23 setembro 2019

GALERIA DE VILÕES: DOUTOR DESTINO


  Déspota esclarecido de rosto e alma desfigurados, acredita ser seu destino manifesto conquistar o mundo. Enquanto esse dia não chega, governa com pulso férreo a sua Latvéria natal e sonha com a destruição do Quarteto Fantástico. 

Denominação original: Doctor Doom
Editora: Marvel Comics
Criadores: Stan Lee (história) e Jack Kirby (arte conceptual)
Estreia: Fantastic Four nº5 (julho de 1962)
Identidade civil: Victor von Doom
Espécie: Humano
Local de nascimento: Um acampamento cigano nos arredores de Hassenstadt, capital da Latvéria.
Parentes conhecidos: Werner e Cynthia von Doom (pais, falecidos); Boris (pai adotivo e tutor); Krystoff Vernard (filho adotivo); Caroline le Fay (filha); Alexander Flynn (presumível filho).
Ocupação: Cientista, feiticeiro, inventor, monarca da Latvéria e aspirante a conquistador mundial.
Base operacional: Castelo do Destino (Latvéria) e Embaixada da Latvéria nos EUA (Nova Iorque).
Afiliações: Ex-líder do Clã Zéfiro; ex-membro da Cabala, dos Cavaleiros da Távola Redonda Atómica e da Fundação Futuro.
Némesis: Quarteto Fantástico (particularmente, o seu líder Reed Richards).
Poderes e parafernália: A despeito de todo o poderio bélico da sua armadura, a arma mais poderosa do Doutor Destino é a sua mente prodigiosa. Polímato e génio científico, Victor von Doom é, indubitavelmente, um dos homens mais inteligentes à face da Terra. Física, Robótica e Bioquímica são algumas das áreas em que é proficiente.
Uma das maiores façanhas científicas do Doutor Destino consistiu em reverter Ben Grimm (o Coisa, do Quarteto Fantástico) à forma humana - algo que Reed Richards apenas lograra fazer temporariamente.
Ao longo da sua carreira vilanesca, o Doutor Destino inventou uma panóplia de dispositivos, incluindo espaçonaves, uma máquina do tempo (a única funcional em todo o mundo) e uma vasta gama de robôs. De entre estes, os mais formidáveis são os Destinobôs (Doombots, no original), exatas réplicas mecânicas do seu criador equipadas com uma sofisticadíssima inteligência artificial. É a eles que o vilão recorre quando não pode estar presente num determinado local, ou quando deseja salvaguardar a sua integridade física. Muitas das aparentes ressurreições do Doutor Destino ficaram na verdade a dever-se ao uso destes seus sósias robóticos.
Além dos Destinobôs, Victor von Doom criou também os Servo-guardas, autómatos dotados de grande poder de fogo  responsáveis pela manutenção da lei e da ordem em território latveriano. E que, não raro, são usados pelo seu criador para reprimir focos de rebelião.

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A plataforma temporal do Dr. Destino
 é a coqueluche das suas invenções.
Fazendo a síntese perfeita entre Ciência e Magia, o Doutor Destino é também um poderoso feiticeiro. Autodidata nas artes arcanas, expandiu os seus poderes místicos enquanto discípulo e amante de Morgana le Fay. Teletransporte, manipulação elemental, absorção de energia e convocação de demónios fazem parte do seu extenso índice de habilidades. Quando o Doutor Estranho renunciou temporariamente ao cargo de Mago Supremo, considerou Victor von Doom como um dos mais fortes candidatos a suceder-lhe.
Por intermédio do simples contacto visual, o Doutor Destino consegue transferir a sua consciência para qualquer indivíduo. Talento apreendido durante o cativeiro que lhe foi imposto pela raça alienígena conhecida como Ovoides, e que lhe tem servido amiúde para escapar de todo o tipo de armadilhas e prisões.

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Destino e os seus Destinobôs.
Confecionada com titânio e alimentada por um minirreator nuclear, a armadura do Doutor Destino incrementa a sua força e resistência a níveis sobre-humanos. Embora, por regra, o vilão prefira evitar o confronto direto com adversários de maior poderio físico, o exoesqueleto de von Doom já resistiu aos brutais golpes do Coisa e do Incrível Hulk. Conferindo-lhe também proteção eficaz  contra ataques psiónicos e manipulação da matéria.
A armadura do Doutor Destino incorpora ainda um extenso arsenal hi-tech, designadamente um gerador interno de campos de força e luvas que disparam lasers e rajadas concussivas. Equipado com um sistema de reciclagem de ar, água, energia e alimentos, o traje é autossuficiente. Permitindo, dessa forma, ao seu usuário sobreviver no espaço sideral ou em ambiente subaquático durante consideráveis períodos de tempo.
Mesmo quando privado da sua armadura, o Doutor Destino é um exímio lutador, mestre em diferentes artes marciais. Numa ocasião, matou com as próprias mãos um leão de uma espécie protegida apenas porque desejava testar as suas capacidades no combate desarmado.
Enquanto monarca absoluto da Latvéria, o Doutor Destino detém o controlo total sobre os recursos naturais do país, bem como sobre a sua indústria e forças armadas. Quem o desafia terá, pois, de estar preparado para enfrentar não apenas um homem mas toda uma nação.

Fraquezas: É na arrogância do Doutor Destino que reside a sua principal fraqueza. Em última análise, o vilão é incapaz de admitir os próprios erros, preferindo, ao invés, culpar terceiros pelos seus fracassos.
Ainda que a elevada consideração em que tem a sua pessoa seja justificada, Victor von Doom recusa-se sistematicamente a aceitar que outrem possa ter maior clarividência do que ele em relação a determinada situação. O seu ego insuflado torna-o, pois, permeável a manipulações por parte de quem consegue tirar proveito da empáfia que o caracteriza.
Certa vez, o Homem-Aranha obteve a assistência do Doutor Destino na reparação de tecnologia alienígena, invocando simplesmente a suposta inépcia de Reed Richards para fazê-lo. A velha rivalidade pessoal com o líder do Quarteto Fantástico assenta, com efeito, numa disputa do foro intelectual. Com von Doom a não olhar a meios para demonstrar a sua superioridade no campo científico - algo que, até hoje, não conseguiu fazer.
O pacto faustiano que Destino celebrou em tempos com Mefisto tem servido, outrossim, para expor as limitações do soberano da Latvéria no que à feitiçaria diz respeito. Todos os anos von Doom convoca o Príncipe das Trevas, que, respeitando o previamente estipulado, lhe concede a oportunidade de resgatar a alma da sua falecida mãe das profundezas do Inferno. E todos os anos Destino fracassa miseravelmente. A cada novo fracasso diminuindo a deferência dos seus súbditos para com ele.

Duelo entre duas mentes brilhantes que não dispensam
 a força dos punhos para fazer valer os seus argumentos.

Retrato de um déspota

Como tantas outras personagens icónicas surgidas durante a Idade de Prata da banda desenhada, o Doutor Destino teve a assinatura de Stan Lee e Jack Kirby, os demiurgos da Casa das Ideias.. Com a série mensal do Quarteto Fantástico em alta, era chegado o momento de introduzir um antagonista capaz de testar os limites do grupo.
Devido à sua eloquente simplicidade e à terrífica ameaça implícita, Doctor Doom (também traduzível como Doutor Fatal) foi o nome escolhido por Stan Lee para crismar o novo vilão. Para cuja conceção visual Jack Kirby usou a tradicional representação da Morte como modelo. Foi, pois, essa a razão para a inclusão de um manto com capuz no respetivo figurino. A ideia era acentuar a natureza tétrica e desumana do Doutor Destino,  de modo a que a simples menção do seu nome bastasse para instilar medo nos corações dos seus inimigos.
Com o seu passado e motivações envoltos em mistério, o Doutor Destino fez a sua estreia em julho de 1962, nas páginas de Fantastic Four nº5. Nessa sua primeira aparição, o vilão capturou a Mulher Invisível, usando-a como refém para obrigar o Quarteto Fantástico a embarcar numa viagem ao passado. O objetivo era roubar o tesouro encantado do pirata Barba Negra, que o ajudaria a conquistar o mundo. Esse seria, de resto, o seu mais recorrente desígnio, porém nunca alcançado.

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O Quarteto Fantástico à mercê do Dr. Destino em Fantastic Four nº5 (1962).
Após esse primeiro embate com o Quarteto Fantástico, o Doutor Destino tornou-se presença assídua nas histórias do grupo, sendo rapidamente elevado ao estatuto de seu arqui-inimigo. Facto a que não foi alheia a predileção de Stan Lee pela personagem. Entre a multidão de supervilões criados pelo saudoso Papa da Marvel, Destino era assumidamente o seu favorito.
No entanto, apenas dois anos após o debute do Doutor Destino a sua origem seria finalmente revelada. Em Fantastic Four Annual nº2 (setembro de 1964), os leitores ficaram a conhecer um pouco melhor o homem por detrás da máscara de ferro.
Dono de uma personalidade complexa e multifacetada, não é claro se o Doutor Destino é intrinsecamente cruel, ou se essa crueldade é fruto de uma vida marcada pela tragédia e solidão. Tal como o seu rosto, também a sua alma foi desfigurada.
Apesar disso, o vilão pauta sempre as suas ações por um estrito código de honra. Ao abrigo dele, Destino já poupou a vida a adversários que respeita, por estes se encontrarem enfraquecidos ou em enorme desvantagem. No seu entendimento, uma vitória obtida nessas circunstâncias seria desprovida de significado. Chegando mesmo ao ponto de interceder a favor do Quarteto Fantástico quando este se encontrava à mercê de um qualquer inimigo mais poderoso. Não por compaixão (embora também a demonstre ocasionalmente), mas pela sua obstinação de ser ele o carrasco da equipa liderada pelo seu velho rival.



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A Morte inspirou o visual do Dr. Destino.
Líder carismático, o Doutor Destino absorve a admiração de todos os que o rodeiam, mesmo dos seus adversários. Avesso a alianças, nas raras ocasiões em que se associou a terceiros fê-lo apenas para obter ganhos pessoais, ou para enfrentar ameaças que o transcendiam.
Apesar da sua reputação de implacável, o Doutor Destino preocupa-se genuinamente com o bem-estar dos seus súbditos, contanto que estes o reverenciem incondicionalmente. Certa vez submeteu-se voluntariamente ao julgamento de Bas, a Deusa Pantera de Wakanda, que confirmou o seu desejo de conduzir a Humanidade a um futuro utópico de paz e prosperidade. Escusado será dizer que tal desígnio só estaria ao alcance de um déspota esclarecido como ele próprio.

