06 julho 2020

HERÓIS EM AÇÃO: JUSTICEIRO


  Olho por olho, dente por dente. Se Deus perdoa e a Lei é branda, ele não deixará crime algum sem castigo. Exército de um homem só, o seu Diário de Guerra é escrito a sangue e pontuado com caveiras. Porque a sua justiça extrema é uma sentença de morte para os culpados.

Denominação original: The Punisher
Editora: Marvel Comics
Criadores: Gerry Conway, John Romita Sr. e Ross Andru
Estreia: Amazing Spider-Man #129 (fevereiro de 1974)
Identidade civil: Francis Castiglione (nome de batismo legalmente alterado para Frank Castle)
Espécie: Humano
Local de nascimento: Queens, Nova Iorque
Parentes conhecidos: Mario e Louisa Castiglione (pais, falecidos); Maria Elizabeth Castle (esposa, falecida); Lisa Castle (filha, falecida); Frank Castle Jr. (filho, falecido); 
Ocupação: Vigilante; ex-oficial do Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA
Base operacional: Embora tradicionalmente sediado na área metropolitana de Nova Iorque, a sua atividade requer grande mobilidade geográfica, inclusive missões no estrangeiro.
Afiliações: Ex-Marine; ex-parceiro de Microchip; ex-membro dos Marvel Knights, dos Defensores Secretos e dos Heróis de Aluguer. A personalidade insular e os métodos brutais de Frank Castle fazem dele um lobo solitário, pelo que as suas colaborações com outros vigilantes são sempre esporádicas.
Némesis: Retalho (Jigsaw, no original)
Poderes e parafernália: Frank Castle é exército de um homem só. O treino intensivo recebido ao serviço dos Fuzileiros Navais e de outras Forças Especiais, aliado à sua experiência de combate em diferentes teatros de operações, fizeram dele um especialista mundial em táticas de guerrilha. Adicionalmente, desde que passou a operar como Justiceiro, Frank tem vindo a expandir as suas competências em áreas essenciais para a sua guerra contra o crime: disfarce, técnicas de tortura, pirataria informática, recolha de informação, etc.
Metódico e altamente disciplinado, o Justiceiro prepara sempre de forma meticulosa as suas missões, consciente de que um simples detalhe poderá revelar-se fatal. Graças à sua resiliência e instinto assassino, consegue adaptar-se a praticamente qualquer situação e obter vantagem mesmo nos cenários mais adversos. Quanto maior o desespero, maior a sua perigosidade.
Dinheiro e outros bens apreendidos a narcotraficantes servem de fonte de financiamento às operações paramilitares do Justiceiro, a quem não se conhece outra atividade profissional.
Frank é também um atirador exímio, possuindo a rara capacidade de disparar com ambos os olhos abertos. Mesmo quando o alvo se move a velocidade sobre-humana, ele raramente falha. Certa vez, inutilizou os lançadores de teias do Homem-Aranha com dois tiros certeiros.
De metralhadoras a bazucas, passando por bestas e lança-chamas, o arsenal do Justiceiro - que é também perito em explosivos - é extremamente diversificado. Apesar da sua preferência por armamento convencional, é comum fazer engenharia reversa no equipamento confiscado a supervilões. Já foi visto a manobrar na perfeição o chicote elétrico do Chicote Negro e o planador do Duende Verde.

A última imagem vista por muitos criminosos.
No pináculo da forma física, o Justiceiro é igualmente letal no combate corpo a corpo. De entre o sortido de artes marciais e técnicas de autodefesa em que é proficiente, destacam-se o Krav Maga, o Muay Thai e o Nash Ryu Jujutsu. Quase sobre-humanos, os seus reflexos tornam-no um alvo difícil de atingir, ao ponto de já ter conseguido desviar-se do escudo do Capitão América e dos bastões do Demolidor.
Frank possui igualmente uma elevadíssima tolerância à dor. É comum suturar feridas sem recurso a analgésicos ou continuar a lutar mesmo após ter sido baleado à queima-roupa. O seu colete de Kevlar é a única proteção no campo de batalha.
Apesar de um furgão blindado lhe servir habitualmente de meio de transporte e base de operações móvel, o Justiceiro dispõe igualmente de uma rede de esconderijos secretos. É neles que guarda o seu arsenal e acrescenta novas entradas ao seu Diário de Guerra, misto de testemunho e manifesto antecipando uma morte prematura.
Lobo solitário por natureza e opção, o Justiceiro teve em Microchip, um génio da Informática, o seu mais duradouro associado. Era ele quem lhe providenciava tecnologia e o que de mais próximo Frank tinha de uma amizade.

Fraquezas: Dada a sua a condição de simples humano, Frank Castle é tão suscetível a maleitas, ferimentos e lesões incapacitantes como qualquer outra pessoa. Dependendo, por isso, mais das suas competências táticas e estratégicas do que das suas capacidades físicas nos ocasionais confrontos com superseres. Ainda assim, com o devido preparo, consegue bater-se em paridade de armas com adversários meta-humanos.
O seu draconiano código de honra impede-o, ademais, de ferir agentes policiais no cumprimento do dever, ou de colocar em perigo a vida de civis, designadamente de crianças. Condicionalismos morais que o levam por vezes a baixar a guarda e a ceder vantagem aos seus adversários. Durante a Guerra Civil, por exemplo, foi sumariamente derrotado pelo Capitão América porque a sua idolatria por aquele que considera um monumento vivo aos ideais fundadores dos EUA o inibiu de revidar.
Menos conhecida é a sua fobia pelo mar aberto, consequência de um trauma de infância não especificado. Certa vez, quando perseguia um grupo de narcotraficantes no Hawai, o Justiceiro, tolhido pelo medo, foi salvo de morrer afogado por um golfinho.

Capitain America vs Punisher Capas De Quadrinhos, Quadrinhos Hq, Capitão América Marvel, Justiceiro, Personagens, Desenho, Punisher Comics, Marvel Dc Comics, Heróis Da Marvel
Frank tenta justificar as suas ações ao ídolo de infância.

Justiça extrema

Saído da imaginação de Gerry Conway, à época escriba das histórias do Homem-Aranha, o Justiceiro (The Punisher, em inglês), surgiu numa altura em que os vingadores urbanos ditavam a Lei na cultura popular dos EUA.
Depois de, na década transata, ter vivido no esplendor de uma espécie de nova Camelot, nos anos 1970 a sociedade norte-americana foi brutalmente despertada para uma realidade sombria. Ao mesmo tempo que os índices de criminalidade disparavam para níveis inauditos, a nação perdia inexoravelmente a sua inocência.
Outrora seguras, as ruas das principais cidades americanas eram agora invadidas pelas drogas e pelos gangs. Face à corrupção institucionalizada e à perceção generalizada de impunidade, o homem comum deixava de confiar na polícia - tantas vezes de mãos atadas ou untadas - para proteger a sua vida e os seus bens.
A este novo contexto marcado pela violência e por uma autoridade em crise, respondeu a cultura popular introduzindo um novo tipo de justiceiro: o vigilante das ruas. Herdeiro direto dos pistoleiros solitários que, ao arrepio da Lei, vingavam os abusos e os crimes no Velho Oeste, no cinema teve em Dirty Harry (magistralmente interpretado por Clint Eastwood) o seu expoente máximo. Já na literatura, foi o Executor a impor esse viés justicialista ao melhor estilo americano.
Criação de Don Pendleton em 1969, o Executor era o alter ego de Mack Bolan, um ex-combatente da Guerra do Vietname que, após o brutal assassinato da sua família às mãos de mafiosos, se lançara numa implacável cruzada contra o crime. Seria ele a confessa fonte de inspiração de Gerry Conway para a criação de um novo vilão para as histórias do Escalador de Paredes.

Death Has a Name (Mack Bolan the Executioner, #96) by Mike McQuay
Mack Bolan, o Executor.

No esboço apresentado por Conway ao então diretor artístico da Casa das Ideias, John Romita Sr., a nova personagem tinha como símbolo uma pequena caveira estampada num dos lados do peito. Romita gostou do conceito, mas entendeu por bem aumentar o tamanho da caveira, que passaria, assim, a ocupar toda a zona peitoral.
Na hora de crismar a sua nova criação, Conway sugeriu Assassin (Assassino), mas Stan Lee, já inteirado da intenção do escritor de converter a personagem num anti-herói, considerou a designação inapropriada. Propondo, em alternativa, The Punisher - nome repescado de um obscuro servo robótico de Galactus.

Gerry Conway inspirou-se no Executor
 para criar o Justiceiro.
Na sua primeira aparição, em The Amazing Spider-Man #129 (fevereiro de 1974), o Justiceiro - sob o competente lápis de Ross Andru, o seu primeiro artista - foi apresentado como um vigilante sanguinário sem escrúpulos em matar criminosos. Paradoxalmente, havia sido recrutado por um para liquidar o Homem-Aranha.
De algum modo, o Chacal convencera-o que o Cabeça de Teia assassinara Norman Osborn (vulgo Duende Verde) sem razão aparente. Quando percebeu o logro, o Justiceiro não só poupou a vida do herói como o ajudou a derrotar um outro assassino de aluguer contratado para matá-lo.
Se nessa história inicial quase nada - exceto o facto de ser um ex-Marine - foi revelado acerca do passado do Justiceiro, as suas aparições subsequentes - sempre como coadjuvante e cada vez mais impactantes - revelariam a sua trágica origem (vide texto seguinte), consolidando a sua reputação de anti-herói psicologicamente perturbado.
Apesar de, pela sua estética e pela radicalidade dos seus métodos, destoar dos super-heróis convencionais, o Justiceiro depressa caiu nas boas graças dos leitores, rendidos ao recorte realista das suas histórias. A Marvel relutava, porém, em conceder-lhe mais do que aparições pontuais nos títulos do Homem-Aranha e do Demolidor. De tão crua, a filosofia do Justiceiro parecia não ter lugar na Casa das Ideias.

The Amazing Spider-Man (1963) #129
O Homem-Aranha na mira do Justiceiro
 em The Amazing Spider-Man #129 (1974).

