já sem os brindes) na outra margem do Atlântico, no verão de 1995, a Abril/Controljornal presenteou os leitores lusitanos com a primeira - e, até à data, única - versão da saga em português europeu.
Desde a viragem do século, A Morte do Super-Homem (entretanto renomeada A Morte do Superman) foi várias vezes republicada no Brasil, em diferentes formatos e sob a chancela alternada da Panini e da Eaglemoss. Remontando a 2016 a última revisitação deste clássico da 9ª Arte em terras de Vera Cruz.

A Abril divulgou amplamente a saga nas suas publicações.


Até que a morte nos separe

Os ventos de mudança que, no início da década de 90, sopravam na indústria dos quadradinhos americanos foram uma aragem de mau agoiro para o Homem de Aço. Ao acentuado decréscimo das vendas somava-se a sua impopularidade junto da nova safra de leitores, mais inclinados para os anti-heróis violentos e para as bad girls de anatomia impossível que editoras como a Image Comics lançavam em barda. Aos olhos da chamada Geração MTV, o Super-Homem era uma personagem chata e ultrapassada.
Esse fastio em relação ao primeiro dos super-heróis modernos não era, porém, exclusivo dos mais jovens. Desde a partida de John Byrne, em 1988, eram cada vez menos os fãs da velha guarda a interessarem-se pelas histórias do Super-Homem. Por aqueles dias, o grande desafio consistia em restaurar o apelo da personagem sem a descaracterizar.
Às quatro revistas mensais do Homem de Aço - Action Comics, Adventures of Superman, Superman e Superman: Man of Steel - correspondiam outras tantas equipas criativas, totalizando mais de uma vintena de profissionais. Apesar da competente coordenação levada a cabo por Mike Carlin, editor da linha de publicações do Super-Homem, manter a consistência da continuidade afigurava-se tarefa complicada. A solução encontrada passou pela organização periódica de cimeiras para definir um plano anual de histórias interligadas.

Spawn (Image) foi um dos anti-heróis
mais populares dos anos 1990.

Ainda que bastas vezes disfuncionais, essas reuniões eram a única forma de obrigar os argumentistas a discutirem ideias entre si. Quando estas escasseavam, Jerry Ordway, à época ilustrador de Adventures of Superman, costumava sugerir, em tom de brincadeira, que se matasse simplesmente o Homem de Aço. Chalaça que, invariavelmente, arrancava risadas aos presentes.
Ao fim de longos meses a aumentar a tensão romântica entre Clark Kent e Lois Lane - culminando na revelação da identidade secreta do Super-Homem à sua cara-metade - foi consensualizado, numa cimeira, realizada em finais de 1991, que o casamento do casal seria o passo lógico seguinte. Com vista a reforçar o simbolismo do enlace, ficou igualmente estabelecido que este teria lugar em Adventures of Superman #500, com lançamento programado para junho de 1993.
Enquanto as equipas criativas metiam mãos à obra, a Warner Bros., empresa-mãe da DC Comics, iniciou o desenvolvimento de uma nova série televisiva do Super-Homem. Numa daquelas coincidências cósmicas que mudam as agulhas do destino, Lois & Clark: The New Adventures of Superman apresentaria o casamento do casal protagonista.
Embora os eventos da série não se desenrolassem na mesma continuidade dos quadradinhos, a Warner queria que a mitologia do Super-Homem permanecesse consistente em todos os meios de comunicação. Em razão dessa exigência, o casamento de Clark e Lois no universo canónico foi adiado sine die (só em 1996 a união seria consumada).

A nova série televisiva do Homem de Aço
 levou ao adiamento do seu casamento nos comics.

Sem tempo para elaborar novo plano editorial, o recurso ao improviso foi inevitável. Numa cimeira convocada de emergência, Jerry Ordway fez a sua piada habitual para desanuviar o ambiente. Mas, para seu espanto, desta vez ninguém se riu.
Pela primeira vez, a ideia de matar um dos mais amados ícones culturais do século XX não soou absurda. Com o aval da presidente-executiva da DC e o beneplácito do próprio Jerry Siegel, Mike Carlin deu luz verde ao projeto. Jerry Ordway nem queria acreditar no que estava a acontecer.
Em 2006, no documentário Look, Up in the Sky: The Amazing Story of Superman, Carlin explicou que, ao fim de mais de meio século de publicação ininterrupta, as pessoas davam o Super-Homem por garantido. A intenção de matá-lo era, portanto, mostrar como seria o mundo sem o seu maior herói. Enfatizando, desse modo, a sua importância e significado.
Por se tratarem de dois marcos históricos no longo percurso editorial do Homem de Aço, o plano inicial - revisto para não defraudar os leitores e capitalizar a saga - estabelecia que o herói fosse morto em Superman #75 (dezembro de 1992) e ressuscitado em Adventures of Superman #500 (junho de 1993). De permeio, haveria um interregno de dois meses na publicação de todos os títulos do Super-Homem, para criar a ilusão de que a sua morte era definitiva. Uma jogada arriscada que, no entanto, obteve o resultado desejado.

Jerry Ordway fez uma piada mortal.

No momento de decidir quem seria o carrasco do Último Filho de Krypton, os argumentistas descartaram os seus inimigos tradicionais, considerados demasiado dependentes da tecnologia e do intelecto. Recorrer à kryptonita era igualmente um cliché a evitar. Assim sendo, concordaram na criação de um novo oponente, capaz de sobrepujar fisicamente o herói. O mito da invencibilidade do Homem de Aço tinha os dias contados.
Mike Carlin queria que o novo vilão tivesse uma aparência distinta. Nesse sentido, pediu uma proposta visual a cada um dos artistas envolvidos no projeto. A abominação coriácea com excrescências ósseas a rasgarem-lhe a pele (espécie de Hulk com fraturas expostas) imaginada por Dan Jurgens foi o candidato escolhido. Sugestivamente batizado de Doomsday (renomeado Apocalypse no Brasil, para diferenciá-lo do vilão homónimo dos X-Men), o monstro fez a sua primeira aparição em Superman: Man of Steel #17 (novembro de 1992). No final da história dessa edição, um painel mostrava o seu punho a esmurrar repetidamente uma parede.

Doomsday foi criado por Dan Jurgens a partir de um monstro
 previamente rejeitado por Mike Carlin.

Assim que surgiram as primeiras notícias acerca dos planos da DC para matar o Super-Homem, a saga atraiu uma atenção mediática sem precedentes. Durante semanas, a morte do Homem de Aço recebeu amplo destaque na imprensa nacional e estrangeira, e foi tema de conversa em talk-shows transmitidos em horário nobre. 
Procurando tirar o maior proveito possível da bolha especulativa dos comics - que, por aqueles dias, atingira o seu auge -  além da edição regular de Superman #75 foram lançadas edições de colecionador, e um volume encadernado da saga foi posto à venda a tempo do Natal de 1992. Em resultado dessa estratégia agressiva por parte da DC, muitas pessoas compraram vários exemplares de Superman #75, na expectativa (frustrada) de uma alta valorização da revista.
Todo o frenesim mediático em torno da morte do Super-Homem, aliado ao fenómeno especulativo, fez da saga o bestseller de 1992 (mais de 6 milhões de cópias vendidas) e garantiu um significativo encaixe financeiro à DC (que, desde a década anterior, rodopiava no ralo da falência). O retumbante sucesso de A Morte do Super-Homem teve ainda o condão de guindar o novato Dan Jurgens ao estrelato.
Ironicamente, Jurgens e restantes escribas consideraram mais difícil reviver o Homem de Aço do que matá-lo. Mas isso, caro leitor, será assunto para outro artigo...

A morte do Super-Homem teve grande ressonância mediática.


Martírio em Metrópolis

No que aparenta ser uma câmara subterrânea, um enorme punho enluvado golpeia violenta e incessantemente uma parede blindada. Uma vez chegada à superfície, a criatura, enfiada num traje de contenção, esmaga um passarinho que lhe pousa na mão e parte o pescoço a um gamo. A morte personificada caminha, livre, sobre a Terra.
Em Metrópolis, o Super-Homem, com a ajuda de Lois Lane, frustra os planos de vingança dos disformes habitantes do Mundo Subterrâneo. Apenas mais um dia igual a tantos outros na vida do Último Filho de Krypton.

A primeira vítima mortal de Apocalypse.

Após ser informada do alvoroço causado por um monstro no Ohio, a secção americana da Liga da Justiça Internacional acorre ao local. No entanto, o que se prefigurava uma operação rotineira descamba rapidamente num massacre. Com uma mão amarrada atrás das costas, a criatura trucida a equipa em questão de minutos, deixando o Besouro Azul em estado crítico e os restantes membros aturdidos e maltratados.
Alheio a tudo isto, o Homem de Aço participa no talk-show de Cat Grant. Enquanto se prepara para responder a mais uma pergunta do auditório, o herói é informado da situação no Ohio, abandonando de imediato o programa. Há um novo trabalho para o Super-Homem!
No Ohio, o Super-Homem depara-se com um autêntico cenário de guerra: explosões, incêndios e dezenas de baixas civis. Ainda mal refeito do ataque que quase lhe custou a vida, o Gladiador Dourado compara o monstro a uma besta do Apocalipse e jura nunca ter visto nada igual. Pouco impressionado, o Homem de Aço propõe-se barrar o caminho à criatura, apenas para ser violentamente pontapeado por ela.
A Liga da Justiça tenta, então, flanquear Apocalypse. Mas todo o poder de fogo do grupo consegue apenas rasgar o traje de contenção do monstro, revelando a sua aparência hedionda. Liberto de restrições, Apocalypse investe furiosamente sobre os heróis, atropelando-os como se de bonecos se tratassem.

