30 julho 2022

GALERIA DE VILÕES: RA'S AL GHUL


   A sua origem e nome verdadeiro perderam-se na noite dos tempos. Qual messias negro numa cruzada genocida, continua a regressar dos mortos para purgar a Terra do vírus da corrupção humana. No Batman encontrou um adversário digno e o tão desejado herdeiro para o seu império de sombras.

Denominação original:
 Ra's al Ghul
Editora: DC
Criadores: Julius Schwartz (nome e conceito), Dennis O'Neil (história) e Neal Adams (arte conceptual)
Estreia: Batman Vol.1 #232 (junho de 1971)
Identidade civil: Desconhecida
Espécie: Humano
Local de nascimento: Algures no Deserto Arábico
Parentes conhecidos: Sensei (pai); Sora (primeira esposa, falecida); segunda esposa não identificada (falecida); Melisande (terceira esposa, falecida); Nyssa Raatko (filha, falecida); Talia al Ghul (filha); Dusan al Ghul (filho, falecido); Bruce Wayne/Batman (ex-genro); Damian Wayne/ Robin V (neto)
Ocupação: Magnata e ecoterrorista internacional.
Base de operações: Ra's al Ghul possui dezenas de covis secretos em latitudes tão diferenciadas como os Alpes suíços ou os Himalaias. Cada um deles coincide com a localização de um Poço de Lázaro, sendo esse o motivo da sua itinerância compulsiva.
Afiliações: Líder e fundador do Demónio e da Liga de Assassinos.
Némesis: Batman
Poderes e parafernália: Ninguém - talvez nem mesmo o próprio- sabe ao certo há quanto tempo Ra's al Ghul caminha sobre a Terra. Mas a História da Humanidade seria decerto muito diferente sem a sua interferência. Como um maestro invisível, ele triunfa manipulando as suas orquestrações. As suas aparições são raras, mas cada uma é mais impactante do que a anterior.
Estrategista magistral, Ra's comandou exércitos em batalhas decisivas, ordenou assassinatos políticos e conspirou nos bastidores para alterar o curso de acontecimentos cruciais. Entre as suas façanhas mais notáveis, colocou em marcha a catastrófica cadeia de eventos que culminou na Grande Guerra. Ao desencadear uma conflagração à escala mundial, esperava conseguir fazer regredir a Humanidade à era pré-industrial, poupando a Terra aos efeitos da poluição. Em tempos mais recentes, lançou um mortífero vírus geneticamente modificado em Gotham City e derrotou a Liga da Justiça recorrendo aos planos de contingência elaborados secretamente pelo Batman com base nas principais vulnerabilidades dos seus membros.
Tudo isto só foi possível graças aos Poços de Lázaro, fontes místicas com propriedades regenerativas únicas. O líquido esverdeado de composição desconhecida que delas brota consegue cicatrizar instantaneamente ferimentos graves, doenças terminais e até reverter mortes recentes. Além de ter tido a sua longevidade expandida pelo Poço de Lázaro (assim chamado em referência à figura bíblica ressuscitada por Jesus Cristo), Ra's já perdeu a conta às vezes que se ergueu de entre os mortos.

O Poço de Lázaro tornou Ra's al Ghul imortal.

Ao longo dos séculos, Ra's al Ghul acumulou vastíssima riqueza, conhecimento e poder, dispondo, por conseguinte, de recursos praticamente ilimitados, incluindo um exército de seguidores fanatizados que o veneram como um messias. Ra's especializou-se também em diferentes campos de estudo, tanto científicos como esotéricos. O seu perfeito domínio da Microbiologia, por exemplo, permite-lhe modificar vírus em laboratório para originar epidemias ou pandemias.
Em várias ocasiões, Ra's demonstrou ser capaz de transferir a sua alma para os corpos de outras pessoas, assegurando assim a própria sobrevivência, mesmo quando não tem acesso ao Poço de Lázaro. Os pormenores exatos desse processo afiguram-se, porém, inconsistentes: tanto pode envolver um complexo ritual místico como pode ser apenas necessário o contacto direto de Ra's com o seu futuro hospedeiro.
Séculos de treino e experiência fizeram de Ra's um espadachim sem igual. Gaba-se mesmo de ter ensinado o manejo da espada aos mestres esgrimistas das primeiras academias europeias e de ter sobrevivido aos círculos de duelos cossacos.  Quando em combate, prefere armamento antigo - sabres, cimitarras, lanças... - ainda que seja igualmente proficiente com armas de fogo e outro material bélico moderno. 

Batman e Ra's al Ghul num duelo mortal sob o sol do deserto.

Além de ser mestre em diversas artes marciais, Ra's possui as aptidões físicas de um atleta olímpico e tem a sua força e reflexos ampliados a nível sobre-humano logo após cada mergulho no Poço de Lázaro. Apesar disso, raramente consegue levar de vencida o Batman num mano a mano. Na maior parte das vezes, os dois contendores acabam por sucumbir à exaustão e o combate termina empatado.
Mas nem só no plano físico Ra's pede meças ao Cavaleiro das Trevas. Com poder de fogo intelectual superior ao do seu némesis, a Cabeça do Demónio consegue frequentemente ocultar o seu envolvimento nos acontecimentos em curso até ser demasiado tarde.
Profeta aos olhos de uns, terrorista aos olhos de outros, Ra's al Ghul vê-se a si mesmo como um artista. A sua visão é a de uma Terra tão limpa e pura como uma montanha nevada ou o deserto de areias escaldantes que, incontáveis eras atrás, lhe serviu de berço. Claro que, para isso, terá primeiro de fazer correr rios de sangue...

Fraquezas: Apesar de os Poços de Lázaro garantirem semi-imortalidade aos seus usuários, essa dádiva tem um custo. Ao dar vida, o poço também tira vida. De cada vez que Ra's al Ghul se banha nas suas águas milagrosas fica mais próximo da morte que não pode ser revertida. Adicionalmente, o poço deixa-o temporariamente enlouquecido, tornando as suas ações erráticas e violentas. Numa dessas ocasiões, séculos atrás, Ra's matou acidentalmente a sua segunda esposa.
Mesmo tendo plena consciência dos efeitos perniciosos do Poço de Lázaro na sua saúde física e mental, Ra's não consegue deixar de usá-lo. Como se de uma potente droga se tratasse, o poço é extremamente viciante. Quanto mais Ra's o usa mais viciado fica. Ao fim de mais de 700 anos de (ab)uso, ele simplesmente não consegue parar.
No que ao Batman especificamente diz respeito, a principal fraqueza de Ra's al Ghul radica no profundo amor de Talia pelo herói. Nem um coração empedernido como o seu é totalmente insensível aos sentimentos da filha. Por outro lado, o desejo de Ra's de fazer do Cavaleiro das Trevas seu sucessor leva-o muitas vezes a poupar a vida àquele que sabe ser o seu mais formidável inimigo.

O Poço de Lázaro deixa Ra's al Ghul temporariamente ensandecido.


Vilão sui generis

Com a Guerra do Vietname num impasse e o martírio de profetas da esperança, como Martin Luther King, a década de 1970 alvoreceu nublada e com o Sonho Americano ligado às máquinas. Contagiados pelo espírito do tempo, os leitores do Batman naturalmente já não se identificavam com a versão kitsch do herói que marcara a década pregressa, e que tivera na série televisiva do Homem-Morcego com Adam West o seu maior expoente mediático. Resultando disso a imperiosa necessidade de adaptar as histórias do Homem-Morcego aos novos tempos. Tarefa que, no entendimento do então editor dos títulos do Batman, Julius Schwartz, requeria um escritor arrojado e um artista consagrado.
Depois da revolucionária passagem de Dennis O'Neill e Neal Adams por Green Lantern/Green Arrow, Schwartz sabia serem eles os homens certos para restaurar o apelo do Cavaleiro das Trevas junto do público, e tratou de reunir novamente a dupla-maravilha.

Julius Schwartz (1915-2004)  foi o editor que adaptou Batman aos novos tempos.