Destino manifesto

Um pequeno reino eremita encravado no coração dos Balcãs, a Latvéria serviu de berço ao Doutor Destino, que hoje a governa com mão de ferro.
Victor von Doom veio ao mundo num acampamento cigano nos subúrbios de Hassenstadt, a capital latveriana. A sua mãe, Cynthia von Doom, era uma feiticeira que invocou Mefisto para obter poder e conhecimento. Victor era apenas um menino quando a mãe morreu às mãos do Príncipe das Trevas.
O pai de Victor, Werner von Doom, era o líder do Clã Zéfiro - uma tribo de ciganos nómadas - e um médico conceituado. Pouco tempo após a morte da esposa, Werner foi convocado ao castelo do Rei Vladimir para tratar a Rainha. A mulher padecia, porém, de um cancro incurável e acabaria por sucumbir.
O Rei Vladimir culpou Werner pela tragédia e ordenou a sua execução imediata. Tomado pelo desespero, Werner colocou-se em fuga acompanhado pelo pequeno Victor. Escondidos na encosta de uma montanha coberta de neve, Werner cobriu o filho com o seu capote, protegendo-o do frio intenso enquanto ele morria enregelado.
Victor sobreviveu e, ao regressar ao acampamento, encontrou os livros e artefactos místicos da sua mãe. Nos anos que se seguiram estudou com afinco as artes arcanas, sonhando com o dia em que se vingaria do Rei Vladimir.

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Antes da ascensão do Dr. Destino ao trono, a Latvéria era um pais arcaico.
Combinando tecnologia com feitiçaria, Victor von Doom criou vários aparatos para proteger o seu povo da opressão. As suas invenções atraíram a atenção do reitor da Universidade Empire State, que lhe ofereceu uma generosa bolsa de estudo. Perante a possibilidade de estudar numa das mais prestigiadas academias norte-americanas, Victor abandonou a sua terra natal e Valeria, a única mulher que, além da sua mãe, amou em toda a vida.
Foi na Universidade Empire State que os caminhos de Victor von Doom e Reed Richards se cruzaram pela primeira vez. Reed começou por ser colega de quarto de Victor mas este antipatizou com ele e exigiu-lhe que saísse.
Algum tempo depois, Victor construiu uma máquina que permitia comunicar com os mortos, especificamente com a sua mãe. Apesar dos avisos de Reed acerca dos seus cálculos errados, Victor prosseguiu a sua experiência com resultados desastrosos.
Tal como Reed previra, a máquina de Victor explodiu logo após ser acionada, desfigurando-lhe a face. Foi esse o momento definidor que o empurrou de vez para a vilania.

Uma simples cicatriz mudou para sempre a vida de Victor von Doom.
Expulso da universidade após o acidente, Victor viajou pelo mundo até ser salvo de uma morte certa por monges tibetanos.
Num monastério oculto algures nos Himalaias, Victor aprendeu a disciplina dos monges que o haviam resgatado. Foram também eles que o ajudaram a forjar uma sinistra armadura metálica que lhe serviria de segunda pele. Assim nasceu o Doutor Destino, a Besta dos Balcãs.
De volta à Latvéria, o Doutor Destino usurpou o trono após assassinar o Rei Vladimir. Sob os seus auspícios, o feudalismo deu lugar a uma economia moderna e pujante. Num país onde prosperidade não rima com liberdade, o novo regente demonstrou sempre especial preocupação com o bem-estar da minoria romani, à qual pertence.

Um usurpador no trono da Latvéria.

Miscelânea

*Victor von Doom alega ter desenvolvido autoconsciência quando se encontrava ainda no útero da sua mãe. Proeza bizarra que ele atribui ao recorrente contacto da sua progenitora com demónios e outros entes sobrenaturais;
*Victor von Doom assumiu a liderança do clã Zéfiro quando tinha apenas 16 anos. A mesma idade com que cometeu o seu primeiro assassinato. Apesar de ter agido em legítima defesa (estrangulou um soldado latveriano que o havia capturado), a experiência deixou-o profundamente traumatizado;
*Num exercício de continuidade retroativa, é sugerido que Ben Grimm poderá ter sido o verdadeiro responsável pelo acidente que desfigurou a face de Victor von Doom. Ressentido com os constantes desaforos de von Doom, Ben terá, presumivelmente, sabotado a máquina que ele construíra para comunicar com os mortos;
*O Amaldiçoado, o Grande Destruidor e a Besta dos Balcãs são alguns dos cognomes que espelham a tenebrosa natureza do Doutor Destino;
*Sugerindo uma hipotética viagem no tempo, o Doutor Destino alega ter sido discípulo de Abraham van Helsing, o arqui-inimigo do Conde Drácula - título nobiliárquico que, aliás, von Doom não reconhece;
*Apesar de ter sido expulso da Universidade Empire State antes de concluir a sua formação, Victor von Doom faz gala das suas insígnias académicas, alegando possuir vários doutoramentos em diferentes áreas;
*Decorrente do culto de personalidade instituído pelo Doutor Destino, um feriado com o seu nome é anualmente celebrado na Latvéria, com grande pompa e circunstância. Além das paradas militares, as comemorações incluem manifestações populares de apoio - mais ou menos espontâneo - ao monarca. Também a capital do país foi renomeada Doomstadt em sua homenagem;
*Originalmente, o Doutor Destino trazia à ilharga uma pistola que usava para alvejar traidores e outros adversários por ele considerados indignos;
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Na mira do Destino.
*Na sua qualidade de líder de um Estado soberano, o Doutor Destino beneficia de imunidade diplomática. Significando isto que qualquer tentativa de capturá-lo ou matá-lo em território estrangeiro resultaria num grave incidente internacional. Foi ao abrigo desse privilégio que, numa das suas visitas aos EUA,  Victor von Doom teve o Capitão América como seu guarda-costas pessoal;
*Grande apreciador de arte conhecido pelo seus gostos sofisticados, Victor von Doom ordenou a destruição de uma pintura de Renoir da sua coleção privada por considerá-la desagradável à vista;
*O Doutor Destino foi um dos vilões a figurar na coleção de selos postais lançada pela Marvel em 1975;
*No Universo 2099 da Marvel (linha temporal ambientada nesse ano), o Doutor Destino é o maior herói da Humanidade. Por contraste com os restantes justiceiros fantasiados dessa época, o seu manto continua, porém, a pertencer ao verdadeiro Victor von Doom. Há muito dado como morto, o Doutor Destino ressurgiu nesse futuro distante e, horrorizado com o estado do mundo, decidiu salvá-lo da única forma que se lhe afigurava eficaz: conquistando-o;
*Atestando a sua enorme notoriedade e importância nos quadradinhos, o Doutor Destino encerra o pódio na lista dos cem melhores vilões de todos os tempos elaborada pelo site IGN. A mesma plataforma classifica-o como o melhor vilão da Marvel;

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Em 2099, o Dr. Destino tem finalmente o mundo a seus pés.

Noutros media

Extensão natural da sua influência e notoriedade na banda desenhada, o Doutor Destino possui uma forte pegada mediática. A sua transição para o segmento audiovisual registou-se em 1966, por via da sua participação avulsa num episódio da série animada The Marvel Super Heroes, em que, curiosamente, enfrentava o Príncipe Submarino (com quem, nos quadradinhos, chegou a unir forças contra o Quarteto Fantástico).
Presença habitual em dezenas de outras séries do mesmo género baseadas no Universo Marvel, foi naquelas que tiveram o Quarteto Fantástico como protagonista que o Doutor Destino mais se destacou. Ao longo dos anos, surgiu frequentemente como personagem jogável em diversos jogos de vídeo e inspirou até uma diversão - Doctor Doom Freefall - na Islands of Adventure, um parque temático instalado em Orlando, Florida.

As múltiplas versões do Dr. Destino nas animações da Marvel.
Foi, porém, através do cinema que o Doutor Destino alcançou uma audiência mais abrangente. Embora, tecnicamente, o seu advento ao grande ecrã tenha ocorrido apenas em 2005, em Fantastic Four, fora ele, em 1994, o vilão de serviço no filme homónimo dirigido por Roger Corman, porém nunca lançado.
Nessa sua primeira versão em ação real, o Doutor Destino foi interpretado por Joseph Culp e, em linha com a sua origem clássica, apresentado como o antigo colega de quarto de Reed Richards nos tempos de faculdade.
Já na longa-metragem de 2005, realizada por Tim Story e a primeira com estatuto oficial, o Doutor Destino, agora encarnado por Julian McMahon (que, volvidos dois anos, repetiria o papel em Fantastic Four: Rise of the Silver Surfer), era um magnata tecnológico que disputava a Reed Richards os afetos de Susan Storm.

Julian McMahon como Doutor Destino em Fantastic Four (2005).
Na sua última passagem pelo grande ecrã, datada de 2015, o Doutor Destino - como, de resto, o próprio Quarteto Fantástico - surgiu praticamente irreconhecível. Agora interpretado por Toby Kebbell, antes da sua metamorfose o vilão era um cientista e programador informático com tanto de genial como de antissocial ao serviço da Fundação Baxter.
Durante a San Diego Comic Con de 2017, o produtor televisivo Noah Hawley anunciou que estaria em desenvolvimento um filme a solo do Doutor Destino. Semanas depois, seria a vez do ator dinamarquês Mads Mikkelsen - que já havia sido equacionado para o papel em 2015 - expressar o seu interesse em dar vida à personagem.
À data em que escrevo estas linhas, nada do anunciado se concretizou. Porém, com a compra da Sony por parte da Disney, é expectável que o Doutor Destino chegue num futuro próximo ao Universo Cinematográfico da Marvel. A dúvida é se isso acontecerá por conta própria ou num filme do Quarteto...

Que papel estará reservado ao Dr. Destino no futuro do MCU?



04 setembro 2019

RETROSPETIVA: «A MÁSCARA DE ZORRO»


  Nas ricas terras californianas à mercê da tirania e da ganância estrangeiras, a chama da liberdade é reavivada pelo regresso de um lendário cavaleiro de capa e espada. Porque mais importante do que o homem por trás da máscara é o que ela continua a representar: justiça para os opressores e esperança para os oprimidos.

Título original: The Mask of Zorro
Ano: 1998
País: EUA
Duração: 137 minutos
Género: Ação e Aventura
Produção: Amblin Entertainment 
Realização: Martin Campbell
Argumento: John Eskow, Ted Elliott e Terry Rossio 
Distribuição: TriStar Pictures 
Elenco: Antonio Banderas (Alejandro Murrieta / Zorro), Anthony Hopkins (Dom Diego de la Vega / Zorro), Catherine Zeta-Jones (Elena Montero), Stuart Wilson (Dom Rafael Montero) e Matt Letscher (Capitão Harrison Love)
Orçamento: 95 milhões de dólares
Receitas: 250,3 milhões de dólares

Herói centenário

Há precisamente um século, Zorro (palavra espanhola para "raposa") desembainhava pela primeira vez a sua espada em defesa dos pobres e oprimidos. Saído da imaginação de Johnston McCulley, prolífico autor americano de literatura de cordel, aquele que foi um dos primeiros justiceiros mascarados - e, por inerência, precursor dos super-heróis modernos - estreou-se em setembro de 1919 na novela pulp The Curse of Capristano (A Maldição de Capristano), publicada em cinco partes na revista All-Story Weekly.
Longe de imaginar o impacto cultural da sua criação, McCulley concebeu Zorro para ser o protagonista de uma única história. Tanto assim que, no final da novela que o apresentou aos leitores, o herói revelava publicamente a sua verdadeira identidade.
Dom Diego de la Vega, um dândi fútil e efeminado filho de um abastado proprietário de terras da Califórnia, servia de insuspeito alter ego a Zorro, o misterioso cavaleiro de capa e espada que punia  com denodo criminosos e tiranetes.

