09 janeiro 2020

RETROSPETIVA: «BATMAN»

z38yhlwrnzgp8xbtvgwtgtahwxwckty0duxhqxy2.jpeg

  Gotham City, a bicentenária capital da corrupção, serve de arena ao duelo mortal entre o Homem-Morcego e o Palhaço do Crime, com centenas de vidas inocentes em jogo. Na viragem da década de 80, um filme com o toque burlesco de Tim Burton relançou a Bat-Mania e revolucionou todo um género.

Título original: Batman
Ano: 1989
País: Estados Unidos da América
Duração: 126 minutos
Género: Ação, Aventura e Super-Heróis
Produção: Warner Bros. Pictures e Guber-Peters Company
Realização: Tim Burton
Argumento: Sam Hamm e Warren Skaaren
Distribuição: Warner Bros. Pictures
Elenco: Michael Keaton (Bruce Wayne / Batman); Jack Nicholson (Jack Napier / Joker); Kim Basinger (Vicky Vale); Robert Wuhl (Alexander Knox); Michael Gough (Alfred); Pat Hingle (Comissário Gordon); Billy Dee Williams (Harvey Dent); Jack Palance (Carl Grissom); Jerry Hall (Alicia); Tracey Walter (Bob); William Hootkins (Tenente Eckhardt) e Lee Wallace (Mayor Borg)
Orçamento: 35 milhões de dólares
Receitas: 411,5 milhões de dólares

Anatomia de um clássico

Com uns quantos percalços de permeio, a longa-metragem do Cavaleiro das Trevas esteve em desenvolvimento durante uma década. A reboque do êxito de Superman, The Movie no ano anterior, as primeiras ideias começaram a ser gizadas em 1979. Em outubro desse ano,  enquanto na banda desenhada - efeito de algum estiolamento criativo - a popularidade do Batman mirrava de mês para mês, o produtor Michael E. Uslan adquiriu à DC Comics os respetivos direitos cinematográficos. Coincidência ou não, pouco tempo antes a estação televisiva CBS publicitara a sua intenção de produzir um telefilme cómico intitulado Batman in Outer Space, com o propósito de reviver o espírito kitsch da série dos anos 60.
Michael Uslan tinha de facto em mente algo muito diferente. Ambicionava apresentar ao público uma versão séria e definitiva do Batman consentânea com o conceito imaginado em 1939 por Bob Kane e Bill Finger: um justiceiro sombrio e atormentado que caçava criminosos a coberto da noite.

E Uslan
Michael Uslan foi o artífice do filme do Batman.
Nos meses seguintes, Uslan bateu à porta de vários estúdios de Hollywood, esbarrando no desinteresse destes em produzir um projeto com aquelas características. Columbia Pictures e United Artists foram duas das companhias que rejeitaram a proposta.
Embora naturalmente desapontado, Uslan recusou-se a deitar a toalha ao chão. Decidiu então escrever ele próprio um argumento. Intitulada Return of the Batman (O Regresso do Batman), a história serviria para melhor apresentar a sua visão da personagem aos responsáveis dos estúdios. Apenas para ser novamente brindado com a indiferença destes. Importa ter presente que naquela época os filmes de super-heróis eram ainda um género menor apelativo apenas para nichos restritos do público.
A sorte de Uslan começou a mudar no verão de 1980. Durante a Comic Art Convention de Nova Iorque, a Warner Bros. aceitou o seu projeto, na expectativa de conseguir replicar o sucesso da franquia do Homem de Aço, cujo segundo filme estrearia no final desse mesmo ano.
Apesar desse pequeno avanço, o projeto continuaria a aboborar nos três anos seguintes. Em 1983, Tom Mankiewicz escreveu um novo argumento com foco nas origens do Batman e de Dick Grayson, o primeiro Robin a acolitar o Cavaleiro das Trevas.  Joker e Rupert Thorne (um implacável barão do crime introduzido em 1977 no cânone do Batman) seriam os vilões e Silver St. Cloud o interesse romântico de Bruce Wayne.
Esta nova versão do enredo era baseada em Batman: Strange Apparitions, minissérie saída da pena de Steve Englehart e publicada originalmente entre maio de 1977 e outubro de 1978 em Detective Comics, um dos títulos mensais estrelados pelo Homem-Morcego.