Mesmo com a ajuda do Super-Homem, a Liga da Justiça
 foi incapaz de travar a selvajaria de Apocalypse.

No encalço de Apocalypse, o Super-Homem, após breve hesitação, é obrigado a deixá-lo escapar, para resgatar uma família presa na sua casa em chamas. Em meio à mortandade, o herói distribui sentenças de vida.
Imparável na sua senda de destruição irracional, Apocalypse semeia terror e morte à sua passagem pelo Centro-Oeste. Nem mesmo dois helicópteros Apache conseguem retardar-lhe o avanço. Os aparelhos são facilmente destruídos pelo monstro.
Enquanto o Super-Homem se desdobra em salvamentos, Apocalypse toma inesperadamente a direção de Metrópolis. Na Torre Lex, Luthor (na verdade, um clone ruivo do original) demove a Supergirl (na verdade, uma transmorfa chamada Matriz) de ir em socorro do Homem de Aço. No Daily Planet, Lois Lane convence Jimmy Olsen a acompanhá-la na cobertura jornalística da batalha do século. 
Com a contenda entre os dois titãs a ser transmitida em rede nacional, em Smallville os Kents assistem, de coração pesado, aos desesperados esforços do filho para deter um inimigo aparentemente indestrutível. Resta-lhes apenas rezar para que o pior não aconteça.
Uma após outra, as linhas defensivas de Metrópolis vão sendo derrubadas como peças de dominó: a Unidade de Crimes Especiais, a Equipa Luthor e até a Supergirl falham em conter o avanço de Apocalypse. Mais uma vez, o destino da Cidade do Amanhã depende apenas da bravura do seu campeão.
Como dois pugilistas feridos e exaustos, Super-Homem e Apocalypse digladiam-se diante do Daily Planet. As ondas de choque resultantes dos impactos estilhaçam os vidros dos edifícios circundantes. Agindo por puro instinto, o Homem de Aço desfere um golpe fatal no seu oponente, recebendo outro em troca. Ambos tombam, por fim, sob um céu pesaroso.

O trágico culminar de um confronto titânico.

Nos braços da sua amada, o salvador de Metrópolis exala o seu derradeiro suspiro. A sua capa esfarrapada, qual bandeira do martírio, drapeja entre os destroços da batalha. Somente os lamentos de Lois Lane rompem o silêncio fúnebre que se abateu sobre as ruas. Incrédulo e impotente, o mundo testemunha o penoso ocaso do seu maior herói. O Super-Homem está morto e nada voltará a ser como antes.

A morte de uma lenda.

Apontamentos

*Apesar de ter sido, de longe, a mais impactante, A Morte do Super-Homem não foi a primeira história a glosar o sacrifício supremo do maior dos heróis. Em 1961, Jerry Siegel escrevera The Secret Death of Superman. Dada à estampa em Superman Vol.1 #149, a história, desenhada por Curt Swan, mostrava como o Homem de Aço sucumbia ao envenenamento por kryptonita, numa diabólica maquinação orquestrada por Lex Luthor. Porquanto o herói permanecia morto no final, a solução passou por transformá-la num conto imaginário. Um quarto de século volvido, foi essa a fonte de inspiração de Alan Moore para escrever O Que Aconteceu ao Homem de Aço? (já aqui revisitada);
*A ideia de usar um efeito sonoro em crescendo de intensidade à medida que Apocalypse golpeava a parede da sua prisão subterrânea foi retirada de uma história de Thor, da lavra de Walter Simonson ( marido de Louise Simonson). Nela, a onomatopeia "DOOM!" pretendia mostrar o iminente advento de Surtur, o arauto do Ragnarok (equivalente nórdico do Juízo Final);

Sons do Apocalipse.

*As quatro edições que retratam o mano a mano entre Super-Homem e Apocalypse contêm uma contagem regressiva de painéis: Adventures of Superman #19 tem 4 painéis por página; Action Comics #684 três; Superman: The Man of Steel #19 duas e Superman #75 é composta exclusivamente por splash pages. Tratou-se de um artifício visual concebido por Brett Breeding, um dos arte-finalistas da saga, com o intuito de aumentar o suspense e a velocidade da ação;
*Depois de, numa entrevista, Mike Carlin ter comparado Apocalypse a um fugitivo de um manicómio cósmico, choveram críticas dos grupos de defesa das pessoas com perturbações mentais. A polémica prolongou-se durante várias semanas, concitando ainda mais atenção mediática para a saga;
*Consoante a batalha contra Apocalypse vai aumentando de ferocidade, o uniforme do Super-Homem vai ficando cada vez mais esfarrapado. Nas cenas finais, o herói exibe mesmo o torso desnudo e ensanguentado. À época, a invulnerabilidade do Homem de Aço era atribuída a uma aura invisível que lhe rodeava o corpo. O traje rasgado e os ferimentos indicavam, portanto, que essa sua aura protetora era incapaz de suster os golpes do seu adversário;
*Na esteira de A Morte do Super-Homem, a Warner Bros. adquiriu os direitos para produzir um filme baseado na saga. Os executivos do estúdio acreditavam ser essa a chave para revitalizar a franquia cinematográfica do Homem de Aço, após o fiasco de Superman IV (1987). Nenhum dos projetos apresentados saiu, no entanto, do fundo da gaveta. Apenas em 2016 o martírio do Super-Homem seria referenciado no cinema, no clímax de Batman versus Superman: Dawn of Justice;

Poster promocional de um dos filmes
que pretendia adaptar a morte do Super-Homem ao grande ecrã.

*Do conjunto de brindes que, nos EUA, acompanhavam a edição especial da saga faziam parte um poster, autocolantes e uma braçadeira preta com o símbolo do herói estampado. Jay Leno usou uma durante o episódio do seu Tonight Show dedicado à morte do Homem de Aço;
*A Morte do Super-Homem ocupa o 9º lugar na lista das 25 melhores histórias do Homem de Aço selecionadas, em 2013, pela plataforma de entretenimento IGN. Em 2020, outro site especializado, CBR, encerrou com ela o seu Top 10 das melhores histórias de sempre do Super-Homem;
*Reforçando o seu estatuto de clássico incontornável, A Morte do Super-Homem já foi adaptada a diferentes segmentos culturais. Logo após a conclusão da saga em terras do Tio Sam, Roger Stern assinou o romance The Death and Life of Superman. Em 2007, a Warner Bros. lançou Superman: Doomsday, filme animado cujo sucesso comercial inaugurou a linha DC Universe Animated Original Movies destinada ao circuito vídeo. Uma segunda adaptação animada, mais fiel ao material original, foi lançada em duas partes: Death of Superman (2018) e Reign of the Supermen (2019) incluem muitos dos momentos icónicos omissos em Superman: Doomsday.

Em 2018, a DC lançou nova versão animada de A Morte do Super-Homem.


Vale a pena ler?

