07 janeiro 2021

ETERNOS: SY BARRY (1928 - ...)

Sy  Barry é uma lenda vida da 9ª Arte, uma inspiração para artistas de diferentes gerações e um dos últimos detentores da memória descritiva da Idade de Ouro dos comics. No decurso da sua vetusta carreira, produziu mais de 11 mil tiras do Fantasma lidas diariamente por milhões de pessoas nos quatro cantos do mundo. Parceiro criativo de Lee Falk, inúmeras histórias por ele ilustradas converteram-se em clássicos e ainda hoje são reimpressas. Em 1994, deixou um sentimento de orfandade nos fãs do Espírito-Que-anda ao abandonar a personagem a quem emprestara o traço durante mais de três décadas. 

Mesmo após tanto tempo, a sua popularidade segue em alta e a sua obra continua a ser reverenciada. Em 2005, foi galardoado com um Inkpot Award, prémio que anualmente distingue as personalidades mais influentes da cultura popular. Para os leitores mais recentes, porém, não passa de um ilustre desconhecido. Importa, por isso, dar a conhecer um pouco melhor o homem que, tal como o Espírito-Que-Anda, nasceu predestinado à imortalidade. 

Seymour "Sy" Barry veio ao mundo a 12 de março de 1928 em Nova Iorque, cidade onde passou praticamente toda a vida e onde continua a residir. Irmão mais novo de Dan Barry, artista consagrado pelo trabalho desenvolvido nas tiras diárias de Flash Gordon na década de 1950, o pequeno Sy tinha no lápis uma espécie de extensão da sua mão direita. Tanto assim que afirma não guardar memória de uma ocasião em que não estivesse a rabiscar um esboço. Com efeito, foi ainda nos tempos de meninice que o seu talento atraiu as primeiras atenções e louvores.

Quando várias escolas primárias da Grande Maçã organizaram um concurso artístico, Sy resolveu submeter um dos seus desenhos à apreciação do júri. O desenho em questão não só arrebatou o primeiro prémio como teve o privilégio de ficar em exposição, durante largas semanas, no Museu de Arte de Nova Iorque. 

No liceu, o talento inato de Sy também não passou despercebido. Um dos seus professores incentivou-o a tentar a admissão na School of Industrial Art de Nova Iorque. Sy tentou a sua sorte e fez parte do restrito lote de eleitos entre milhares de candidatos rejeitados. Corria o ano da graça de 1943 e foi nessa mui prestigiada instituição que Sy cunhou amizade para a vida com outros artistas com pedigree, como Joe Giella, Al Scaduto ou Emilio Squeglio. Representantes, todos eles, da ínclita geração de arquitetos e obreiros da Idade de Prata.

Concluídos os estudos, Sy empreendeu a sua carreira profissional como freelancer da Famous Funnies, aquela que muitos historiadores da cultura popular identificam como a primeira revista americana de banda desenhada. Nos anos imediatos, faria praticamente o pleno das principais editoras da época: Lev Gleason, Hillman Publications, Timely Comics e National Comics (estas últimas, antepassadas da Marvel e da DC, respetivamente). 

Famous Funnies acolheu os primeiros trabalhos profissionais de Sy Barry.

Em virtude dos modestos salários praticados pelas editoras, Sy, seguindo o exemplo de tantos outros oficiais do mesmo ofício, apostou na diversificação do seu portfólio. Nesse sentido, ao seu significativo aporte para o desenvolvimento da indústria dos comics somou colaborações em obras de literatura infantil e panfletos publicitários. Durante essa fase inicial da sua carreira, teve o privilégio de trabalhar com outros futuros mestres da Arte Sequencial, como Alex Toth (criador de Space Ghost), Frank Giacola (arte-finalista de Jack Kirby) ou André LeBlanc (seu futuro assistente nas tiras do Fantasma). Relações profissionais invariavelmente pautadas pela admiração mútua e que, não raro, estiveram na origem de boas amizades. 

Pouco tempo depois, Sy passaria a arte-finalizar os esboços do seu irmão nas tiras de Flash Gordon. Ainda que não tenha sido devidamente creditado, chegou mesmo a desenhar algumas histórias enquanto Dan esteve ausente na Europa. Cada vez mais requisitado, assumiu também a arte das tiras diárias do Super-Homem e do Batman, bem como de títulos emblemáticos como Action Comics (onde, em 1938, o Homem de Aço fizera a sua estreia). De histórias românticas a contos policiais, foram vários os géneros pelos quais transitou ao longo dessa sua primeira fase seminal.

Tira dominical colorida de Flash Gordon produzida pelos irmãos Dan e Sy Barry.


Em 1957, quando os afroamericanos ensaiavam os primeiros passos na sua tortuosa marcha pelos direitos civis, Sy Barry foi o artista escolhido para desenhar Martin Luther King and the Montgomery Story. Uma banda desenhada que era, simultaneamente, um manifesto político e um guia para ações de desobediência civil. Além de revisitar o boicote aos autocarros organizado, entre 1955 e 1956, pela população negra da cidade de Montgomery (Alabama) em protesto contra as leis segregacionistas, a obra incluía também uma pequena biografia de Martin Luther King. Com uma tiragem de 375 mil exemplares (um terço dos quais em espanhol), a revista foi distribuída em escolas e congregações frequentadas por afroamericanos e foi instrumento essencial para a propagação do evangelho igualitário do reverendo idealista que sonhava com uma sociedade pós-racial. Anos mais tarde, Sy declarou que esse trabalho serviu para aperfeiçoar a sua habilidade de desenhar negros, que tão útil lhe seria nas histórias do Fantasma.

A obra que associou o nome de Sy Barry à luta pelos direitos civis.

Apesar de a assinatura de Sy Barry figurar na capa da primeira edição de Martin Luther King and the Montgomery Story, em edições posteriores ela seria coberta por uma caixa de texto. Em razão disso, a identidade do desenhador foi, durante muito tempo, objeto de controvérsia e especulação. Até que, em 2008, Sy Barry confirmou ser ele - e não o irmão, como alguns suspeitavam - o legítimo dono do traço. Em 2018, um dos painéis da obra seria incluído na lista das cem páginas mais marcantes da história da banda desenhada divulgada pela revista Vulture

Sempre sob a asa do seu irmão mais velho, Sy logo passaria também a assisti-lo na tira de Tarzan. Apesar de enternecedora e profícua, a parceria entre os manos Barry tinha os dias contados. 

Quando, em 1961, Wilson McCoy sucumbiu a um fulminante ataque cardíaco, a King Features Syndicate apressou-se a encontrar novo artista para as tiras do Fantasma. A escolha inicial incidiu sobre Bill Lignate, mas o seu traço desagradava a Lee Falk. Cedendo às pressões do criador do Espírito-Que-Anda, a King Features despachou Lignate e lançou um concurso para escolher o sucessor de McCoy. Sy inscreveu-se e foi o escolhido para ilustrar aquela que era então a tira mais popular a nível global. 

Iniciava-se, assim, uma ligação de 33 anos, que faria de Sy Barry o recordista de longevidade nas histórias do Fantasma. Nenhum outro artista lhe emprestou o traço durante tanto tempo. E nenhum teve tanta influência na evolução da personagem.

