13 agosto 2021

HERÓIS EM AÇÃO: LANTERNA VERDE II


 Capaz de superar grande medo, foi o primeiro humano nas fileiras da maior força policial intergaláctica. Da Terra aos confins do Universo, o fulgor esmeralda do seu anel dissipa as trevas do caos e da corrupção. Porque no dia mais claro, na noite mais densa, o Mal sucumbirá ante a sua presença. 

Denominação original: Green Lantern
Editora: DC
Criadores: Julius Schwartz (conceito), John Broome (história) e Gil Kane (arte conceptual)
Estreia: Showcase #22 (outubro de 1959)
Identidade civil: Harold "Hal" Jordan
Espécie: Humano
Local de nascimento: Coast City, Califórnia
Parentes conhecidos: Martin Jordan (pai, falecido); Jessica Jordan (mãe); Larry Jordan / Onda Aérea (tio); Jim Jordan (irmão); Jack Jordan (irmão); Sue Jordan (cunhada); Jan Jordan (cunhada); Helen Jordan (sobrinha); Arthur, Jason e Howie Jordan (sobrinhos)
Ocupação: Ex-piloto de testes, ex-investigador de seguros e ex-vendedor de brinquedos, desempenha agora em tempo integral as suas funções de oficial da Tropa dos Lanternas Verdes.
Base operacional: No passado, Hal Jordan desdobrava-se entre Coast City e o planeta Oa, lar dos Guardiões do Universo e quartel-general da Tropa dos Lanternas Verdes. Desde a destruição da sua cidade natal, as suas estadias na Terra tornaram-se, porém, cada vez mais breves e espaçadas.
Afiliações: Ex-oficial da Força Aérea dos EUA; ex-piloto da Ferris Aircraft; ex-parceiro do Arqueiro Verde; cofundador da Liga da Justiça da América e membro ativo da Tropa dos Lanternas Verdes.
Némesis: Sinestro
Poderes e parafernália: Hal Jordan é apenas um homem comum a quem foi confiada aquela por muitos considerada a mais poderosa arma do Universo. O anel energético do Lanterna Verde reage à força de vontade do seu usuário. Quanto maior a força de vontade, maior a eficácia do anel. A real extensão do seu poder permanece, no entanto, uma incógnita.
Nas suas histórias iniciais, o Lanterna Verde era frequentemente visto a realizar uma assombrosa variedade de proezas com o seu anel. Desde a miniaturização de objetos ao fabrico de vestuário, as possibilidades pareciam infinitas. Quaisquer que sejam os efeitos do anel, são sempre acompanhados por um característico fulgor esmeralda.
Com o tempo, porém, a ênfase passou a incidir sobre a capacidade do Lanterna Verde conjurar hologramas de luz sólida controlados telecineticamente. Em função da criatividade de Hal Jordan, esses construtos esverdeados podem assumir praticamente qualquer forma: um escudo para bloquear um ataque, uma espada para cortar uma corda ou uma luva de boxe para esmurrar um adversário são alguns exemplos clássicos.

O anel do Lanterna Verde permite-lhe criar todo o tipo de armas.

Além de dotar o Lanterna Verde da capacidade de voar e sobreviver aos rigores do espaço sideral, o anel permite-lhe realizar saltos transluminais. Graças aos quais o herói consegue viajar, quase instantaneamente, para qualquer quadrante do Universo conhecido. Para facilitar a comunicação com a miríade de raças alienígenas que o povoam, o anel incorpora um tradutor universal.
O anel do Lanterna Verde é eficaz tanto em ações defensivas como ofensivas. Tanto pode gerar campos de força para proteger o seu usuário como projetar rajadas energéticas contra alvos inimigos. Entre as suas tradicionais funcionalidades, destaque ainda para a sua capacidade de localização e comunicação com outros Lanternas Verdes, independentemente da distância a que se encontram.
Ao possibilitar o acesso remoto à base de dados da Tropa dos Lanternas Verdes, o anel funciona também como um valioso repositório de informação acerca do Cosmos.
Seguindo um protocolo predefinido pelos Guardiões do Universo, sempre que um Lanterna Verde morre no cumprimento do dever, o anel desencadeia de imediato a busca por um substituto compatível. Foi dessa forma que Hal Jordan foi escolhido para render Abin Sur nas funções de protetor do Setor Espacial 2814.

Quanto maior a força de vontade,
mais poderoso é o anel do Lanterna Verde.

Apesar de o Lanterna Verde ter no anel a fonte dos seus poderes, Hal Jordan possui ele próprio um conjunto de habilidades admiráveis. A sua longa carreira como piloto de testes capacitou-o com excelentes reflexos e uma extraordinária resistência à pressão. Mesmo perante situações aparentemente desesperadas, Hal conserva a calma e a agudeza de raciocínio. São elas que lhe permitem, no imediato, conceber a estratégia mais adequada às circunstâncias, fazendo dele um líder nato que os seus camaradas de armas não hesitam em seguir. O seu proverbial destemor é admirado até pelos seus inimigos (com Sinestro à cabeça), elevando-o assim ao patamar de lenda intergaláctica. 
Não é pois por acaso que Hal Jordan é reputado de maior Lanterna Verde de todos os tempos. Título tanto mais impressionante se levarmos em conta que a Tropa Esmeralda patrulha o Universo há vários milhares de anos, e que outros tantos recrutas passaram pelas suas fileiras. Nenhum deles foi, porém, capaz de personificar a Força de Vontade como Hal Jordan.

Fraquezas: A suposta arma mais poderosa do Universo está longe de ser infalível. À consabida ineficácia do anel do Lanterna Verde sobre objetos amarelos (cor que, no Espectro Emocional, simboliza o Medo) acresce a necessidade de recarga periódica. Originalmente, esse ritual - sempre acompanhado do respetivo juramento solene - tinha de ser realizado a cada 24 horas, independentemente do dispêndio de energia. Por estes dias, o anel precisa apenas ser recarregado quando a sua energia se esgota ou atinge níveis perigosamente baixos. 
Apesar de altamente resistente, o anel do Lanterna Verde também não é indestrutível. Várias entidades já provaram possuir força ou poder suficientes para quebrá-lo. Com a agravante de que apenas os Guardiões do Universo possuem a tecnologia requerida para o conserto de um anel danificado.

Áureo foi um dos muitos vilões de cor amarela
 que o Lanterna Verde já enfrentou.

Contudo, à semelhança de qualquer arma convencional, a maior debilidade do anel do Lanterna Verde poderá residir afinal no seu portador. Se este estiver deprimido, amedrontado ou sob influência de estupefacientes, a produção de energia será instável condicionando a criação de construtos. O mesmo sucedendo quando o usuário não consegue visualizar corretamente o aparato que está a tentar replicar, ou ignora o seu funcionamento básico.
No caso específico de Hal Jordan, o excesso de confiança é o seu verdadeiro calcanhar de Aquiles. Desafiando as regras do meridiano bom senso, Hal nunca recua perante qualquer ameaça, por maior que ela seja. 
Essa sua lendária afoiteza tem tanto de inspiradora como de irracional. Entre ser visto como um covarde ou travar uma luta desigual, Hal escolherá sempre a segunda opção. À boa maneira dos Espartanos, ele não pergunta quantos são os inimigos mas onde estão eles. Ignorando dessa forma um dos mais importantes preceitos da arte da guerra: a glória suprema é derrotar o inimigo sem o combater.

