27 janeiro 2022

RETROSPETIVA: «SUPERMAN»



  Qual messias das estrelas moldado pelos ensinamentos paternos, o Último Filho de Krypton foi enviado à Terra para guiar a Humanidade pelos caminhos da Verdade e da Justiça. Mas o Mal amparado pela escuridão tudo fará para extinguir a nova aurora de esperança. Haverá salvação sem o sacrifício do salvador?

Título original: Superman (estilizado Superman: The Movie, para efeitos promocionais)
Ano: 1978
País: EUA / Reino Unido
Duração: 143 minutos (versão clássica)
Género: Drama/ Ação / Fantasia / Super-heróis 
Produção: Pierre Spengler, Dovemead, Ltd. e Internacional Film Production
Realização:  Richard Donner
Argumento: Mario Puzo, David Newman, Leslie Newman e Robert Benton
Distribuição: Warner Bros. (EUA) e Columbia-Emi (Reino Unido)
Elenco: Christopher Reeve (Kal-El / Clark Kent / Super-Homem); Gene Hackman (Lex Luthor); Margot Kidder (Lois Lane); Marlon Brando (Jor-El); Susannah York (Lara); Glenn Ford (Jonathan Kent); Phyllis Thaxter (Martha Kent); Jackie Cooper (Perry White), Marc McClure (Jimmy Olsen); Ned Beatty (Otis); Valerie Perrine (Eve Teschmacher); Terence Stamp (General Zod); Sarah Douglas (Ursa); Jack O'Halloran (Non) 
Orçamento estimado: 55 milhões de dólares
Receitas globais: 300,4 milhões de dólares

Anatomia de um épico 

Embora a Warner Bros., por meio de uma série de fusões corporativas, tivesse adquirido a DC Comics em 1969, era praticamente nulo o interesse do estúdio em explorar o principal ativo da sua nova subsidiária. O projeto para uma longa-metragem baseada no Super-Homem começou a ganhar forma no final de 1974. Ano em que os produtores Ilya e Alexander Salkind, num empreendimento conjunto com o seu parceiro de longa data Pierre Spengler, garantiram os direitos da personagem. O negócio só foi no entanto possível mediante a total assunção dos custos de produção por parte dos Salkind. Uma jogada de altíssimo risco, para mais considerando a sua intenção de rodar uma sequela em simultâneo. Em caso de fracasso, o prejuízo seria duplicado.
Contactado por Ilya ao arrepio do pai, Alfred Bester, conceituado escritor de ficção científica, foi a primeira escolha para argumentista. Alexander preferia contudo um nome mais sonante para credibilizar a produção. Nesse sentido, contratou ninguém menos do que Mario Puzo, autor da saga O Padrinho. Os 600 mil dólares pagos pelos serviços plumitivos de Puzo foram o primeiro investimento avultado daquela que seria a mãe de todas as megaproduções hollywoodescas.

 Ilya e Alexander Salkind apostaram
 todas as fichas no Homem de Aço. 

Paralelamente, decorriam negociações com um naipe de cineastas consagrados. George Lucas, Steven Spielberg, Richard Lester (que dirigiria Superman II e Superman III) e Francis Ford Coppola foram alguns dos mestres da 7ª Arte abordados. Depois de Tubarão ter abocanhado as bilheteiras, a escolha acabou por incidir sobre Spielberg. Porém, o seu compromisso com outro projeto - Encontros Imediatos do Terceiro Grau - impediram-no de aceitar a oferta.
Guy Hamilton, veterano realizador britânico com vários capítulos da saga de 007 no currículo, foi o senhor que se seguiu. A sua contratação precedeu num par de semanas o anúncio de que Marlon Brando, após as recusas de Christopher Lee e Paul Newman, interpretaria Jor-El, a troco de 3,6 milhões de dólares e 11,75% das receitas brutas de bilheteira - cifras astronómicas que faziam dele o ator mais caro de sempre. Não obstante, Brando fez depender a sua participação na produção da condição de que todas as suas cenas fossem gravadas em doze dias.
Já com Gene Hackman confirmado no papel de Lex Luthor (rejeitado, entre outros, por Dustin Hoffman e Jack Nicholson), os Salkind contrataram Robert Benton e David Newman para reescrever o argumento de Puzo, considerado demasiado extenso. Brenton abraçaria entretanto outro desafio profissional, passando Newman a ser assessorado nessa tarefa pela sua esposa, Leslie.
Apesar de imbuído de uma sensibilidade moderna, o primeiro rascunho do casal Newman tinha um tom cómico, muito próximo do da série televisiva do Batman com Adam West. Enquanto os Salkind sopesavam os prós e os contras dessa abordagem mais ligeira, a produção sofreu o primeiro de muitos reveses. Guy Hamilton comunicou a sua saída, depois de tomar conhecimento de que parte das filmagens - originalmente programadas para Roma - iriam ter lugar em Terras de Sua Majestade. Onde Hamilton, por conta do seu estatuto de exilado fiscal, estava autorizado a permanecer apenas alguns dias.
Nesse mesmo dia, Alexander Salkind telefonou pessoalmente a Richard Donner, cujo último filme (The Omen) se transformara num clássico instantâneo do cinema de terror, oferecendo-lhe um milhão de dólares para ocupar a cadeira vaga de realizador. Donner aceitou, mas declarou-se descontente com o guião existente e fez da verosimilhança o princípio cardeal da sua abordagem. Em razão disso, o seu primeiro ato diretivo consistiu  na contratação de Tom Mankiewicz para reescrever o enredo. Apesar de o ter feito de forma substancial, Mankiewicz seria apenas creditado como consultor criativo, o que desgostou profundamente Donner.

Richard Donner trouxe uma nova visão ao projeto.

Antes de Donner subir ao leme do que parecia um navio a navegar à bolina, tinha sido definido que o papel principal seria entregue a um astro de primeira grandeza. Entre os candidatos mais cotados estavam Robert Redford, James Caan, Burt Reynolds, Warren Beatty e Nick Nolte. Ainda a usar a coroa de louros de Rocky Balboa, Sylvester Stallone manifestou grande interesse em emprestar o corpo ao Homem de Aço, mas o seu nome foi inapelavelmente vetado por Brando - a quem fora concedido poder decisório na escalação do elenco.
Donner, ao invés, preferia apostar num ator desconhecido para viver o Super-Homem. Segundo ele, isso faria com que o público visse o herói, e não o ator que lhe vestia a pele. Já com duas centenas de atores testados, a diretora de elenco, Lynn Stalmaster, sugeriu Christopher Reeve. Mais habituado a pisar os palcos do que a enfrentar as câmaras, Reeve era um ator teatral de apenas 26 anos, contratado para ler as falas de Clark Kent e do Super-Homem durante as audições para Lois Lane.
Apesar do seu 1,93m e do sorriso caloroso, Reeve era demasiado magro para o papel. Donner sugeriu-lhe então que usasse um traje com músculos falsos, mas o ator recusou, por considerar que isso seria desrespeitoso para a personagem. Em vez disso, submeteu-se a um rigoroso programa de preparação física ministrado por David Prowse (o fisiculturista que encarnou Darth Vader em Star Wars), que lhe acrescentou 13 kg de massa muscular em apenas três meses.
Pela sua participação em Superman e Superman II, Reeve recebeu uns módicos 150 mil dólares. Consciente da enorme discrepância salarial relativamente a Marlon Brando e Gene Hackman (cujos nomes, ademais, precederam o seu no genérico de abertura), ainda assim Reeve aceitou o papel, confiante de que ele lhe abriria muitas portas no futuro.

A incrível transformação física de Christopher Reeve
 para o papel que o imortalizaria.

Encontrado finalmente o protagonista que envergaria o manto sagrado, a fotografia principal daquele que muitos consideravam ser o filme do século - mais que não seja, pelo orçamento sem precedentes - começou em março de 1977, nos britânicos Pinewood Studios. A rodagem ficaria, todavia, marcada por atrasos (os 7 meses previstos quase foram multiplicados por 3), derrapagens orçamentais e tensões criativas entre Donner e os produtores - culminando no despedimento do realizador quando este já tinha filmado 75% de Superman II
Em virtude dos percalços e ânimos nublados, o lançamento de Superman - originalmente programado para junho de 1978, coincidindo com o 40º aniversário de Action Comics #1 - foi protelado para dezembro desse ano. Com a presença de Richard Donner e de vários representantes do elenco, a estreia teve lugar no Uptown Theater, em Washington D.C., e contou ainda com dois convidados especiais: Jerry Siegel e Joe Shuster, criadores do Super-Homem (que, ao que consta, ficaram maravilhados com o que viram).
Treze semanas consecutivas na liderança do box office fizeram de Superman o filme mais rentável de sempre da Warner Bros, - e, à época, o sexto mais rentável da história do cinema. Ao sucesso comercial somou o reconhecimento da crítica, materializado no Óscar especial para Melhores Efeitos Visuais e nas três indicações em outras tantas categorias técnicas: Melhor Edição. Melhor Banda Sonora e Melhor Som. Mas, acima de tudo, o filme marcou toda uma geração ao fazê-la acreditar que um homem podia voar.