Desde o início, Sy teve como principal preocupação a modernização da tira, que começava a acusar algum anquilosamento. Nesse sentido, persuadiu Lee Falk a modificar alguns elementos anacrónicos presentes no imaginário do Fantasma. No que pode ser percecionado como uma prefiguração da África pós-colonial, Bangalla (agora uma nação soberana) ganhou um presidente negro (Lamanda Luaga) e a Patrulha da Selva deixou de ter um comandante branco (o tradicional coronel Weeks foi rendido no posto pelo coronel Worubu). Apenas dois das dezenas de novos coadjuvantes que, no rolar das décadas, Sy Barry ajudaria a criar, enriquecendo ainda mais a mitologia do Espírito-Que-Anda.

Lamanda Luaga, o primeiro presidente negro de Bangalla.

Tal como os leitores, Lee Falk depressa ficou rendido ao trabalho de Sy Barry. Os seus traços sofisticados evidenciavam interpretações simplificadas e eram uma síntese harmoniosa das refinadas técnicas de Wilson McCoy com o estilo elegante do próprio Sy em Flash Gordon. Com o passar do tempo, este último acabaria por prevalecer, embora em permanente evolução. Sy chegou mesmo a utilizar referências fotográficas retiradas da revista National Geographic para imprimir um toque de maior realismo às paisagens da selva. Que, no entanto, deixou ser o único habitat do Espírito-Que-Anda.

Sob o traço de Sy Barry, a tira do Fantasma ganhou novo fôlego.

Retirar com maior frequência o Fantasma da Floresta Negra transplantando-o para a selva de betão foi outra das inovações introduzidas por Sy Barry. O seu contributo foi igualmente decisivo para o estabelecimento do visual definitivo do herói. Em 1972, essa modernização plástica traduziu-se num novo modelo de máscara que se tornou icónico: mais pequena e no formato de dois triângulos invertidos verticalmente. 

Dono de um traço expressivo e dinâmico, o estilo de Sy Barry possuía outros pontos de interesse. O intrincado sombreado da misteriosa presença do Fantasma ao fundo dos painéis ou a aglomeração imaginária de crânios flutuantes são alguns dos exemplos mais memoráveis. Quando o Espírito-Que-Anda visitava ruínas, cada folha, pedra ou sombra era meticulosamente desenhada até ao mais ínfimo pormenor. De igual modo, as simplificadas, porém elegantes, poses do Fantasma de Sy Barry serviram de referência visual a outros artistas. Também Billy Zane se inspirou nelas para a sua interpretação do herói na longa-metragem epónima de 1996.



Sy Barry é considerado o artista definitivo do Fantasma.

No auge da sua popularidade, por volta de 1966, as tiras do Fantasma, publicadas em jornais e revistas,  eram lidas diariamente por mais de 100 milhões de pessoas em todo o mundo. Muitas dessas histórias são ainda incluídas em volumes antológicos editados em países como Índia, Suécia ou Austrália. Pela mão de Sy Barry, o Espírito-Que-Anda tornou-se um fenómeno global. 

Apesar de ter sido sob o incansável lápis de Sy Barry que o Fantasma viveu os seus anos de maior esplendor, a verdade é que muitas dessas histórias foram na verdade desenhadas por um contingente de "artistas-fantasmas". Neal Adams, Fred Fredricks, André LeBlanc e George Olensen (o mais frequente) foram alguns dos desenhistas cujos esboços foram finalizados por Sy. Era ela no entanto quem definia os cenários, as angulações e demais elementos necessários para a execução gráfica da narrativa. Foi esse o expediente encontrado por Sy para fazer face aos prazos apertados (apontados, de resto, como a principal razão para a sua algo precoce saída de cena). 

Interessado em abraçar novos projetos e em passar mais tempo na companhia da família e amigos, Sy Barry abandonou a tira do Fantasma em 1994. Atualmente com 92 anos, desfruta do inverno da vida no remanso de Long Island (Nova Iorque) na companhia da esposa, ocupando a maior parte do seu tempo a aperfeiçoar as suas técnicas de pintura. Especializou-se em desenhar retratos e paisagens misturando óleo, acrílico e aguarelas. Mas o Fantasma paira ainda sobre os seus dias. 

Nos últimos anos, foram vários os esboços de Sy que serviram de capa a edições do Fantasma publicadas em diferentes pontos do globo. Foi o caso, por exemplo, da capa do número inaugural de The Phantom: Ghost Who Walks, série mensal lançada em março de 2009 pela Moonstone.

Sy Barry assinou uma das capas de The Phantom: Ghost Who Walks #1.

Sy conserva também gratas memórias dos seus encontros com fãs. Em 2001, durante a sua digressão pela Escandinávia (onde o Fantasma é um totem da cultura popular), foi recebido como uma estrela de rock. Sempre humilde e afável, apesar do seu estatuto de aristocrata da 9ª Arte, Sy retribui o carinho dos seus admiradores marcando presença em jantares e convenções anuais, onde tem por hábito presenteá-los com desenhos a lápis da sua autoria. Verdadeiros tesouros sem preço para qualquer amante da banda desenhada.

Revisitar a exuberante obra de Sy Barry, o último dos grandes mestres da Arte Sequencial, é pois um revigorante passeio pelas alamedas da memória com a encantatória presença do Espírito-Que-Anda pressentida a cada passo.

Sy Barry mantém uma relação próxima com os fãs.


*Este blogue tem como Guia de Estilo o Acordo Ortográfico de 1990 aplicado à norma europeia da língua portuguesa.

*Artigos sobre Lee Falk e o filme do Fantasma disponíveis para leitura complementar.















 





















03 dezembro 2020

HERÓIS EM AÇÃO: DEMOLIDOR


  Noite após noite, a cidade profana é velada pelo seu Diabo da Guarda. Aquele a quem os ímpios temem e os deserdados clamam por justiça cega. O tipo de justiça que somente um homem sem medo pode servir.

Denominação original: Daredevil
Editora: Marvel Comics
Criadores: Stan Lee (história) e Bill Everett (arte conceptual)
Estreia: Daredevil #1 (fevereiro de 1964)
Identidade civil: Matthew Michael Murdock
Espécie: Humano mutado 
Local de nascimento: Cozinha do Inferno, Nova Iorque
Parentes conhecidos: Jonathan Murdock (pai, falecido); Margaret Murdock (mãe); Mila Donovan (ex-cônjuge)
Ocupação: Advogado, aventureiro, vigilante urbano
Base operacional: Cozinha do Inferno, Nova Iorque
Afiliações: Ex-parceiro da Viúva Negra e ex-membro dos Marvel Knights, integra atualmente os Defensores.*
Némesis: Rei do Crime

*Grupo de vigilantes urbanos ( adaptado em 2017 ao pequeno ecrã) de que também fazem parte Luke Cage, Jessica Jones e Punho de Ferro, sem qualquer ligação à pandilha homónima liderada pelo Doutor Estranho.