Johnston McCulley
Johnston McCulley (1883-1958).

A Maldição de Capristano teve honras de capa
 em All-Story Weekly.
Atendendo às características de Zorro, é possível que o herói tenha sido inspirado em personagens históricas da América Latina. Entre essas presumíveis fontes de inspiração, Joaquín Murrieta, um fora da lei mexicano do século XIX adepto do chamado "banditismo social", prefigura-se como a mais provável.
Outra possível influência na criação de Zorro poderá ter sido Sir Percival Blakeley. Notabilizado como Pimpinela Escarlate, foi uma personagem literária saída da pena da escritora britânica Emma Orczy, em 1905. Tal como Zorro, Sir Percival era um mestre do disfarce e criou uma identidade secreta para combater o terror revolucionário instalado após a queda da Bastilha.
A este conjunto de hipotéticas influências, há que acrescentar aquela que mais prima pela obviedade:  Robin Hood, antepassado e modelo de todos os justiceiros sociais. Alguns historiadores identificam ainda semelhanças entre o modus operandi de Zorro e o de William Lamport, um aventureiro católico irlandês que, em meados do século XVII, instigou diversas revoltas dos camponeses mexicanos contra o colonialismo espanhol.
A despeito da sua matriz literária, foi através do cinema que Zorro se tornou um dos maiores ícones da cultura popular do século XX. Logo em 1920, o herói foi transposto pela primeira vez ao grande ecrã. Douglas Fairbanks foi o primeiro ator a trajar de negro em The Mark of Zorro, filme mudo que, com algumas liberdades poéticas, adaptava A Maldição de Capristano. Iniciava-se, assim, a longa tradição cinematográfica de Zorro, que não se restringe às produções hollywoodescas que protagonizou ao longo dos anos. Do México a Itália, passando pela Índia, foram vários os países que lançaram filmes nele baseados.

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A primeira aventura cinematográfica de Zorro em 1920.
Em resposta à demanda pública alimentada pelo sucesso da longa-metragem The Mark of Zorro, Johnston McCulley, ignorando o final da história original, publicou três novas novelas de Zorro. Entre 1922 e 1941, foram lançadas The Further Adventures of Zorro, Zorro Rides Again e The Sign of Zorro. Nenhuma delas reproduziria, porém, o estrondoso sucesso de A Maldição de Capristano que, com uma tiragem de mais de 50 milhões de exemplares, continua a ser um dos livros mais vendidos de sempre.
Referência incontornável do imaginário coletivo, o enorme lastro mediático de Zorro inclui folhetins radiofónicos, peças de teatro, séries televisivas, jogos de vídeo e, claro, banda desenhada. Mas foi no cinema que o herói viveu os seus dias de glória. E foi essa glória que, como a seguir se perceberá, A Máscara de Zorro se propôs resgatar da pátina do esquecimento.

Crónica de bastidores

Em outubro de 1992, a TriStar Pictures e a Amblin Entertainment (produtora detida por Steven Spielberg) planeavam o lançamento de uma longa-metragem de Zorro no ano seguinte. Com esse objetivo em mente, contrataram o argumentista Joel Gross para escrever o enredo. A escolha não foi aleatória: os produtores tinham ficado impressionados com a qualidade da adaptação de Gross do clássico Os Três Mosqueteiros para um filme epónimo que acabaria por nunca ver a luz do dia.
Spielberg pretendia inicialmente conciliar a produção com a direção do projeto. Tão logo Gross terminou de escrever o enredo, em março de 1993, a TriStar entrou em fase de pré-produção, dando luz verde à criação de material promocional. Quando, em dezembro desse ano, Spielberg desistiu de assumir ele próprio a direção do projeto, o realizador dinamarquês Mikael Solomon foi o escolhido para a função.
Já depois de confirmar a contratação de Sean Connery para o papel de Dom Diego de la Vega, Solomon anunciou que a maior parte do elenco seria composta por atores latinos ou hispânicos. Estávamos em agosto de 1994 e a pré-produção foi acelerada devido à intenção do realizador arrancar com as filmagens dentro de pouco mais de meio ano. Prazo que se revelaria uma miragem, em consequência do abandono quase simultâneo do projeto por parte de Connery e Solomon.
Na ribalta por conta do êxito de Desperado, Robert Rodríguez foi o senhor que se seguiu. Os produtores tinham ficado surpreendidos com as técnicas de baixo orçamento do cineasta texano para rodar filmes de ação. Em vez de uma produção milionária, Spielberg e os seus associados pretendiam agora um filme low cost, na linha de El Mariachi ou Desperado.
Além dessa nova orientação, Rodríguez trouxe consigo o espanhol Antonio Banderas para o papel principal. Ironicamente, seriam constrangimentos orçamentais a levar Rodríguez a bater com a porta, em junho de 1996. Por essa altura, já sucessivos adiamentos haviam inviabilizado a desejada estreia natalícia.

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Antonio Banderas foi indicado por Robert Rodríguez.
Banderas permaneceu contudo vinculado ao projeto. Que, logo no final desse mesmo mês, passaria a ser capitaneado por Martin Campbell. O que só se propiciou porque o realizador neozelandês rejeitou o convite para dirigir 007 - O Amanhã Nunca Morre. Entretanto, foi-lhe apresentada uma nova versão do argumento assinada por Ted Elliott, Terry Rossio e John Eskow, e que pouco tinha em comum com o original.
Após ser submetido a uma cirurgia laser às costas, Anthony Hopkins (que, num primeiro momento, recusara o papel devido a problemas lombares) foi o eleito para interpretar Dom Diego de la Vega. Ficava, assim, completo o elenco onde pontificava também Catherine Zeta-Jones.

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Martin Campbell trocou James Bond por Zorro.
As filmagens, iniciadas no final de janeiro de 1997, tiveram essencialmente lugar nos Estúdios Churubusco, localizados nos arredores da Cidade do  México. E não ficaram isentas de percalços: devido a problemas de saúde de Martin Campbell, as gravações estiveram suspensas durante quatro dias consecutivos. Também uma remessa de adereços (incluindo a lâmina de plástico da espada de Zorro) ficou retida na alfândega por mais de uma semana, para desespero da produção.
Desses e de outros contratempos resultou uma derrapagem orçamental de 10 milhões de dólares, bem como um apreciável desvio ao cronograma estabelecido. Não obstante, durante a fase de pós-produção, Martin Campbell e Steven Spielberg concordaram em dar um toque menos deprimente ao final da história. Em vez de Dom Diego a morrer nos braços de Elena, o filme terminaria com o casamento feliz desta com Alejandro Murrieta. Esta versão alternativa foi adicionada três messes após o término das filmagens.
A 17 de julho de 1998, A Máscara de Zorro chegou finalmente aos cinemas norte-americanos. No Velho Continente, o filme atraiu a atenção da realeza espanhola. Pela primeira vez em sete anos, o então monarca D. Juan Carlos I compareceu à glamorosa antestreia madrilena acompanhado pela Rainha Sofia e pela Princesa Elena. Desconhecendo-se, no entanto, se a Família Real tomou partido pelo herói mexicano interpretado por um dos seus súbditos, se pelo vilão castelhano que evocava os tempos gloriosos do Império Espanhol...

Enredo

Em 1821, nos derradeiros dias da Guerra da Independência do México, Dom Diego de la Vega, um aristocrata californiano, defende os camponeses da opressão colonialista como Zorro, um misterioso cavaleiro mascarado. Após interferir numa execução pública ordenada por Dom Rafael Montero, o tirânico Governador do território, Zorro regressa a casa ferido.
Horas depois, Montero e um grupo de soldados invadem o solar de Dom Diego, cujo ferimento o denuncia. Da escaramuça que se segue resulta a morte acidental de Esperanza, esposa de Dom Diego. Não satisfeito com a captura do rival, Montero leva consigo Elena, a filha bebé de Dom Diego e da malograda Esperanza, para criar como sua ao retornar a Espanha.
Vinte anos se passam e Montero, agora um simples civil, regressa à Califórnia na companhia de Elena, uma esbelta jovem que herdou a beleza da mãe. O inesperado ressurgimento de Montero motiva Dom Diego a escapar do cárcere onde permanecia aprisionado desde a noite fatídica em que fora espoliado dos afetos da sua família.

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Rafael Montero tem no capitão Harrison Love o seu homem de mão.
Durante a sua atribulada fuga, Dom Diego cruza-se com Alejandro Murrieta, um ladrão maltrapilho que, em criança, salvara a vida de Zorro. Tomando o sucedido por um sinal do Destino, Dom Diego faz de Alejandro seu protegido, treinando-o para ser o seu sucessor.
Alejandro reluta, porém, em seguir o espartano regime que lhe é imposto pelo seu benfeitor. Enquanto é treinado na arte da esgrima na caverna secreta situada sob as ruínas do antigo solar de Dom Diego, Alejandro sonha com o dia em que vingará a morte do seu irmão, Joaquín Murrieta. Semanas antes, Alejandro testemunhara, impotente, a decapitação de Joaquín executada pela espada do capitão Harrison Love, braço direito de Rafael Montero.
Ainda antes de completar o treino, Alejandro, a coberto da noite e de uma máscara improvisada, rouba um garanhão negro estacionado na guarnição local. Proeza que lhe vale uma severa reprimenda por parte de Dom Diego, que lhe faz notar que Zorro é um defensor dos fracos, não um reles ladrão de cavalos ou um aventureiro inconsequente.
Intrigado acerca dos desígnios do antigo rival, Dom Diego incumbe Alejandro de conquistar a confiança de Montero.