Resultado de imagem para dc comics silver st cloud

Resultado de imagem para dc comics rupert thorne
Silver St. Cloud (cima) e Rupert Thorne
seriam personagens-chave no enredo original
de Batman.
Marshall Rogers, um dos ilustradores da referida minissérie, foi contratado para desenvolver a arte conceptual. Tudo parecia agora bem encaminhado, em especial após o anúncio de maio de 1985 como data de lançamento do filme, cujo orçamento ascenderia aos 20 milhões de dólares.
Tom  Mankiewicz queria um ator desconhecido para Batman (o que não impediu que nomes sonantes como Mel Gibson e Kevin Costner fossem equacionados), William Holden para Comissário Gordon, David Niven para Alfred Pennyworth e Peter O'Toole como Pinguim. Contudo, as mortes repentinas dos dois primeiros deitaram por terra tais pretensões.
Sucessivamente reescrito (nove vezes por outros tanto autores), o argumento de Mankiewicz continuou no entanto a servir de base ao desenvolvimento da película. Na banda desenhada, as ovacionadas obras O Regresso do Cavaleiro das Trevas e A Piada Mortal (já aqui esmiuçadas) tinham devolvido ao Batman o seu fulgor de outrora. Facto que encorajou a Warner Bros. a apostar numa adaptação cinematográfica do herói.
Após o sucesso financeiro de Pee-wee's Big Adventure (1985), a Warner Bros. contratou Tim Burton para dirigir o projeto. Uma escolha de alto risco, atendendo à inexperiência do realizador cujo currículo, à data, se resumia ao filme citado e duas curtas-metragens.

Imagem relacionada
Tim Burton foi a surpreendente escolha para dirigir Batman.
Em março de 1986, Steve Englehart foi incumbido de aplicar novo tratamento ao argumento de Tom Mankiewicz. Joker e Rupert Thorne mantiveram o seu estatuto de antagonistas, ao passo que a participação do Pinguim foi reduzida a um cameo. Silver St. Cloud e Dick Grayson seriam os coadjuvantes principais numa história que impressionou os executivos da Warner. Englehart considerava, porém, excessivo o número de personagens, pelo que removeu o Pinguim e Dick Grayson da trama.
Paralelamente, Tim Burton confiou a Sam Hamm (um aficionado da Nona Arte) a missão de escrever um guião alternativo. Hamm optou por não apresentar uma típica história de origem, privilegiando antes os flashbacks para desvendar o mistério em redor desta. Segundo ele, ninguém queria ver Bruce Wayne a treinar para se transformar no Batman...
Hamm substituiu também Silver St. Cloud por Vicky Vale (um dos mais duradouros interesses amorosos de Bruce Wayne) e Rupert Thorne pela sua própria criação, Carl Grissom. Numa revisão posterior, Dick Grayson seria igualmente suprimido da trama.
Apesar do entusiasmo suscitado pelo argumento de Hamm, a Warner Bros. estava agora menos disposta a avançar com o projeto, que parecia destinado a voltar à estaca zero. Durante esse novo impasse, o enredo de Hamm foi contrabandeado em várias lojas de comics americanas.

Resultado de imagem para sam hamm
O argumento de Batman teve a assinatura de Sam Hamm.
O ponto de viragem definitivo deu-se na primavera de 1988. O sucesso de Beetlejuice (Os Fantasmas Divertem-se), dirigido por Tim Burton e protagonizado por Michael Keaton, foi determinante para a Warner Bros. dar finalmente luz verde ao filme do Batman. A ideia era lançá-lo no ano seguinte enquadrado pelas comemorações do cinquentenário do herói. Sem tempo a perder, o projeto entrou em velocidade de cruzeiro.
Em meio à atmosfera de expectativa gerada por essa informação, rebentou uma aguerrida controvérsia. Quando os fãs do Cavaleiro das Trevas descobriram que seria Tim Burton a dirigir o filme, e que  seria Michael Keaton (veterano de comédias) a emprestar o seu franzino corpo ao guardião de Gotham, as reações negativas não se fizeram esperar. Motivadas, essencialmente, pelo receio de que o filme viesse a mimetizar o histrionismo da série televisiva com Adam West.

A escolha de Michael Keaton para fazer de Batman deixou os fãs
à beira de um ataque de nervos.
Nos meses seguintes, os escritórios da Warner Bros. foram inundados com 50 mil cartas de fãs furiosos com a escolha de Keaton para o papel principal. Sam Hamm e Michael Uslan também não viram a escolha com bons olhos. Por contraponto à euforia com que foi recebida a notícia de que o Joker seria interpretado por Jack Nicholson.
Nicholson apresentou, porém, um caderno de exigências antes de assinar o seu contrato. Entre outras coisas, o ator exigiu ser cabeça de cartaz, receber uma percentagem das receitas de bilheteira e definir o seu próprio cronograma para a gravação das suas cenas.
Sean Young (Blade Runner) foi a primeira atriz escalada para o papel de Vicky Vale, mas um acidente de equitação nas vésperas do arranque das filmagens deixou-a incapacitada. Dada a urgência em encontrar uma substituta adequada, a escolha recairia sobre Kim Basinger, com disponibilidade imediata para integrar o elenco.