O novo senhor do anel

Para os leitores ocasionais de comics, o Lanterna Verde será porventura um daqueles super-heróis que se (re)conhece mas sobre o qual pouco se sabe. Apesar de ele ser um dos Sete Magníficos que fundaram a famigerada Liga da Justiça, o seu errático histórico de publicação contribuiu, em grande medida, para essa circunstância.
Independentemente, porém, do seu estatuto junto do grande público, o Lanterna Verde é uma das maiores referências do panteão da DC. Em vários momentos da história da editora foi igualmente uma espécie de farol que sinalizou o rumo a seguir nas águas agitadas de uma indústria em perpétua metamorfose.
Criação de Bill Finger e Martin Nodell, o primeiro Lanterna Verde surgiu na Idade de Ouro, apenas dois anos após a estreia do Super-Homem. Alan Scott era um engenheiro ferroviário cujas agulhas do destino mudaram para sempre em All-American Comics #16 (1940). Indumentado com um traje particularmente chamativo, munido de um anel mágico e de uma bateria em forma de lanterna, a personagem incorporava diversos dos elementos pulp que, à época, capturavam o imaginário coletivo.
Aquando da sua estreia, o Lanterna Verde era um dos heróis mais poderosos do mundo, capaz de executar autênticos milagres com o poder aparentemente ilimitado do seu anel. Que tinha, contudo, um inusitado defeito: era inútil contra madeira ou matéria vegetal. Outro ponto fraco era a sua carga limitada, que tinha de ser reposta a cada 24 horas com recurso à lanterna verde que dava nome ao campeão de Capitol City. Ritual sempre pontuado por um juramento solene em verso, que foi evoluindo ao longo dos anos até se tornar peça fundamental no legado do Gladiador Esmeralda.

Alan Scott, o primeiro senhor do anel.

Não obstante a apreciável popularidade de que usufruiu durante a década de 1940, o Lanterna Verde, a exemplo da generalidade dos seus contemporâneos, viu o seu esplendor desvanecer após a II Guerra Mundial até a última centelha esmeralda se extinguir no final dessa década.
Sem surpresa, em 1949 Green Lantern foi cancelado e foi precisa uma espera de dez anos até  o anel do Lanterna Verde voltar a luzir. Ainda a tempo, no entanto, de fazer do Gladiador Esmeralda um dos arautos da Idade de Prata dos comics.
Perante as evidências de que os leitores davam mostras de um renovado interesse em super-heróis, em 1959 o lendário editor Julius Schwartz quis repetir o tratamento que, três anos antes, fora aplicado com sucesso ao Flash. Nesse sentido, escalou o escritor John Broome e o artista Gil Kane para recriarem o Lanterna Verde. A ideia era seguir a receita usada por Robert Kanigher e Carmine Infantino para revitalizar o Velocista Escarlate. Em 1956, fora ele o primeiro herói clássico a ganhar novo impulso na pista da glória reconquistada.
Assim como Jay Garrick cedeu lugar a Barry Allen, Alan Scott foi rendido por Hal Jordan. Em consequência desse protocolo modificativo, o Lanterna Verde deixou de enfrentar ameaças sobrenaturais para passar a agir como uma espécie de xerife do espaço, cuja jurisdição extravasava largamente os limites da sua cidade natal - e até da Terra. Essa vocação cósmica do novo Gladiador Esmeralda foi acentuada pela sua pertença à maior força policial intergaláctica: a Tropa dos Lanternas Verdes. Para criá-la, John Broome foi beber inspiração à saga de ficção científica Lensman, da qual era fã assumido. Com o tempo, a Tropa dos Lanternas Verdes tornou-se num dos principais esteios do Universo DC, servindo de base para algumas das histórias mais memoráveis da Editora das Lendas.
No momento de conceber o visual de Hal Jordan, Gil Kane usou como modelo fisionómico Paul Newman, seu vizinho e um dos maiores galãs de Hollywood. O traje de cores berrante deu, por sua vez, lugar a um uniforme sem capa e com um sóbrio esquema cromático. O anel e a bateria mantiveram-se, mas a origem dos dois artefactos era agora alienígena e não mística. Ambos haviam sido manufaturados pelos Guardiões do Universo, fundadores e líderes espirituais da Tropa dos Lanternas Verdes - que teve em Hal Jordan o seu primeiro recruta terráqueo.

Paul Newman serviu de modelo a Hal Jordan.

Outro aspeto comum a ambos os Lanternas Verdes era o aparentemente arbitrário ponto fraco dos respetivos anéis. Com a madeira a ser agora substituída pela cor amarela, contra a qual o anel de Hal Jordan nada podia. Desta feita, porém, o calcanhar de Aquiles foi explicado com uma impureza necessária na bateria; uma espécie de trava de segurança criada pelos Guardiões do Universo para prevenir que o poder absoluto corrompesse absolutamente os seus agentes da Lei. 
O segundo Lanterna Verde foi apresentado ao leitores em Showcase #22 (1959). Título que, por aqueles dias, servia de tubo de ensaio tanto para conceitos inovadores como recauchutados. Além do Flash, também Adam Strange e os Desafiadores do Desconhecido tinham feito lá o seu tirocínio. 
Na senda do sucesso do novo Gladiador Esmeralda, a DC resolveu relançar Green Lantern em 1960. Apesar do cariz cósmico das histórias, elas foram pioneiras em matéria de consciência social. Em vez das costumeiras óperas espaciais, os argumentistas privilegiavam temas mundanos como o combate ao racismo e ao preconceito. Incluindo, para esse efeito, representantes não estereotipados das minorias nas tramas humanizadas. 
A vida pessoal de Hal Jordan também tinha pontos de interesse. Ele era um dos vértices de um triângulo amoroso em tudo idêntico ao que envolvia Clark Kent, Lois Lane e o Super-Homem. Hal estava apaixonado por Carol Ferris, a filha do patrão que, por sua vez, suspirava pelo Lanterna Verde. Para apimentar ainda mais a relação, Carol era ocasionalmente controlada por alienígenas que a transformavam na vil Safira Estrela.

O novo Lanterna Verde estreou-se em Showcase #22 (1959).

Quando, por fim, Carol desistiu de conquistar o coração do Gladiador Esmeralda e partiu com outro homem, Hal ficou devastado. Depois de abandonar o seu emprego como piloto de testes na Ferris Aircraft, Hal passou a andar à deriva. Tal como a sua série que, ao dobrar a esquina da década de 1960, era uma boa candidata ao cancelamento. O que só não se confirmou devido à decisão providencial do seu editor de emparelhar o Lanterna Verde com o Arqueiro Verde. Juntando dessa forma dois valdevinos com visões muito distintas do papel dos heróis num mundo em acelerada transformação. Assinada por Dennis O'Neil e Neal Adams, uma das duplas-maravilha da 9ª Arte, essa fase foi louvada pela crítica sem que a isso correspondesse um aumento das vendas. Consequentemente, Green Lantern foi cancelado em 1972. Nos quatro anos seguintes, Hal Jordan foi hóspede na revista do Flash, ao mesmo tempo que participava mensalmente nas missões da Liga da Justiça da América. Em virtude dessa perda de influência, tornou-se um super-herói genérico vivendo à sombra de glórias pretéritas.
Green Lantern regressou às bancas em 1976, espelhando os danos que a guerra do Vietname e o escândalo Watergate haviam infligido à autoconfiança do povo americano e à sua fé nas instituições do país. Esse renascimento durou cerca de uma década e ficou marcado tanto pela profusão de ameaças extraterrestres como pela sucessão de crises pessoais do herói, culminando no seu abandono da Tropa dos Lanternas Verdes em vésperas da Crise nas Infinitas Terras.
Esgotadas as ideias para tornar apelativas as histórias do Gladiador Esmeralda, nos anos 1990 os argumentistas fizeram dele o maior inimigo da Tropa dos Lanternas Verdes. Após a destruição de Coast City pelo Supercyborg, Hal Jordan, revoltado com a indiferença dos Guardiões do Universo, foi corrompido por Parallax, o avatar do Medo. Num desfecho previsível, acabaria morto quando tentava reescrever a História (eventos narrados em Zero Hora, saga já aqui analisada). Não sem antes cometer um extenso rol de atrocidades que incluíram a destruição da Bateria Central de Oa e o massacre de praticamente toda a Tropa Esmeralda. Enquanto Hal procurava expiar os seus pecados como Espectro - o Espírito da Vingança que ele tentou, em vão, transformar no Espírito da Redenção - foi substituído por Kyle Rayner nas suas funções de policiamento galáctico. Era agora ele o novo senhor do anel.

De herói a vilão: Hal Jordan como Parallax.