Por fim, em 1986, mais de uma década volvida sobre o seu nascimento, o Justiceiro protagonizou a sua primeira minissérie. Escrita por Steve Grant e ilustrada por Mike Zeck, The Punisher teve o condão de consagrar definitivamente Frank Castle como um fenómeno de popularidade.
Na esteira do apreciável sucesso dessa primeira aventura a solo do Justiceiro, no ano seguinte seria lançada a sua primeira série mensal em nome próprio (também titulada The Punisher).
Foi, com efeito, na segunda metade da década de 1980 que o Justiceiro viveu os seus maiores momentos de estima pública, consubstanciados em três séries mensais: The Punisher War Journal, The Punisher War Zone e The Punisher Armory. Abrindo,dessa forma, caminho para o advento, no início dos anos 90, de toda uma nova geração de anti-heróis publicados sob as chancelas de diferentes editoras. Sem que, contudo, nenhum deles rivalizasse em carisma ou ombreasse em letalidade com o Justiceiro, a cura definitiva para o vírus do crime. Sem fantasias, sem superpoderes, sem arrependimentos.

Diário de Guerra

Francis "Frank" Castiglione nasceu no Queens (o maior dos cinco bairros que compõem Nova Iorque) a um humilde casal de imigrantes italianos de primeira geração. Na sua Sicília natal, o clã Castiglione gerava tradicionalmente homens fortes e profundamente católicos, contando inclusive com alguns padres.
Da interiorização desses valores familiares resultou a estruturação do caráter honesto, trabalhador e religioso do jovem Frank. Que, no final da puberdade, chegou mesmo a ingressar no seminário.
Devido à sua dificuldade em compreender porque consentia Deus tanto ódio e sofrimento no mundo, Frank depressa desistiu do sacerdócio. Também questionava os indulgentes ensinamentos do Catolicismo, que exaltavam a virtude do perdão. Para ele, este só poderia ser concedido após a punição dos pecados. E nem todos os pecados eram merecedores de perdão.
Determinado a fazer a diferença, Frank abraçou então uma carreira militar. Nos Marines encontrou uma segunda família e um propósito de vida. Treinado para ser uma máquina de matar, sobressaiu pela sua elevada letalidade tanto no combate armado como no desarmado. Extremamente disciplinado, corajoso e eficiente, teve ascensão meteórica na hierarquia da corporação, obtendo a patente de capitão.
De regresso a casa após a sua primeira comissão no Vietname, Frank desposou Maria Elizabeth, o amor da sua vida. Da união do casal resultaram dois filhos: Lisa e Frank Castle Jr.
Várias vezes condecorado pelo seu heroísmo em combate, Frank absorvia a admiração dos seus camaradas na exata proporção em que era temido pelos seus inimigos. Durante as batalhas, porém, uma vozinha maviosa instigava-o à violência irracional, levando-o a questionar a sua sanidade mental.

Frank Castle by Goran Parlov | Punisher comics, Punisher comic ...
Nascido para matar, marcado para morrer.
Frank atingiu o seu limiar crítico após assistir, impotente, ao massacre da sua unidade durante uma ofensiva fracassada contra posições vietcongs. Concluída a sua quarta e última comissão, solicitou transferência para os EUA, ansioso por se dedicar à vida familiar. Cansado da guerra, o soldado impiedoso daria lugar ao marido atencioso e ao pai extremoso.
Aquartelado nos arredores de Nova Iorque, nos anos imediatos Frank foi instrutor das Forças Especiais. Todo o seu tempo livre era passado na companhia da mulher e dos filhos. Foram tempos felizes para a família Castle, mas a tragédia não tardaria a bater-lhes à porta.
Em vésperas de viajar para Washington a fim de receber das mãos do Presidente mais uma comenda pelos serviços prestados à Pátria, Frank organizou um piquenique familiar no Central Park. O que deveria ter sido um dia de sonho para mais tarde recordar ganhou contornos de pesadelo tão-logo soaram os primeiros disparos.
No lugar errado à hora errada, os Castles presenciaram uma matança levada a cabo por mafiosos. Ao dar fé da presença de testemunhas, o líder do grupo ordenou aos seus homens que matassem todos a sangue-frio. Com Maria a implorar, em vão, para que os filhos fossem poupados.
Foi esse o cenário macabro apresentado a Mike McTeer, um jornalista de reputação duvidosa que vinha investigando os crimes da Máfia. Mas nem todos estavam afinal mortos. Embora gravemente ferido, como que por milagre Frank sobrevivera e foi transportado para o hospital.

Frank Castle (Earth-81223) | Marvel Database | Fandom
Poderá um homem realmente sobreviver á morte dos seus entes queridos?
Quando recobrou a consciência, Frank identificou os carrascos da sua família e foi informado do seu vínculo ao Clã Costa. Com recurso a subornos e álibis forjados, os mafiosos conseguiram, contudo, sabotar a investigação policial e saíram impunes do tribunal.
Inconformado com a inépcia do sistema judicial, Frank decidiu fazer justiça pelas próprias mãos. Um a um, os responsáveis pela morte da sua família foram sumariamente executados. Com Frank a demonstrar a mesma ausência de compaixão que eles tinham mostrado para com os seus filhos.
Sem que a sociedade o soubesse, Frank Castle morrera no Central Park juntamente com as pessoas que mais amava no mundo. No seu lugar nasceu o Justiceiro, um soldado urbano numa guerra pessoal contra o crime. Uma guerra sem fim e impossível de ser vencida, mas que ele está disposto a travar até à última bala (ou até ao último suspiro; o que acontecer primeiro).
Traficantes, violadores, assassinos, pedófilos; todos os que os zombam da Lei estão marcados para morrer. Porque o Justiceiro não faz prisioneiros!

O Justiceiro é sinónimo de pena capital.

A marca da caveira

A adornar os paramentos do Justiceiro desde a sua aparição inicial, com o rolar dos anos a caveira branca estilizada passou a ser sinónimo de terror no submundo do crime e elemento reconhecível do imaginário coletivo. Poucos conhecerão, porém, a origem desse símbolo de justiça extrema.
Contrariamente ao que se possa imaginar, Frank Castle começou a usar a caveira muito antes de empreender a sua cruzada pessoal contra todos aqueles que zombam da Lei. Na verdade, tudo começou do outro lado do mundo, numa guerra de tipo diferente.
Durante uma das suas comissões no Vietname, Frank moveu caça a um sniper inimigo cuja pontaria rivalizava com a sua, tendo, por isso, infligido dezenas de baixas entre os soldados americanos. Alcunhado de Macaco, o homem - a quem alguns atribuíam dons sobrenaturais -  trazia pendurado ao pescoço um pequeno medalhão com a forma de uma caveira.
Embrenhando-se sozinho nas profundezas da selva, Frank acabou capturado pelos vietcongs. Quando logrou escapar do cativeiro, decidiu deixar uma mensagem para o Macaco, sob a forma de uma rudimentar caveira branca pintada no peito de um dos guardas do campo e no seu próprio. Como tantos outros depois dele, essa espécie de pintura de guerra seria a última imagem que o Macaco veria em vida.

Macaco tinha uma caveira como talismã.
Numa versão alternativa da história apresentada em Punisher Max (um dos títulos da linha adulta lançada pela Marvel no início deste século), Frank Castle adotou a caveira como símbolo depois de esta lhe ter surgido num sonho. Independentemente da sua origem, a caveira é elemento essencial da iconografia do Justiceiro servindo o duplo propósito de intimidar os criminosos e de atrair os seus disparos, evitando dessa forma que eles mirem na sua cabeça.
De alguns anos a esta parte, a caveira do Justiceiro, pese embora com algumas cambiantes, tem vindo a ser adotada como emblema de forças militares e policiais estadunidenses, mas também de algumas milícias de extrema-direita conotadas com agendas antigovernamentais. A primeira vez que isso se verificou foi durante a Guerra do Iraque (2003-2011). Em sinal de admiração pela bravura e eficácia de Frank Castle enquanto membro das Forças Especiais, um regimento de Navy Seals incorporou-a no seu equipamento aquando da Segunda Batalha de Fallujah, nos anos terminais de 2004.
Em terras do Tio Sam, a icónica insígnia do Justiceiro popularizou-se no seio do Blue Lives Matter (Vidas Azuis Importam), um contra-movimento cívico surgido no ano de 2014, em resposta aos protestos do famigerado Black Lives Matter (Vidas Negras Importam). Constituído essencialmente por polícias e respetivas famílias, o Blue Lives Matter defende que os assassínios de agentes da Lei sejam tipificados como crimes de ódio.


HUGE BLUE LIVES MATTER POLICE DECAL PUNISHER SKULL PROTECT AND ...
A controversa caveira do movimento Blue Lives Matter.
Essas e outras apropriações indevidas motivaram condenações públicas por parte de Gerry Conway (cocriador do Justiceiro) e processos judiciais interpostos pela Marvel contra os prevaricadores.
Conway viria mesmo a terreiro expressar o seu repúdio pela associação da iconografia do Justiceiro às forças da Lei, sublinhando que a sua personagem representa, per si, uma crítica às falhas do sistema judicial. Ao adotarem o seu símbolo, os agentes da Lei estão, no fundo, a tomar partido dos que contestam a autoridade que corporizam. Carregando nas tintas, Conway comparou esse ato ao hasteamento de uma bandeira confederada no Capitólio. Não havendo, porém, registo de idêntica tomada de posição por parte do escritor relativamente ao elevado número de mortes de agentes policiais americanos às mãos de delinquentes de todas as cores.
Na ficção ou no mundo real, o significado e alcance das ações extremas do Justiceiro - estribadas na convicção que o sistema de impunidade é também promotor dos crimes - dividem opiniões, não deixando ninguém indiferente.

