09 abril 2022

HERÓIS EM AÇÃO: FANTASMA


  Dizem que tem a força de dez tigres; que marca para sempre os seus inimigos; que não pode morrer nem ser morto. Temida e reverenciada, a lenda do Espírito-Que-Anda nasceu nas misteriosas selvas de Bangalla, cresceu com os séculos e assombra o mundo inteiro. 

Denominação original: The Phantom
Licenciador: King Features Syndicate
Criador: Lee Falk
Estreia: The Singh Brotherhood (tira diária cujo capítulo inicial foi publicado a 17 de fevereiro de 1936)
Identidade civil: Christopher "Kit" Walker
Espécie: Humano
Local de nascimento: Caverna da Caveira, nas profundezas da Floresta Negra de Bangalla.
Parentes conhecidos: Christopher Walker (pai, falecido); Maude Thorne McPatrick (mãe, falecida); Diana Palmer (esposa); Kit e Heloise Walker (filhos); Rex King (filho adotivo); todos os anteriores Fantasmas (antepassados).
Ocupação: Guardião da Floresta Negra e comandante-em-chefe da Patrulha da Selva.
Base operacional: Caverna da Caveira
Afiliações: Patrulha da Selva
Némesis: Irmandade Singh
Poderes e parafernália: Dizem que tem a força de dez tigres; que tem mil olhos e tudo vê; que vive há mais de 400 anos. Por mais exagerados que sejam os rumores relacionados com os pretensos poderes sobrenaturais do Fantasma, nem por isso ele deixa de ser um oponente temível para quem incorre na sua fúria.
Todas as encarnações do Espírito-Que-Anda são treinadas desde tenra idade numa ampla variedade de técnicas de sobrevivência e em modalidades olímpicas tão diversificadas como natação, halterofilismo ou salto em comprimento e altura. Em resultado dessa rigorosíssima preparação física, cada Fantasma possui força, velocidade, agilidade e resistência superiores às de um ser humano comum. Complementarmente, todos os Fantasmas recebem treino intensivo no manuseio de diferentes tipos de armamento. Ainda que sejam tradicionalmente exímios espadachins, é nas pistolas que têm as suas armas de eleição. Segundo um velho ditado da selva, o Fantasma atira mais rápido do que os olhos conseguem acompanhar e nunca erra o alvo. Salvo, porém, em situações de legítima defesa, o seu restrito código de ética proíbe-o de empregar força letal. Em vez disso, o Fantasma prefere fazer uso da sua pontaria afinada para desarmar os seus atacantes. 
No cinturão de couro herdado dos seus antepassados, o atual Fantasma carrega um par de pistolas semiautomáticas M1911, calibre .45 e de fabrico americano. Em alternativa, pode recorrer ao punhal que traz escondido nas botas de cano alto. Na maioria das situações, depende no entanto apenas da sua força e astúcia.

"Nunca apontes uma arma ao Fantasma." (Velho ditado da selva)

Apesar de o Fantasma possuir uma mente arguta, é o seu poderio físico que mais atemoriza os malfeitores. Quando em combate, ele nunca pára, nunca abranda, cada movimento encadeado com o seguinte, numa aterradora erupção de violência. Os seus punhos são demolidores, os seus reflexos felinos, o seu vigor inesgotável.
Dono de um físico imponente e de uma voz de trovão capaz de gelar o sangue nas veias, o Fantasma, à luz do dia ou na escuridão da noite, é sempre uma presença intimidante. As suas aparições provocam arrepios glaciares mesmo aos mais embrutecidos. Quando ele fala, é sábio ouvi-lo. Quando ele pergunta, é ainda mais sábio responder-lhe sem rodeios.
Passados de pai para filho, os dois anéis de sinete usados pelo Fantasma desempenham funções díspares e possuem origens tão enigmáticas como o seu usuário. Na mão esquerda, mais próxima do coração, o herói usa um anel com quatro sabres cruzados, a chamada Marca do Bem. É com ela que o Espírito-Que-Anda assinala os povos e territórios sob sua proteção. Reza a lenda que a joia terá sido criada depois de o 6º Fantasma ter fundado a Patrulha da Selva (ver Miscelânea). Na mão direita, a sua preferida para esmurrar, o Fantasma usa um anel com a efígie de uma caveira humana, a infame Marca do Mal. Quem a tem tatuada na pele é seguramente um facínora da pior espécie.

As marcas do Fantasma.

Na versão original, narrada nas tiras assinadas por Lee Falk, o anel da caveira é feito de ouro e foi uma oferenda de chefes tribais ao primeiro Fantasma em reconhecimento pela paz e justiça que ele trouxera à selva. Outra versão, apresentada nas histórias atuais do herói produzidas na Escandinávia, afirma que a joia terá tido como proprietário original o imperador romano Nero antes de Paracelso, alquimista suíço do século XVI, a ter ofertado ao primeiro Fantasma. Envoltos numa aura de mistério e misticismo, aos anéis são atribuídos poderes sobrenaturais pelos nativos de Bangalla.
Fundamentais para a missão predestinada de cada Fantasma são também os ensinamentos dos seus ancestrais, compilados sob a forma de crónicas arquivadas na biblioteca da Caverna da Caveira. Um imenso repositório de informação e saber acumulados ao longo de séculos, apenas acessível ao mais recente herdeiro da linhagem.
Na sua eterna cruzada contra o Mal, o atual Fantasma conta com a preciosa ajuda de dois escudeiros quadrúpedes: Diabo, um lobo cinzento frequentemente confundido com um cão, e Herói, um magnífico garanhão branco que lhe serve de montaria. Aos Bandar, agora chefiados por Guran, amigo de infância de Kit Walker, compete zelar pela segurança da família do Espírito-Que-Anda durante as suas ausências.
Sempre que o perigo ronda a Floresta Negra, tambores frenéticos convocam o Espírito-Que-Anda. Porque a lei na selva é a lei do Fantasma.

O Fantasma e as suas mascotes em patrulha na selva.

Fraquezas: À semelhança de qualquer outra figura mítica, é na superstição que o Fantasma tem a verdadeira fonte do seu poder. A sua temível reputação assenta, em primeiro lugar, na crença enraizada de que ele é um espírito imortal. Se o soubessem humano, os seus inimigos passariam decerto a temê-lo menos. 
Para preservar a lenda que o rodeia, o Fantasma desafia constantemente a morte executando ações tão temerárias quanto perigosas. Saltar de penhascos, lutar com tigres ou nadar com tubarões são alguns exemplos. Tratando-se de um homem de carne e osso, essas situações podem facilmente ter um desfecho trágico. Ademais, como sucede em qualquer linhagem, existe o risco real de o Fantasma perecer antes de assegurar descendência, comprometendo irremediavelmente o futuro daquela que é uma das mais longevas dinastias da História.

O Fantasma já enfrentou tigres de mãos desnudas.


Ícone global

Quase tão antiga como a dúvida acerca do ovo e da galinha é a discussão sobre quem foi, afinal, o primeiro super-herói. A generalidade dos historiadores atribui esse estatuto ao Super-Homem que, como é consabido, foi apresentado ao mundo em junho de 1938, no número inaugural de Action Comics. É facto inconteste que Kal-El foi o primeiro justiceiro fantasiado com poderes semidivinos. Mas não foi ele que prenunciou um figurino que se tornaria moda nos anos imediatos. Essa honra reverte para outra personagem que marcou de forma indelével a cultura popular: o Fantasma.
Dois anos antes de o Homem de Aço colocar a sua capa de campeão dos fracos e oprimidos, já o Fantasma usava um uniforme justo e uma mascarilha para servir justiça nas exóticas selvas de Bangalla. Foi também ele o primeiro herói dos quadradinhos a ter um alter ego, um símbolo estilizado e um esconderijo secreto. Apesar da ausência de superpoderes, não há como negar que o Fantasma introduziu vários elementos definidores do conceito de super-herói. A grande diferença é que ele não teve origem nos comics.
Desde o final do século XIX que as tiras de quadradinhos marcavam presença nos jornais norte-americanos. Com a criação dos syndicates - agências de produção e distribuição desse tipo de material - , elas popularizaram-se ainda mais, sendo apreciadas, em igual medida, por miúdos e graúdos. No início dos anos 30, esse apetecível mercado era dominado pela rivalidade entre a King Features Syndicate e a John F. Dille Company.
Na esteira do notável sucesso da tira Mandrake, the Magician - desenvolvida um par de anos antes por Lee Falk - , em 1936 a King Features Syndicate pediu ao autor que criasse uma segunda personagem para ser publicada naquele formato. Fascinado desde os seus tempos de meninice por mitos e lendas, bem como por figuras romanescas emanadas da literatura do início do século XX, Falk propôs inicialmente revisitar as aventuras do Rei Artur e dos Cavaleiros da Távola Redonda. Quando a King Features Syndicate rejeitou a ideia, Falk resolveu criar um justiceiro mascarado ao estilo de Zorro, um dos seus ídolos de infância.

Lee Falk (1911-1999) deu ao mundo dois dos seus maiores heróis.