Mais do que um slogan, "Você acreditará que um homem pode voar"
era um manifesto de verosimilhança.


Enredo

No moribundo planeta Krypton, tem lugar o julgamento de três criminosos acusados de sedição. Com base nas provas apresentadas por Jor-El, o Conselho condena-os, por unanimidade, ao exílio perpétuo na Zona Fantasma. A partida do General Zod e seus cúmplices para esse degredo incorpóreo é acompanhada por juras de vingança contra o seu carcereiro. 
A despeito de ser um dos mais prestigiados cientistas kryptonianos, Jor-El falha em persuadir os seus pares da iminente destruição do planeta. Segundo os seus cálculos, o cataclismo ocorrerá quando Rao, o sol vermelho em torno do qual Krypton orbita, se transformar numa supernova.
Depois de prometer que nem ele nem a sua esposa, Lara, abandonarão Krypton, Jor-El empreende os preparativos para salvar Kal-El, o único filho do casal. Apesar das reservas de Lara, o bebé é enviado para a Terra, onde a sua densa estrutura molecular combinada com a radiação de um sol amarelo lhe proporcionarão poderes divinos.
Tão-logo a nave é lançada, Rao entra em erupção e Krypton explode em mil pedaços. Num trágico instante, é extinta uma das mais avançadas civilizações do Universo.

Jor-El e Lara prestes a enviarem o filho para um mundo estranho.

Culminando uma longa jornada pelas estrelas, a nave contendo o Último Filho de Krypton despenha-se nos arredores de Smallville, Kansas. Kal-El é encontrado por Jonathan e Martha Kent, um humilde casal de agricultores que resolvem criá-lo como seu filho. Rapidamente percebem, no entanto, que o menino é especial, e Martha batiza-o de Clark, o seu apelido de solteira.
Aos 18 anos, logo após Jonathan Kent ter sucumbido a um ataque cardíaco fulminante, Clark ouve um chamado psíquico durante a noite. Ao raiar da alvorada, descobre um cristal brilhante entre os destroços da nave que o trouxera à Terra. Impelido por uma força misteriosa, o jovem viaja até ao Ártico, onde o cristal constrói uma estrutura alienígena. No interior da Fortaleza da Solidão, um holograma de Jor-El revela as verdadeiras origem e missão de Kal-El.
Ao longo dos 12 anos seguintes, Kal-El é moldado pelos ensinamentos paternos, aprendendo tudo sobre as culturas kryptoniana e terrestre, bem como sobre os seus poderes e responsabilidades para com a Humanidade - que Jor-El acredita possuir um grande potencial para o Bem. Terminada a sua educação, Kal-El abandona a Fortaleza da Solidão envergando um traje azul e vermelho adornado pelo brasão familiar da Casa de El. 
Em Metrópolis, Clark Kent consegue emprego como repórter do Daily Planet, o jornal mais importante da Cidade do Amanhã. Enquanto mantém o seu insuspeito disfarce, Clark desenvolve uma atração romântica, não correspondida, pela sua colega Lois Lane. Quando esta se envolve num aparatoso acidente de helicóptero em que os meios de resgate convencionais são inúteis, Clark é obrigado a usar pela primeira vez os seus poderes em público para salvá-la. 


Após o seu primeiro dia no Daily Planet,
 Clark Kent salva Lois Lane como Super-Homem.

Ainda nessa noite, a nova Maravilha de Metrópolis frustra um assalto, captura ladrões em fuga à polícia, resgata um gato do cimo de uma árvore e evita a queda do Força Aérea 1, depois de um dos motores da aeronave ter sido destruído por um relâmpago.
Com as proezas do misterioso homem voador a rondarem os noticiários internacionais, no dia seguinte Lois recebe uma nota anónima a combinar um encontro em sua casa nessa noite. Após conceder-lhe uma entrevista exclusiva, o herói leva Lois num passeio intimista pelos céus da cidade. Arrebatada pela experiência, a jornalista batiza-o de Super-Homem no seu artigo.
Enquanto isso, Lex Luthor, um génio do crime com um ego pantagruélico, gizou um audacioso golpe imobiliário que fará dele um dos homens mais ricos do mundo. O plano consiste em comprar grandes quantidades de terras desérticas a baixo preço antes de afundar a Costa Oeste, levando a uma enorme valorização das mesmas. Assistido por Otis e Eve Teschmacher, Luthor consegue sabotar o lançamento de dois mísseis termonucleares, redirecionando-os para a Falha de Santo André, na Califórnia. 
Ciente de que o Super-Homem poderia frustrar-lhe os planos, Luthor atrai-o até ao seu covil subterrâneo, onde o expõe a um fragmento de kryptonita. À medida que o herói enfraquece devido aos efeitos daquele pequeno resquício do seu planeta natal, Luthor informa-o de que o primeiro míssil é apenas um engodo. O seu verdadeiro alvo é Hackensack, na Nova Jérsia. Afinal, nem mesmo o Super-Homem consegue estar em dois lugares ao mesmo tempo.

Luthor descobriu a fraqueza mortal do Homem de Aço.

Eve Teschmacher fica horrorizada porque a sua mãe vive em Hackensack, mas Luthor não se importa e deixa o Super-Homem para uma morte lenta. Sabendo que o herói mantém sempre a sua palavra, a concubina de Luthor resgata-o da piscina onde ele se afogava, com a condição de ele neutralizar primeiro o míssil com destino a Nova Jérsia. 
Enquanto o Super-Homem interceta e desvia o primeiro míssil para o espaço sideral, o segundo explode nas proximidades da Falha de Santo André. Ato contínuo, sismos devastadores irrompem por toda a Califórnia. Num labor titânico, a evocar o próprio Atlas, o Homem de Aço consegue selar a Falha, mitigando desse modo os efeitos da detonação nuclear. 
Longe dali, o carro de Lois - que investigava os bizarros negócios imobiliários na região - é engolido por uma fenda aberta pelas réplicas do sismo. Ao chegar ao local, o Super-Homem depara-se com o corpo inerte de Lois. Furioso por não ter conseguido salvá-la, o Último Filho de Krypton desafia a proibição de Jor-El de interferir na História da Humanidade. Voando ao redor da Terra a supervelocidade, o angustiado herói consegue retroceder vários minutos no tempo, revertendo os danos causados pela explosão e a morte de Lois. 
Com a Costa Oeste reconstruída e a sua amada a salvo, o Super-Homem entrega Luthor e Otis na penitenciária, antes de partir para um passeio orbital. Enquanto o Sol desponta no horizonte, o sorriso rasgado do herói promete um amanhecer repleto de esperança e novas aventuras.

Trailer


Curiosidades

*O blackout que, em julho de 1977, deixou Nova Iorque às escuras durante dois dias coincidiu com a rodagem de Superman na Grande Maçã. Richard Donner recordava com humor como alguns amigos acreditavam ter sido ele o causador do apagão, devido à panóplia de equipamentos que usava na noite em que tudo começou;
*Apesar do cachê milionário (14 milhões de dólares por menos de 10 minutos de ecrã), Marlon Brando recusou memorizar a maior parte das suas falas. Na cena em que Jor-El coloca Kal-El na cápsula de fuga, por exemplo, Brando estava a ler as suas linhas de diálogo escritas na fralda do bebé. O ator, cuja abordagem displicente ao papel mereceu duras críticas por parte dos seus colegas, justificou-se dizendo que essa era a única maneira de garantir a frescura da sua interpretação;
*O S estilizado que adorna os paramentos de Jor-El invoca aquele que o Homem de Aço de George Reeves ostentava no peito, em Adventures of Superman (1952-59). Marlon Brando sugeriu convertê-lo numa espécie de brasão familiar, explicando assim o motivo de Kal-El adotar esse símbolo na Terra. Richard Donner aprovou a ideia e, desde então, esse elemento foi incorporado tanto no cânone do Último Filho de Krypton como em adaptações subsequentes;
*O efeito luminoso das vestes kryptonianas - originalmente cinzentas - foi obtido com recurso ao mesmo material refletor utilizado nas placas de trânsito e restante sinalética rodoviária. A ideia surgiu durante os testes iniciais para as sequências envolvendo efeitos visuais;

O traje de Jor-El era originalmente cinzento.