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Diego de la Vega treina Alejandro Murrieta para ser o novo Zorro.
Sob o disfarce de Dom Alejandro del Castillo y García, um nobre espanhol de visita à Califórnia, e com Dom Diego a fazer-se passar por seu criado, Alejandro infiltra-se na glamorosa festa organizada por Montero na sua hacienda.  De tão convincente, a sua representação rende-lhe a admiração de Elena e o convite para participar numa reunião secreta organizada por Montero.
Perante um grupo de aristocratas espanhóis, Montero expõe o seu audacioso plano para retomar a Califórnia, agora um território disputado pelo México e pelos Estados Unidos da América. A ideia consiste em comprar a Califórnia ao general Santa Anna para, em seguida, proclamá-la uma república independente controlada por Montero e seus aliados. Um negócio que seria financiado pelo próprio ouro de Santa Anna.
Alejandro e os restantes nobres são então levados por Montero até uma mina de ouro secreta, onde camponeses, mendigos e prisioneiros são usados como mão de obra escrava. Alejandro nem quer acreditar no que os seus olhos veem, mas finge concordar com o plano de Montero.
Enquanto isso, Dom Diego, ainda disfarçado de criado, aproveita uma oportunidade para se aproximar de Elena, sem lhe revelar a sua verdadeira identidade. Os dois conversam brevemente e a jovem confidencia-lhe nunca ter conhecido a mãe por esta esta ter morrido durante o parto.
Dias depois, ao passear num mercado, Elena é reconhecida pela sua velha ama, que lhe revela os nomes dos seus verdadeiros pais: Dom Diego e Esperanza de la Vega. Revelação que deixa a jovem aturdida e sem saber no que acreditar.
Determinado a frustrar os planos do rival, Dom Diego incumbe o novo Zorro de roubar o mapa da mina secreta de Montero. O herói mascarado invade o solar de Montero e, após um vibrante duelo de espadas com o capitão Love, consegue apossar-se do documento.
Prestes a escapar, Zorro é confrontado por Elena que tenta, em vão, reaver o mapa roubado ao homem que acredita ser seu pai. Antes de desaparecer na noite, o mascarado pespega um ardente beijo na boca de Elena, deixando-a arquejante de indignação e volúpia.

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A bela Elena está longe de ser uma donzela indefesa.
Temendo a implacável retribuição do general Santa Anna caso este venha a descobrir o logro de que foi vítima, Montero, pressionado pelo capitão Love, ordena a destruição imediata da mina de ouro, bem como a morte de todos os trabalhadores. Graças à sua astúcia de velha raposa, Dom Diego antecipa o plano de Montero e incumbe Zorro de libertar os operários da mina, enquanto ele próprio parte ao resgate de Elena.

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A espada de Zorro sempre pronta a trespassar a injustiça.
Apesar de se sentir traído pelo seu mentor, Zorro cumpre a missão que lhe foi confiada. Não muito longe dali, na hacienda de Montero, Dom Diego encurrala o velho rival e prepara-se para consumar enfim a sua almejada vingança.
Montero consegue, no entanto, escapulir-se, usando Elena como escudo humano. Obrigado a depor a espada, Dom Diego é prontamente capturado pelos homens de Montero. Enquanto é levado para uma cela, grita o nome da flor cujo perfume Elena reconhecera ao desembarcar na Califórnia. A jovem percebe, assim, estar em presença do seu verdadeiro progenitor e logo cuida de libertá-lo. Sem tempo a perder, pai e filha rumam à mina de ouro secreta.
Rafael Montero e o capitão Love são mortos, respetivamente, nos seus duelos com Dom Diego e Zorro. Em seguida, Zorro e Elena libertam os trabalhadores da mina antes que as primeiras cargas explosivas comecem a detonar.
No exterior da mina, Zorro e Elena deparam-se com um moribundo Dom Diego. Antes de exalar o seu último suspiro, Dom Diego dá a sua bênção a Alejandro para que despose a sua filha.
Volvido um ano, Alejandro e Elena estão casados e são os pais babados do pequeno Joaquín, o filho bebé do casal assim batizado em honra de Joaquín Murrieta. Quando pensa que Elena não está a ouvir, Alejandro relata ao pequeno Joaquín os feitos heroicos do seu avô, o Zorro original.

Trailer



Prémios e nomeações


Foram várias as indicações de A Máscara de Zorro para alguns dos mais cobiçados prémios da 7ª Arte. Destaque para a dupla nomeação aos Óscares em categorias técnicas (Melhor Edição de Som e Melhor Mistura de Som) e para o Saturn Award para Melhor Filme de Ação. 
A título individual, Antonio Banderas e Catherine Zeta-Jones viram as suas meritórias interpretações reconhecidas ao receberem nomeações para os Golden Globe Awards de Melhor Ator e Atriz Revelação.
No entanto, por causa da fortíssima concorrência - desde logo o multipremiado O Resgate do Soldado Ryan - nem o filme nem o seu casal protagonista lograram arrebatar qualquer dos galardões para os quais haviam sido indicados.

Curiosidades

*Antonio Banderas foi o sexto ator a encarnar Zorro em longas-metragens norte-americanas (precederam-no, por ordem cronológica, Douglas Fairbanks, Robert Livingston, Tyrone Power, George Hamilton e Anthony Hopkins) e o primeiro espanhol a desempenhar esse icónico papel, que repetiria em A Lenda de Zorro, sequela lançada em 2005;
*A exigente preparação de Banderas para o papel incluiu, entre outras coisas, um treino de quatro meses com a equipa olímpica espanhola de esgrima. Durante a fase de pré-produção, no México, o ator foi ainda submetido a um programa intensivo de dez horas diárias ministrado pelo lendário espadachim Bob Anderson. Antigo treinador do igualmente lendário Errol Flynn, Anderson ficou impressionado com a habilidade de Banderas no manejo da espada, comparando-o mesmo ao seu mais famoso pupilo. Banderas insistiu também em executar ele próprio muitas das acrobacias da sua personagem, dispensando frequentemente os seus duplos;
*Por considerá-lo demasiado perigoso, Martin Campbell quis inicialmente prescindir do icónico chicote do Zorro. Foi por insistência de Anthony Hopkins que esse adereço foi acrescentado à parafernália do herói. O chicote usado por Hopkins no filme é um modelo personalizado ofertado por Alex Green, seu duplo em Lendas de Paixão;

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Dom Diego usa o chicote para apagar uma fileira de velas,
 numa das mais memoráveis cenas do filme.
*A espanhola Penélope Cruz, a mexicana Salma Hayeck e a colombiana Shakira foram cogitadas para o papel de Elena Montero. Por indicação de Steven Spielberg, que ficara impressionado com a sua prestação em Titanic, a escolha incidiria, contudo, na galesa Catherine Zeta-Jones, cujos traços latinos a adequavam ao biótipo da personagem;
*O efeito deslizante do vestido de Elena após ter sido cortado com precisão cirúrgica pela espada de Zorro foi obtido com recurso a um fino arame preso à indumentária e puxado por um assistente;
*A cena de abertura do filme remete para o rescaldo da Guerra da Independência do México (1810-1821) e o final original, apresentado na edição em DVD, incluía a participação do General Santa Anna (cognominado Napoleão do Oeste) interpretado pelo português Joaquim de Almeida. A grandiosidade da cena ditou, porém, a sua eliminação da versão cinematográfica;
*No rascunho inicial do enredo, Dom Diego de la Vega sobrevivia ao duelo final com Dom Rafael Montero e ocuparia o tempo livre a contar as suas façanhas como Zorro ao neto recém-nascido;
*A máscara que Alejandro Murrieta usa durante o roubo de um cavalo da guarnição local foi feita a partir do lenço que, momentos antes, retirara de uma das patas do animal;
*Nas histórias clássicas de Zorro, Bernardo é o criado mudo de Dom Diego de la Vega, e um dos poucos a conhecerem a verdadeira identidade do herói mascarado. Do mesmo modo que Zorro influenciou a criação de Batman, Bernardo serviu de inspiração a Alfred Pennyworth, mordomo e preceptor de Bruce Wayne;
*O enredo de A Máscara de Zorro incorpora diversos eventos reais e figuras históricas, como Joaquín Murrieta e o seu sócio Jack Três Dedos. Dois bandidos mexicanos com um código de honra muito próprio que, em 1853 (mais uma década depois da data referenciada no filme), foram mortos às mãos de um grupo de Texas Rangers comandados por Harry Love (aqui retratado como Harrison Love, um capitão do Exército estadunidense). A película reproduz ainda um facto macabro: após a execução de Murrieta e Três Dedos, o verdadeiro Harry Love preservou as cabeças decepadas dos dois foras da lei em frascos com álcool, as quais gostava de exibir como troféus.
Joaquín Murrieta, o fora da lei que foi o Zorro da vida real.


Veredito: 74%

Com uma abordagem leve e divertida, o filme marcou o regresso de Zorro ao grande ecrã após uma prolongada ausência de quase duas décadas. Martin Campbell serviu-nos uma aventura despretensiosa, porém repleta de energia e personagens interessantes interpretadas por um sólido elenco.
Sucessor espiritual da série clássica da Disney com Guy Williams que nos, idos de 50, fez vibrar miúdos e graúdos, A Máscara de Zorro possui algo que se vê cada vez menos nos filmes de ação modernos: um herói confiante que não vacila em fazer a coisa certa. Zorro possui um arreigado sentido de honra e, por isso,  as suas dívidas de sangue são imprescritíveis.
Apresentado como um ladrão sem eira nem beira, Alejandro Murrieta (irmão fictício do lendário Joaquín Murrieta) seduz o espectador antes mesmo de conseguir seduzir a formosa Elena. Mérito de Antonio Banderas que, apesar das suas limitações, confere charme e carisma à sua personagem.
Não por acaso, as melhores cenas do filme - desde logo a vibrante dança entre Alejandro e Elena na festa de Dom Rafael Montero - têm Banderas e Catherine Zeta-Jones como protagonistas. De tão intensa, a química entre ambos é quase palpável.
Em paralelo com os duelos de espadas primorosamente coreografados, esse é, de resto, um fator fundamental para o sucesso da narrativa. Que, apesar da sua simplicidade, não insulta a inteligência do espectador e tem o mérito acrescido de preservar a essência das personagens.
As fazendas, as minas secretas, as masmorras e os cavalos a galope evocam também a tradicional cenografia dos westerns clássicos, transportando-nos a uma época em que os homens eram arquétipos varonis e era perfeitamente percetível a fronteira entre Bem e Mal.
Como não há bela sem senão, o filme tem na excessiva duração do duelo final e em algumas tentativas humorísticas malsucedidas as suas principais pechas narrativas. Provando, ainda assim, ser desnecessário fazer uma análise profunda do  herói e/ou desconstruir o próprio conceito de heroísmo para contar uma boa história. Algo que A Máscara de Zorro faz muitíssimo bem.

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Um herói à moda antiga.






15 agosto 2019

FÁBRICAS DE MITOS: TIMELY COMICS


  Num tempo de maravilhas e prodígios, lançou as bases do Universo Marvel e a trepidante carreira de Stan Lee. Teve no Capitão América o seu porta-estandarte e, tal como ele, foi revivida para enfrentar os desafios do presente.

