14 outubro 2021

RETROSPETIVA: «WATCHMEN - OS GUARDIÕES»



  Na sua hora mais negra, uma pandilha de vigilantes amorais desvenda a terrível verdade por detrás de uma conspiração que poderá mudar o curso da História. Com as doze badaladas prestes a soarem no Relógio do Apocalipse, até onde estarão eles dispostos a ir para salvar a Humanidade de si mesma?

Título original: Watchmen
Ano: 2009
País: Estados Unidos da América
Duração: 163 minutos
Género: Ação / Mistério / Fantasia / Super-heróis
Produção:  Warner Bros. Pictures e Legendary Pictures 
Realização: Zack Snyder
Argumento: David Hayter & Alex Tse (baseado na história original de Alan Moore)
Distribuição: Warner Bros. (apenas na América do Norte) e Paramount Pictures (resto do mundo)
Elenco: Billy Crudup (John Osterman / Doutor Manhattan); Jackie Earle Haley (Walter Kovacs / Rorschach); Patrick Wilson (Daniel Dreiberg / Coruja II); Matthew Goode (Adrian Veidt / Ozymandias); Malin Akerman (Laurie Jupiter / Espectral II); Jeffrey Dean Morgan (Edward Blake / Comediante); Carla Gugino (Sally Jupiter / Espectral); Matt Frewer (Edgar Jacob / Moloch)
Orçamento: 130 milhões de dólares
Receitas globais: 185,3 milhões de dólares

Anatomia de um épico 

Pioneira na desconstrução das convenções do género heroico, em 1986 Watchmen, dos britânicos Alan Moore e Dave Gibbons, revolucionou os meandros dos quadradinhos americanos e colocou a DC na vanguarda de uma nova era. Nesse mesmo ano, os produtores Lawrence Gordon e Joel Silver adquiriram os direitos da saga para a 20th Century Fox. Depressa se tornou porém evidente que a transição para o celuloide daquela que é uma das sagas mais cultuadas da história da 9ª Arte seria missão espinhosa.
A primeira contrariedade surgiu quando Alan Moore se recusou a escrever um argumento baseado na sua história. Moore sempre se demarcou das adaptações audiovisuais das suas obras e, como tantos outros, considerava que Watchmen era um filme impossível de ser feito. O longo caminho das pedras que o projeto teve de percorrer parecia dar-lhes razão.

Há um antes e um depois de Watchmen na história da 9ªArte.

Face à recusa de Moore, a Fox contratou Sam Hamm (argumentista de Batman) para escrever um enredo que condensasse os doze capítulos da saga original num único filme. Partiu dele a ideia de alterar o rebuscado final da história de Moore (que envolvia uma lula gigante), substituindo-o pelo assassinato do eu passado do Doutor Manhattan, originando um paradoxo temporal. 
Já depois de o projeto ter passado para as mãos da Warner Bros., em 1991 o ex-Monty Phyton Terry Gilliam (12 Macacos) foi o primeiro nome escolhido para ocupar a cadeira de realizador. Com um orçamento estimado em 100 milhões de dólares, os produtores conseguiram apenas angariar um quarto desse valor. Muito por causa da reputação despesista de Gilliam que, logo depois, bateria com a porta, taxando Watchmen de inadaptável. A malapata de Moore fazia a sua primeira vítima.
Depois de uma década a marinar, em 2001, à boleia do estrepitoso sucesso de O Senhor dos Anéis: A Irmandade do Anel, Watchmen ganhou novo fôlego. Em outubro desse ano, Lawrence Gordon firmou uma parceria com Lloyd Levin e a Universal Pictures, contratando David Hayter (argumentista de X-Men) para escrever e dirigir a película. Aproveitando a carta de alforria recebida, Hayter transferiu a trama para a atualidade, descontextualizando-a da Guerra Fria.
Quando diferenças criativas ditaram o fim prematuro da parceria com a Universal, os produtores ensaiaram uma tentativa falhada de colocar o projeto sob os auspícios da Revolution Studios. Mesmo os que não são dados a superstições não tinham como negar o enguiço. Watchmen voltava, uma vez mais, à estaca zero.
Até que, em julho de 2004, a Paramount Pictures, ao abrigo de um acordo extrajudicial com os produtores (que acusava de violação contratual), anunciou que teria a seu cargo a distribuição internacional do filme. Michael Bay (Transformers), Tim Burton (Batman) e Darren Aronofsky (Cisne Negro) foram alguns dos cineastas sondados para capitanear o projeto, No entanto, por um motivo ou por outro, todos acabariam por se descartar.
Impressionada com o brilhante trabalho de Zack Snyder em 300 (adaptação da saga homónima da autoria de Frank Miller), a Warner Bros. ofereceu-lhe a cadeira vaga de realizador. Snyder não se fez rogado e, à semelhança do que fizera em 300, usou a saga original como storyboard. Entretanto, o argumento de Hayter foi revisto por Alex Tse que, de uma penada, devolveu a história ao contexto original da Guerra Fria e alterou uma vez mais o respetivo desfecho. Adicionalmente, as cenas de luta foram estendidas e uma trama secundária sobre recursos energéticos foi incluída para tornar o filme menos datado.

Zack Snyder fez o que muitos
 duvidam que pudesse ser feito.

Recebida a luz verde por parte da Warner Bros., as filmagens decorreram entre setembro de 2007 e fevereiro de 2008, em Vancouver. A escolha desta cidade canadiana para fazer as vezes de Nova Iorque deveu-se à insistência de Snyder em privilegiar cenários reais, reservando as telas verdes para as sequências em Marte e na Antártida. A complexidade dos efeitos visuais requereu a contratação de uma dezena de empresas do ramo e Dave Gibbons aceitou ser consultor artístico do projeto, tendo inclusivamente desenhado um dos cartazes promocionais de Watchmen.
À meia-noite em ponto de 23 de fevereiro de 2009, Watchmen fez a sua estreia mundial no Odeon Leicester Square, um dos cinemas mais emblemáticos da capital britânica. Apesar das receitas de bilheteira terem ficado aquém do esperado (55 milhões de dólares arrecadados no primeiro fim de semana em cartaz) e de ter polarizado opiniões, Watchmen demorou menos de uma década a tornar-se um filme de culto (que Alan Moore se gaba de nunca ter visto).


Quem vigia os vigilantes?


Enredo

A trama desenrola-se numa linha temporal alternativa na qual vigilantes mascarados são reais e vêm lutando, há longos anos, contra o crime em terras do Tio Sam. Fenómeno surgido na viragem da década de 1930, em resposta aos métodos cada vez mais violentos das quadrilhas tradicionais e ao crescente número de bandidos fantasiados.
Durante a II Guerra Mundial, alguns desses vigilantes - entre os quais o Comediante e a primeira Espectral - formaram um grupo apelidado de Minutemen, para fazerem aquilo que a Lei não conseguia. Dos oito membros fundadores, três foram mortos em ação, um desapareceu sem deixar vestígios e outro foi internado num manicómio. De permeio, o Comediante fora expulso da equipa, depois de uma tentativa de violação a Espectral.

Os Minutemen.

Décadas mais tarde, uma segunda geração de justiceiros fantasiados, inspirados pelos Minutemen, fundaram uma nova equipa chamada Watchmen. Em consequência das suas ações, vários eventos históricos, como o assassinato de John F. Kennedy e a Guerra do Vietname, foram alterados. A vitória americana no Vietname, alcançada graças à interferência do omnipotente Doutor Manhattan (o único Watchman com superpoderes), prolongou a estadia de Richard Nixon na Casa Branca, possibilitada pela prévia revogação da lei que limitava os mandatos presidenciais. 
No final dos anos 70, um forte sentimento antivigilante instalou-se no país, levando o Congresso americano a proibir os heróis fantasiados, daí resultando a dissolução dos Watchmen. Paralelamente, a Guerra Fria ficou ao rubro com uma escalada de tensão entre os EUA e a URSS pontuada pela ameaça cada vez menos teórica de um holocausto nuclear. A cada dia que passava, o ponteiro do Relógio do Apocalipse deslizava perigosamente para a meia-noite e a Humanidade parecia ter os minutos contados.
Em 1985, apenas três Watchmen permanecem no ativo: o Comediante e o Dr. Manhattan (ambos agentes do Governo) e Rorschach, que opera na clandestinidade. Ao investigar o assassinato de Edward Blake, Rorschach descobre que ele era na verdade o Comediante e conclui que os Watchmen poderão estar na mira de alguém determinado em eliminar aqueles que costumavam ser os defensores da sociedade.

A  morte do Comediante coloca a nu uma tenebrosa conspiração.