Poderes e parafernália: A mesma substância radioativa que roubou a visão a Matt Murdock na infância ampliou-lhe os restantes sentidos a níveis sobre-humanos e dotou-o de um novo. Similar ao sistema de ecolocalização dos morcegos, o radar interno do Demolidor permite-lhe visualizar mentalmente pessoas e objetos através da captação de sons ambientes.
Apesar das semelhanças com o sentido de aranha, o radar do Demolidor ganha na comparação com este porquanto permite antecipar as ameaças com maior antecedência. Até mesmo a materialização de teleportadores pode ser detetada antecipadamente através de subtis alterações na atmosfera envolvente.

O radar do Demolidor imita a ecolocalização dos morcegos.

Graças aos seus sentidos hiperaguçados, o Demolidor consegue, por exemplo, perceber se alguém está a mentir, devido às oscilações no respetivo ritmo cardíaco ou temperatura corporal. De tão apurado, o seu paladar permite-lhe contabilizar com precisão o número de grãos de açúcar presentes num donut.
Com uma perceção perfeita de cada objeto móvel ou imóvel ao seu redor e dono de reflexos e agilidade sem paralelo, o Demolidor, indiferente à sua cegueira, pode realizar proezas incríveis - como aparar balas com o seu bastão - ou executar acrobacias impossíveis mesmo para um ginasta de alta competição.
Treinado por aquele que é, possivelmente, o melhor sensei do mundo, o Demolidor desenvolveu um estilo de luta que combina harmoniosamente várias artes marciais, designadamente Ninjutsu, Krav Maga e Boxe. É também exímio no manejo de diferentes tipos de armas, desde facas a espingardas, passando pelo arco e flecha. Salvo em situações extremas, o seu código moral impede-o, porém, de empregar força letal contra os seus adversários.
A mente analítica de Matt Murdock aliada ao seu traquejo como advogado e profundo conhecimento das ruas fazem dele um detetive bastante competente. Igualmente eficazes são os seus métodos de interrogatório. Frequentemente baseados na coação, permitem-lhe extorquir informação mesmo dos criminosos mais renitentes.
O Demolidor é inseparável do seu bastão especial disfarçado como a bengala de cego que usa quotidianamente na sua identidade civil. Trata-se de uma arma versátil e multifuncional vocacionada tanto para manobras defensivas como ofensivas. Contém no seu interior nove metros de cabo metálico com um pequeno gancho de aço temperado na extremidade. Os mecanismos internos do bastão permitem que o cabo seja enrolado e desenrolado de forma controlada, enquanto o gancho é lançado por uma mola poderosa. Por ser extensível e desdobrável, o bastão pode ser usado como peça única ou em duas peças separadas.
Contudo, o principal "poder" do Demolidor - aquilo que verdadeiramente o diferencia de outros heróis de rua - é a sua vontade férrea e a ausência de medo. Mesmo quanto tem de arrostar oponentes mais poderosos, fá-lo sem vacilar e com um sorriso desafiador nos lábios. Tal como o seu pai costumava fazer nos ringues.

O bastão do Demolidor é uma extensão do corpo do herói.

Fraquezas: Conquanto desconhecida da generalidade dos seus inimigos e aliados, a cegueira do Demolidor constitui, indubitavelmente, a sua maior fraqueza. Devido a essa deficiência, o herói é incapaz de discernir imagens e só pode adivinhar as cores com base na quantidade de calor que  elas absorvem ou refletem.
De tão amplificados, os sentidos remanescentes do Homem Sem Medo são particularmente suscetíveis a ruídos e/ou odores excessivos. Além de extremamente dolorosos, os efeitos disruptivos de uma sobrecarga sensorial desabilitam o radar do herói, deixando-o paralisado e desorientado. Situação análoga àquela que se verifica quando tem o seu corpo imerso em água.
Dada a sua condição de simples humano, o Demolidor é tão vulnerável a lesões físicas e doenças como qualquer outra pessoa. Dentre estas últimas destaca-se o seu historial de depressões, que ciclicamente o prendem em espirais autodestrutivas. Durantes essas fases, o seu comportamento tende a tornar-se errático e impulsivo, ao ponto de fazer perigar a própria vida.

Sobrecargas sensoriais são extremamente dolorosas
 para o Homem Sem Medo. 



Justiça cega

Um dos mais antigos, torturados e carismáticos residentes da Casa das Ideias, o Demolidor chegou à meia-idade assombrado pelas dúvidas relacionadas com a sua filiação. Ainda que esta tenha sido oficialmente atribuída a Stan Lee e Bill Everett ( criador de Namor, o Príncipe Submarino), ignora-se o real contributo de Jack Kirby na conceção visual da personagem. Mas vamos por partes.
Na esteira do sucesso do Quarteto Fantástico, Homem-Aranha, X-Men e tantos outros, o Demolidor assinalou, de certa forma, o fim desse dilúvio criativo por parte dos demiurgos da Marvel. Como é sabido, a equipa-maravilha capitaneada por Lee privilegiava heróis mais humanos com os quais as pessoas comuns pudessem identificar-se mais facilmente. Em harmonia com essa filosofia, Lee idealizou um justiceiro cego cuja audácia compensava a sua deficiência. Um exemplo de superação que teria a sua força de vontade como "superpoder".
Um herói invisual não era, contudo, novidade. Em 1941, a DC apresentara o seu Doutor Meia-Noite. A grande diferença é que este consegue ver perfeitamente no escuro e nunca ficou sequer próximo dos níveis de popularidade do seu homólogo da Marvel.
Apesar desse precedente, Lee receava uma reação adversa por parte da comunidade invisual ao lançamento de um super-herói com essas características. Receio que se esfumaria quando, nas semanas imediatas à estreia da personagem, a redação da Marvel foi inundada por cartas de associações de cegos a louvar a iniciativa e a solicitar donativos para as suas causas sociais. 

Doutor Meia-Noite, o primeiro super-herói cego.

No momento de batizar o neófito, Lee tomou emprestado o nome de um antigo conceito da Lev Gleason relegado para o domínio público desde o final da Idade de Ouro: Daredevil.
Diabo Destemido numa tradução literal, "daredevil" é um termo da gíria americana vulgarmente utilizado para designar acrobatas, duplos, pilotos de corridas ou qualquer indivíduo que ultrapassa as barreiras do senso comum para alcançar feitos únicos. Com o tempo tornou-se, também, sinónimo de "corajoso" ou "audaz". Porém, quando, em 1968, a EBAL adquiriu os direitos de publicação do herói em terras de Vera Cruz, crismou-o de Demolidor. Apesar de canhestra, esta adaptação da nomenclatura original (aproveitando o duplo D estilizado que adorna o uniforme) prevalece até hoje dos dois lados do Atlântico. Mesmo depois de outra editora brasileira, a GEA, ter provisoriamente renomeado o Demolidor de Defensor Destemido. 
Numa referência aos trajes de cores berrantes usados por artistas circenses (e, quiçá, ao do Daredevil original), o Demolidor começou por vestir de vermelho e amarelo. Sem que ninguém saiba ao certo de quem terá partido a ideia. São tantos aqueles a afirmar que foi Kirby o autor dos primeiros esboços modificados por Everett como aqueles que defendem o contrário. 

O Daredevil original.