Resultado de imagem para sean young
Sean Young quase vestiu a pele de Vicky Vale.
Nada disto tranquilizou, porém, os fãs. Para contrariar os rumores negativos acerca da produção, Bob Kane, cocriador do Batman, foi contratado como consultor criativo. Curiosamente, Kane também começara por torcer o nariz à escolha de Michael Keaton para interpretar a sua criação suprema.
O enorme interesse mediático suscitado pela produção demoveu Tim Burton de rodar o filme nos estúdios da Warner Bros, em Los Angeles. A fim de prevenir eventuais atos de espionagem, as filmagens foram transferidas para o Reino Unido. Mais concretamente, para os Estúdios Pinewood, nos arrabaldes londrinos.
Apesar do secretismo em torno da produção, a polícia britânica seria chamada na sequência do furto de duas bobines (contendo cerca de 20 minutos de filmagens). Material que, de resto, nunca seria recuperado. Também o diretor de marketing seria aliciado por desconhecidos com uma avultada soma em dinheiro a troco das primeiras imagens de Jack Nicholson como Joker.
Além dos constantes achaques de Tim Burton, a produção ficou marcada por uma apreciável derrapagem orçamental estimada entre os 5 e os 15 milhões de dólares. Acrescendo ainda a greve dos guionistas de Hollywood que terá prejudicado a qualidade do enredo. Com Sam Hamm impedido de retocá-lo devido à sua adesão ao boicote, coube a Warren Skaaren (argumentista de Beetlejuice) executar essa tarefa. Foi, aliás, da sua autoria uma das cenas mais controversas do filme, na qual Alfred concede a Vicky Vale acesso à Bat-Caverna.
Depois de já ter colaborado com Tim Burton em Pee-wee's Big Adventure e Beetlejuice, Danny Elfman foi o eleito para compor a banda sonora da película. Nela seriam também incluídas canções de Prince, apesar dos protestos de Tim Burton. O cineasta considerava a música de Prince demasiado comercial para um projeto autoral como Batman.
Concluída a rodagem em janeiro de 1989, Batman chegaria às salas de cinema americanas em junho desse ano. Verdadeiro fenómeno de bilheteira, foi o segundo filme mais rentável de 1989 (superado apenas por Indiana Jones e a Grande Cruzada) e relançou a Bat-Mania à escala planetária.
As Bodas de Ouro do Homem-Morcego ganharam, assim, um brilho especial e os fãs puderam dormir descansados.

Imagem relacionada
De roupa a guloseimas, passando por cereais de pequeno-almoço,
a Bat-Mania instalou-se um pouco por todo o lado.

Enredo

Num beco esconso de Gotham City, um incauto casal de turistas e o seu filho são assaltados à mão armada. Minutos depois, quando os dois meliantes dividem entre si o produto do roubo no telhado de um edifício próximo, são atacados por um sinistra figura vestida de negro que invoca um morcego gigante.
Apesar das omissões da Polícia, Alexander Knox, astuto repórter do Gotham Globe, prossegue a sua investigação sobre a presumível existência de um vigilante fantasiado de morcego, cujos avistamentos têm sido cada vez mais frequentes.

Imagem relacionada
A sombra do morcego paira sobre Gotham City.
Numa conferência de imprensa na escadaria da Câmara Municipal, o mayor Borg apresenta aos jornalistas Harvey Dent, o novo Promotor público. Em vésperas do bicentenário da fundação de Gotham City, ambos comprometem-se a limpar o crime e a corrupção que maculam a reputação da cidade.
De regresso à redação do Gotham Globe, Knox depara-se com Vicky Vale, a nova fotógrafa do jornal. Une-os a curiosidade de descobrir quem é o misterioso "homem-morcego" que assombra a noite de Gotham. Knox confidencia à colega o seu plano para se infiltrar na festa beneficente que terá lugar na Mansão Wayne. A ideia é confrontar o Comissário Gordon com os rumores sobre a existência de um ficheiro sobre o Batman.
Inquieto com a possibilidade de o novo Promotor descobrir as suas ligações sujas à Axis Chemicals, o barão do crime Carl Grissom encarrega Jack Napier, o seu sádico lugar-tenente, de invadir a fábrica e destruir a documentação comprometedora.