O regresso definitivo de Hal Jordan só aconteceria uma década mais tarde. Em 2004, a saga Green Lantern: Rebirth reabilitou-o dos hediondos crimes cometidos enquanto Parallax. Dando assim o mote para a vaga revivalista da DC motivada pelo saudosismo que, na viragem do milénio, influenciava a cultura popular. Às mãos de escritores talentosos como Geoff Johns, o Lanterna Verde viu redefinidos e modernizados importantes elementos da sua mitologia. Ficando assim apto a enfrentar os desafios do século XXI.
Uma vez mais, qual farol numa noite de tempestade, a luz esmeralda do Lanterna Verde rasga a escuridão, trespassa o medo e brilha mais intensamente do que nunca.

O triunfo da Força de Vontade.


Alvorecer esmeralda

Hal Jordan nasceu para voar. Quanto mais alto e mais rápido, melhor. Foi nas asas desse sonho de infância que alcançou as estrelas. Ironicamente, foram dois desastres aéreos a traçar-lhe o destino.
Nascido em Coast City, Hal Jordan foi o segundo dos três filhos do casal Jessica e Martin Jordan. O seu pai era um ex-oficial da Força Aérea americana convertido em piloto de testes da Ferris Aircraft, especialista no fabrico de jatos militares.
Fascinado por máquinas voadoras, o pequeno Hal tinha por hábito faltar às aulas para ir ao aeródromo da Ferris ver o seu pai a voar. Martin Jordan era o ídolo do filho, que sonhava um dia seguir-lhe as pisadas.
Infelizmente, quando era ainda pessoa de palmo e meio, Hal testemunhou a morte do seu pai num acidente de voo. Tragédia que o marcou para o resto da visa. Tanto como o ato heroico de Martin Jordan que, em vez de se ejetar, voou para longe das áreas habitadas, sacrificando a própria vida para salvar dezenas de outras.
Contra a vontade da mãe, Hal planeava ganhar a vida aos comandos de um avião. Na véspera de completar 18 anos, fugiu de casa e passou a noite à porta do centro de recrutamento da Força Aérea. Após anos de intenso treino, Hal tornou-se um piloto exímio e destemido. Isto ao mesmo tempo que desenvolvia um histórico de insubordinação e riscos excessivos.

Hal Jordan, o Ás dos Ares.

A vida de Hal não estava no entanto fadada a ser um fac-símile daquela que fora vivida pelo seu pai. Certo dia, durante um voo de treino, um halo esverdeado envolveu o seu jato, transportando-o até ao local da queda de uma espaçonave. Ao investigar os destroços, Hal foi surpreendido pela presença de um alienígena moribundo. 
Abin Sur - assim se chamava o alienígena - era membro da Tropa dos Lanternas Verdes, uma força policial que há milhares de anos assegurava a paz em todo o Universo. A sua nave fora atacada durante uma patrulha acabando por despenhar-se nas cercanias de Coast City. Antes de exalar o seu último suspiro, Abin Sur ordenara ao seu anel que procurasse um substituto digno. Hal foi o escolhido. Não apenas pela sua integridade moral, mas também pela sua capacidade de superar grande medo.

A passagem de testemunho de Abin Sur a Hal Jordan.


Promovido a Lanterna Verde do Setor Espacial 2814 (um dos 3600 em que o Universo se divide), Hal foi pouco depois transportado pelo seu anel ao planeta Oa. No quartel-general da Tropa Esmeralda e lar da Bateria Central que abastece os anéis de todos os Lanternas Verdes, Hal foi apresentado aos Guardiões do Universo e a centenas de alienígenas incrédulos com a escolha de um humano.
Durante o treino que lhe foi ministrado por Sinestro e Kilowog, dois Lanternas Verdes veteranos, Hal surpreendeu os seus mentores com a sua incrível força de vontade. Todos ficaram cientes de que ele estava destinado a ser um dos mais valorosos membros da Tropa e que aquele era o alvorecer esmeralda de um novo herói. Um em cuja presença o Mal sucumbiria.


Miscelânea

*As arrepiantes manobras e acrobacias de Hal Jordan aos comandos dos caixões voadores fabricados pela Ferris Aircraft valeram-lhe a alcunha de "Highball". Na gíria dos antigos ferroviários, era a ordem para o comboio seguir a todo o vapor. Nessa época, Hal era também inseparável do blusão de aviador herdado do pai, o qual não hesitava em colocar sobre os ombros de quem dele mais precisasse;
*Hal não foi o primeiro super-herói do clã Jordan. Larry Jordan, tio de Hal, combateu o crime como Onda Aérea. A sua habilidade primária consistia em deslocar-se a grande velocidade através dos cabos elétricos e das linhas telefónicas, usando para esse efeito um par de patins especiais;


Onda Aérea foi o primeiro membro do clã Jordan
 a combater o crime.

*Apesar de Hal Jordan ter em Carol Ferris a sua eterna namorada, inicialmente os editores consideraram atribuir-lhe outro interesse romântico: ninguém menos do que a Mulher-Maravilha. Companheiros de equipa na Liga da Justiça, a relação entre ambos nunca foi, contudo, além de uma amizade baseada no respeito e admiração mútuos;
*Aos oficiais da Tropa Esmeralda é concedida a prerrogativa de personalizarem os seus uniformes. Hal Jordan adicionou uma máscara ao modelo-padrão, de modo a salvaguardar a sua identidade e a segurança dos que lhe são próximos;
*Na continuidade pré-Crise, o Lanterna Verde teve um leque de parceiros bizarros: Itty (uma estrela-do-mar alienígena) e um esquimó chamado Pieface (termo com conotações racistas) foram os mais duradouros. Da lista faziam ainda parte um cão e um motorista de táxi;

Itty, a estrela-do-mar alienígena que Hal Jordan teve como mascote.

*"In brightest day, in blackest night,/ No evil shall escape my sight./ Let those who worship evil's might,/ Beware my power...Green Lantern's light!" A versão original do juramento recitado pelo Lanterna Verde sempre que usa a sua bateria portátil para recarregar o seu anel energético é da autoria de Alfred Bester (1913-1987), conceituado escritor de ficção científica notabilizado por ter sido o primeiro vencedor do Prémio Hugo - galardão que, anualmente, distingue as melhores obras nesse género literário;
*Embora a jurisdição do Lanterna Verde da Terra se estenda por todo o Setor Espacial 2814 (que, por sua vez, abrange, mais de uma centena de planetas), Hal Jordan carece da autorização prévia do Batman para adentrar em Gotham City. Da violação dessa regra já resultaram escaramuças entre os dois heróis;
*A braços com uma grave crise de tesouraria, no início dos anos 80 a DC esteve prestes a vender os direitos de publicação do Lanterna Verde à Marvel. A Casa das Ideias já havia no entanto introduzido, em 1971, um conceito decalcado do Gladiador Esmeralda. Doutor Espectro, membro do Esquadrão Supremo (ele próprio um pastiche assumido da Liga da Justiça), detinha o poder de criar construções multicoloridas de energia luminosa por intermédio de um prisma de origem alienígena; 
*No universo da Amalgam Comics, o Lanterna Verde foi fundido com o Homem de Ferro, dando origem ao Lanterna de Ferro, alter ego de Harold Stark;
*Aquando da sua transformação em Parallax, Hal Jordan não usava o seu anel original. Este fora destruído por Lorde Malvolio e substituído por outro forjado pelo vilão. Ao contrário do modelo manufaturado pelos Guardiões do Universo, o novo anel afetava objetos de cor amarela;
*Hal Jordan já foi referenciado no Universo Marvel. Numa história assinada por Peter David, em The Incredible Hulk #426 (fevereiro de 1995), Hal foi apresentado como um doente mental internado num hospital psiquiátrico. No rescaldo de Zero Hora, os eventos por ele narrados são assumidos como meros delírios da sua mente fragmentada;

Alucinações de um herói caído em desgraça.