Na conceção do novo herói, Falk incorporou também elementos de Tarzan, Robin Hood e do Livro da Selva, de Rudyard Kipling. Após alguma hesitação relativamente ao nome, decidiu-se simplesmente por The Phantom. Considerando existirem já demasiadas personagens com The Phantom no nome (The Phantom Detective, The Phantom of the Opera, etc.),  Falk considerara previamente batizar a sua nova criação de The Grey Ghost (O Fantasma Cinzento).
Falk começou por idealizar o Fantasma como um vigilante urbano de hábitos noctívagos a que Jimmy Wells, um playboy milionário (soa-vos familiar?), serviria de identidade civil. Enquanto escrevia a sua primeira história - The Singh Brotherhood - Falk teve no entanto uma ideia melhor. De uma penada, transplantou a ação para a selva e estruturou a história do Fantasma como uma saga familiar. Aos olhos das supersticiosas tribos locais, ele era o Espírito-Que-Anda, um ser sobrenatural que não podia morrer nem ser morto. Mas, na verdade, o Fantasma era o 21º representante de uma linhagem de vingadores mascarados, fundada séculos atrás na Floresta Negra de Bangalla. De geografia imprecisa, esta nação imaginária ficava inicialmente localizada na Ásia - algures no golfo de Bengala - sendo posteriormente deslocada para a costa oriental africana.
Quando, a 17 de janeiro de 1936, fez a sua estreia no New York Journal American, o Fantasma surpreendeu os leitores com o seu visual extravagante, em que sobressaía a máscara sem pupilas visíveis. Uma ideia que Lee Falk retirara dos bustos gregos para lhe conferir uma aparência mais inumana, ignorando que as pupilas eram pintadas mas acabavam por ser apagadas pela erosão do tempo. De todo o modo, essa continua a ser ainda hoje uma das imagens de marca de qualquer super-herói que se preze.

A máscara do Fantasma tornou-se icónica.

Superando as melhores expectativas da King Features Syndicate, o sucesso do Fantasma rapidamente extravasaria fronteiras, tornando-se um fenómeno de popularidade à escala planetária. No seu auge, por volta de 1966, as tiras do Fantasma, à época ilustradas por Sy Berry, eram publicadas diariamente em 600 jornais de todo o mundo, atingindo dessa forma uma audiência estimada em mais de 100 milhões de leitores.
Por razões de ordem diversa - que iam desde preferências cromáticas a (im)possibilidades gráficas - o roxo oficial do uniforme do Fantasma (que o próprio Falk relutou em reconhecer) deu lugar a outras cores em alguns dos países onde o herói granjeou mais admiradores. Se no Brasil e na Itália se privilegiou o vermelho, nas nações escandinavas foi o azul a prevalecer. Já em Portugal, onde aportou em junho de 1940 (quatro anos depois de ter desembarcado em terras de Vera Cruz), o Fantasma trajou tanto de vermelho como de roxo.


Em Portugal, o Fantasma já vestiu de roxo e vermelho.

Nos comics, o longo percurso do Fantasma iniciou-se na década de 40 com a republicação das suas tiras pela David McKay Publications. Histórias inéditas só a partir de 1962, sob a chancela da Gold Key. Depois de passagens fugazes pela Marvel e pela DC nos anos 80, coube, já neste século, à Moonstone e à Dynamite Entertainment reapresentar este herói clássico a uma nova geração de leitores. 
Curiosamente, ontem como hoje, a popularidade do Fantasma continua a ser maior extramuros do que nos EUA. Suécia, Índia e Austrália são alguns dos países onde as suas legiões de fãs deixam os heróis Marvel e DC roídos de inveja. Em todas essas latitudes existe também produção própria de histórias do Espírito-Que-Anda.
Desde 2018 que o Livro Guiness dos Recordes reconheceu oficialmente o Fantasma como o mais antigo dos super-heróis. Mas nem isso encerrou a discussão, que continua a fazer correr rios de prosa. Alguns historiadores continuam a preferir classificá-lo como uma das chamadas personagens de transição; aquelas que, nos anos 1930, fizeram a ponte entre os heróis da literatura pulp e dos folhetins radiofónicos e os super-heróis da banda desenhada, pavimentando dessa forma o caminho para a Idade de Ouro dos comics.
O Fantasma poderá até nem ter sido o primeiro super-herói, mas foi o primeiro ícone global com origem nos quadradinhos. Passou com louvor no teste do tempo e continua a fazer jus à sua fama imorredoura.

As tiras do Fantasma continuam a ser publicadas em jornais de todo o mundo.

Dinastia da Caveira

Apesar de ser o guardião da Floresta de Bangalla há mais de 400 anos, a fascinante história do Fantasma começou a ser escrita do outro lado do mundo, em terras de Sua Majestade. Rezam as crónicas que Christopher Standish nasceu no ano da graça de 1516, na cidade portuária inglesa de Portsmouth. O seu pai, de quem herdara o nome e a paixão pelo mar, fora grumete na nau Santa Maria que levara Cristóvão Colombo à América.
Em 1536, com apenas 20 anos de idade, Christopher participou naquela que deveria ter sido a viagem de despedida do seu pai, agora capitão do próprio navio. A maré do destino mudou tragicamente quando, ao largo da costa de Bangalla, foram atacados por piratas da Irmandade Singh.
Antes de perder a consciência e cair ao mar, Christopher teve um vislumbre do pai a ser assassinado pelo líder dos piratas que lhes haviam também chacinado a tripulação. Enquanto o corpo inerte de Christopher era arrastado pelas ondas, uma violenta explosão afundou as duas embarcações.
Único sobrevivente daquele brutal ataque em alto-mar, Christopher naufragou numa praia de Bangalla, onde foi encontrado por uma tribo de pigmeus. Os Bandar acolheram-no na sua aldeia e cuidaram dele até ficar restabelecido.
Dias mais tarde, ao passear pela mesma praia onde naufragara, Christopher deparou-se com um cadáver em decomposição, que reconheceu como o assassino do seu pai. Quando os abutres acabaram de banquetear-se, Christopher jurou sobre o crânio descarnado do pirata devotar a sua vida - e a dos seus descendentes - a combater a ganância, a crueldade e a injustiça em todas as suas formas. O mesmo juramento sagrado prestado por todos aqueles que, no curso dos séculos, assumiram o manto do Fantasma.

A origem do Fantasma recontada numa das suas tiras dominicais coloridas.

Quando, por fim, aprendeu o dialeto dos Bandar, Christopher descobriu que eles eram há muito escravizados por uma tribo rival, os Wazaka. Os pigmeus que o haviam resgatado eram, afinal, apenas um pequeno grupo que lograra escapar do cativeiro. Christopher ficou também a conhecer uma antiga profecia Bandar sobre um homem vindo do oceano para lhes devolver a liberdade.
Confiante de que seria ele o salvador profetizado, Christopher dirigiu-se à vila dos Wazaka para exigir a imediata libertação dos Bandar. Em vez disso, acabou amarrado a um altar para ser sacrificado a Uzuki, o deus-demónio adorado pelos Wazaka.
Novamente resgatado pelos Bandar de uma morte certa, Christopher resolveu tirar proveito da superstição dos selvagens. Após confecionar um traje roxo inspirado no ídolo de Uzuki, regressou à vila dos Wazaka. Estes. crendo estarem na presença do seu deus-demónio, libertaram de pronto os Bandar.
Em sinal de apreço, os Bandar mostraram a Christopher uma caverna com a macabra forma de uma caveira humana. Fazendo dela a sua nova morada, Christopher continuou a servir justiça na Floresta Negra. Nascia assim a lenda do Fantasma. Reverenciada pelos justos, temida pelos ímpios e que o vento que dispersa os anos carregou para os quatro cantos do mundo.

A Caverna da Caveira encerra incontáveis segredos.

Quando o primeiro Fantasma morreu, o seu filho tomou-lhe o lugar. E o mesmo vem acontecendo desde há séculos, originando o mito da imortalidade do Espírito-Que-Anda. Apenas os Bandar conhecem a verdade por detrás do mito. Mas esse é um segredo que eles levarão para o além-túmulo.
Tal como os seus antepassados, Kit Walker, o 21º Fantasma, teve a Caverna da Caveira como berço. Diz-se que "fantasma" terá sido a primeira palavra a sair-lhe da boca. Depois de ter sido iniciado pelo pai e pelos Bandar nos segredos da selva, aos 12 anos Kit foi enviado para os EUA. A tradição familiar determina que o próximo representante da dinastia da caveira passe a puberdade no torrão natal da sua mãe. A ideia é incutir-lhe um sentimento de pertença a um mundo muito mais vasto do que a Floresta Negra.
Após uma difícil adaptação aos costumes da civilização, Kit destacou-se nos estudos e no desporto. As suas extraordinárias aptidões atléticas permitiram-lhe, inclusive, levar de vencida o campeão mundial de boxe em pesos-pesados, durante uma exibição na sua escola. Seguindo as pisadas paternas, foi também na Terra das Oportunidades que Kit conheceu o amor da sua vida: Diana Palmer. Nela, o Fantasma encontrou uma companheira para a vida e por ela vai ao fim do mundo e mais além.
Recém-saído da faculdade, Kit foi convocado de volta a Bangalla. O seu pai, ferido em combate com a Irmandade Singh, agonizava no leito da morte. Cumprindo um ritual multissecular, Kit sepultou o progenitor na Caverna da Caveira antes de assumir o manto do Fantasma. Anos mais tarde, Kit fez de Diana Palmer a sua esposa e da união do casal nasceram os gémeos Kit e Heloise.
O Espírito-Que-Anda continua a assombrar a Floresta Negra, sabendo que, um dia, o seu primogénito lhe sucederá. 

Sempre que um Fantasma morre, o seu primogénito sucede-lhe.