Rorschach apressa-se a alertar os seus antigos aliados, começando pelo seu ex-parceiro Daniel Dreiberg (o segundo Coruja). Embora cético, Dreiberg transmite as inquietações de Rorschach a Adrian Veidt, outrora conhecido como Ozymandias e agora um dos homens mais ricos e inteligentes do mundo. Veidt descarta prontamente a teoria conspirativa de Rorschach, que também não recebe crédito por parte do Dr. Manhattan nem de Laurie Jupiter, a segunda Espectral (filha da original).
Após o funeral de Blake, o Dr. Manhattan é acusado de ter causado cancro à sua ex-namorada e a outras pessoas que com ele privaram desde o acidente científico que transformou John Osterman num deus vivo. Temendo pela segurança daqueles que o rodeiam, em particular de Laurie (de quem se vinha distanciando cada vez mais), Manhattan parte para o exílio em Marte. A sua ausência desfalca o poderio americano e dá aos soviéticos a confiança necessária para invadirem o Afeganistão. E assim a contagem decrescente para o Juízo Final acelera um pouco mais.
Dias mais tarde, é a vez de Adrian Veidt escapar por pouco a um atentado levado a cabo por desconhecidos. Mas nem todos os Watchmen têm a mesma sorte. 
Quando interrogava Moloch, ex-némesis do Comediante e principal suspeito da sua morte, Rorschach cai numa cilada e acaba incriminado pela morte do vilão. Condenado a uma pesada pena de prisão, Rorschach tem o seu verdadeiro rosto exposto pela primeira vez. Resta-lhe o consolo de saber que a sua paranoia era real e que os Watchmen são, efetivamente, alvos a abater.
Agora um casal, Laurie Jupiter e Daniel Dreiberg regressam ao ativo como Espectral e Coruja para resgatarem Rorschach da prisão. Mesmo a anos-luz de distância, o Dr. Manhattan continua a acompanhar a evolução dos acontecimentos e teletransporta a ex-amante para o Planeta Vermelho. Espectral implora a Manhattan que salve o mundo, mas ele limita-se a expressar-lhe a sua indiferença relativamente ao destino da Humanidade. 

Espectral e Coruja resgatam Rorschach da prisão.

Contudo, ao sondar as memórias da jovem, Manhattan descobre que ela é, afinal, filha do Comediante. Apesar da agressão sexual, ele e a mãe de Espectral tinham-se apaixonado e mantido uma relação em segredo. Fascinado com aquela sequência improvável de acontecimentos, Manhattan concorda em retornar à Terra. A Humanidade é uma espécie sui generis que talvez valha a pena preservar.
Rorschach e Coruja desvendam, entretanto, a terrível verdade acerca da conspiração que quase desbaratou os Watchmen: Ozymandias está por trás de tudo. Antes de viajarem para a Antártida para confrontarem o ex-colega de equipa na sua fortaleza, Rorschach regista os factos no seu diário, enviando-o em seguida para a redação de um jornal nova-iorquino.
Ozymandias confirma, sem rebuço, ser ele o cérebro da operação que resultou na morte do Comediante, no exílio do Dr. Manhattan e na prisão de Rorschach. Para se colocar acima de qualquer suspeita, encenou também um atentado contra si mesmo. 
Perante a incredulidade dos seus ex-camaradas, Ozymandias explica que o seu plano consiste em unir as duas superpotências contra uma ameaça comum, prevenindo dessa forma a III Guerra Mundial. Para concretizar este desígnio, Ozymandias sabotou vários reatores nucleares que, a pretexto de fornecer energia gratuita à Humanidade, convencera o Dr. Manhattan a construir. Da explosão dos reatores resultará a destruição das principais metrópoles e a incriminação de Manhattan, cuja assinatura energética está por todo o lado.
Enquanto Rorschach e Coruja tentam desesperadamente impedir Ozymandias, este informa-os da marcha avançada do seu maquiavélico plano. Naquele preciso momento, em diferentes pontos do globo, há reatores a serem detonados numa sincronia mortífera.
Longe dali, entre as ruínas radioativas de Nova Iorque, o Dr. Manhattan e Espectral deduzem que a hecatombe será obra de Ozymandias e teletransportam-se para a sua fortaleza na Antártida. Ozymandias atrai Manhattan para uma máquina idêntica àquela que o criou e que, aparentemente, o atomiza. No entanto, Manhattan não pode ser morto e ressurge na forma de um gigante.

Nem o todo-poderoso Dr. Manhattan consegue travar a engrenagem do Apocalipse.

Prestes a ser vaporizado por Manhattan, Ozymandias mostra aos restantes Watchmen a comunicação ao país que o Presidente Nixon faz naquele preciso momento na TV. Em resposta ao ataque atribuído a Manhattan, americanos e soviéticos aliaram-se contra o inimigo comum e comprometem-se a defender a Humanidade. 
Todos compreendem então que revelar a verdade serviria apenas para perturbar a paz mundial. Apenas Rorschach não deseja permanecer em silêncio e, a seu pedido, é morto por Manhattan. Impassível, este anuncia em seguida a sua intenção de viajar para uma galáxia menos complicada.
Também o Coruja rejeita a ideia de que o sacrifício de milhões de vidas humanas foi um pequeno preço a pagar pela paz mundial e, antes de partir com Espectral, insta Ozymandias a refletir sobre a enormidade dos seus atos.
Semanas depois, o editor do New Frontiersman, um jornal de ultradireita, reclama da ausência de notícias, agora que a Guerra Fria acabou e o mundo vive em harmonia. À falta de melhor ideia, manda um estagiário esquadrinhar a correspondência enviada pelos leitores, entre a qual repousa o diário de Rorschach...

Trailer


Curiosidades

*"Who watches the Watchmen?" ("Quem vigia os vigilantes?") é uma frase da autoria de Aristóteles (384 a.C.- 322 a.C.). Foi originalmente proferida no contexto de um debate com Platão para contestar a sua proposta de criação dos filakes (guardiões) como autoridade máxima e infalível das cidades-estado gregas. Apesar de servir de bordão ao filme, a frase nunca é totalmente visível na saga original, surgindo ora incompleta ora parcialmente coberta;
*Múltiplas referências históricas e culturais, ligeiramente alteradas, foram incorporadas no introito da película. Silhouette, ocupando o lugar do marujo na célebre fotografia tirada por Alfred Eisenstaedt no dia da vitória aliada na II Guerra Mundial, beija uma enfermeira em plena Times Square; a festa de despedida da primeira Espectral recria a pintura "A Última Ceia", de Leonardo Da Vinci; a foto do Comediante a apertar a mão de Nixon é baseada naquela que, no mundo real, o ex-Presidente dos EUA tirou com Elvis Presley no final do encontro entre ambos na Casa Branca; a imagem de uma jovem manifestante pacifista a enfiar uma flor branca no cano da espingarda de um soldado americano referencia "Flower Power", a icónica fotografia captada por Bernie Boston em 1967, no auge dos protestos estudantis contra a Guerra do Vietname; 

A festa de despedida de Espectral I recria A Última Ceia.

*Divulgado aquando da estreia de O Cavaleiro das Trevas, em julho de 2008, o primeiro trailer de Watchmen despertou enorme interesse, ao ponto de devolver a saga homónima à lista dos mais vendidos. Para responder à intensa procura, a DC reimprimiu mais de um milhão de exemplares nos meses imediatos. Além do fundo musical dos Smashing Pumpkins, as únicas frases percetíveis no trailer saem da boca do Comediante e de Rorschach, as duas personagens que morrem no filme;
*Todas as bandeiras dos EUA presentes no filme incluem 51 estrelas porque, nessa realidade alternativa, o Vietname tornou-se o 51º estado da União, após a vitória americana no conflito militar travado nesse país do sudeste asiático;
*Entre o elenco principal, apenas Jackie Earle Haley - que fez ativamente campanha para obter o papel de Rorschach - conhecia a saga original. Apesar de ser cinturão negro em Kenpo, Haley optou por não se valer dessas habilidades nas suas cenas de luta, por considerar que a sua personagem teria um estilo mais indisciplinado; 
*Em conjunto com o guião, todos os atores receberam uma cópia de Watchmen, que estavam autorizados a levar para o set. A ideia era que eles sugerissem alterações aos respetivos diálogos, por forma a que estes fossem mais fluidos e mais fiéis à história original;
*Quando lhe foi oferecido o papel de Coruja II, Patrick Wilson consultou um amigo especialista em comics antes de tomar uma decisão. A conselho deste, o ator - que atraíra a atenção de Zack Snyder com a sua prestação em Pecados Íntimos (2006) - aceitou encarnar a personagem, cujo excesso de peso o obrigou a ganhar 11 quilos. Em sinal de apreço pelo conselho do amigo, Wilson convidou-o a assistir à gravação da cena da fuga de Rorschach da prisão; 
*Zack Snyder debateu-se com algumas dificuldades no processo de seleção do ator que vestiria a pele do Comediante. Snyder procurava alguém tão carismático e rabugento como a personagem, encontrando em Jeffrey Dean Morgan o candidato perfeito. Durante a entrevista com o realizador, Morgan - que começara por rejeitar o papel, mudando de ideias por influência do seu agente - mostrou-se particularmente mal-humorado, o que foi determinante para o seu escalonamento;
*Também Ozymandias provou ser um papel difícil de preencher, uma vez que requeria um ator simultaneamente atraente, atlético e com uma expressão blasé. Atributos que, aos olhos de Zack Snyder, só o britânico Matthew Goode reunia. Muito diferente do visual do seu congénere canónico, o figurino do Ozymandias cinematográfico parodiava a infame armadura com mamilos usada por George Clooney em Batman & Robin (1997);

O figurino de Ozymandias parodia
os Bat-mamilos de George Clooney.