Golpe publicitário ou obra capital da DC? Três décadas volvidas sobre a sua publicação, A Morte do Super-Homem continua a dividir opiniões.
Analisando a saga e a conjuntura que esteve na base da sua produção, assiste razão a quem sustenta que se tratou, em primeiro lugar, de uma ação de marketing. Alguns especialistas do ramo comparam-na mesmo com a New Coke, a tentativa fracassada, em 1985, da Coca-Cola agitar as águas e aumentar as vendas. Com a diferença que, no caso da DC, ambos os objetivos foram cumpridos.
Enquanto manobra económica, A Morte do Super-Homem foi um inegável sucesso. Não só alavancou as vendas dos títulos do Homem de Aço como colocou a indústria dos comics debaixo dos holofotes mediáticos. Em razão disso, também as editoras concorrentes saíram beneficiadas e muitos empregos foram salvaguardados. Mas a saga foi muito mais do que um mero golpe publicitário.
Do ponto de vista editorial, A Morte do Super-Homem firmou doutrina: nos anos imediatos, Batman ficaria preso a uma cadeira de rodas, o Lanterna Verde passaria para o lado negro da Força (por sinal, uma das ramificações desta saga), a Mulher-Maravilha perderia o título de campeã das Amazonas e até o Homem-Aranha atravessaria uma crise de identidade por causa de um clone.
Ninguém, em sã consciência, poderia contudo acreditar que a DC estaria disposta a abrir mão do seu principal ativo. Nos meandros da indústria, toda a gente sabia que o Super-Homem seria ressuscitado. A dúvida era quando e como. Claro que houve quem se sentisse defraudado com o regresso do herói, e que essa circunstância abriu uma caixa de Pandora. Com o passar dos anos, as mortes e ressurreições de personagens importantes tornaram-se corriqueiras, gerando um sentimento de indiferença nos fãs.
Mais do que uma simples personagem de banda desenhada, o Super-Homem é uma instituição cultural com alcance global. Por conseguinte, o seu desaparecimento - mesmo se temporário . basta para fazer de A Morte do Super-Homem um clássico monumental.
Um dos elementos mais controversos da saga é o próprio verdugo do herói. Visto por muitos como um dispositivo narrativo ambulante, Apocalypse é um monstro irracional surgido do nada. O facto de nada se saber acerca da sua origem (só anos mais tarde seria revelado que ele era, afinal, produto de experiências científicas kryptonianas objetivando a criação da forma de vida suprema) é, inquestionavelmente, uma das principais deficiências do enredo.
Filosoficamente, porém, Apocalypse é a antítese perfeita do Super-Homem. Ele representa tudo aquilo que o herói abomina: destruição sem sentido e ódio visceral à vida. A brutalidade da criatura é ilustrada na forma como mata tudo o que lhe surge pela frente. Em certa medida, Apocalypse é a representação antropomórfica da Idade das Trevas que, aos poucos, entenebrecia os comics
Mesmo transformada na crónica de uma morte anunciada, a história compensa a falta de suspense com a excelente caracterização do protagonista. A cena em que o Homem de Aço desiste de perseguir Apocalypse para salvar uma menina encurralada pelas chamas nada teria de extraordinário se ele não se debatesse momentaneamente com um dilema. Salvar centenas de vidas ou apenas uma? Em circunstâncias normais, o herói não teria hesitado em voltar para trás, mas a magnitude da ameaça representada por Apocalypse obriga-o a arrastar a decisão por longos segundos. E essa é apenas uma das muitas decisões difíceis que ele é chamado a tomar ao longo da saga.
Com efeito, A Morte do Super-Homem coloca em evidência o caráter e a bondade inata de Kal-El. Esse estranho visitante de outro mundo disposto a lutar até ao último suspiro pela Humanidade - que nem sempre o apreciou devidamente.
Do mesmo modo que nem todos os fãs apreciaram A Morte do Super-Homem. No entanto, a despeito das suas imperfeições, a saga foi um momento definidor na história do Homem de Aço e, em sentido mais lato, na história dos comics. Não foi a morte que muitos gostariam de ter lido, mas nada conseguirá apagar essa dolorosa memória do imaginário coletivo.
Mais que não seja, pelo fortíssimo impacto cultural e económico que teve em toda uma geração de leitores e criadores, A Morte do Super-Homem merece ser celebrada como obra capital, não apenas da Editora das Lendas, mas de toda a 9ª Arte.
 
Há 30 anos, a morte do Super-Homem abalou a indústria dos comics e o mundo.


*Este blogue tem como Guia de Estilo o Acordo Ortográfico de 1990 aplicado à norma europeia da Língua Portuguesa.
*Artigos sobre Super-Homem e Dan Jurgens disponíveis para leitura complementar.

27 janeiro 2022

RETROSPETIVA: «SUPERMAN»



  Qual messias das estrelas moldado pelos ensinamentos paternos, o Último Filho de Krypton foi enviado à Terra para guiar a Humanidade pelos caminhos da Verdade e da Justiça. Mas o Mal amparado pela escuridão tudo fará para extinguir a nova aurora de esperança. Haverá salvação sem o sacrifício do salvador?

Título original: Superman (estilizado Superman: The Movie, para efeitos promocionais)
Ano: 1978
País: EUA / Reino Unido
Duração: 143 minutos (versão clássica)
Género: Drama/ Ação / Fantasia / Super-heróis 
Produção: Pierre Spengler, Dovemead, Ltd. e Internacional Film Production
Realização:  Richard Donner
Argumento: Mario Puzo, David Newman, Leslie Newman e Robert Benton
Distribuição: Warner Bros. (EUA) e Columbia-Emi (Reino Unido)
Elenco: Christopher Reeve (Kal-El / Clark Kent / Super-Homem); Gene Hackman (Lex Luthor); Margot Kidder (Lois Lane); Marlon Brando (Jor-El); Susannah York (Lara); Glenn Ford (Jonathan Kent); Phyllis Thaxter (Martha Kent); Jackie Cooper (Perry White), Marc McClure (Jimmy Olsen); Ned Beatty (Otis); Valerie Perrine (Eve Teschmacher); Terence Stamp (General Zod); Sarah Douglas (Ursa); Jack O'Halloran (Non) 
Orçamento estimado: 55 milhões de dólares
Receitas globais: 300,4 milhões de dólares

Anatomia de um épico 

Embora a Warner Bros., por meio de uma série de fusões corporativas, tivesse adquirido a DC Comics em 1969, era praticamente nulo o interesse do estúdio em explorar o principal ativo da sua nova subsidiária. O projeto para uma longa-metragem baseada no Super-Homem começou a ganhar forma no final de 1974. Ano em que os produtores Ilya e Alexander Salkind, num empreendimento conjunto com o seu parceiro de longa data Pierre Spengler, garantiram os direitos da personagem. O negócio só foi no entanto possível mediante a total assunção dos custos de produção por parte dos Salkind. Uma jogada de altíssimo risco, para mais considerando a sua intenção de rodar uma sequela em simultâneo. Em caso de fracasso, o prejuízo seria duplicado.
Contactado por Ilya ao arrepio do pai, Alfred Bester, conceituado escritor de ficção científica, foi a primeira escolha para argumentista. Alexander preferia contudo um nome mais sonante para credibilizar a produção. Nesse sentido, contratou ninguém menos do que Mario Puzo, autor da saga O Padrinho. Os 600 mil dólares pagos pelos serviços plumitivos de Puzo foram o primeiro investimento avultado daquela que seria a mãe de todas as megaproduções hollywoodescas.

 Ilya e Alexander Salkind apostaram
 todas as fichas no Homem de Aço. 

Paralelamente, decorriam negociações com um naipe de cineastas consagrados. George Lucas, Steven Spielberg, Richard Lester (que dirigiria Superman II e Superman III) e Francis Ford Coppola foram alguns dos mestres da 7ª Arte abordados. Depois de Tubarão ter abocanhado as bilheteiras, a escolha acabou por incidir sobre Spielberg. Porém, o seu compromisso com outro projeto - Encontros Imediatos do Terceiro Grau - impediram-no de aceitar a oferta.
Guy Hamilton, veterano realizador britânico com vários capítulos da saga de 007 no currículo, foi o senhor que se seguiu. A sua contratação precedeu num par de semanas o anúncio de que Marlon Brando, após as recusas de Christopher Lee e Paul Newman, interpretaria Jor-El, a troco de 3,6 milhões de dólares e 11,75% das receitas brutas de bilheteira - cifras astronómicas que faziam dele o ator mais caro de sempre. Não obstante, Brando fez depender a sua participação na produção da condição de que todas as suas cenas fossem gravadas em doze dias.
Já com Gene Hackman confirmado no papel de Lex Luthor (rejeitado, entre outros, por Dustin Hoffman e Jack Nicholson), os Salkind contrataram Robert Benton e David Newman para reescrever o argumento de Puzo, considerado demasiado extenso. Brenton abraçaria entretanto outro desafio profissional, passando Newman a ser assessorado nessa tarefa pela sua esposa, Leslie.
Apesar de imbuído de uma sensibilidade moderna, o primeiro rascunho do casal Newman tinha um tom cómico, muito próximo do da série televisiva do Batman com Adam West. Enquanto os Salkind sopesavam os prós e os contras dessa abordagem mais ligeira, a produção sofreu o primeiro de muitos reveses. Guy Hamilton comunicou a sua saída, depois de tomar conhecimento de que parte das filmagens - originalmente programadas para Roma - iriam ter lugar em Terras de Sua Majestade. Onde Hamilton, por conta do seu estatuto de exilado fiscal, estava autorizado a permanecer apenas alguns dias.
Nesse mesmo dia, Alexander Salkind telefonou pessoalmente a Richard Donner, cujo último filme (The Omen) se transformara num clássico instantâneo do cinema de terror, oferecendo-lhe um milhão de dólares para ocupar a cadeira vaga de realizador. Donner aceitou, mas declarou-se descontente com o guião existente e fez da verosimilhança o princípio cardeal da sua abordagem. Em razão disso, o seu primeiro ato diretivo consistiu  na contratação de Tom Mankiewicz para reescrever o enredo. Apesar de o ter feito de forma substancial, Mankiewicz seria apenas creditado como consultor criativo, o que desgostou profundamente Donner.

Richard Donner trouxe uma nova visão ao projeto.