*Com apenas seis meses de vida, Elizabeth Sweetman foi a primeira bebé a interpretar Kal-El, na cena ambientada em Krypton. Por quatro dias de trabalho, a menina recebeu 120 dólares;
*Gene Hackman mostrou-se inicialmente renitente em cortar o seu icónico bigode. Para convencê-lo, no primeiro dia de filmagens Richard Donner disse-lhe que cortaria também o seu. Hackman assentiu, ignorando que o realizador usava um bigode postiço. Passado o choque inicial, Hackman soltou uma gargalhada e os dois estabeleceram uma excelente relação profissional. Essa foi, no entanto, a única concessão capilar do ator. Face à sua recusa em rapar a cabeça, na única cena em que Luthor surge calvo Hackman usou uma touca cor de pele;
*Carrie Fisher, Natalie Wood, Shirley MacLaine, Liza Minnelli e Barbra Streisand foram algumas das atrizes cogitadas para o papel de Lois Lane. Apesar de não estar minimamente familiarizada com a mitologia do Super-Homem, Margot Kidder foi a eleita, por ter sido a única a rir-se com a pergunta de Lois que faz corar o herói durante a entrevista no terraço: "Qual a cor da minha roupa interior?". Kidder insistiu em gravar ela própria a perigosa cena em que o carro de Lois é engolido por uma cratera;
*Jeff East, que interpretou a versão adolescente de Clark Kent, quase foi abalroado no momento em que salta à frente de um comboio a grande velocidade. Valeu-lhe a intervenção providencial do duplo Richard Hackman - irmão mais novo de Gene Hackman -, que o agarrou a tempo de evitar a tragédia. East rasgou vários músculos da coxa durante a rodagem da cena;
*Kirk Alyn e Noel Neill, os primeiros atores a viverem o  Super-Homem e Lois Lane no cinema, tiveram uma pequena participação na película. São eles os pais da pequena Lois, quando esta jura ter visto um homem a correr ao lado do comboio em que viajam. Neill voltaria a fazer um cameo em Superman Returns (2006), o último capítulo da franquia;

Noel Neill e Kirk Alyn em Superman (1948).

*Parada de estrelas raramente vista, o elenco principal de Superman incluía dois atores oscarizados (Marlon Brando e Gene Hackman) e seis nomeados à estatueta dourada: Ned Beatty, Jackie Cooper, Susannah York, Valerie Perrine e Terence Stamp; 
*Sem aviso prévio, ao filmar a cena em que o Super-Homem voa pela primeira vez para fora da Fortaleza da Solidão, Christopher Reeve - um experimentado piloto de planadores - inclinou o corpo para descrever a curva no ar. A manobra arrancou aplausos a Richard Donner e todos perceberam finalmente que o movimento corporal era a chave para conferir realismo às sequências de voo;
*Além de interpretar Clark Kent e Super-Homem, Christopher Reeve também emprestou a sua voz ao controlador de tráfego aéreo nas cenas envolvendo o helicóptero e o Força Aérea 1;
*Foram necessários seis meses para filmar a cena do helicóptero no topo do Daily Planet. O edifício-sede da Pan Am fora o primeiro cenário escolhido, mas um trágico acidente ocorrido poucos meses antes e do qual resultou a morte de vários passageiros, levou a produção a escolher outra localização;
*Nem visão de calor nem sopro congelante. Em momento algum do filme o Super-Homem faz uso desses seus poderes;
*Durante a sua entrevista com Lois Lane, o Super-Homem garante nunca mentir. Essa declaração é, por si só, uma falácia, posto que o herói leva uma vida dupla. Tratou-se, com efeito, de um artifício narrativo para que o herói se sentisse compelido a cumprir a promessa feita a Eve Teschmacher de salvar a sua mãe mãe em primeiro lugar;

No cinema como na BD,
o Super-Homem é um exemplo de duplicidade.

*Na versão original do argumento, Superman terminava com o herói a salvar a Califórnia selando a Falha de Santo André, antes de desviar o segundo míssil para o espaço. Da explosão resultaria a libertação de Zod e seus aliados da Zona Fantasma, fornecendo o mote para o segundo filme. A ideia de recuar no tempo foi inicialmente concebida para apagar da memória de Lois Lane a verdadeira identidade do Homem de Aço em Superman II (1980);
*Em 2007, a Visual Effects Society classificou Superman como o 44º filme com melhores efeitos visuais de todos os tempos. No ano seguinte, a revista Empire atribuiu-lhe o 174º lugar na sua lista dos 500 melhores filmes de sempre. Pela sua importância histórica e cultural, em 2017 Superman foi selecionado para preservação pela Biblioteca do Congresso dos EUA, tornando-se a primeira película de super-heróis a merecer tal honra.

Um legado para a eternidade.


Veredito: 95%

Superman não foi o primeiro filme de super-heróis (essa honra, pertenceu, em 1951, a Superman and the Mole Men), mas foi o primeiro a levar-se a sério. Entre os seus muitos méritos, ressalta o seu significativo contributo para a legitimação de um subgénero até então desprezado por Hollywood.
Graças ao visionarismo reverente de Richard Donner e ao insuperável carisma de Christopher Reeve, a película captura na perfeição o espírito da personagem - e dos comics em geral - , proporcionando uma experiência arrebatadora ao som da partitura épica de John Williams.
A trama principal e toda a iconografia de Superman podem ser interpretadas como uma reconfiguração moderna da história de Jesus Cristo, acrescentando-lhe influências de heróis clássicos como Hércules ou Atlas. É aliás particularmente interessante observar como essa correlação com a mitologia cristã está tão presente numa produção baseada na criação de dois judeus.
Senão vejamos: como Jesus, Kal-El é enviado pelo seu pai celestial para guiar a Humanidade pelos caminhos da Verdade e da Justiça. O próprio nome kryptoniano do herói denuncia essa vertente messiânica, visto tratar-se de uma palavra hebraica traduzível como "voz de Deus". Também a nave que traz o Último Filho de Krypton à Terra invoca a Estrela de Belém, ao passo que Jonathan e Martha Kent invocam claramente José e Maria.
Mas os paralelismos não se quedam por aí. Na juventude, Kal-El - obrigado a viver como um de nós, embora ciente da sua diferença - é, tal como Jesus, um desajustado social. Por isso, parte à procura do seu verdadeiro pai, na esperança de descobrir a sua origem e missão na Terra. Qual Messias, apresenta-se ao mundo realizando milagres. Mas nem todos são tocados pela sua mensagem de esperança.
Considerando que Lex Luthor deseja estabelecer o seu próprio império, a sua contenda com o Super-Homem afigura-se como uma alegoria para a luta de Jesus contra o Império Romano. Por outro lado, ao ser representado como um génio maligno que, a partir do seu covil subterrâneo, conspira para conquistar o mundo da superfície, Luthor poderá igualmente ser percecionado como uma figuração de Satanás - sendo Zod, o rebelde expulso de Krypton, outro candidato a essa função simbólica.
Tantas vezes apontado como um dos pontos fracos do enredo, o mirabolante plano de Luthor referencia no entanto a sua primeira aparição - em Superman #4 (março de 1940) - , na qual o vilão induz terramotos com um máquina por ele inventada. De igual modo, a caracterização de Luthor, muito diferente do seu ethos contemporâneo, replica fielmente o seu modus operandi durante a Idade de Prata.
Por fim, refletindo o calvário de Jesus, o Super-Homem sofre às mãos dos humanos antes de ser finalmente reconhecido como salvador do mundo. A kryptonita é a sua Via Sacra, a esperança que infunde nos corações dos homens, a sua coroa de glória. 
Não sendo perfeito nem imune aos efeitos da passagem do tempo, Superman continua a ser a melhor adaptação do Homem de Aço ao grande ecrã e um marco importantíssimo na história do cinema. Uma obra-prima muito à frente do seu tempo, que fez sonhar toda uma geração, e que iluminou o caminho para outras produções do género. Sem esta potente locomotiva, o comboio dos super-heróis nunca teria chegado à Terra dos Sonhos.

O Messias das Estrelas trouxe uma mensagem de esperança.



* Este blogue tem como Guia de Estilo o Acordo Ortográfico de 1990 aplicado à norma europeia da Língua Portuguesa.

















 



17 dezembro 2021

HERÓIS EM AÇÃO: CAPITÃO AMÉRICA


   Em 1941, num mundo a preto e branco, o Sentinela da Liberdade vestiu a bandeira tricolor numa cruzada moral contra a hidra fascista e seu cortejo de horrores. Deslocado numa época matizada de cinzento, luta com igual ardor para manter vivo o Sonho Americano de cores cada vez mais esbatidas.