*No Top 100 dos melhores super-heróis de todos os tempos divulgado em 2011 pelo portal IGN, o Lanterna Verde ocupa uma honrosa 7ª posição. De entre os seus congéneres da DC, apenas os membros da Trindade surgem mais bem classificados;
*O Lanterna Verde viveu a sua primeira aventura fora dos quadradinhos em 1967. Ano em que estrelou o seu próprio segmento na série animada da Filmation The Superman / Aquaman Hour of Adventure. Antes de, em 2011, Ryan Reynolds vestir a pele de Hal Jordan no cinema, foi Howard Murphy o primeiro a fazê-lo na TV. Em 1979, Legends of the Super-Heroes, minissérie em dois episódios transmitida pela antena da NBC, apresentou o primeiro Lanterna Verde de carne e osso.

Howard Murphy em Legends of Super-Heroes (1979)



*Este blogue tem como Guia de Estilo o Acordo Ortográfico de 1990 aplicado à norma europeia da Língua Portuguesa.
* Artigos sobre o Lanterna Verde Alan Scott, Sinestro, Arqueiro Verde e Zero Hora disponíveis para leitura complementar.






17 julho 2021

GALERIA DE VILÕES: DUENDE VERDE

  Nenhum outro inimigo do Homem-Aranha lhe infligiu tanta dor e sofrimento. Sempre que o bufão berrante se entrega à sua macabra folia, a tragédia enluta o coração de Peter Parker, eternamente assombrado pelo vil legado do seu némesis.

Denominação original: Green Goblin 
Editora: Marvel Comics 
Criadores: Stan Lee (conceito) e Steve Ditko (história e arte conceptual)
Estreia: The Amazing Spider-Man #14 (julho de 1964)
Identidade civil: Norman Virgil Osborn
Espécie: Humano quimicamente modificado
Local de nascimento: Hartford, Connecticut 
Parentes conhecidos: Alton Osborn Sr. (bisavô paterno, falecido); Alton Osborn Jr. (avô paterno, falecido); Ambrose Osborn (pai, falecido); mãe incógnita (presumivelmente falecida); Emily Lyman-Osborn (esposa, falecida); Harold "Harry" Osborn (filho, falecido); Liz Allan (ex-nora); Normie Osborn (neto)
Ocupação: Magnata, cientista, inventor, presidente executivo da Oscorp e senhor do crime.
Base operacional: Da Mansão Osborn, nas cercanias de Nova Iorque, o Duende Verde transferiu em tempos o seu covil secreto para a Torre Oscorp, no coração de Manhattan, e, mais recentemente, para uma estação de metro abandonada, nos túneis subterrâneos da cidade que nunca dorme.
Afiliações: Fundador da Oscorp e ex-líder dos Doze Sinistros.
Némesis: Homem-Aranha
Poderes e parafernália: Embora extraordinariamente ágil e atlético, nas suas primeiras aparições o Duende Verde aparentava ser um homem comum dependente do seu arsenal temático para se afirmar no submundo nova-iorquino. Depressa se perceberia, porém, que ele detinha afinal habilidades sobre-humanas, designadamente força, velocidade e resistência incrementadas. E que na origem de todas elas estava um composto biogénico chamado Soro do Duende.
No entanto, mesmo antes de consumi-lo, Norman Osborn era extremamente inteligente e talentoso, senhor de vasto conhecimento científico em áreas tão diferenciadas como Química, Mecânica e Eletrónica. Como bem comprovam, aliás, os aprimoramentos por ele realizados ao soro inventado pelo seu ex-sócio e professor, Dr. Mendel Stromm, ou o facto de ter construído do nada o seu império empresarial. Não menos impressionante, projetou sozinho toda a parafernália tecnológica que equipa a sua maléfica persona.
Composto por um leque de dispositivos bizarros que remetem para o folclore do Dia das Bruxas, o arsenal do Duende Verde permite-lhe defrontar em pé de igualdade adversários com níveis de poder superiores ao seu. Certa vez, por exemplo, derrotou o Tocha Humana com recurso a uma espuma retardante de fogo.
A imagem de marca do Duende Verde são, contudo, as Bombas Abóbora. Como o nome sugere, tratam-se de granadas de mão semelhantes a miniaturas das lanternas de abóbora usadas como enfeites durante o Halloween. Quando lançadas, acendem-se silenciosamente produzindo calor suficiente para derreter aço com vários milímetros de espessura. Algumas delas emitem também fumaça, clarões atordoantes ou um gás especial capaz de anular temporariamente o sentido de aranha do Escalador de Paredes. Foi graças a esse artifício que o vilão logrou descobrir a verdadeira identidade do seu arqui-inimigo.

Esquema de uma Bomba Abóbora.

Protótipo de um exoesqueleto desenvolvido pela Oscorp para fins militares, o uniforme do Duende Verde foi posteriormente adaptado às especificações de Norman Osborn. Destaque para a túnica tecida com uma fina malha de aço à prova de bala e para as luvas com microfilamentos elétricos que canalizam descargas de alta voltagem. Para se proteger dos efeitos dos próprios gases, Osborn embutiu um filtro na máscara, a qual foi projetada para instilar medo.
Numa clara referência ao Dia das Bruxas, originalmente o Duende Verde voava montado numa vassoura de aço com motor a jato. Esta seria, contudo, rapidamente substituída pelo seu icónico planador em forma de morcego. Além de melhor aerodinâmica, o aparato, controlado manualmente ou via rádio, dispõe de um impressionante poder de fogo. De metralhadoras a lança-chamas, passando até por pequenos mísseis equipados com sensores térmicos, o seu sistema de armas é tão eclético quanto mortífero. Voando à velocidade máxima (140 km/h) e com carga total (180 kg), o planador do Duende Verde tem autonomia para uma hora. Para maior estabilidade e manobrabilidade, as botas do usuário são fixadas magneticamente aos seus estribos metálicos. 

Originalmente, o Duende Verde montava uma vassoura voadora.

Além dos poderes enumerados acima, o Duende Verde consegue regenerar tecidos e órgãos severamente danificados. Embora mais lento do que o fator de cura de Wolverine ou Deadpool, essa habilidade já lhe permitiu sobreviver a ferimentos potencialmente fatais. A enorme cicatriz no peito de Norman Osborn, trespassado pelo próprio planador durante uma batalha com o Homem-Aranha, comprova-o.
Com recursos financeiros ilimitados provenientes da colossal fortuna do seu alter ego, o Duende Verde, fruto das motivações pessoais por detrás das suas ações, faz sempre um forte investimento emocional nos seus estratagemas para humilhar o Homem-Aranha. Torcendo-se de furor de cada vez que fracassa nos seus tenebrosos desígnios. "Desistir" é, porém, um verbo que Norman Osborn nunca aprendeu a conjugar.
Quando não afetado pela sua atávica loucura, o Duende Verde é um exímio estratega capaz de delinear planos de elevada complexidade. Apesar dessa sua componente cerebral, é também um lutador experiente que não teme o combate desarmado. Tanto mais que a sua força (estimada em 9 toneladas) se equivale, grosso modo, à do Homem-Aranha. 
Tudo somado, percebe-se porque são sempre os duelos entre ambos tão renhidos e de desfecho imprevisível. Um e outro podem apenas a aspirar a uma vitória pírrica, tão alto seria o preço a pagar por ela.

Cicatrizes de guerra.

Fraquezas: Putativo efeito colateral da fórmula química responsável pela amplificação das suas capacidade físicas, motoras e cognitivas, a insanidade é o calcanhar de Aquiles do Duende Verde. O histórico de distúrbios mentais na família Osborn sugere, todavia, que esta poderá ser hereditária, tendo sido apenas potenciada pelo Soro do Duende. Note-se que, além próprio Norman, também o seu pai Ambrose e o seu filho Harry sucumbiram à demência. Toda a linhagem Osborn parece, de facto, inquinada por ela.
Delírios de grandeza e fragmentação da personalidade constituem os sintomas mais evidentes da instabilidade mental de Norman Osborn. Que, condicionado por ela, toma frequentemente decisões irracionais pautadas pela impulsividade. Por conta dessa sua imprudência, cai repetidas vezes nas armadilhas preparadas pelos seus adversários, dá o flanco em combate e incorre noutras situações de elevada perigosidade.