Miscelânea 

*Durante muito tempo retratado como um veterano da Guerra do Vietname (1955-1975), as incongruências cronológicas decorrentes desse elemento definidor da história do Justiceiro (a ter participado no conflito, Frank seria hoje um septuagenário) impuseram sucessivas atualizações da sua origem. Assim, das selvas do sudeste asiático ele foi transplantado para os campos de batalha da Guerra do Golfo (1990-91) antes de ser mostrado a travar a Guerra ao Terror (em curso desde o 11 de Setembro de 2001). Com o mais recente retcon a revisitar a sua participação na Guerra de Siancong, conflito fictício vagamente inspirado na Guerra do Vietname;
*Frank teve em tempos um cão de guarda chamado Max. O animal fora regatado a caçadores furtivos que o usavam nas suas atividades clandestinas. Quando Max foi baleado por um dos lugares-tenentes do Rei do Crime, Frank usou uma faca para pôr fim à agonia do seu fiel amigo de quatro patas. Outros animais de estimação do Justiceiro incluíram um Rottweiller - batizado de Max em homenagem ao seu malogrado antecessor - e um coiote que era a mascote de um gangue;
*Em algumas das suas primeiras história, a filha de Frank Castle era referenciada  pelo seu nome do meio (Barbara ou Barb);
*Durante a temporada que passou atrás das grades, o número de prisioneiro de Frank - 616 - era uma referência à antiga designação numérica do Universo Primordial Marvel, a Terra-616;

Random Rockin' Blog: January 2019
Frank Castle, prisioneiro nº616.
*À semelhança de tantas outras personagens dos comics, o Justiceiro já teve direito a umas quantas viagens ao Além, todas elas com bilhete de ida e volta. Numa delas, após ser induzido por demónios a suicidar-se, Frank foi escolhido pelo Céu para ser o seu Anjo Vingador. Durante essa fase (execrada pela generalidade dos fãs), o Justiceiro detinha o poder de retirar qualquer tipo de arma do interior da gabardina que lhe fora ofertada por um armeiro celestial;
*Por não sentir qualquer vestígio de remorsos pelo que faz, o Justiceiro é imune ao Olhar de Penitência do Motoqueiro Fantasma;
*Já por duas vezes os caminhos do Justiceiro e do Batman se cruzaram. Na primeira, encontrou em Jean-Paul Valley uma alma gémea; na segunda, foi impedido pelo verdadeiro Cavaleiro das Trevas de executar o Joker a sangue-frio;
*No Universo Amálgama, o Justiceiro era a persona vindicativa de Trevor Castle - mescla de Frank Castle com Steve Trevor (DC) - e a sua origem era em tudo idêntica à história clássica;
*Foi sob a égide da Abril brasileira que, em novembro de 1991, o Justiceiro teve o seu primeiro título solo em língua portuguesa. De periodicidade mensal, foram publicados 8 números, a preto e branco e em formato magazine;
*Na sua estreia em terras lusitanas, em Aventuras do Homem-Aranha nº10 (Agência Portuguesa de Revistas, julho de 1979), o Justiceiro - numa tradução literal do seu nome original - atendia por Castigador;

Os dois crossovers do Justiceiro com o Batman datam de 1994.
*A prestigiada revista de cinema Empire atribuiu ao Justiceiro o 19º lugar na sua lista de melhores personagens de banda desenhada de todos os tempos. Já no Top 200 da Wizard a criação de Gerry Conway e John Romita Sr. surge na 39ª posição;
*Em 1989, o sueco Dolph Lundgren foi o primeiro ator a vestir a pele do Justiceiro em The Punisher. Insolitamente traduzido em Portugal como Fúria Silenciosa, o filme assinalou a transição da personagem para o segmento audiovisual. No entanto, o Justiceiro só chegaria ao grande ecrã em 2004 (o primeiro filme foi lançado diretamente em vídeo), ano em que foi produzido um reboot homónimo com Thomas Jane no papel principal. Em 2008, Ray Stevenson rendeu Jane em Punisher: War Zone, conceito a meio caminho entre sequela e novo reboot. Apesar de ter perdido o papel, em 2012 Jane protagonizaria Punisher: Dirty Laundry, curta-metragem exibida pela primeira vez na edição desse ano da Comic Con de San Diego, e que deu a conhecer o novo logotipo do Justiceiro assinado por Tim Bradstreet;
*Apesar das suas ações violentas e da sua natureza sombria, o Justiceiro fez várias aparições em séries animadas da Marvel, nas quais a sua ferocidade tem sido invariavelmente amenizada para se adequar ao público-alvo desses projetos. Preocupação ausente em The Punisher, a primeira série em ação real do Justiceiro, com Jon Bernthal a dar corpo àquela que é, provavelmente, a versão mais sanguinária da personagem fora dos quadradinhos.

Os senhores da caveira.


*Este blogue tem como Guia de Estilo o Acordo Ortográfico de 1990 aplicado à variante europeia da Língua Portuguesa;
*Artigos sobre Gerry Conway e os filmes Justiceiro e Justiceiro: Zona de Guerra disponíveis para leitura complementar.








05 junho 2020

RETROSPETIVA: "HOMEM-ARANHA"


   Enredado nas teias do Destino, um jovem inadaptado aprende uma dolorosa lição de vida: com grandes poderes vêm grandes responsabilidades e perigosas inimizades. Conseguirá ele ser o herói que uma Nova Iorque ferida no seu orgulho tanto precisa?

Título original: Spider-Man
Ano: 2002
País: Estados Unidos da América
Duração: 121 minutos
Género: Ação / Fantasia / Super-heróis
Produção: Columbia Pictures, Marvel Enterprises e Laura Ziskin Productions
Realização: Sam Raimi
Argumento: David Koepp
Distribuição: Sony Pictures Releasing
Elenco: Tobey Maguire (Peter Parker / Homem-Aranha); Willem Dafoe (Norman Osborn / Duende Verde); Kirsten Dunst (Mary Jane Watson);  James Franco (Harry Osborn); Cliff Robertson (Ben Parker), Rosemary Harris (May Parker); J.K. Simmons (J. Jonah Jameson) e Joe Manganiello (Flash Thompson)
Orçamento: 139 milhões de dólares
Receitas globais: 825 milhões de dólares

Anatomia de um clássico

Na ressaca do fracasso comercial de Super-Homem III (1983), os filmes de super-heróis tornaram-se apostas de altíssimo risco que os grandes estúdios de Hollywood não se podiam dar ao luxo de fazer. Ainda assim, em 1985, a Cannon Films adquiriu à Marvel Comics os direitos de adaptação daquele que era, à época, o maior ativo da empresa capitaneada por Stan Lee: o Homem-Aranha. Além dos 225 mil dólares pagos à cabeça, o negócio previa ainda uma percentagem sobre as receitas de bilheteira. Ficando, no entanto, salvaguardado que, caso o filme não fosse lançado num prazo de cinco anos, os direitos reverteriam novamente para a Casa das Ideias.
Tobe Hooper, que à data finalizava Massacre no Texas 2, foi o primeiro realizador cooptado para o projeto. Menahem Golan e Yoram Globus, proprietários da Cannon e futuros produtores de Super-Homem IV: Em Busca da Paz (1987), interpretaram erradamente o conceito do Homem-Aranha, tomando-o por uma espécie de versão delirante do Lobisomem. Refletindo esse equívoco, Leslie Stevens, criador da série de ficção científica No Limiar da Realidade, escreveu um argumento no qual Peter Parker, um jovem fotógrafo freelance, servia de cobaia a um experimento científico envolvendo radiação. A metamorfose daí resultante transformaria Peter numa espécie de tarântula humana com oito braços, corpo coberto por uma espessa pelagem e fortes inclinações suicidas.
Naturalmente desagradado com esta abordagem, Stan Lee exigiu que fosse escrito um novo argumento mais fiel ao conceito original. Com assinatura de Ted Newsom e John Brancato, a nova versão do enredo tinha o Doutor Octopus como antagonista, embora o apresentasse como mentor de Peter Parker, um promissor estudante de ciências. Joseph Zito, que dirigira o bem sucedido Invasão EUA (1985), sucedeu a Tobe Hooper na cadeira de realizador.
Nova revisão do argumento solicitada por Zito resultou na inclusão de um inédito sidekick para o Doutor Octopus. Entretanto, a Cannon alocara 20 milhões de dólares para o projeto - orçamento digno de uma super-produção à luz dos padrões da época.

When did Doc Ock start wearing his green and orange outfit? | Fandom
Doutor Octopus foi o primeiro vilão escolhido
 para o filme do Escalador de Paredes.
Apesar de nenhum casting ter sido concluído, Zito sugeriu Scott Leva para o papel principal. Com uma carreira construída, essencialmente, como duplo (conquanto possuísse alguma experiência de representação), Leva posara em tempos como Homem-Aranha para fotos promocionais da Marvel. Outro nome equacionado para cabeça de cartaz foi o de Tom Cruise, ao mesmo tempo que o próprio Stan Lee sinalizou o seu interesse em interpretar J. Jonah Jameson. 
A braços com grandes dificuldades de tesouraria após os dispendiosos Super-Homem IV e Mestres do Universo, a Cannon cortou para metade o orçamento inicialmente previsto para o projeto, levando Zito a bater com a porta. Logo seguido por Menahem Golan que, após dissolver a sociedade com o primo, assumiu os destinos da 21st Century Film Corporation., levando consigo os direitos de adaptação do Escalador de Paredes.
Tendo ainda como ponto de partida o argumento com o Doutor Octopus, Golan contactou a empresa canadiana de efeitos especiais Light and Motion Corporation. Depois de, numa prática consagrada na indústria cinematográfica, ter vendido à Viacom os direitos televisivos do filme não produzido.
Em meados de 1994, logo após o lançamento de A Verdade da Mentira, o realizador James Cameron, autor de clássicos como Aliens e Exterminador Implacável,  submeteu um novo argumento da sua autoria à apreciação dos produtores. Além da origem clássica do Homem-Aranha, esta nova versão da história tinha Homem-Areia e Electro como vilões, culminando com uma batalha épica no cimo do World Trade Center. Com muitas licenças poéticas relativamente ao cânone, o argumento de Cameron incluía ainda uma controversa cena de sexo de Peter Parker (retratado como um adolescente libidinoso) e Mary Jane na Ponte do Brooklyn.

The Movie That Almost Was: James Cameron's Spider-Man!
James Cameron queria Leonardo DiCaprio como Homem-Aranha.
Para frustração de boa parte dos fãs, Cameron acabaria no entanto por se desvincular do projeto para dirigir o oscarizado Titanic. E, como um mal nunca vem só, a MGM, a nova dona da 21st Century, processou a Marvel Comics por alegada fraude no negócio com a Cannon. No corolário de uma longa e penosa disputa judicial, os tribunais determinaram que o contrato originalmente celebrado com Golan expirara, pelo que os direitos do Homem-Aranha reverteram para a Marvel, que, por esses dias, lutava desesperadamente pela sua sobrevivência financeira.
Em 1999, a Marvel licenciou os direitos do Homem-Aranha à Columbia, uma subsidiária da Sony Pictures Entertainment. Ao cabo de mais de uma década de tentativas frustradas, o filme do Homem-Aranha recebeu finalmente luz verde para ser produzido.
Da mudança de estúdio decorreu nova mudança de direção. David Fincher (Clube de Combate) encabeçava a lista de potenciais realizadores, mas seria descartado devido à sua recusa em filmar a origem do Homem-Aranha.
Sam Raimi foi o senhor que se seguiu, em janeiro de 2000. A sua confessa paixão por super-heróis e pelo Escalador de Paredes, em particular, foi determinante para sua escolha.
Chamado a reescrever o argumento de James Cameron, David Koepp despromoveu o Doutor Octopus a vilão secundário, em favor do Duende Verde. Raimi considerou no entanto que as duas personagens se ofuscariam mutuamente, e ordenou a supressão do primeiro. Em contrapartida, manteve um dos elementos mais controversos do argumento de Cameron: as teias orgânicas. Recorde-se que, na banda desenhada, Peter Parker inventou o fluido de teias sintéticas para municiar os seus lançadores manuais. Raimi considerava esse conceito implausível para um jovem estudante do secundário.