Denominação original: Captain America
Editoras: Timely Comics (1941-1949); Atlas Comics (1953-1954); Marvel Comics (desde 1964)
Criadores: Joe Simon e Jack Kirby
Estreia: Captain America Comics #1 (março de 1941)
Identidade civil: Steven "Steve" Grant Rogers
Espécie: Humano quimicamente aprimorado
Local de nascimento: Lower East Side, Manhattan (Nova Iorque)
Parentes conhecidos:  Joseph e Sarah Rogers (pais, falecidos)
Ocupação: Ex-soldado do Exército dos EUA; ex-oficial de ligação entre a S.H.I.E.L.D. e os Vingadores; aventureiro e artista freelancer
Base operacional: Nova Iorque
Afiliações: Ex-parceiro de Bucky Barnes e do Falcão; membro fundador e ex-líder do Esquadrão Vitorioso e dos Invasores; ex-operacional da S.H.I.E.L.D.; comandante de campo dos Vingadores.
Némesis: Caveira Vermelha
Poderes e parafernália: Steve Rogers é uma espécie de semideus criado em laboratório. Graças ao Soro do Supersoldado que lhe corre nas veias, representa o auge do potencial humano. É mais forte, mais rápido e mais ágil do que os melhores atletas olímpicos, cujos recordes pulverizaria sem esforço.
Além de lhe permitir levantar mais de 350 kg, correr a mais de 90 km/h e executar acrobacias impossíveis, o soro inibe também a produção das toxinas responsáveis pela fadiga muscular. Em tese, o Capitão América nunca sucumbe ao cansaço. Do mesmo modo que dificilmente adoecerá, visto ser imune a todos os vírus e bacilos terrestres. Os seus ossos são também mais densos do que os de um homem comum, permitindo-lhe, por exemplo, sair ileso de quedas de grande altura. Por mais do que uma vez, o Sentinela da Liberdade foi visto a saltar de um avião sem paraquedas.
Dono de um estilo de luta ímpar, combinando boxe e diferentes artes marciais, o Capitão América é considerado um dos melhores combatentes corpo a corpo do Universo Marvel, limitado apenas pelo seu físico humano. Mesmo diante de adversários de nível cósmico, como Thanos, o Sentinela da Liberdade não se intimida e prontifica-se a lutar até ao último fôlego. Tamanha galhardia granjeou-lhe o respeito da comunidade heroica e deixou impressionado o próprio Titã Insano.

O Sentinela da Liberdade não recua perante ninguém. 
Nem mesmo perante titãs cósmicos como Thanos.

O treino militar e a vastíssima experiência em diferentes teatros de guerra fazem do Capitão América um especialista em tática e um comandante de campo sem igual. Durante as primeiras Guerras Secretas, foi ele o escolhido para comandar a contraofensiva dos heróis no planeta de Beyonder - apesar da presença de outros líderes experimentados, como Ciclope e Senhor Fantástico. Habituado a testemunhar de perto a bravura do seu colega Vingador, Thor orgulha-se de lutar ao lado do Capitão América e assume que o seguiria para lá dos portões de Hades.
Como qualquer bom soldado, o Capitão América é inseparável da sua arma. Consistindo esta num escudo indestrutível de formato circular (originalmente triangular), feito de uma liga metálica única composta por aço e vibranium (à qual foi retroativamente acrescentado protoadamantium). Igualmente eficaz em manobras defensivas e ofensivas, foi projetado pelo Dr. Myron McClain, cientista contratado na II Guerra Mundial pelo Presidente Roosevelt para criar uma blindagem impenetrável para os tanques americanos. Contudo, provavelmente devido à ausência de um catalisador adequado, todas as tentativas subsequentes para reproduzir a liga foram malsucedidas, pelo que o escudo do Capitão América (tal como o próprio) é exemplar único em todo o mundo.
Décadas de prática e uma aerodinâmica perfeita possibilitam que o Capitão América arremesse o seu escudo com precisão quase infalível. Numa espetacular demonstração de destreza, consegue atingir sucessivamente múltiplos alvos com um único lançamento antes de o escudo retornar à sua mão, como se de um bumerangue se tratasse.

O Capitão América recebeu o seu escudo das mãos do Presidente Roosevelt.


O escudo do Capitão América pode imitar um bumerangue.

Confecionado com um tecido retardador de fogo, o uniforme do Capitão América é forrado com uma fina cota de malha metálica que lhe proporciona proteção adicional contra objetos perfurantes ou disparos de baixo calibre. Originalmente, a máscara era uma peça independente que, além de lhe deixar o pescoço exposto, podia ser facilmente arrancada. Para evirar que o herói tivesse a sua identidade civil comprometida, esse pormenor depressa foi retificado.
Quando não está ao serviço dos Vingadores, o Sentinela da Liberdade faz-se habitualmente transportar numa potente Harley Davidson modificada pelo departamento de engenharia mecânica da S.H.I.E.L.D. É também um piloto exímio de aeronaves, especificamente do sofisticado jato dos Vingadores.
O Soro do Supersoldado não aperfeiçoou apenas o metabolismo de Steve Rogers; exacerbou também os seus predicados. A sua coragem, integridade e altruísmo fazem dele o reverso virtuoso do Caveira Vermelha (o supersoldado nazi que o precedeu) e uma fonte de inspiração para outros heróis.
É esse aliás o maior dom do Sentinela da Liberdade: o de manter acesa a chama imortal da esperança  quando o espírito humano é entenebrecido pelo desespero. Desde os seus tempos de meninice, Steve Rogers sempre se ergueu em defesa de outros fracos e oprimidos. Um dos motivos porque, segundo Hércules, até os deuses do Olimpo admiram o mais valente dos homens nascidos na Terra dos Bravos.

O Supersoldado em ação.

Fraquezas: A despeito de todos os aprimoramentos físicos concedidos pelo Soro do Supersoldado, Steve Rogers possui praticamente todas as vulnerabilidades inerentes à sua condição de simples humano. Não é à prova de bala (embora os seus reflexos lhe permitam desviar-se de disparos), tampouco dispõe de um fator de cura acelerada (conquanto o seu processo de cicatrização seja mais rápido). Podendo, portanto, ser ferido - ou até morto - com relativa facilidade, se atingido por explosões, rajadas energéticas ou impactos violentos. Ademais, a sua longevidade é um efeito colateral da fórmula milagrosa que o transformou no soldado supremo. Se esta for drenada da sua corrente sanguínea, Rogers envelhecerá décadas em poucos dias. Processo que o debilitará profundamente e que, no limite, lhe será fatal.
Tantas vezes explorada por velhos inimigos, como o Caveira Vermelha ou o Barão Zemo, a maior fraqueza do Capitão América radica, paradoxalmente, na força das suas convicções. Steve Rogers é um homem fora do tempo, cidadão mental de uma época em que o mundo era um quadro a preto e branco e de contornos bem definidos. Mas, como ele aprendeu a duras penas, o mundo mudou sem recuo. Começando pelos próprios EUA, que durante as décadas em que Rogers permaneceu em animação suspensa viveram alguns dos capítulos mais negros da sua história.
O Sonho Americano definha no cinismo da classe política, na amoralidade da elite financeira e na apatia da juventude. Os nobres ideais pelos quais Rogers sempre se bateu são constantemente colocados em xeque. Os inimigos de ontem são os aliados de hoje (e vice-versa). Ideologias outrora repudiadas são agora ensinadas nas universidades. O patriotismo passou de moda e os americanos estão descrentes do futuro. O próprio Capitão América é conotado com o imperialismo ianque. Em face de tudo isto, Steve Rogers já mal reconhece o seu país. 
De tão idealizado que foi o seu legado ao longo dos anos. Rogers teme por vezes não estar à altura dos complexos desafios do mundo moderno, onde parece não haver lugar para aquilo que ele simboliza. Essas crises de confiança, ainda que passageiras, levam-no a questionar o seu verdadeiro papel numa época tão diferente daquela que lhe definiu o caráter.
Pode ser pesado o fardo de uma lenda viva. Especialmente quando não se tem ninguém para ajudar a suportá-lo. Todos os entes queridos de Rogers partiram há muito; fantasmas de um passado tão trágico quanto glorioso. Apesar do seu estatuto de relíquia museológica, o Capitão América sofre de um mal do século XXI: a solidão em si mesmo.

Lágrimas de uma lenda viva.


Primus inter pares

No final de 1940, com a Europa sitiada pela blitzkrieg alemã e a guerra a rondar os noticiários internacionais, a opinião pública americana dividia-se entre o intervencionismo e o isolacionismo. Apesar da prevalência deste último, o presidente-executivo da Timely Comics, Martin Goodman, tinha a firme convicção de que a entrada dos EUA no conflito era uma inevitabilidade. Nesse sentido, encarregou o seu editor-chefe e o seu diretor artístico - respetivamente, Joe Simon e Jack Kirby (ambos recém-contratados à Fox Comics) - de criarem um herói patriótico capaz de traduzir esse dever moral dos sobrinhos do Tio Sam.
Filhos de imigrantes judaicos fugidos às perseguições no Velho Continente, Simon e Kirby repudiavam o antissemitismo de Hitler com o mesmo denodo com que celebravam o Sonho Americano que permitira aos seus pais terem vidas condignas. Enquadrados por esses sentimentos díspares, decidiram fazer uma declaração política a favor do intervencionismo americano, numa fase em que essa corrente de pensamento carecia de um porta-voz forte.
Simon começou por batizar o neófito de Super-American. Mas, dada a profusão de supers por aqueles dias, depressa o renomeou Capitão América. No entanto, não foi ele o primeiro herói de inspiração patriótica da história dos comics. Essa honra pertenceu ao Escudo (The Shield, no original), lançado em janeiro de 1940 pela MLJ/Archie Comics. 

O Escudo (MLJ/Archie Comics) foi o primeiro herói patriótico
 da história dos quadradinhos americanos.