*Para evitar um processo de gravação demorado e dispendioso, envolvendo duas tomadas por cada cena do Doutor Manhattan, Billy Crudup usou um traje especial de captura de movimento com 2500 LED incrustados e marcadores no rosto. Dessa forma, o brilho azulado do Dr. Manhattan seguia mais de perto os seus movimentos do que um projetor instalado no set, obtendo, de caminho, um efeito mais convincente do que qualquer CGI;
*Watchmen foi o primeiro filme de super-heróis a incluir nudez frontal. Na Tailândia, a genitália do Dr. Manhattan foi censurada com recurso à pixelização; 
*Apenas sete anos separam Carla Gugino de Malin Akerman que, no filme, interpretam, respetivamente, mãe e filha;
*Por junto, Watchmen arrecadou quatro prémios, incluindo o Saturn Award para melhor filme de fantasia. Integrou ainda a lista de pré-nomeados ao Óscar de Melhores Efeitos Visuais, mas não passou à fase seguinte;
*A banda sonora oficial do filme inclui três canções da autoria de Bob Dylan- Desolation Row, All Along the Watchtower e The Times They Are a-Changin' -, mas apenas esta última é interpretada pelo próprio, ao passo que a primeira não é referenciada na saga original.

A banda sonora oficial de Watchmen
 inclui 3 temas da autoria de Bob Dylan.


Veredito: 90%

Rareiam as adaptações cinematográficas de grandes sagas da 9ª Arte que justificam o uso de F maiúsculo no requisito da fidelidade. Watchmen é uma dessas honrosas exceções e, só por isso, merece ser celebrada. 
À direção de Snyder preside um impressionante cuidado estético. Patente, desde logo, na recriação milimétrica das vinhetas mais impactantes de Dave Gibbons na BD original. Dando mostras de um zelo quase apostólico, o realizador vai ainda mais longe ao reproduzir, ipsis verbis, praticamente todos os diálogos de Alan Moore.
Pautada por flashbacks e longas sequências concentradas no passado dos protagonistas, a narrativa segue um modelo invulgar para uma longa-metragem deste género. Apesar dos riscos inerentes, Snyder seguiu rigorosamente o ritmo explorado na história de Moore. Sem conseguir evitar alguns desequilíbrios, Snyder logrou ainda assim a proeza de condensar os doze capítulos da saga em pouco mais de duas horas e meia de projeção. 
Em virtude dessa duração extensa, Snyder enfatizou inteligentemente a ação. Embora nem sempre consentâneas com o realismo da saga original, o filme possui cenas empolgantes como a luta do Comediante com o seu misterioso assassino, a violenta rixa no beco em que o Coruja e Espectral se vêm envolvidos ou a espetacular fuga de Rorschach da prisão. Se Watchmen é, em última análise, um thriller psicológico, a sua versão cinemática é, inquestionavelmente, um filme de ação temperado com muito suspense.
Imunes às grosseiras descaracterizações que deixam tantas vezes irreconhecíveis as personagens adaptadas, todos os Watchmen estão, tanto a nível físico como moral, perfeitamente representados. A começar pela excelente prestação de Jackie Earle Haley, absorvido pela obsessão maníaca de Rorschach e com uma voz rouca tão incómoda como as verdades por ele gritadas na cara da sociedade.
O sempre competente Patrick Wilson oferece-nos um Coruja profundamente humano e convincente no seu drama de impotência face à magnitude dos eventos. Billy Crudup, por sua vez, aborda muito bem o desacoplamento moral do Doutor Manhattan, que se vê como um deus entre insetos. Jeffrey Dean Morgan, apesar do pouco tempo de ecrã, é a encarnação perfeita do sarcasmo e sadismo do Comediante, contrastando com a ocasional inexpressividade e falta de carisma de Malin Akerman (o elo mais fraco do elenco) como Espectral. Por fim, Matthew Goode apresenta-nos um Ozymandias diferente do original, mas tão maquiavélico como este.
Além de uma obra-prima no capítulo visual, Watchmen beneficiou ainda da escolha inspirada da sua banda sonora, pecando apenas pela ausência de uma partitura épica como aquela que John Williams compôs para Superman, The Movie. Destaque para a atemporal The Times They Are A-Changin', de Bob Dylan, que acompanha uma das melhores sequências de abertura de todos os tempos. Atendendo à atmosfera lúgubre do filme, até o alívio cómico proporcionado por Hallelujah, de Leonard Cohen, à cena de sexo entre o Coruja e Espectral é bem-vindo. 
Tecnicamente sublime, com um estilo distinto e emocionalmente poderoso, Watchmen é uma mescla de realidade e fantasia que verga os limites da imaginação. Mas é, também, tão imperfeito como os seus protagonistas. Que, apesar das suas boas intenções e dos seus conceitos distorcidos de justiça, não passam de simples humanos (ou ex-humanos) a tentarem proteger a sociedade de si mesma. Exatamente aquilo que Snyder procura fazer em relação à essência da obra adaptada.
Watchmen pode não ter sido um campeão de bilheteira nem nunca vir a agradar aos puristas, mas é certamente a adaptação possível de uma saga que muitos consideravam impossível de transpor ao cinema, e um dos melhores filmes de super-heróis alguma vez feitos.






*Este blogue tem como Guia de Estilo o Acordo Ortográfico de 1990 aplicado à norma europeia da língua portuguesa.








10 setembro 2021

CLÁSSICOS DA 9ª ARTE: «A ÚLTIMA CAÇADA DE KRAVEN»


  Pressentindo o próprio fim, o rei dos caçadores regressa à selva urbana na peugada da única presa que o derrotou. A morte do Homem-Aranha, a astuta fera que o atormenta, será a coroa de glória sob a qual poderá descansar em paz. Mas será que os heróis também se abatem?

Título original: Kraven's Last Hunt (também conhecida como Fearful Simmetry: Kraven's Last Hunt)
Editora: Marvel Comics
País: Estados Unidos da América
Data de lançamento: Outubro e novembro de 1987
Autores: John Marc DeMatteis (argumento), Mike Zeck (arte) e Bob McLeod (arte-final)
Personagens: Homem-Aranha, Kraven, Mary Jane Watson e Rattus
Cenários: Nova Iorque
Edições em português: Os leitores lusófonos tomaram contacto pela primeira vez com esta saga na sua língua materna em 1991, quando ele foi editada pela Abril brasileira. Em vez do tradicional formatinho económico, A Última Saga de Kraven foi publicada como uma minissérie em três volumes em formato americano, sendo compilada em álbum de capa mole no final desse mesmo ano. Ainda por terras de Vera Cruz, desde o início deste século que a obra teve direito a várias reimpressões - sempre em capa dura -, com a chancela alternada da Panini e da Salvat. Em Portugal, foi pela mão da Levoir que, em julho de 2014, ganhou a sua primeira versão em português europeu, inserida na coleção Universo Marvel e originalmente distribuída com o jornal Público.

Em 2015, a Panini Comics republicou pela segunda vez a saga.
Tal como na primeira edição, optou por não usar a icónica capa mostrando
o Homem-Aranha a soerguer-se da campa.

Terrível simetria

Peter Parker bem poderia ser o protagonista da desdita. Órfão desde o berço, viu morrer-lhe nos braços o tio que o criou como filho e foi incapaz de salvar o grande amor da sua vida de uma queda fatal. A tragédia ensombrou sempre a periferia da vida de Peter, enlutando-lhe, uma e outra vez, o coração. Ao longo do percurso editorial do Homem-Aranha, iniciado em 1962, raras foram no entanto as incursões por terrenos mais sombrios. Apesar dos pesares, a natureza otimista de Peter prevaleceu.
Porém, até o mais ensolarado dos heróis tem um lado lunar. Aquele que, antes de A Última Caçada de Kraven, nunca tinha sido devidamente aprofundado. Filha do seu tempo e dos demónios interiores do seu autor, a saga justifica a reputação de ser uma das mais perturbadoras no extenso repertório do Escalador de Paredes.
A segunda metade da década de 1980 foi, de facto, pródiga em reinterpretações adultas e tingidas de negro de algumas personagens que sempre tinham sido alvo de abordagens ligeiras, se não tanto no conteúdo, pelo menos na forma. Batman - O Regresso do Cavaleiro das Trevas (1986) e Watchmen (1987), ambas com a chancela da DC, foram obras pioneiras dessa nova tendência que mudaria sem recuo o género super-heroico.
De um dia para o outro, heróis inabaláveis nas suas convicções viram-se enleados em dilemas morais plasmados em narrativas complexas. Reflexo tanto da mudança geracional entre autores como de uma maior sofisticação intelectual dos leitores.
Com as vendas da rival, impulsionadas por esse fenómeno, a subirem em flecha, a Marvel não quis ficar para trás e decidiu responder com uma história de tintas carregadas. O protagonista não poderia, contudo, ser mais inesperado: ninguém menos que o Simpático Amigo da Vizinhança. Escolha tão mais surpreendente se considerarmos a natureza sensível e afável do Homem-Aranha, assim como a circunstância de a história em questão ter sido imaginada com outra personagem da Casa das Ideias.
Algures entre 1984 e 1985, o escritor J.M. DeMatteis, obreiro de perspetivas revigorantes, propôs a Tom DeFalco, à época editor-chefe da Marvel, uma minissérie em que Magnum (Wonder Man, no original), após um duelo com o seu meio-irmão Ceifador (Grim Reaper), seria enterrado vivo, emergindo mais tarde do túmulo para se vingar. Quiçá desagradado com a morbidez da proposta, DeFalco não hesitou em rejeitá-la.