Marvel News على تويتر: "🚨BOMBA! Sam Raimi (Trilogia Spider-Man ...
Sam Raimi trocando impressões com Tobey Maguire e Kirsten Dunst
 durante a rodagem do filme que o consagraria.
Com o elenco definido, após muitas especulações sobretudo em volta do papel principal, as filmagens de Homem-Aranha arrancaram oficialmente a 8 de janeiro de 2001,com Nova Iorque e Los Angeles como panos de fundo. 
A produção ficou marcada por alguns incidentes. Um ex-segurança da Sony furtou vários uniformes do Homem-Aranha, cada um avaliado em 50 mil dólares.  Seguindo uma pista fornecida pela ex-mulher do larápio, as autoridades encontraram ainda na sua morada um Bat-traje propriedade da Warner Bros, misteriosamente desaparecido durante a rodagem de Batman & Robin (1997). Mais trágico foi o episódio que envolveu um dos operários que participava na construção dos sets. Quando uma empilhadora convertida em grua improvisada tombou, o homem morreu esmagado. 
A 29 de abril de 2002, o Mann Village Theater, um dos mais mais antigos e emblemáticos cinemas de Los Angeles, engalanou-se para receber a antestreia de Homem-Aranha. Quatro dias mais tarde, a 3 de maio, teve lugar a estreia nacional de um filme que entrou para os anais da 7ª Arte ao ser o primeiro a arrecadar 100 milhões de dólares no primeiro fim de semana em exibição. Com receitas globais que ultrapassaram os 820 milhões de dólares, tornou-se a adaptação de super-heróis mais rentável até àquele momento.

Enredo


Durante uma visita de estudo, Peter Parker e a sua turma do liceu visitam um laboratório de bioengenharia onde se encontra patente uma exposição de aranhas. Nem Harry Osborn, o seu melhor amigo, nem Mary Jane Watson, a sua paixoneta secreta, se apercebem da picada desferida na mão de Peter por uma aranha geneticamente modificada.
De regresso a casa dos tios, com quem mora desde a morte dos pais, Peter sente-se febril e cai num sono pesado povoado por sonhos bizarros.
Enquanto isso, Norman Osborn, pai de Harry e presidente executivo da Oscorp, tenta garantir um contrato militar de vital importância para a sua empresa. Após uma demonstração fracassada, Norman, ignorando os avisos do seu assistente, testa em si mesmo um soro experimental. A fórmula incrementa-lhe as capacidades físicas mas, como efeito colateral, deixa Norman mentalmente instável.
Na manhã seguinte, um atónito Peter descobre que a sua miopia foi, literalmente, curada da noite para o dia. Também o seu corpo, habitualmente franzino, desenvolveu massa muscular, conferindo-lhe um porte atlético.

News: Young Spider-Man Fans Let Black Widow Bite Them in Hopes of ...
A picada de uma aranha mudará para sempre a vida de Peter Parker.
Na escola, Peter faz outra descoberta surpreendente: o seu organismo é agora capaz de produzir teias altamente resistentes. Ao tentar livrar-se delas, atinge acidentalmente com um tabuleiro de comida Flash Thompson, o valentão que há anos o arrelia.Peter evita no entanto ser espancado por Flash, graças a uma espécie de sexto sentido que o alerta para o perigo. A sua força e agilidade sobre-humanas deixam rapidamente o brutamontes fora de combate, perante o olhar incrédulo de Mary Jane.
Fazendo tábua rasa do conselho do seu tio Ben ("Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades."), Peter inscreve-se num torneio de luta-livre. O plano consiste em usar os seus novos poderes para ganhar o dinheiro de que precisa para comprar um carro, com o qual tenciona impressionar Mary Jane. Apesar de se apresentar disfarçado de Aranha Humana, o locutor anuncia-o como Homem-Aranha.
Peter sai vitorioso do combate mas é enganado pelo promotor do mesmo, recebendo uma quantia muito inferior àquela que lhe havia sido prometida. Consequentemente, quando um ladrão armado irrompe pelo escritório do promotor, Peter nada faz para impedir a sua fuga.
Mais tarde, porém, Peter encontra o seu tio moribundo na rua, depois de ter resistido a uma tentativa de carjacking. Peter parte no encalço do assassino, apenas para descobrir que se trata do mesmo ladrão que deixara escapar minutos atrás. Encurralado num armazém abandonado, o criminoso cai por uma janela e morre.

Why does Uncle Ben die in the Spider-Man movies? | Don't Tell Harry
A morte do tio Ben ensina uma dolorosa lição a Peter.
Longe dali, Norman Osborn, envergando o protótipo de um exoesqueleto roubado à Oscorp, interrompe um ensaio de tecnologia militar desenvolvida pela Quest Aeroespacial. Do ataque resultam vários mortos e feridos.
Logo após a sua cerimónia de graduação, Peter começa a usar as suas habilidades aracnídeas para combater o crime e a injustiça. Criando, para esse efeito, a identidade de Homem-Aranha e uma fantasia alusiva.
À medida que as aparições do Homem-Aranha aumentam de frequência, J. Jonah Jameson, o irascível editor do jornal Daily Bugle, contrata Peter como fotógrafo freelance, uma vez que ele é o único a conseguir imagens nítidas do novo vigilante mascarado.
Ao tomar conhecimento dos planos do Conselho de Administração da Oscorp de forçá-lo a vender a sua empresa à Quest, Norman decide cortar o mal pela raiz. Novamente disfarçado de Duende Verde, assassina todos os membros do Conselho durante o Festival da Unidade Mundial.
Quando o Homem-Aranha intervém, o Duende Verde, impressionado com as habilidades do seu adversário, oferece-lhe um lugar a seu lado. Peter recusa e os dois envolvem-se numa violenta escaramuça, com o Escalador de Paredes a receber um profundo corte no antebraço antes de o Duende Verde desaparecer por entre uma revoada de risadas maníacas.

Spider-Man OST 25. Parade Attack - YouTube
A aranha não será presa fácil do duende.
No jantar de Ação de Graças em casa de May Parker, Norman deteta o ferimento no antebraço de Peter, deduzindo ser ele o Homem-Aranha. Nessa mesma noite, o Duende Verde ataca e aterroriza a tia May. Os ferimentos da idosa obrigam à sua hospitalização, deixando Peter transtornado e temendo pela segurança dos seus entes queridos.
No dia seguinte, Mary Jane confidencia a Peter a sua paixoneta pelo Homem-Aranha, que a salvou em numerosas ocasiões. Harry chega no exato instante em que o casal dá as mãos, presumindo que era a Peter que a namorada acabara de confessar os seus sentimentos.
Consumido pelo ciúme, Harry conta ao pai que Peter e Mary Jane estão enamorados, revelando inadvertidamente a maior fraqueza do Homem-Aranha.
Nessa noite, o Duende Verde sequestra Mary Jane e um teleférico apinhado de crianças. Enquanto segura ambos no alto de uma ponte, o vilão obriga o Homem-Aranha a escolher qual deles salvará.
No entanto, embora a muito custo, o Homem-Aranha consegue salvar Mary Jane e os passageiros do teleférico. Simultaneamente, o Duende Verde vê-se bombardeado por civis que, ao presenciarem a dramática cena, tomam o partido do herói.

Kirsten Dunst slams new Spider-Man films - and accuses film-makers ...
Mary Jane salva pelo seu herói.
Furioso, o Duende Verde arrasta o Homem-Aranha para um edifício devoluto, espancando-o brutalmente. Quando o vilão, prestes a levar a melhor, anuncia a sua intenção de matar Mary Jane, Peter recupera o alento e derrota-o.
O Duende Verde revela então a sua verdadeira face, e Peter nem quer acreditar que se trata do pai do seu melhor amigo. Ao mesmo tempo que implora por perdão, Norman aciona o controlo remoto do seu planador, para direcioná-lo contra Peter. Alertado pelo seu sentido de aranha, Peter desvia-se do ataque e Norman acaba empalado pelo próprio aparato.
Antes de exalar o seu último suspiro, Norman pede a Peter que não conte a Harry acerca do Duende Verde. Peter aquiesce e transporta o corpo inerte de Norman até à sua mansão. É no entanto surpreendido pela chegada de Harry que, perante aquele quadro, toma o Homem-Aranha como assassino do seu pai.
No funeral de Norman, Harry jura vingança contra o Homem-Aranha e diz a Peter que, agora que também ficou órfão, ele é a única família que lhe resta.
Mary Jane, por sua vez, declara o seu amor por Peter. Mas ele, sentindo-se na obrigação de protegê-la dos inimigos do seu alter ego, esconde os seus verdadeiros sentimentos, respondendo-lhe que apenas poderão ser amigos. Os dois trocam um beijo fugaz e, enquanto Peter se afasta, à memória de Mary Jane acode a lembrança da noite em que os seus lábios tocaram os do Homem-Aranha.
Enquanto abandona o cemitério, de semblante carregado e sob um céu carrancudo, Peter rememora as palavras do seu tio Ben sobre responsabilidade, e aceita a sua missão de vida como Homem-Aranha.

Trailer:



Prémios e nomeações


Nomeado para dois Óscares (Melhores Efeitos Especiais e Melhor Som), Homem-Aranha perderia a corrida em ambas as categorias para dois adversários de peso - respetivamente, O Senhor dos Anéis: As Duas Torres e o musical Chicago. Conquistou, no entanto, o People's Choice Award de Melhor Filme e, graças à partitura composta por Danny Elfman, o Saturn Award para Melhor Banda Sonora.
A título individual, Kirsten Dunst viu a sua interpretação (considerada demasiado apagada por alguns críticos) ser distinguida com o MTV Movie Award para Melhor Atriz.