Antes de Donner subir ao leme do que parecia um navio a navegar à bolina, tinha sido definido que o papel principal seria entregue a um astro de primeira grandeza. Entre os candidatos mais cotados estavam Robert Redford, James Caan, Burt Reynolds, Warren Beatty e Nick Nolte. Ainda a usar a coroa de louros de Rocky Balboa, Sylvester Stallone manifestou grande interesse em emprestar o corpo ao Homem de Aço, mas o seu nome foi inapelavelmente vetado por Brando - a quem fora concedido poder decisório na escalação do elenco.
Donner, ao invés, preferia apostar num ator desconhecido para viver o Super-Homem. Segundo ele, isso faria com que o público visse o herói, e não o ator que lhe vestia a pele. Já com duas centenas de atores testados, a diretora de elenco, Lynn Stalmaster, sugeriu Christopher Reeve. Mais habituado a pisar os palcos do que a enfrentar as câmaras, Reeve era um ator teatral de apenas 26 anos, contratado para ler as falas de Clark Kent e do Super-Homem durante as audições para Lois Lane.
Apesar do seu 1,93m e do sorriso caloroso, Reeve era demasiado magro para o papel. Donner sugeriu-lhe então que usasse um traje com músculos falsos, mas o ator recusou, por considerar que isso seria desrespeitoso para a personagem. Em vez disso, submeteu-se a um rigoroso programa de preparação física ministrado por David Prowse (o fisiculturista que encarnou Darth Vader em Star Wars), que lhe acrescentou 13 kg de massa muscular em apenas três meses.
Pela sua participação em Superman e Superman II, Reeve recebeu uns módicos 150 mil dólares. Consciente da enorme discrepância salarial relativamente a Marlon Brando e Gene Hackman (cujos nomes, ademais, precederam o seu no genérico de abertura), ainda assim Reeve aceitou o papel, confiante de que ele lhe abriria muitas portas no futuro.

A incrível transformação física de Christopher Reeve
 para o papel que o imortalizaria.

Encontrado finalmente o protagonista que envergaria o manto sagrado, a fotografia principal daquele que muitos consideravam ser o filme do século - mais que não seja, pelo orçamento sem precedentes - começou em março de 1977, nos britânicos Pinewood Studios. A rodagem ficaria, todavia, marcada por atrasos (os 7 meses previstos quase foram multiplicados por 3), derrapagens orçamentais e tensões criativas entre Donner e os produtores - culminando no despedimento do realizador quando este já tinha filmado 75% de Superman II
Em virtude dos percalços e ânimos nublados, o lançamento de Superman - originalmente programado para junho de 1978, coincidindo com o 40º aniversário de Action Comics #1 - foi protelado para dezembro desse ano. Com a presença de Richard Donner e de vários representantes do elenco, a estreia teve lugar no Uptown Theater, em Washington D.C., e contou ainda com dois convidados especiais: Jerry Siegel e Joe Shuster, criadores do Super-Homem (que, ao que consta, ficaram maravilhados com o que viram).
Treze semanas consecutivas na liderança do box office fizeram de Superman o filme mais rentável de sempre da Warner Bros, - e, à época, o sexto mais rentável da história do cinema. Ao sucesso comercial somou o reconhecimento da crítica, materializado no Óscar especial para Melhores Efeitos Visuais e nas três indicações em outras tantas categorias técnicas: Melhor Edição. Melhor Banda Sonora e Melhor Som. Mas, acima de tudo, o filme marcou toda uma geração ao fazê-la acreditar que um homem podia voar.

Mais do que um slogan, "Você acreditará que um homem pode voar"
era um manifesto de verosimilhança.


Enredo

No moribundo planeta Krypton, tem lugar o julgamento de três criminosos acusados de sedição. Com base nas provas apresentadas por Jor-El, o Conselho condena-os, por unanimidade, ao exílio perpétuo na Zona Fantasma. A partida do General Zod e seus cúmplices para esse degredo incorpóreo é acompanhada por juras de vingança contra o seu carcereiro. 
A despeito de ser um dos mais prestigiados cientistas kryptonianos, Jor-El falha em persuadir os seus pares da iminente destruição do planeta. Segundo os seus cálculos, o cataclismo ocorrerá quando Rao, o sol vermelho em torno do qual Krypton orbita, se transformar numa supernova.
Depois de prometer que nem ele nem a sua esposa, Lara, abandonarão Krypton, Jor-El empreende os preparativos para salvar Kal-El, o único filho do casal. Apesar das reservas de Lara, o bebé é enviado para a Terra, onde a sua densa estrutura molecular combinada com a radiação de um sol amarelo lhe proporcionarão poderes divinos.
Tão-logo a nave é lançada, Rao entra em erupção e Krypton explode em mil pedaços. Num trágico instante, é extinta uma das mais avançadas civilizações do Universo.

Jor-El e Lara prestes a enviarem o filho para um mundo estranho.

Culminando uma longa jornada pelas estrelas, a nave contendo o Último Filho de Krypton despenha-se nos arredores de Smallville, Kansas. Kal-El é encontrado por Jonathan e Martha Kent, um humilde casal de agricultores que resolvem criá-lo como seu filho. Rapidamente percebem, no entanto, que o menino é especial, e Martha batiza-o de Clark, o seu apelido de solteira.
Aos 18 anos, logo após Jonathan Kent ter sucumbido a um ataque cardíaco fulminante, Clark ouve um chamado psíquico durante a noite. Ao raiar da alvorada, descobre um cristal brilhante entre os destroços da nave que o trouxera à Terra. Impelido por uma força misteriosa, o jovem viaja até ao Ártico, onde o cristal constrói uma estrutura alienígena. No interior da Fortaleza da Solidão, um holograma de Jor-El revela as verdadeiras origem e missão de Kal-El.
Ao longo dos 12 anos seguintes, Kal-El é moldado pelos ensinamentos paternos, aprendendo tudo sobre as culturas kryptoniana e terrestre, bem como sobre os seus poderes e responsabilidades para com a Humanidade - que Jor-El acredita possuir um grande potencial para o Bem. Terminada a sua educação, Kal-El abandona a Fortaleza da Solidão envergando um traje azul e vermelho adornado pelo brasão familiar da Casa de El. 
Em Metrópolis, Clark Kent consegue emprego como repórter do Daily Planet, o jornal mais importante da Cidade do Amanhã. Enquanto mantém o seu insuspeito disfarce, Clark desenvolve uma atração romântica, não correspondida, pela sua colega Lois Lane. Quando esta se envolve num aparatoso acidente de helicóptero em que os meios de resgate convencionais são inúteis, Clark é obrigado a usar pela primeira vez os seus poderes em público para salvá-la. 


Após o seu primeiro dia no Daily Planet,
 Clark Kent salva Lois Lane como Super-Homem.

Ainda nessa noite, a nova Maravilha de Metrópolis frustra um assalto, captura ladrões em fuga à polícia, resgata um gato do cimo de uma árvore e evita a queda do Força Aérea 1, depois de um dos motores da aeronave ter sido destruído por um relâmpago.
Com as proezas do misterioso homem voador a rondarem os noticiários internacionais, no dia seguinte Lois recebe uma nota anónima a combinar um encontro em sua casa nessa noite. Após conceder-lhe uma entrevista exclusiva, o herói leva Lois num passeio intimista pelos céus da cidade. Arrebatada pela experiência, a jornalista batiza-o de Super-Homem no seu artigo.
Enquanto isso, Lex Luthor, um génio do crime com um ego pantagruélico, gizou um audacioso golpe imobiliário que fará dele um dos homens mais ricos do mundo. O plano consiste em comprar grandes quantidades de terras desérticas a baixo preço antes de afundar a Costa Oeste, levando a uma enorme valorização das mesmas. Assistido por Otis e Eve Teschmacher, Luthor consegue sabotar o lançamento de dois mísseis termonucleares, redirecionando-os para a Falha de Santo André, na Califórnia. 
Ciente de que o Super-Homem poderia frustrar-lhe os planos, Luthor atrai-o até ao seu covil subterrâneo, onde o expõe a um fragmento de kryptonita. À medida que o herói enfraquece devido aos efeitos daquele pequeno resquício do seu planeta natal, Luthor informa-o de que o primeiro míssil é apenas um engodo. O seu verdadeiro alvo é Hackensack, na Nova Jérsia. Afinal, nem mesmo o Super-Homem consegue estar em dois lugares ao mesmo tempo.

Luthor descobriu a fraqueza mortal do Homem de Aço.

Eve Teschmacher fica horrorizada porque a sua mãe vive em Hackensack, mas Luthor não se importa e deixa o Super-Homem para uma morte lenta. Sabendo que o herói mantém sempre a sua palavra, a concubina de Luthor resgata-o da piscina onde ele se afogava, com a condição de ele neutralizar primeiro o míssil com destino a Nova Jérsia. 
Enquanto o Super-Homem interceta e desvia o primeiro míssil para o espaço sideral, o segundo explode nas proximidades da Falha de Santo André. Ato contínuo, sismos devastadores irrompem por toda a Califórnia. Num labor titânico, a evocar o próprio Atlas, o Homem de Aço consegue selar a Falha, mitigando desse modo os efeitos da detonação nuclear. 
Longe dali, o carro de Lois - que investigava os bizarros negócios imobiliários na região - é engolido por uma fenda aberta pelas réplicas do sismo. Ao chegar ao local, o Super-Homem depara-se com o corpo inerte de Lois. Furioso por não ter conseguido salvá-la, o Último Filho de Krypton desafia a proibição de Jor-El de interferir na História da Humanidade. Voando ao redor da Terra a supervelocidade, o angustiado herói consegue retroceder vários minutos no tempo, revertendo os danos causados pela explosão e a morte de Lois. 
Com a Costa Oeste reconstruída e a sua amada a salvo, o Super-Homem entrega Luthor e Otis na penitenciária, antes de partir para um passeio orbital. Enquanto o Sol desponta no horizonte, o sorriso rasgado do herói promete um amanhecer repleto de esperança e novas aventuras.