Se Adams já havia emprestado o seu traço dinâmico e realista a The Brave and the Bold, O'Neill, no seu primeiro contacto com Batman, não se fez rogado em introduzir uma série de alterações importantes na vida da personagem. Para além do tom mais melancólico das tramas, essas mudanças passaram pela ida de Dick Grayson para a Universidade de Hudson (separando, assim, a Dupla Dinâmica), e por levar Bruce Wayne e Alfred a trocarem a Mansão Wayne por uma luxuosa cobertura no centro de Gotham City. A mais importante dessas mudanças foi, porém, o surgimento de um novo inimigo do Cavaleiro das Trevas. Um inimigo a vários títulos diferente, porquanto a lógica das suas ações o faziam divergir do arquétipo vilanesco. Sem uniformes vistosos, superpoderes ou bugigangas tecnológicas, mas com os meios, a motivação e o intelecto que lhe permitiam afirmar-se como uma terrível ameaça à segurança global.
Por sugestão de Schwartz, o novo vilão foi crismado como Ra's al Ghul, expressão de origem árabe que significa "cabeça do demónio". E que referencia, também, a estrela Algol, à qual diversos povos da Antiguidade atribuíam uma influência nefasta nos destinos do mundo. Uma escolha deveras apropriada olhando ao escopo dos planos de Ra's al Ghul. 
Desde a sua entrada em cena, em Batman #232 (junho de 1971), que Ra's al Ghul demonstrou ser um vilão sui generis. Desde logo por ter sido ele o primeiro inimigo do Homem-Morcego a deslindar a identidade secreta do herói. Mas, sobretudo, pelo facto de ser um homem sem idade a quem não se aplicam as leis do tempo, uma vez que o Poço de Lázaro o tornou virtualmente imortal. Vive, ademais, obcecado com a ideia de transformar o mundo decadente que o rodeia numa utopia sem crime nem poluição. Missão que encara como sagrada e que deseja cumprir a todo o custo, independentemente dos milhões de vidas humanas que seria preciso sacrificar para tornar o seu sonho realidade.


Batman #232 (1971) introduziu
 um novo e perigoso inimigo do Cavaleiro das Trevas.

Alguns terão porventura visto no nome de origem árabe e no recurso ao terrorismo como instrumento para impor as suas crenças uma pouco subtil alusão ao fundamentalismo islâmico. Esta é, contudo, uma interpretação abusiva, visto, que, à época, o jihadismo era um movimento mais inorgânico, ainda desprovido de um líder carismático e facilmente identificável, como o foi este século Osama bin Laden.
Com efeito, a principal fonte de inspiração para Ra's al Ghul foi o Dr. Fu Manchu, vilão da literatura pulp criado, em 1913, por Sax Rohmer. Além da origem asiática, remetendo para o Perigo Amarelo tão em voga nos anos 1930, ambos são génios científicos em cruzada para moldar o mundo aos seus ideais; ambos dispõem de exércitos particulares (Liga de Assassinos e Si-Fan) e ambos têm filhas belas e perigosas (Talia al Ghul e Fah Lo Suee) que se envolvem romanticamente com os arqui-inimigos dos seus diabólicos pais (Batman e Sir Dennis Nayland Smith). Outra possível influência visual terá sido o Imperador Ming, das tiras clássicas de Flash Gordon.
Em todo o caso, a aparência de Ra's al Ghul foi da inteira responsabilidade de Neal Adams. O artista empenhou-se em tornar a personagem facilmente reconhecível, mesmo sem os paramentos coloridos da praxe. Nesse sentido, desenhou Ra's com a testa larga, bigode à mandarim e sem sobrancelhas, para lhe acentuar o olhar penetrante.

Expoente do Perigo Amarelo, o Dr. Fu Manchu serviu de modelo a Ra's al Ghul.

Ra's al Ghul possui ainda outras características que o fazem funcionar como um verso solto na galeria de vilões do Batman. Sem veio maligno, movem-no ideais nobres, embora potencialmente genocidas. Tudo o que ele deseja é um mundo melhor em que os humanos vivam em comunhão com a Mãe Natureza, ao invés de depredá-la. Em certa medida, ele foi um pioneiro do ativismo ambiental, que alertou para os perigos da industrialização acelerada e do crescimento exponencial da população. Como os homens não lhe deram ouvidos, ele resolveu puni-los pela lenta destruição do planeta.
No fundo, Ra's al Ghul representa o reverso extremista do Batman. Com quem, aliás, mantém uma dialética em tudo semelhante à do Professor X com Magneto. Ele faz tudo o que o Batman deseja fazer, mas, ao contrário dele, não se deixa condicionar por um código moral. Ra's não faz prisioneiros e não tem escrúpulos em matar por aquilo que acredita ser o bem maior. Ambos sonham erradicar o Mal do mundo, mas apenas Ra's está disposto a tudo para alcançar esse desígnio.
Por tudo isto e muito mais, Ra's al Ghul ocupa lugar de destaque na extensa galeria de vilões do Homem-Morcego, disputando ao Joker o estatuto de verdadeiro némesis do herói.

Para alguns, Ra's al Ghul é o verdadeiro némesis do Batman.


A Cabeça do Demónio

O homem que o mundo aprendeu a temer como Ra's al Ghul terá nascido há mais de 700 anos num dos vastos desertos da Península Arábica, no seio de uma tribo nómada presumivelmente originária da China. Junto com o seu coração outrora bondoso, o seu nome batismal ficou para sempre soterrado pelas areias do tempo.
Fascinado, desde os seus verdes anos, pela Ciência, Ra's trocou a vida no deserto pela vida na cidade, onde poderia iniciar os seus estudos. Era já um médico renomado, habituado a distribuir sentenças de vida, quando conheceu Sora, o amor da sua vida que desposaria logo depois.
A viver uma breve etapa de felicidade conjugal, Ra's fez uma descoberta que lhe mudaria para sempre a vida: o Poço de Lázaro. Cujas propriedades milagrosas usou para salvar a vida de um príncipe moribundo, filho do sultão que governava a cidade onde ele e Sora moravam. Sem que Ra's o soubesse, o príncipe era na verdade um tiranete que tratava os seus súbditos com grande crueldade.
Ato contínuo à sua ressurreição pelo Poço de Lázaro, o príncipe, completamente fora de si, estrangulou Sora até à morte. Ra's clamou ao sultão por justiça, mas este, para proteger o filho, culpou-o pelo crime e condenou-o a um sórdido calvário. No meio do deserto, trancado numa jaula com o cadáver em decomposição de Sora, Ra's foi deixado para morrer à fome e à sede.


Acusado de um crime que não cometeu,
 o jovem Ra's foi condenado a uma morte agonizante.

Antes que isso acontecesse, Ra's foi no entanto libertado por Huwe, o filho de uma anciã a quem ele mitigara o sofrimento no seu leito de morte. Acompanhado pelo mancebo, Ra's regressou à sua tribo em busca de auxílio para levar a cabo a sua vingança. O tio de Ra's, que agora liderava o clã, concordou em lavar a honra do sobrinho com sangue.
Compreendendo a teoria dos germes causadores de doenças centenas de anos antes de qualquer outro cientista, Ra's logrou infetar o príncipe com um vírus mortal enviando-lhe luxuosos tecidos contaminados. Quando o desesperado sultão lhe implorou que curasse novamente o filho, Ra's matou ambos, sem dó nem piedade. Em seguida, ordenou à sua tribo que arrasasse a cidade e massacrasse todos os seus habitantes.
De entre as ruínas fumegantes juncadas de corpos dilacerados, ergueu-se naquele infausto dia a Cabeça do Demónio. Que, desde então, não mais deixou de sombrear de medo as almas dos homens.
Tornado imortal pelo Poço de Lázaro, Ra's passou os séculos seguintes a viajar pelo mundo, tendo Huwe e o tio - também eles imortais - como companheiros nessa longa jornada. Pouco tempo depois de o trio ter assentado arraiais em Londres, Ra's surpreendeu Huwe a escrever as próprias memórias na sua língua materna. Uma inaceitável transgressão que poderia expor ao mundo os segredos da Cabeça do Demónio.
Durante uma batalha da Guerra dos Cem Anos, Ra's matou Huwe e regressou a Londres. Apenas para descobrir que o seu tio havia desparecido, levando consigo os manuscritos do rapaz. Mercê dessa traição familiar (a primeira de muitas), a Cabeça do Demónio passou a exigir devoção cega aos seus seguidores, dispostos a matar e a morrer em seu nome.
Agora um viajante solitário, Ra's contemplou de perto a pior face da Humanidade. Ao longo dos séculos, assistiu de camarote à ópera de horrores que é a História Mundial: uma interminável sucessão de guerras, revoluções e genocídios. Viu como o poder corrompe o coração dos homens, e como estes brutalizam a Mãe Natureza.
Por conta de tudo isto, Ra's começou a desprezar profundamente os seus semelhantes, comparando-os a uma praga que parasita a Terra. Exterminá-la seria, pois, a sua missão sagrada. Mas ele sabia que não poderia cumpri-la sozinho.
Sem nunca parar de acumular riqueza, conhecimento e poder, Ra's al Ghul usou os seus imensos recursos para fundar o Demónio. Uma organização secreta que conspirava nas sombras para restaurar a pureza e harmonia da Terra, diminuindo drasticamente o seu número de habitantes. Dela emanou posteriormente a Liga de Assassinos (ver Miscelânea), cujo objetivo primordial consiste em liquidar os inimigos do Demónio.