Curiosidades


*Criação conjunta de Stan Lee e Steve Ditko, a estreia do Homem-Aranha ocorreu em agosto de 1962, nas páginas de Amazing Fantasy #15. Menos de um par de anos volvidos, em julho de 1964, os mesmos autores introduziriam o Duende Verde (Green Goblin, no original), em Amazing Spider-Man #14. Apesar de, desde então, ter reclamado para si o estatuto de némesis do Escalador de Paredes, o Duende Verde não foi o primeiro supervilão a participar nas histórias do herói aracnídeo. Essa honra coube ao Camaleão, outro antagonista clássico do Homem-Aranha que, conforme o nome sugere, possui a habilidade de mimetizar a fisionomia de outrem. O Duende Verde foi, contudo, o primeiro inimigo do Homem-Aranha a descobrir a identidade secreta do herói;

A primeira aparição do Duende Verde em Amazing Spider-Man #4 (1964).
*O filme apresentou o primeiro confronto entre o Homem-Aranha e o Duende Verde em ação real. Até então, os dois apenas haviam medido forças na banda desenhada e em séries de animação;
*Homem-Aranha marcou igualmente a estreia em ação real de vários dos coadjuvantes clássicos do Escalador de Paredes, designadamente Mary Jane Watson, Flash Thompson, Norman Osborn ou o próprio Tio Ben. Em 1977, The Amazing Spider-Man, série televisiva protagonizada por Nicholas Hammond (que faz um cameo no filme), preterira essas e outras personagens em favor de outras criadas propositadamente para o pequeno ecrã;
*Na versão canónica, Mary Jane é sobrinha de Anna Watson, vizinha e melhor amiga de May Parker. Apesar das visitas frequentes a casa da tia, MJ só travaria amizade com Peter Parker no campus da Universidade Empire State, onde ambos estudavam. Contudo, no reboot Ultimate Marvel MJ, à semelhança do que é mostrado no filme, é apresentada como a rapariga da porta ao lado por quem Peter nutre uma paixão platónica desde o início da puberdade;

Pin em amazing spiderman comic s mary jane
Peter e MJ trocam o primeiro beijo.
O início de uma bonita história de amor que acabaria em casamento.
*No filme, a fonte dos poderes de Peter Parker é uma aranha geneticamente modificada para combinar as melhores habilidades de várias espécies. Nos quadradinhos, a responsável pela metamorfose de Peter foi uma aranha radioativa. Se na vida real o animal morreria tão-logo fosse irradiado, a sobrevivência da sua prima geneticamente aprimorada seria altamente provável. Do mesmo modo, a transmissão das suas habilidades a um ser humano por via de um picada seria teoricamente possível;
*Contrariamente a Tobey Maguire - que admitiu nunca ter lido uma história do Homem-Aranha na vida - Sam Raimi é um ávido colecionador de comics, estimando-se que possua mais de 25 mil itens dessa natureza no seu acervo pessoal. Foi esse o motivo que tornou a sua escolha para dirigir o filme tão popular entre os fãs do Escalador de Paredes;
*26 milhões de dólares foi o cachê recebido por Tobey Maguire (escolha pessoal de Sam Raimi) ao assinar o contrato que previa a sua participação numa hipotética sequela;
*Antes de, por sugestão da esposa de Sam Raimi, lhe ser atribuído o papel de Harry Osborn, James Franco chegou a fazer testes para Homem-Aranha. Despeitado, Franco troçaria depois da prestação de Tobey Maguire, comparando-o com um "homem-rã". Maguire acusou o toque e a tensão entre os dois atores - que contracenaram em toda a trilogia - foi uma constante no decurso das filmagens. Em entrevistas concedidas a posteriori, Maguire reconheceu que a rivalidade entre ambos ainda subsiste;
*A primeira cena gravada foi aquela que mostra Peter a regressar febril a casa após a visita de estudo durante a qual foi picado por uma "super-aranha";
*O figurino inicialmente concebido para o Duende Verde era mais parecido com o da banda desenhada. Além de orelhas e dentes pontiagudos, a máscara teria embutidas lentes de contacto amarelas. Por ter sido considerado demasiado sinistro para um filme que se queria para toda a família, o visual foi descartado pela produção. Os testes de ecrã realizados com ele podem, porém, ser encontrados no YouTube;

Green Goblin Costume From Spider Man 1
O visual original do Duende Verde (esq.) foi considerado demasiado assustador
 para um filme que se queira para toda a família.
*Depois de Willem Dafoe ter dispensado duplos para as cenas mais arriscadas, o traje do Duende Verde entretanto aprovado foi sujeito a diversas modificações. O objetivo era torná-lo mais ágil e elegante do que o robusto modelo original. Compostos por 5800 peças, os novos paramentos demoravam uma hora a ser vestidos por Dafoe;
*Em vez das tradicionais teias negras da BD, o figurino cinematográfico do Homem-Aranha foi debruado com teias prateadas, de modo a criar profundidade. Sem elas, a equipa de efeitos visuais não conseguia imprimir realismo às cenas em que o herói usavas as suas teias para se balançar pela cidade;
*Além de desconfortável, o modelo original do uniforme do Homem-Aranha - confecionado como uma peça única, - obrigava Tobey Maguire a despir-se por completo de cada vez que tinha de satisfazer alguma necessidade fisiológica. A solução encontrada consistiu em criar uma discreta abertura nas calças que permitia ao ator aliviar-se sem ter de ficar em pelota;
*A principal dificuldade sentida por Tobey Maguire durante a gravação da icónica cena do beijo de cabeça para baixo trocado com Mary Jane sob chuva intensa foi ter as fossas nasais constantemente inundadas de água;

Pegadinha imita beijo do Homem-Aranha
Um dos beijos mais icónicos e difíceis de executar na história do cinema.
*A sequência em que o Homem-Aranha se esquiva das lâminas voadoras do Duende Verde num prédio em chamas foi filmada com recurso à mesma técnica fotográfica de Matrix (1999);
*Na primeira versão do seu tradicional cameo, Stan Lee surgia como um vendedor ambulante que procurava convencer Peter a comprar um par de óculos iguais aos que Ciclope usara em X-Men. Também Bruce Campbell (Evil Dead), Lucy Lawless (Xena, a Princesa Guerreira), dois velhos amigos de Sam Raimi, e Ted Raimi (irmão do realizador) tiveram direito a pequenas participações no filme;
*O clímax do filme é baseado em A Morte de Gwen Stacy, originalmente publicada em The Amazing Spider-Man #121 (junho de 1973). Nessa história clássica do Homem-Aranha com assinatura de Gerry Conway e Gil Kane, o Duende Verde rapta Gwen Stacy, o primeiro grande amor de Peter Parker, deixando-a suspensa no cimo de uma ponte. Ao tentar salvá-la de uma queda fatal, o herói acaba acidentalmente por matá-la. No filme, Mary Jane faz as vezes da sua malograda antecessora, com a diferença de que sobrevive para participar nas sequelas. Já a morte do Duende Verde, empalado pelo próprio planador, é extremamente fiel à história original;
*Durante a cena do funeral de Norman Osborn, é possível ver um túmulo adjacente com o apelido "Stacy" inscrito na lápide. Trata-se de uma possível alusão à morte do Capitão George Stacy, pai de Gwen e que, na BD, perdeu a vida durante um recontro entre o Homem-Aranha e o Doutor Octopus. Embora ausente do filme, Gwen Stacy marcaria presença em Homem-Aranha 3 (2007);
*O primeiro teaser trailer do filme mostrava um grupo de assaltantes a fugirem de helicóptero depois de terem roubado um banco. O voo da aeronave era então subitamente travado por uma gigantesca teia de aranha, que a deixava presa no espaço entre as duas torres do World Trade Center. Os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 ditaram, porém, a retirada do trailer original e a subsequente produção de um novo. Idêntico destino tiveram os primeiros cartazes promocionais do filme, que mostravam o reflexo das Torras Gémeas nas lentes polarizadas da máscara do Homem-Aranha. A maior parte deles não foi, todavia, recuperada, tratando-se de artigos muito cobiçados por colecionadores;
*Da banda sonora oficial do filme faz parte um cover dos Aerosmith do tema musical que acompanhava o genérico de abertura de Spider-Man, série animada cujas três temporadas foram originalmente emitidas pelo canal ABC, entre 1967 e 1970;
*Escrita pelo próprio Stan Lee e ilustrada pelo britânico Alan Davis, a adaptação oficial de Homem-Aranha aos quadradinhos foi lançada pela Marvel Comics em junho de 2002 com duas capas variantes: uma com assinatura de John Romita Jr., outra com uma imagem do filme. Esta última serviria de frontispício à versão colocada à venda na cadeia de supermercados Wallmart, bem como à edição portuguesa publicada pela Devir nesse mesmo ano.

Spider-Man The Official Movie Adaptation
Adicionar legenda
Amazon.com: SPIDER-MAN OFFICIAL MOVIE ADAPTATION #1-WAL-MART ...
As duas capas variantes da adaptação oficial do filme.

Veredito: 81%

A espera foi longa mas valeu a pena. No dealbar do novo milénio, o Homem-Aranha, o mais famoso dos inquilinos da Casa das Ideias, recebeu, por fim, uma valorosa adaptação cinematográfica que, a um só tempo, pulverizou recordes de bilheteira e elevou a fasquia de qualidade dos filmes de super-heróis ao extremo. Obrigando, dessa forma, produções análogas a avultados investimentos em efeitos especiais inovadores e elencos estelares.
Paradoxalmente, a razão do sucesso de Homem-Aranha reside no seu registo popular isento de floreados narrativos ou pretensiosismos metafísicos. O seu mérito principal consiste, portanto, em agradar quer aos fãs (a maioria, pelo menos) quer ao público casual que apenas conhece de raspão a mitologia do Escalador de Paredes.
O filme apresenta uma história simples e divertida mas que encerra uma importante lição de vida sobre a necessidade de assumirmos novas responsabilidades e aceitarmos as consequências das nossas decisões. Claro que essa mensagem é repassada de forma superficial, sendo facto consabido que complexidade existencial e super-produções hollywoodescas raramente casam bem.
Sem embargo para a sua espetacularidade e eficácia, as cenas de ação, tradicionalmente complicadas de gerir, ocupam uma pequena parte do filme; apenas o suficiente para entreter a audiência. No cômputo geral estão bem construídas, sendo completadas com efeitos especiais convincentes. Ficando, contudo, patente que a preocupação primordial do argumento assenta na evolução psicológica das personagens (com óbvio enfoque no protagonista) em detrimento de recitais de pancadaria e explosões.  Sam Raimi dá mostras do seu talento de cineasta ao evitar o exagero visual que perpassa por outras produções do género.
Outro ponto de interesse do filme é a banda sonora assinada pelo veterano Danny Elfman. Mesmo sem criar nenhum tema icónico, Elfman logrou compor belas melodias que enquadram na perfeição a história que se desenrola aos olhos dos espectadores.
De entre os elementos de destaque, o elenco, apesar de transpirar talento, é aquele que convence sem deslumbrar. Por contraponto à fraca atuação de Kirsten Dunst - que desempenha um papel frágil e pouco apelativo - a interpretação de Willem Dafoe é digna de vénia. Apesar de continuar a ser o meu intérprete favorito do herói aracnídeo, Tobey Maguire poderia - e deveria - ter incutido um pouco mais de carisma à sua personagem. Qualquer verdadeiro fã do Cabeça de Teia sentiu falta das suas piadinhas infames, que nos arrancam gargalhadas e deixam os criminosos à beira de um ataque de nervos.
Em suma, Homem-Aranha é uma película bastante divertida e de fácil entendimento que, graças a múltiplos elementos técnicos e narrativos de qualidade, garantiu lugar de destaque no imaginário coletivo e, em particular, na memória afetiva dos fãs que há muito ansiavam por ver o seu ídolo a balançar-se de teia em teia no grande ecrã.