Miscelânea

*Se Espírito-Que-Anda e O Homem Que Não Pode Morrer são epítetos cunhados pelos habitantes da Floresta Negra que ajudam a perpetuar o mito da imortalidade do Fantasma, a origem de Guardião das Trevas Orientais é mais obscura. O Fantasma foi assim cognominado em alusão a Dakk, uma imensa região inexplorada no coração de Bangalla outrora habitada por tribos ferozes, cujo modo de vida envolvia escravatura, fanatismo religioso e sacrifícios humanos. Não obstante os antepassados do atual Fantasma terem posto fim a esse conjunto de práticas ignominiosas, Dakk continua a ser um paraíso criminal que prospera graças ao terrorismo, narcotráfico e contrabando de armas. Algumas histórias sugerem que os governantes de Dakk serão descendentes de piratas da Irmandade Singh, logo inimigos jurados do Fantasma;
*Caçadores furtivos, contrabandistas, ditadores, esclavagistas e, claro, piratas integram a bem nutrida lista de inimigos do Fantasma. Nenhum deles representa, porém, uma ameaça tão temível e imorredoura como a Irmandade Singh. Ativa há séculos, esta implacável confraria de malfeitores está inextricavelmente ligada à origem da lenda do Espírito-Que-Anda e foi responsável pela morte do pai do atual Fantasma. Em virtude de Singh ser um apelido assaz comum na Índia, na década de 70 Lee Falk renomeou o grupo de Irmandade Sengh (por vezes grafada também como "Sanngh" ou "Singgh"), para evitar melindrar os leitores daquele país asiático onde o Fantasma goza de enorme popularidade. Contudo, a nova designação não vingou junto do público americano e a original depressa foi reposta;

Dogai Singh, um dos mais desapiedados líderes da Irmandade Singh.

*As tiras do Fantasma desempenharam um pequeno, porém relevante, papel na II Guerra Mundial. Quando as tropas de Hitler ocuparam a Noruega, os jornais locais - numa tentativa dos invasores para desmoralizar a população - foram obrigados a publicar notícias falsas relacionadas com o colapso dos EUA. Os mesmos jornais continuavam no entanto a incluir as historietas do Espírito-Que-Anda, que os noruegueses, ao contrário dos alemães, sabiam tratar-se de uma produção americana que desmentia a propaganda nazi. O Fantasma deu, desse modo, alento ao povo norueguês para continuar a lutar pela liberdade, e o seu nome era uma das senhas mais utilizadas pela Resistência local;
*Ainda durante a II Guerra Mundial, as provisões enviadas para os soldados aliados estacionados na Papua Nova Guiné incluíam por vezes revistas de banda desenhada, que eles partilhavam com os indígenas. Foi assim que o Fantasma virou uma espécie de deus pagão naquelas longínquas paragens da Oceania, onde a sua efígie costuma ser pintada em escudos e outros objetos cerimoniais das diferentes tribos. A este fenómeno cultural alguns antropólogos convencionaram chamar "arte pop tribal";

Exemplos da arte pop tribal da Papua Nova Guiné.

*Grande admirador da obra de William Shakespeare, Lee Falk homenageou-o de diferentes formas nas histórias do Fantasma. Numa delas, mostrava como o 3º Fantasma, depois de ter participado como ator na encenação original de Romeu e Julieta, desposara Rosamunda, sobrinha do Bardo de Avon. De igual modo, o juramento solene feito sobre uma caveira é uma referência óbvia a Hamlet
*Depois de um longo noivado de mais de quatro décadas, em 1977 o Fantasma e Diana Palmer deram finalmente o nó. Seguindo uma velha tradição familiar, o casal desfrutou da sua lua de mel em Keela-Wee. Parte do areal dessa praia paradisíaca é composto por ouro puro e uma cabana de jade serve de aposento aos nubentes. Os domínios do Fantasma estendem-se também ao Bosque Sussurrante (onde as árvores murmuram incessantemente o seu nome) e à Ilha do Éden (reserva natural onde animais de diferentes espécies - incluindo um estegossauro - coabitam harmoniosamente); 
*Citada pela primeira vez em The Jungle Patrol (tira publicada entre março e maio de 1952), a Patrulha da Selva é uma força paramilitar de aplicação da Lei formada em 1664 pelo 6º Fantasma com a ajuda do ex-pirata Barba Ruiva. Complementarmente ao título do Fantasma, o cargo de comandante-em-chefe da organização vem sendo passado de pai para filho há gerações. No entanto, desde a traição que levou à morte do 14º Fantasma, a identidade do comandante passou a ser secreta. Ninguém sabe que o Comandante Misterioso da Patrulha da Selva é, na verdade, o mais recente descendente do seu fundador. Apesar de sediada em Bangalla, a Patrulha da Selva - à qual a Legião Estrangeira serviu claramente de modelo - , conta nas suas fileiras com recrutas vindos das sete partidas do mundo, e a sua jurisdição abrange os países fronteiriços;
*Apesar de ser uma linhagem de tradição varonil, há registo de, pelo menos, uma representante do belo sexo na dinastia da caveira. No último quartel do século XIX, Julie Walker, gémea do 17º Fantasma, substituía o irmão sempre que este recuperava de ferimentos ou estava ausente da Floresta Negra. Esta versão feminina do Espírito-Que-Anda foi criada por Lee Falk em 1969 e teve as suas peripécias biográficas revisitadas em várias ocasiões;

Julie Walker, a única mulher a assumir o manto do Fantasma.

*Do ponto de vista político, o Fantasma sempre primou pela ambiguidade. As suas histórias já foram inclusivamente acusadas de reproduzirem o discurso neocolonialista. Afinal, estamos a falar de um homem branco, descendente de britânicos, que dita a sua lei num país africano. Por outro lado, o Espírito-Que-Anda assume-se muitas vezes como acérrimo defensor da autodeterminação dos povos colonizados. Contradições que, aos olhos dos fãs, apenas enfatizam a humanidade do herói, mas que os críticos associam a estereótipos racistas;
*Na Suécia, onde é praticamente um herói nacional, o Fantasma era, até 2010, a principal atração do Parken Zoo, em Eskilstuna. Nesse parque temático, inaugurado pessoalmente por Lee Falk em 1986, os visitantes podiam, entre outras coisas, explorar os recantos da Caverna da Caveira e interagir com um Espírito-Que-Anda de carne e osso;
*Entre 1972 e 1975, a Avon Publications lançou uma coleção de 15 livros do Fantasma, quase todos saídos da pena de Lee Falk e traduzidos em várias línguas (incluindo Português). A primeira adaptação literária do herói remonta, porém, a 1944. Son of the Phantom (O Filho do Fantasma) foi publicado com a chancela da Whitman Publishing Company e, apesar de baseado numa história de Lee Falk, este não teve qualquer envolvimento no processo criativo;
*O Fantasma foi um dos primeiros super-heróis a ser transposto ao grande ecrã. Em 1943, Tom Tyler (que, um par de anos antes, vivera também o Capitão Marvel) encarnou o Espírito-Que-Anda em The Phantom. Esta série em 15 capítulos produzida pela Columbia Pictures foi, até ao momento, a única a mostrar a icónica passagem de testemunho do pai moribundo para o filho. Geodfrey Prescott foi apresentado como alter ego do herói, mas apenas porque, na altura, Kit Walker ainda não fora mencionado nas tiras. A segunda (e última) incursão cinematográfica do Fantasma teve lugar em 1996, ano em que foi lançada uma longa-metragem protagonizada por Billy Zane. Também no pequeno ecrã o Fantasma tem percurso modesto: depois de ter feito a sua estreia em Defenders of the Earth (1986), estrelou uma animação intitulada Phantom 2040 (1994) e, em 2009, teve direito a uma minissérie em ação real (novamente intitulada The Phantom) com Ryan Carnes no papel principal.

Tom Tyler, o primeiro ator a encarnar o Fantasma.


*Este blogue tem como Guia de Estilo o Acordo Ortográfico de 1990 aplicado à norma europeia da Língua Portuguesa.
*Artigos sobre Lee Falk, Sy Barry e a longa-metragem do Fantasma disponíveis para leitura complementar.

 




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25 fevereiro 2022

CLÁSSICOS DA 9ª ARTE: «A MORTE DO SUPER-HOMEM»



   Numa batalha épica ante um inimigo indestrutível, o Homem de Aço, confrontado com a sua finitude, lutou até ao último suspiro para salvar a Cidade do Amanhã e a indústria dos comics. À fria luz do crepúsculo da esperança, o mundo chorou a queda do seu maior herói e nada voltaria a ser como antes.