Ra's al Ghul fundou a Liga de Assassinos.

À cabeça do seu próprio exército, Ra's pôde, enfim, colocar em prática a sua visão distorcida de justiça. Essa sinistra mistura de darwinismo social e ecoterrorismo fizeram dele uma espécie de extremista bem intencionado, mas nem por isso menos perigoso.
Ra's al Ghul já contava séculos de vida e carregava milhares de mortes na consciência aquando do seu primeiro encontro com o Batman. Este teve lugar pouco tempo depois de o Cavaleiro das Trevas salvar a vida de Talia. Ao saber a filha perdida de amores pelo enigmático campeão de Gotham City, Ra's resolveu investigá-lo. Depressa deduziu que somente Bruce Wayne disporia dos recursos necessários para financiar a sofisticada logística do Batman. Ao invés de divulgar essa informação, preferiu no entanto guardar segredo.
Mais tarde, Ra's engendrou um plano para testar as capacidades do herói. Encenou o rapto de Talia e Dick Grayson e procurou a ajuda de Batman para resgatá-los. A farsa foi, contudo, rapidamente desmontada pelo maior detetive do mundo.
Impressionado com o caráter e as capacidades intelectuais de Bruce Wayne, Ra's ofereceu-lhe o comando da Liga de Assassinos e a mão de Talia. Perante a dupla recusa do herói, Ra's acusou-o de ser o guardião da Sodoma moderna e jurou destruir Gotham.
Nascia assim uma das mais fascinantes rivalidades do Universo DC. Entre Batman e Ra's al Ghul é mais aquilo que os une do que aquilo que os separa. Ambos foram moldados pela tragédia, partilham o mesmo desiderato, admiram-se mutuamente e disputam a lealdade de Talia, cujo coração balança dolorosamente entre o pai e o homem que ama.
Sempre que uma civilização atinge o seu pináculo de decadência, a Cabeça do Demónio ressurge para restaurar o equilíbrio. Depois de ter incendiado Londres e de ter lançado a Peste Negra na Europa, qual será o próximo alvo da sua ira? Seja ele qual for, Ra's sabe que o Cavaleiro das Trevas tudo fará para lhe frustrar os planos.

A Cabeça do Demónio continua a engendrar novos planos genocidas para purgar a Terra.

Miscelânea

*Embora de etimologia árabe, a pronúncia oficial de Ra's al Ghul - Reysh al Gool - é hebraica. Na base desta opção poderá ter estado a proximidade fonética com o vocábulo "resh" que, em Hebreu, significa "chefe" ou "cabeça". Outra possibilidade é ter-se tratado de um subterfúgio da DC para realçar as raízes multiétnicas e multiculturais da personagem;
*Ra's al Ghul faz-se sempre acompanhar de Ubu, um gigante carrancudo que, além de guarda-costas, é também o seu servo mais leal. Na verdade, Ubu não é um nome, mas sim um título atribuído aos homens mais fortes e valentes de um antigo clã do deserto. À luz de cuja tradição servir a Cabeça do Demónio é a maior honra a que qualquer um dos seus membros pode aspirar;

Ubu segue o seu mestre como uma sombra.

*Também conhecida como Liga das Sombras, Sociedade de Assassinos ou Presa do Demónio, a Liga de Assassinos é uma fação do Demónio, a primeira organização secreta fundada, vários séculos atrás, por Ra's al Ghul. Pelas suas fileiras passaram alguns dos mais eficientes e desapiedados assassinos de diferentes épocas, incluindo o mestre arqueiro Merlyn e Lady Shiva (arqui-inimigos, respetivamente, do Arqueiro Verde e da Canário Negro). A partir de uma análise minuciosa dos seus relatórios anuais de atividades, Tim Drake (o terceiro Robin) calculou que a Liga de Assassinos matará a cada mês uma centena de pessoas em todo o mundo. Os métodos, hierarquia e fanatismo dos seus membros evocam a Hashshashin, uma lendária ordem de assassinos fundada na Pérsia no ano 1090 d.C. e que, ao longo dos dois séculos seguintes, expandiu a sua sangrenta influência ao resto do Médio Oriente. Especializada em assassinatos políticos, designadamente de líderes cristãos, era comandada por um misterioso Velho da Montanha, cuja verdadeira identidade permanece um mistério até aos dias de hoje;
*Apesar de se arvorar em defensor dos valores e tradições familiares, Ra's al Ghul foi sempre um pai abusivo. Depois de Nyssa Raatko, a sua filha mais velha, ter desertado da Liga de Assassinos para levar uma vida normal, Ra's deixou-a para morrer num campo de concentração nazi. Por sua vez, Talia, a sua filha favorita, foi submetida, praticamente desde o berço, a uma série de duríssimas provações físicas, mentais e emocionais, para se provar uma digna herdeira do pai. Apesar de a jovem as ter superado a todas sem nunca demonstrar fraqueza, Ra's, o mais antigo dos misóginos, continua a desejar ardentemente um varão para lhe suceder. No entanto, também Dusan, o seu único filho conhecido, foi considerado um herdeiro inadequado, em virtude de ter nascido albino e com uma saúde frágil. Perante estes fracassos filiais e a irredutível recusa do Batman em assumir o controlo do seu império das sombras, Ra's encara agora o seu neto, Damian Wayne (fruto do casamento anulado de Talia e Bruce Wayne), como o candidato ideal para a função;

A prole do Demónio: Talia al Ghul, Nyssa Ratko e Dusan al Ghul.

*Em sinal de deferência e admiração pelas capacidades intelectuais de Bruce Wayne, Ra's al Ghul trata-o sempre por "Detetive", nunca por "Batman" (que considera um simples disfarce). De igual modo, trata o Super-Homem por "Ícone", reconhecendo-o como um símbolo de esperança para o mundo;
*No universo paralelo da Amalgam Comics (iniciativa editorial conjunta Marvel/DC, nos anos 1990), Ra's al Ghul foi fundido com o vilão dos X-Men  Apocalipse, dando origem ao poderoso Ra's Al-Pocalypse;
*Ra's al Ghul surge em 7º lugar na lista dos cem maiores vilões dos comics, divulgada em 2011 pelo site IGN. É, de resto, um dos expoentes de malignidade da DC mais bem cotados, apenas atrás de Darkseid (6º), Lex Luthor (4º) e Joker (2º);
*Emitido em novembro de 1992, o 50º episódio de Batman: The Animated Series marcou a estreia de Ra's al Ghul no segmento audiovisual. Off Balance era baseado no arco de histórias que, duas décadas antes, apresentara a Cabeça do Demónio aos leitores do Homem-Morcego. Foi, no entanto, a participação de Ra's em Batman Begins (2005) a dar-lhe verdadeira ressonância mediática. Depois de ter sido interpretado por Liam Neeson naquele que foi o capítulo inaugural da trilogia cinematográfica do Cavaleiro das Trevas, em 2013, o vilão fez a sua primeira aparição live action no pequeno ecrã, agora vivido pelo australiano Matthew Nable na terceira temporada de Arrow.

As muitas faces de Ra's al Ghul no pequeno e grande ecrã.



*Este blogue tem como Guia de Estilo o Acordo Ortográfico de 1990 aplicado à norma europeia da Língua Portuguesa.
*Artigos sobre Talia al Ghul, Neal Adams e Dennis O'Neill disponíveis para leitura complementar.
















20 maio 2022

ETERNOS: WILLIAM MOULTON MARSTON (1893-1947)

 

  Guru da Psicologia, genialmente excêntrico, escandalizou meio mundo com as suas teorias de género, taras sexuais e poligamia. Nos comics encontrou a boia de salvação para a sua carreira naufragada, fazendo da Mulher-Maravilha um ícone feminista e uma campeã da Verdade, apesar de ser ele próprio  mestre na arte da dissimulação.

Mais bela do que Afrodite, mais sábia do que Atena, mais veloz do que Hermes e mais forte do que Hércules. Diana de Temiscira, conhecida como Mulher-Maravilha no Mundo do Patriarcado, já nasceu sui generis. A despeito de ser a mais famosa das super-heroínas, a Princesa Amazona destoou sempre das suas congéneres. Na exata medida em que o seu autor foi, também ele, uma figura ímpar no mundo dos quadradinhos norte-americanos.
William Moulton Marston não era um escritor frustrado nem um aspirante a artista. Era um polímata, um académico reverenciado com extensa e eclética obra publicada. Isto, claro, antes do anátema que lhe foi lançado por conta da sua indecorosa vida pessoal. Muito antes do amor livre propalado pelo movimento hippie, Marston vivia uma relação polígama com três mulheres igualmente brilhantes e excêntricas. Numa época em que as descendentes de Eva eram ainda consideradas cidadãs de segunda, ele foi um dos primeiros homens a abraçar a militância feminista. Marston era, também, um fervoroso adepto da amarração erótica (vulgo bondage), numa variante menos adocicada do que aquela que foi descrita em As Cinquenta Sombras de Grey. E porque a arte imita a vida, a Mulher-Maravilha começou por refletir as facetas mais controversas do seu criador. 