.*Este blogue tem como Guia de Estilo o Acordo Ortográfico de 1990 aplicado à variante europeia da Língua Portuguesa;
**Artigos sobre Steve Ditko e A Morte de Gwen Stacy disponíveis para leitura complementar.





09 maio 2020

CLÁSSICOS DA 9ª ARTE: «BATMAN: ANO UM»


  Durante demasiado tempo, os intocáveis banquetearam-se com a riqueza e o espírito da sua cidade. Chegou, porém, a hora de o príncipe de Gotham interromper o festim de ganância e impunidade. Faminto de justiça, ele travará a coberto da noite uma guerra que não poderá vencer sozinho, mas que fará dele uma lenda.

Título original: Batman: Year One
Editora: Detective Comics (DC)
País: Estados Unidos da América
Autores: Frank Miller (argumento) e David Mazzucchelli (arte) 
Publicado em: Batman Vol.1 # 404-407 (fevereiro a maio de 1987)
Personagens: Bruce Wayne / Batman; James Gordon; Selina Kyle / Mulher-Gato; Arnold Flass; Gillian Loeb; Alfred Pennyworth; Carmine Falcone; Sarah Essen; Holly Robinson; Harvey Dent; Barbara Eileen Gordon
Cenários: Várias localizações de Gotham City, incluindo a sede do Departamento de Polícia, a Mansão Wayne e a Batcaverna. 

Edições em Português

Ao longo das últimas três décadas, Batman: Ano Um foi contemplado, em cada uma das margens do Atlântico, com uma miríade de edições e reedições na língua de Camões.
Seguindo o modelo de publicação original, no Brasil Ano Um foi inicialmente apresentado aos leitores nos quatro primeiros números da segunda série de Batman, dados à estampa pela Abril entre setembro e dezembro de 1987. Esta primeira versão em Português tropical - distribuída no ano seguinte em terras lusitanas - teve a particularidade de ser a única a ser lançada no chamado formatinho económico.
Ainda sob os auspícios da mesma editora - e inserida nas comemorações do 50º aniversário do Homem-Morcego - em 1989 foi lançada a primeira de várias compilações em formato americano, algumas das quais com capa dura.

Primeira compilação de Ano Um  (Abril Jovem, 1989).
Desde que, em 2002, obteve os direitos do Universo DC em terras de Vera Cruz, também a Panini vem lançado sucessivas reimpressões de Ano Um, a mais recente das quais remonta a dezembro de 2016.
Já a primeira versão lusa da saga teve a chancela da Devir e chegou às bancas nacionais em finais de 2001. Mercê do sucesso comercial da iniciativa (7 mil exemplares vendidos), em 2005 seria lançado um segundo volume encadernado da obra, cuja única diferença relativamente ao anterior era a inclusão de um livro de esboços (sketchbook) de David Mazzucchelli.
Em 2015, seria a vez de a Levoir selecionar Ano Um para inaugurar a sua coleção evocativa dos 75 anos do Batman, originalmente distribuída com o semanário Sol.
Agora com o mote da chancela norte-americana Black Label, em novembro do ano passado a Levoir brindou os leitores portugueses com nova republicação desta história clássica do Cavaleiro das Trevas.

Bertrand.pt - Batman: Ano Um
Ano Um abriu a coleção da Levoir evocativa dos 75 anos do Batman.

Morcego renascido

Foi em maio de 1939 - há precisamente 81 anos, portanto - que Batman debutou em Detective Comics #27. Numa historieta intitulada The Case of the Chemical Syndicate, o Homem-Morcego começava a construir a sua reputação de melhor detetive do mundo ao deslindar o mistério por detrás do homícidio de um industrial de Gotham City.
Criado por Bob Kane e Bill Finger a reboque do sucesso do Super-Homem no ano anterior, a Batman serviram de inspiração diversas personagens clássicas saídas da literatura pulp. O Sombra e o Zorro foram duas delas, conquanto sejam igualmente notórias as influências do Fantasma, de Lee Falk. A sua origem só seria, no entanto, revelada vários meses depois.
Em novembro de 1939, Detective Comics #33 incluía uma história escrita por Bill Finger que levantava, por fim, o véu que até aí cobrira o traumático passado do circunspecto defensor de Gotham City. Foi, pois, através dela que os leitores ficaram a par da tragédia pessoal de Bruce Wayne, um órfão milionário que, ainda criança, vira os seus pais serem assassinados a sangue-frio durante um assalto de rua.
De coração enlutado, o pequeno Bruce jurou vingar a morte dos seus pais, devotando a sua vida a combater o crime e a injustiça. Para esse efeito, ele criou um disfarce inspirado no morcego que, certa noite, invadira a Mansão Wayne. Sendo esse, de resto, um dos vários elementos referenciados por Frank Miller na sua releitura  da origem clássica do Batman, em Ano Um.

A origem de Batman foi revelada em Detective Comics #33 (1939).
Com o rolar das décadas, a cronologia da DC foi-se tornando, porém, cada vez mais convulsa e contraditória. Devido à sua natureza de simples vigilante urbano, Batman foi menos afetado pela bagunça instalada do que, por exemplo, Super-Homem ou Mulher-Maravilha. Mas nem por isso deixou de ter a sua origem sucessivamente retocada.
Em 1948, Bill Finger atribuiu, pela primeira vez, um nome ao assassino de Thomas e Martha Wayne. Até então um meliante anónimo, o homem que mudou as agulhas do destino de Bruce Wayne passou a ser identificado como Joe Chill.
Menos de uma década após esta primeira alteração, em 1956,  Finger acrescentou outro dado novo. A morte dos Waynes não resultara, afinal, de um crime aleatório, mas de uma execução sumária encomendada pela Máfia. Ao mesmo tempo que era sugerido que, para criar o seu alter ego noturno, Bruce se inspirara não num morcego, mas numa fantasia usada pelo pai num baile de máscaras.
Histórias subsequentes relatariam ainda as muitas viagens de Bruce à volta do mundo, com o propósito de desenvolver os talentos necessários para empreender a sua cruzada contra o crime.
Num esforço para corrigir erros de continuidade como estes, em 1985 - ano em que comemorava as suas bodas de ouro - a DC resolveu iniciar uma nova cronologia. Graças a Crise nas Infinitas Terras, a mãe de todas as sagas, os leitores puderam presenciar o alvorecer de uma nova era.
Coincidentemente, foi durante a produção de Crise nas Infinitas Terras que Frank Miller, uma das estrelas em ascensão na Marvel, assumiu as histórias do Demolidor. Miller começara por desenhar a série mensal do Homem Sem Medo mas o editor Dennis O'Neil desafiara-o a trocar o lápis pela máquina de escrever.

Comic Con Experience 2015 terá presença de Frank Miller
Da pena de Frank Miller saíram sagas memoráveis.
Provando o seu valor como obreiro de perspetivas revigorantes, poucas semanas depois Miller presenteava os leitores com um clássico instantâneo: A Queda de Murdock. Obra que deu um novo elã ao Demolidor e que foi  produzida a meias com David Mazzucchelli, cuja arte mereceu quase tantos elogios como a trama de Miller.
Foi com o currículo abrilhantado por essa obra-prima da 9ª Arte que, em 1986, Miller trocou a Marvel pela DC. Na Editora das Lendas assinou, nesse mesmo ano, aquele que muitos consideram ser o seu magnum opus: O Regresso do Cavaleiro das Trevas.
O contrato celebrado entre Miller e a DC previa igualmente que o escritor produzisse uma nova origem do Batman. Contrariamente ao que sucedera com O Regresso do Cavaleiro das Trevas, desta feita Miller preferiu não transformar a empreitada num projeto unipessoal. Por sua sugestão, a DC recrutou ninguém menos do que David Mazzucchelli para desenhar a história, reunindo assim a dupla-maravilha que fizera do Demolidor um caso sério de popularidade.

David Mazzucchelli (Person) - Comic Vine
Depois do Demolidor, o traço de David Mazzucchelli
ajudou a redefinir o Batman.
Miller concebera inicialmente Ano Um como uma graphic novel. Mostrando-se, por isso, reticente em acolher a sugestão de Dennis O'Neil - o novo editor de Batman - para que a história fosse apresentada ao longo dos quatro primeiros números da nova série mensal do Homem-Morcego. Miller temia que esse formato prejudicasse a dinâmica narrativa, ou que, em última instância, comprometesse o seu estatuto canónico.
A amizade com Dennis O'Neil - cunhada durante a passagem de ambos pela Casa das Ideias - acabaria, contudo, por falar mais alto, levando Miller a ceder. Mas apenas depois de O'Neil lhe ter asseverado que continuaria a dispor de total liberdade criativa no protocolo modificativo de um dos maiores ícones da cultura pop do século XX.
Apesar dessa carta de alforria, a abordagem de Miller revelou-se menos arrojada do que se previa. Consistindo, basicamente, em expandir a premissa glosada por Bill Finger em 1939, focalizando-se em aspetos da origem do Batman que permaneciam por explorar. Em contrapartida,  resumiu elementos fundamentais do mito à sua expressão mínima. O assassinato de Thomas e Martha Wayne, por exemplo, foi evocado sob a forma de breves flashbacks.
Por considerá-las desinteressantes, Miller suprimiu também as aventuras do jovem Bruce Wayne ao redor do mundo. Em vez de apresentar Batman como uma lenda viva, à semelhança do que fizera em O Regresso do Cavaleiro das Trevas, Miller caracterizou-o como um homem comum e inexperiente a tentar fazer a diferença numa sociedade de regras viciadas.
Do ponto de vista de Miller, a eficiência de um herói é inversamente proporcional ao seu apelo junto do público. Quanto mais falível, mais relacionável se torna uma personagem conotada com o Bem. Razão pela qual Ano Um apresentou um Batman imprudente que, não raro, subestimava os seus adversários.
Ao conferir-lhe uma atmosfera lúgubre, quase asfixiante, a arte de David Mazzucchelli enfatizava o tom realista imprimido por Miller à narrativa. O artista concebeu a sua interpretação de Gotham City para simbolizar a devassidão que contagiava os habitantes da cidade.