Precedendo em nove meses a entrada dos EUA na II Guerra Mundial, o Capitão América fez a sua estreia em Captain America Comics #1 (março de 1941). A circunstância de isso ter acontecido num título próprio - e não num qualquer almanaque, como era da praxe - sinalizava a confiança que a Timely tinha no valor do seu novo ativo.
Logo nessa primeira história, Simon e Kirby atribuíram ao Capitão América as idiossincrasias que o diferenciavam dos super-heróis mais populares e o tornariam tão apelativo aos leitores. Ao contrário do Super-Homem e do Batman, Steve Rogers não nasceu com poderes divinos nem herdou uma fortuna imensa. Era, ao invés, um jovem franzino cuja fragilidade física contrastava com o vigor dos seus ideais. Alguém inconformado com o avanço da tirania e disposto a morrer pela liberdade.
Apesar de o Capitão América ter superado todas as expectativas comerciais, nem todos se reviam na mensagem que ele transmitia. Nas semanas seguintes ao lançamento da sua revista, Simon e Kirby receberam ameaças de morte enquanto grupos isolacionistas protestavam ruidosamente diante do edifício da Timely. Temendo pela segurança dos autores, o mayor La Guardia - apoiante confesso do intervencionismo - atribuiu-lhes uma escolta policial.
A esses protestos somou-se uma acusação de plágio por parte da MLJ, que descortinara evidentes semelhanças entre o escudo triangular do Capitão América e o traje do seu Escudo. Em consequência disso, o Sentinela da Liberdade passou a portar um disco côncavo a partir de Captain America Comics #2. Por sugestão de Stan Lee, o novo escudo seria convertido em arma de arremesso na edição seguinte.

O Sentinela da Liberdade esmurra Hitler
 na polémica capa de Captain America Comics #1 (março de 1941).

Após a entrada dos EUA na guerra, o Capitão América consolidou o seu estatuto de campeão de vendas da Timely, com a sua revista mensal a alcançar uma tiragem média de um milhão de exemplares. Apesar de isso indiciar uma audiência mais abrangente, as crianças constituíam a maior parte dos seus leitores. Para muitas delas, Steve Rogers representava os seus entes queridos destacados para o exterior. Cientes disso, Simon e Kirby criaram um clube de fãs (os Sentinelas da Liberdade) e atribuíram um adjunto juvenil ao Capitão América. Tal como o Menino-Prodígio da Distinta Concorrente, Bucky Barnes (homenagem de Simon ao ex-capitão da equipa de basquetebol da sua escola) depressa se tornou um ídolo para os mais novos. 
A enorme popularidade do Capitão América pavimentou caminho para um regimento de epígonos que marchavam sob os estandartes da liberdade e do oportunismo. Captain Freedom (Harvey Comics), Uncle Sam (Quality Comics) e The Flag (Ace Magazines) foram alguns dos muitos concorrentes que disputaram ao Sentinela da Liberdade o título de patriota supremo. Mas o Capitão América provou ser primus inter pares, ofuscando os rivais com o brilho dos seus ideais.
Com o declínio dos super-heróis no pós-guerra, o Capitão América resistiu até 1949, ano em que a sua revista - renomeada Captain America Weird Tales nos seus números finais - foi cancelada. Como tantos outros heróis da Idade de Ouro, o Sentinela da Liberdade parecia condenado a desaparecer nos alçapões da História. Até que em 1953, à boleia do sucesso da série televisiva do Homem de Aço, a Atlas Comics (sucessora da Timely e antecessora da Marvel) reviveu brevemente o Capitão América. 
Nos alvores da Guerra Fria e do macarthismo, o redivivo herói embarcou numa feroz cruzada contra o comunismo. Porém, a fraquíssima adesão dos leitores a este novo alinhamento ideológico ditou novo cancelamento da série ao fim de apenas três edições. 

Sob o selo da Atlas Comics, o Capitão América
 ganhou o epíteto de Commie Smasher (Esmagador de Comunas).

Após uma década longe da vista e do coração, o Capitão América seria novamente revivido, desta feita por Stan Lee e Jack Kirby. Agora sob o selo da Marvel Comics,  Avengers #4 (março de 1964) marcou o regresso definitivo da Lenda Viva.
Agora um homem fora do tempo, Steve Rogers procurava ajustar-se a um mundo muito diferente daquele que conhecera, ao mesmo tempo que aprendia a lidar com os sentimentos de culpa em relação à morte de Bucky. Ingredientes dramáticos que lhe permitiram recuperar o seu lugar de direito no panteão da Marvel. De figura anacrónica, passou a herói intemporal.
A evolução do Capitão América reflete, com efeito, a transformação da sociedade americana desde a II Guerra Mundial. Antes dos EUA entrarem no conflito, ele foi símbolo do intervencionismo numa nação fechada sobre si mesma. Nos anos da guerra, foi instrumento de propaganda nacionalista e militarista num mundo a preto e branco. A escala de cinzentos do pós-guerra forçou-o a despir a pele de cruzado moral. Independentemente de tudo isso, o Capitão América chega aos nossos dias com o seu prestígio incólume. O que significa que as notícias sobre a morte do Sonho Americano são manifestamente exageradas.

80 anos ao serviço da Liberdade, da Justiça e do Modo Americano.


Nascido a 4 de Julho

Único filho de um humilde casal de imigrantes irlandeses, Steve Rogers nasceu a 4 de julho de 1920 (ou 1922, dependendo da fonte consultada), no Lower East Side, bairro operário na parte sudeste de Nova Iorque que também serviu de berço aos seus autores. O facto de ter vindo ao mundo no dia em que os EUA celebram a sua independência só pode ser interpretado como um sinal daquilo que os astros lhe haviam reservado.
No entanto, nada fazia prever que aquele menino de saúde frágil viria a ser o soldado supremo e o símbolo de toda uma nação. Pouco mais se sabe sobre a sua infância, além do seu gosto por desenhar e de ter ficado órfão de pai antes de completar o seu sexto aniversário.
Enquanto crescia com as agruras da Grande Depressão, Steve interiorizava os valores que a sua mãe lhe inculcava: honra, patriotismo, espírito de sacrifício em prol do bem maior. Quando Sarah Rogers sucumbiu a uma pneumonia, Steve, na ponta final da puberdade, ficou sozinho e desamparado num mundo que caminhava em passo estugado para a guerra.
Horrorizado com as notícias acerca das atrocidades cometidas pelos nazis na Europa e pelos japoneses na Ásia, Steve sentiu que tinha de fazer algo e tentou alistar-se no Exército. No entanto, devido ao seu extenso catálogo de enfermidades (asma, raquitismo, arritmia cardíaca, etc.), foi classificado como inapto para o serviço militar.

Steve Rogers foi rejeitado pelo Exército,
 devido à sua fraqueza física e à sua saúde precária.

Inconsolável, Steve implorou para que o deixassem lutar pelo seu país, captando assim a atenção do general Chester Phillips. Foi pela mão dele que participou no Projeto Renascimento, um programa científico ultrassecreto que objetivava a criação de um exército de supersoldados capazes de travar as imparáveis hordas nazis que já haviam conquistado metade do Velho Continente. 
Num laboratório subterrâneo em Washington D.C., Steve foi apresentado ao Professor Joseph Reinstein e inoculado com o seu Soro do Supersoldado. Em seguida, foi bombardeado com raios vita, combinação de diferentes tipos de radiação projetada para acelerar e estabilizar os efeitos do composto químico no seu organismo.
Concluída a experiência, Steve estava irreconhecível. O jovem atrofiado dera lugar a um espécime apolíneo. Os festejos foram no entanto interrompidos pelos disparos de um espião nazi, que assim cumpriu a sua missão de assassinar o Professor Reinstein. 


O Soro do Supersoldado transformou o frágil Steve Rogers num Adónis.

Com a morte de Reinstein e a sua fórmula incompleta, Steve tornou-se o único supersoldado do Exército americano. Depois de submetido a um programa de treino intensivo no plano físico e no plano tático, o Capitão América recebeu o seu icónico escudo e a sua primeira missão: confrontar o seu homólogo nazi, o sinistro Caveira Vermelha.
Nos intervalos entre missões, o Capitão América fazia-se passar por um bisonho recruta de Infantaria, em Camp Lehigh (Virgínia). Foi lá que contraiu estreita amizade com Bucky Barnes, um jovem órfão que era a mascote do regimento.  Bucky ofereceu-se para lutar ao lado do Capitão América, depois de descobrir que ele e Steve Rogers eram a mesma pessoa.
Além de Bucky, o Capitão América travou incontáveis batalhas ao lado do Esquadrão Vitorioso e dos Invasores. As suas façanhas tornaram-se lendárias nos quatro cantos do mundo e foram decisivas para a vitória aliada na II Guerra Mundial. Porém, glória e tragédia andam quase sempre de mãos dadas.
Em abril de 1945, nas vésperas da derrocada do III Reich, o Capitão América e Bucky foram dados como mortos. Quando tentavam desativar uma bomba instalada num avião projetado pelo Barão Zemo, Bucky foi apanhado pela explosão do engenho e o Capitão América despencou nas águas geladas do Atlântico Norte.