Se por trás de um grande homem há sempre uma grande mulher,
por trás da Mulher-Maravilha esteve um homem controverso.

Homem dos mil ofícios e das mil máscaras, habituado a camuflar-se na floresta de lugares-comuns que serve de habitat às pessoas ditas normais, Marston é um enigma ainda não totalmente decifrado. Mas um que vale a pena perscrutar, no pressuposto que a realidade será tão (ou mais) fascinante do que a ficção. Não por acaso, as peripécias biográficas do "pai" da Mulher-Maravilha foram adaptadas ao cinema. Seguem-se as coordenadas para explorar tão complexa personagem.
William Moulton Marston nasceu a 9 de maio de 1893 em Saugus, pequena cidade industrial do Massachusetts onde, no segundo quartel do século XVII, foram instaladas as primeiras siderúrgicas integradas da América do Norte. Único filho de um casal abastado, cresceu rodeado de privilégio e de mulheres fortes e independentes, com a mãe e as tias solteironas a moldarem-lhe a personalidade. Pouco mais se conhece da sua infância, marcada por uma mui precoce volúpia pelo conhecimento que o acompanharia pelo resto da vida.
Aos 17 anos, Marston foi admitido na prestigiadíssima Universidade de Harvard, onde começou por estudar Direito. Apesar da sua reconhecida capacidade intelectual, os primeiros tempos na instituição foram pouco auspiciosos. As más notas a algumas disciplinas levaram-no mesmo a ponderar o suicídio, com recurso a uma cápsula de cianeto. Repensou, no entanto, essa sua macabra decisão quando Emmeline Pankhurst, a maior referência do sufragismo britânico, foi proibida de discursar no campus. Indignado com aquele tratamento ultrajante a uma das suas heroínas de infância, Marston encontrou novo propósito de vida na revolução sexual que dava então os primeiros passos. Nesse sentido, dedicou-se aos estudos com redobrado afinco.
Do namoro inconsequente do jovem Marston com o cianeto, resultaria, em 1942, a criação da Doutora Veneno. Génio da química ao serviço do Eixo, foi ela a primeira supervilã fantasiada das histórias da Mulher-Maravilha.


Marston durante os seus tempos de estudante em Harvard.

Em 1918, Marston licenciou-se em Direito com Phil Beta Kappa, honraria académica outorgada aos melhores alunos a nível nacional. Três anos mais tarde, animado pelo seu fascínio pela mente humana, averbou ao currículo um doutoramento em Psicologia, área em que alcançaria maior notoriedade. Ironicamente, Marston teve como mentor Hugo Münsterberg, acérrimo opositor da concessão do direito de voto às mulheres. As posições misóginas de Münsterberg serviriam de matéria-prima para a criação, em 1943, de outro inimigo clássico da Princesa Amazona: o Doutor Psycho.
Foi também durante os seus tempos de estudante em Harvard que Marston conheceu a sua alma gémea. Elizabeth Holloway era aquilo que a gíria da época designava como "amazona": uma mulher culta, rebelde e emancipada. Além do feminismo e das insígnias académicas, o casal de intelectuais progressistas tinha em comum o bondage como fetiche sexual.
Marston e Elizabeth trocaram alianças em 1915, ano em que colaboraram também no desenvolvimento da segunda invenção mais famosa do criador da Mulher-Maravilha: o polígrafo. Enquanto o casal estudava a tensão arterial para a dissertação de Marston, Elizabeth reparara que esta subia em função do seu grau de excitação ou nervosismo. Do aprofundamento da pesquisa resultou a criação do teste da pressão arterial sistólica, antecessor do moderno detetor de mentiras.
Alguns historiadores sugerem, todavia, que o mérito da invenção terá pertencido, por inteiro, a Elizabeth Holloway, que terá permitido que o marido a apresentasse como sua. Depois de Harvard lhe ter barrado a entrada apenas por causa do seu género, ela sabia que qualquer descoberta científica apresentada por uma mulher incorreria no desdém dos seus pares masculinos. Conjeturas à parte, certo é que a engenhoca também seria incorporada no imaginário da Mulher-Maravilha, sob a forma de um laço mágico que compele os cativos a falarem verdade.

Marston (dir.) supervisiona um teste do polígrafo.

Ao serviço do Exército americano durante a I Guerra Mundial, Marston tentou, sem sucesso, vender o seu teste da pressão arterial sistólica ao Governo. Marston considerava-o um método simples e eficaz para desmascarar espiões, mas o ceticismo das autoridades inviabilizou o negócio. Apesar de frequentemente utilizado em julgamentos e interrogatórios policiais nos EUA, o detetor de mentiras (patenteado, em 1921, por John Larson com base nas descobertas de Marston) continua a ter a sua fiabilidade contestada pela Associação Americana de Psicologia.
O regresso de Marston à vida civil assinalou também o seu regresso ao meio académico. Em 1922, começou a dar aulas de Psicologia nas universidades de Washington D.C, e de Medford (no seu Massachusetts natal) ao mesmo tempo que escrevia ensaios sobre bondage e livros de autoajuda. 
No auge da luta das mulheres americanas pelo direito ao voto, Marston era habitué nas passeatas organizadas pelas sufragistas. Foi numa delas que conheceu uma recatada, porém obstinada, bibliotecária chamada Marjorie Huntley. Os dois perderam-se de amores um pelo outro, e Marston convenceu a esposa a acolher a amante na residência do casal, onde o trio coabitou maritalmente durante vários anos. Com o tempo, Marjorie passaria no entanto de residente a hóspede ocasional na casa dos Marstons.
Em 1925, na berlinda por causa das suas teorias relacionadas com as emoções humanas, Marston teve o coração arrebatado por uma das suas mais jovens e promissoras alunas. Olive Byrne tinha pedigree feminista, uma vez que era filha e sobrinha das mulheres - Ethel Byrne e Margaret Sanger - que, uma década antes, tinham feito História ao abrirem a primeira clínica de controlo de natalidade em terras do Tio Sam.
Dona de um corpo escultural e de uma mente irrequieta, Olive era também uma ninfómana entusiasta das práticas BDSM. Credenciais mais do que suficientes para fazer dela o novo elemento do culto de amor livre secretamente desenvolvido por Marston. Formava-se assim o triângulo amoroso que daria ao mundo a sua maior super-heroína.

O ménage à trois que deu origem à Mulher-Maravilha.

Por menos ortodoxa que fosse a vida familiar de William Moulton Marston, as mulheres pareciam ser, em última análise, as principais beneficiadas. Marston concebeu dois filhos com Elizabeth e outros tantos com Olive. Enquanto esta ficava em casa a cuidar das quatro crianças, Elizabeth e o marido podiam concentrar-se nas suas carreiras académicas. De quando em quando, Olive também dava o seu contributo para o orçamento familiar escrevendo artigos para a Family Circle. Distribuída em mercearias e postos de combustível, era uma revista muito popular entre as donas de casa, que nela encontravam dicas e conselhos para serem verdadeiras fadas do lar. Na maior parte das vezes, os textos de Olive, assinados com o pseudónimo Olive Richard, ensinavam as leitoras a educarem os filhos da forma mais tradicional possível...
A fim de manterem as aparências, os Marstons, quando questionados sobre Olive, diziam tratar-se de uma cunhada, viúva e desamparada, que eles, num gesto de caridade, haviam contratado como governanta. Apesar de viverem sob o mesmo teto do pai, aos filhos de Olive foi contada a mesma patranha e, por isso, cresceram julgando-se órfãos. Só em adultos ficariam a conhecer a sua verdadeira filiação e a verdadeira natureza da relação dos seus progenitores.

 O clã Marston escondia muitos segredos.