Magnum e Ceifador eram os protagonistas originais da saga.

Quando trocou a Marvel pela DC, em finais de 1985, DeMatteis substituiu Magnum por Batman e o Ceifador por Joker. Na sinopse fornecida aos editores, o escritor sustentava que essa seria a cura definitiva para a insanidade mental do Príncipe Palhaço do Crime. Numa (in)feliz coincidência, Alan Moore desenvolvia por aqueles dias A Piada Mortal. Dada a existência de alguns pontos de contacto entre as duas histórias, DeMatteis teve de voltar a enfiar a sua na gaveta.
Mas DeMatteis não se deu por vencido. Nas semanas seguintes, reescreveu a história introduzindo-lhe mais umas quantas alterações. Em vez do Joker, o Batman seria agora subjugado por Hugo Strange (outro velho inimigo do Cavaleiro das Trevas) que, em seguida, assumiria o manto do morcego. A ideia voltou, no entanto, a ser rejeitada.
De regresso à Casa das Ideias, DeMatteis fez uma derradeira tentativa para vê-la aprovada. Agora com o Homem-Aranha como protagonista e com um novo vilão criado propositadamente para o efeito, o projeto recebeu finalmente luz verde por parte dos editores.
Vários elementos importantes foram sendo acrescentado, à medida que DeMatteis limava as arestas de um enredo cada vez menos decalcado da trama original. Com Peter Parker e Mary Jane Watson recém-casados, o escritor optou por fazer do casal o eixo emocional da narrativa. Já a ideia de usar Kraven como antagonista surgiu após DeMatteis ter lido o seu perfil em The Official Handbook of the Marvel Universe (espécie de "Quem é quem" da editora). Grande admirador da obra literária de Dostoievski - especificamente de Crime e Castigo -, DeMatteis ficou fascinado com a herança russa de Sergei Kravinoff.

J.M. DeMatteis teve a sua história
 rejeitada por 3 editores.

Quando soube que Mike Zeck (com quem colaborara anteriormente em Captain America) fora o escolhido para trabalhar com o lápis, DeMatteis considerou que seria interessante a inclusão de uma personagem criada por ambos. Foi assim que o repulsivo Rattus (Vermin) assegurou a sua participação na saga que redefiniria o Homem-Aranha.
Publicada originalmente entre outubro e novembro de 1987, a história em seis capítulos teria sido incluída apenas em Spectacular Spider-Man se o editor Jim Salicrup não tivesse tido a brilhante a ideia de a espalhar pelos outros dois títulos mensais do Homem-Aranha (Amazing Spider-Man e Web of Spider-Man), cujo alinhamento preencheu em exclusivo durante dois meses. Decisão ditada por razões comerciais (obrigava os leitores a comprarem as três revistas para acompanhar a saga), mas também por questões de lógica editorial. Se Kraven presumivelmente matava o Homem-Aranha, seria absurdo que a vida de Peter Parker seguisse a sua rotina normal nos outros títulos. Embora consagrada hoje em dia, foi a primeira vez que essa estratégia editorial foi testada (ainda por cima, com resultados muito positivos).
A atravessar uma fase conturbada na sua vida pessoal, DeMatteis projetou nos protagonistas o seu próprio sofrimento emocional. Ao fazê-lo, sujeitou o Homem-Aranha a uma dilacerante tortura psicológica. Isto ao mesmo tempo que adicionava camadas de complexidade a Kraven.
Depois de abater o Homem-Aranha, Kraven tomaria o lugar do herói. Porém, aquilo em que ele se transforma não é o Homem-Aranha, mas sim a sua perceção equivocada dele. As ações brutais do falso Homem-Aranha ilustram a terrível simetria entre a crueldade do vilão e a benevolência do herói. Que, mesmo levado ao limite, resiste a abrir mão dos seus princípios éticos.
Anos mais tarde, num texto intimista divulgado no seu blogue, DeMatteis reconheceu que teria sido incapaz de escrever a história se, naquela época, o seu estado de espírito fosse diferente. Segundo ele, as grandes histórias possuem vida própria, servindo os escritores de meros veículos para a mensagem que elas desejam transmitir. A Última Caçada de Kraven parece endossar esta teoria.

A última caçada de Kraven teve início em Web of Spider-Man #31.


Réquiem pelo caçador

Houve um tempo em que o mundo admirava a sua astúcia e coragem. Uma época debruada a ouro em que a sua virilidade inspirava reverência e as suas façanhas eram lendárias. Uma época em que ele foi coroado rei dos caçadores e imperador da savana. Mas isso foi antes de ambientalistas e ativistas dos direitos animais lhe arruinarem a reputação. Antes de ele se cruzar com a única presa que o derrotou e que o atormenta desde então: o Homem-Aranha.
Sergei Kravinoff, celebrizado nesse passado glorioso como Kraven, o Caçador, está ciente de que a morte o ronda. Pressente a sua presença nas sombras e quase consegue perscrutar o seu tétrico semblante. Mas ele não está preparado para reencontrar o Criador. Não sem antes recuperar a honra e a dignidade perdidas. Não sem antes curar o seu orgulho ferido, provando a sua superioridade. E isso só será possível fazendo do Homem-Aranha o seu supremo troféu de caça.
Reunindo as forças que ainda lhe restam, Kraven regressa à selva urbana na peugada da sua derradeira presa. Apesar de ser ainda ágil como uma gazela e forte como um leão, Kraven sabe que está longe do seu ápice físico de outrora. Mas sabe, também, que nunca descansará em paz se não vergar o Homem-Aranha.
Para aguçar os sentidos e aumentar a sua força, Kraven ingere poções secretas e infusões de ervas trazidas das selvas mais profundas. Vai precisar de estar no seu melhor para consumar o macabro plano que concebeu: abater o Escalador de Paredes e enterrá-lo com centenas de aranhas.
Recém-regressado da sua lua-de-mel com Mary Jane, Peter Parker ignora que o seu alter ego tem a cabeça a prémio. Absorto em divagações, o Homem-Aranha baloiça-se nas suas teias no que deveria ser um ameno passeio noturno. Mas acaba emboscado por Kraven que, emergindo das sombras, o alveja e captura com uma rede.
Sob o efeito de um potente sedativo, o herói aracnídeo impende no abismo da inconsciência. Tem, contudo, um vislumbre da espingarda e do olhar maníaco de Kraven enquanto este se prepara para executá-lo a sangue-frio. Por entre palavras balbuciadas sobre a restauração da sua honra, o vilão alveja o Homem-Aranha à queima-roupa.

A presa à mercê do caçador.

Transportando o corpo inerte do herói, Kraven coloca-o num ataúde repleto de aranhas, antes de sepultá-lo em local desconhecido. No entanto, abater a grande fera de azeviche não basta. É imperativo demonstrar a sua superioridade sobre ela. E, para isso, o caçador terá de vestir a pele da sua presa.
Nessa mesma noite, envergando uma cópia do traje negro do Homem-Aranha, Kraven começa a patrulhar os desfiladeiros de néon da cidade que nunca dorme. Impelido pelo seu distorcido conceito de justiça, não se inibe de liquidar alguns dos criminosos que tiveram a desventura de lhe cruzar o caminho.
Depois de dias e noites de angústia causada pelo inexplicável sumiço do marido, Mary Jane é assediada por um bando de delinquentes no seu caminho de regresso a casa. Apesar de salva pelo Homem-Aranha, ela percebe estar na presença de um impostor. Kraven, por seu lado, nem imagina que acabou de salvar a vida à esposa do seu inimigo e volta a desaparecer na escuridão da noite. As lágrimas de Mary Jane diluem-se na chuva que não cessa de cair, como se o céu estivesse em pranto pelo infortúnio da jovem.

O caçador veste a pele da presa.