O Capitão América foi a resposta dos EUA
 ao Caveira Vermelha, o supersoldado nazi.

Uma vez mais, porém, o destino tinha outros planos para Steve Rogers. Durante as duas décadas seguintes, permaneceu em animação suspensa, aprisionado num bloco de gelo arrastado pelas fortes correntezas. Até ser acidentalmente descongelado pelo seu ex-aliado Namor e resgatado pelos incrédulos Vingadores - que logo passaria a comandar.
De volta ao mundo dos vivos, o Capitão América passou a enfrentar novas e velhas ameaças. Muitos dos seus antagonistas recorrentes corporizam ideologias contrárias aos valores americanos em defesa dos quais o herói continua a erguer bem alto o seu escudo: Caveira Vermelha (nazismo), IMA (fascismo tecnocrático), Corporação Roxxon (capitalismo amoral), Apátrida (antipatriotismo) e Hydra (terrorismo internacional). Ontem como hoje, o Sentinela da Liberdade mantém-se vigilante e pronto a sacrificar-se pelo seu país.

Guardião espiritual do Sonho Americano.


Miscelânea

*Além de Sentinela da Liberdade, o Capitão América é também cognominado Lenda Viva, Supersoldado, Homem Fora do Tempo, Flagelo de Todo o Mal, Cabeça Alada e Porta-Bandeira;
*Apesar de ter sido o primeiro Capitão América, Steve Rogers não foi o único a portar o escudo e a fazer da Stars and Stripes a sua segunda pele. William Naslund ( vulgo Independente), Jeffrey Mace (Patriota) William Burnside, John Walker (Superpatriota) e, mais recentemente, Bucky Barnes e Sam Wilson (Falcão) foram alguns dos homens que assumiram o legado do Sentinela da Liberdade durante a sua ausência. Infelizmente, nem todos estiveram à altura dele;

Alguns dos homens que já assumiram o legado do Sentinela da Liberdade.

*Steve Rogers é um dos raríssimos humanos dignos de empunharem o Mjolnir. A primeira vez que tal aconteceu foi em Mighty Thor #390 (abril de 1988), durante a invasão de Seth e seus seguidores à Mansão dos Vingadores. Ironicamente, Rogers havia sido pouco tempo antes exautorado pelo Governo americano, tendo sido obrigado a criar um novo alter ego, passando a atender simplesmente por Capitão. Na sequência desses eventos, o Deus do Trovão expressou a sua vontade de que, em caso de morte, o seu martelo encantado deveria ser confiado a Rogers;
*Antes de ser recrutado para o Projeto Renascimento, Steve Rogers era um promissor artista gráfico. Após o seu descongelamento, trabalhou durante algum tempo para a Marvel Comics como ilustrador freelancer. Uma das personagens a quem emprestou o seu traço foi o próprio Capitão América. Ocasionalmente, Rogers criticava os argumentistas por falharem em compreender aquilo que o herói representava;
*Agastados com o revivalismo da sua criação pela Atlas Comics no ano anterior, em 1954 Joe Simon e Jack Kirby criaram uma paródia do Capitão América. Fighting American começou por ser apadrinhado pela Prize Comics antes de, a meio da década seguinte, se transferir para a Harvey Comics, onde encerrou a sua meteórica carreira editorial na Idade de Prata. Impregnadas de subtexto político e humor mordaz, as histórias de Fighting American satirizavam a paranoia anticomunista fomentada pelo macarthismo, à qual o Capitão América dava corpo naquela época;

Fighting American parodiava o Capitão América.

*Em 1966, Joe Simon moveu uma ação legal contra a Marvel Comics, declarando-se o legítimo detentor dos direitos autorais do Capitão América. A despeito do entendimento alcançado entre as duas partes nesse mesmo ano, o diferendo só ficaria definitivamente resolvido em 2003. No âmbito de um acordo extrajudicial, a Marvel, mesmo considerando improcedentes as reivindicações de Simon, concordou em pagar-lhe royalties referentes à venda de merchandising e ao licenciamento da personagem;
*Steve Rogers é incapaz de embriagar-se. Acelerado pelo Soro do Supersoldado, o seu metabolismo neutraliza, quase instantaneamente, os efeitos do álcool ou de qualquer outra substância psicotrópica por ele consumida;
*Não obstante o duelo entre o Capitão América e o Batman - apresentado em Marvel vs DC (1996) - ter terminado empatado, no mesmo crossover o Sentinela da Liberdade levou a melhor sobre Bane, o vilão que deixara Bruce Wayne paralítico, em Knightfall (1994). Em face dessa proeza, Batman reconhece que, apesar de as habilidade de combate de ambos se equivalerem, o Capitão América seria capaz de derrotá-lo devido às vantagens físicas conferidas pelo Soro do Supersoldado;
*No Universo Amálgama, o Capitão América foi fundido com duas personagens da DC: Super-Homem e Capitão Marvel Jr. Desse processo resultaram, respetivamente, Supersoldado e Capitão América Jr.; 

Clark Kent, o Supersoldado do Universo Amálgama.

*Em resposta ao recrudescimento das tensões raciais nos EUA, em 1969 a Marvel emparelhou o Capitão América com o seu primeiro herói afrodescendente. Falcão seria o  parceiro mais duradouro do Sentinela da Liberdade na sua cruzada em defesa do Sonho Americano;
*No início dos ano 90, a banda de rock escocesa Eugenius, sob ameaça de um processo interposto pela Marvel, foi obrigada a mudar de nome, depois de ter lançado um par de álbuns como Captain America;
*Em fevereiro de 2007, no rescaldo da Guerra Civil, o Capitão América foi alvejado na escadaria do Capitólio, a caminho do seu julgamento. A sua morte (entretanto revertida) causou enorme choque e comoção tanto no Universo Marvel como no mundo real. O New York Times, por exemplo, fez manchete do sucedido, retratando Steve Rogers como expressão e signo do ideal americano;
*A estreia do Capitão América em Terras Tupiniquins remonta a junho de 1943, no 73º número de O Guri, suplemento juvenil do Diário da Noite - o primeiro a ser editado no mesmo formato dos comic books americanos;
*Na lista dos cem melhores super-heróis de todos os tempos, divulgada em 2011 pelo portal de entretenimento IGN, o Capitão América surge em 6º lugar. Dentre os seus congéneres da Casa das Ideias, apenas Homem-Aranha (3º) e Wolverine (4º) conseguiram melhor classificação;
*O Capitão América foi o primeiro herói da Marvel a fazer a transição para o celuloide. Em 1944, Dick Purcell tornou-se o primeiro ator a interpretar o Sentinela da Liberdade em Captain America, série cinematográfica em 15 capítulos produzida pela Republic Pictures - e com assinaláveis diferenças relativamente ao cânone. Antes de se tornar o porta-bandeira do MCU - onde, de 2011 a 2019, foi encarnado por Chris Evans - o Sentinela da Liberdade teve direito a dois telefilmes - Captain America e Captain America: Death Too Soon (ambos de 1979 e estrelados por Reb Brown) - e, em 1990, o filme Captain America (com Matt Salinger como protagonista) foi lançado diretamente em vídeo. O impressionante lastro mediático do Capitão América, refletindo a sua importância no imaginário coletivo, abrange igualmente dezenas de animações, jogos de vídeo e até novelas literárias.

Dick Purcell, Reb Brown, Matt Salinger e Chris Evans encarnaram a Lenda Viva.




*Este blogue tem como Guia de Estilo o Acordo Ortográfico de 1990 aplicado à norma europeia da Língua Portuguesa.
*Artigos sobre Joe Simon, Timely Comics e Caveira Vermelha disponíveis para leitura complementar.







12 novembro 2021

ETERNOS: CURT SWAN


  Durante mais de três décadas, o seu lápis esculpiu laboriosamente um dos maiores totens da cultura popular. Considerado o artista definitivo do Super-Homem, o seu monumental legado continua a ser reverenciado por pares e fãs nostálgicos. Via-se, porém, a si mesmo como operário de uma indústria ingrata.