Nem mesmo um mestre na arte da dissimulação consegue no entanto enganar toda a gente durante todo o tempo. Quando, por fim, a poligamia de Marston foi exposta, os seus pares passaram a tratá-lo como um leproso, culminando na sua expulsão de todas as universidades onde lecionava. Caído em desgraça, o guru da Psicologia passaria a maior parte da década de 1930 desempregado e sustentado pela esposa.
A sua derrocada profissional principiara, contudo, alguns anos antes. Em 1923, Marston andara nas bocas do mundo pelos piores motivos. Após a falência da sua empresa de vestuário, fora acusado de fraude comercial. Apesar das acusações terem sido entretanto retiradas, Marston sofreu graves danos reputacionais por conta desse escândalo.
Outra razão que ajuda a explicar o gradual isolamento de Marston no meio académico foram as suas radicais teorias de género. Ele considerava os homens agressivos por natureza, logo propensos a conflitos. Acreditava, por outro lado, na superioridade das mulheres, descritas como mais honestas e eficientes, ainda que submissas. Numa das raras palestras que proferiu após o naufrágio da sua carreira como psicólogo, Marston defendeu mesmo que o mundo só viveria em paz quando fosse governado pelo sexo feminino. Nos comics, Marston encontraria, inesperadamente, um veículo privilegiado para as suas teses.
Devido ao seu baixo custo, as histórias aos quadradinhos eram uma das formas de escapismo mais populares durante a Grande Depressão. Com o advento dos super-heróis, nos anos terminais da década de 1930, a indústria entrou em franca expansão. Novos títulos e novos personagens eram lançados em barda por uma pletora de editoras. Não faltava, contudo, quem apontasse o excesso de violência dos justiceiros fantasiados,  que preferiam a lei da força à força da Lei. Nos jornais da época, editoriais inflamados comparavam-nos aos fascistas que assolavam o continente europeu. Alguns iam ainda mais longe nos seus impulsos farisaicos, apelidando os super-heróis de desgraça nacional, responsabilizando--os pela corrupção moral da juventude americana.
Marston, ao invés, reconhecia elevado potencial pedagógico às histórias de super-heróis, e deu conta disso mesmo numa extensa entrevista concedida a Olive Byrne para a Family Circle. Publicado em outubro de 1940, sob o sugestivo título Don't Laugh at the Comics (Não se riam dos comics), o artigo captou a atenção de Maxwell C. Gaines, editor e cofundador da All-American Publications (antepassada da DC). Gaines - que, ao que tudo indica, ignorava o lastro de escândalos e polémicas de Marston - apressou-se a contratá-lo como consultor educativo do seu Conselho Editorial.

Os comics relançaram a carreira de Marston, que lhes dedicou os últimos anos de vida.

Face à predominância masculina e ao culto da violência que caracterizavam a subcultura dos super-heróis, Marston, por sugestão da esposa, propôs a criação de uma heroína que, em vez da força bruta, usasse o amor como arma principal no combate ao Mal. Max Gaines deu o seu aval à ideia, mediante a condição de que fosse o próprio Marston a desenvolvê-la. Desafio que ele, apesar da sua inexperiência,  não se fez rogado em aceitar.
Mais do que uma mera interação feminina do Super-Homem ou do Batman, Marston tinha em mente uma heroína que fosse um modelo para as jovens, inspirando-as a baterem-se pelos seus direitos e a alcançarem sucesso em áreas dominadas pelos homens. Nesse sentido, apetrechou-a com o caráter e a inteligência de Elizabeth Holloway, e a sensualidade e sensibilidade de Olive Byrne. A mulher ideal começava lentamente a tomar forma, mas era preciso transpô-la para o papel.
Essa tarefa coube a Harry G. Peter, escolhido por Marston por se tratar de um artista veterano famoso pelos seus cartoons pró-sufragistas. Peter preferiu, todavia, usar as voluptuosas pin-ups da Esquire como modelos anatómicos da nova musa de tinta.
Marston começou por crismar a sua criação de Suprema, the Wonder Woman, mas Max Gaines abreviou-lhe o nome. No jargão da época, "wonder woman" designava uma mulher excecionalmente talentosa, pelo que o título lhe assentava como uma luva.

Esboço inicial da Mulher-Maravilha com anotações manuscritas de Marston.

Coincidindo com o ataque japonês a Pearl Harbor, a Mulher-Maravilha debutou discretamente em dezembro de 1941, na oitava edição de All-Star Comics. A sua origem bebia diretamente na mitologia grega: Diana era a princesa das Amazonas, uma tribo de ferozes guerreiras que viviam insuladas numa utopia feminista chamada Ilha Paraíso. Moldada no barro pela mãe - a Rainha Hipólita - , Diana fora agraciada pelo Olimpo com poderes divinos. Ao atingir a idade adulta, trocara a Ilha Paraíso pelo convulso mundo dos homens.
Sempre com o laço mágico à ilharga, Diana era também inseparável das suas refulgentes braceletes, inspiradas no mesmo adereço usado por Olive Byrne para simbolizar a sua união sigilosa com William Moulton Marston. Com elas, a Princesa Amazona defletia as balas disparadas pelos soldados nazis e pelos malfeitores que tinha inicialmente como inimigos.
Apreciada, em idêntica medida, pelo público masculino e feminino (embora o primeiro, para frustração de Marston, continuasse a ser largamente maioritário), a Mulher-Maravilha recebeu a sua própria série periódica apenas seis meses após ter sido apresentada ao mundo. Apesar do sucesso, a Princesa Amazona não escapou às críticas. Por conta da sua vestimenta sumária e das suas poses reveladoras, a Organização Nacional para a Literatura Decente, fundada por bispos católicos, incluiu Wonder Woman no seu índex.

A Mulher-Maravilha passou a estrelar a sua própria revista em junho de 1942.
.Foram, contudo, as recorrentes cenas de bondage a suscitar as críticas mais acerbas. Nas erotizadas histórias escritas por Marston sob o pseudónimo Charles Moulton, a Mulher-Maravilha passava boa parte do tempo amarrada, acorrentada e/ou amordaçada. As correntes constituíam, com efeito, um elemento simbólico fundamental no imaginário da heroína, representando a sua principal fraqueza. Assim como o Super-Homem era vulnerável à kryptonita, a Mulher-Maravilha ficava enfraquecida quando um homem a manietava. 
Ao coro de críticas, Marston - que, entretanto, assumira a "paternidade" da Mulher-Maravilha - respondeu dizendo que as correntes eram uma alegoria para a emancipação feminina. Marston crescera a admirar as sufragistas, que tinham por hábito acorrentar-se a vedações como forma de protesto contra a sonegação de direitos.
Metaforicamente, a criação da Mulher-Maravilha foi também a reação da alma feminina, mesmo tendo um homem como porta-voz, contra a tirania do patriarcado que há muito havia lançado às mulheres as algemas da escravidão. Era, pelo menos, essa a interpretação de Marston e das suas companheiras que o assessoravam na produção das histórias.

A Mulher-Maravilha perdia os seus poderes quando manietada por homens.
Imune a todas as polémicas que a circundavam, a Mulher-Maravilha depressa consolidou o contraditório estatuto de ícone feminista e símbolo sexual. No campeonato da popularidade, perdia apenas para Batman e Super-Homem, ofuscando todas as imitações entretanto lançadas pela concorrência. No entanto, Marston não viveria muito mais tempo para acompanhar a fulgurante trajetória da sua criação.
William Moulton Marston morreu de cancro da pele em maio de 1947, uma semana antes de completar 54 anos. Previdente, assinara um lucrativo contrato com a DC, obrigada a publicar um mínimo de quatro edições anuais da Mulher-Maravilha, sob pena de perder os respetivos direitos. Em resultado dessa salvaguarda jurídica, Marston foi um dos raros autores da Idade de Ouro a enriquecerem com a sua criação. Dessa forma garantiu também a segurança financeira dos membros sobreviventes da sua família, designadamente das suas duas "esposas", que continuaram a viver juntas após a sua partida do mundo terreno.
Embora muitos continuem a considerar Marston um pervertido que, a pretexto do feminismo, promoveu os seus fetiches sexuais, foi ele o criador da maior super-heroína de todos os tempos. Cuja força, coragem e compaixão continuam a inspirar pessoas em todo o mundo. Como bem comprovou, aliás, a  nomeação, em 2016, da Mulher-Maravilha para Embaixadora Honorária da ONU para a igualdade de género. Título que, apesar de ter sido revogado pouco tempo depois, decerto faria com que o seu criador vertesse lágrimas de esplendor.

Sem a Mulher-Maravilha, o nome e obra de Marston
 teriam sido engolidos pelas brumas da memória.



*Este blogue tem como Guia de Estilo o Acordo Ortográfico de 1990 aplicado à norma europeia da Língua Portuguesa.











 
 



















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09 abril 2022

HERÓIS EM AÇÃO: FANTASMA


  Dizem que tem a força de dez tigres; que marca para sempre os seus inimigos; que não pode morrer nem ser morto. Temida e reverenciada, a lenda do Espírito-Que-Anda nasceu nas misteriosas selvas de Bangalla, cresceu com os séculos e assombra o mundo inteiro. 