Imagem relacionada
Carl Grissom tem em Jack Napier o seu braço-direito.
Nessa mesma noite, Knox e Vicky Vale comparecem ao evento beneficente na Mansão Wayne. Questionado por Knox, o Comissário Gordon nega a existência de um vigilante à solta nas ruas de Gotham. Vicky, por sua vez, trava casualmente conhecimento com o discreto anfitrião, Bruce Wayne. A amena cavaqueira entre ambos é, porém, subitamente interrompida quando Alfred, o mordomo de Bruce, requisita a presença do patrão para cuidar de outro assunto.
Num centro de comando secreto instalado no subsolo da Mansão Wayne, Bruce analisa as gravações de videovigilância que mostram a saída apressada do Comissário Gordon depois de ser informado que estava em curso uma operação policial não-autorizada na Axis Chemicals.
Na fábrica, Jack Napier intui ter caído numa emboscada e pede aos seus homens para ficarem alerta. Com o Tenente Eckhardt no comando, a Polícia invade as instalações. Em meio à troca de tiros que se segue, Napier é encurralado por Batman e acaba acidentalmente por cair numa tina de produtos químicos.
No dia seguinte, a morte do lugar-tenente de Carl Grissom é descrita como suicídio. Knox suspeita, todavia, da responsabilidade de Batman pela mesma e pede ajuda a Vicky para o ajudar na investigação. Mas a jovem tem outros planos.
Surpreendentemente, Jack Napier sobreviveu e arrastou-se até ao consultório clandestino de um cirurgião a soldo da Máfia. Malgrado os esforços do médico, os químicos deixaram Jack deformado e desfiguraram-lhe o rosto, que exibe agora um sorriso permanente.
Na sua luxuosa cobertura, Carl Grissom é surpreendido pela aparição de Napier, que o assassina a sangue frio após ter deduzido que fora o ex-patrão quem o denunciara à Polícia. Tudo porque Jack andava a dormir com a amante de Grissom, a escultural Alicia. Jack Napier morreu nessa noite e no seu lugar nasceu Joker, o Palhaço do Crime.
Enquanto isso, Bruce e Vicky desfrutam de um serão tranquilo na Mansão Wayne. Cada vez mais intrigada pelo misterioso milionário, a jovem convida-o para sair mas ele recusa a pretexto de uma suposta viagem de negócios.

Resultado de imagem para batman 1989 vicky vale bruce wayne
Bruce Wayne e Vicky Vale vivem um romance atribulado.
Num conclave com o sindicato do crime, Joker informa os presentes que, devido à inesperada partida de Carl Grissom, será doravante ele a dirigir os negócios. Não hesitando em eletrocutar um dos seus associados quando este questiona o novo regime.Apesar dessa demonstração de força, no dia seguinte um dos chefes do crime anuncia publicamente que Carl Grissom lhe confiou o controlo do seu império. Ato contínuo, o Joker aparece e mata o rival antes de sair rapidamente de cena, sob o olhar embasbacado de Bruce Wayne. Também escondida nas imediações, Vicky Vale é, sem que se aperceba, fotografada por um dos asseclas do Palhaço do Crime. Que logo desenvolve uma obsessão pela bela fotógrafa.
Com a fábrica abandonada da Axis Chemicals a servir-lhe de esconderijo, Joker desenvolve em segredo o Smilex. Trata-te de um químico que, quando combinado com qualquer produto de higiene ou cosmética, se torna letal. Um pouco por toda a cidade, dezenas de vítimas sucumbem aos seus efeitos e o pânico instala-se.
Dias depois, Vicky Vale recebe um convite de Bruce Wayne para almoçar no Museu de Arte. Apenas para descobrir que se tratava de um engodo do Joker para atraí-la. Aterrorizada pelo vilão, Vicky é salva por Batman após uma espetacular entrada pela claraboia do edifício.