Norman Osborn e o Duende Verde foram, durante algum tempo,
personalidades distintas em disputa pelo controlo.

Por ter, em diferentes ocasiões, enganado a morte, Norman Osborn julga-se invencível, subestimando amiúde os seus oponentes. Erros de avaliação que redundam quase sempre na sua derrota. Exemplo disso foi quando o Duende Verde capturou o Homem-Aranha pela primeira vez. Mesmo sabendo que o herói se preparava para escapar, nada fez para impedi-lo, convicto que estava da sua superioridade em combate.
Outro ponto fraco do Duende Verde radica na sua proverbial arrogância. Aquela que, entre outras coisas, o levou a desperdiçar a oportunidade de comandar o Sexteto Sinistro. Apenas porque unir-se ao grupo significaria reconhecer a sua incapacidade de vencer sozinho o Homem-Aranha. Algo impensável para alguém tão ufano como Norman Osborn. Apesar da sua empáfia, o vilão formaria mais tarde os Doze Sinistros, cujo elenco, por sinal, incluía alguns ex-membros do Sexteto Sinistro.


Inimigo íntimo

Na exuberante galeria de inimigos do Escalador de Paredes avultam alguns dos maiores expoentes de vilania da banda desenhada. Nenhum deles lhe proporcionou porém um festival de sofrimento como o Duende Verde. Foi ele o primeiro a descobrir a verdadeira identidade do herói aracnídeo e a assassinar um dos seus entes queridos. Como se isso não bastasse para consagrar a sua marca de maldade, foi também ele o arquiteto de uma monstruosa conspiração (eventos narrados na Saga do Clone, já aqui esmiuçada) que virou do avesso a vida de Peter Parker, mergulhando-o numa perturbadora crise de identidade.
Ao tomar a decisão fatal de eleger o Homem-Aranha como seu némesis, o Duende Verde prendeu ambos num interminável ciclo de horror e tragédia. Enfatizado pelo dramático enlace entre as suas vidas pessoais, uma vez que Norman Osborn é o pai do melhor amigo de Peter. Mas tudo teria sido muito diferente se as ideias originais dos seus autores tivessem vingado.
Na sinopse original do Duende Verde, Stan Lee descreveu-o como um antigo demónio mitológico despertado acidentalmente por uma equipa de filmagens que tropeçara numa espécie de sarcófago egípcio. Por considerá-lo desajustado ao registo realista na base do sucesso das histórias do Homem-Aranha, Steve Ditko reformulou por completo o conceito proposto pelo seu parceiro criativo.
Em vez de um ente sobrenatural, o Duende Verde seria, assim, apenas humano. Pensado para ser apenas outro antagonista de circunstância, o novo vilão fez a sua mise-en-scène em The Amazing Spider-Man #14, edição datada de julho de 1964. Apesar do mistério em torno da sua origem e identidade (ou por causa dele), o Duende Verde provou-se surpreendentemente popular entre os leitores.

A estreia oficial do Duende Verde em The Amazing Spider-Man #14 (1964)
teve o Incrível Hulk como convidado especial.

Mediante esse inesperado sucesso, o passo seguinte foi estabelecer o alter ego do Duende Verde, o qual seria pomo de discórdia entre os seus criadores. 
Enquanto Lee pretendia alguém conhecido do Homem-Aranha, Ditko preferia um anónimo sem qualquer ligação ao herói. Ditko sustentava a sua escolha no facto de, na vida real, as maiores inimizades despontarem aleatoriamente entre desconhecidos. A isto Lee contrapunha que uma ligação pessoal entre as duas personagens concederia (ainda) maior carga dramática às histórias do Escalador de Paredes. Acrescentando que, ao fim de tantos meses de suspense e pistas falsas, os leitores se sentiriam defraudados se assim não fosse.
Apesar de ter sido a visão de Lee a prevalecer, subsistem até hoje dúvidas acerca de quem terá partido afinal a ideia de estabelecer Norman Osborn como identidade civil do Duende Verde. Lee reclamava para si esse mérito, ao mesmo tempo que admitia poder ter sido atraiçoado pela sua péssima memória.
Ditko, por seu lado, afirmou sempre ter sido ele o autor da ideia, antes mesmo da conclusão do primeiro arco de histórias no qual o Duende Verde participou. Vários indícios parecem, de resto, corroborar esta tese.
Pese embora Norman Osborn não ter sido formalmente apresentado até The Amazing Spider-Man #37, Ditko afiançou ser ele a personagem que surgia em dois painéis no 23º número da série. Dando crédito a esta afirmação, o facto de a referida personagem - um discreto membro do Clube de Empresários da privança de J. Jonah Jameson - ter marcado presença nas edições seguintes. Numa delas, em The Amazing Spider-Man #25, Osborn visitou inclusivamente a redação do Daily Bugle - sem, contudo, se cruzar com Peter Parker.

O insuspeito Norman Osborn visita
 o seu amigo J.J. Jameson em The Amazing Spider-Man #25 (1965).

A grande revelação teve lugar em The Amazing Spider-Man #39. Naquela que foi a primeira história do Homem-Aranha a ser desenhada por outro artista - John Romita Sr. - que não Ditko, os leitores ficaram finalmente a saber que, por trás da máscara do Duende Verde, se escondia o rosto de Norman Osborn. Estava dado o mote para uma das mais trágicas rivalidades do Universo Marvel. E nem os seus criadores escaparam incólumes.
Devido a alegadas divergências criativas com Stan Lee, Ditko abandonara entretanto a série. O Homem-Aranha perdia um dos seus "pais", mas ganhava um inimigo íntimo. 
Ao tingir com o sangue de Gwen Stacy os anos terminais da Idade de Prata, o Duende Verde assinalou o fim da inocência nos comics. De então para cá, as trevas imiscuíram-se nas histórias de super-heróis, eles próprios cada vez menos exemplos de virtude e abnegação.


Legado Sinistro

Norman Osborn é um self made man com fome leonina de poder. Fervoroso adepto do darwinismo social, acredita que o mundo pertence aos fortes e que dos fracos não reza a História. Para predestinados como ele, nenhum fracasso é permanente e os fins justificam sempre os meios. O seu sucesso empresarial, baseado em doses iguais de genialidade e amoralidade, contrasta, porém, com a disfuncionalidade da sua vida familiar que compromete a sobrevivência do seu legado.
Primogénito de Ambrose Osborn, um magnata industrial, Norman Osborn nasceu em Hartford, no Connecticut. A sua infância despreocupada foi violentamente interrompida quando o pai perdeu a fortuna da família devido a uma alegada usurpação de patentes. 
Ambrose tornou-se um alcoólatra abusivo que descontava as suas frustrações na esposa e no filho. Norman depressa passou a desprezar o pai ao mesmo tempo que desenvolvia uma personalidade antissocial com precoces tendências homicidas.

Ambrose Osborn entregou-se à bebida após perder o seu negócio.

Numa noite de intempérie, Ambrose trancou o pequeno Norman numa das casas devolutas da família. Esperava assim curar a fobia do filho em relação à escuridão. Sozinho na penumbra, o apavorado Norman teve alucinações com um monstro esverdeado semelhante a um duende sinistro. Não era, porém, a primeira vez que a criatura o aterrorizava. Já antes lhe aparecera em pesadelos.
Temendo ser devorado pelo monstro assim que a escuridão cedesse lugar à luz do dia, Norman percebeu que era a primeira que o fortalecia. Naquele noite, abraçou para sempre as trevas.
Episódios traumáticos como este definiram o caráter de Norman, disposto a tudo para não ser um fracassado como o pai. Porque dinheiro é poder e um homem sem poder não é nada, o primeiro passo seria recuperar a fortuna da família. 
Com esse objetivo em mente, Norman mudou-se para Nova Iorque. Graças a uma bolsa de estudo, cursou Química e Gestão Empresarial na Universidade Empire State (UES, a mesma alma mater de Peter Parker). Foi lá que conheceu e se apaixonou por uma encantadora jovem chamada Emily Lyman. Apesar da cada vez mais evidente natureza rapace de Norman, Emily conseguiu trazer à tona o melhor dele.
Tão logo concluíram os respetivos cursos, o casal trocou alianças. Dessa união nasceu um filho, Harry Osborn. A felicidade familiar seria, no entanto, sol de pouca dura. Pouco meses após o nascimento de Harry, Emily faleceu em consequência de um problema de saúde. 