Título original: The Death of Superman
Editora: DC
País: Estados Unidos da América
Data de lançamento: Dezembro de 1992
Títulos abrangidos: Action Comics #684; Adventures of Superman #497; Justice League America #69; Superman Vol.2 #74-75; Superman: Man of Steel #18-19
Argumento: Dan Jurgens, Louise Simonson, Roger Stern e Jerry Ordway
Arte: Dan Jurgens, Jon Bogdanove, Jerry Ordway, Jackson Guice e Tom Grummett
Protagonistas: Super-Homem, Apocalypse, Liga da Justiça América (Máxima, Bloodwynd, Fogo, Gelo, Besouro Azul, Gladiador Dourado, Guy Gardner) e Lois Lane
Cenários: Ohio, Metrópolis e vários estados do Centro-Oeste americano
Edições em português: Com direito a uma providencial nota explicativa acerca de personagens e eventos ainda desconhecidos do público lusófono, em novembro de 1993, antecipando em quase um ano a sua cronologia do Último Filho de Krypton, a Abril brasileira lançou a primeira versão traduzida de A Morte do Super-Homem. Uma requintada antologia com papel de qualidade superior e capa em alto relevo e efeito metalizado. Além da saga completa, o kit de colecionador incluía ainda vários brindes: um fac-simile em formato americano do histórico Superman #75; um exemplar da revista Newstime com artigos e depoimentos relacionados com a queda do campeão de Metrópolis e um poster desenhado por Dan Jurgens retratando as exéquias do herói.
Coincidindo com o relançamento desse material (já sem os brindes) na outra margem do Atlântico, no verão de 1995, a Abril/Controljornal presenteou os leitores lusitanos com a primeira - e, até à data, única - versão da saga em português europeu.
Desde a viragem do século, A Morte do Super-Homem (entretanto renomeada A Morte do Superman) foi várias vezes republicada no Brasil, em diferentes formatos e sob a chancela alternada da Panini e da Eaglemoss. Remontando a 2016 a última revisitação deste clássico da 9ª Arte em terras de Vera Cruz.

A Abril divulgou amplamente a saga nas suas publicações.


Até que a morte nos separe

Os ventos de mudança que, no início da década de 90, sopravam na indústria dos quadradinhos americanos foram uma aragem de mau agoiro para o Homem de Aço. Ao acentuado decréscimo das vendas somava-se a sua impopularidade junto da nova safra de leitores, mais inclinados para os anti-heróis violentos e para as bad girls de anatomia impossível que editoras como a Image Comics lançavam em barda. Aos olhos da chamada Geração MTV, o Super-Homem era uma personagem chata e ultrapassada.
Esse fastio em relação ao primeiro dos super-heróis modernos não era, porém, exclusivo dos mais jovens. Desde a partida de John Byrne, em 1988, eram cada vez menos os fãs da velha guarda a interessarem-se pelas histórias do Super-Homem. Por aqueles dias, o grande desafio consistia em restaurar o apelo da personagem sem a descaracterizar.
Às quatro revistas mensais do Homem de Aço - Action Comics, Adventures of Superman, Superman e Superman: Man of Steel - correspondiam outras tantas equipas criativas, totalizando mais de uma vintena de profissionais. Apesar da competente coordenação levada a cabo por Mike Carlin, editor da linha de publicações do Super-Homem, manter a consistência da continuidade afigurava-se tarefa complicada. A solução encontrada passou pela organização periódica de cimeiras para definir um plano anual de histórias interligadas.

Spawn (Image) foi um dos anti-heróis
mais populares dos anos 1990.

Ainda que bastas vezes disfuncionais, essas reuniões eram a única forma de obrigar os argumentistas a discutirem ideias entre si. Quando estas escasseavam, Jerry Ordway, à época ilustrador de Adventures of Superman, costumava sugerir, em tom de brincadeira, que se matasse simplesmente o Homem de Aço. Chalaça que, invariavelmente, arrancava risadas aos presentes.
Ao fim de longos meses a aumentar a tensão romântica entre Clark Kent e Lois Lane - culminando na revelação da identidade secreta do Super-Homem à sua cara-metade - foi consensualizado, numa cimeira, realizada em finais de 1991, que o casamento do casal seria o passo lógico seguinte. Com vista a reforçar o simbolismo do enlace, ficou igualmente estabelecido que este teria lugar em Adventures of Superman #500, com lançamento programado para junho de 1993.
Enquanto as equipas criativas metiam mãos à obra, a Warner Bros., empresa-mãe da DC Comics, iniciou o desenvolvimento de uma nova série televisiva do Super-Homem. Numa daquelas coincidências cósmicas que mudam as agulhas do destino, Lois & Clark: The New Adventures of Superman apresentaria o casamento do casal protagonista.
Embora os eventos da série não se desenrolassem na mesma continuidade dos quadradinhos, a Warner queria que a mitologia do Super-Homem permanecesse consistente em todos os meios de comunicação. Em razão dessa exigência, o casamento de Clark e Lois no universo canónico foi adiado sine die (só em 1996 a união seria consumada).

A nova série televisiva do Homem de Aço
 levou ao adiamento do seu casamento nos comics.

Sem tempo para elaborar novo plano editorial, o recurso ao improviso foi inevitável. Numa cimeira convocada de emergência, Jerry Ordway fez a sua piada habitual para desanuviar o ambiente. Mas, para seu espanto, desta vez ninguém se riu.
Pela primeira vez, a ideia de matar um dos mais amados ícones culturais do século XX não soou absurda. Com o aval da presidente-executiva da DC e o beneplácito do próprio Jerry Siegel, Mike Carlin deu luz verde ao projeto. Jerry Ordway nem queria acreditar no que estava a acontecer.
Em 2006, no documentário Look, Up in the Sky: The Amazing Story of Superman, Carlin explicou que, ao fim de mais de meio século de publicação ininterrupta, as pessoas davam o Super-Homem por garantido. A intenção de matá-lo era, portanto, mostrar como seria o mundo sem o seu maior herói. Enfatizando, desse modo, a sua importância e significado.
Por se tratarem de dois marcos históricos no longo percurso editorial do Homem de Aço, o plano inicial - revisto para não defraudar os leitores e capitalizar a saga - estabelecia que o herói fosse morto em Superman #75 (dezembro de 1992) e ressuscitado em Adventures of Superman #500 (junho de 1993). De permeio, haveria um interregno de dois meses na publicação de todos os títulos do Super-Homem, para criar a ilusão de que a sua morte era definitiva. Uma jogada arriscada que, no entanto, obteve o resultado desejado.

Jerry Ordway fez uma piada mortal.

No momento de decidir quem seria o carrasco do Último Filho de Krypton, os argumentistas descartaram os seus inimigos tradicionais, considerados demasiado dependentes da tecnologia e do intelecto. Recorrer à kryptonita era igualmente um cliché a evitar. Assim sendo, concordaram na criação de um novo oponente, capaz de sobrepujar fisicamente o herói. O mito da invencibilidade do Homem de Aço tinha os dias contados.
Mike Carlin queria que o novo vilão tivesse uma aparência distinta. Nesse sentido, pediu uma proposta visual a cada um dos artistas envolvidos no projeto. A abominação coriácea com excrescências ósseas a rasgarem-lhe a pele (espécie de Hulk com fraturas expostas) imaginada por Dan Jurgens foi o candidato escolhido. Sugestivamente batizado de Doomsday (renomeado Apocalypse no Brasil, para diferenciá-lo do vilão homónimo dos X-Men), o monstro fez a sua primeira aparição em Superman: Man of Steel #17 (novembro de 1992). No final da história dessa edição, um painel mostrava o seu punho a esmurrar repetidamente uma parede.

Doomsday foi criado por Dan Jurgens a partir de um monstro
 previamente rejeitado por Mike Carlin.

Assim que surgiram as primeiras notícias acerca dos planos da DC para matar o Super-Homem, a saga atraiu uma atenção mediática sem precedentes. Durante semanas, a morte do Homem de Aço recebeu amplo destaque na imprensa nacional e estrangeira, e foi tema de conversa em talk-shows transmitidos em horário nobre. 
Procurando tirar o maior proveito possível da bolha especulativa dos comics - que, por aqueles dias, atingira o seu auge -  além da edição regular de Superman #75 foram lançadas edições de colecionador, e um volume encadernado da saga foi posto à venda a tempo do Natal de 1992. Em resultado dessa estratégia agressiva por parte da DC, muitas pessoas compraram vários exemplares de Superman #75, na expectativa (frustrada) de uma alta valorização da revista.
Todo o frenesim mediático em torno da morte do Super-Homem, aliado ao fenómeno especulativo, fez da saga o bestseller de 1992 (mais de 6 milhões de cópias vendidas) e garantiu um significativo encaixe financeiro à DC (que, desde a década anterior, rodopiava no ralo da falência). O retumbante sucesso de A Morte do Super-Homem teve ainda o condão de guindar o novato Dan Jurgens ao estrelato.
Ironicamente, Jurgens e restantes escribas consideraram mais difícil reviver o Homem de Aço do que matá-lo. Mas isso, caro leitor, será assunto para outro artigo...

A morte do Super-Homem teve grande ressonância mediática.


Martírio em Metrópolis

No que aparenta ser uma câmara subterrânea, um enorme punho enluvado golpeia violenta e incessantemente uma parede blindada. Uma vez chegada à superfície, a criatura, enfiada num traje de contenção, esmaga um passarinho que lhe pousa na mão e parte o pescoço a um gamo. A morte personificada caminha, livre, sobre a Terra.
Em Metrópolis, o Super-Homem, com a ajuda de Lois Lane, frustra os planos de vingança dos disformes habitantes do Mundo Subterrâneo. Apenas mais um dia igual a tantos outros na vida do Último Filho de Krypton.

A primeira vítima mortal de Apocalypse.