Resultado de imagem para batman 1989 museum scene
O Palhaço do Crime corteja Vicky Vale.
A bordo do potente Batmobile, Vicky participa numa alucinante perseguição pelas ruas de Gotham. Segue-se uma fuga apeada e uma breve escaramuça de Batman com os capangas do Joker. Quando o herói fica momentaneamente inconsciente, um dos bandidos tentar remover-lhe a máscara. Do alto de uma plataforma suspensa, Vicky fotografa o momento, na esperança de descobrir a verdadeira identidade do Batman.
Depois de voltar a si e de se desembaraçar dos homens do Joker, Batman vai ao encontro de Vicky e leva-a até à Bat-Caverna. Lá, o Homem-Morcego entrega a Vicky um ficheiro contendo informações sobre como neutralizar os efeitos do Smilex antes de se apoderar do rolo fotográfico da jovem.
Com as informações cedidas pelo Batman a circularem na comunicação social, Vicky recebe a visita de Bruce Wayne no seu apartamento. Embora disposto a revelar-lhe o seu segredo, o milionário é interrompido pela súbita aparição do Palhaço do Crime e do seu séquito. A fim de desviar a atenção do Joker, Bruce provoca-o e acaba baleado à queima-roupa. Antes de premir o gatilho, o vilão brinda Wayne com o seu mantra: "Alguma vez dançaste com o Diabo sob o pálido luar?"
Acode então à memória de Bruce - que escapou ileso graças a uma bandeja metálica usada como colete antibala - a fatídica noite em que os seus pais foram assassinado por alguém que proferira aquelas mesmas palavras.

Resultado de imagem para batman 1989 young jack napier
Os destinos de Jack Napier e Bruce Wayne ficaram entrelaçados.
Em nova conferência de imprensa, o mayor Borg anuncia o cancelamento das celebrações do Bicentenário por não estarem reunidas as condições de segurança. A transmissão televisiva é, contudo, subitamente interrompida pelo Joker. Que, por sua vez, anuncia que irá organizar uma grandiosa festa nessa noite na qual distribuirá 20 milhões de dólares. Terminando a sua alocução com um desafio ao Batman para um mano a mano.
Longe dali, Bruce Wayne acompanha a par e passo os acontecimentos a partir da Bat-Caverna. Após ser surpreendido pela visita de Vicky Vale, sai para se vingar do homem que lhe roubou a infância.

Batman a postos para a batalha.
Batman começa por mandar o Batmobile destruir a fábrica da Axis Chemicals, mas logo percebe que as instalações estão desertas.
Simultaneamente, pelas ruas de Gotham começa a desfilar a ruidosa parada encabeçada pelo Joker, que incluí vários balões gigantes. Para delírio da multidão, o Palhaço do Crime distribui dinheiro a rodos. Quando as pessoas percebem que se tratam, afinal,  de notas falsas, o Joker ordena que seja libertado o gás tóxico armazenado nos balões. Ato contínuo, dezenas de pessoas sucumbem aos efeitos da substância.
Batman cruza os céus aos comandos do seu Batwing e leva os balões para longe, salvando centenas de vidas inocentes. Ao tentar alvejar o Joker, acaba abatido pelo disparo de um revólver gigante. Vicky corre para os destroços fumegantes do avião, mas é raptada pelo Palhaço do Crime. Ambos sobem então as enormes escadarias que conduzem ao telhado de uma imponente catedral.
Embora ferido, Batman parte no encalço de Joker e de Vicky, derrotando pelo caminho os asseclas do vilão. Por fim, o Homem-Morcego e o Palhaço do Crime confrontam-se no campanário. Joker cai mas consegue arrastar consigo Batman e Vicky, deixando-os a balançar perigosamente na beirada da catedral.
Resultado de imagem para batman 1989 climax
Mano a mano entre o Homem-Morcego e o Palhaço do Crime.
Gotham é pequena demais para os dois.
Quando Joker está prestes a escapar à boleia da escada de corda de um helicóptero, Batman usa um gancho para o prender a uma gárgula, cujo peso provoca a queda do vilão para a morte.
No rescaldo da batalha, os homens do Joker são capturados pela Polícia e Gotham regressa lentamente à normalidade. O Comissário Gordon recebe também de Batman um sinal luminoso que deverá ser ligado sempre que a cidade precisar da sua ajuda.
Perto dali, Vicky Vale é transportada de limusina para a Mansão Wayne, com Alfred a alertá-la para o previsível atraso do patrão. Que, nesse preciso momento, observa do alto de um edifício o Bat-sinal que ilumina o céu noturno de Gotham.

Trailer: 


Prémios e nomeações


Ao conquistar o Óscar para Melhor Direção Artística, Batman tornou-se o segundo filme de super-heróis (depois de Superman, The Movie em 1979) a ser distinguido pela Academia de Hollywood. A esse prestigioso galardão averbou mais oito, quase todos em categorias técnicas. Destaque, por exemplo, para o People Choice's Award para Melhor Filme e para o Grammy para Melhor Composição Instrumental. 
Muita elogiada pela crítica, a atuação de Jack Nicholson rendeu-lhe diversas indicações para Melhor Ator. Também Tim Burton foi nomeado para Melhor Realizador, mas um e outro voltaram para casa de mãos a abanar.