Denominação original: The Phantom
Licenciador: King Features Syndicate
Criador: Lee Falk
Estreia: The Singh Brotherhood (tira diária cujo capítulo inicial foi publicado a 17 de fevereiro de 1936)
Identidade civil: Christopher "Kit" Walker
Espécie: Humano
Local de nascimento: Caverna da Caveira, nas profundezas da Floresta Negra de Bangalla.
Parentes conhecidos: Christopher Walker (pai, falecido); Maude Thorne McPatrick (mãe, falecida); Diana Palmer (esposa); Kit e Heloise Walker (filhos); Rex King (filho adotivo); todos os anteriores Fantasmas (antepassados).
Ocupação: Guardião da Floresta Negra e comandante-em-chefe da Patrulha da Selva.
Base operacional: Caverna da Caveira
Afiliações: Patrulha da Selva
Némesis: Irmandade Singh
Poderes e parafernália: Dizem que tem a força de dez tigres; que tem mil olhos e tudo vê; que vive há mais de 400 anos. Por mais exagerados que sejam os rumores relacionados com os pretensos poderes sobrenaturais do Fantasma, nem por isso ele deixa de ser um oponente temível para quem incorre na sua fúria.
Todas as encarnações do Espírito-Que-Anda são treinadas desde tenra idade numa ampla variedade de técnicas de sobrevivência e em modalidades olímpicas tão diversificadas como natação, halterofilismo ou salto em comprimento e altura. Em resultado dessa rigorosíssima preparação física, cada Fantasma possui força, velocidade, agilidade e resistência superiores às de um ser humano comum. Complementarmente, todos os Fantasmas recebem treino intensivo no manuseio de diferentes tipos de armamento. Ainda que sejam tradicionalmente exímios espadachins, é nas pistolas que têm as suas armas de eleição. Segundo um velho ditado da selva, o Fantasma atira mais rápido do que os olhos conseguem acompanhar e nunca erra o alvo. Salvo, porém, em situações de legítima defesa, o seu restrito código de ética proíbe-o de empregar força letal. Em vez disso, o Fantasma prefere fazer uso da sua pontaria afinada para desarmar os seus atacantes. 
No cinturão de couro herdado dos seus antepassados, o atual Fantasma carrega um par de pistolas semiautomáticas M1911, calibre .45 e de fabrico americano. Em alternativa, pode recorrer ao punhal que traz escondido nas botas de cano alto. Na maioria das situações, depende no entanto apenas da sua força e astúcia.

"Nunca apontes uma arma ao Fantasma." (Velho ditado da selva)

Apesar de o Fantasma possuir uma mente arguta, é o seu poderio físico que mais atemoriza os malfeitores. Quando em combate, ele nunca pára, nunca abranda, cada movimento encadeado com o seguinte, numa aterradora erupção de violência. Os seus punhos são demolidores, os seus reflexos felinos, o seu vigor inesgotável.
Dono de um físico imponente e de uma voz de trovão capaz de gelar o sangue nas veias, o Fantasma, à luz do dia ou na escuridão da noite, é sempre uma presença intimidante. As suas aparições provocam arrepios glaciares mesmo aos mais embrutecidos. Quando ele fala, é sábio ouvi-lo. Quando ele pergunta, é ainda mais sábio responder-lhe sem rodeios.
Passados de pai para filho, os dois anéis de sinete usados pelo Fantasma desempenham funções díspares e possuem origens tão enigmáticas como o seu usuário. Na mão esquerda, mais próxima do coração, o herói usa um anel com quatro sabres cruzados, a chamada Marca do Bem. É com ela que o Espírito-Que-Anda assinala os povos e territórios sob sua proteção. Reza a lenda que a joia terá sido criada depois de o 6º Fantasma ter fundado a Patrulha da Selva (ver Miscelânea). Na mão direita, a sua preferida para esmurrar, o Fantasma usa um anel com a efígie de uma caveira humana, a infame Marca do Mal. Quem a tem tatuada na pele é seguramente um facínora da pior espécie.

As marcas do Fantasma.

Na versão original, narrada nas tiras assinadas por Lee Falk, o anel da caveira é feito de ouro e foi uma oferenda de chefes tribais ao primeiro Fantasma em reconhecimento pela paz e justiça que ele trouxera à selva. Outra versão, apresentada nas histórias atuais do herói produzidas na Escandinávia, afirma que a joia terá tido como proprietário original o imperador romano Nero antes de Paracelso, alquimista suíço do século XVI, a ter ofertado ao primeiro Fantasma. Envoltos numa aura de mistério e misticismo, aos anéis são atribuídos poderes sobrenaturais pelos nativos de Bangalla.
Fundamentais para a missão predestinada de cada Fantasma são também os ensinamentos dos seus ancestrais, compilados sob a forma de crónicas arquivadas na biblioteca da Caverna da Caveira. Um imenso repositório de informação e saber acumulados ao longo de séculos, apenas acessível ao mais recente herdeiro da linhagem.
Na sua eterna cruzada contra o Mal, o atual Fantasma conta com a preciosa ajuda de dois escudeiros quadrúpedes: Diabo, um lobo cinzento frequentemente confundido com um cão, e Herói, um magnífico garanhão branco que lhe serve de montaria. Aos Bandar, agora chefiados por Guran, amigo de infância de Kit Walker, compete zelar pela segurança da família do Espírito-Que-Anda durante as suas ausências.
Sempre que o perigo ronda a Floresta Negra, tambores frenéticos convocam o Espírito-Que-Anda. Porque a lei na selva é a lei do Fantasma.

O Fantasma e as suas mascotes em patrulha na selva.

Fraquezas: À semelhança de qualquer outra figura mítica, é na superstição que o Fantasma tem a verdadeira fonte do seu poder. A sua temível reputação assenta, em primeiro lugar, na crença enraizada de que ele é um espírito imortal. Se o soubessem humano, os seus inimigos passariam decerto a temê-lo menos. 
Para preservar a lenda que o rodeia, o Fantasma desafia constantemente a morte executando ações tão temerárias quanto perigosas. Saltar de penhascos, lutar com tigres ou nadar com tubarões são alguns exemplos. Tratando-se de um homem de carne e osso, essas situações podem facilmente ter um desfecho trágico. Ademais, como sucede em qualquer linhagem, existe o risco real de o Fantasma perecer antes de assegurar descendência, comprometendo irremediavelmente o futuro daquela que é uma das mais longevas dinastias da História.

O Fantasma já enfrentou tigres de mãos desnudas.


Ícone global

Quase tão antiga como a dúvida acerca do ovo e da galinha é a discussão sobre quem foi, afinal, o primeiro super-herói. A generalidade dos historiadores atribui esse estatuto ao Super-Homem que, como é consabido, foi apresentado ao mundo em junho de 1938, no número inaugural de Action Comics. É facto inconteste que Kal-El foi o primeiro justiceiro fantasiado com poderes semidivinos. Mas não foi ele que prenunciou um figurino que se tornaria moda nos anos imediatos. Essa honra reverte para outra personagem que marcou de forma indelével a cultura popular: o Fantasma.
Dois anos antes de o Homem de Aço colocar a sua capa de campeão dos fracos e oprimidos, já o Fantasma usava um uniforme justo e uma mascarilha para servir justiça nas exóticas selvas de Bangalla. Foi também ele o primeiro herói dos quadradinhos a ter um alter ego, um símbolo estilizado e um esconderijo secreto. Apesar da ausência de superpoderes, não há como negar que o Fantasma introduziu vários elementos definidores do conceito de super-herói. A grande diferença é que ele não teve origem nos comics.
Desde o final do século XIX que as tiras de quadradinhos marcavam presença nos jornais norte-americanos. Com a criação dos syndicates - agências de produção e distribuição desse tipo de material - , elas popularizaram-se ainda mais, sendo apreciadas, em igual medida, por miúdos e graúdos. No início dos anos 30, esse apetecível mercado era dominado pela rivalidade entre a King Features Syndicate e a John F. Dille Company.
Na esteira do notável sucesso da tira Mandrake, the Magician - desenvolvida um par de anos antes por Lee Falk - , em 1936 a King Features Syndicate pediu ao autor que criasse uma segunda personagem para ser publicada naquele formato. Fascinado desde os seus tempos de meninice por mitos e lendas, bem como por figuras romanescas emanadas da literatura do início do século XX, Falk propôs inicialmente revisitar as aventuras do Rei Artur e dos Cavaleiros da Távola Redonda. Quando a King Features Syndicate rejeitou a ideia, Falk resolveu criar um justiceiro mascarado ao estilo de Zorro, um dos seus ídolos de infância.

Lee Falk (1911-1999) deu ao mundo dois dos seus maiores heróis.