Na capital do crime, Batman é um alvo a abater.
Quando Dennis O'Neil sugeriu que o capítulo de abertura de Ano Um fosse publicado no número inaugural da segunda série de Batman, Miller mostrou-se irredutível. Em seu entender, a exploração de partes desconhecidas da origem do herói não justificava que fosse feita tábua rasa de quase meio século de aventuras.
Evitando um corte radical com o passado, Ano Um seria inserto nos números 404 a 407 de Batman. A saga de Miller e Mazzucchelli foi um sucesso comercial (mais do que duplicou a tiragem da série) e conservaria o seu estatuto canónico até 2011. Apesar de o ter perdido nesse ano para Ano Zero, no âmbito dos Novos 52, sobretudo entre os leitores veteranos Ano Um continua a ser percecionada como a origem definitiva do Cavaleiro das Trevas.

FORTALEZA DA SOLIDÃO: DO FUNDO DO BAÚ: «BATMAN - ANO UM»
Uma lenda em quatro atos.

Aurora negra

Bruce Wayne regressa a Gotham City após uma ausência de doze anos. Durante esse prolongado interregno longe da cidade que o viu nascer, o jovem milionário viajou pelo mundo, estudando artes marciais e ciências forenses. De volta a casa, traz uma missão na bagagem.
Transferido de Chicago e acompanhado pela esposa grávida, também James Gordon desembarca em Gotham ansioso por reabilitar a sua carreira policial. Os dois homens não demoram a ter o seu primeiro contacto com a sórdida e violenta realidade daquela que é reputada como a capital do crime.
Na sua primeira patrulha com o detetive Arnold Flass, Gordon vê o seu novo parceiro agredir um adolescente negro apenas por diversão. À medida que incidentes desta natureza se sucedem, cresce em Gordon a determinação de endireitar as coisas.
Depois de se registar num hotel para garantir um álibi, Bruce, irreconhecível no seu disfarce, aventura-se na sua primeira missão no terreno. Ao adentrar no nada recomendável Distrito da Luz Vermelha, é abordado por uma prostituta menor de idade chamada Holly Robinson. Perante a recusa do falso cliente, o proxeneta de Holly arrasta-a por um braço para um beco escuro. Bruce segue-os com a intenção de confrontar o homem, mas vê-se cercado por um grupo de meretrizes que investem sobre ele.
Prestes a desenvencilhar-se das suas agressoras, Bruce é surpreendido pela entrada em cena de Selina Kyle, uma dominatrix de elegância e agilidade felinas. Enquanto luta com a recém-chegada, Bruce é esfaqueado numa perna por Holly. Essa não será, porém, a única cicatriz que ganhará naquela noite.
Chegados ao local, dois polícias fardados ferem Bruce a tiro, transportando-o, em seguida, no carro-patrulha. A caminho da esquadra, Bruce consegue abrir as algemas e neutralizar os agentes. A viatura onde seguem entre em despiste, acabando por capotar violentamente. Antes de abalar, Bruce retira, porém, os agentes inconscientes do interior dos destroços em chamas.
Debilitado pelos vários ferimentos recebidos, Bruce consegue, a muito custo, regressar à Mansão Wayne. Enquanto, sentado sozinho na penumbra, roga ao seu falecido pai por orientação, um morcego atravessa subitamente a vidraça de uma janela antes de pousar em cima de um busto de Thomas Wayne. A criatura noturna foi a resposta às suas preces e inspira-o a criar uma persona capaz de infundir medo no coração dos criminosos.

Batman: Year One, Franck Miller & David Mazzucchelli | Batman year ...
Sob o signo do morcego.
Nas semanas imediatas, Gordon propõe-se limpar o Departamento de Polícia de elementos indesejáveis, colecionando inimizades no seio da corporação. Por ordem do Comissário Gillian Loeb, um grupo de agentes policiais encapuzados espancam brutalmente Gordon. Um deles - que Gordon reconhece como sendo Flass - chega mesmo a vociferar ameaças à sua esposa.
Tão logo fica restabelecido, Gordon visita a casa do agente onde o grupo de Flass se costuma reunir para noitadas de póquer regadas a álcool. Flass é ó ultimo a sair e, devido ao seu estado ébrio, é facilmente subjugado por Gordon.
Após espancar o ex-parceiro com um taco de basebol, Gordon deixa-o algemado e desnudo no meio da neve. Apesar de dolorosa,a lição não servirá de emenda a Flass.
Na noite seguinte é a vez de Bruce ter o seu batismo de fogo como Batman. Três adolescentes que roubavam um televisor de uma loja são rapidamente deixados fora de combate. O Cruzado Encapuzado logrou a sua primeira vitória mas esta não aplacou a sua fome de justiça.
O lauto banquete em que participavam alguns dos intocáveis de Gotham City torna-se indigesto quando Batman irrompe e anuncia que a sua impunidade tem os dias contados. Em resposta a essa afronta, o Comissário Loeb autoriza Gordon a usar todos os meios para capturar o vigilante. Batman tem agora a cabeça a prémio.

Batman Really Takes The Urine This Week...
Banquete indigesto.
Enquanto Gordon tenta debalde cumprir as ordens de Loeb, Batman prossegue a sua cruzada por justiça. O seu próximo alvo é ninguém menos do que Carmine "O Romano" Falcone, o chefe mafioso que controla o submundo de Gotham. Pela calada da noite, o Homem-Morcego invade a mansão de Falcone e, após intimidá-lo, deixa-o atado à cama. Antes de partir, tem ainda tempo para atirar a limusina do mafioso ao rio.
Estas e outras façanhas rendem a Batman o seu primeiro aliado. O promotor público Harvey Dent apoia secretamente as ações do vigilante, e tenciona cavalgar a onda de justiça que se encapela sobre Gotham, prometendo limpar uma cidade que não quer ser limpa.
Agora assistido pela charmosa detetive Sarah Essen, Gordon prossegue a sua investigação às atividades do misterioso Homem-Morcego que assombra a noite gothamita. Essen está convicta que Batman e Bruce Wayne são a mesma pessoa. Segundo ela, somente o príncipe de Gotham disporia dos recursos necessários para financiar as operações do vigilante.
No final de mais uma noite desperdiçada a seguir pistas inúteis, Gordon e Essen testemunham incrédulos o salvamento de uma sem-abrigo prestes a ser trucidada por um camião desgovernado. Saído da escuridão, Batman consegue tirar a mulher do caminho no último instante. Ao desviar-se de um obstáculo na via, Gordon perde o controlo do carro onde segue o casal de detetives e fica inconsciente após embater com a cabeça.
Ao voltar a si, Gordon depara-se com um quadro perturbador: Essen tem Batman na mira. O herói aproveita, porém, uma breve distração da detetive para desarmá-la antes de procurar abrigo num edifício devoluto.
Alegando que o prédio onde Batman se encontra encurralado já aguardava demolição, o Comissário Loeb ordena que seja lançada uma bomba no seu interior, a partir de um helicóptero da polícia.
A explosão obriga Batman a refugiar-se na cave fortificada do edifício, deixando para trás o seu cinto de utensílios que, por incluir substâncias inflamáveis, havia pegado fogo.
Uma equipa SWAT invade, pouco depois, o edifício para recolher o cadáver de Batman. Ao serem surpreendidos pelo mascarado, os agentes abrem fogo indiscriminadamente. Além do Homem-Morcego, também vários civis, aglomerados no exterior, são feridos pela saraivada de balas.

Batman: Year One, SWAT hunt | Cartoon art, Comic books art, Art
Caça ao morcego.
Ao ver os agentes comportarem-se como assassinos contratados, Batman não hesita em derrubá-los um por um. Usando, em seguida, um dispositivo para atrair uma densa revoada de morcegos.
Em meio ao caos instalado, Batman desaparece ao raiar do dia. Com um misto de pavor e esperança, Gotham testemunha a aurora negra de uma lenda; a lenda do Cavaleiro das Trevas.
Sem que Batman sequer o imagine, as suas audaciosas ações inspiram Selina Kyle a criar o seu próprio alter ego. Por conta da sua afinidade com felinos, Selina transforma-se na Mulher-Gato. A arte de roubar não mais será a mesma, agora que nasceu a rainha das ladras.

best of catwoman on Twitter: "Who is Selina Kyle? How did she ...
À noite, todos os gatos são pardos.
Nas semanas seguintes, Gordon e Essen vivem um breve affair. Batman, por seu turno, coage um traficante de drogas a testemunhar contra o detetive Flass, que acaba detido por Gordon.
Sem tempo sequer para colher os louros, Gordon é chantageado pelo Comissário Loeb com provas da sua relação extraconjugal com Essen. Disposto a arcar com as consequências, Gordon confessa o seu deslize amoroso à esposa. Barbara decide então abandonar Gotham a poucas semanas de dar à luz o primeiro filho do casal. Mas esse poderá muito bem ser o menor dos problemas de Gordon.
Ao invadir novamente a mansão de Falcone a coberto da noite, Batman escuta um plano para liquidar Gordon. A reunião é no entanto interrompida pelo advento da Mulher-Gato.
Frustrada pelo facto de os seus sofisticados golpes virem sendo atribuídos ao Batman, Selina Kyle resolveu não deixar os seus créditos por mãos alheias. Enquanto faz gato sapato dos guarda-costas de Falcone, é discretamente ajudada pelo Homem-Morcego, que se mantém camuflado entre as sombras.
Ao sair de casa na manhã seguinte, Gordon deteta as movimentações suspeitas de um motociclista que ronda a garagem do seu prédio. Decide investigar e encontra a sua família feita refém por um grupo de sequazes de Falcone liderados por Vitti, o sádico sobrinho do mafioso.
Tomado pelo instinto, Gordon abate os sequestradores, mas Vitti consegue fugir levando consigo o filho recém-nascido de Gordon.
Sempre com o misterioso motociclista no seu encalço, Vitti acaba por perder o controlo do seu automóvel quando tentava atravessar uma ponte sobre o rio. Vitti e Gordon envolvem-se numa luta corpo a corpo, durante a qual o detetive perde os óculos.
Disposto a tudo para salvar a pele, Vitti lança o bebé ao rio. Gordon corre para salvar o filho mas é o motociclista quem salta da ponte para lhe amparar a queda fatal.
Já com o filho, são e salvo, nos braços, Gordon percebe estar na presença do homem por trás da máscara do Batman. A quem tranquiliza dizendo que, sem os óculos, é "cego como um morcego", e que ele é livre de partir. Bruce aproveita a deixa para sair de cena, ciente de que ganhara um precioso aliado.