Self-made man

Numa tentativa de suster a abrupta queda nas vendas, no início de 2016 a Marvel anunciou o lançamento de uma nova linha de títulos económicos com o selo Timely Comics. Face à possibilidade de adquirirem reedições a preços de saldo, os leitores aplaudiram a iniciativa, indiferentes, porém, ao cariz revivalista da mesma. Tanto assim que somente uma ínfima minoria conhecerá a singular história daquela que foi uma espécie de antepassada neolítica da Casa das Ideias. Uma história que começou a ser gravada na pedra há precisamente 80 anos, e que teve em Martin Goodman, self-made man moldado pelos rigores da Grande Depressão, o seu principal intérprete.
Mas quem era, afinal, o homem, personificação do Sonho Americano, que, a partir do zero, construiu um império editorial que continua a influenciar o imaginário coletivo?
Primogénito de um humildade casal de imigrantes lituanos de origem judaica radicados no Brooklyn, foi nesse pitoresco bairro nova-iorquino que, em 1908, nasceu Moses Goodman - o seu nome de batismo antes de adotar o pseudónimo que o imortalizaria na cultura popular. Após breve passagem pelos bancos da escola (consta que não terá ido além da instrução primária), o pequeno Moe, como era tratado pelos amigos, começou a calejar as mãos para ajudar no sustento dos 16 irmãos que a sua mãe trouxera entretanto ao mundo.
Quando os desvarios de Wall Street reduziram a economia americana a um cemitério de sonhos destruídos, o clã Goodman, como tantas outras famílias subitamente atiradas para a mais aviltante pobreza, teve de deixar a cidade que nunca dorme, em busca de uma vida melhor.
Martin Goodman passou, assim, parte da sua juventude a deambular pelo país e a (sobre)viver em acampamentos de indigentes e vagabundos. Esse forte instinto de sobrevivência ajudá-lo-ia, anos mais tarde, a vingar no mundo dos negócios, onde tantas vezes impera a lei da selva.

Martin Goodman: de miserável a magnata.
No início dos anos 1930, Martin Goodman, recém-regressado a Nova Iorque, foi contratado para o departamento comercial da Eastern Distributing Corp., uma distribuidora de revistas presidida por Louis Silberkleit, futuro fundador da Archie Comics, Após a falência da empresa, oficialmente declarada em outubro de 1932, Martin Goodman angariou o capital necessário para criar a sua própria companhia. Nesse mesmo ano nascia a Western Fiction Publishing.
A primeira aposta de Martin Goodman como editor foi a Western Supernovel Magazine, uma antologia de contos ambientados no Velho Oeste que chegou às bancas em maio de 1933. E que, logo na edição seguinte, teria o seu nome alterado para Complete Western Book Magazine.
À boleia do sucesso desta primeira publicação, rapidamente a Western Fiction Publishing diversificou o seu catálogo. Da ficção científica às histórias de detetives, passando pelas aventuras na selva, nenhum dos géneros mais populares ficou de fora. Entre a caterva de títulos lançados, o mais bem-sucedido foi Marvel Science Stories. Seria ele que, em 1939, emprestaria nome à primeira revista editada pela Timely Comics. Que, provavelmente, nunca teria existido se, dois anos antes, Martin Goodman, regressado da sua lua-de-mel europeia, tivesse, como previsto, embarcado no malsinado Hidenburg.
Recorde-se que o dirigível, de fabrico germânico, se incendiou em pleno ar quando se preparava para pousar num aeródromo de Nova Jérsia, causando a morte a 36 pessoas, entre passageiros e membros da tripulação. Apesar de ter adquirido as respetivas passagens, o casal Goodman acabou, à última hora, por optar pelo avião, evitando desse modo uma viagem que poderia ter sido fatídica.

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O magazine pulp que daria nome
 à primeira publicação da Timely Comics.
Enquanto editor, Martin Goodman ficaria conhecido por duas coisas: replicar os sucessos da concorrência e inundar o mercado com publicações sobre as temáticas mais populares. A sua estratégia comercial era, essencialmente, focada no curto prazo. Em vez de ditar tendências, preferia segui-las. Em vez de correr riscos, preferia jogar pelo seguro.
Martin Goodman também não se preocupava muito com a inovação e, dada a sua imaginação limitada, pouco controlo editorial impunha aos seus colaboradores. Estes descreviam-no como um homem cordato e aprumado que não dispensava longas sestas no seu escritório.
Martin Goodman podia não ser um visionário, mas fazia bom dinheiro e evitava dar passos em falso. O seu mantra era "Se tens um título que vende bem, junta-lhe outros do mesmo género e multiplicarás o teu lucro." Sem surpresas, seria essa filosofia de negócios que transplantaria para a Timely Comics, a sua joia da coroa.

Tempos de mudança

Em 1939, Martin Goodman procurava novos nichos de mercado para expandir o seu negócio. Atento ao desenvolvimento da indústria dos comics books a reboque do retumbante êxito do Super-Homem no ano anterior, Goodman resolveu incluí-los na sua eclética linha de publicações. Viviam-se tempos de mudança e o dono da Timely Publications não queria ficar à margem. Era um editor à procura de histórias.
Num daqueles obséquios do acaso, Goodman travou por essa altura conhecimento com um vendedor ao serviço da recém-fundada Funnies Incorporated. Por sinal, uma agência de autores independentes à procura de um editor.
Por aqueles dias, o promissor segmento super-heroico era dominado por um quarteto de editoras: Fox Comics, Centaur Publications, All-American Comics e National Periodicals (estas duas últimas dariam origem à DC). A Funnies Incorporated era constituída por antigos colaboradores da Centaur, que começaram por acalentar o sonho de produzir conteúdos próprios. A falta de liquidez fê-los no entanto repensar a sua estratégia. Que consistia agora em providenciar histórias aos quadradinhos às editoras que não dispunham de staff próprio. Na Timely Comics encontraram uma parceira talhada à medida.
Originalmente, a Timely Comics era uma divisão da Timely Publications, grupo editorial presidido por Martin Goodman. Servia-lhe de sede um pequeno apartamento no McGraw Hill Building, imponente arranha-céus que dominava a paisagem do lendário bairro de Hell's Kitchen.
Conhecida a propensão de Martin Goodman para replicar sucessos da concorrência, muitos acreditam, erroneamente, que o nome "Timely" adveio de uma versão genérica da conceituada revista Time. Na verdade, a marca teve origem noutra imitação. Tal como o título deixa facilmente perceber, a Popular Digest era um fac-símile da Reader's Digest e tinha como premissa "Timely Topics Condensed" (algo como "Tópicos Condensados da Atualidade"). Foi, pois, nessa sua antiga publicação, da qual foram editados apenas dois fascículos, que Goodman se inspirou para batizar a sua nova empresa.

Índice do primeiro número de Popular Digest, a resposta de Martin Goodman à
popularidade da Reader's Digest.
A primeira edição lançada sob os auspícios da Timely Comics chegou às bancas em outubro de 1939. Uma vez mais, com título emprestado. Marvel Comics nº1 compilava histórias de diferentes géneros (nem todas ilustradas) e apresentou ao mundo três novos super-heróis: Tocha Humana, Namor, o Príncipe Submarino e Anjo (um detetive fantasiado sem qualquer relação com o X-Man homónimo). Com 80 mil exemplares vendidos, no mês seguinte seria lançada uma segunda edição de Marvel Comics nº1, obtendo tiragem idêntica à da primeira. Números que, embora impressionantes, eram muito inferiores aos conseguidos pelas maiores concorrentes, designadamente pela National Periodicals. Aos olhos dos "tubarões", a Timely Comics não passava de peixe miúdo. Mas isso estava prestes a mudar.
Em 1939, Marvel Comics nº1 introduziu
 os primeiros super-heróis da Timely.
Percebendo o filão que tinha em mãos, Martin Goodman, fiel à sua estratégia comercial, não perdeu tempo a lançar uma linha de títulos periódicos com super-heróis. Recrutando, para esse efeito, artistas e escritores de diferentes proveniências. No entanto, a sua contratação mais sonora seria um dos maiores talentos da Funnies Incorporated, a quem confiou o cargo de editor. Ninguém menos do que Joe Simon.
Simon não veio sozinho. Consigo trouxe Jack Kirby, seu antigo parceiro criativo na Fox Comics. A dupla criaria, pouco tempo depois, aquele que seria o porta-estandarte da Timely Comics: o Capitão América.
A despeito do bom desempenho do número inaugural de Marvel Comics (entretanto renomeada Marvel Mystery Comics), as edições subsequentes ficaram aquém das expectativas. Lançados com pequenos intervalos ao longo de 1940, Daring Mystery Comics, Mystic Comics e Red Raven Comics também demoravam a afirmar-se. O último seria mesmo precocemente cancelado, logo rendido por The Human Torch. O Tocha Humana tornava-se, assim, o primeiro herói da Timely Comics a ganhar série própria. Mas nem isso atraiu novos leitores
À euforia inicial seguiu-se a estagnação e a Timely Comics parecia condenada a dissolver-se na espuma sazonal. Começaram a soar os alarmes no escritório de Martin Goodman.

Joe Simon (de pé) e Jack Kirby.
Em baixo, dois dos títulos mais populares da Timely Comics.

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Mesmo com tiragem modesta, Marvel Mystery Comics continuava a ser, de longe, o título mais popular da Timely. Muito por conta dos seus dois astros residentes: Tocha Humana e Namor, o Príncipe Submarino. Explorando a dualidade simbólica das duas personagens (Fogo versus Água), em 1940 os respetivos criadores, Carl Burgos e Bill Everett, promoveram aquele que seria o primeiro crossover da história da 9ª Arte.
Numa história em duas partes, narrada sob o ponto de vista de cada um dos contendores, o androide inflamável e o temperamental monarca atlante mediram forças nos números 8 e 9 de Marvel Mystery Comics. Graças a essa arrojada - e inédita - iniciativa, a Timely Comics voltou ao jogo e foram estabelecidas as bases do futuro Universo Marvel.

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Anunciado como "a batalha do século", o duelo entre o Tocha Humana e o Príncipe Submarino
foi o primeiro crossover da histórias da 9ª Arte.
Embora naturalmente satisfeito, Martin Goodman sabia que isso era insuficiente. Com novas editoras e novos heróis a surgirem em barda, sabia estar a travar um combate desigual. Para ficar em paridade de armas, precisava de um campeão de vendas. E foi isso que pediu a Joe Simon.
Ciente da urgência do pedido do patrão, Joe Simon tratou logo de deitar mãos à obra. Dias depois apresentou a sua proposta: um herói de inspiração patriótica vestido com a Star and Stripes e portando um escudo metálico. Em linha com a tradição da Timely, o conceito reproduzia outro preexistente. Escassos meses antes, a MLJ Comics (atual Archie Comics) apresentara uma personagem similar chamada The Shield.
Simon batizou inicialmente a sua criação de Super American, mas Captain America deverá ter-lhe soado melhor. Aprovada a ideia, Jack Kirby foi o escolhido para ilustrar a primeira história do Sentinela da Liberdade.
Lançado em dezembro de 1940, precisamente um ano antes do ataque japonês a Pearl Harbor e consequente participação dos EUA na II Guerra Mundial, Captain America nº1 (cuja capa, da autoria de Joe Simon, mostrava o herói a esmurrar Hitler), excedeu todas as expectativas ao vender mais de um milhão de exemplares.