Uma pista importante para ajudar a desvendar o mistério poderá ser a capa de Daredevil #1 onde, em abril de 1964, o Homem Sem Medo fez a sua estreia. A capa em questão foi assinada por Jack Kirby, o que poderá, com efeito, indicar que foi ele o primeiro a desenhar a personagem. Isto porque, à época, era prática consagrada a produção das capas preceder a arte interior de cada edição.
Alguns investigadores da 9ª Arte aventam uma terceira possibilidade. Kirby terá sido chamado a desenhar a capa do número inaugural de Daredevil porque Everett, a braços com o seu alcoolismo, falhou o prazo de entrega da mesma. Numa tentativa de relançar a carreira do artista, Stan Lee tê-lo-á creditado como cocriador do Demolidor.
Teorias à parte, certo é que o uniforme amarelo depressa saiu de moda. Logo em Daredevil #7 (abril de 1965), Wally Wood, o novo artista das histórias do Demolidor, substituiu-o, sem qualquer justificação, pelo icónico modelo vermelho. Essa evolução estética não foi, porém, acompanhada por uma mudança do tom das histórias, que conservaram o seu registo ligeiro. Com efeito, nas suas primícias o Demolidor era adepto do mesmo humor coriscante com que o Homem-Aranha brindava os seus leitores. Muito longe, portanto, do cunho dramático que posteriormente assumiria.


Em cima: A estreia do Homem Sem Medo em Daredevil #1;
em baixo: a primeira aparição do traje vermelho em Daredevil #7.

Apesar disso, as vendas do título mensal do Demolidor, mesmo após a saída de Stan Lee, mantiveram-se sólidas durante toda a década de 60. Quando, na segunda metade da década seguinte, ficou evidente que a personagem perdera gás, Daredevil, para descontentamento dos fãs, passou a bimestral.
Essa alteração de periocidade coincidiu com a chegada de um novo escritor às histórias do Demolidor. Com grande experiência em contos de terror, Roger McKenzie começou a explorar a faceta mais sombria do herói. No fundo, essa fase continha o gérmen do renascimento do herói orquestrado pouco tempo depois por Frank Miller. 
McKenzie não só fez o Demolidor enfrentar demónios interiores, amiúde refletidos em antagonistas que personificavam a Morte, como também o colocou perante as perturbadoras consequências da exposição da sua identidade secreta pelo repórter Ben Urich. Em virtude disso, o Demolidor enveredou por caminhos que nunca antes havia trilhado e de que não mais voltaria a afastar-se. 
A despeito dos esforços de McKenzie, as vendas não descolavam e Daredevil estava prestes a ser cancelado. Numa tentativa desesperada de reverter a situação, McKenzie foi rendido no posto por Frank Miller (que já vinha desenhando o Demolidor há um par de meses). Obreiro de perspetivas revigorantes, Miller foi o piloto da mudança que se impunha. Manteve a aposta do seu antecessor de explorar o potencial dramático da personagem, mas a uma escala dez vezes superior. 
Pela mão de Miller, o Demolidor adentrou nas trevas psicológicas e saiu das trevas editoriais. Miller não se quedou, porém, pela drástica mudança de tom. Levou a cabo uma profunda reinterpretação do herói introduzindo sucessivos retcons e personagens memoráveis, como Stick ou Elektra, sem se preocupar em enfurecer os fãs mais ardorosos. À parte a aparência física, o seu Demolidor tinha pouquíssimo em comum com as versões pregressas. Em resultado disso, foi nos anos 80 que o herói que conhecemos teve os seus momentos definidores e de maior glória.

Duro, sofrido e violento. Assim era o novo Demolidor de Miller.


Diabo da Guarda

A jornada heroica do Demolidor teve como ponto de partida a Cozinha do Inferno, um mal-afamado bairro operário nova-iorquino maioritariamente habitado por imigrantes irlandeses. Foi pela mão calejada do seu pai, um pugilista decadente chamado Jack "Batalhador" Murdock, que o pequeno Matt Murdock deu os primeiros passos.
Fazendo jus à alcunha conquistada nos ringues, Jack enfrentou muitos desafios para criar o filho sozinho. Desejoso de proporcionar-lhe as oportunidades que não tivera, incentivava constantemente Matt a estudar em vez de praticar desporto. Jack não queria que o filho tivesse, também ele, de ganhar a vida com os punhos.
Aos olhos das outras crianças, Matt era, pois, um rato de biblioteca com medo da própria sombra. Foi assim que ganhou a alcunha trocista de Destemido (Daredevil, no original). Alcunha que lhe moldaria o caráter para sempre.
Incapaz de desobedecer ao pai que diariamente se sacrificava para que nada lhe faltasse, Matt dava secretamente vazão à frustração acumulada no ginásio onde o seu ídolo treinava.
Quando os combates de boxe começaram a rarear, Jack não teve outro remédio senão aceitar trabalhar para um mafioso local conhecido apenas como Arranjador. Da sua descrição de funções faziam parte, entre outros expedientes, a cobrança de dívidas e a intimidação de comerciantes que recusavam pagar pela proteção do Arranjador.
Certo dia, ao caminhar pela rua, Matt, então um pré-adolescente, apercebeu-se que um cego estava prestes a ser atropelado por um camião. Sem pensar duas vezes, Matt saltou para a frente do veículo e empurrou o homem para fora do caminho, salvando-lhe a vida. Ato contínuo, o camião, que transportava resíduos tóxicos, entrou em despiste deixando cair parte da carga na via. Um dos tubos soltos partiu-se com o impacto e Matt teve as vistas salpicadas por uma substância radioativa. Foi essa a última vez que viu a luz do dia antes de mergulhar nas trevas eternas.

Um acidente mudaria para sempre a vida de Matt Murdock.

Enquanto recuperava no hospital, Matt descobriu que os seus outros sentidos haviam sido intensificados a níveis sobre-humanos e que desenvolvera uma espécie de radar mental que lhe permitia descortinar formas difusas.
Passado o desnorte inicial, Matt guardou segredo das suas novas habilidades ao regressar a casa. Anos mais tarde, Stick, um cego mestre em artes marciais, ensinou-o a controlá-las e transformou-o numa arma viva.
Apesar do seu infortúnio, Matt continuou a estudar com denodo. A sua dedicação foi recompensada com a admissão na prestigiada Universidade de Direito de Columbia. Foi lá que conheceu Franklin "Foggy" Nelson - seu melhor amigo e futuro associado - e Elektra Natchios, a bela filha de um diplomata grego que seria o maior e mais trágico amor da sua vida. Após o assassinato do pai, Elektra desapareceu sem deixar rasto, deixando Matt de coração destroçado. O casal voltaria, no entanto, a reencontrar-se anos mais tarde, já não como amantes mas como adversários.
Entretanto, o velho Batalhador continuava a sua carreira como pugilista. Apesar de estar na mó de cima, aceitou perder, a troco de uma choruda maquia, um combate combinado pelo Arranjador. Na hora H, Jack mudou porém de ideias ao avistar Matt na plateia. Com uma sequência de golpes demolidores levou o seu oponente ao tapete. Audácia que lhe custaria caro. Nessa mesma noite, o pai de Matt foi morto às mãos dos homens do Arranjador.