Entrementes, um novo predador começa a semear o terror em Nova Iorque. Rattus, um híbrido canibal de homem e rato, vem atacando aleatoriamente transeuntes indefesos. As suas sangrentas ações atraem a atenção do falso Homem-Aranha, que lhe move feroz perseguição através da rede subterrânea de esgotos. Quando, por fim, encurrala a sua presa, Kraven espanca Rattus quase até morte, levando-o, em seguida, para o seu covil.
Enquanto Kraven se regozija com mais este seu triunfo, o verdadeiro Homem-Aranha desperta do seu longo coma e rasteja para fora da sua sepultura. Tinha, afinal, sido atingido por um dardo tranquilizante e, depois, enterrado vivo pelo seu algoz. Sem que o soubesse, o seu sórdido calvário durara duas semanas. Apesar da fúria que lhe revira as entranhas, o seu primeiro pensamento vai para Mary Jane.
Desesperado por rever a sua adorada esposa, o herói aracnídeo vai ao encontro de Mary Jane. Após certificar-se de que ela está em segurança, parte no encalço de Kraven. Peter sabe que o caçador vira caça quando subestima a sua presa. E sabe que Kraven o atirou às profundezas daquilo que um homem comum é capaz de suportar. Mas ele não é um homem comum.

Um amor mais forte do que a morte.

Com recurso a toda a sorte de sevícias, Kraven subjugara Rattus, agora reduzido a um animal assustado. Algo que o Homem-Aranha fora incapaz de fazer sozinho no seu último confronto com a criatura, em que tivera o Capitão América como aliado.
Ao pressentir a presença do Homem-Aranha no seu covil, Kraven liberta Rattus para testar as capacidades do seu renascido rival. Mas Peter nada tem a provar e compadece-se do sofrimento de Rattus. O monstro, porém, não hesita em investir violentamente sobre o herói e está prestes a matá-lo. Kraven interfere para salvar a vida do Escalador de Paredes. Não pode conceder a outrem o privilégio de matar a sua presa suprema. Confuso, Rattus aproveita a oportunidade para escapar. 

A ferocidade de Rattus.

Tomando enfim consciência de tudo aquilo que Kraven lhe tirou, o Homem-Aranha ataca-o com uma ferocidade nunca antes vista. O vilão limita-se, porém, a encaixar os golpes do seu adversário, com um sorriso trocista. 
Apesar daquela reviravolta, Kraven vencera. Permitira que a sua presa vivesse quando podia facilmente tê-la matado. Dessa forma provara a si mesmo a sua superioridade relativamente ao rival que o humilhara. Não havia razões para continuar a lutar. Nem para continuar a viver. Estava consumada a sua vingança final.
Kraven nada faz para impedir que o Homem-Aranha parta no encalço de Rattus. De volta à sua taciturna mansão, o caçador suicida-se com a mesma arma com que alvejara o Escalador de Paredes. Junto ao seu corpo sem vida jazem fotografias e uma confissão escrita em que assume a culpa pelas mortes causadas pelo falso Homem-Aranha.
Longe dali, o herói aracnídeo consegue, a dura penas, neutralizar Rattus, acabando mesmo por salvar a vida da criatura. Também a violenta tempestade que há dias fustigava Nova Iorque deu finalmente lugar à bonança.
Terminado o pesadelo, Peter regressa para junto de Mary Jane, radiante ao ver o marido são e salvo. O amor que os une curará as feridas e o casal anela por nova etapa de felicidade conjunta. O Sol voltou a brilhar, mas é a esperança que lhes aquece os corações.
Na mansão Kraven, os serviçais homenageiam o seu malogrado amo com um réquiem silencioso antes de depositarem o seu cadáver sob sete palmos de terra. O rei dos caçadores pode finalmente repousar em paz sob a sua coroa de glória.

A morte do caçador.


Apontamentos

*O primeiro e último capítulos da saga terminam, respetivamente, com os enterros do Homem-Aranha e de Kraven enquadrados pela frase "Aranha! Aranha! Flamejando nas florestas da noite. Que mão ou olho imortal poderia plasmar a tua terrível simetria?". Trata-se de uma das muitas citações extraídas do poema The Tyger (escrito em 1794 pelo britânico William Blake) que permeiam A Última Caçada de Kraven. Com efeito, os seis capítulos da saga correspondem ao número de quadras que compõem o poema em questão;
*Apenas aquando do lançamento da sua primeira compilação, em 1989, a saga foi titulada como A Última Caçada de Kraven. A sugestão partiu de Jim Salicrup, na altura editor das séries mensais do Homem-Aranha, e não convenceu DeMatteis. O autor preferia Terrível Simetria (Fearful Simmetry, a expressão que remata The Tyger);
*Também o suicídio de Kraven teve inspiração literária. A cena em que o vilão usa a própria carabina para pôr termo à vida reproduz a morte de Ernest Hemingway, em tempos conhecido como Grande Caçador Branco;
*Aranhas e ratos assumem funções simbólicas na história. Aparentemente, estes motivos animais representam, respetivamente, o medo e o instinto primitivo de sobrevivência. Kraven refere mesmo que todo o homem tem a sua aranha e consome várias delas antes de enfrentar o Escalador de Paredes. Pouco antes  da "ressurreição" de Peter, um rato é visto a rondar o seu túmulo;

Manjar aracnídeo antes da batalha.

*O icónico uniforme negro usado à época pelo Homem-Aranha foi criado em 1982 por Randy Schueller. Um jovem fã do Illinois, Schueller foi o vencedor do concurso organizado pela Marvel com vista à captação de novos talentos e aceitou vender o conceito por uns módicos 220 dólares. Apesar de a mudança de visual ter ocorrido em maio de 1984, no histórico Amazing Spider-Man #252, a origem da nova vestimenta só seria revelada mais de meio ano depois, em Secret Wars #8. Na verdade um simbionte alienígena, o traje, depois de rejeitado por Peter, encontrou em Eddie Brock um novo hospedeiro. Da fusão de ambos nasceu Venom, um dos mais perigosos inimigos do Escalador de Paredes. Que, na sequência desses eventos, passou a usar um modelo de tecido normal oferecido pela Gata Negra. É, pois, esse segundo traje negro que aparece na saga. Para desapontamento de muitos fãs, o Homem-Aranha voltaria a vestir de azul e vermelho em maio de 1988 (precisamente quatro anos após a estreia do uniforme negro);
*Em resposta às acusações de glorificação do suicídio, em agosto de 1992, cinco anos após a obra original ter sido dada à estampa, J.M. DeMatteis e Mike Zeck reataram o seu casamento criativo para produzir uma continuação de A Última Caçada de Kraven. Intitulada Soul of the Hunter (Alma de Caçador), a história revela a existência de um vínculo espiritual entre Peter Parker e Sergei Kravinoff, cuja alma não descansa em paz devido ao facto de ter acabado com a própria vida. Apesar dessa e de outras revisitações posteriores, o vilão permaneceria morto até 2009.

Vingança aquém e além-túmulo.


Vale a pena ler?

Em 2012, os visitantes do site canadiano Comic Book Resources votaram A Última Caçada de Kraven como a melhor história do Homem-Aranha alguma vez contada. Ainda que esse resultado seja debatível, ela merece, com toda a certeza, figurar no Top 5 das aventuras do Escalador de Paredes.
À primeira vista, a história tinha, porém, tudo para dar errado. Transpor o herói mais otimista da Marvel para um contexto de trevas e desespero prefigurava-se um exercício deveras arriscado. Mais ainda tendo como antagonista um vilão como Kraven que, desde a sua criação em 1964, nunca ultrapassara a condição de personagem secundária.
No entanto, a abordagem de DeMatteis foi genial. A sua escrita dá um salto quântico em complexidade e qualidade, como pouquíssimas vezes tinha acontecido até então nas histórias de super-heróis - e nunca nas dos Homem-Aranha (nem mesmo aquando da morte de Gwen Stacy). As notas poéticas, os diálogos psicologicamente reveladores e a análise profunda das motivações dos dois protagonistas são bons exemplos do virtuosismo narrativo de um escriba consagrado que assina aqui uma das obras mais candentes da sua carreira.
Além de esculpir tridimensionalidade a Kraven, DeMatteis aflora temas muito interessantes, designadamente a dicotomia entre o Homem-Aranha e Peter Parker. Quem é, afinal, o mais nobre? O herói ou o homem por detrás da máscara? O autor inclina-se claramente para a segunda opção e, nesse sentido, socorre-se de diversos subterfúgios narrativos para ressaltar a importância da figura de Peter Parker. A sua humanidade, as suas emoções e as suas ações perante os problemas e dilemas que a vida lhe apresenta são a quintessência do Escalador de Paredes. Ao contrário do Super-Homem, por exemplo, Peter não é um disfarce para o Homem-Aranha, mas sim o inverso. A sua personalidade não transmuda de cada vez que ele enfia o uniforme. Seja este preto ou azul e vermelho.
Apesar do excelente enredo, A Última Caçada de Kraven dificilmente teria tido o mesmo impacto sem a sensacional arte de Mike Zeck. Poucos artistas conseguem traçar movimentações com tal maestria, conferindo uma fluidez cinematográfica às sequências, ao mesmo tempo que preenchem uma atmosfera dramática com minuciosos retratos emocionais das personagens.
A única ressalva reside nos monólogos de Kraven que, a espaços, soam repetitivos, conquanto se perceba o seu propósito de imergir o leitor na retorcida psique do vilão. Sem embargo para a sua qualidade global, a saga poderia perfeitamente acabar no penúltimo capítulo, onde a caçada de Kraven de facto termina. Funcionando, assim, o sexto e último capítulo como uma espécie de epílogo estendido que, à parte o destino de Rattus, pouco acrescenta à história.
A Última Caçada de Kraven é também a prova provada que não precisamos de mudanças arbitrárias de género, raça ou orientação sexual para produzir boas histórias de personagens com longos históricos de publicação. O que precisamos mesmo é de menos ativismo identitário e de mais bons autores e bons desenhadores. Tendo isso, as histórias serão sempre refrescantes, por mais vetustos que sejam os protagonistas.
Trágica, filosófica e com fino recorte literário, esta é uma obra que não pode faltar na bedeteca de nenhum aficionado da Arte Sequencial. E que, como qualquer clássico, merece ser revisitada de tempos em tempos.