Curiosidades


*Criação de Bob Kane e Bill Finger, Batman estreou-se em maio de 1939, nas páginas de Detective Comics nº27. Menos de um ano depois, em abril de 1940, seria a vez de Joker entrar em cena na edição inaugural de Batman, o primeiro título mensal do herói. Embora imediatamente transformados em arqui-inimigos, no grande ecrã o primeiro confronto entre ambos só aconteceria em 1966. Ano de lançamento de Batman, a primeira longa-metragem do Homem-Morcego - que, contudo, já tivera direito, nos anos 1940, a duas séries cinematográficas. Rodado no intervalo entre as duas primeiras temporadas da série televisiva homónima, o filme funcionou na prática como uma espécie de episódio alargado desta. Adam West e Cesar Romero deram vida, respetivamente, ao Cruzado Encapuzado e ao Palhaço do Crime nesse primeiro duelo em Technicolor;

Resultado de imagem para batman, the movie 1966
Titulada Batman, o Invencível  em Portugal,
a primeira longa-metragem do Homem-Morcego
foi lançada em 1966.

*Então com 61 anos, Adam West expressou, em várias entrevistas posteriores à estreia de Batman, o seu desapontamento por não lhe ter sido concedida a oportunidade de repetir o papel que, duas décadas antes, o celebrizara. Na sua autobiografia editada em 1994, West desmentiu ainda os rumores de que teria sido sondado para interpretar Thomas Wayne na película de Tim Burton. Acrescentando que, mesmo que tal convite tivesse existido, ele tê-lo-ia declinado sem pensar duas vezes;
*Face às hesitações de Jack Nicholson, o papel de Joker foi oferecido a Robin Williams. Quando os produtores o informaram desse facto, Nicholson resolveu aceitá-lo e Williams foi descartado. Ressentido, o ator recusaria interpretar o Charada em Batman Forever (1995), bem como participar em qualquer produção da Warner Bros. enquanto o estúdio não lhe apresentasse um pedido de desculpas formal:
*Tim Curry, John Lithgow, Ray Liotta, James Woods e David Bowie foram outros dos atores cogitados para o papel de Joker. O segundo arrependeu-se amargamente de ter pedido para ser excluído da lista;
*Ao contrário de Jack Nicholson (assumido fã de histórias de super-heróis e, em especial, das do Batman), nem Tim Burton nem Michael Keaton estavam familiarizados com a mitologia do Homem-Morcego. Para suprir essa lacuna, o produtor executivo Michael Uslan providenciou-lhes material de referência da personagem. A Burton foram dadas a ler todas as histórias do herói anteriores à introdução de Robin. Keaton, por sua vez, teve na saga The Dark Knight Returns (O Regresso do Cavaleiro das Trevas) a sua principal fonte de inspiração para o papel. Cuja preparação incluiu, também, uma temporada sozinho em Londres nas semanas que antecederam o início das filmagens;