O último combate de um pai herói.

Agora órfão, Matt conseguiu diplomar-se em Direito e abriu um pequeno escritório de advocacia na Cozinha do Inferno. Tendo Foggy Nelson como sócio e Karen Page como secretária, Matt prestava, frequentemente pro bono, assistência jurídica aos mais desfavorecidos. Entre a sua clientela contavam-se prostitutas, homossexuais, mães solteiras e outros deserdados do sistema legal. Todos eles clamavam pelo tipo de justiça que tribunal algum lhes poderia servir.
Foi a pensar neles - e na sua vingança - que Matt usou os velhos robes do pai para confecionar o traje vermelho e amarelo do Demolidor. 
Católico devoto seduzido pelo profano, Matt Murdock não procura penitência para o que fez mas perdão para o que terá de fazer. Porque, quando a Lei emudece e Deus ensurdece, todas as preces aflitas se viram para o Diabo da Guarda.

Entre o sagrado e o profano.


Miscelânea

*Além de Homem Sem Medo, o Demolidor é igualmente cognominado de Diabo da Guarda, Chifrudo, Vermelho,  Aventureiro Escarlate e O Homem Mais Perigoso do Mundo;
*A identidade da mãe de Matt Murdock - uma freira católica chamada Irmã Maggie - só foi revelada na saga A Queda de Murdock (já aqui esmiuçada). Sofrendo os efeitos de uma depressão pós-parto, Maggie desenvolveu uma personalidade paranoide tornando-se uma ameaça para si própria e para o filho. Em resultado disso, Matt era ainda bebé quando foi abandonado pela mãe. Num ato de contrição,  Maggie ingressaria anos depois num convento;

Só o amor de mãe pode curar certas feridas.

*Matt sente-se sufocado nas suas roupas civis, mormente nos elegantes fatos que a sua profissão de advogado o obriga a usar no dia a dia. Por considerar o Demolidor a parte mais importante da sua personalidade dual, é na pele do herói que se sente mais confortável. Um pouco à semelhança de Bruce Wayne, Matt Murdock é tão-somente uma persona criada pelo Demolidor para conservar o anonimato;
*Velho inimigo do Homem-Aranha, Electro foi o primeiro supervilão com quem o Demolidor mediu forças. Antes de ser erigido a némesis do Homem Sem Medo, o próprio Rei do Crime havia antagonizado o Escalador de Paredes;
*Após a revelação acidental da sua identidade secreta por parte do Homem-Aranha, Matt Murdock conseguiu manter o seu segredo a salvo inventando um irmão gémeo com personalidade contrastante com a sua. Mike Murdock (personagem interpretada pelo próprio Matt) cumpriu o propósito de convencer Foggy Nelson e Karen Page de que era ele o Homem Sem Medo. Como forma de tornar a farsa ainda mais convincente, Matt (que se gaba do seu talento de representação) disfarçava a cegueira quando encarnava o irmão imaginário. Apesar de bizarra, a ideia funcionou e Mike foi "morto" pouco tempo depois. Mas não sem antes provocar uma pequena crise de identidade a Matt que, a dado momento, começou a ter dúvidas sobre quem seria o seu verdadeiro eu;
*Muito mais do que meros parceiros no combate ao crime, Demolidor e Viúva Negra formaram o primeiro casal de super-heróis a viver maritalmente sem estarem ligados pelos laços do matrimónio;

Heróis em união de facto.

*Naturalmente sedutor, Matt Murdock coleciona conquistas amorosas, mas só por uma vez subiu ao altar. Durante algum tempo, foi casado com Mila Donovan, também ela invisual. O enlace seria, contudo, rapidamente desfeito, depois de Mila constatar que Matt era ainda apaixonado por Karen Page; 
*A história do Demolidor serviu de inspiração à origem das Tartarugas Ninja, que, tal como ele, sofreram mutações genéticas após terem sido acidentalmente expostas a um isótopo radioativo;
*De longe o escriba mais influente do Homem Sem Medo, Frank Miller não foi, porém, aquele que durante mais tempo assinou as histórias do herói. Esse recorde de longevidade é detido por Brian Michael Bendis, que escreveu Daredevil durante 5 anos (contra os 4 de Miller);
*Desde 2011 que o Demolidor encerra o Top 10 dos Melhores Heróis da Banda Desenhada divulgado pelo IGN. Por sua vez, a revista Wizard colocou-o em 21º lugar na sua lista das 200 Melhores Personagens de Sempre da Banda Desenhada;
*Fora dos quadradinhos, o Demolidor fez a sua primeira aparição em 1981, num episódio avulso da série animada Spider-Man and his Amazing Friends. Com a sua estreia em ação real a ter lugar 8 anos mais tarde, no telefilme O Julgamento do Incrível Hulk no qual foi interpretado por Rex Smith. A estreia a solo no segmento audiovisual aconteceu apenas em 2003, ano em que a longa-metragem do herói cego estrelada por Ben Affleck chegou aos cinemas de todo o mundo. Em 2015, foi a vez do britânico Charlie Cox assumir o papel em Daredevil, série televisiva com a chancela da Marvel e da Netflix.

 Da esq. para a dir.: Rex Smith, Ben Affleck e Charlie Cox, três Diabos da Guarda de carne e osso.



*Este blogue tem como Guia de Estilo o Acordo Ortográfico de 1990 aplicado à norma europeia da Língua Portuguesa;
*Artigos sobre Bill Everett, Frank Miller, Rei do Crime e A Queda de Murdock disponíveis para leitura complementar.












12 novembro 2020

RETROSPETIVA: «AS AVENTURAS DE ROCKETEER»


  Qual cometa errante, um foguete humano sulca os céus da Cidade dos Anjos deixando um rasto de espanto à sua passagem. Mas o voo do misterioso Ás do Ares logo se vê enleado nas malhas de uma intriga internacional que pode alterar o curso da História.

Título original: The Rocketeer 
Ano: 1991
País: Estados Unidos da América
Duração: 108 minutos
Género: Ação / Aventura / Super-heróis
Produção: Walt Disney Pictures, Touchstone Pictures, Silver Screen Partners IV e Gordon Company
Realização: Joe Johnston 
Argumento: Danny Bilson e Paul De Meo
Distribuição: Buena Vista Pictures
Elenco: Bill Campbell (Cliff Secord / Rocketeer); Jenniffer Connelly (Jenny Blake); Alan Arkin (A. "Peevy" Peabody); Timothy Dalton (Neville Sinclair); Terry O'Quinn (Howard Hughes)
Orçamento: 35 milhões de dólares
Receitas globais: 46,7 milhões de dólares

Anatomia de um clássico

No princípio da década de 80, personagens de autor eram verdadeiras raridades. Devido à indiferença das grandes editoras, eram menos ainda aquelas que se conseguiam afirmar. Rocketeer, de Dave Stevens, foi honrosa exceção à regra.
Em 1982, Stevens, num arrojado projeto unipessoal que faria escola, criou uma banda desenhada inspirada nos heróis da literatura pulp e nos folhetins cinematográficos dos anos 1930 e 1940. Publicada sob os auspícios da defunta Pacific Comics, a história tinha como protagonista Cliff Secord, um audaz piloto de acrobacias que, depois de encontrar uma mochila a jato que lhe permitia voar, dividia o seu tempo a combater o crime e a vigiar de perto a sua voluptuosa namorada, na Los Angeles de 1938. A série obteve apreciável sucesso junto dos leitores e da crítica, tornando-se num clássico da 9ª Arte.