Na esteira de Joe Shuster, foram dezenas os artistas que, ao longo de mais de 80 anos, emprestaram o seu traço ao Homem de Aço. Nessa multidão intermutável de talentos sobressaem nomes como Wayne Boring, John Byrne ou Dan Jurgens. Sem desprimor para os demais, a cada um deles correspondeu uma era de intenso fulgor. Mas nenhum deixou uma marca tão profunda no primeiro dos super-heróis como Curt Swan.
Existe um antes e um depois de Curt Swan na mitologia do Super-Homem. O seu percurso profissional confunde-se com a carreira editorial do herói nas Idades de Prata e de Bronze. Nenhum outro artista desenhou tantas  vezes ( e por tanto tempo) o Homem do Amanhã. Entre capas, tiras e páginas interiores, terão sido, por junto, mais de 19 mil as artes assinadas por Curt Swan durante o seu longo consulado nos títulos da Superfamília.
Tão importante como a quantidade era, outrossim, a qualidade do trabalho de Swan. Que, a despeito do seu inegável virtuosismo, sempre se viu a si mesmo como um humilde proletário de uma indústria em que todos são descartáveis. Um zangão incansável dentro de uma colmeia fervilhante, destinado a morrer depois de cumprir o seu propósito.
Swan definiu a aparência do Super-Homem não para uma, mas para duas gerações. Sob o seu lápis sensível, o Último Filho de Krypton humanizou-se. O estranho visitante de outro planeta passou a absorver mais do nosso afeto e simpatia. Swan chancelou também vários dos momentos capitais do cânone do Homem de Aço, como o primeiro encontro deste com  Batman ou o seu casamento com Lois Lane. Com Otto Binder, outro zangão, criou Krypto, o cão de estimação do Superboy e um dos elementos mais acarinhados da Superfamília. Apenas uma das muitas adições da sua coautoria à mitologia da personagem que o alcandorou ao panteão da 9ª Arte.
Por tudo isto, Curt Swan é geralmente apontado como o artista definitivo do Super-Homem. Mas por trás da lenda existiu um homem. Um homem decente na sua simplicidade, cuja vida e obra, um quarto de século volvido sobre o seu desaparecimento, vale a pena revisitar. Por imperativo de memória numa época fértil em revisionismos históricos.

Curt Swan criou a imagem do Super-Homem que se tornou ícone popular.
(Montagem executada por Emerson Andrade,
a quem deixo aqui o meu agradecimento muito especial).

Curt Swan nasceu Douglas Curtis Swan a 17 de fevereiro de 1920. Teve como berço Wilmar, cidadezinha agrícola do Minnesota ufana do seu estatuto de maior produtora de perus do estado. Seria no entanto outra a ave a defini-lo. Em finais do século XIX, a sua avó paterna, imigrante sueca instalada no Canadá, abreviara o apelido familiar de Swanson para Swan (cisne). No Oriente, o cisne simboliza, entre outras coisas, a coragem, a nobreza e a elegância. Predicados que, ao longo da sua vida, Swan demonstrou ter em comum com o Último Filho de Krypton.
O mais novo dos cinco filhos de um casal da classe trabalhadora - o pai ferroviário, a mãe auxiliar no hospital local -, Swan cresceu a admirar as histórias ilustradas dadas à estampa pela Collier's e outras revistas da época. Cedo demonstrou também talento para desenhar, vendendo o seu primeiro trabalho - um tira rudimentar desenhada na parte de trás de um calendário de mesa - a um colega da sua turma do 6º ano. A sua habilidade com o lápis também não passou despercebida aos professores, que frequentemente a requisitavam para as suas aulas ou em atividades extracurriculares. Ganhar a vida a rabiscar era, todavia, algo com que o pequeno Swan nem se atrevia a sonhar.
Nos anos de chumbo da Grande Depressão, Swan, ainda adolescente, conseguiu emprego num armazém para ajudar a equilibrar o magro orçamento familiar. Desenhar continuava a ser um passatempo que o ajudava a suportar as agruras de um dia a dia pautado pela incerteza.
Quando atingiu a maioridade, Swan alistou-se na Guarda Nacional do Minnesota e, dois anos mais tarde, foi incorporado nas fileiras do Exército. Em 1941, após breve passagem por Forte Dix (Nova Jérsia), o seu regimento de Infantaria foi destacado para a Irlanda do Norte. Foi já com as divisas de sargento cosidas na farda que Swan teve a sua primeira oportunidade como artista.
Enquanto desenhava um mural no Clube da Cruz Vermelha de Fintona - pequena vila rural a cerca de uma centena de quilómetros de Belfast - Swan travou conhecimento com Dick Wingert. Um daqueles obséquios do acaso que lhe mudaria as agulhas da vida. Wingert trabalhava como cartunista no jornal oficial do Exército - o Stars and Stripes - e, impressionado com o talento de Swan, sugeriu-lhe que contactasse o coronel que dirigia a publicação.

Foi no jornal castrense Stars and Stripes que Swan
 deu os seus primeiros passos no campo da ilustração.

Sem saber exatamente que tipo de função poderia desempenhar no jornal, e sem grande jeito com as palavras, Swan pediu a um colega que lhe redigisse uma breve nota de apresentação que juntou a algumas ilustrações da sua autoria enviadas por correio. Foi quanto bastou para, logo depois, ser transferido para Londres, onde reforçou o staff artístico do Stars and Stripes.
Longe das frentes de batalha onde alguns dos seus ex-camaradas de armas perderam a vida, Swan especializou-se no desenho de mapas que mostravam a progressão das tropas aliadas no terreno. Ilustrar reportagens de guerra e tiras humorísticas eram outras das suas incumbências. Durante a sua passagem pelo Stars and Stripes, Swan cunhou amizade para a vida com o escritor da DC France Herron. Anos mais tarde, seria pela mão dele que daria os primeiros passos na Editora das Lendas.
Nos últimos meses de 1943, Swan foi transferido para Paris e alugou um modesto apartamento perto da Torre Eiffel. A viver o sonho de qualquer artista, passava longas horas a desenhar junto às margens do Sena. Pedir em casamento a sua musa de sempre pareceu-lhe, por isso, o passo lógico seguinte. Helene Brickley era uma funcionária da Cruz Vermelha Americana destacada para a capital francesa. Os caminhos de ambos tinham-se cruzado pela primeira vez quando Swan estava aquartelado em Fort Dix. O amor floresceu e, após algum tempo separado pela guerra, o casal trocou alianças no verão de 1944, na Cidade Luz.
De regresso à vida civil e a terras do Tio Sam, Curt Swan acalentava a esperança de encontrar trabalho na área da ilustração. O passatempo de infância poderia, afinal, servir para pôr comida na mesa. Após uma breve estadia em Minneapolis (erroneamente indicada em biografias avulsas como a sua cidade natal), Swan mudou-se de armas e bagagens com a mulher para Nova Iorque.
Na Grande Maçã já se encontravam vários ex-colaboradores do Stars and Stripes, incluindo France Herron, que, nesse emmeio, recuperara o seu posto na  Editora das Lendas. Por sugestão deste, Swan fez chegar algumas amostras do seu trabalho a Whitney Ellsworth, um dos mais influentes editores da DC. Ellsworth ficou agradado com o que viu e Swan foi prontamente contratado para desenhar Boy Commandos, série originalmente desenvolvida por Joe Simon e Jack Kirby.

Boy Commandos #16 (julho de 1946) foi
 o primeiro trabalho de Swan para a DC.

Radiante com a perspetiva de receber 18 dólares (maquia apreciável na época) por cada página desenhada, Swan acreditava, contudo, que, quando muito, aquele seria um emprego para um par de anos. Com o declínio das vendas no pós-guerra, ele intuía que a indústria dos comics teria os dias contados. Nem imaginava que trabalharia nela pelo resto da vida.
À parte um trimestre de aulas noturnas no Instituto Pratt (instituição privada com forte tradição nas artes), ao abrigo de um programa de reinserção social de veteranos da II Guerra Mundial patrocinado pelo governo federal, Curt Swan era um autodidata. Por conseguinte, embora o salário auferido na DC fosse atrativo, depressa descobriu o ror de tempo necessário para desenhar uma página. Como era apanágio de muitos artistas novatos, Swan colocava demasiados detalhes no seu trabalho, ficando desapontado com a sua reduzida capacidade de produção.
Graças às preciosas dicas de Steve Brodie, um dos mais experientes artes-finalistas da DC, Swan aprendeu a acelerar o lápis e logo passou a produzir 3 a 4 páginas por dia. Para embolsar a pequena fortuna de 10 mil dólares anuais, Swan trabalhava 14 a 16 horas por dia, sete dias por semana. Quando não estava sentado diante do estirador, Swan, pai de três filhos, gostava de passar o seu tempo livre em família ou em ocasionais partidas de golfe.
Na viragem da década de 50, o azafamado Curt Swan tinha assumido a arte de três séries periódicas (a Boys Commandos, somara Tommy Tomorrow e Gangbusters), datando também dessa época as primeiras capas de Superboy da sua autoria. Começava assim a sua vetusta relação com os títulos do Último Filho de Krypton. Estes tinham como editor Mort Weisinger, notório pelo seu temperamento explosivo e por ser mais papista do que o Papa. Qualquer ligeiro desvio ao padrão visual do Super-Homem fazia-o torcer-se de furor. Swan foi alvo recorrente do bullying editorial de Weisinger, ao ponto de começar a sofrer de dores de cabeça insuportáveis.
Em 1951, Swan atingiu o limiar crítico da sua paciência. Depois de constatar que a pressão profissional lhe estava a prejudicar a saúde e a vida familiar, trocou a DC por uma pequena agência publicitária especializada na promoção de brinquedos.

Superboy foi o primeiro membro da Superfamília desenhado por Swan.