Trailer


Curiosidades

*O blackout que, em julho de 1977, deixou Nova Iorque às escuras durante dois dias coincidiu com a rodagem de Superman na Grande Maçã. Richard Donner recordava com humor como alguns amigos acreditavam ter sido ele o causador do apagão, devido à panóplia de equipamentos que usava na noite em que tudo começou;
*Apesar do cachê milionário (14 milhões de dólares por menos de 10 minutos de ecrã), Marlon Brando recusou memorizar a maior parte das suas falas. Na cena em que Jor-El coloca Kal-El na cápsula de fuga, por exemplo, Brando estava a ler as suas linhas de diálogo escritas na fralda do bebé. O ator, cuja abordagem displicente ao papel mereceu duras críticas por parte dos seus colegas, justificou-se dizendo que essa era a única maneira de garantir a frescura da sua interpretação;
*O S estilizado que adorna os paramentos de Jor-El invoca aquele que o Homem de Aço de George Reeves ostentava no peito, em Adventures of Superman (1952-59). Marlon Brando sugeriu convertê-lo numa espécie de brasão familiar, explicando assim o motivo de Kal-El adotar esse símbolo na Terra. Richard Donner aprovou a ideia e, desde então, esse elemento foi incorporado tanto no cânone do Último Filho de Krypton como em adaptações subsequentes;
*O efeito luminoso das vestes kryptonianas - originalmente cinzentas - foi obtido com recurso ao mesmo material refletor utilizado nas placas de trânsito e restante sinalética rodoviária. A ideia surgiu durante os testes iniciais para as sequências envolvendo efeitos visuais;

O traje de Jor-El era originalmente cinzento.

*Com apenas seis meses de vida, Elizabeth Sweetman foi a primeira bebé a interpretar Kal-El, na cena ambientada em Krypton. Por quatro dias de trabalho, a menina recebeu 120 dólares;
*Gene Hackman mostrou-se inicialmente renitente em cortar o seu icónico bigode. Para convencê-lo, no primeiro dia de filmagens Richard Donner disse-lhe que cortaria também o seu. Hackman assentiu, ignorando que o realizador usava um bigode postiço. Passado o choque inicial, Hackman soltou uma gargalhada e os dois estabeleceram uma excelente relação profissional. Essa foi, no entanto, a única concessão capilar do ator. Face à sua recusa em rapar a cabeça, na única cena em que Luthor surge calvo Hackman usou uma touca cor de pele;
*Carrie Fisher, Natalie Wood, Shirley MacLaine, Liza Minnelli e Barbra Streisand foram algumas das atrizes cogitadas para o papel de Lois Lane. Apesar de não estar minimamente familiarizada com a mitologia do Super-Homem, Margot Kidder foi a eleita, por ter sido a única a rir-se com a pergunta de Lois que faz corar o herói durante a entrevista no terraço: "Qual a cor da minha roupa interior?". Kidder insistiu em gravar ela própria a perigosa cena em que o carro de Lois é engolido por uma cratera;
*Jeff East, que interpretou a versão adolescente de Clark Kent, quase foi abalroado no momento em que salta à frente de um comboio a grande velocidade. Valeu-lhe a intervenção providencial do duplo Richard Hackman - irmão mais novo de Gene Hackman -, que o agarrou a tempo de evitar a tragédia. East rasgou vários músculos da coxa durante a rodagem da cena;
*Kirk Alyn e Noel Neill, os primeiros atores a viverem o  Super-Homem e Lois Lane no cinema, tiveram uma pequena participação na película. São eles os pais da pequena Lois, quando esta jura ter visto um homem a correr ao lado do comboio em que viajam. Neill voltaria a fazer um cameo em Superman Returns (2006), o último capítulo da franquia;

Noel Neill e Kirk Alyn em Superman (1948).

*Parada de estrelas raramente vista, o elenco principal de Superman incluía dois atores oscarizados (Marlon Brando e Gene Hackman) e seis nomeados à estatueta dourada: Ned Beatty, Jackie Cooper, Susannah York, Valerie Perrine e Terence Stamp; 
*Sem aviso prévio, ao filmar a cena em que o Super-Homem voa pela primeira vez para fora da Fortaleza da Solidão, Christopher Reeve - um experimentado piloto de planadores - inclinou o corpo para descrever a curva no ar. A manobra arrancou aplausos a Richard Donner e todos perceberam finalmente que o movimento corporal era a chave para conferir realismo às sequências de voo;
*Além de interpretar Clark Kent e Super-Homem, Christopher Reeve também emprestou a sua voz ao controlador de tráfego aéreo nas cenas envolvendo o helicóptero e o Força Aérea 1;
*Foram necessários seis meses para filmar a cena do helicóptero no topo do Daily Planet. O edifício-sede da Pan Am fora o primeiro cenário escolhido, mas um trágico acidente ocorrido poucos meses antes e do qual resultou a morte de vários passageiros, levou a produção a escolher outra localização;
*Nem visão de calor nem sopro congelante. Em momento algum do filme o Super-Homem faz uso desses seus poderes;
*Durante a sua entrevista com Lois Lane, o Super-Homem garante nunca mentir. Essa declaração é, por si só, uma falácia, posto que o herói leva uma vida dupla. Tratou-se, com efeito, de um artifício narrativo para que o herói se sentisse compelido a cumprir a promessa feita a Eve Teschmacher de salvar a sua mãe mãe em primeiro lugar;

No cinema como na BD,
o Super-Homem é um exemplo de duplicidade.

*Na versão original do argumento, Superman terminava com o herói a salvar a Califórnia selando a Falha de Santo André, antes de desviar o segundo míssil para o espaço. Da explosão resultaria a libertação de Zod e seus aliados da Zona Fantasma, fornecendo o mote para o segundo filme. A ideia de recuar no tempo foi inicialmente concebida para apagar da memória de Lois Lane a verdadeira identidade do Homem de Aço em Superman II (1980);
*Em 2007, a Visual Effects Society classificou Superman como o 44º filme com melhores efeitos visuais de todos os tempos. No ano seguinte, a revista Empire atribuiu-lhe o 174º lugar na sua lista dos 500 melhores filmes de sempre. Pela sua importância histórica e cultural, em 2017 Superman foi selecionado para preservação pela Biblioteca do Congresso dos EUA, tornando-se a primeira película de super-heróis a merecer tal honra.

Um legado para a eternidade.


Veredito: 95%

Superman não foi o primeiro filme de super-heróis (essa honra, pertenceu, em 1951, a Superman and the Mole Men), mas foi o primeiro a levar-se a sério. Entre os seus muitos méritos, ressalta o seu significativo contributo para a legitimação de um subgénero até então desprezado por Hollywood.
Graças ao visionarismo reverente de Richard Donner e ao insuperável carisma de Christopher Reeve, a película captura na perfeição o espírito da personagem - e dos comics em geral - , proporcionando uma experiência arrebatadora ao som da partitura épica de John Williams.
A trama principal e toda a iconografia de Superman podem ser interpretadas como uma reconfiguração moderna da história de Jesus Cristo, acrescentando-lhe influências de heróis clássicos como Hércules ou Atlas. É aliás particularmente interessante observar como essa correlação com a mitologia cristã está tão presente numa produção baseada na criação de dois judeus.
Senão vejamos: como Jesus, Kal-El é enviado pelo seu pai celestial para guiar a Humanidade pelos caminhos da Verdade e da Justiça. O próprio nome kryptoniano do herói denuncia essa vertente messiânica, visto tratar-se de uma palavra hebraica traduzível como "voz de Deus". Também a nave que traz o Último Filho de Krypton à Terra invoca a Estrela de Belém, ao passo que Jonathan e Martha Kent invocam claramente José e Maria.
Mas os paralelismos não se quedam por aí. Na juventude, Kal-El - obrigado a viver como um de nós, embora ciente da sua diferença - é, tal como Jesus, um desajustado social. Por isso, parte à procura do seu verdadeiro pai, na esperança de descobrir a sua origem e missão na Terra. Qual Messias, apresenta-se ao mundo realizando milagres. Mas nem todos são tocados pela sua mensagem de esperança.
Considerando que Lex Luthor deseja estabelecer o seu próprio império, a sua contenda com o Super-Homem afigura-se como uma alegoria para a luta de Jesus contra o Império Romano. Por outro lado, ao ser representado como um génio maligno que, a partir do seu covil subterrâneo, conspira para conquistar o mundo da superfície, Luthor poderá igualmente ser percecionado como uma figuração de Satanás - sendo Zod, o rebelde expulso de Krypton, outro candidato a essa função simbólica.
Tantas vezes apontado como um dos pontos fracos do enredo, o mirabolante plano de Luthor referencia no entanto a sua primeira aparição - em Superman #4 (março de 1940) - , na qual o vilão induz terramotos com um máquina por ele inventada. De igual modo, a caracterização de Luthor, muito diferente do seu ethos contemporâneo, replica fielmente o seu modus operandi durante a Idade de Prata.
Por fim, refletindo o calvário de Jesus, o Super-Homem sofre às mãos dos humanos antes de ser finalmente reconhecido como salvador do mundo. A kryptonita é a sua Via Sacra, a esperança que infunde nos corações dos homens, a sua coroa de glória. 
Não sendo perfeito nem imune aos efeitos da passagem do tempo, Superman continua a ser a melhor adaptação do Homem de Aço ao grande ecrã e um marco importantíssimo na história do cinema. Uma obra-prima muito à frente do seu tempo, que fez sonhar toda uma geração, e que iluminou o caminho para outras produções do género. Sem esta potente locomotiva, o comboio dos super-heróis nunca teria chegado à Terra dos Sonhos.