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A edição de estreia do Capitão América vendeu mais de um milhão de exemplares.
Radiante e com cifrões a retinirem-lhe nos olhos, Martin Goodman de pronto manifestou o seu desejo de adquirir os direitos da personagem. Sabendo ter em mãos uma mina de ouro capaz de despertar a cobiça de editoras com maior poder económico do que a Timely, Joe Simon impôs várias condições à concretização do negócio.
Apesar da sua reputação de negociador implacável, Martin Goodman cedeu às exigências do seu colaborador. Concordou, desde logo, em atribuir uma série própria ao Capitão América, em vez de submergi-lo numa qualquer antologia. Creditados como autores, Joe Simon e Jack Kirby receberiam 25% dos lucros e seriam, ademais, promovidos, respetivamente, a editor-chefe e diretor artístico da Timely Comics. Termos bastante vantajosos e incomuns numa época em que escritores e artistas eram, na sua larga maioria, mão de obra descartável numa indústria que não tinha pejo em explorá-los.
Com o advento do Capitão América, a Timely Comics reuniu a primeira trindade de super-heróis, precedendo em alguns meses a da DC, na medida em que só em finais de 1941 a Mulher-Maravilha se juntaria ao Super-Homem e ao Batman.
Atolados em trabalho, Joe Simon e Jack Kirby imploravam por um assistente. A escolha recaiu sobre um extrovertido jovem de 17 anos que era primo da mulher de Martin Goodman. O seu nome era Stanley Lieber. Ficaria, porém, imortalizado pelo seu pseudónimo: Stan Lee.

A Trindade da Timely recriada pelo traço de David Finch.

Enfant terrible

Nos seus dias de glória, a Timely Publications era um vibrante ninho de nepotismo. Do respetivo staff faziam parte vários parentes de Martin Goodman, incluindo três dos seus irmãos. Artie Goodman elaborava guias de cores para as bandas desenhadas, Abe Goodman tratava da contabilidade e Dave Goodman tinha como árdua tarefa fotografar curvilíneas modelos seminuas para as revistas masculinas.
Outro elemento com ligações familiares ao presidente da Timely era Robert Solomon. Tratava-se de um cunhado de Martin Goodman encarregue dos assuntos que este estaria demasiado ocupado para resolver por si próprio. Solomon, ríspido no trato, era também uma das figuras mais detestadas pelo staff da Timely. Tio de Stan Lee, seria pela sua mão que o futuro guru da Marvel daria os primeiros passos na indústria dos comic books.
Por oito dólares por semana (o dobro do que auferiam muitos artistas), Stan Lee servia cafés, revia roteiros, organizava a correspondência e apagava as linhas de lápis nos esboços arte-finalizados de Jack Kirby. Nos tempos mortos, o irrequieto Stan gostava de bater com as portas ou tocar a sua ocarina, o que deixava os seus colegas de trabalho com os nervos em franja. A Kirby irritava-o profundamente não poder puxar as orelhas àquele enfant terrible, a salvo de corretivos apenas por ser primo do patrão.

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Stan Lee era ainda um jovem imberbe
 quando adentrou no mundo dos quadradinhos.
Apesar dos seus ocasionais atritos, Joe Simon, Jack Kirby e Stan Lee adoravam trabalhar na série mensal do Capitão América. Empolgado com o  apreciável sucesso do Sentinela da Liberdade, Martin Goodman acreditava que ele podia fazer sombra a outros campeões de vendas, como o Capitão Marvel, da Fawcett Comics, ou até mesmo ao próprio Super-Homem. Talvez porque nunca lhe terá ocorrido que o patriotismo, bem como as histórias de super-heróis, poderiam sair de moda.
Levava Captain America uma dezena de números publicados quando surgiu a primeira contrariedade. Entre mútuas acusações de deslealdade, Martin Goodman viu-se obrigado a demitir Joe Simon e Jack Kirby.
Os criadores do Sentinela da Liberdade vinham negociando em segredo uma transferência para a DC. Se Joe Simon não excluía a hipótese de ter havido uma fuga de informação por parte da rival, Jack Kirby, ao invés, estava convicto de que fora Stan Lee a dar com a língua nos dentes. Pouco tempo antes, Kirby cometera a imprudência de confidenciar ao primo do patrão os seus planos para deixar a Timely. Este seria, aliás, o primeiro de muitos episódios controversos a pontuarem a relação desses dois titãs da 9ª Arte.
Após a saída de Joe Simon e Jack Kirby, em finais de 1941, Stan Lee, em vésperas de completar 19 anos, foi promovido a editor interino. Cargo que acumulou com o de escritor de Captain America antes de ser chamado a cumprir o serviço militar. Embora inexperiente, o jovem Stan deu boa conta do recado e a série, mesmo desfalcada dos seus autores, manteve-se na senda do sucesso.
Com Stan Lee ao leme, os anos de guerra foram de prosperidade para a Timely Comics. Apesar de ter ainda no Capitão América o seu indisputado campeão de vendas, a editora dispunha agora de um catálogo abrangente que abarcava praticamente todos os géneros.
Por indicação do próprio Martin Goodman, sempre sintonizado com as tendências do mercado, desde abril de 1942 que a Timely Comics vinha publicando revistas humorísticas maioritariamente protagonizadas por animais antropomorfizados. Títulos como Zippy Pig and Silly Seal ou Super Rabbit Comics vendiam quase tanto como as séries super-heroicas.
Um público até então menosprezado, as adolescentes foram outra das apostas da Timely nesta fase. A pensar nelas foram lançados títulos como Millie the Model ou Patsy Walker, em paralelo com novas super-heroínas como Sun Girl ou Namorita, a contraparte feminina do Príncipe Submarino.

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O ecletismo editorial foi uma das imagens de marca da Timely Comics.
Outra novidade consistiu em incluir um escudo patriótico nas capas de todas as revistas editadas pela Timely Comics. Inspirado no escudo triangular originalmente portado pelo Capitão América, tornar-se-ia o símbolo da editora e aquele que perduraria na memória. Mais ou menos pela mesma altura, a Timely Comics transferiu a sua sede para o 14º piso do Empire State Building, onde permaneceria até 1951.
À medida que o fulgor dos super-heróis desvanecia no pós-guerra, muitas das personagens da Timely Comics foram resvalando para a obscuridade. À qual nem o próprio Capitão América escaparia.
Se é difícil assinalar com precisão o fim da Idade de Ouro, o crepúsculo da Timely Comics, reminiscência dessa era de maravilhas, coincidiu seguramente com o cancelamento de Captain America, em outubro de 1950.
Enquanto soava o dobre a finados de uma era, Martin Goodman, exemplo de perseverança, preparava-se para uma nova. A Timely Comics dava, assim, lugar à Atlas Comics para fazer face aos desafios presentes e futuros. Mas essa é uma história para outra altura...


Parte do panteão da Timely seria incorporado no Universo Marvel.


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2016 marcou o regresso da Timely Comics,
agora como linha low cost da Marvel.

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22 julho 2019

HERÓIS EM AÇÃO: QUARTETO FANTÁSTICO


  Mesmo nos seus momentos menos felizes, a Primeira Família de Heróis - tão falha e disfuncional como qualquer outra - provou que o todo é maior do que a soma das partes. Argonautas do impossível sedentos de novas aventuras, enfrentam futuro incerto dentro e fora dos quadradinhos.

Denominação original: Fantastic Four
Editora: Marvel Comics
Criadores: Stan Lee e Jack Kirby
Estreia: The Fantastic Four nº1 (novembro de 1961)
Membros fundadores: Senhor Fantástico (Mister Fantastic), Mulher Invisível (Invisible Woman),  O Coisa (The Thing) e Tocha Humana (Human Torch)
Local de fundação: Central City, Califórnia
Outros membros: Cristalys, Medusa, Mulher-Hulk, Nova, Mulher-Coisa, Franklin Richards, Valeria Richards, Pantera Negra e Tempestade
Base operacional: Nas suas primeiras histórias, o Quarteto Fantástico operava a partir de Central City (cidade natal de Reed Richards e local de formação do grupo), mas depressa se instalaria em Nova Iorque. Na Grande Maçã ocupou vários quartéis-generais, o mais notável dos quais foi o Edifício Baxter, um arranha-céus de 35 andares situado no coração de Manhattan. Quando este foi destruído pelo filho adotivo de Victor Von Doom (o infame Doutor Destino), o grupo ficou temporariamente alojado na Mansão dos Vingadores antes de se transferir para o imponente e ultrasofisticado Four Freedoms Plaza (assim batizado em alusão a um célebre discurso ao Congresso pronunciado pelo Presidente Franklin D. Roosevelt nas vésperas da entrada dos EUA na II Guerra Mundial). Após a destruição do Four Freedoms Plaza em consequência de um devastador ataque dos Thunderbolts, o Quarteto Fantástico usou o Cais 4 - um discreto armazém no porto de Nova Iorque - como sede provisória. Quando o Cais 4 sofreu destino idêntico ao dos seus antecessores, o grupo foi presenteado com uma nova e melhorada versão do Edifício Baxter, cortesia de Noah Baxter, antigo professor de Reed Richards. Construído em órbita, o novo Edifício Baxter foi depois teletransportado para o exato local onde outrora se erguia o original.
Némesis: Doutor Destino 


O Edifício Baxter original (cima) e o Four Freedoms Plaza
 foram as duas primeiras moradas da Família Fundamental.

Primeiros inquilinos da Casa das Ideias

A história, com matizes lendárias mas nunca desmentida pelos saudosos intervenientes, reza assim: num belo dia de 1961, Martin Goodman (editor-chefe da Marvel) e Jack Liebowitz (seu homólogo da DC) disputavam uma das suas costumeiras partidas de golfe. Num intervalo entre tacadas, o segundo ter-se-á gabado do sucesso da Liga da Justiça da América. Para delírio dos fãs, aquela que era a nova coqueluche da Editora das Lendas reunia numa mesma revista alguns dos maiores astros da companhia.
A bazófia do rival terá desencadeado em Goodman um momento eureca. De volta aos escritórios da Marvel, exortou Stan Lee, editor do departamento super-heroico, a criar uma equipa de justiceiros fantasiados  para competir diretamente com a Liga da Justiça.
Ao princípio, Stan Lee não ficou propriamente empolgado com a ideia. Tanto mais que estava de malas aviadas. Por considerar que a indústria dos quadradinhos se encontrava estagnada - muito por culpa das restrições moralistas impostas pela Comic Code Authority -  Lee planeava abandoná-la tão logo expirasse o contrato que o vinculava à Marvel.
Convicto de que aquela seria a última história de super-heróis que escreveria na vida, Stan Lee encheu-se de brios para fechar com chave de ouro a sua já longa carreira nos quadradinhos, iniciada nos alvores da Idade de Ouro ao serviço da Timely Comics.
O destino tinha, no entanto, outros planos para Stan Lee. Sem que este o soubesse, aquele seria um momento crucial no percurso que faria dele uma lenda viva dos quadradinhos.  Nos dias seguintes, Lee não deu descanso à pena:«No que deveria ter sido a minha despedida, resolvi escrever uma história que eu próprio gostasse de ler. Uma história com personagens falíveis, ídolos com pés de barro com os quais a maioria de nós simpatizaria.»
Lee terá fornecido então uma sinopse a Jack Kirby, a quem coube desenhar a história. À arte de Kirby, Lee acrescentou depois as legendas e os diálogos. Um processo criativo a que foi dado o nome de Método Marvel, e que faria escola dentro e fora da Casa das Ideias.
Quando confrontado com esta versão dos acontecimentos, numa entrevista de 1990, Jack Kirby reagiu assim: «Não passa de uma mentira descarada! Fui eu quem apresentou a Martin Goodman a ideia para o Quarteto Fantástico. Lee limitou-se a adicionar os diálogos à história que eu havia desenhado." 
Kirby também reafirmou em diferentes ocasiões que tinha sido ele a conceptualizar os elementos visuais da história. Apontando, à laia de prova, as semelhanças com os Desafiadores do Desconhecido (Challengers of the Unknown), grupo de aventureiros científicos que havia criado para a DC em 1957.
«Se atentarem nos uniformes do Quarteto Fantástico, - explicou Kirby -  perceberão que são similares aos dos Desafiadores do Desconhecido. Sempre tive preferência por uniformes práticos e com cinto. Uns e outros seguem esse padrão. E, no caso do Quarteto, o Coisa serviu para quebrar a monotonia do azul."
Apesar dos relatos divergentes, é opinião unânime entre vários dos seus contemporâneos que Stan Lee e Jack Kirby partilham a "paternidade" da Primeira Família de Heróis.