Após ser informada do alvoroço causado por um monstro no Ohio, a secção americana da Liga da Justiça Internacional acorre ao local. No entanto, o que se prefigurava uma operação rotineira descamba rapidamente num massacre. Com uma mão amarrada atrás das costas, a criatura trucida a equipa em questão de minutos, deixando o Besouro Azul em estado crítico e os restantes membros aturdidos e maltratados.
Alheio a tudo isto, o Homem de Aço participa no talk-show de Cat Grant. Enquanto se prepara para responder a mais uma pergunta do auditório, o herói é informado da situação no Ohio, abandonando de imediato o programa. Há um novo trabalho para o Super-Homem!
No Ohio, o Super-Homem depara-se com um autêntico cenário de guerra: explosões, incêndios e dezenas de baixas civis. Ainda mal refeito do ataque que quase lhe custou a vida, o Gladiador Dourado compara o monstro a uma besta do Apocalipse e jura nunca ter visto nada igual. Pouco impressionado, o Homem de Aço propõe-se barrar o caminho à criatura, apenas para ser violentamente pontapeado por ela.
A Liga da Justiça tenta, então, flanquear Apocalypse. Mas todo o poder de fogo do grupo consegue apenas rasgar o traje de contenção do monstro, revelando a sua aparência hedionda. Liberto de restrições, Apocalypse investe furiosamente sobre os heróis, atropelando-os como se de bonecos se tratassem.

Mesmo com a ajuda do Super-Homem, a Liga da Justiça
 foi incapaz de travar a selvajaria de Apocalypse.

No encalço de Apocalypse, o Super-Homem, após breve hesitação, é obrigado a deixá-lo escapar, para resgatar uma família presa na sua casa em chamas. Em meio à mortandade, o herói distribui sentenças de vida.
Imparável na sua senda de destruição irracional, Apocalypse semeia terror e morte à sua passagem pelo Centro-Oeste. Nem mesmo dois helicópteros Apache conseguem retardar-lhe o avanço. Os aparelhos são facilmente destruídos pelo monstro.
Enquanto o Super-Homem se desdobra em salvamentos, Apocalypse toma inesperadamente a direção de Metrópolis. Na Torre Lex, Luthor (na verdade, um clone ruivo do original) demove a Supergirl (na verdade, uma transmorfa chamada Matriz) de ir em socorro do Homem de Aço. No Daily Planet, Lois Lane convence Jimmy Olsen a acompanhá-la na cobertura jornalística da batalha do século. 
Com a contenda entre os dois titãs a ser transmitida em rede nacional, em Smallville os Kents assistem, de coração pesado, aos desesperados esforços do filho para deter um inimigo aparentemente indestrutível. Resta-lhes apenas rezar para que o pior não aconteça.
Uma após outra, as linhas defensivas de Metrópolis vão sendo derrubadas como peças de dominó: a Unidade de Crimes Especiais, a Equipa Luthor e até a Supergirl falham em conter o avanço de Apocalypse. Mais uma vez, o destino da Cidade do Amanhã depende apenas da bravura do seu campeão.
Como dois pugilistas feridos e exaustos, Super-Homem e Apocalypse digladiam-se diante do Daily Planet. As ondas de choque resultantes dos impactos estilhaçam os vidros dos edifícios circundantes. Agindo por puro instinto, o Homem de Aço desfere um golpe fatal no seu oponente, recebendo outro em troca. Ambos tombam, por fim, sob um céu pesaroso.

O trágico culminar de um confronto titânico.

Nos braços da sua amada, o salvador de Metrópolis exala o seu derradeiro suspiro. A sua capa esfarrapada, qual bandeira do martírio, drapeja entre os destroços da batalha. Somente os lamentos de Lois Lane rompem o silêncio fúnebre que se abateu sobre as ruas. Incrédulo e impotente, o mundo testemunha o penoso ocaso do seu maior herói. O Super-Homem está morto e nada voltará a ser como antes.

A morte de uma lenda.

Apontamentos

*Apesar de ter sido, de longe, a mais impactante, A Morte do Super-Homem não foi a primeira história a glosar o sacrifício supremo do maior dos heróis. Em 1961, Jerry Siegel escrevera The Secret Death of Superman. Dada à estampa em Superman Vol.1 #149, a história, desenhada por Curt Swan, mostrava como o Homem de Aço sucumbia ao envenenamento por kryptonita, numa diabólica maquinação orquestrada por Lex Luthor. Porquanto o herói permanecia morto no final, a solução passou por transformá-la num conto imaginário. Um quarto de século volvido, foi essa a fonte de inspiração de Alan Moore para escrever O Que Aconteceu ao Homem de Aço? (já aqui revisitada);
*A ideia de usar um efeito sonoro em crescendo de intensidade à medida que Apocalypse golpeava a parede da sua prisão subterrânea foi retirada de uma história de Thor, da lavra de Walter Simonson ( marido de Louise Simonson). Nela, a onomatopeia "DOOM!" pretendia mostrar o iminente advento de Surtur, o arauto do Ragnarok (equivalente nórdico do Juízo Final);

Sons do Apocalipse.

*As quatro edições que retratam o mano a mano entre Super-Homem e Apocalypse contêm uma contagem regressiva de painéis: Adventures of Superman #19 tem 4 painéis por página; Action Comics #684 três; Superman: The Man of Steel #19 duas e Superman #75 é composta exclusivamente por splash pages. Tratou-se de um artifício visual concebido por Brett Breeding, um dos arte-finalistas da saga, com o intuito de aumentar o suspense e a velocidade da ação;
*Depois de, numa entrevista, Mike Carlin ter comparado Apocalypse a um fugitivo de um manicómio cósmico, choveram críticas dos grupos de defesa das pessoas com perturbações mentais. A polémica prolongou-se durante várias semanas, concitando ainda mais atenção mediática para a saga;
*Consoante a batalha contra Apocalypse vai aumentando de ferocidade, o uniforme do Super-Homem vai ficando cada vez mais esfarrapado. Nas cenas finais, o herói exibe mesmo o torso desnudo e ensanguentado. À época, a invulnerabilidade do Homem de Aço era atribuída a uma aura invisível que lhe rodeava o corpo. O traje rasgado e os ferimentos indicavam, portanto, que essa sua aura protetora era incapaz de suster os golpes do seu adversário;
*Na esteira de A Morte do Super-Homem, a Warner Bros. adquiriu os direitos para produzir um filme baseado na saga. Os executivos do estúdio acreditavam ser essa a chave para revitalizar a franquia cinematográfica do Homem de Aço, após o fiasco de Superman IV (1987). Nenhum dos projetos apresentados saiu, no entanto, do fundo da gaveta. Apenas em 2016 o martírio do Super-Homem seria referenciado no cinema, no clímax de Batman versus Superman: Dawn of Justice;

Poster promocional de um dos filmes
que pretendia adaptar a morte do Super-Homem ao grande ecrã.

*Do conjunto de brindes que, nos EUA, acompanhavam a edição especial da saga faziam parte um poster, autocolantes e uma braçadeira preta com o símbolo do herói estampado. Jay Leno usou uma durante o episódio do seu Tonight Show dedicado à morte do Homem de Aço;
*A Morte do Super-Homem ocupa o 9º lugar na lista das 25 melhores histórias do Homem de Aço selecionadas, em 2013, pela plataforma de entretenimento IGN. Em 2020, outro site especializado, CBR, encerrou com ela o seu Top 10 das melhores histórias de sempre do Super-Homem;
*Reforçando o seu estatuto de clássico incontornável, A Morte do Super-Homem já foi adaptada a diferentes segmentos culturais. Logo após a conclusão da saga em terras do Tio Sam, Roger Stern assinou o romance The Death and Life of Superman. Em 2007, a Warner Bros. lançou Superman: Doomsday, filme animado cujo sucesso comercial inaugurou a linha DC Universe Animated Original Movies destinada ao circuito vídeo. Uma segunda adaptação animada, mais fiel ao material original, foi lançada em duas partes: Death of Superman (2018) e Reign of the Supermen (2019) incluem muitos dos momentos icónicos omissos em Superman: Doomsday.

Em 2018, a DC lançou nova versão animada de A Morte do Super-Homem.


Vale a pena ler?