Dave Stevens (1955-2008) teve em Rocketeer a sua criação máxima.



Stevens acreditava, contudo, no forte potencial cinematográfico da sua obra. Convicção reforçada quando, logo no ano seguinte, o produtor Steve Miner adquiriu os respetivos direitos de adaptação. 
Por divergir em demasia do conceito original, a abordagem proposta por Miner não mereceu o aval de Stevens que, pouco tempo depois, resgatou os direitos da sua criação.
Um par de anos volvidos, em 1985, os direitos de Rocketeer transitaram para Danny Bilson e Paul De Meo. Admiradores da obra de Stevens, Bilson e De Meo consideraram inicialmente uma produção de baixo orçamento filmada a preto e branco e financiada por investidores independentes. A ideia passava por homenagear Commando Cody, uma das séries clássicas de ficção científica que influenciaram o universo de Rocketeer.
Nesse mesmo ano, o realizador canadiano William Dear aceitou o convite que lhe fora endereçado para dirigir o projeto. Impondo como condição única que a produção tivesse um orçamento à altura. De Dear partiram também as ideias de alterar o nome da namorada do herói de Bettie (ver Curiosidades) para Jenny e de ambientar o clímax do enredo a bordo de um dirigível.

Commando Cody (1952) foi uma das séries de ficção científica
 que influenciaram Rocketeer.

Após sucessivas recusas por parte de alguns dos maiores estúdios de Hollywood, a Walt Disney Pictures aceitou apadrinhar o projeto. Fê-lo, essencialmente, por motivos comerciais, já que os seus executivos acreditavam no enorme potencial de merchandising daquele que seria o primeiro filme de super-heróis do seu repertório.
O contrato celebrado com a Disney previa inicialmente uma trilogia a ser distribuída pela sua subsidiária Touchstone Pictures. Dando mostras de alguma prepotência, o diretor executivo da Walt Disney Studios, Jeffrey Katzenberg, decidiu, à última hora, que o filme seria lançado com a chancela da empresa-mãe. Consequentemente, todo e qualquer elemento adulto foi alterado ou suprimido. A principal "vítima" dessa política foi a namorada do herói que, de pin-up, passou a aspirante a atriz.
Às pressões dos executivos da Disney para adaptar o enredo aos tempos modernos, Bilson e De Meo contrapuseram com o sucesso da franquia de Indiana Jones. Convencidos de que um filme ambientado nos anos 30 poderia, afinal, ser apelativo para o público, os mandachuvas concordaram em manter o contexto histórico original.
Quando tudo parecia bem encaminhado, o projeto acabou inesperadamente encalhado numa espécie de purgatório criativo. De onde só seria resgatado cinco anos mais tarde. Durante esse lapso de tempo, sucederam-se as revisões do argumento e tanto Bilson como De Meo foram demitidos (e posteriormente readmitidos) mais vezes do que aquelas que se conseguem lembrar. Quem bateu com a porta de vez foi William Dear. Frustrado com tanta indefinição, o realizador abraçou outro projeto, sendo prontamente rendido por Joe Johnston. Além de ser fã da banda desenhada original, Johnston estava nas boas graças dos mandachuvas da Disney desde o enorme sucesso de Querida, Encolhi os Miúdos (1989).

  Rocketeer foi o segundo filme dirigido por Joe Johnston que, 20 anos depois,
 dirigiria Capitão América - O Primeiro Vingador.

Após nova revisão do argumento, o filme entrou em pré-produção nos primeiros meses de 1990. À procura de um blockbuster estival, os executivos da Disney desejavam Johnny Depp como cabeça de cartaz. Dave Stevens e Joe Johnston, acreditavam, porém, que Bill Campbell seria a escolha ideal e, desta feita, a vontade de ambos acabaria por prevalecer.
Menos controversa foi a escolha de Jenniffer Connelly para interesse amoroso do herói. Apesar da sua juventude (ou por causa dela), Connelly impôs-se às atrizes consagradas (Diane Lane, Kelly Preston e Elizabeth McGovern) que lhe disputaram o papel.
Quando, por fim, as filmagens arrancaram, em setembro de 1990, Dave Stevens fez questão de acompanhá-las de perto. Contando com a cumplicidade de Johnston, o criador de Rocketeer esforçou-se por manter, tanto quanto possível, o controlo artístico face aos eventuais desmandos da Disney. 
A mesma Disney que, entretanto, alocaria 10 milhões de dólares extra à produção (originalmente orçada em 25 milhões) ao aperceber-se da grande envergadura da mesma. 
À derrapagem orçamental somou-se uma derrapagem cronológica. Contratempos de ordem técnica e meteorológica ditaram um atraso de duas semanas na conclusão das filmagens, que tiveram lugar em diferentes pontos da Cidade dos Anjos.
A estreia mundial de The Rocketeer teve lugar a 19 de junho de 1991, no El Capitan Theatre, tornando-se, assim, a primeira película a ter essa honra em mais de dois anos, período durante o qual obras de restauro tinham obrigado ao encerramento do mítico cinema de Los Angeles. Prejudicado pela forte concorrência de Robin Hood - O Príncipe dos Ladrões e Exterminador Implacável 2, as receitas de bilheteira de Rocketeer ficaram aquém das expectativas. Em contrapartida, as críticas foram, no cômputo geral, positivas, com o filme a receber nomeações para prémios importantes.

Bill Campbell e Jenniffer Connelly
formaram o par romântico de Rocketeer.

Enredo

Los Angeles, 1938. Dois homens da quadrilha de Eddie Valentine roubam um foguete portátil a Howard Hughes, o milionário excêntrico apaixonado por aeronáutica. Com a polícia no seu encalço, a fuga dos bandidos desemboca num aeródromo nos arredores da cidade.
O carro onde seguem invade a pista de aterragem no preciso momento em que Cliff Secord, um ás dos ares, ensaia o pouso do seu monomotor Gee Bee. Da violenta colisão resulta o despiste dos dois veículos. 
Deixando para trás o comparsa sem vida, o condutor do automóvel consegue escapar. Não sem antes esconder o aparato surripiado no cockpit de um velho biplano estacionado num hangar próximo.
Com o seu avião inoperacional em vésperas de uma importante corrida aérea, Cliff tem a sua carreira comprometida. Enquanto Peevy, o seu mecânico e mentor, avalia os danos da aeronave, Cliff encontra o foguete portátil escondido no biplano. Um obséquio do destino que lhe mudará para sempre a vida.

Cliff e Peevy após um teste malsucedido do foguete.