Na conceção do novo herói, Falk incorporou também elementos de Tarzan, Robin Hood e do Livro da Selva, de Rudyard Kipling. Após alguma hesitação relativamente ao nome, decidiu-se simplesmente por The Phantom. Considerando existirem já demasiadas personagens com The Phantom no nome (The Phantom Detective, The Phantom of the Opera, etc.),  Falk considerara previamente batizar a sua nova criação de The Grey Ghost (O Fantasma Cinzento).
Falk começou por idealizar o Fantasma como um vigilante urbano de hábitos noctívagos a que Jimmy Wells, um playboy milionário (soa-vos familiar?), serviria de identidade civil. Enquanto escrevia a sua primeira história - The Singh Brotherhood - Falk teve no entanto uma ideia melhor. De uma penada, transplantou a ação para a selva e estruturou a história do Fantasma como uma saga familiar. Aos olhos das supersticiosas tribos locais, ele era o Espírito-Que-Anda, um ser sobrenatural que não podia morrer nem ser morto. Mas, na verdade, o Fantasma era o 21º representante de uma linhagem de vingadores mascarados, fundada séculos atrás na Floresta Negra de Bangalla. De geografia imprecisa, esta nação imaginária ficava inicialmente localizada na Ásia - algures no golfo de Bengala - sendo posteriormente deslocada para a costa oriental africana.
Quando, a 17 de janeiro de 1936, fez a sua estreia no New York Journal American, o Fantasma surpreendeu os leitores com o seu visual extravagante, em que sobressaía a máscara sem pupilas visíveis. Uma ideia que Lee Falk retirara dos bustos gregos para lhe conferir uma aparência mais inumana, ignorando que as pupilas eram pintadas mas acabavam por ser apagadas pela erosão do tempo. De todo o modo, essa continua a ser ainda hoje uma das imagens de marca de qualquer super-herói que se preze.

A máscara do Fantasma tornou-se icónica.

Superando as melhores expectativas da King Features Syndicate, o sucesso do Fantasma rapidamente extravasaria fronteiras, tornando-se um fenómeno de popularidade à escala planetária. No seu auge, por volta de 1966, as tiras do Fantasma, à época ilustradas por Sy Berry, eram publicadas diariamente em 600 jornais de todo o mundo, atingindo dessa forma uma audiência estimada em mais de 100 milhões de leitores.
Por razões de ordem diversa - que iam desde preferências cromáticas a (im)possibilidades gráficas - o roxo oficial do uniforme do Fantasma (que o próprio Falk relutou em reconhecer) deu lugar a outras cores em alguns dos países onde o herói granjeou mais admiradores. Se no Brasil e na Itália se privilegiou o vermelho, nas nações escandinavas foi o azul a prevalecer. Já em Portugal, onde aportou em junho de 1940 (quatro anos depois de ter desembarcado em terras de Vera Cruz), o Fantasma trajou tanto de vermelho como de roxo.


Em Portugal, o Fantasma já vestiu de roxo e vermelho.

Nos comics, o longo percurso do Fantasma iniciou-se na década de 40 com a republicação das suas tiras pela David McKay Publications. Histórias inéditas só a partir de 1962, sob a chancela da Gold Key. Depois de passagens fugazes pela Marvel e pela DC nos anos 80, coube, já neste século, à Moonstone e à Dynamite Entertainment reapresentar este herói clássico a uma nova geração de leitores. 
Curiosamente, ontem como hoje, a popularidade do Fantasma continua a ser maior extramuros do que nos EUA. Suécia, Índia e Austrália são alguns dos países onde as suas legiões de fãs deixam os heróis Marvel e DC roídos de inveja. Em todas essas latitudes existe também produção própria de histórias do Espírito-Que-Anda.
Desde 2018 que o Livro Guiness dos Recordes reconheceu oficialmente o Fantasma como o mais antigo dos super-heróis. Mas nem isso encerrou a discussão, que continua a fazer correr rios de prosa. Alguns historiadores continuam a preferir classificá-lo como uma das chamadas personagens de transição; aquelas que, nos anos 1930, fizeram a ponte entre os heróis da literatura pulp e dos folhetins radiofónicos e os super-heróis da banda desenhada, pavimentando dessa forma o caminho para a Idade de Ouro dos comics.
O Fantasma poderá até nem ter sido o primeiro super-herói, mas foi o primeiro ícone global com origem nos quadradinhos. Passou com louvor no teste do tempo e continua a fazer jus à sua fama imorredoura.

As tiras do Fantasma continuam a ser publicadas em jornais de todo o mundo.

Dinastia da Caveira

Apesar de ser o guardião da Floresta de Bangalla há mais de 400 anos, a fascinante história do Fantasma começou a ser escrita do outro lado do mundo, em terras de Sua Majestade. Rezam as crónicas que Christopher Standish nasceu no ano da graça de 1516, na cidade portuária inglesa de Portsmouth. O seu pai, de quem herdara o nome e a paixão pelo mar, fora grumete na nau Santa Maria que levara Cristóvão Colombo à América.
Em 1536, com apenas 20 anos de idade, Christopher participou naquela que deveria ter sido a viagem de despedida do seu pai, agora capitão do próprio navio. A maré do destino mudou tragicamente quando, ao largo da costa de Bangalla, foram atacados por piratas da Irmandade Singh.
Antes de perder a consciência e cair ao mar, Christopher teve um vislumbre do pai a ser assassinado pelo líder dos piratas que lhes haviam também chacinado a tripulação. Enquanto o corpo inerte de Christopher era arrastado pelas ondas, uma violenta explosão afundou as duas embarcações.
Único sobrevivente daquele brutal ataque em alto-mar, Christopher naufragou numa praia de Bangalla, onde foi encontrado por uma tribo de pigmeus. Os Bandar acolheram-no na sua aldeia e cuidaram dele até ficar restabelecido.
Dias mais tarde, ao passear pela mesma praia onde naufragara, Christopher deparou-se com um cadáver em decomposição, que reconheceu como o assassino do seu pai. Quando os abutres acabaram de banquetear-se, Christopher jurou sobre o crânio descarnado do pirata devotar a sua vida - e a dos seus descendentes - a combater a ganância, a crueldade e a injustiça em todas as suas formas. O mesmo juramento sagrado prestado por todos aqueles que, no curso dos séculos, assumiram o manto do Fantasma.

A origem do Fantasma recontada numa das suas tiras dominicais coloridas.

Quando, por fim, aprendeu o dialeto dos Bandar, Christopher descobriu que eles eram há muito escravizados por uma tribo rival, os Wazaka. Os pigmeus que o haviam resgatado eram, afinal, apenas um pequeno grupo que lograra escapar do cativeiro. Christopher ficou também a conhecer uma antiga profecia Bandar sobre um homem vindo do oceano para lhes devolver a liberdade.
Confiante de que seria ele o salvador profetizado, Christopher dirigiu-se à vila dos Wazaka para exigir a imediata libertação dos Bandar. Em vez disso, acabou amarrado a um altar para ser sacrificado a Uzuki, o deus-demónio adorado pelos Wazaka.
Novamente resgatado pelos Bandar de uma morte certa, Christopher resolveu tirar proveito da superstição dos selvagens. Após confecionar um traje roxo inspirado no ídolo de Uzuki, regressou à vila dos Wazaka. Estes. crendo estarem na presença do seu deus-demónio, libertaram de pronto os Bandar.
Em sinal de apreço, os Bandar mostraram a Christopher uma caverna com a macabra forma de uma caveira humana. Fazendo dela a sua nova morada, Christopher continuou a servir justiça na Floresta Negra. Nascia assim a lenda do Fantasma. Reverenciada pelos justos, temida pelos ímpios e que o vento que dispersa os anos carregou para os quatro cantos do mundo.

A Caverna da Caveira encerra incontáveis segredos.

Quando o primeiro Fantasma morreu, o seu filho tomou-lhe o lugar. E o mesmo vem acontecendo desde há séculos, originando o mito da imortalidade do Espírito-Que-Anda. Apenas os Bandar conhecem a verdade por detrás do mito. Mas esse é um segredo que eles levarão para o além-túmulo.
Tal como os seus antepassados, Kit Walker, o 21º Fantasma, teve a Caverna da Caveira como berço. Diz-se que "fantasma" terá sido a primeira palavra a sair-lhe da boca. Depois de ter sido iniciado pelo pai e pelos Bandar nos segredos da selva, aos 12 anos Kit foi enviado para os EUA. A tradição familiar determina que o próximo representante da dinastia da caveira passe a puberdade no torrão natal da sua mãe. A ideia é incutir-lhe um sentimento de pertença a um mundo muito mais vasto do que a Floresta Negra.
Após uma difícil adaptação aos costumes da civilização, Kit destacou-se nos estudos e no desporto. As suas extraordinárias aptidões atléticas permitiram-lhe, inclusive, levar de vencida o campeão mundial de boxe em pesos-pesados, durante uma exibição na sua escola. Seguindo as pisadas paternas, foi também na Terra das Oportunidades que Kit conheceu o amor da sua vida: Diana Palmer. Nela, o Fantasma encontrou uma companheira para a vida e por ela vai ao fim do mundo e mais além.
Recém-saído da faculdade, Kit foi convocado de volta a Bangalla. O seu pai, ferido em combate com a Irmandade Singh, agonizava no leito da morte. Cumprindo um ritual multissecular, Kit sepultou o progenitor na Caverna da Caveira antes de assumir o manto do Fantasma. Anos mais tarde, Kit fez de Diana Palmer a sua esposa e da união do casal nasceram os gémeos Kit e Heloise.
O Espírito-Que-Anda continua a assombrar a Floresta Negra, sabendo que, um dia, o seu primogénito lhe sucederá. 