Golpe publicitário ou obra capital da DC? Três décadas volvidas sobre a sua publicação, A Morte do Super-Homem continua a dividir opiniões.
Analisando a saga e a conjuntura que esteve na base da sua produção, assiste razão a quem sustenta que se tratou, em primeiro lugar, de uma ação de marketing. Alguns especialistas do ramo comparam-na mesmo com a New Coke, a tentativa fracassada, em 1985, da Coca-Cola agitar as águas e aumentar as vendas. Com a diferença que, no caso da DC, ambos os objetivos foram cumpridos.
Enquanto manobra económica, A Morte do Super-Homem foi um inegável sucesso. Não só alavancou as vendas dos títulos do Homem de Aço como colocou a indústria dos comics debaixo dos holofotes mediáticos. Em razão disso, também as editoras concorrentes saíram beneficiadas e muitos empregos foram salvaguardados. Mas a saga foi muito mais do que um mero golpe publicitário.
Do ponto de vista editorial, A Morte do Super-Homem firmou doutrina: nos anos imediatos, Batman ficaria preso a uma cadeira de rodas, o Lanterna Verde passaria para o lado negro da Força (por sinal, uma das ramificações desta saga), a Mulher-Maravilha perderia o título de campeã das Amazonas e até o Homem-Aranha atravessaria uma crise de identidade por causa de um clone.
Ninguém, em sã consciência, poderia contudo acreditar que a DC estaria disposta a abrir mão do seu principal ativo. Nos meandros da indústria, toda a gente sabia que o Super-Homem seria ressuscitado. A dúvida era quando e como. Claro que houve quem se sentisse defraudado com o regresso do herói, e que essa circunstância abriu uma caixa de Pandora. Com o passar dos anos, as mortes e ressurreições de personagens importantes tornaram-se corriqueiras, gerando um sentimento de indiferença nos fãs.
Mais do que uma simples personagem de banda desenhada, o Super-Homem é uma instituição cultural com alcance global. Por conseguinte, o seu desaparecimento - mesmo se temporário . basta para fazer de A Morte do Super-Homem um clássico monumental.
Um dos elementos mais controversos da saga é o próprio verdugo do herói. Visto por muitos como um dispositivo narrativo ambulante, Apocalypse é um monstro irracional surgido do nada. O facto de nada se saber acerca da sua origem (só anos mais tarde seria revelado que ele era, afinal, produto de experiências científicas kryptonianas objetivando a criação da forma de vida suprema) é, inquestionavelmente, uma das principais deficiências do enredo.
Filosoficamente, porém, Apocalypse é a antítese perfeita do Super-Homem. Ele representa tudo aquilo que o herói abomina: destruição sem sentido e ódio visceral à vida. A brutalidade da criatura é ilustrada na forma como mata tudo o que lhe surge pela frente. Em certa medida, Apocalypse é a representação antropomórfica da Idade das Trevas que, aos poucos, entenebrecia os comics
Mesmo transformada na crónica de uma morte anunciada, a história compensa a falta de suspense com a excelente caracterização do protagonista. A cena em que o Homem de Aço desiste de perseguir Apocalypse para salvar uma menina encurralada pelas chamas nada teria de extraordinário se ele não se debatesse momentaneamente com um dilema. Salvar centenas de vidas ou apenas uma? Em circunstâncias normais, o herói não teria hesitado em voltar para trás, mas a magnitude da ameaça representada por Apocalypse obriga-o a arrastar a decisão por longos segundos. E essa é apenas uma das muitas decisões difíceis que ele é chamado a tomar ao longo da saga.
Com efeito, A Morte do Super-Homem coloca em evidência o caráter e a bondade inata de Kal-El. Esse estranho visitante de outro mundo disposto a lutar até ao último suspiro pela Humanidade - que nem sempre o apreciou devidamente.
Do mesmo modo que nem todos os fãs apreciaram A Morte do Super-Homem. No entanto, a despeito das suas imperfeições, a saga foi um momento definidor na história do Homem de Aço e, em sentido mais lato, na história dos comics. Não foi a morte que muitos gostariam de ter lido, mas nada conseguirá apagar essa dolorosa memória do imaginário coletivo.
Mais que não seja, pelo fortíssimo impacto cultural e económico que teve em toda uma geração de leitores e criadores, A Morte do Super-Homem merece ser celebrada como obra capital, não apenas da Editora das Lendas, mas de toda a 9ª Arte.
 
Há 30 anos, a morte do Super-Homem abalou a indústria dos comics e o mundo.


*Este blogue tem como Guia de Estilo o Acordo Ortográfico de 1990 aplicado à norma europeia da Língua Portuguesa.
*Artigos sobre Super-Homem e Dan Jurgens disponíveis para leitura complementar.

27 janeiro 2022

RETROSPETIVA: «SUPERMAN»



  Qual messias das estrelas moldado pelos ensinamentos paternos, o Último Filho de Krypton foi enviado à Terra para guiar a Humanidade pelos caminhos da Verdade e da Justiça. Mas o Mal amparado pela escuridão tudo fará para extinguir a nova aurora de esperança. Haverá salvação sem o sacrifício do salvador?

Título original: Superman (estilizado Superman: The Movie, para efeitos promocionais)
Ano: 1978
País: EUA / Reino Unido
Duração: 143 minutos (versão clássica)
Género: Drama/ Ação / Fantasia / Super-heróis 
Produção: Pierre Spengler, Dovemead, Ltd. e Internacional Film Production
Realização:  Richard Donner
Argumento: Mario Puzo, David Newman, Leslie Newman e Robert Benton
Distribuição: Warner Bros. (EUA) e Columbia-Emi (Reino Unido)
Elenco: Christopher Reeve (Kal-El / Clark Kent / Super-Homem); Gene Hackman (Lex Luthor); Margot Kidder (Lois Lane); Marlon Brando (Jor-El); Susannah York (Lara); Glenn Ford (Jonathan Kent); Phyllis Thaxter (Martha Kent); Jackie Cooper (Perry White), Marc McClure (Jimmy Olsen); Ned Beatty (Otis); Valerie Perrine (Eve Teschmacher); Terence Stamp (General Zod); Sarah Douglas (Ursa); Jack O'Halloran (Non) 
Orçamento estimado: 55 milhões de dólares
Receitas globais: 300,4 milhões de dólares

Anatomia de um épico 

Embora a Warner Bros., por meio de uma série de fusões corporativas, tivesse adquirido a DC Comics em 1969, era praticamente nulo o interesse do estúdio em explorar o principal ativo da sua nova subsidiária. O projeto para uma longa-metragem baseada no Super-Homem começou a ganhar forma no final de 1974. Ano em que os produtores Ilya e Alexander Salkind, num empreendimento conjunto com o seu parceiro de longa data Pierre Spengler, garantiram os direitos da personagem. O negócio só foi no entanto possível mediante a total assunção dos custos de produção por parte dos Salkind. Uma jogada de altíssimo risco, para mais considerando a sua intenção de rodar uma sequela em simultâneo. Em caso de fracasso, o prejuízo seria duplicado.
Contactado por Ilya ao arrepio do pai, Alfred Bester, conceituado escritor de ficção científica, foi a primeira escolha para argumentista. Alexander preferia contudo um nome mais sonante para credibilizar a produção. Nesse sentido, contratou ninguém menos do que Mario Puzo, autor da saga O Padrinho. Os 600 mil dólares pagos pelos serviços plumitivos de Puzo foram o primeiro investimento avultado daquela que seria a mãe de todas as megaproduções hollywoodescas.

 Ilya e Alexander Salkind apostaram
 todas as fichas no Homem de Aço. 

Paralelamente, decorriam negociações com um naipe de cineastas consagrados. George Lucas, Steven Spielberg, Richard Lester (que dirigiria Superman II e Superman III) e Francis Ford Coppola foram alguns dos mestres da 7ª Arte abordados. Depois de Tubarão ter abocanhado as bilheteiras, a escolha acabou por incidir sobre Spielberg. Porém, o seu compromisso com outro projeto - Encontros Imediatos do Terceiro Grau - impediram-no de aceitar a oferta.
Guy Hamilton, veterano realizador britânico com vários capítulos da saga de 007 no currículo, foi o senhor que se seguiu. A sua contratação precedeu num par de semanas o anúncio de que Marlon Brando, após as recusas de Christopher Lee e Paul Newman, interpretaria Jor-El, a troco de 3,6 milhões de dólares e 11,75% das receitas brutas de bilheteira - cifras astronómicas que faziam dele o ator mais caro de sempre. Não obstante, Brando fez depender a sua participação na produção da condição de que todas as suas cenas fossem gravadas em doze dias.
Já com Gene Hackman confirmado no papel de Lex Luthor (rejeitado, entre outros, por Dustin Hoffman e Jack Nicholson), os Salkind contrataram Robert Benton e David Newman para reescrever o argumento de Puzo, considerado demasiado extenso. Brenton abraçaria entretanto outro desafio profissional, passando Newman a ser assessorado nessa tarefa pela sua esposa, Leslie.
Apesar de imbuído de uma sensibilidade moderna, o primeiro rascunho do casal Newman tinha um tom cómico, muito próximo do da série televisiva do Batman com Adam West. Enquanto os Salkind sopesavam os prós e os contras dessa abordagem mais ligeira, a produção sofreu o primeiro de muitos reveses. Guy Hamilton comunicou a sua saída, depois de tomar conhecimento de que parte das filmagens - originalmente programadas para Roma - iriam ter lugar em Terras de Sua Majestade. Onde Hamilton, por conta do seu estatuto de exilado fiscal, estava autorizado a permanecer apenas alguns dias.
Nesse mesmo dia, Alexander Salkind telefonou pessoalmente a Richard Donner, cujo último filme (The Omen) se transformara num clássico instantâneo do cinema de terror, oferecendo-lhe um milhão de dólares para ocupar a cadeira vaga de realizador. Donner aceitou, mas declarou-se descontente com o guião existente e fez da verosimilhança o princípio cardeal da sua abordagem. Em razão disso, o seu primeiro ato diretivo consistiu  na contratação de Tom Mankiewicz para reescrever o enredo. Apesar de o ter feito de forma substancial, Mankiewicz seria apenas creditado como consultor criativo, o que desgostou profundamente Donner.

Richard Donner trouxe uma nova visão ao projeto.

Antes de Donner subir ao leme do que parecia um navio a navegar à bolina, tinha sido definido que o papel principal seria entregue a um astro de primeira grandeza. Entre os candidatos mais cotados estavam Robert Redford, James Caan, Burt Reynolds, Warren Beatty e Nick Nolte. Ainda a usar a coroa de louros de Rocky Balboa, Sylvester Stallone manifestou grande interesse em emprestar o corpo ao Homem de Aço, mas o seu nome foi inapelavelmente vetado por Brando - a quem fora concedido poder decisório na escalação do elenco.
Donner, ao invés, preferia apostar num ator desconhecido para viver o Super-Homem. Segundo ele, isso faria com que o público visse o herói, e não o ator que lhe vestia a pele. Já com duas centenas de atores testados, a diretora de elenco, Lynn Stalmaster, sugeriu Christopher Reeve. Mais habituado a pisar os palcos do que a enfrentar as câmaras, Reeve era um ator teatral de apenas 26 anos, contratado para ler as falas de Clark Kent e do Super-Homem durante as audições para Lois Lane.
Apesar do seu 1,93m e do sorriso caloroso, Reeve era demasiado magro para o papel. Donner sugeriu-lhe então que usasse um traje com músculos falsos, mas o ator recusou, por considerar que isso seria desrespeitoso para a personagem. Em vez disso, submeteu-se a um rigoroso programa de preparação física ministrado por David Prowse (o fisiculturista que encarnou Darth Vader em Star Wars), que lhe acrescentou 13 kg de massa muscular em apenas três meses.
Pela sua participação em Superman e Superman II, Reeve recebeu uns módicos 150 mil dólares. Consciente da enorme discrepância salarial relativamente a Marlon Brando e Gene Hackman (cujos nomes, ademais, precederam o seu no genérico de abertura), ainda assim Reeve aceitou o papel, confiante de que ele lhe abriria muitas portas no futuro.