O Messias das Estrelas trouxe uma mensagem de esperança.



* Este blogue tem como Guia de Estilo o Acordo Ortográfico de 1990 aplicado à norma europeia da Língua Portuguesa.

















 



17 dezembro 2021

HERÓIS EM AÇÃO: CAPITÃO AMÉRICA


   Em 1941, num mundo a preto e branco, o Sentinela da Liberdade vestiu a bandeira tricolor numa cruzada moral contra a hidra fascista e seu cortejo de horrores. Deslocado numa época matizada de cinzento, luta com igual ardor para manter vivo o Sonho Americano de cores cada vez mais esbatidas.

Denominação original: Captain America
Editoras: Timely Comics (1941-1949); Atlas Comics (1953-1954); Marvel Comics (desde 1964)
Criadores: Joe Simon e Jack Kirby
Estreia: Captain America Comics #1 (março de 1941)
Identidade civil: Steven "Steve" Grant Rogers
Espécie: Humano quimicamente aprimorado
Local de nascimento: Lower East Side, Manhattan (Nova Iorque)
Parentes conhecidos:  Joseph e Sarah Rogers (pais, falecidos)
Ocupação: Ex-soldado do Exército dos EUA; ex-oficial de ligação entre a S.H.I.E.L.D. e os Vingadores; aventureiro e artista freelancer
Base operacional: Nova Iorque
Afiliações: Ex-parceiro de Bucky Barnes e do Falcão; membro fundador e ex-líder do Esquadrão Vitorioso e dos Invasores; ex-operacional da S.H.I.E.L.D.; comandante de campo dos Vingadores.
Némesis: Caveira Vermelha
Poderes e parafernália: Steve Rogers é uma espécie de semideus criado em laboratório. Graças ao Soro do Supersoldado que lhe corre nas veias, representa o auge do potencial humano. É mais forte, mais rápido e mais ágil do que os melhores atletas olímpicos, cujos recordes pulverizaria sem esforço.
Além de lhe permitir levantar mais de 350 kg, correr a mais de 90 km/h e executar acrobacias impossíveis, o soro inibe também a produção das toxinas responsáveis pela fadiga muscular. Em tese, o Capitão América nunca sucumbe ao cansaço. Do mesmo modo que dificilmente adoecerá, visto ser imune a todos os vírus e bacilos terrestres. Os seus ossos são também mais densos do que os de um homem comum, permitindo-lhe, por exemplo, sair ileso de quedas de grande altura. Por mais do que uma vez, o Sentinela da Liberdade foi visto a saltar de um avião sem paraquedas.
Dono de um estilo de luta ímpar, combinando boxe e diferentes artes marciais, o Capitão América é considerado um dos melhores combatentes corpo a corpo do Universo Marvel, limitado apenas pelo seu físico humano. Mesmo diante de adversários de nível cósmico, como Thanos, o Sentinela da Liberdade não se intimida e prontifica-se a lutar até ao último fôlego. Tamanha galhardia granjeou-lhe o respeito da comunidade heroica e deixou impressionado o próprio Titã Insano.

O Sentinela da Liberdade não recua perante ninguém. 
Nem mesmo perante titãs cósmicos como Thanos.

O treino militar e a vastíssima experiência em diferentes teatros de guerra fazem do Capitão América um especialista em tática e um comandante de campo sem igual. Durante as primeiras Guerras Secretas, foi ele o escolhido para comandar a contraofensiva dos heróis no planeta de Beyonder - apesar da presença de outros líderes experimentados, como Ciclope e Senhor Fantástico. Habituado a testemunhar de perto a bravura do seu colega Vingador, Thor orgulha-se de lutar ao lado do Capitão América e assume que o seguiria para lá dos portões de Hades.
Como qualquer bom soldado, o Capitão América é inseparável da sua arma. Consistindo esta num escudo indestrutível de formato circular (originalmente triangular), feito de uma liga metálica única composta por aço e vibranium (à qual foi retroativamente acrescentado protoadamantium). Igualmente eficaz em manobras defensivas e ofensivas, foi projetado pelo Dr. Myron McClain, cientista contratado na II Guerra Mundial pelo Presidente Roosevelt para criar uma blindagem impenetrável para os tanques americanos. Contudo, provavelmente devido à ausência de um catalisador adequado, todas as tentativas subsequentes para reproduzir a liga foram malsucedidas, pelo que o escudo do Capitão América (tal como o próprio) é exemplar único em todo o mundo.
Décadas de prática e uma aerodinâmica perfeita possibilitam que o Capitão América arremesse o seu escudo com precisão quase infalível. Numa espetacular demonstração de destreza, consegue atingir sucessivamente múltiplos alvos com um único lançamento antes de o escudo retornar à sua mão, como se de um bumerangue se tratasse.

O Capitão América recebeu o seu escudo das mãos do Presidente Roosevelt.


O escudo do Capitão América pode imitar um bumerangue.

Confecionado com um tecido retardador de fogo, o uniforme do Capitão América é forrado com uma fina cota de malha metálica que lhe proporciona proteção adicional contra objetos perfurantes ou disparos de baixo calibre. Originalmente, a máscara era uma peça independente que, além de lhe deixar o pescoço exposto, podia ser facilmente arrancada. Para evirar que o herói tivesse a sua identidade civil comprometida, esse pormenor depressa foi retificado.
Quando não está ao serviço dos Vingadores, o Sentinela da Liberdade faz-se habitualmente transportar numa potente Harley Davidson modificada pelo departamento de engenharia mecânica da S.H.I.E.L.D. É também um piloto exímio de aeronaves, especificamente do sofisticado jato dos Vingadores.
O Soro do Supersoldado não aperfeiçoou apenas o metabolismo de Steve Rogers; exacerbou também os seus predicados. A sua coragem, integridade e altruísmo fazem dele o reverso virtuoso do Caveira Vermelha (o supersoldado nazi que o precedeu) e uma fonte de inspiração para outros heróis.
É esse aliás o maior dom do Sentinela da Liberdade: o de manter acesa a chama imortal da esperança  quando o espírito humano é entenebrecido pelo desespero. Desde os seus tempos de meninice, Steve Rogers sempre se ergueu em defesa de outros fracos e oprimidos. Um dos motivos porque, segundo Hércules, até os deuses do Olimpo admiram o mais valente dos homens nascidos na Terra dos Bravos.

O Supersoldado em ação.

Fraquezas: A despeito de todos os aprimoramentos físicos concedidos pelo Soro do Supersoldado, Steve Rogers possui praticamente todas as vulnerabilidades inerentes à sua condição de simples humano. Não é à prova de bala (embora os seus reflexos lhe permitam desviar-se de disparos), tampouco dispõe de um fator de cura acelerada (conquanto o seu processo de cicatrização seja mais rápido). Podendo, portanto, ser ferido - ou até morto - com relativa facilidade, se atingido por explosões, rajadas energéticas ou impactos violentos. Ademais, a sua longevidade é um efeito colateral da fórmula milagrosa que o transformou no soldado supremo. Se esta for drenada da sua corrente sanguínea, Rogers envelhecerá décadas em poucos dias. Processo que o debilitará profundamente e que, no limite, lhe será fatal.
Tantas vezes explorada por velhos inimigos, como o Caveira Vermelha ou o Barão Zemo, a maior fraqueza do Capitão América radica, paradoxalmente, na força das suas convicções. Steve Rogers é um homem fora do tempo, cidadão mental de uma época em que o mundo era um quadro a preto e branco e de contornos bem definidos. Mas, como ele aprendeu a duras penas, o mundo mudou sem recuo. Começando pelos próprios EUA, que durante as décadas em que Rogers permaneceu em animação suspensa viveram alguns dos capítulos mais negros da sua história.
O Sonho Americano definha no cinismo da classe política, na amoralidade da elite financeira e na apatia da juventude. Os nobres ideais pelos quais Rogers sempre se bateu são constantemente colocados em xeque. Os inimigos de ontem são os aliados de hoje (e vice-versa). Ideologias outrora repudiadas são agora ensinadas nas universidades. O patriotismo passou de moda e os americanos estão descrentes do futuro. O próprio Capitão América é conotado com o imperialismo ianque. Em face de tudo isto, Steve Rogers já mal reconhece o seu país. 
De tão idealizado que foi o seu legado ao longo dos anos. Rogers teme por vezes não estar à altura dos complexos desafios do mundo moderno, onde parece não haver lugar para aquilo que ele simboliza. Essas crises de confiança, ainda que passageiras, levam-no a questionar o seu verdadeiro papel numa época tão diferente daquela que lhe definiu o caráter.
Pode ser pesado o fardo de uma lenda viva. Especialmente quando não se tem ninguém para ajudar a suportá-lo. Todos os entes queridos de Rogers partiram há muito; fantasmas de um passado tão trágico quanto glorioso. Apesar do seu estatuto de relíquia museológica, o Capitão América sofre de um mal do século XXI: a solidão em si mesmo.