O traje negro do Homem-Aranha marcou uma era
 e acentuou o tom fúnebre da saga.




*Este blogue tem como Guia de Estilo o Acordo Ortográfico de 1990 aplicado à variante europeia da língua portuguesa.
*Prontuário de Kraven, o Caçador disponível para leitura complementar.


 


13 agosto 2021

HERÓIS EM AÇÃO: LANTERNA VERDE II


 Capaz de superar grande medo, foi o primeiro humano nas fileiras da maior força policial intergaláctica. Da Terra aos confins do Universo, o fulgor esmeralda do seu anel dissipa as trevas do caos e da corrupção. Porque no dia mais claro, na noite mais densa, o Mal sucumbirá ante a sua presença. 

Denominação original: Green Lantern
Editora: DC
Criadores: Julius Schwartz (conceito), John Broome (história) e Gil Kane (arte conceptual)
Estreia: Showcase #22 (outubro de 1959)
Identidade civil: Harold "Hal" Jordan
Espécie: Humano
Local de nascimento: Coast City, Califórnia
Parentes conhecidos: Martin Jordan (pai, falecido); Jessica Jordan (mãe); Larry Jordan / Onda Aérea (tio); Jim Jordan (irmão); Jack Jordan (irmão); Sue Jordan (cunhada); Jan Jordan (cunhada); Helen Jordan (sobrinha); Arthur, Jason e Howie Jordan (sobrinhos)
Ocupação: Ex-piloto de testes, ex-investigador de seguros e ex-vendedor de brinquedos, desempenha agora em tempo integral as suas funções de oficial da Tropa dos Lanternas Verdes.
Base operacional: No passado, Hal Jordan desdobrava-se entre Coast City e o planeta Oa, lar dos Guardiões do Universo e quartel-general da Tropa dos Lanternas Verdes. Desde a destruição da sua cidade natal, as suas estadias na Terra tornaram-se, porém, cada vez mais breves e espaçadas.
Afiliações: Ex-oficial da Força Aérea dos EUA; ex-piloto da Ferris Aircraft; ex-parceiro do Arqueiro Verde; cofundador da Liga da Justiça da América e membro ativo da Tropa dos Lanternas Verdes.
Némesis: Sinestro
Poderes e parafernália: Hal Jordan é apenas um homem comum a quem foi confiada aquela por muitos considerada a mais poderosa arma do Universo. O anel energético do Lanterna Verde reage à força de vontade do seu usuário. Quanto maior a força de vontade, maior a eficácia do anel. A real extensão do seu poder permanece, no entanto, uma incógnita.
Nas suas histórias iniciais, o Lanterna Verde era frequentemente visto a realizar uma assombrosa variedade de proezas com o seu anel. Desde a miniaturização de objetos ao fabrico de vestuário, as possibilidades pareciam infinitas. Quaisquer que sejam os efeitos do anel, são sempre acompanhados por um característico fulgor esmeralda.
Com o tempo, porém, a ênfase passou a incidir sobre a capacidade do Lanterna Verde conjurar hologramas de luz sólida controlados telecineticamente. Em função da criatividade de Hal Jordan, esses construtos esverdeados podem assumir praticamente qualquer forma: um escudo para bloquear um ataque, uma espada para cortar uma corda ou uma luva de boxe para esmurrar um adversário são alguns exemplos clássicos.

O anel do Lanterna Verde permite-lhe criar todo o tipo de armas.

Além de dotar o Lanterna Verde da capacidade de voar e sobreviver aos rigores do espaço sideral, o anel permite-lhe realizar saltos transluminais. Graças aos quais o herói consegue viajar, quase instantaneamente, para qualquer quadrante do Universo conhecido. Para facilitar a comunicação com a miríade de raças alienígenas que o povoam, o anel incorpora um tradutor universal.
O anel do Lanterna Verde é eficaz tanto em ações defensivas como ofensivas. Tanto pode gerar campos de força para proteger o seu usuário como projetar rajadas energéticas contra alvos inimigos. Entre as suas tradicionais funcionalidades, destaque ainda para a sua capacidade de localização e comunicação com outros Lanternas Verdes, independentemente da distância a que se encontram.
Ao possibilitar o acesso remoto à base de dados da Tropa dos Lanternas Verdes, o anel funciona também como um valioso repositório de informação acerca do Cosmos.
Seguindo um protocolo predefinido pelos Guardiões do Universo, sempre que um Lanterna Verde morre no cumprimento do dever, o anel desencadeia de imediato a busca por um substituto compatível. Foi dessa forma que Hal Jordan foi escolhido para render Abin Sur nas funções de protetor do Setor Espacial 2814.

Quanto maior a força de vontade,
mais poderoso é o anel do Lanterna Verde.

Apesar de o Lanterna Verde ter no anel a fonte dos seus poderes, Hal Jordan possui ele próprio um conjunto de habilidades admiráveis. A sua longa carreira como piloto de testes capacitou-o com excelentes reflexos e uma extraordinária resistência à pressão. Mesmo perante situações aparentemente desesperadas, Hal conserva a calma e a agudeza de raciocínio. São elas que lhe permitem, no imediato, conceber a estratégia mais adequada às circunstâncias, fazendo dele um líder nato que os seus camaradas de armas não hesitam em seguir. O seu proverbial destemor é admirado até pelos seus inimigos (com Sinestro à cabeça), elevando-o assim ao patamar de lenda intergaláctica. 
Não é pois por acaso que Hal Jordan é reputado de maior Lanterna Verde de todos os tempos. Título tanto mais impressionante se levarmos em conta que a Tropa Esmeralda patrulha o Universo há vários milhares de anos, e que outros tantos recrutas passaram pelas suas fileiras. Nenhum deles foi, porém, capaz de personificar a Força de Vontade como Hal Jordan.

Fraquezas: A suposta arma mais poderosa do Universo está longe de ser infalível. À consabida ineficácia do anel do Lanterna Verde sobre objetos amarelos (cor que, no Espectro Emocional, simboliza o Medo) acresce a necessidade de recarga periódica. Originalmente, esse ritual - sempre acompanhado do respetivo juramento solene - tinha de ser realizado a cada 24 horas, independentemente do dispêndio de energia. Por estes dias, o anel precisa apenas ser recarregado quando a sua energia se esgota ou atinge níveis perigosamente baixos. 
Apesar de altamente resistente, o anel do Lanterna Verde também não é indestrutível. Várias entidades já provaram possuir força ou poder suficientes para quebrá-lo. Com a agravante de que apenas os Guardiões do Universo possuem a tecnologia requerida para o conserto de um anel danificado.

Áureo foi um dos muitos vilões de cor amarela
 que o Lanterna Verde já enfrentou.

Contudo, à semelhança de qualquer arma convencional, a maior debilidade do anel do Lanterna Verde poderá residir afinal no seu portador. Se este estiver deprimido, amedrontado ou sob influência de estupefacientes, a produção de energia será instável condicionando a criação de construtos. O mesmo sucedendo quando o usuário não consegue visualizar corretamente o aparato que está a tentar replicar, ou ignora o seu funcionamento básico.
No caso específico de Hal Jordan, o excesso de confiança é o seu verdadeiro calcanhar de Aquiles. Desafiando as regras do meridiano bom senso, Hal nunca recua perante qualquer ameaça, por maior que ela seja. 
Essa sua lendária afoiteza tem tanto de inspiradora como de irracional. Entre ser visto como um covarde ou travar uma luta desigual, Hal escolherá sempre a segunda opção. À boa maneira dos Espartanos, ele não pergunta quantos são os inimigos mas onde estão eles. Ignorando dessa forma um dos mais importantes preceitos da arte da guerra: a glória suprema é derrotar o inimigo sem o combater.