A incrível transformação física de Christopher Reeve
 para o papel que o imortalizaria.

Encontrado finalmente o protagonista que envergaria o manto sagrado, a fotografia principal daquele que muitos consideravam ser o filme do século - mais que não seja, pelo orçamento sem precedentes - começou em março de 1977, nos britânicos Pinewood Studios. A rodagem ficaria, todavia, marcada por atrasos (os 7 meses previstos quase foram multiplicados por 3), derrapagens orçamentais e tensões criativas entre Donner e os produtores - culminando no despedimento do realizador quando este já tinha filmado 75% de Superman II
Em virtude dos percalços e ânimos nublados, o lançamento de Superman - originalmente programado para junho de 1978, coincidindo com o 40º aniversário de Action Comics #1 - foi protelado para dezembro desse ano. Com a presença de Richard Donner e de vários representantes do elenco, a estreia teve lugar no Uptown Theater, em Washington D.C., e contou ainda com dois convidados especiais: Jerry Siegel e Joe Shuster, criadores do Super-Homem (que, ao que consta, ficaram maravilhados com o que viram).
Treze semanas consecutivas na liderança do box office fizeram de Superman o filme mais rentável de sempre da Warner Bros, - e, à época, o sexto mais rentável da história do cinema. Ao sucesso comercial somou o reconhecimento da crítica, materializado no Óscar especial para Melhores Efeitos Visuais e nas três indicações em outras tantas categorias técnicas: Melhor Edição. Melhor Banda Sonora e Melhor Som. Mas, acima de tudo, o filme marcou toda uma geração ao fazê-la acreditar que um homem podia voar.

Mais do que um slogan, "Você acreditará que um homem pode voar"
era um manifesto de verosimilhança.


Enredo

No moribundo planeta Krypton, tem lugar o julgamento de três criminosos acusados de sedição. Com base nas provas apresentadas por Jor-El, o Conselho condena-os, por unanimidade, ao exílio perpétuo na Zona Fantasma. A partida do General Zod e seus cúmplices para esse degredo incorpóreo é acompanhada por juras de vingança contra o seu carcereiro. 
A despeito de ser um dos mais prestigiados cientistas kryptonianos, Jor-El falha em persuadir os seus pares da iminente destruição do planeta. Segundo os seus cálculos, o cataclismo ocorrerá quando Rao, o sol vermelho em torno do qual Krypton orbita, se transformar numa supernova.
Depois de prometer que nem ele nem a sua esposa, Lara, abandonarão Krypton, Jor-El empreende os preparativos para salvar Kal-El, o único filho do casal. Apesar das reservas de Lara, o bebé é enviado para a Terra, onde a sua densa estrutura molecular combinada com a radiação de um sol amarelo lhe proporcionarão poderes divinos.
Tão-logo a nave é lançada, Rao entra em erupção e Krypton explode em mil pedaços. Num trágico instante, é extinta uma das mais avançadas civilizações do Universo.

Jor-El e Lara prestes a enviarem o filho para um mundo estranho.

Culminando uma longa jornada pelas estrelas, a nave contendo o Último Filho de Krypton despenha-se nos arredores de Smallville, Kansas. Kal-El é encontrado por Jonathan e Martha Kent, um humilde casal de agricultores que resolvem criá-lo como seu filho. Rapidamente percebem, no entanto, que o menino é especial, e Martha batiza-o de Clark, o seu apelido de solteira.
Aos 18 anos, logo após Jonathan Kent ter sucumbido a um ataque cardíaco fulminante, Clark ouve um chamado psíquico durante a noite. Ao raiar da alvorada, descobre um cristal brilhante entre os destroços da nave que o trouxera à Terra. Impelido por uma força misteriosa, o jovem viaja até ao Ártico, onde o cristal constrói uma estrutura alienígena. No interior da Fortaleza da Solidão, um holograma de Jor-El revela as verdadeiras origem e missão de Kal-El.
Ao longo dos 12 anos seguintes, Kal-El é moldado pelos ensinamentos paternos, aprendendo tudo sobre as culturas kryptoniana e terrestre, bem como sobre os seus poderes e responsabilidades para com a Humanidade - que Jor-El acredita possuir um grande potencial para o Bem. Terminada a sua educação, Kal-El abandona a Fortaleza da Solidão envergando um traje azul e vermelho adornado pelo brasão familiar da Casa de El. 
Em Metrópolis, Clark Kent consegue emprego como repórter do Daily Planet, o jornal mais importante da Cidade do Amanhã. Enquanto mantém o seu insuspeito disfarce, Clark desenvolve uma atração romântica, não correspondida, pela sua colega Lois Lane. Quando esta se envolve num aparatoso acidente de helicóptero em que os meios de resgate convencionais são inúteis, Clark é obrigado a usar pela primeira vez os seus poderes em público para salvá-la. 


Após o seu primeiro dia no Daily Planet,
 Clark Kent salva Lois Lane como Super-Homem.

Ainda nessa noite, a nova Maravilha de Metrópolis frustra um assalto, captura ladrões em fuga à polícia, resgata um gato do cimo de uma árvore e evita a queda do Força Aérea 1, depois de um dos motores da aeronave ter sido destruído por um relâmpago.
Com as proezas do misterioso homem voador a rondarem os noticiários internacionais, no dia seguinte Lois recebe uma nota anónima a combinar um encontro em sua casa nessa noite. Após conceder-lhe uma entrevista exclusiva, o herói leva Lois num passeio intimista pelos céus da cidade. Arrebatada pela experiência, a jornalista batiza-o de Super-Homem no seu artigo.
Enquanto isso, Lex Luthor, um génio do crime com um ego pantagruélico, gizou um audacioso golpe imobiliário que fará dele um dos homens mais ricos do mundo. O plano consiste em comprar grandes quantidades de terras desérticas a baixo preço antes de afundar a Costa Oeste, levando a uma enorme valorização das mesmas. Assistido por Otis e Eve Teschmacher, Luthor consegue sabotar o lançamento de dois mísseis termonucleares, redirecionando-os para a Falha de Santo André, na Califórnia. 
Ciente de que o Super-Homem poderia frustrar-lhe os planos, Luthor atrai-o até ao seu covil subterrâneo, onde o expõe a um fragmento de kryptonita. À medida que o herói enfraquece devido aos efeitos daquele pequeno resquício do seu planeta natal, Luthor informa-o de que o primeiro míssil é apenas um engodo. O seu verdadeiro alvo é Hackensack, na Nova Jérsia. Afinal, nem mesmo o Super-Homem consegue estar em dois lugares ao mesmo tempo.

Luthor descobriu a fraqueza mortal do Homem de Aço.

Eve Teschmacher fica horrorizada porque a sua mãe vive em Hackensack, mas Luthor não se importa e deixa o Super-Homem para uma morte lenta. Sabendo que o herói mantém sempre a sua palavra, a concubina de Luthor resgata-o da piscina onde ele se afogava, com a condição de ele neutralizar primeiro o míssil com destino a Nova Jérsia. 
Enquanto o Super-Homem interceta e desvia o primeiro míssil para o espaço sideral, o segundo explode nas proximidades da Falha de Santo André. Ato contínuo, sismos devastadores irrompem por toda a Califórnia. Num labor titânico, a evocar o próprio Atlas, o Homem de Aço consegue selar a Falha, mitigando desse modo os efeitos da detonação nuclear. 
Longe dali, o carro de Lois - que investigava os bizarros negócios imobiliários na região - é engolido por uma fenda aberta pelas réplicas do sismo. Ao chegar ao local, o Super-Homem depara-se com o corpo inerte de Lois. Furioso por não ter conseguido salvá-la, o Último Filho de Krypton desafia a proibição de Jor-El de interferir na História da Humanidade. Voando ao redor da Terra a supervelocidade, o angustiado herói consegue retroceder vários minutos no tempo, revertendo os danos causados pela explosão e a morte de Lois. 
Com a Costa Oeste reconstruída e a sua amada a salvo, o Super-Homem entrega Luthor e Otis na penitenciária, antes de partir para um passeio orbital. Enquanto o Sol desponta no horizonte, o sorriso rasgado do herói promete um amanhecer repleto de esperança e novas aventuras.