Lágrimas de uma lenda viva.


Primus inter pares

No final de 1940, com a Europa sitiada pela blitzkrieg alemã e a guerra a rondar os noticiários internacionais, a opinião pública americana dividia-se entre o intervencionismo e o isolacionismo. Apesar da prevalência deste último, o presidente-executivo da Timely Comics, Martin Goodman, tinha a firme convicção de que a entrada dos EUA no conflito era uma inevitabilidade. Nesse sentido, encarregou o seu editor-chefe e o seu diretor artístico - respetivamente, Joe Simon e Jack Kirby (ambos recém-contratados à Fox Comics) - de criarem um herói patriótico capaz de traduzir esse dever moral dos sobrinhos do Tio Sam.
Filhos de imigrantes judaicos fugidos às perseguições no Velho Continente, Simon e Kirby repudiavam o antissemitismo de Hitler com o mesmo denodo com que celebravam o Sonho Americano que permitira aos seus pais terem vidas condignas. Enquadrados por esses sentimentos díspares, decidiram fazer uma declaração política a favor do intervencionismo americano, numa fase em que essa corrente de pensamento carecia de um porta-voz forte.
Simon começou por batizar o neófito de Super-American. Mas, dada a profusão de supers por aqueles dias, depressa o renomeou Capitão América. No entanto, não foi ele o primeiro herói de inspiração patriótica da história dos comics. Essa honra pertenceu ao Escudo (The Shield, no original), lançado em janeiro de 1940 pela MLJ/Archie Comics. 

O Escudo (MLJ/Archie Comics) foi o primeiro herói patriótico
 da história dos quadradinhos americanos.

Precedendo em nove meses a entrada dos EUA na II Guerra Mundial, o Capitão América fez a sua estreia em Captain America Comics #1 (março de 1941). A circunstância de isso ter acontecido num título próprio - e não num qualquer almanaque, como era da praxe - sinalizava a confiança que a Timely tinha no valor do seu novo ativo.
Logo nessa primeira história, Simon e Kirby atribuíram ao Capitão América as idiossincrasias que o diferenciavam dos super-heróis mais populares e o tornariam tão apelativo aos leitores. Ao contrário do Super-Homem e do Batman, Steve Rogers não nasceu com poderes divinos nem herdou uma fortuna imensa. Era, ao invés, um jovem franzino cuja fragilidade física contrastava com o vigor dos seus ideais. Alguém inconformado com o avanço da tirania e disposto a morrer pela liberdade.
Apesar de o Capitão América ter superado todas as expectativas comerciais, nem todos se reviam na mensagem que ele transmitia. Nas semanas seguintes ao lançamento da sua revista, Simon e Kirby receberam ameaças de morte enquanto grupos isolacionistas protestavam ruidosamente diante do edifício da Timely. Temendo pela segurança dos autores, o mayor La Guardia - apoiante confesso do intervencionismo - atribuiu-lhes uma escolta policial.
A esses protestos somou-se uma acusação de plágio por parte da MLJ, que descortinara evidentes semelhanças entre o escudo triangular do Capitão América e o traje do seu Escudo. Em consequência disso, o Sentinela da Liberdade passou a portar um disco côncavo a partir de Captain America Comics #2. Por sugestão de Stan Lee, o novo escudo seria convertido em arma de arremesso na edição seguinte.

O Sentinela da Liberdade esmurra Hitler
 na polémica capa de Captain America Comics #1 (março de 1941).

Após a entrada dos EUA na guerra, o Capitão América consolidou o seu estatuto de campeão de vendas da Timely, com a sua revista mensal a alcançar uma tiragem média de um milhão de exemplares. Apesar de isso indiciar uma audiência mais abrangente, as crianças constituíam a maior parte dos seus leitores. Para muitas delas, Steve Rogers representava os seus entes queridos destacados para o exterior. Cientes disso, Simon e Kirby criaram um clube de fãs (os Sentinelas da Liberdade) e atribuíram um adjunto juvenil ao Capitão América. Tal como o Menino-Prodígio da Distinta Concorrente, Bucky Barnes (homenagem de Simon ao ex-capitão da equipa de basquetebol da sua escola) depressa se tornou um ídolo para os mais novos. 
A enorme popularidade do Capitão América pavimentou caminho para um regimento de epígonos que marchavam sob os estandartes da liberdade e do oportunismo. Captain Freedom (Harvey Comics), Uncle Sam (Quality Comics) e The Flag (Ace Magazines) foram alguns dos muitos concorrentes que disputaram ao Sentinela da Liberdade o título de patriota supremo. Mas o Capitão América provou ser primus inter pares, ofuscando os rivais com o brilho dos seus ideais.
Com o declínio dos super-heróis no pós-guerra, o Capitão América resistiu até 1949, ano em que a sua revista - renomeada Captain America Weird Tales nos seus números finais - foi cancelada. Como tantos outros heróis da Idade de Ouro, o Sentinela da Liberdade parecia condenado a desaparecer nos alçapões da História. Até que em 1953, à boleia do sucesso da série televisiva do Homem de Aço, a Atlas Comics (sucessora da Timely e antecessora da Marvel) reviveu brevemente o Capitão América. 
Nos alvores da Guerra Fria e do macarthismo, o redivivo herói embarcou numa feroz cruzada contra o comunismo. Porém, a fraquíssima adesão dos leitores a este novo alinhamento ideológico ditou novo cancelamento da série ao fim de apenas três edições. 

Sob o selo da Atlas Comics, o Capitão América
 ganhou o epíteto de Commie Smasher (Esmagador de Comunas).

Após uma década longe da vista e do coração, o Capitão América seria novamente revivido, desta feita por Stan Lee e Jack Kirby. Agora sob o selo da Marvel Comics,  Avengers #4 (março de 1964) marcou o regresso definitivo da Lenda Viva.
Agora um homem fora do tempo, Steve Rogers procurava ajustar-se a um mundo muito diferente daquele que conhecera, ao mesmo tempo que aprendia a lidar com os sentimentos de culpa em relação à morte de Bucky. Ingredientes dramáticos que lhe permitiram recuperar o seu lugar de direito no panteão da Marvel. De figura anacrónica, passou a herói intemporal.
A evolução do Capitão América reflete, com efeito, a transformação da sociedade americana desde a II Guerra Mundial. Antes dos EUA entrarem no conflito, ele foi símbolo do intervencionismo numa nação fechada sobre si mesma. Nos anos da guerra, foi instrumento de propaganda nacionalista e militarista num mundo a preto e branco. A escala de cinzentos do pós-guerra forçou-o a despir a pele de cruzado moral. Independentemente de tudo isso, o Capitão América chega aos nossos dias com o seu prestígio incólume. O que significa que as notícias sobre a morte do Sonho Americano são manifestamente exageradas.

80 anos ao serviço da Liberdade, da Justiça e do Modo Americano.


Nascido a 4 de Julho

Único filho de um humilde casal de imigrantes irlandeses, Steve Rogers nasceu a 4 de julho de 1920 (ou 1922, dependendo da fonte consultada), no Lower East Side, bairro operário na parte sudeste de Nova Iorque que também serviu de berço aos seus autores. O facto de ter vindo ao mundo no dia em que os EUA celebram a sua independência só pode ser interpretado como um sinal daquilo que os astros lhe haviam reservado.
No entanto, nada fazia prever que aquele menino de saúde frágil viria a ser o soldado supremo e o símbolo de toda uma nação. Pouco mais se sabe sobre a sua infância, além do seu gosto por desenhar e de ter ficado órfão de pai antes de completar o seu sexto aniversário.
Enquanto crescia com as agruras da Grande Depressão, Steve interiorizava os valores que a sua mãe lhe inculcava: honra, patriotismo, espírito de sacrifício em prol do bem maior. Quando Sarah Rogers sucumbiu a uma pneumonia, Steve, na ponta final da puberdade, ficou sozinho e desamparado num mundo que caminhava em passo estugado para a guerra.
Horrorizado com as notícias acerca das atrocidades cometidas pelos nazis na Europa e pelos japoneses na Ásia, Steve sentiu que tinha de fazer algo e tentou alistar-se no Exército. No entanto, devido ao seu extenso catálogo de enfermidades (asma, raquitismo, arritmia cardíaca, etc.), foi classificado como inapto para o serviço militar.

Steve Rogers foi rejeitado pelo Exército,
 devido à sua fraqueza física e à sua saúde precária.

Inconsolável, Steve implorou para que o deixassem lutar pelo seu país, captando assim a atenção do general Chester Phillips. Foi pela mão dele que participou no Projeto Renascimento, um programa científico ultrassecreto que objetivava a criação de um exército de supersoldados capazes de travar as imparáveis hordas nazis que já haviam conquistado metade do Velho Continente. 
Num laboratório subterrâneo em Washington D.C., Steve foi apresentado ao Professor Joseph Reinstein e inoculado com o seu Soro do Supersoldado. Em seguida, foi bombardeado com raios vita, combinação de diferentes tipos de radiação projetada para acelerar e estabilizar os efeitos do composto químico no seu organismo.
Concluída a experiência, Steve estava irreconhecível. O jovem atrofiado dera lugar a um espécime apolíneo. Os festejos foram no entanto interrompidos pelos disparos de um espião nazi, que assim cumpriu a sua missão de assassinar o Professor Reinstein. 