A morte prematura da sua esposa empurrou
 Norman Osborn para o abismo da loucura.

Privado do amor da esposa e angustiado pelo papel de pai solteiro, Norman retomou a sua obsessão de acumular riqueza e poder, negligenciando o filho. Em consequência desse desafeto, Harry desenvolveria, durante a adolescência, uma dependência de drogas que quase lhe foi fatal. Crescendo na sombra do pai, o jovem tornou-se um adulto depressivo, inseguro e solitário.
Já os negócios de Norman Osborn iam de vento em popa. Tendo como sócio minoritário o Dr. Mendel Stromm, seu antigo professor na UES, Norman fundou um conglomerado industrial, a Oscorp. Quando Stromm desviou dinheiro das contas da empresa, Norman, indiferente às suas justificativas, denunciou o sócio à policia.

Norman Osborn não perdoou o desfalque do ex-sócio.

Com Stromm atrás das grades, Norman assumiu o controlo total da Oscorp e apropriou-se do trabalho do seu ex-mentor. Socorrendo-se das anotações de Stromm, Norman tentou recriar um composto químico capaz de incrementar as capacidades físicas dos humanos. Sempre inescrupuloso, usou, com resultados desastrosos, um funcionário como cobaia.
Apesar de frustrado com a sua pesquisa, Norman não deitou a toalha ao chão. Uma nova mistura revelou-se volátil e explodiu-lhe no rosto. No hospital, Norman recuperou em tempo recorde e conseguia pensar com mais clareza do que nunca. Percebendo que a fórmula o deixara não só mais forte mas também mais inteligente, Norman decidiu banhar-se nela. Ao fazê-lo, abriu mão da última réstia de sanidade mental.
Determinado em alcançar o poder que tanto almejava, Norman Osborn sonhava liderar o cartel criminoso de Nova Iorque. Nesse sentido, criou a persona do Duende Verde (inspirado no monstro que,  na infância, lhe povoava os pesadelos) e procurou unir sob o seu comando todas as quadrilhas independentes a operar na cidade.
Ciente da necessidade de estabelecer uma reputação no submundo, Norman escolheu como alvo ninguém menos do que o Homem-Aranha. Após consecutivas derrotas dos seus sequazes, o Duende Verde resolveu tomar em mãos a missão de destruir o Escalador de Paredes.
Uma missão que ficou facilitada quando o Duende Verde descobriu que o Homem-Aranha era na verdade Peter Parker, um jovem universitário amigo do seu filho. Depois de capturar o herói, Norman desmascarou-se também, antes de permitir a fuga de Peter.

Os inimigos deixam cair as suas máscaras.

Na encarniçada refrega que se seguiu, o Homem-Aranha eletrocutou acidentalmente o Duende Verde. Este sobreviveu mas ficou amnésico.  Desejando resguardar Harry de novo trauma, o Homem-Aranha destruiu a fantasia do Duende Verde no incêndio resultante. À polícia, relatou que Norman Osborn perdera a memória depois de ter sido atacado pelo vilão. 
Meses mais tarde Norman recuperaria, porém, a memória. Sedento de vingança, reviveu o Duende Verde e raptou Gwen Stacy, a namorada de Peter Parker. Durante uma batalha noturna, o vilão, num assomo de sadismo, atirou Gwen do alto de uma ponte. Ao tentar resgatá.la com a sua teia, o Homem-Aranha partiu acidentalmente o pescoço da jovem, matando-a. Essa seria, no entanto, apenas a primeira tragédia na periferia da vida de Peter Parker com a marca do seu némesis.
Com a fúria a rasgar por ele acima, o herói aracnídeo perseguiu o Duende Verde até ao seu covil. No clímax da contenda, o Duende Verde teve o peito transfixado pelo próprio planador.

A morte do Duende Verde não seria o fim do seu vil legado.

Acoitado nas sombras, Harry Osborn testemunhou, impotente, a derrota fatal do pai às mãos do Homem-Aranha e jurou vingança. Seria ele o primeiro a assumir o sinistro legado do Duende Verde, durante o longo período em que Norman Osborn esteve morto para o mundo..
Harry foi curado da sua obsessão com o Homem-Aranha por um psiquiatra chamado Bart Hamilton. Ironicamente, Hamilton tornar-se-ia o terceiro Duende Verde. Mas outros sucessores se perfilaram. 
Anos mais tarde, seria a vez de Phil Urich - sobrinho de Ben Urich, repórter do Daily Bugle -, reclamar para si o legado do Duende Verde. Ao contrário dos seus antecessores, usou-o para benefício da comunidade. 
Por fim, Roderick Kingsley, um milionário excêntrico que descobriu um antigo esconderijo do Duende Verde, criou um pastiche do vilão original chamado Duende Macabro. De entre a chusma de imitadores, foi, sem dúvida, o mais bem-sucedido. 
Nenhum deles imaginava no entanto que Norman Osborn estava vivo, algures na Europa, marinando a sua vingança suprema. Aquela que, anos volvidos, seria servida sob a forma de uma rebuscada conspiração que levou Peter Parker a acreditar ser um clone criado em tempos pelo Professor Miles Warren (vulgo Chacal, outro velho inimigo do Cabeça de Teia). A verdade só seria reposta quando Ben Reilly, o verdadeiro clone, se sacrificou para salvar a vida de Peter. Na mórbida contabilidade da guerra sem quartel entre o Homem-Aranha e o Duende verde, foi ele o segundo ente querido do herói morto às mãos do seu arqui-inimigo.
Numa inesperada reviravolta, desde a morte do filho, devido aos efeitos adversos de uma versão experimental do Soro do Duende, Norman Osborn passou a ver em Peter Parker um herdeiro digno do seu legado. Uma "honra" que Peter rejeitou sem pensar duas vezes, Mas isso não impedirá que ele continue a ser assombrado pelo Duende Verde até ao final dos seus dias. 

Forças opostas em conflito perpétuo.


Miscelânea

*Grande e Terrível, Duende Rei do Crime e Senhor dos Duendes são cognomes pelos quais o Duende Verde está habituado a responder no submundo nova-iorquino onde há muito consolidou a sua temível reputação;
*O Duende Verde foi um dos supervilões a figurar na série A de selos de valor lançados pela Marvel em 1974. Esteve, no entanto, ausente de todas as séries subsequentes;
*Em Amazing Spider-Man #122, quando o Duende Verde morre empalado pelo próprio planador, o Homem-Aranha cita a Bíblia, numa notória referência ao complexo de Deus do seu inimigo: "Assim morrem os homens orgulhosos: crucificados, não numa cruz de ouro, mas numa modesta estaca de lata.";
*Ao matar Gwen Stacy, o Duende Verde destronou o Doutor Octopus como arqui-inimigo do Homem-Aranha. Norman Osborn, considera, aliás, esse um dos seus maiores feitos, dos quais gosta de vangloriar-se. No entanto, num controverso retcon de 2004, intitulado Sins Past (Pecados Pretéritos), foi revelado que ele tivera um affair com Gwen Stacy, poucos meses antes da morte da jovem e quando esta ainda namorava com Peter Parker. Mais escabrosa ainda, a revelação de que desse relacionamento resultara uma gravidez. Gwen terá dado secretamente à luz um casal de gémeos, que Norman criou algures na Europa durante a sua longa ausência. Escusado será dizer que tal heresia mereceu o repúdio dos leitores - em especial, os da velha guarda -, enojados com o revisionismo que transformou a angelical Gwen Stacy numa promíscua;

Norman Osborn e Gwen Stacy, o pecado da carne.