Jack Kirby (esq.) e Stan Lee recordavam de forma diferente
 a criação da primeira super-equipa da Marvel.
Em baixo, os Desafiadores do Desconhecido pelo traço do Rei.
Já no que tange à criação da insígnia peitoral que adorna os uniformes do Quarteto (um 4 estilizado dentro de um círculo), não restam dúvidas de que foi Stan Lee o autor da ideia. No entanto, a equipa atuou à paisana nas suas duas primeiras histórias. Foi essa a forma encontrada para prevenir um eventual atrito com a DC que, além de concorrente direta, era também a proprietária da distribuidora que fazia chegar às bancas as revistas da Marvel.
Em novembro de 1961, o Quarteto Fantástico fez a sua estreia em The Fantastic Four nº1 (o "The" cairia no número 16) e o seu estrepitoso sucesso surpreendeu até os próprios autores. Ao ponto de fazer Stan Lee reconsiderar a sua decisão de abandonar a Marvel e, por extensão, a indústria dos comic books.
Antes de salvar o mundo, o Quarteto Fantástico salvou, portanto, a carreira de Stan Lee. Que retribuiu com um fortíssimo investimento emocional, escrevendo algumas das melhores histórias do grupo, sempre sublimadas pelo magnífico traço de Jack Kirby.
Numa época em que a palavra de ordem era "inovar", o realismo da caracterização dos membros do Quarteto Fantástico foi uma das coordenadas do sucesso. Apesar da constante tensão entre eles, dificultando o trabalho em equipa, sabiam sempre transformar as fraquezas individuais na força do coletivo.
Outro aspeto diferenciador do Quarteto Fantástico era a ausência de identidades secretas. Em vez do anonimato cultivado pela maioria dos super-heróis, os seus membros gozavam do estatuto de celebridades. A mesma multidão que, não raro, suspeitava dos vigilantes mascarados, idolatrava sem reservas Reed Richards e companhia.
Era, todavia, na sua dinâmica familiar que residia o principal atrativo do Quarteto Fantástico. Uma mistura volátil de emoções e personalidades contrastantes, nem sempre eram a mais funcional das famílias mas tinham sempre presente que, perante as provações, a união faz a força. Constituindo, desse modo, uma metáfora perfeita para o turbulento relacionamento entre Stan Lee e Jack Kirby, o alfa e o ómega da Casa das Ideias.
A mesma Casa das Ideais que teve no Quarteto Fantástico os seus primeiro inquilinos. Mas que, hoje, parece não ter espaço para eles. Depois do inusitado cancelamento da sua série mensal em 2015, a Primeira Família de Heróis regressou ao ativo no ano passado, mais na qualidade de hóspedes VIP do que de anfitriões de uma casa devoluta de imaginação mas sobrelotada de causas identitárias.

A estreia da Primeira Família de Heróis em Fantastic Four nº1 (1962).

Argonautas do impossível

Um dos maiores vultos mundiais da engenharia aeroespacial, Reed Richards inventou a primeira espaçonave capaz de viajar até aos confins do nosso Sistema Solar. Esta foi, no entanto, uma pequena alteração ao rascunho inicial da história que apresentava a origem do Quarteto Fantástico. Num primeiro momento, Stan Lee definira Marte como destino da abortada missão espacial que levaria à formação daquela que seria a primeira super-equipa da Marvel.
Dado o considerável avanço que, por aqueles dias, os soviéticos levavam sobre os americanos na corrida espacial, Lee considerou prudente ser mais abrangente na sua descrição. Não fosse dar-se o caso de, aquando da publicação da história, uma bandeira da URSS ter já sido plantada na superfície do Planeta Vermelho.
Quando, em vésperas da data lançamento do foguetão de Richards, o Governo americano anunciou a sua intenção de cortar o financiamento do projeto, o jovem cientista ficou desesperado face à perspetiva de todo o seu trabalho ter sido em vão.
Recusando-se a atirar a toalha ao chão, Reed convenceu então a sua namorada (Susan Storm), o irmão dela (Johnny Storm) e um seu amigo dos tempos da faculdade (Ben Grimm) a acompanhá-lo num voo orbital não-autorizado. Cabendo a Ben, um experiente ex-piloto de testes, assumir os comandos da nave.
A coberto da noite, e antes que os jatos da Força Aérea pudessem intercetá-lo, o foguetão descolou rumo às estrelas com os quatro astronautas improvisados a bordo. Logo depois de ter saído da atmosfera terrestre, a nave foi engolida por uma tempestade subespacial e exposta a um intenso bombardeamento de radiação cósmica.
Assustada e desorientada, a tripulação comandada por Reed não teve outra opção senão abortar a missão e regressar, a muito custo, à Terra. Apesar de a nave se ter despenhado numa zona florestal, os seus ocupantes saíram aparentemente ilesos. Depressa descobriram, porém, terem sofrido mutações induzidas pelos raios cósmicos, que os dotaram de incríveis poderes.
Reed Richards conseguia agora esticar o seu corpo e membros como se de um elástico humano se tratasse; Susan Storm conseguia ficar invisível; Johnny Storm incendiava-se e conseguia voar; Ben Grimm, o menos afortunado do grupo, teve o seu corpo recoberto por uma densa camada rochosa e era senhor de uma força descomunal.
Note-se como os poderes de cada membro do Quarteto Fantástico correspondem aos quatro elementos primordiais estabelecidos pela Filosofia grega clássica: Terra (Coisa), Ar (Mulher Invisível), Fogo (Tocha Humana) e Água (Senhor Fantástico).

Terra, Ar, Fogo e Água.
Os 4 elementos primordiais estão representados no Quarteto Fantástico.
Apesar de ter decidido usar as suas habilidades em prol da Humanidade, o Quarteto Fantástico sempre se considerou mais uma família de cientistas e exploradores do que uma equipa de super-heróis. Foi Reed quem, por exemplo, descobriu a Zona Negativa, uma dimensão paralela composta por antimatéria, mas com uma atmosfera respirável que permite ao grupo visitá-la com regularidade.
Em todo o caso, o financiamento das atividades do Quarteto advém das inúmeras patentes registadas por Reed ao longo dos anos. Uma das mais lucrativas diz respeito às moléculas instáveis, usadas na confeção dos uniformes usados pelo grupo devido à sua capacidade de adaptação aos poderes de cada membro. É graças a elas que, por exemplo, o traje do Tocha Humana não arde sempre que ele se incendeia.
Para estes argonautas do impossível, habituados a viverem epopeias que desafiam os limites da imaginação e a contemplar as maiores maravilhas e horrores que o Universo tem para oferecer, viagens extradimensionais ou encontros com entidades cósmicas de incomensurável poder são apenas mais um dia no escritório.

Família alargada

À imagem e semelhança de qualquer outra família, o Quarteto Fantástico sofreu diversas reconfigurações no decurso dos anos. Em qualquer uma das suas formações, o grupo provou no entanto que o todo consegue ser maior do que a soma das partes, e soube sempre dar resposta coesa aos desafios que lhe foram sendo apresentados.
O seu núcleo duro é composto por quatro personalidades tão distintas entre si como as quatro estações do ano o costumavam ser antes de as alterações climáticas as baralharem. Fiquemos agora a conhecê-las um pouco melhor, assim como alguns apontamentos curiosos sobre cada um dos Quatro Fantásticos:

*Senhor Fantástico: Génio científico, Reed Richards representa a figura paterna do grupo, com perfil condizente: pragmático, autoritário e, não raro, enfadonho. Reed recrimina-se pelo fiasco da sua missão espacial e, particularmente, pela horrenda transformação do seu velho amigo Ben Grimm.
Capaz de esticar, deformar ou expandir o seu corpo em qualquer forma concebida pela sua imaginação, os seus poderes elásticos foram inspirados nos de Plastic Man (antiga propriedade da Quality Comics, agora detida pela DC). Apesar do seu Q.I. estratosférico, Reed tende a ser socialmente inábil e reprovou quatro vezes no seu exame de condução. Tem como passatempo preferido corrigir as teses de outros cientistas de elevada craveira, em especial as de Stephen Hawking.

Mister Fantastic (Reed Richards) by Ron Frenz #RonFrenz #MisterFantastic #ReedRichards #FantasticFour #FF #FutureFoundation #Avengers #Defenders #Illuminati
Reed Richards, o cérebro do grupo.

*Mulher Invisível: Única representante do belo sexo no conjunto, Susan Storm agrega os papéis tradicionalmente reservados às mulheres: esposa, mãe e amiga. Stan Lee concedeu-lhe o dom de manipular a luz para se tornar invisível porque não apreciava a ideia de ter um clone da Mulher-Maravilha a distribuir porrada. Preferindo, ao invés, criar uma contraparte feminina do Homem Invisível imaginado por H.G. Wells em 1897.
Nos anos 80 do século passado, durante a aclamada fase da autoria de John Byrne, Susan Storm ganharia a capacidade adicional de gerar campos de força invisíveis, usados tanto para efeitos defensivos como ofensivos. Pela mão do autor canadiano, Susan tornar-se-ia simultaneamente uma mulher independente e o membro mais poderoso da equipa.
Em harmonia com os costumes da época em que foi criada, Susan foi inicialmente retratada como modelo, mas um retcon conferiu-lhe um doutoramento numa área não especificada. Infeliz no seu casamento com Reed, viveu em tempos um tórrido affair com o Príncipe Submarino, do qual resultou o seu abandono temporário do grupo e consequente substituição pela Inumana Medusa.