O Soro do Supersoldado transformou o frágil Steve Rogers num Adónis.

Com a morte de Reinstein e a sua fórmula incompleta, Steve tornou-se o único supersoldado do Exército americano. Depois de submetido a um programa de treino intensivo no plano físico e no plano tático, o Capitão América recebeu o seu icónico escudo e a sua primeira missão: confrontar o seu homólogo nazi, o sinistro Caveira Vermelha.
Nos intervalos entre missões, o Capitão América fazia-se passar por um bisonho recruta de Infantaria, em Camp Lehigh (Virgínia). Foi lá que contraiu estreita amizade com Bucky Barnes, um jovem órfão que era a mascote do regimento.  Bucky ofereceu-se para lutar ao lado do Capitão América, depois de descobrir que ele e Steve Rogers eram a mesma pessoa.
Além de Bucky, o Capitão América travou incontáveis batalhas ao lado do Esquadrão Vitorioso e dos Invasores. As suas façanhas tornaram-se lendárias nos quatro cantos do mundo e foram decisivas para a vitória aliada na II Guerra Mundial. Porém, glória e tragédia andam quase sempre de mãos dadas.
Em abril de 1945, nas vésperas da derrocada do III Reich, o Capitão América e Bucky foram dados como mortos. Quando tentavam desativar uma bomba instalada num avião projetado pelo Barão Zemo, Bucky foi apanhado pela explosão do engenho e o Capitão América despencou nas águas geladas do Atlântico Norte.

O Capitão América foi a resposta dos EUA
 ao Caveira Vermelha, o supersoldado nazi.

Uma vez mais, porém, o destino tinha outros planos para Steve Rogers. Durante as duas décadas seguintes, permaneceu em animação suspensa, aprisionado num bloco de gelo arrastado pelas fortes correntezas. Até ser acidentalmente descongelado pelo seu ex-aliado Namor e resgatado pelos incrédulos Vingadores - que logo passaria a comandar.
De volta ao mundo dos vivos, o Capitão América passou a enfrentar novas e velhas ameaças. Muitos dos seus antagonistas recorrentes corporizam ideologias contrárias aos valores americanos em defesa dos quais o herói continua a erguer bem alto o seu escudo: Caveira Vermelha (nazismo), IMA (fascismo tecnocrático), Corporação Roxxon (capitalismo amoral), Apátrida (antipatriotismo) e Hydra (terrorismo internacional). Ontem como hoje, o Sentinela da Liberdade mantém-se vigilante e pronto a sacrificar-se pelo seu país.

Guardião espiritual do Sonho Americano.


Miscelânea

*Além de Sentinela da Liberdade, o Capitão América é também cognominado Lenda Viva, Supersoldado, Homem Fora do Tempo, Flagelo de Todo o Mal, Cabeça Alada e Porta-Bandeira;
*Apesar de ter sido o primeiro Capitão América, Steve Rogers não foi o único a portar o escudo e a fazer da Stars and Stripes a sua segunda pele. William Naslund ( vulgo Independente), Jeffrey Mace (Patriota) William Burnside, John Walker (Superpatriota) e, mais recentemente, Bucky Barnes e Sam Wilson (Falcão) foram alguns dos homens que assumiram o legado do Sentinela da Liberdade durante a sua ausência. Infelizmente, nem todos estiveram à altura dele;

Alguns dos homens que já assumiram o legado do Sentinela da Liberdade.

*Steve Rogers é um dos raríssimos humanos dignos de empunharem o Mjolnir. A primeira vez que tal aconteceu foi em Mighty Thor #390 (abril de 1988), durante a invasão de Seth e seus seguidores à Mansão dos Vingadores. Ironicamente, Rogers havia sido pouco tempo antes exautorado pelo Governo americano, tendo sido obrigado a criar um novo alter ego, passando a atender simplesmente por Capitão. Na sequência desses eventos, o Deus do Trovão expressou a sua vontade de que, em caso de morte, o seu martelo encantado deveria ser confiado a Rogers;
*Antes de ser recrutado para o Projeto Renascimento, Steve Rogers era um promissor artista gráfico. Após o seu descongelamento, trabalhou durante algum tempo para a Marvel Comics como ilustrador freelancer. Uma das personagens a quem emprestou o seu traço foi o próprio Capitão América. Ocasionalmente, Rogers criticava os argumentistas por falharem em compreender aquilo que o herói representava;
*Agastados com o revivalismo da sua criação pela Atlas Comics no ano anterior, em 1954 Joe Simon e Jack Kirby criaram uma paródia do Capitão América. Fighting American começou por ser apadrinhado pela Prize Comics antes de, a meio da década seguinte, se transferir para a Harvey Comics, onde encerrou a sua meteórica carreira editorial na Idade de Prata. Impregnadas de subtexto político e humor mordaz, as histórias de Fighting American satirizavam a paranoia anticomunista fomentada pelo macarthismo, à qual o Capitão América dava corpo naquela época;

Fighting American parodiava o Capitão América.

*Em 1966, Joe Simon moveu uma ação legal contra a Marvel Comics, declarando-se o legítimo detentor dos direitos autorais do Capitão América. A despeito do entendimento alcançado entre as duas partes nesse mesmo ano, o diferendo só ficaria definitivamente resolvido em 2003. No âmbito de um acordo extrajudicial, a Marvel, mesmo considerando improcedentes as reivindicações de Simon, concordou em pagar-lhe royalties referentes à venda de merchandising e ao licenciamento da personagem;
*Steve Rogers é incapaz de embriagar-se. Acelerado pelo Soro do Supersoldado, o seu metabolismo neutraliza, quase instantaneamente, os efeitos do álcool ou de qualquer outra substância psicotrópica por ele consumida;
*Não obstante o duelo entre o Capitão América e o Batman - apresentado em Marvel vs DC (1996) - ter terminado empatado, no mesmo crossover o Sentinela da Liberdade levou a melhor sobre Bane, o vilão que deixara Bruce Wayne paralítico, em Knightfall (1994). Em face dessa proeza, Batman reconhece que, apesar de as habilidade de combate de ambos se equivalerem, o Capitão América seria capaz de derrotá-lo devido às vantagens físicas conferidas pelo Soro do Supersoldado;
*No Universo Amálgama, o Capitão América foi fundido com duas personagens da DC: Super-Homem e Capitão Marvel Jr. Desse processo resultaram, respetivamente, Supersoldado e Capitão América Jr.; 

Clark Kent, o Supersoldado do Universo Amálgama.

*Em resposta ao recrudescimento das tensões raciais nos EUA, em 1969 a Marvel emparelhou o Capitão América com o seu primeiro herói afrodescendente. Falcão seria o  parceiro mais duradouro do Sentinela da Liberdade na sua cruzada em defesa do Sonho Americano;
*No início dos ano 90, a banda de rock escocesa Eugenius, sob ameaça de um processo interposto pela Marvel, foi obrigada a mudar de nome, depois de ter lançado um par de álbuns como Captain America;
*Em fevereiro de 2007, no rescaldo da Guerra Civil, o Capitão América foi alvejado na escadaria do Capitólio, a caminho do seu julgamento. A sua morte (entretanto revertida) causou enorme choque e comoção tanto no Universo Marvel como no mundo real. O New York Times, por exemplo, fez manchete do sucedido, retratando Steve Rogers como expressão e signo do ideal americano;
*A estreia do Capitão América em Terras Tupiniquins remonta a junho de 1943, no 73º número de O Guri, suplemento juvenil do Diário da Noite - o primeiro a ser editado no mesmo formato dos comic books americanos;
*Na lista dos cem melhores super-heróis de todos os tempos, divulgada em 2011 pelo portal de entretenimento IGN, o Capitão América surge em 6º lugar. Dentre os seus congéneres da Casa das Ideias, apenas Homem-Aranha (3º) e Wolverine (4º) conseguiram melhor classificação;
*O Capitão América foi o primeiro herói da Marvel a fazer a transição para o celuloide. Em 1944, Dick Purcell tornou-se o primeiro ator a interpretar o Sentinela da Liberdade em Captain America, série cinematográfica em 15 capítulos produzida pela Republic Pictures - e com assinaláveis diferenças relativamente ao cânone. Antes de se tornar o porta-bandeira do MCU - onde, de 2011 a 2019, foi encarnado por Chris Evans - o Sentinela da Liberdade teve direito a dois telefilmes - Captain America e Captain America: Death Too Soon (ambos de 1979 e estrelados por Reb Brown) - e, em 1990, o filme Captain America (com Matt Salinger como protagonista) foi lançado diretamente em vídeo. O impressionante lastro mediático do Capitão América, refletindo a sua importância no imaginário coletivo, abrange igualmente dezenas de animações, jogos de vídeo e até novelas literárias.

Dick Purcell, Reb Brown, Matt Salinger e Chris Evans encarnaram a Lenda Viva.




*Este blogue tem como Guia de Estilo o Acordo Ortográfico de 1990 aplicado à norma europeia da Língua Portuguesa.
*Artigos sobre Joe Simon, Timely Comics e Caveira Vermelha disponíveis para leitura complementar.