Embora apreciasse sobremaneira o ritmo mais tranquilo do seu novo emprego, o rendimento mensal de Swan encolheu para menos de metade. Regressou, por isso, à DC no mês seguinte, tendo sido recebido de braços abertos por todos - inclusive pelo próprio Weisinger. Que, no entanto, continuava a não poupá-lo às suas diatribes. Novamente acometido de enxaquecas, Swan encheu-se de brios e, de pé firme, enfrentou Weisinger. Para sua surpresa, o mais temido dos editores passou a respeitá-lo e, como por magia, as dores de cabeça desapareceram.
Indicar com precisão qual foi o primeiro trabalho de Curt Swan com o Super-Homem afigura-se tarefa complicada. Até meados dos anos 50, nem todos os autores de cada edição eram devidamente creditados. Era também comum o recurso a "artistas fantasmas", que encontravam maneiras engenhosas de esconder as suas iniciais no material que produziam. Segundo alguns investigadores da 9ª Arte, Swan preferia outro artifício: desenhar personagens com os dedos do meio das mãos unidos. Razão pela qual algumas fontes sinalizam Superman #51 (março de 1948) como a primeira vez em que o lápis de Swan substituiu o de Wayne Boring na série mensal do Homem de Aço. 
Certo é que, em 1953, Swan foi o eleito (em detrimento de Boring e Al Plastino) para ilustrar Three-Dimension Adventures Superman, edição especial em 3D lançada à boleia da popularidade de que os filmes nesse formato gozavam na altura. Esse projeto marcou a estreia oficial de Curt Swan como artista do Super-Homem.

Nesta edição especial de 1953,
Swan foi creditado pela primeira vez como artista do Homem de Aço. 

Dois anos mais tarde, em 1955, Swan foi chamado por Weisinger a render Wayne Boring em Superman. Como já vinha ilustrando Superboy e Superman's Pal Jimmy Olsen desde o ano anterior, Swan encarou isso como uma extensão natural do seu trabalho.
A pedido de Weisinger, Swan retocou o visual do Homem de Aço. Começando pelo queixo quadrado que, durante o longo consulado de Boring, se tinha tornado imagem de marca do herói. Como forma de torná-lo mais poderoso e menos caricatural, Swan acentuou-lhe também os músculos.
Swan desenhava como ninguém expressões faciais. Por meio delas conseguia reproduzir os diferentes estados de alma do Último Filho de Krypton, cujo voo adquiriu igualmente maior graciosidade. Foi essa elegância e humanidade que Swan trouxe à personagem. Para esse efeito, tomou como modelos John Weissmuller (o mítico Tarzan cinematográfico dos anos 30 e 40) e George Reeves (que viveu o Super-Homem na não menos lendária série televisiva da década de 1950).
Nos anos 60, o traço de Curt Swan era ubíquo na linha de títulos da Superfamília: Action Comics, Superman, Adventure Comics, Superboy, Superman's Pal Jimmy Olsen, Superman's Girl Friend Lois Lane e World's Finest. Era difícil encontrar naquela época uma história do Homem de Aço desenhada por outro artista. A obsessão de Swan pelo realismo, inspirada nos ilustradores clássicos, e a sua predileção por temas genuinamente americanos faziam dele o Norman Rockwell dos quadradinhos. Essa influência era patente, em particular, nas histórias do Superboy, onde as paisagens de Smallville invocavam os óleos bucólicos de Rockwell.
Um facto muitas vezes omisso no impressionante currículo de Curt Swan é que, além de fazer o pleno nos títulos da Superfamília, ele desenhava ainda as tiras diárias do Super-Homem. Em 1954, Swan vira ser rejeitada por diversos jornais uma tira da sua autoria (Yellow Hair contava a história de um menino branco adotado por índios), mas o Homem de Aço permitiu-lhe trabalhar com esse tipo de material.

Yellow Hair, a tira inédita de Curt Swan.

Nessa era de absoluto esplendor, Swan não foi apenas o criador da imagem arquetípica do mais arquetípico dos super-heróis, mas também o melhor expoente do estilo gráfico característico da DC naquela época: figuras bem proporcionadas, traços definidos e simétricos, vestuário impecável e, claro, mulheres lindas de morrer. Também as crianças desenhadas por Swan pareciam crianças, ao invés de adultos em miniatura. Não admira, por isso, que a Marvel o tenha assediado sem, contudo, conseguir enfraquecer a sua lealdade à sua editora de sempre.
Em agosto de 1967, Swan associou o seu nome a outro momento histórico do cânone da DC: a primeira corrida entre o Super-Homem e o Flash. Publicada em Superman #199, a arte cinética de Swan ainda hoje serve de referência aos profissionais do lápis chamados a recriar a alucinante competição para encontrar o homem mais rápido do mundo.

A arte vibrante de Swan na corrida do século.

Embora sempre tenha preferido desenhar o Homem de Aço, o trabalho realizado por Curt Swan na Legião dos Super-Heróis foi tudo menos despiciendo.  A sua versatilidade e o seu estilo elegante incutiram um novo apelo às histórias do grupo nas quais Superboy era um habitué. Computo e Imperatriz Esmeralda, arqui-inimigos da Legião, foram duas das suas criações mais importantes para a série.
À medida que os comics evoluíam durante a chamada Idade de Bronze, o mesmo acontecia com o Super-Homem de Swan. Sob cujo traço o Último Filho de Krypton se tornou uma figura mais graciosa e inspiracional com o toque dramático que os padrões da época impunham. Uma das razões pelas quais Christopher Reeve foi a escolha perfeita para encarnar Kal-El no cinema foi porque ele parecia ter sido recortado de um qualquer painel desenhado por Swan. Superman, The Movie foi uma carta de amor à Idade de Prata, apresentando o mesmo herói imponente e compassivo que Swan esculpira laboriosamente.


Christopher Reeve foi a versão de carne e osso do Super-Homem de Curt Swan.

Depois de, em 1985, ter visto o seu nome incluído em Fifty Who Made DC Great, no ano seguinte Curt Swan foi inopinadamente afastado dos títulos do Super-Homem. Longe dos seus tempos de glória, o Último Filho de Krypton era agora considerado antiquado. E o mesmo se aplicava à arte de Swan. De um dia para o outro, o artista que redefinira o Homem de Aço fazendo dele um imbatível campeão de vendas teve os seus serviços dispensados. Sem pompa nem circunstância, sem uma palavra de reconhecimento. Derrubado do pedestal por quem lhe devia carregar o andor. Apesar de nunca a ter verbalizado, a mágoa daí resultante acompanharia Swan pelo resto da vida. 
Escrita por Alan Moore, O que aconteceu ao Homem do Amanhã? (já aqui esmiuçada) assinalou, a um só tempo, o fim da Idade de Prata e a despedida de Curt Swan enquanto artista regular do Super-Homem. Foi o cintilante culminar de uma era que teve em Swan um dos seus mais diligentes obreiros.
Nos anos seguintes, Curt Swan, apesar de reformado, continuou envolvido em projetos menores da DC, incluindo a arte de uma das mais raras edições do Super-Homem. This Island Bradman foi uma banda desenhada personalizada encomendada em 1988 por Godfrey Bradman, magnata do imobiliário, como presente para o Bar Mitzvah do seu filho. Fora da sua zona de conforto, Swan ilustrou ainda Swamp Thing, Teen Titans e uma minissérie de Aquaman

This Island Bradman (1988).
Uma das maiores raridades do Super-Homem com assinatura de Curt Swan.

Curt Swan ganhou o seu primeiro prémio apenas em 1984,
ano em que lhe foi atribuído o Inkpot Award para melhor desenhador.

A exemplo de muitos dos seus pares, Curt não acautelara financeiramente o seu futuro, pelo que se viu obrigado a continuar a trabalhar, em prol tanto da sua sanidade mental como da sua sobrevivência. Com o tempo, porém, as suas colaborações com a DC foram-se tornando cada vez mais escassas. O seu canto do cisne foram as cinco páginas publicadas postumamente em Superman: The Wedding Album (dezembro de 1996). Numa amarga ironia, o casamento de Swan com Helene Brickley tinha chegado ao fim pouco tempo antes.
Curt Swan partiu durante o sono no seu apartamento em Wilton (Connecticut), a 17 de junho de 1996. Um fim sereno para um discreto mestre da Arte Sequencial; cisne branco transformado em patinho feio pelos caprichos de uma indústria sem escrúpulos em triturar quem a engrandeceu. 
Swan transcendeu gerações, dedicou-se de alma e coração à sua personagem de sempre e, acima de tudo, abriu caminho. Embora não tenha sido o primeiro a chegar, ele introduziu estilos, recursos e elementos que serviram de referências para as gerações posteriores de artistas a quem foi concedido o privilégio de desenhar o maior herói de todos os tempos. 
À sua maneira, Curt Swan foi ele próprio um herói.  Quando questionado sobre qual havia sido o prémio mais importante da sua carreira, ele respondeu simplesmente: "O sorriso de uma criança ao ler uma história do Super-Homem desenhada por mim." 


*Este blogue tem como Guia de Estilo o Acordo Ortográfico de 1990 aplicado à norma europeia da Língua Portuguesa.







     



 








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