Mulher Invisível
Susan Storm, a matriarca da Família Fundamental.
*Tocha Humana: Irmão mais novo de Susan Storm e benjamim do grupo, Johnny Storm foi agraciado com mimetismo pirocinético, ou seja, a capacidade de transformar o seu corpo em fogo. Em virtude disso, consegue voar e disparar rajadas incandescentes. A sua personalidade rebelde e impulsiva é em tudo semelhante à de um adolescente. Johnny ressente-se, por isso, de ser uma criança entre adultos, que nem sempre o levam a sério.Tem no Homem-Aranha um dos seus melhores amigos, apesar de a relação entre os dois ter começado com o pé esquerdo.
O seu nome e habilidades homenageiam o Tocha Humana da Idade de Ouro (prontuário disponível neste blogue), tendo mesmo Johnny chegado a adotar em tempos um uniforme idêntico ao do seu antecessor.
Uma vez que ao inflamar-se incinera todos os germes e bactérias presentes no seu corpo, Johnny não tem realmente necessidade de tomar banho ou escovar os dentes, ainda que não prescinda desses hábitos de higiene.

Human Torch of the Fantastic 4 (Marvel Comics) creating a 4 symbol in the sky
Johnny Storm, o eterno enfant terrible.

*O Coisa: Antigo colega de quarto dos tempos da faculdade e melhor amigo de Reed Richards, Ben Grimm não está ligado por qualquer grau de parentesco aos restantes membros do grupo. Representando, antes, uma espécie de tio por afinidade, daqueles que existem em quase todas as famílias.
Com uma personalidade decalcada da de Jack Kirby, Ben é temperamental e dono de um sentido de humor corrosivo. Apesar de amargurado pela impossibilidade de reverter a sua monstruosa aparência, o seu coração de manteiga faz dele o mais humano de todos os elementos que compõem a Família Fundamental, sendo por isso muito acarinhado pelos fãs.
À sua força descomunal (estima-se que conseguirá levantar, aproximadamente, 85 toneladas), o Coisa alia uma incrível resistência física e uma vontade inquebrantável. Judeu como Kirby, originalmente a sua aparência invocava a de um Golem - de acordo com o folclore hebraico, um gigante de pedra animado com recurso à magia. É também o alvo preferido das partidas do Tocha Humana, que se diverte com a sua crónica rabugice.

Ben Grimm, a alma e coração do Quarteto.
Da necessidade de substituir provisoriamente algum dos membros fundadores, resultou ao longo dos anos o recrutamento de vários integrantes temporários do Quarteto Fantástico. Foram os casos, por exemplo, da Inumana Cristalys (que ocupou a vaga da Mulher Invisível durante a primeira gravidez desta), de Medusa, ou ainda da Mulher-Hulk, que emprestou músculo à equipa durante o exílio autoimposto  do Coisa no final das primeiras Guerras Secretas.
No rescaldo da Guerra Civil (saga já aqui esmiuçada), também o Senhor Fantástico e a Mulher Invisível abandonaram o Quarteto, sendo respetivamente revezados pelo Pantera Negra e Tempestade.
Ainda que o grupo nunca tenha passado oficialmente a quinteto, em vários momentos da sua história contou, de facto, com cinco elementos. No rol de supletivos destacam-se, pela importância e duração das suas participações, Nova e Mulher-Coisa - ex-namoradas de Johnny Storm e Ben Grimm, respetivamente.
Houve ainda uma ocasião em que os quatro membros originais foram capturados por uma fugitiva Skrull, abrindo caminho a uma formação inédita composta por Hulk, Wolverine, Homem-Aranha e Motoqueiro Fantasma (Danny Ketch).


Em tempos, a Mulher-Hulk substituiu o Coisa.

Miscelânea

*O disforme regente de um império subterrâneo povoado por diferentes tipos de monstros, o Homem-Toupeira (Mole Man) foi o primeiro antagonista do Quarteto Fantástico, em Fantastic Four nº1;
*No âmbito de uma campanha promocional, em 1974 a Marvel lançou uma coleção de selos com as suas personagens mais emblemáticas. Distribuída em conjunto com as revistas mensais da editora, a coleção podia ser também adquirida por via postal. Cada um dos membros do Quarteto Fantástico teve direito a uma estampilha individual;


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O selo individual do Coisa na coleção lançada pela Marvel em 1974.
*Em 1980, John Byrne produziu uma edição especial de Fantastic Four para a Coca-Cola. A história seria, no entanto, vetada pelos executivos da empresa, que a consideraram demasiado violenta. Meses depois, a Marvel publicá-la-ia em Fantastic Four 220 e 221;
*Exercícios de metalinguagem e autorreferenciação eram frequentes nas histórias antigas do Quarteto Fantástico. No final dos anos 1960, por exemplo, o grupo vendeu os seus direitos de imagem à Marvel Comics, que os adaptou aos quadradinhos. Noutra ocasião, Stan Lee e Jack Kirby surgiram como coadjuvantes interagindo diretamente com as suas criações;
*Entre Reed Richards e Susan Storm existe uma considerável diferença de idades. Consoante a fonte consultada, a mesma varia entre os dez e os vinte anos. Ironicamente, na última aventura cinematográfica da Primeira Família de Heróis (vide texto seguinte), Kate Mara - atriz que sucedeu a Rebecca Staab e Jessica Alba no papel de Mulher Invisível - era quatro anos mais velha do que Milles Teller, a quem coube interpretar o Senhor Fantástico;
*Todos os membros do Quarteto Fantástico já passaram, em algum momento, pelas fileiras dos Vingadores, bem como de outros contingentes heroicos;
*Nos primórdios da sua carreira heroica, o Homem-Aranha procurou ingressar no Quarteto Fantástico, desistindo desse intento ao ser informado que não seria remunerado. As suas recorrentes colaborações com o grupo fariam porém dele uma espécie de quinto elemento oficioso. Em 2011, após a aparente morte do Tocha Humana, o Escalador de Paredes, acedendo ao último pedido do amigo, juntou-se à Fundação Futuro, organização filantrópica herdeira direta do Quarteto;
*No Brasil, a Primeira Família de Heróis debutou em 1969, na revista do Demolidor publicada pela EBAL. No ano seguinte ganharia título próprio, dando sequência às histórias iniciadas na série do Homem Sem Medo. Seguiu-se uma breve passagem pela GEA antes do regresso da equipa à EBAL, em finais de 1973. Durante essa fase, as histórias do Quarteto foram insertas na revista do Homem-Aranha. Na viragem da década de 1980, o grupo seria sucessivamente relançado em título próprio pela Bloch e RGE. Em 1983, foi a vez de a Abril adquirir os direitos do Quarteto Fantástico, os quais conservaria até 2000. Atualmente, é a Panini a sua detentora em Terras Tupiniquins. Já na pequena paróquia atlântica povoada pelos descendentes de Viriato, o grupo estreou-se em 1972, sob os auspícios da Palirex, na Série Fantástica. Nesse mesmo ano teria direito a título próprio: Os 4 Fantásticos  (nomenclatura que seria mantida pela Agência Portuguesa de Revistas até meados da década seguinte);

A série quinzenal a preto branco dos 4 Fantásticos editada pela Palirex.

Noutros media

Com forte penetração no segmento audiovisual refletindo a sua popularidade na banda desenhada, o Quarteto Fantástico protagonizou, até ao momento, quatro séries animadas e outros tantos filmes em ação real.
A transição do grupo para o pequeno ecrã verificou-se em 1967, ano em que o canal ABC exibiu Fantastic Four, produzida pela Hanna-Barbera e com desenhos de Alex Toth. Mais de uma década volvida, em 1978, a Primeira Família de Heróis regressaria à TV, desfalcada porém de um dos seus membros. Nessa segunda série animada saída dos estúdios DePatie-Freleng, o robô H.E.R.B.I.E. fez as vezes do Tocha Humana, cujos direitos haviam sido vendidos pela Marvel para um filme a solo nunca produzido.
Com introduções de Stan Lee e inserida no bloco The Marvel Action Hour, a terceira série animada do Quarteto Fantástico, outra vez titulada simplesmente Fantastic Four, manteve-se no ar entre 1994 e 1996. A reboque do filme lançado no ano anterior, em 2006 a última incursão do grupo no campo da animação - Fantastic Four: World's Greatest Heroes - teve a chancela da Moonscoop.

The 1967 series
A primeira série animada do Quarteto foi produzida pela Hanna-Barbera em 1967.
Oficialmente, a estreia cinematográfica do Quarteto Fantástico ocorreu em 2005, com o lançamento da longa-metragem epónima dirigida por Tim Story e com Ioan Gruffudd, Jessica Alba, Chris Evans e Michael Chiklis a interpretarem, respetivamente, Senhor Fantástico, Mulher Invisível, Tocha Humana e O Coisa. Apesar da reação morna da crítica e dos fãs, o filme daria, dois anos depois, origem à sequela Fantastic Four: Rise of the Silver Surfer.
Estas duas adaptações oficiais do grupo ao grande ecrã foram, todavia, precedidas de uma longa-metragem apócrifa produzida em 1994. Dirigida por Roger Corman, cineasta especializado em filmes de baixo orçamento, Fantastic Four nunca chegaria às salas de cinema ou sequer seria distribuído no circuito vídeo, na medida em que serviu exclusivamente para que a Constantin Films conservasse os direitos das personagens, adquiridos à Marvel Comics em meados da década anterior.
Em resposta ao débil desempenho comercial de Fantastic Four: Rise of the Silver Surfer, em 2015 foi lançado um reboot da franquia. Com realização a cargo de Josh Trank, Fant4stic contou com Milles Teller, Kate Mara, Michael B. Jordan e Jamie Bell nos principais papéis, sendo baseado na versão Ultimate do grupo. Desmantelado pela crítica, o filme soçobrou nas bilheteiras e é considerado por muitos fãs um dos piores dentro do género super-heroico.

Os filmes do Quarteto Fantástico ainda não convenceram os fãs.
Na sequência da aquisição da 21st Century Fox (detentora dos direitos cinematográficos do Quarteto Fantástico) pela Disney (proprietária dos Estúdios Marvel), em março deste ano, é expectável que, a exemplo do que já sucedeu com o Homem-Aranha, a Primeira Família de Heróis venha, num futuro próximo, a ser integrada no MCU.
Além dos filmes, séries animadas e jogos de vídeo, o Quarteto Fantástico deu também origem, em 1975, a um folhetim radiofónico. Apesar da sua curta duração, o projeto - que revisitava as histórias iniciais do grupo em episódios de 5 minutos - contava com a narração do próprio Stan Lee e ajudou a celebrizar o então desconhecido Bill Murray, ator escolhido para emprestar voz ao Tocha Humana.

The Fantastic Four returns to monthly comics in August, 2018.
Estará a Família Fundamental a caminho do MCU?
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