Sempre que um Fantasma morre, o seu primogénito sucede-lhe.


Miscelânea

*Se Espírito-Que-Anda e O Homem Que Não Pode Morrer são epítetos cunhados pelos habitantes da Floresta Negra que ajudam a perpetuar o mito da imortalidade do Fantasma, a origem de Guardião das Trevas Orientais é mais obscura. O Fantasma foi assim cognominado em alusão a Dakk, uma imensa região inexplorada no coração de Bangalla outrora habitada por tribos ferozes, cujo modo de vida envolvia escravatura, fanatismo religioso e sacrifícios humanos. Não obstante os antepassados do atual Fantasma terem posto fim a esse conjunto de práticas ignominiosas, Dakk continua a ser um paraíso criminal que prospera graças ao terrorismo, narcotráfico e contrabando de armas. Algumas histórias sugerem que os governantes de Dakk serão descendentes de piratas da Irmandade Singh, logo inimigos jurados do Fantasma;
*Caçadores furtivos, contrabandistas, ditadores, esclavagistas e, claro, piratas integram a bem nutrida lista de inimigos do Fantasma. Nenhum deles representa, porém, uma ameaça tão temível e imorredoura como a Irmandade Singh. Ativa há séculos, esta implacável confraria de malfeitores está inextricavelmente ligada à origem da lenda do Espírito-Que-Anda e foi responsável pela morte do pai do atual Fantasma. Em virtude de Singh ser um apelido assaz comum na Índia, na década de 70 Lee Falk renomeou o grupo de Irmandade Sengh (por vezes grafada também como "Sanngh" ou "Singgh"), para evitar melindrar os leitores daquele país asiático onde o Fantasma goza de enorme popularidade. Contudo, a nova designação não vingou junto do público americano e a original depressa foi reposta;

Dogai Singh, um dos mais desapiedados líderes da Irmandade Singh.

*As tiras do Fantasma desempenharam um pequeno, porém relevante, papel na II Guerra Mundial. Quando as tropas de Hitler ocuparam a Noruega, os jornais locais - numa tentativa dos invasores para desmoralizar a população - foram obrigados a publicar notícias falsas relacionadas com o colapso dos EUA. Os mesmos jornais continuavam no entanto a incluir as historietas do Espírito-Que-Anda, que os noruegueses, ao contrário dos alemães, sabiam tratar-se de uma produção americana que desmentia a propaganda nazi. O Fantasma deu, desse modo, alento ao povo norueguês para continuar a lutar pela liberdade, e o seu nome era uma das senhas mais utilizadas pela Resistência local;
*Ainda durante a II Guerra Mundial, as provisões enviadas para os soldados aliados estacionados na Papua Nova Guiné incluíam por vezes revistas de banda desenhada, que eles partilhavam com os indígenas. Foi assim que o Fantasma virou uma espécie de deus pagão naquelas longínquas paragens da Oceania, onde a sua efígie costuma ser pintada em escudos e outros objetos cerimoniais das diferentes tribos. A este fenómeno cultural alguns antropólogos convencionaram chamar "arte pop tribal";

Exemplos da arte pop tribal da Papua Nova Guiné.

*Grande admirador da obra de William Shakespeare, Lee Falk homenageou-o de diferentes formas nas histórias do Fantasma. Numa delas, mostrava como o 3º Fantasma, depois de ter participado como ator na encenação original de Romeu e Julieta, desposara Rosamunda, sobrinha do Bardo de Avon. De igual modo, o juramento solene feito sobre uma caveira é uma referência óbvia a Hamlet; 
*Depois de um longo noivado de mais de quatro décadas, em 1977 o Fantasma e Diana Palmer deram finalmente o nó. Seguindo uma velha tradição familiar, o casal desfrutou da sua lua de mel em Keela-Wee. Parte do areal dessa praia paradisíaca é composto por ouro puro e uma cabana de jade serve de aposento aos nubentes. Os domínios do Fantasma estendem-se também ao Bosque Sussurrante (onde as árvores murmuram incessantemente o seu nome) e à Ilha do Éden (reserva natural onde animais de diferentes espécies - incluindo um estegossauro - coabitam harmoniosamente); 
*Citada pela primeira vez em The Jungle Patrol (tira publicada entre março e maio de 1952), a Patrulha da Selva é uma força paramilitar de aplicação da Lei formada em 1664 pelo 6º Fantasma com a ajuda do ex-pirata Barba Ruiva. Complementarmente ao título do Fantasma, o cargo de comandante-em-chefe da organização vem sendo passado de pai para filho há gerações. No entanto, desde a traição que levou à morte do 14º Fantasma, a identidade do comandante passou a ser secreta. Ninguém sabe que o Comandante Misterioso da Patrulha da Selva é, na verdade, o mais recente descendente do seu fundador. Apesar de sediada em Bangalla, a Patrulha da Selva - à qual a Legião Estrangeira serviu claramente de modelo - , conta nas suas fileiras com recrutas vindos das sete partidas do mundo, e a sua jurisdição abrange os países fronteiriços;
*Apesar de ser uma linhagem de tradição varonil, há registo de, pelo menos, uma representante do belo sexo na dinastia da caveira. No último quartel do século XIX, Julie Walker, gémea do 17º Fantasma, substituía o irmão sempre que este recuperava de ferimentos ou estava ausente da Floresta Negra. Esta versão feminina do Espírito-Que-Anda foi criada por Lee Falk em 1969 e teve as suas peripécias biográficas revisitadas em várias ocasiões;

Julie Walker, a única mulher a assumir o manto do Fantasma.

*Do ponto de vista político, o Fantasma sempre primou pela ambiguidade. As suas histórias já foram inclusivamente acusadas de reproduzirem o discurso neocolonialista. Afinal, estamos a falar de um homem branco, descendente de britânicos, que dita a sua lei num país africano. Por outro lado, o Espírito-Que-Anda assume-se muitas vezes como acérrimo defensor da autodeterminação dos povos colonizados. Contradições que, aos olhos dos fãs, apenas enfatizam a humanidade do herói, mas que os críticos associam a estereótipos racistas;
*Na Suécia, onde é praticamente um herói nacional, o Fantasma era, até 2010, a principal atração do Parken Zoo, em Eskilstuna. Nesse parque temático, inaugurado pessoalmente por Lee Falk em 1986, os visitantes podiam, entre outras coisas, explorar os recantos da Caverna da Caveira e interagir com um Espírito-Que-Anda de carne e osso;
*Entre 1972 e 1975, a Avon Publications lançou uma coleção de 15 livros do Fantasma, quase todos saídos da pena de Lee Falk e traduzidos em várias línguas (incluindo Português). A primeira adaptação literária do herói remonta, porém, a 1944. Son of the Phantom (O Filho do Fantasma) foi publicado com a chancela da Whitman Publishing Company e, apesar de baseado numa história de Lee Falk, este não teve qualquer envolvimento no processo criativo;
*O Fantasma foi um dos primeiros super-heróis a ser transposto ao grande ecrã. Em 1943, Tom Tyler (que, um par de anos antes, vivera também o Capitão Marvel) encarnou o Espírito-Que-Anda em The Phantom. Esta série em 15 capítulos produzida pela Columbia Pictures foi, até ao momento, a única a mostrar a icónica passagem de testemunho do pai moribundo para o filho. Geodfrey Prescott foi apresentado como alter ego do herói, mas apenas porque, na altura, Kit Walker ainda não fora mencionado nas tiras. A segunda (e última) incursão cinematográfica do Fantasma teve lugar em 1996, ano em que foi lançada uma longa-metragem protagonizada por Billy Zane. Também no pequeno ecrã o Fantasma tem percurso modesto: depois de ter feito a sua estreia em Defenders of the Earth (1986), estrelou uma animação intitulada Phantom 2040 (1994) e, em 2009, teve direito a uma minissérie em ação real (novamente intitulada The Phantom) com Ryan Carnes no papel principal.

Tom Tyler, o primeiro ator a encarnar o Fantasma.


*Este blogue tem como Guia de Estilo o Acordo Ortográfico de 1990 aplicado à norma europeia da Língua Portuguesa.
*Artigos sobre Lee Falk, Sy Barry e a longa-metragem do Fantasma disponíveis para leitura complementar.

 




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