Imagem relacionada
A origem do Joker no filme foi fortemente influenciada
 por A Piada Mortal, de Alan Moore. Obra muito louvada pelo
próprio Tim Burton.
*Meticuloso, Michael Keaton transmitiu a Tim Burton a sua preocupação relativamente à facilidade com que a identidade secreta do Batman poderia ser descoberta. Além de sugerir o uso de lentes de contacto, partiu dele a ideia de conferir uma entoação mais cava à voz do herói ao mesmo tempo que mantinha o seu timbre habitual nas cenas como Bruce Wayne. Ideia que faria escola nos vindouros filmes do Homem-Morcego - inclusive na trilogia dirigida por Christopher Nolan, com Christian Bale a empregar a mesma técnica;
*Na opinião de Michael Keaton, a sua experiência em comédias favoreceu a caracterização de Bruce Wayne. A título exemplificativo, o ator cita a cena (por ele sugerida) em que, depois de fazer amor com Vicky Vale, Bruce é visto, qual morcego, a baloiçar-se pendurado de cabeça para baixo numa barra metálica. Segundo Keaton, esse pormenor realçou a personalidade perturbada de Bruce Wayne;
*Com seis metros de comprimento e pesando quase uma tonelada e meia, o Batmobile do filme foi construído a partir do chassis de um Chevy Impala e equipado com um motor do mesmo modelo. Considerado por muitos fãs o mais elegante Batmobile cinematográfico, as suas linhas invocam o Thrust 2, bólide de fabrico britânico propelido a jato que, entre 1983 e 1997, deteve o recorde de velocidade em terra. As chamas expelidas pelo tubo de escape do veículo (do qual foram fabricados dois protótipos) eram reais, tendo sido produzidas com recurso a parafina;
*Por considerar que um uniforme de licra em tons de azul e cinza (cores tradicionalmente conotadas com o Batman) seria pouco intimidante, Tim Burton propôs a sua substituição por um traje totalmente negro. Apesar da reação adversa de alguns fãs, a ideia recebeu o pronto aval de Bob Kane. Tremendamente desconfortável, o traje ajudou no entanto o claustrofóbico Michael Keaton a  melhor interiorizar a natureza sorumbática da sua personagem;
*Michelle Pfeiffer, que à época mantinha uma relação amorosa com Michael Keaton, foi considerada para o papel de Vicky Vale. Por considerar que isso seria constrangedor para ambos, Keaton vetou a ideia. O casal acabaria no entanto por contracenar em Batman Returns, a sequela lançada em 1992;
*A ideia de Bruce Wayne visitar o Beco do Crime todos os anos por ocasião do aniversário da morte dos pais foi inspirada em No Hope in Crime Alley, história da autoria de Denny O'Neil (perfil disponível neste blogue) dada à estampa em Detective Comics nº457 (março de 1976). No filme, Bruce deposita duas rosas no exato local onde os seus pais foram mortalmente alvejados durante um assalto. Pormenor que se tornaria canónico em julho de 2003 numa história do Cavaleiro das Trevas incluída em Detective Comics nº782;
*Apesar de previsto, o cameo de Bob Kane no filme acabaria por não se concretizar. Um súbito problema de saúde do cocriador do Batman impediu-o de gravar a cena  em questão. Era, porém, da sua autoria o esboço do "homem-morcego" usado pelos outros repórteres do Gotham Globe para fazer troça de Alexander Knox (personagem, por sinal, inexistente na banda desenhada);

Resultado de imagem para batman movie bob kane
Criador e criatura.
*Jack Napier, o alter ego do Joker, foi criado propositadamente para o filme, uma vez que na banda desenhada o nome verdadeiro do vilão permanece um enigma indecifrável. O apelido Napier não foi uma escolha aleatória, sendo de facto uma referência a Alan Napier, o ator britânico que, na série televisiva dos anos 1960, deu vida ao mordomo Alfred Pennyworth;
*No clímax original, Vicky Vale era assassinada pelo Joker, lançando Batman numa espiral de vingança. A versão apresentada no filme, com o trio no cimo de uma catedral, remete para o final de O Corcunda de Notre-Dame, de Victor Hugo. A cena foi redefinida à revelia de Tim Burton;
*A revelação de que o Joker tinha sido o assassino dos pais de Bruce Wayne foi sugerida por Tim Burton. Embora conflituante com o cânone, o twist mereceu a aprovação de Bob Kane. No decurso dos anos, popularizou-se entre os fãs uma teoria preconizando que o Joker não seria o verdadeiro assassino de Thomas e Martha Wayne, mas que Batman projetaria essa ideia em todos os seus inimigos;
*Batman foi o único filme do Cavaleiro das Trevas a revelar a origem do Joker (fortemente influenciada pela Piada Mortal, de Alan Moore) e o único em que o herói enfrenta apenas um vilão;
*Com argumento de Denny O'Neil e ilustrações de Jerry Ordway, a adaptação oficial de Batman aos quadradinhos foi lançada em maio de 1989, precedendo em um mês a estreia da película. No Brasil, seria publicada em outubro desse mesmo ano pela editora Abril.

O filme aos quadradinhos.