*O Duende Verde foi o primeiro supervilão da Marvel a aparecer num jogo de vídeo: Spider-Man foi desenvolvido em 1982 pela Parker Brothers para a consola Atari 2600;
*Desde 2016 que o Duende Verde ocupa o 24º lugar na tabela dos 100 melhores vilões de todos os tempos divulgada pelo IGN. Entre os seus congéneres da Marvel, apenas Magneto e Doutor Destino conseguiram melhor classificação. No ano anterior, o site Comics Alliance elegera o Duende Verde como o melhor inimigo do Homem-Aranha;
*Na continuidade da Amalgam Comics, o Duende Verde foi combinado com o Duas-Caras da DC, originando o Duende de Duas Caras (alter ego de Harvey Osborn). O uniforme do vilão dessa realidade paralela era em tudo idêntico ao do original. Sob a sua máscara, escondia-se, porém, o rosto desfigurado de Harvey Dent. Em aparições posteriores, o Duende de Duas Caras teria o seu visual retocado e ganharia um planador em forma de moeda gigante. Curiosamente, o Duende Verde é visto por muitos como o Joker da Marvel, ao passo que Norman Osborn tem muito em comum com Lex Luthor;

Duende de Duas Caras.

*O Duende Verde foi o primeiro antagonista do Escalador de Paredes em todas as suas adaptações audiovisuais. O seu salto para fora das vinhetas aconteceu num dos episódios iniciais de Spider-Man, série animada da ABC, no ar entre 1967 e 1970. No cinema, o Duende Verde começou por ser vivido, em 2002, por Willem Dafoe, na longa-metragem Homem-Aranha. Em 2014, seria a vez de Dane DeHann vestir-lhe a pele em O Espetacular Homem-Aranha 2: O Poder de Electro. O Duende Verde foi também o vilão de serviço em Spider-Man: Turn Off the Dark, musical levado à cena na Broadway, e que se manteve em cartaz durante quase três anos.

Dane DeHann (esq.) e Willem Dafoe encarnaram o Duende Verde no cinema.



*Este blogue tem como Guia de Estilo o Acordo Ortográfico de 1990 aplicado à norma europeia da Língua Portuguesa;
*Artigos sobre Steve Ditko, Saga do Clone, A Morte de Gwen Stacy, Homem-Aranha e Duende Macabro disponíveis para leitura suplementar.




 













17 junho 2021

ETERNOS: JERRY ROBINSON

  Ele próprio um menino-prodígio, cresceu na sombra do seu mentor apesar de ter criado várias figuras fundamentais da mitologia do Cavaleiro das Trevas. Artista por acaso, cartoonista por vocação e ativista por paixão, foi incansável como embaixador dos comics e na defesa dos direitos dos seus pares. 


Imagine-se um artista cuja carreira ímpar remonta à Idade de Ouro dos comics, criador de um dos mais carismáticos e infames vilões da banda desenhada. Imagine-se que esse mesmo autor, pioneiro da Era Heroica, foi um dos mais prestigiados cartoonistas do mundo, cumulando honrarias e reconhecido internacionalmente como um dos mais influentes do último século. Acrescente-se a tudo isso uma campanha sem fronteiras em prol dos direitos autorais e da liberdade de expressão dos seus colegas de ofício, e ter-se-á uma ligeira noção da importância de Jerry Robinson para a Arte Sequencial. No ano em que se cumpre uma década sobre o seu desaparecimento, evoquemos o essencial da vida e obra do mais novo dos três mosqueteiros que arvoraram o Batman a ícone global.
Batizado Sherrill David Robinson, Jerry Robinson nasceu no primeiro dia do ano da graça de 1922. Astrólogos e outros especialistas na leitura das linhas tortas dos bons e maus augúrios porventura lobrigariam nesse facto um sinal de que veio ao mundo predestinado a grandes feitos. Quinto filho de um casal pequeno-burguês - o pai um empresário com raízes judaicas, a mãe uma contabilista nova-iorquina - Robinson teve como berço Trenton, a melancólica capital da Nova Jérsia, banhada pelas águas turvas do rio Delaware. Influentes na comunidade, os seus pais haviam sido, no ano anterior, os responsáveis pela abertura do primeiro cinema na cidade. 
Ainda pessoa de palmo e meio, Robinson foi apresentado à pobreza, que se infiltrou no quotidiano familiar quando os desvarios de Wall Street reduziram a economia americana - e os negócios paternos - a um cemitério de sonhos destruídos. Para manter vivo o seu de ser jornalista, Robinson vendia gelados e alguns desenhos que fazia. Seriam aliás estes a mudar-lhe as agulhas do destino.
Então com 17 anos e prestes a ingressar na Universidade de Columbia no curso dos seus sonhos, em 1939 Robinson encontrava-se de férias numa modesta pousada nas montanhas Pocono (Pensilvânia). Durante um passeio matinal, os desenhos estampados no casaco que vestia atraíram a atenção de um desconhecido, que indagou sobre a autoria dos mesmos. Quando Robinson anunciou ser ele o artista, o desconhecido apresentou-se: Bob Kane.
Sete anos mais velho do que Robinson, Kane mostrou-lhe a primeira história do Batman - acabada de dar à estampa em Detective Comics #27 - e ofereceu-lhe um emprego como seu assistente. Sem particular apreço pelos quadradinhos, tampouco impressionado com o traço de Kane, Robinson aceitou contudo de bom grado o emprego. Desse encontro fortuito nasceria uma das mais brilhantes parcerias criativas da 9ª Arte, mas também uma das mais duradouras disputas por direitos autorais da sua história. 

Bill Finger, Bob Kane e Jerry Robinson: três homens e um destino.

Robinson viajou de imediato para Nova Iorque, levando na bagagem a missão de assistir Bob Kane e Bill Finger na produção da série mensal do Batman. O fenomenal sucesso desta apanhara desprevenidos os próprios autores que, atolados em trabalho, sentiam crescente dificuldade em cumprir os prazos estipulados pela National Comics (futura DC). 
Robinson assumiu inicialmente a arte-final e a legendagem das histórias, levando pouco tempo a perceber o enorme potencial narrativo e comercial dos comics. No entanto, o seu primeiro trabalho só apareceu no quarto número da revista.
Dono de um traço marcante - muito superior ao do próprio Kane - Robinson desenvolveu o seu estilo ao longo do ano seguinte. Graças a ele, o desenho quadrado e estático de Kane cedeu lugar a um visual mais dinâmico e refinado.
Mesmo após a contratação de George Roussos para preencher os cenários das histórias do Batman, Jerry Robinson - que Kane considerava seu protegido - continuou a ser o principal arte-finalista da equipa. Com a chegada de mais um elemento, esta mudou-se do estúdio improvisado no apartamento de Kane para um espaço alugado nas Times Towers, um dos mais icónicos edifícios da Grande Maçã. Robinson, por seu lado, permaneceu aboletado na casa de uma família do Bronx, da privança de Kane.
Descrito como dorminhoco por Roussos, Robinson odiava levantar-se cedo, preferindo trabalhar madrugada adentro. Conjugada com o seu perfecionismo, a indisciplina horária de Robinson originava constantes atrasos na entrega dos trabalhos que tinha em mãos, o que deixava os seus colegas - particularmente Bob Kane - à beira de um ataque de nervos.

Jerry Robinson fotografado
 nos estúdios da National Comics, por volta de 1942.