Trailer


Curiosidades

*O blackout que, em julho de 1977, deixou Nova Iorque às escuras durante dois dias coincidiu com a rodagem de Superman na Grande Maçã. Richard Donner recordava com humor como alguns amigos acreditavam ter sido ele o causador do apagão, devido à panóplia de equipamentos que usava na noite em que tudo começou;
*Apesar do cachê milionário (14 milhões de dólares por menos de 10 minutos de ecrã), Marlon Brando recusou memorizar a maior parte das suas falas. Na cena em que Jor-El coloca Kal-El na cápsula de fuga, por exemplo, Brando estava a ler as suas linhas de diálogo escritas na fralda do bebé. O ator, cuja abordagem displicente ao papel mereceu duras críticas por parte dos seus colegas, justificou-se dizendo que essa era a única maneira de garantir a frescura da sua interpretação;
*O S estilizado que adorna os paramentos de Jor-El invoca aquele que o Homem de Aço de George Reeves ostentava no peito, em Adventures of Superman (1952-59). Marlon Brando sugeriu convertê-lo numa espécie de brasão familiar, explicando assim o motivo de Kal-El adotar esse símbolo na Terra. Richard Donner aprovou a ideia e, desde então, esse elemento foi incorporado tanto no cânone do Último Filho de Krypton como em adaptações subsequentes;
*O efeito luminoso das vestes kryptonianas - originalmente cinzentas - foi obtido com recurso ao mesmo material refletor utilizado nas placas de trânsito e restante sinalética rodoviária. A ideia surgiu durante os testes iniciais para as sequências envolvendo efeitos visuais;

O traje de Jor-El era originalmente cinzento.

*Com apenas seis meses de vida, Elizabeth Sweetman foi a primeira bebé a interpretar Kal-El, na cena ambientada em Krypton. Por quatro dias de trabalho, a menina recebeu 120 dólares;
*Gene Hackman mostrou-se inicialmente renitente em cortar o seu icónico bigode. Para convencê-lo, no primeiro dia de filmagens Richard Donner disse-lhe que cortaria também o seu. Hackman assentiu, ignorando que o realizador usava um bigode postiço. Passado o choque inicial, Hackman soltou uma gargalhada e os dois estabeleceram uma excelente relação profissional. Essa foi, no entanto, a única concessão capilar do ator. Face à sua recusa em rapar a cabeça, na única cena em que Luthor surge calvo Hackman usou uma touca cor de pele;
*Carrie Fisher, Natalie Wood, Shirley MacLaine, Liza Minnelli e Barbra Streisand foram algumas das atrizes cogitadas para o papel de Lois Lane. Apesar de não estar minimamente familiarizada com a mitologia do Super-Homem, Margot Kidder foi a eleita, por ter sido a única a rir-se com a pergunta de Lois que faz corar o herói durante a entrevista no terraço: "Qual a cor da minha roupa interior?". Kidder insistiu em gravar ela própria a perigosa cena em que o carro de Lois é engolido por uma cratera;
*Jeff East, que interpretou a versão adolescente de Clark Kent, quase foi abalroado no momento em que salta à frente de um comboio a grande velocidade. Valeu-lhe a intervenção providencial do duplo Richard Hackman - irmão mais novo de Gene Hackman -, que o agarrou a tempo de evitar a tragédia. East rasgou vários músculos da coxa durante a rodagem da cena;
*Kirk Alyn e Noel Neill, os primeiros atores a viverem o  Super-Homem e Lois Lane no cinema, tiveram uma pequena participação na película. São eles os pais da pequena Lois, quando esta jura ter visto um homem a correr ao lado do comboio em que viajam. Neill voltaria a fazer um cameo em Superman Returns (2006), o último capítulo da franquia;

Noel Neill e Kirk Alyn em Superman (1948).

*Parada de estrelas raramente vista, o elenco principal de Superman incluía dois atores oscarizados (Marlon Brando e Gene Hackman) e seis nomeados à estatueta dourada: Ned Beatty, Jackie Cooper, Susannah York, Valerie Perrine e Terence Stamp; 
*Sem aviso prévio, ao filmar a cena em que o Super-Homem voa pela primeira vez para fora da Fortaleza da Solidão, Christopher Reeve - um experimentado piloto de planadores - inclinou o corpo para descrever a curva no ar. A manobra arrancou aplausos a Richard Donner e todos perceberam finalmente que o movimento corporal era a chave para conferir realismo às sequências de voo;
*Além de interpretar Clark Kent e Super-Homem, Christopher Reeve também emprestou a sua voz ao controlador de tráfego aéreo nas cenas envolvendo o helicóptero e o Força Aérea 1;
*Foram necessários seis meses para filmar a cena do helicóptero no topo do Daily Planet. O edifício-sede da Pan Am fora o primeiro cenário escolhido, mas um trágico acidente ocorrido poucos meses antes e do qual resultou a morte de vários passageiros, levou a produção a escolher outra localização;
*Nem visão de calor nem sopro congelante. Em momento algum do filme o Super-Homem faz uso desses seus poderes;
*Durante a sua entrevista com Lois Lane, o Super-Homem garante nunca mentir. Essa declaração é, por si só, uma falácia, posto que o herói leva uma vida dupla. Tratou-se, com efeito, de um artifício narrativo para que o herói se sentisse compelido a cumprir a promessa feita a Eve Teschmacher de salvar a sua mãe mãe em primeiro lugar;

No cinema como na BD,
o Super-Homem é um exemplo de duplicidade.

*Na versão original do argumento, Superman terminava com o herói a salvar a Califórnia selando a Falha de Santo André, antes de desviar o segundo míssil para o espaço. Da explosão resultaria a libertação de Zod e seus aliados da Zona Fantasma, fornecendo o mote para o segundo filme. A ideia de recuar no tempo foi inicialmente concebida para apagar da memória de Lois Lane a verdadeira identidade do Homem de Aço em Superman II (1980);
*Em 2007, a Visual Effects Society classificou Superman como o 44º filme com melhores efeitos visuais de todos os tempos. No ano seguinte, a revista Empire atribuiu-lhe o 174º lugar na sua lista dos 500 melhores filmes de sempre. Pela sua importância histórica e cultural, em 2017 Superman foi selecionado para preservação pela Biblioteca do Congresso dos EUA, tornando-se a primeira película de super-heróis a merecer tal honra.

Um legado para a eternidade.


Veredito: 95%

Superman não foi o primeiro filme de super-heróis (essa honra, pertenceu, em 1951, a Superman and the Mole Men), mas foi o primeiro a levar-se a sério. Entre os seus muitos méritos, ressalta o seu significativo contributo para a legitimação de um subgénero até então desprezado por Hollywood.
Graças ao visionarismo reverente de Richard Donner e ao insuperável carisma de Christopher Reeve, a película captura na perfeição o espírito da personagem - e dos comics em geral - , proporcionando uma experiência arrebatadora ao som da partitura épica de John Williams.
A trama principal e toda a iconografia de Superman podem ser interpretadas como uma reconfiguração moderna da história de Jesus Cristo, acrescentando-lhe influências de heróis clássicos como Hércules ou Atlas. É aliás particularmente interessante observar como essa correlação com a mitologia cristã está tão presente numa produção baseada na criação de dois judeus.
Senão vejamos: como Jesus, Kal-El é enviado pelo seu pai celestial para guiar a Humanidade pelos caminhos da Verdade e da Justiça. O próprio nome kryptoniano do herói denuncia essa vertente messiânica, visto tratar-se de uma palavra hebraica traduzível como "voz de Deus". Também a nave que traz o Último Filho de Krypton à Terra invoca a Estrela de Belém, ao passo que Jonathan e Martha Kent invocam claramente José e Maria.
Mas os paralelismos não se quedam por aí. Na juventude, Kal-El - obrigado a viver como um de nós, embora ciente da sua diferença - é, tal como Jesus, um desajustado social. Por isso, parte à procura do seu verdadeiro pai, na esperança de descobrir a sua origem e missão na Terra. Qual Messias, apresenta-se ao mundo realizando milagres. Mas nem todos são tocados pela sua mensagem de esperança.
Considerando que Lex Luthor deseja estabelecer o seu próprio império, a sua contenda com o Super-Homem afigura-se como uma alegoria para a luta de Jesus contra o Império Romano. Por outro lado, ao ser representado como um génio maligno que, a partir do seu covil subterrâneo, conspira para conquistar o mundo da superfície, Luthor poderá igualmente ser percecionado como uma figuração de Satanás - sendo Zod, o rebelde expulso de Krypton, outro candidato a essa função simbólica.
Tantas vezes apontado como um dos pontos fracos do enredo, o mirabolante plano de Luthor referencia no entanto a sua primeira aparição - em Superman #4 (março de 1940) - , na qual o vilão induz terramotos com um máquina por ele inventada. De igual modo, a caracterização de Luthor, muito diferente do seu ethos contemporâneo, replica fielmente o seu modus operandi durante a Idade de Prata.
Por fim, refletindo o calvário de Jesus, o Super-Homem sofre às mãos dos humanos antes de ser finalmente reconhecido como salvador do mundo. A kryptonita é a sua Via Sacra, a esperança que infunde nos corações dos homens, a sua coroa de glória. 
Não sendo perfeito nem imune aos efeitos da passagem do tempo, Superman continua a ser a melhor adaptação do Homem de Aço ao grande ecrã e um marco importantíssimo na história do cinema. Uma obra-prima muito à frente do seu tempo, que fez sonhar toda uma geração, e que iluminou o caminho para outras produções do género. Sem esta potente locomotiva, o comboio dos super-heróis nunca teria chegado à Terra dos Sonhos.

O Messias das Estrelas trouxe uma mensagem de esperança.



* Este blogue tem como Guia de Estilo o Acordo Ortográfico de 1990 aplicado à norma europeia da Língua Portuguesa.