O novo senhor do anel

Para os leitores ocasionais de comics, o Lanterna Verde será porventura um daqueles super-heróis que se (re)conhece mas sobre o qual pouco se sabe. Apesar de ele ser um dos Sete Magníficos que fundaram a famigerada Liga da Justiça, o seu errático histórico de publicação contribuiu, em grande medida, para essa circunstância.
Independentemente, porém, do seu estatuto junto do grande público, o Lanterna Verde é uma das maiores referências do panteão da DC. Em vários momentos da história da editora foi igualmente uma espécie de farol que sinalizou o rumo a seguir nas águas agitadas de uma indústria em perpétua metamorfose.
Criação de Bill Finger e Martin Nodell, o primeiro Lanterna Verde surgiu na Idade de Ouro, apenas dois anos após a estreia do Super-Homem. Alan Scott era um engenheiro ferroviário cujas agulhas do destino mudaram para sempre em All-American Comics #16 (1940). Indumentado com um traje particularmente chamativo, munido de um anel mágico e de uma bateria em forma de lanterna, a personagem incorporava diversos dos elementos pulp que, à época, capturavam o imaginário coletivo.
Aquando da sua estreia, o Lanterna Verde era um dos heróis mais poderosos do mundo, capaz de executar autênticos milagres com o poder aparentemente ilimitado do seu anel. Que tinha, contudo, um inusitado defeito: era inútil contra madeira ou matéria vegetal. Outro ponto fraco era a sua carga limitada, que tinha de ser reposta a cada 24 horas com recurso à lanterna verde que dava nome ao campeão de Capitol City. Ritual sempre pontuado por um juramento solene em verso, que foi evoluindo ao longo dos anos até se tornar peça fundamental no legado do Gladiador Esmeralda.

Alan Scott, o primeiro senhor do anel.

Não obstante a apreciável popularidade de que usufruiu durante a década de 1940, o Lanterna Verde, a exemplo da generalidade dos seus contemporâneos, viu o seu esplendor desvanecer após a II Guerra Mundial até a última centelha esmeralda se extinguir no final dessa década.
Sem surpresa, em 1949 Green Lantern foi cancelado e foi precisa uma espera de dez anos até  o anel do Lanterna Verde voltar a luzir. Ainda a tempo, no entanto, de fazer do Gladiador Esmeralda um dos arautos da Idade de Prata dos comics.
Perante as evidências de que os leitores davam mostras de um renovado interesse em super-heróis, em 1959 o lendário editor Julius Schwartz quis repetir o tratamento que, três anos antes, fora aplicado com sucesso ao Flash. Nesse sentido, escalou o escritor John Broome e o artista Gil Kane para recriarem o Lanterna Verde. A ideia era seguir a receita usada por Robert Kanigher e Carmine Infantino para revitalizar o Velocista Escarlate. Em 1956, fora ele o primeiro herói clássico a ganhar novo impulso na pista da glória reconquistada.
Assim como Jay Garrick cedeu lugar a Barry Allen, Alan Scott foi rendido por Hal Jordan. Em consequência desse protocolo modificativo, o Lanterna Verde deixou de enfrentar ameaças sobrenaturais para passar a agir como uma espécie de xerife do espaço, cuja jurisdição extravasava largamente os limites da sua cidade natal - e até da Terra. Essa vocação cósmica do novo Gladiador Esmeralda foi acentuada pela sua pertença à maior força policial intergaláctica: a Tropa dos Lanternas Verdes. Para criá-la, John Broome foi beber inspiração à saga de ficção científica Lensman, da qual era fã assumido. Com o tempo, a Tropa dos Lanternas Verdes tornou-se num dos principais esteios do Universo DC, servindo de base para algumas das histórias mais memoráveis da Editora das Lendas.
No momento de conceber o visual de Hal Jordan, Gil Kane usou como modelo fisionómico Paul Newman, seu vizinho e um dos maiores galãs de Hollywood. O traje de cores berrante deu, por sua vez, lugar a um uniforme sem capa e com um sóbrio esquema cromático. O anel e a bateria mantiveram-se, mas a origem dos dois artefactos era agora alienígena e não mística. Ambos haviam sido manufaturados pelos Guardiões do Universo, fundadores e líderes espirituais da Tropa dos Lanternas Verdes - que teve em Hal Jordan o seu primeiro recruta terráqueo.

Paul Newman serviu de modelo a Hal Jordan.

Outro aspeto comum a ambos os Lanternas Verdes era o aparentemente arbitrário ponto fraco dos respetivos anéis. Com a madeira a ser agora substituída pela cor amarela, contra a qual o anel de Hal Jordan nada podia. Desta feita, porém, o calcanhar de Aquiles foi explicado com uma impureza necessária na bateria; uma espécie de trava de segurança criada pelos Guardiões do Universo para prevenir que o poder absoluto corrompesse absolutamente os seus agentes da Lei. 
O segundo Lanterna Verde foi apresentado ao leitores em Showcase #22 (1959). Título que, por aqueles dias, servia de tubo de ensaio tanto para conceitos inovadores como recauchutados. Além do Flash, também Adam Strange e os Desafiadores do Desconhecido tinham feito lá o seu tirocínio. 
Na senda do sucesso do novo Gladiador Esmeralda, a DC resolveu relançar Green Lantern em 1960. Apesar do cariz cósmico das histórias, elas foram pioneiras em matéria de consciência social. Em vez das costumeiras óperas espaciais, os argumentistas privilegiavam temas mundanos como o combate ao racismo e ao preconceito. Incluindo, para esse efeito, representantes não estereotipados das minorias nas tramas humanizadas. 
A vida pessoal de Hal Jordan também tinha pontos de interesse. Ele era um dos vértices de um triângulo amoroso em tudo idêntico ao que envolvia Clark Kent, Lois Lane e o Super-Homem. Hal estava apaixonado por Carol Ferris, a filha do patrão que, por sua vez, suspirava pelo Lanterna Verde. Para apimentar ainda mais a relação, Carol era ocasionalmente controlada por alienígenas que a transformavam na vil Safira Estrela.

O novo Lanterna Verde estreou-se em Showcase #22 (1959).

Quando, por fim, Carol desistiu de conquistar o coração do Gladiador Esmeralda e partiu com outro homem, Hal ficou devastado. Depois de abandonar o seu emprego como piloto de testes na Ferris Aircraft, Hal passou a andar à deriva. Tal como a sua série que, ao dobrar a esquina da década de 1960, era uma boa candidata ao cancelamento. O que só não se confirmou devido à decisão providencial do seu editor de emparelhar o Lanterna Verde com o Arqueiro Verde. Juntando dessa forma dois valdevinos com visões muito distintas do papel dos heróis num mundo em acelerada transformação. Assinada por Dennis O'Neil e Neal Adams, uma das duplas-maravilha da 9ª Arte, essa fase foi louvada pela crítica sem que a isso correspondesse um aumento das vendas. Consequentemente, Green Lantern foi cancelado em 1972. Nos quatro anos seguintes, Hal Jordan foi hóspede na revista do Flash, ao mesmo tempo que participava mensalmente nas missões da Liga da Justiça da América. Em virtude dessa perda de influência, tornou-se um super-herói genérico vivendo à sombra de glórias pretéritas.
Green Lantern regressou às bancas em 1976, espelhando os danos que a guerra do Vietname e o escândalo Watergate haviam infligido à autoconfiança do povo americano e à sua fé nas instituições do país. Esse renascimento durou cerca de uma década e ficou marcado tanto pela profusão de ameaças extraterrestres como pela sucessão de crises pessoais do herói, culminando no seu abandono da Tropa dos Lanternas Verdes em vésperas da Crise nas Infinitas Terras.
Esgotadas as ideias para tornar apelativas as histórias do Gladiador Esmeralda, nos anos 1990 os argumentistas fizeram dele o maior inimigo da Tropa dos Lanternas Verdes. Após a destruição de Coast City pelo Supercyborg, Hal Jordan, revoltado com a indiferença dos Guardiões do Universo, foi corrompido por Parallax, o avatar do Medo. Num desfecho previsível, acabaria morto quando tentava reescrever a História (eventos narrados em Zero Hora, saga já aqui analisada). Não sem antes cometer um extenso rol de atrocidades que incluíram a destruição da Bateria Central de Oa e o massacre de praticamente toda a Tropa Esmeralda. Enquanto Hal procurava expiar os seus pecados como Espectro - o Espírito da Vingança que ele tentou, em vão, transformar no Espírito da Redenção - foi substituído por Kyle Rayner nas suas funções de policiamento galáctico. Era agora ele o novo senhor do anel.

De herói a vilão: Hal Jordan como Parallax.