Longe dali, o garboso astro de cinema Neville Sinclair, que encomendara o roubo do foguete a Eddie Valentine, é informado do sucedido no aeródromo. Sem perder tempo, envia Lothar, o seu monstruoso guarda-costas, para interrogar o condutor. Intimidado pelo brutamontes, este revela o local exato onde escondeu o aparato. 
Jenny Blake, namorada de Cliff e aspirante a atriz, consegue um pequeno papel no mais recente filme de capa e espada protagonizado por Neville Sinclair. Ao descobrir que o namorado de Jenny trabalha no aeródromo onde o aparato se encontra escondido, Sinclair, a pretexto de discutirem as cenas conjuntas, convida a jovem para jantar.

Neville Sinclair planeia seduzir a namorada de Cliff.

Durante um concorrido espetáculo de acrobacias aéreas no dia seguinte, Malcom, um velho amigo de Cliff e Peevy, vê-se em apuros quando o motor do seu decrépito avião deixa de funcionar em pleno voo. Quando a tragédia parece inevitável, Cliff, apetrechado com o foguete portátil e um capacete-leme projetado por Peevy, galga o céu e salva o amigo. Façanha testemunhada por uma multidão incrédula de espectadores e jornalistas.
Batizado de Rocketeer (Foguete) pela imprensa, Cliff torna-se a grande sensação do momento, atraindo a atenção indesejada do FBI, de Neville Sinclair e da quadrilha de Eddie Valentine. Todos querem deitar a mão ao foguete e todos se interrogam acerca da identidade do misterioso homem voador.
Nesse mesma noite, Cliff e Peevy recebem a visita de Lothar, incumbido por Sinclair de recuperar o foguete. A súbita chegada do FBI coloca o trio em fuga, mas Lothar consegue levar consigo os esquemas detalhados do aparelho desenhados por Peevy.
Ainda mal refeitos do susto, Cliff e Peevy procuram refúgio no restaurante do aeródromo, mas são encurralados por asseclas de Eddie Valentine. É através deles que ficam a saber do envolvimento de Neville Sinclair no roubo do foguete e do encontro deste com Jenny.
Quando tudo parecia perdido, os proprietários do restaurante conseguem expulsar os invasores, mas uma bala perdida perfura o tanque de combustível do foguete. À falta de solução melhor, Peevy improvisa um remendo com uma pastilha elástica mastigada por Cliff.
Ignorando os avisos de Peevy, Cliff cruza velozmente os céus da cidade, tendo como destino o glamoroso clube noturno onde Jenny janta a sós com Sinclair. O repasto é interrompido pela entrada de rompante de Rocketeer. Instantes depois de ter revelado o seu segredo à namorada, Cliff vê-se cercado pelo bando de Valentine e Sinclair aproveita a distração para raptar Jenny.

O Ás dos Ares em ação.

Na luxuosa cobertura de Sinclair, Jenny descobre que ele é um agente nazi e consegue escapulir-se, apenas para ser recapturada logo em seguida. Sinclair obriga-a então a enviar uma mensagem a Cliff: o foguete em troca da vida da namorada. A entrega terá lugar no Observatório Griffith.
Momentos antes de ser preso pelo FBI e levado à presença de Howard Hughes e Peevy, Cliff consegue esconder o foguete num local seguro. Hughes explica que o dispositivo é na verdade um protótipo similar àquele que cientistas alemães vêm tentando, ainda sem sucesso, desenvolver para fins militares.
Para horror dos presentes, Hughes exibe um filme de propaganda nazi, no qual um exército de soldados voadores equipados com mochilas a jato invadem os EUA. Quando o milionário revela que o FBI procura identificar um espião nazi em Hollywood, Cliff deduz tratar-se de Neville Sinclair.
Cliff recusa restituir o foguete alegando precisar dele para resgatar a namorada. Na fuga que se segue, deixa acidentalmente uma pista acerca do seu destino. 

Donzela em apuros.

No Observatório Griffith, Sinclair, acompanhado por Eddie Valentine e sua quadrilha, exige a Cliff que lhe entregue o foguete. Mas, quando Cliff expõe Sinclair como agente nazi, o ator vê-se subitamente na mira dos seus antigos aliados. Que, por sua vez, são cercados por um destacamento de soldados alemães fortemente armados, que se haviam mantido escondidos nas sombras.
Ato contínuo, o dirigível alemão Luxemburgo (de visita aos EUA em suposta missão de paz) desce sobre a cúpula do Observatório para evacuar Sinclair. 
Subitamente, porém, agentes do FBI entram em cena e unem forças com o bando de Valentine contra os nazis. Aproveitando a confusão instalada, Sinclair e Lothar conseguem escapar, arrastando Jenny para bordo do Luxemburgo.
Cliff voa no encalço do dirigível e consegue invadir a cabine de comando da aeronave. Enquanto Cliff luta com Sinclair, Jenny ateia acidentalmente fogo à cabine ao disparar uma pistola sinalizadora.
Sinclair toma novamente Jenny como refém e exige a Cliff que lhe entregue o foguete. Cliff acede, mas só depois de retirar discretamente a pastilha elástica que cobria o furo no tanque de combustível do aparelho.
Sinclair alça voo, mas a fuga de combustível provoca a explosão do foguete. Envolto em labaredas, o vilão despenca em direção ao solo, embatendo violentamente no sinal publicitário "Hollywoodland" que encima uma colina. 
Centenas de metros acima, Lothar é também ele consumido pelas chamas que devoram o Luxemburgo. Momentos antes da aeronave explodir, Cliff e Jenny são resgatados por um autogiro pilotado por Howard Hughes. 
Dias depois, o milionário presenteia Cliff com um novo monomotor Gee Bee e uma embalagem de pastilhas elásticas Beemans, as preferidas do Ás dos Ares. Após a saída de Hughes, Jenny devolve a Peevy os esquemas do foguete que encontrara na casa de Sinclair. Radiante, Peevy anuncia que, com ligeiras modificações, será capaz de construir um modelo aprimorado. 
 
Trailer


Prémios e nomeações

Indicado para um Saturn Award e para um Hugo Award na categoria de Melhor Filme de Ficção Científica, As Aventuras de Rocketeer perderia ambos para Exterminador Implacável 2: Dia do Julgamento. 
A título individual, Jenniffer Connelly foi distinguida com o Saturn Award para Melhor Atriz Secundária, ao passo que a figurinista Marilyn Vance arrebatou o prémio para Melhor Guarda-Roupa. Ken Ralston, supervisor de efeitos especiais, também foi nomeado no segmento correspondente, mas acabaria por não sair vencedor.
Na listas dos cem melhores filmes de super-heróis divulgada em 2019 pela Paste (publicação independente especializada em música e entretenimento), As Aventuras de Rocketeer surge em 50º lugar, à frente, por exemplo, de Homem de Ferro 2 e O Cavaleiro das Trevas Renasce.