No início de 1940, Bob Kane e Bill Finger discutiram a introdução de um parceiro que adjuvasse o Homem-Morcego na sua cruzada contra o crime em Gotham City. Apesar de a ideia não ter partido dele, foi Robinson quem sugeriu o nome Robin (em homenagem a Robin Hood, seu ídolo de infância) e concebeu o  colorido visual ( inspirado nas ilustrações de um livro de Newell Convers Wyeth) do jovem escudeiro do Cavaleiro das Trevas.
O Menino-Prodígio debutou em abril desse mesmo ano, nas páginas de Detective Comics #38, sendo considerado o protótipo do sidekick. Robin prenunciou, com efeito, um figurino que se tornaria moda nos anos imediatos. O seu sucesso junto dos leitores mais novos aplanou caminho para uma multidão de epígonos. Muitos dos heróis seniores passaram, assim, a não dispensar a ajuda dos seus imberbes companheiros.
Se a referência a Bob Kane e Bill Finger na criação do Menino-Prodígio é uma mera formalidade, a discussão em redor da autoria do tétrico némesis do Batman ainda hoje faz correr rios de prosa.
Segundo rezam as crónicas oficiais, Finger, à beira do esgotamento, terá pedido ajuda a Robinson para conceber um novo vilão capaz de testar as capacidades do Homem-Morcego, habituado a lidar apenas com bandidos comuns. Robinson passou a noite a matutar na ideia, voltando no dia seguinte com uma carta de baralho representando o Joker. Em entrevistas concedidas ao longo dos anos, Robinson explicou que o bridge sempre preenchera os seus serões familiares, tendo sido essa a fonte de inspiração para o Palhaço do Crime. 

A carta original desenhada por Jerry Robinson
 é hoje uma peça de museu.

Ao examinar os esboços do vilão, Finger, cinéfilo apreciador de filmes europeus, notou as semelhanças com a sinistra personagem interpretada por Conrad Veidt em O Homem Que Ri (1928). Robinson explicou aos seus companheiros que Joker seria o Professor Moriarty do Batman: um arqui-inimigo capaz de pôr à prova os talentos dedutivos do maior detetive do mundo. Outra peculiaridade da personagem radicava no seu retorcido sentido de humor, por contraponto à circunspeção do Cavaleiro das Trevas. 
Kane e Finger avalizaram a proposta de Robinson, e o Joker foi apresentado aos leitores em Batman #1 (abril de 1940). Robinson não foi, contudo, creditado pela criação daquele que viria a ser um dos maiores ícones da cultura popular. Estatuto que só foi alcançado graças à intervenção providencial de um editor que, percebendo o enorme potencial do vilão, evitou que este morresse no final da sua primeira aparição.
Até ao dia da sua morte, em 1998, Bob Kane, conhecido pela sua renitência em dividir os louros pelo sucesso do Batman, foi sempre perentório em afirmar que Robinson nada tivera que ver com o processo criativo do Joker. Atribuindo, ao invés, a "paternidade" do vilão a si próprio e a Bill Finger, resumindo o contributo de Robinson à carta de baralho que serviu de cartão de visita ao Palhaço do Crime nas suas primeiras aparições. Salvo algumas vozes dissonantes, a generalidade dos historiadores apontam, porém, Robinson como o único e verdadeiro autor do Joker.
A partir de 1941, com Kane focado exclusivamente na tira do Batman, Robinson e Finger passaram a trabalhar diretamente com a National Comics. Num claro sinal de reconhecimento do seu talento, Robinson teve os seus serviços requisitados por várias editoras concorrentes. Na Harvey Comics e na Nedor Comics - citando apenas dois exemplos - assumiu, respetivamente, a arte de Green Hornet e Black Terror. Ao passo que a Spark Publications lhe apadrinhou a sua primeira criação a solo: Atoman.

Atoman foi a primeira criação a solo de Jerry Robinson.

Foi também nessa sua fase seminal que Robinson, percebendo o valor estético e comercial da arte original, começou a requerer a devolução dos seus desenhos junto das editoras. Passando, em seguida, a recolher também os desenhos dos seus colegas que, depois de impressos, teriam como destino o lixo. Ao longo das décadas seguintes reuniu apreciável quantidade desse material, algum do qual avaliado em milhões de dólares. Seja em museus ou em exposições itinerantes, esse valioso acervo serve a preservação da memória dos comics e dos seus autores.
Antes de trocar os quadradinhos pelo ensino, Jerry Robinson participou na conceção visual do Pinguim e criou Alfred Pennyworth, o fiel mordomo de Bruce Wayne. Em meados da década 50, reforçou o corpo docente da School of Visual Arts, acrescentando dessa forma ao seu currículo a formação de novas gerações de artistas. Em Steve Ditko, cocriador do Homem-Aranha, teve o seu aluno mais ilustre.
Nessa sua nova senda, Jerry Robinson explorou uma amplitude de registos. Ao mesmo tempo que ilustrava as capas da revista Playbill (dedicada aos espectadores de teatro) e livros infantis, assinava diariamente Jet Scott, uma bem-sucedida tira de ficção científica distribuída nacionalmente pelo Herald Tribune Syndicate.
Sem embargo para o seu importantíssimo contributo para a elevação dos comics a arte respeitável, foi nos cartoons que Jerry Robinson encontrou a sua verdadeira vocação. Dois dos seus maiores sucessos nessa área foram Flubbs and Fluffs e Still Life. A primeira reproduzia algumas das mais hilariantes gafes cometidas pelos alunos americanos; a segunda, protagonizada apenas por objetos inanimados, analisava com humor as notícias que marcavam a atualidade.
A sátira política e a crítica de costumes eram, com efeito, as pedras angulares do seu trabalho. Em plena Guerra Fria, Robinson foi diretor artístico e coargumentista de Stereotypes, filme de animação que mostrava a forma como russos e americanos se percecionavam mutuamente.

Still Life rendeu vários prémios ao seu autor.

Às inquestionáveis capacidade técnicas Jerry Robinson somava igualmente inquestionáveis qualidades humanas. Entre 1967 e 1969, presidiu à Sociedade Nacional de Cartoonistas, precedendo o seu mandato de dois anos (1973-75) à frente da Associação de Cartoonistas Editorais Americanos. Ambas as organizações forneceram uma plataforma poderosa para Robinson contactar artistas de todo o mundo, lançando assim as bases de um sindicato global. Sob a égide do qual foi conseguida a libertação de cartoonistas presos pelas suas opções políticas, em países como a ex-União Soviética ou o Chile.
Mais ou menos pela mesma altura, Jerry Robinson - assistido por Neal Adams - foi crucial na resolução do contencioso que opunha Jerry Siegel e Joe Shuster à DC Comics. Graças à sua campanha solidária para com os desafortunados criadores do Super-Homem, a Editora das Lendas concordou em pagar-lhes uma pensão vitalícia e creditá-los em todas as vindouras publicações e adaptações do Homem de Aço aos diferentes meios de comunicação.

Jerry Robinson (dir.) com Neal Adams, Jerry Siegel e Joe Shuster.

Autor de vasta bibliografia acerca da história dos comics, Jerry Robinson, o homem que nunca se viu apenas como um artista dos quadradinhos, foi seu embaixador incansável. A sua devoção à causa beneficiou as carreiras de centenas de oficiais do mesmo ofício. Estes retribuíram cobrindo-o de prémios e honrarias, algumas das quais pecaram apenas por tardias. Foi o caso, por exemplo, da inclusão do seu nome, em 2004, no Comic Book Hall of Fame, que, na era do efémero, eterniza os demiurgos da 9ª Arte. Robinson, por sua vez, instituiu no ano seguinte o Prémio Bill Finger, atribuído postumamente a escritores a quem foi negado o devido reconhecimento em vida. Jerry Siegel foi o primeiro contemplado.
A 7 de dezembro de 2011 (Dia de Pearl Harbor, data tão simbólica como a do seu nascimento), Jerry Robinson, prestes a completar 90 anos, partiu tranquilamente durante o sono. O sonho de qualquer dorminhoco. Sobreviveram-lhe a esposa, dois filhos, dois netos e um riquíssimo legado cultural, sem precedentes nem paralelo. 
Se a grandeza de um homem é mensurável pela nobreza das causas que abraçou ao longo da vida, Jerry Robinson foi, sem sombra de dúvida, um gigante. Cujas pegadas no imaginário coletivo jamais serão apagadas.


O dia em que o Palhaço chorou a morte do seu criador.





*Este blogue tem como Guia de Estilo o Acordo Ortográfico de 1990 aplicado à variante europeia da Língua Portuguesa.
*Textos sobre Bob Kane, Bill Finger, Joker e Robin disponíveis para leitura complementar.
 














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