Definitive Batman Origin Stories for introducing the character, in ...
O início de uma aliança improvável.
Caído em desgraça, o detetive Flass arrasta consigo praticamente toda a hierarquia do Departamento de Polícia de Gotham City (DPGC), incluindo o Comissário Loeb. Rende-lhe no posto o Comissário Grogan, que aparenta ser ainda mais corrupto do que o antecessor. Gordon, por sua vez, é recompensado com uma promoção e uma nova oportunidade para salvar o seu casamento.
No epílogo, o agora Capitão Gordon aguarda pacientemente no telhado da sede do DPGC pela chegada do Batman. Acaba de receber informações sobre os planos de um lunático para envenenar o reservatório de água da cidade. Diz-lhe a sua intuição que o tal Joker ainda dará muito que falar...

Apontamentos

*O título do capítulo inaugural de Ano Um - Quem eu sou e como vim a ser (Who He Is and How He Came To Be, no original) - referencia a primeira origem canónica do Homem-Morcego apresentada em novembro de 1939, nas páginas de Detective Comics Vol.1 #33.
*O verdadeiro motivo da transferência de James Gordon para Gotham City é vagamente sugerido na narrativa. A mudança de cidade não foi de todo voluntária, e ter-se-á ficado a dever a um incidente não especificado envolvendo elementos corruptos da Polícia de Chicago. Esse episódio só seria clarificado em Batman: Gordon of Gotham, um spin-off de Year One publicado em 1998 e que segue inédito em língua portuguesa;
*Carmine Falcone, o poderoso chefe da Máfia que durante muito tempo controlou o submundo de Gotham, fez a sua primeira aparição em Ano Um. O seu reinado seria, porém, interrompido tanto pela ação concertada de Batman e Gordon, como pelas disputas territoriais com outros barões do crime, como o Pinguim;

ULTIMATE BATMAN - Mickeys Tavern
Carmine Falcone, o Padrinho.
*Ano Um teve como colorista Richmond Lewis. Pintora consagrada, Lewis é casada com David Mazzucchelli e foi a convite do marido que colaborou no projeto;
*Ano Um estabelece que Bruce Wayne teria 25 anos de idade quando empreendeu a sua campanha para libertar Gotham do crime e da corrupção que a haviam feito refém. No que aparenta ter sido um lapso de Frank Miller, é referido que Bruce teria apenas sete anos quando assistiu ao assassinato dos seus pais. Outras fontes refutam, com efeito, esta informação. Na cronologia emanada de Zero Hora, por exemplo, é ponto assente que Bruce Wayne teria na verdade oito anos quando ficou órfão;
*O facto de o Super-Homem ser referenciado em Ano Um atesta que a sua entrada em cena precedera em vários meses a do Homem-Morcego. Essa referenciação ocorre em dois momentos distintos da trama: no primeiro deles, Barbara Gordon compara a tensão muscular acumulada nas costas do marido ao "Homem de Aço"; no segundo, Alfred sugere ironicamente que Bruce aprenda a voar como "aquele sujeito de Metrópolis";
*Vários locais emblemáticos de Gotham são referenciados ao longo da narrativa, designadamente Robinson Park, Finger Memorial e a Missão Sprang. Tratam-se de homenagens toponímicas a Jerry Robinson (cocriador de Robin), Bill Finger (cocriador de Batman) e Dick Sprang (o mais famoso dos artistas "fantasmas" de Bob Kane);
*A ideia de Batman usar um sonar para atrair morcegos para a sua localização seria revisitada no filme Batman - O Início (2005). De igual modo, a cena final daquele que foi o primeiro capítulo da trilogia cinematográfica do Cavaleiro das Trevas - quando Joker é mencionado por Gordon - remete para os últimos painéis de Ano Um;

Gotham Alleys: Comic Book references in movies Part V: 'Batman Begins'
A aurora negra de Ano Um recriada em Batman - O Início.

*Quando sucedeu a Tim Burton como realizador de Batman Para Sempre (1995), Joel Schumacher planeava adaptar Ano Um. Ideia que seria no entanto prontamente descartada pelos produtores da franquia, interessados numa sequela e não numa prequela. Schumacher incluiria, ainda assim, vários elementos da obra nos flashbacks que acometiam Bruce Wayne ao longo do filme;
*Após o fiasco de Batman & Robin (1997), na viragem do milénio a Warner Bros. contratou Darren Aronofsky para escrever e dirigir um reboot da Bat-franquia baseado em Ano Um. O argumento apresentado por Aronofsky era todavia apenas vagamente inspirado na história original, chegando mesmo a pôr em causa várias convenções da personagem. Em virtude disso, o projeto foi engavetado e Aronofsky defenestrado;
*Apresentado em plena Comic-Con de San Diego, o filme animado Batman: Year One foi, em 2011, a primeira (e, até à data, única) adaptação oficial de Ano Um ao segmento audiovisual;

Batman: Year One (dvd_video) : Target
A versão animada de Ano Um.
*Aclamada pela crítica e pela generalidade dos leitores, Ano Um surge em segundo lugar na lista das dez melhores histórias do Batman de todos os tempos divulgada na plataforma IGN. A encabeçar o ranking, outro épico com assinatura de Frank Miller: O Regresso do Cavaleiro das Trevas;
*Desde a publicação de Ano Um, foram várias as histórias que expandiram o conceito glosado por Frank Miller. Logo em 1987, Mike W. Barr escreveu Ano Dois, colocando Batman na peugada de Joe Chill, o assassino dos seus pais. Um par de anos volvidos, em 1989, foi a vez de Marv Wolfman recontar a origem de Robin em Ano Três. Ambos os arcos seriam, porém, desconsiderados na sequência dos ajustes cronológicos impostos por Zero Hora. Em sentido oposto, O Homem Que Ri foi consagrada como sequência direta de Ano Um. Saída da pena de Ed Brubaker em 2005, a história revisita o primeiro encontro entre Batman e Joker, e antecede cronologicamente os eventos de O Longo Halloween (outro desdobramento de Ano Um).

Amazon.com: Batman: The Man Who Laughs (8601400566909): Brubaker ...
Em 2005, Ed Brubaker assinou
 a única sequela oficial de Ano Um.

Vale a pena ler?

A despeito das suas oscilações criativas (nos últimos anos parece ter desaprendido de desenhar), Frank Miller sempre foi um autor visionário. O meu primeiro contacto com o seu trabalho deu-se através desse épico moderno chamado O Regresso do Cavaleiro das Trevas. Mesmo sendo ainda pessoa de palmo e meio, percebi de imediato que tinha em mãos algo verdadeiramente especial, muito diferente de tudo que lera até àquele momento. Só então tomei consciência de que as histórias de super-heróis poderiam abordar temas mais complexos e adultos, em vez de se resumirem à eterna luta entre as forças do Bem e do Mal.
Em Ano Um, Miller desenvolve a trama com simplicidade, embora sem perder o requinte narrativo, para o qual muito contribui o magistral traço de David Mazzucchelli. A trama equilibra-se bem entre Batman e Gordon, demonstrando serem ambos peças fundamentais na representação de um mesmo ideal: o primado da Lei e da Justiça. Com Gordon a personificar a primeira e Batman a segunda.
O amadurecimento das duas personagens é, com efeito, perfeitamente observável na obra. Após erros e acertos em campo, Batman adota progressivamente a rigidez e disciplina que o caracterizam; Gordon, único elemento incorruptível da corporação, paga um preço alto pela sua integridade. A retidão de caráter é-lhes comum e, por isso, ambos se admiram mutuamente, antes mesmo de se conhecerem.
Se Batman é a figura heroica vista com ligeiro distanciamento por conta do luto e revolta que carrega desde a infância, Gordon é concebido como o homem comum que realiza o possível na medida das suas forças. O futuro Comissário é um herói falho, que trai a esposa grávida e sofre violência física e emocional por parte dos seus companheiros. Mas cujas boas intenções acabam por sobressair num quadro de absoluta amoralidade. Não é por acaso que Gordon é uma das personagens mais empáticas do imaginário do Cavaleiro das Trevas.
Outro aspeto positivo de Ano Um radica na ausência de qualquer representante da burlesca galeria de vilões do Batman. Desse modo fica claro que, nos primórdios da sua carreira heroica, o Homem-Morcego tinha como principais inimigos a sua consciência e uma sociedade profundamente corrupta. Não obstante, futuros antagonistas, como Harvey Dent (Duas-Caras) e Selina Kyle (Mulher-Gato), são introduzidos de forma brilhante.
Ano Um é, sem margem para dúvidas, uma das melhores histórias do Batman e uma obra-prima da 9ª Arte. É também um tratado sobre como (re)contar histórias tão grandiosas e imorredouras como o herói que as protagoniza. Ditando a mais elementar justiça que esse mérito seja dividido, em partes iguais, pelos seus autores. Frank Miller e David Mazzucchelli foram os homens certos no tempo certo.

Dois homens e um destino.


*Este blogue tem como Guia de Estilo o Acordo Ortográfico de 1990 aplicado à variante europeia da Língua Portuguesa;
**Artigos sobre A Queda de Murdock, Zero Hora, Dennis O'Neil, Crise nas Infinitas Terras e Bill Finger disponíveis para leitura complementar.