Curiosidades

*Na banda desenhada original, a namorada de Cliff Secord é ninguém menos do que Bettie Page. Dave Stevens inspirou-se na escultural modelo dos anos 1950 para criar o interesse amoroso do seu herói. Após o lançamento do filme, Stevens, sentindo-se em dívida para com a sua musa (então quase septuagenária), enviou-lhe um cheque pelo correio. Sensibilizada com o gesto, Bettie fez questão de conhecer o seu admirador e os dois ficaram bons amigos até à morte de ambos, em 2008;

Betty Page serviu de modelo à namorada de Cliff Secord na BD original.
*Neville Sinclair é vagamente baseado em Errol Flynn, um dos maiores galãs da era dourada do cinema, sobre quem recaiu a suspeita de ter sido um espião nazi. Tese sustentada numa biografia não autorizada do ator assinada por Charles Higham. Apesar da parca credibilidade da obra, essa informação nunca foi desmentida pelo visado;
*A reação da quadrilha de Eddie Valentine à revelação de que Neville Sinclair trabalhava para o III Reich reflete a postura do crime organizado norte-americano durante aquele período histórico. Se os mafiosos italianos execravam o fascismo devido à perseguição movida por Benito Mussolini aos clãs sicilianos, os seus homólogos judeus odiavam o regime antissemita de Adolf Hitler e tudo o que a ele estava associado. Em virtude desses inimigos comuns, os gângsteres foram preciosos aliados do Governo federal nas suas operações de contraespionagem;
*Doc Savage, o herói das novelas pulp dos anos 1930, foi o inventor do foguete portátil de Rocketeer na história original. A fim de evitar pedidos de licenciamento à Conde Nast - editora detentora dos direitos do Homem de Bronze - a Disney optou por atribuir a patente a Howard Hughes, génio visionário e pioneiro da aviação comercial;
*Foram utilizados dois modelos diferentes do foguete na rodagem do filme: um fabricado em metal e que expelia chamas à retaguarda, outro revestido com fibra de vidro que, por ser mais leve, era adequado para as cenas em que o aparelho se encontrava inativo;
*Por causa da sua difícil manobrabilidade e da sua propensão para se despenhar, o monomotor Gee Bee pilotado por Cliff Secord foi sugestivamente alcunhado de "Caixão Voador". Sendo a respetiva aterragem uma manobra particularmente perigosa, a aeronave usada no filme foi autorizada a executá-la apenas as vezes estritamente necessárias;
*Não é por acaso que as pastilhas elásticas Beemans têm um papel crucial no filme. São elas as preferidas dos pilotos verdadeiros, não apenas de Cliff Secord. Enquanto as pastilhas de outras marcas compensam apenas a pressão atmosférica, as Beemans ajudam, também, a apaziguar estômagos nervosos. O segredo está num antiácido (pepsina) presente na sua composição;

As Beemans são uma espécie de amuleto da sorte
 para pilotos da vida real.

*Apesar do seu confesso pavor de voar, Bill Campbell sentia-se perfeitamente confortável durante a rodagem das cenas em que se encontrava suspenso por um cabo a vários metros de altura. A sua preparação para o papel resumiu-se a ler a banda desenhada original e a cortar o cabelo de forma a parecer-se mais com a sua personagem;
*Dave Stevens fez um pequeno cameo. Era ele o piloto de testes que, no filme de propaganda nazi, explode durante o ensaio falhado da mochila a jato;
*O cartaz promocional do filme ao estilo Art Déco que abre este artigo homenageia o colossal monumento a Yuri Gagarin (o primeiro homem a viajar no espaço) erigido em Moscovo por ocasião dos Jogos Olímpicos de 1980 realizados na ex-capital soviética;

Com 42,5 metros de altura e 12 toneladas de peso,
 a estátua de Yuri Gagarin foi esculpida em titânio,
o mesmo metal usado nas naves espaciais.

*O filme teve direito a duas adaptações literárias saídas das penas de outros tantos autores. Aquela que se dirigia ao público em geral (a outra destinava-se à audiência infantil) teve assinatura de Peter David, um dos mais aclamados e prolíficos argumentistas dos comics das décadas de 80 e 90. Em Portugal, a obra foi publicada, logo em 1991, pela Europa-América no formato de livro de bolso;
*Apesar da tépida prestação de bilheteira ter inviabilizado a programada sequela, o filme deu origem a uma série animada. Exibida desde finais de 2019 no Disney Channel e no Disney Junior, The Rocketeer acompanha as aventuras de Kit Secord, a bisneta de Cliff Secord que, no dia do seu 7º aniversário, herda a mochila a jato que transformou o seu antepassado numa lenda.

Veredito: 70%

As Aventuras de Rocketeer é um filme de super-heróis de sabor diferente. Não só pelo seu estilo marcadamente retro, mas, sobretudo, por não se tratar de um pastiche de Super-Homem ou Batman. Em vez de um alienígena superpoderoso a sair em defesa do modo de vida americano ou de um vigilante a fazer justiça pelas próprias mãos, tem como protagonista um homem comum, a quem o acaso concede o ensejo de realizar coisas extraordinárias.
Numa época em que o cinismo começava a insinuar-se em produções similares (e também nos comics), As Aventuras de Rocketeer relembra-nos que o verdadeiro heroísmo provém do coração, e que em cada um de nós habita um herói à espera de poder fazer a diferença.
Assistir a esta película é como embarcar numa emocionante viagem ao passado. Impregnado com uma atmosfera nostálgica, As Aventuras de Rocketeer é um salutar lembrete de uma época de maior simplicidade e inocência. Uma época em que heróis e vilões agiam em conformidade, sendo fácil distingui-los.
Abusando dos jogos de luz e sombra típicos dos policiais noir, As Aventuras de Rocketeer revisita vários clichês dos folhetins cinematográficos dos anos 30 e 40: um herói com coração de ouro, uma linda donzela em apuros e um vilão carismático. O filme copia, de resto, a fórmula consagrada de Superman, The Movie, que consiste em escalar um desconhecido para o papel principal e um astro de primeira grandeza (Timothy Dalton dava, por aqueles dias, vida a James Bond) para interpretar o vilão de serviço.
Apesar da inegável qualidade do elenco (até Bill Campbell surpreende pela positiva), as personagens não são bem desenvolvidas e nem é preciso. A Joe Johnston interessavam arquétipos e, em razão disso, cuidou de apresentá-los da forma mais direta possível, vinculando-os às suas características definidoras. Estratégia cristalizada, por exemplo, na apresentação de Neville Sinclair. Na sua aparição inicial, o vilão surge de costas, posicionamento que denuncia a dualidade do seu caráter.
Fortemente influenciado pelos filmes de 007 e Indiana Jones, As Aventuras de Rocketeer desenvolve de maneira empolgante a sua mistura de ação, humor e fantasia. Apesar da invulgar profusão de tiroteios num filme que se queria para toda a família e do terceiro ato mais corrido do que o necessário, o clímax a bordo do dirigível parece saído diretamente de um episódio de Commando Cody, com efeitos especiais a condizer. 
Ainda assim, o filme parece imune ao gradual processo de oxidação decorrente da passagem dos anos e conserva intacto o seu apelo nostálgico. Sendo, por conseguinte, uma ótima sugestão para uma matiné caseira nestes tempos de confinamento coercivo. 
Mesmo não sendo sublime, As Aventuras de Rocketeer é, outrossim, um excelente exemplo de como adaptar uma banda desenhada ao grande ecrã sem vandalizar o conceito primordial. Esse é, irrefragavelmente, um dos méritos que o transformaram numa obra de culto.

Voo para a eternidade.




*Este blogue tem como Guia de Estilo o Acordo Ortográfico de 1990 aplicado à norma europeia da Língua Portuguesa.