O regresso definitivo de Hal Jordan só aconteceria uma década mais tarde. Em 2004, a saga Green Lantern: Rebirth reabilitou-o dos hediondos crimes cometidos enquanto Parallax. Dando assim o mote para a vaga revivalista da DC motivada pelo saudosismo que, na viragem do milénio, influenciava a cultura popular. Às mãos de escritores talentosos como Geoff Johns, o Lanterna Verde viu redefinidos e modernizados importantes elementos da sua mitologia. Ficando assim apto a enfrentar os desafios do século XXI.
Uma vez mais, qual farol numa noite de tempestade, a luz esmeralda do Lanterna Verde rasga a escuridão, trespassa o medo e brilha mais intensamente do que nunca.

O triunfo da Força de Vontade.


Alvorecer esmeralda

Hal Jordan nasceu para voar. Quanto mais alto e mais rápido, melhor. Foi nas asas desse sonho de infância que alcançou as estrelas. Ironicamente, foram dois desastres aéreos a traçar-lhe o destino.
Nascido em Coast City, Hal Jordan foi o segundo dos três filhos do casal Jessica e Martin Jordan. O seu pai era um ex-oficial da Força Aérea americana convertido em piloto de testes da Ferris Aircraft, especialista no fabrico de jatos militares.
Fascinado por máquinas voadoras, o pequeno Hal tinha por hábito faltar às aulas para ir ao aeródromo da Ferris ver o seu pai a voar. Martin Jordan era o ídolo do filho, que sonhava um dia seguir-lhe as pisadas.
Infelizmente, quando era ainda pessoa de palmo e meio, Hal testemunhou a morte do seu pai num acidente de voo. Tragédia que o marcou para o resto da visa. Tanto como o ato heroico de Martin Jordan que, em vez de se ejetar, voou para longe das áreas habitadas, sacrificando a própria vida para salvar dezenas de outras.
Contra a vontade da mãe, Hal planeava ganhar a vida aos comandos de um avião. Na véspera de completar 18 anos, fugiu de casa e passou a noite à porta do centro de recrutamento da Força Aérea. Após anos de intenso treino, Hal tornou-se um piloto exímio e destemido. Isto ao mesmo tempo que desenvolvia um histórico de insubordinação e riscos excessivos.

Hal Jordan, o Ás dos Ares.

A vida de Hal não estava no entanto fadada a ser um fac-símile daquela que fora vivida pelo seu pai. Certo dia, durante um voo de treino, um halo esverdeado envolveu o seu jato, transportando-o até ao local da queda de uma espaçonave. Ao investigar os destroços, Hal foi surpreendido pela presença de um alienígena moribundo. 
Abin Sur - assim se chamava o alienígena - era membro da Tropa dos Lanternas Verdes, uma força policial que há milhares de anos assegurava a paz em todo o Universo. A sua nave fora atacada durante uma patrulha acabando por despenhar-se nas cercanias de Coast City. Antes de exalar o seu último suspiro, Abin Sur ordenara ao seu anel que procurasse um substituto digno. Hal foi o escolhido. Não apenas pela sua integridade moral, mas também pela sua capacidade de superar grande medo.

A passagem de testemunho de Abin Sur a Hal Jordan.


Promovido a Lanterna Verde do Setor Espacial 2814 (um dos 3600 em que o Universo se divide), Hal foi pouco depois transportado pelo seu anel ao planeta Oa. No quartel-general da Tropa Esmeralda e lar da Bateria Central que abastece os anéis de todos os Lanternas Verdes, Hal foi apresentado aos Guardiões do Universo e a centenas de alienígenas incrédulos com a escolha de um humano.
Durante o treino que lhe foi ministrado por Sinestro e Kilowog, dois Lanternas Verdes veteranos, Hal surpreendeu os seus mentores com a sua incrível força de vontade. Todos ficaram cientes de que ele estava destinado a ser um dos mais valorosos membros da Tropa e que aquele era o alvorecer esmeralda de um novo herói. Um em cuja presença o Mal sucumbiria.


Miscelânea

*As arrepiantes manobras e acrobacias de Hal Jordan aos comandos dos caixões voadores fabricados pela Ferris Aircraft valeram-lhe a alcunha de "Highball". Na gíria dos antigos ferroviários, era a ordem para o comboio seguir a todo o vapor. Nessa época, Hal era também inseparável do blusão de aviador herdado do pai, o qual não hesitava em colocar sobre os ombros de quem dele mais precisasse;
*Hal não foi o primeiro super-herói do clã Jordan. Larry Jordan, tio de Hal, combateu o crime como Onda Aérea. A sua habilidade primária consistia em deslocar-se a grande velocidade através dos cabos elétricos e das linhas telefónicas, usando para esse efeito um par de patins especiais;


Onda Aérea foi o primeiro membro do clã Jordan
 a combater o crime.

*Apesar de Hal Jordan ter em Carol Ferris a sua eterna namorada, inicialmente os editores consideraram atribuir-lhe outro interesse romântico: ninguém menos do que a Mulher-Maravilha. Companheiros de equipa na Liga da Justiça, a relação entre ambos nunca foi, contudo, além de uma amizade baseada no respeito e admiração mútuos;
*Aos oficiais da Tropa Esmeralda é concedida a prerrogativa de personalizarem os seus uniformes. Hal Jordan adicionou uma máscara ao modelo-padrão, de modo a salvaguardar a sua identidade e a segurança dos que lhe são próximos;
*Na continuidade pré-Crise, o Lanterna Verde teve um leque de parceiros bizarros: Itty (uma estrela-do-mar alienígena) e um esquimó chamado Pieface (termo com conotações racistas) foram os mais duradouros. Da lista faziam ainda parte um cão e um motorista de táxi;

Itty, a estrela-do-mar alienígena que Hal Jordan teve como mascote.

*"In brightest day, in blackest night,/ No evil shall escape my sight./ Let those who worship evil's might,/ Beware my power...Green Lantern's light!" A versão original do juramento recitado pelo Lanterna Verde sempre que usa a sua bateria portátil para recarregar o seu anel energético é da autoria de Alfred Bester (1913-1987), conceituado escritor de ficção científica notabilizado por ter sido o primeiro vencedor do Prémio Hugo - galardão que, anualmente, distingue as melhores obras nesse género literário;
*Embora a jurisdição do Lanterna Verde da Terra se estenda por todo o Setor Espacial 2814 (que, por sua vez, abrange, mais de uma centena de planetas), Hal Jordan carece da autorização prévia do Batman para adentrar em Gotham City. Da violação dessa regra já resultaram escaramuças entre os dois heróis;
*A braços com uma grave crise de tesouraria, no início dos anos 80 a DC esteve prestes a vender os direitos de publicação do Lanterna Verde à Marvel. A Casa das Ideias já havia no entanto introduzido, em 1971, um conceito decalcado do Gladiador Esmeralda. Doutor Espectro, membro do Esquadrão Supremo (ele próprio um pastiche assumido da Liga da Justiça), detinha o poder de criar construções multicoloridas de energia luminosa por intermédio de um prisma de origem alienígena; 
*No universo da Amalgam Comics, o Lanterna Verde foi fundido com o Homem de Ferro, dando origem ao Lanterna de Ferro, alter ego de Harold Stark;
*Aquando da sua transformação em Parallax, Hal Jordan não usava o seu anel original. Este fora destruído por Lorde Malvolio e substituído por outro forjado pelo vilão. Ao contrário do modelo manufaturado pelos Guardiões do Universo, o novo anel afetava objetos de cor amarela;
*Hal Jordan já foi referenciado no Universo Marvel. Numa história assinada por Peter David, em The Incredible Hulk #426 (fevereiro de 1995), Hal foi apresentado como um doente mental internado num hospital psiquiátrico. No rescaldo de Zero Hora, os eventos por ele narrados são assumidos como meros delírios da sua mente fragmentada;

Alucinações de um herói caído em desgraça.

*No Top 100 dos melhores super-heróis de todos os tempos divulgado em 2011 pelo portal IGN, o Lanterna Verde ocupa uma honrosa 7ª posição. De entre os seus congéneres da DC, apenas os membros da Trindade surgem mais bem classificados;
*O Lanterna Verde viveu a sua primeira aventura fora dos quadradinhos em 1967. Ano em que estrelou o seu próprio segmento na série animada da Filmation The Superman / Aquaman Hour of Adventure. Antes de, em 2011, Ryan Reynolds vestir a pele de Hal Jordan no cinema, foi Howard Murphy o primeiro a fazê-lo na TV. Em 1979, Legends of the Super-Heroes, minissérie em dois episódios transmitida pela antena da NBC, apresentou o primeiro Lanterna Verde de carne e osso.

Howard Murphy em Legends of Super-Heroes (1979)



*Este blogue tem como Guia de Estilo o Acordo Ortográfico de 1990 aplicado à norma europeia da Língua Portuguesa.
* Artigos sobre o Lanterna Verde Alan Scott, Sinestro, Arqueiro Verde e Zero Hora disponíveis para leitura complementar.