Veredito: 90%


Sujeito ao gradual processo de oxidação decorrente da passagem dos anos, constata-se que o enredo de Batman não envelheceu bem em alguns aspetos. Facto compensado por outros elementos como o visual de Gotham (misturando diferentes estilos arquitetónicos, a cidade acabar por ser outra personagem), a elegância do Batmobile e, claro, a magistral representação de Jack Nicholson. Tão magistral que a, espaços, chega a ofuscar o herói, relegado para um plano secundário no próprio filme.
Evidentemente que, neste ponto, Tim Burton tem culpa no cartório ao não explorar como devia a alma torturada de Bruce Wayne. Resumindo a história a um duelo de freaks, Burton tomou claramente partido do Palhaço do Crime em detrimento do Homem-Morcego. 
Mesmo sem aprofundar-se na psicologia de Batman, o filme é eficaz a apresentar as suas motivações. Mas não anula outro efeito negativo dessa abordagem menos centralizada: o facto de se saber muito pouco sobre as origens do herói. Se esse elemento pode soar supérfluo para alguns fãs da personagem, não o é seguramente para o espectador comum.
O verdadeiro ponto fraco de Burton foram, todavia, as cenas de ação. Denunciando a inexperiência do cineasta nesse campo, as lutas e perseguições nem sempre são bem coreografadas, levando a alguma confusão nos momentos de maior adrenalina.
Em contrapartida, Michael Keaton foi uma agradabilíssima surpresa. Mesmo não possuindo os requisitos físicos necessários para o papel, cumpriu exemplarmente a nível psicológico. Nenhum dos atores que o antecederam ou sucederam incorporaram tão primorosamente a melancolia e obstinação que definem aquela que é uma das mais fascinantes personagens dos quadradinhos e um ícone da cultura pop
Batman tem ainda o condão de adaptar certos elementos retirados da banda desenhada que, mesmo afigurando-se demasiado burlescos, nunca deixam de ser divertidos. Infelizmente, o argumento não é um primor; algumas situações são forçadas e algumas personagens importantes (com o Comissário Gordon à cabeça) são desperdiçadas.
Analisando porém a obra com a perspetiva concedida por 30 anos, conclui-se que Batman continua a ser um excelente filme. Desde logo pela sua fidelidade ao conceito adaptado, mas também pela eficiência estética da direção inspirada de Tim Burton. Sem mencionar a importância que teve na evolução do género super-heroico, ao comprovar que era possível imprimir um registo sério a filmes com justiceiros fantasiados.
Que me perdoem, pois, os indefetíveis da trilogia do Cavaleiro das Trevas e as viúvas de Christian Bale, mas Batman continua a ser o meu filme favorito do Homem-Morcego, e Michael Keaton o ator que melhor o interpretou.

Um clássico memorável.




Nota: Este blogue tem como Guia de Estilo o Acordo Ortográfico de 1990 aplicado à norma europeia da Língua Portuguesa.

28 novembro 2019

HEROÍNAS EM AÇÃO: ZATANNA



 Nem Abracadabra nem Hocus Pocus. É com palavras encantadas viradas do avesso que a Princesa da Prestidigitação salpica o mundo com a magia que lhe infunde o ser. Nos palcos ou fora deles, tem sempre novos truques na manga e nunca se sabe o que poderá tirar da cartola.

Denominação original: Zatanna
Licenciadora: Detective Comics (DC)
Criadores: Gardner Fox (história) e Murphy Anderson (conceção visual) 
Estreia: Hawkman Vol.1 nº4 (novembro de 1964)
Identidade civil: Zatanna Zatara 
Espécie: Homo Magi 
Local de nascimento: Desconhecido
Parentes conhecidos: Giovanni "John" Zatara e Sindella (pais, falecidos); Zachary Zatara (primo); Leonardo da Vinci (antepassado paterno, falecido); Nostradamus (antepassado paterno, falecido); Alessandro Cagliostro (antepassado paterno, falecido); Arion (antepassado materno, falecido)
Ocupação: Mágica, ilusionista, ocultista e aventureira
Base operacional: Berço das Sombras, nas cercanias de Gotham City.
Afiliações: Ex-parceira de John Constantine, é também ex-membro da Liga da Justiça da América, da Liga da Justiça Sombria, das Sentinelas da Magia e dos Sete Soldados da Vitória.
Némesis: Allura
Poderes e parafernália: Zatanna é uma Homo Magi, subespécie humana detentora da capacidade inata de manipular magia. A sua singular estrutura genética permite-lhe canalizar tanto a magia que lhe impregna o ser como aquela que aprendeu através do estudo das artes arcanas.
Rendendo tributo ao seu saudoso progenitor, o grande mágico Zatara, Zatanna recita palavras invertidas para conjurar os seus feitiços. Este peculiar método designa-se encantação mnemónica ou logomancia. A título exemplificativo, para deter um veículo em movimento o comando vocal seria "aráP" ("Pára" dito às avessas).
Nem sempre Zatanna necessita, porém, de recorrer à encantação mnemónica para invocar os seus sortilégios. Em múltiplas ocasiões provou ser capaz de fazê-lo falando normalmente. Como último recurso em situações desesperadas, pode também lançar feitiços - especificamente de autorregeneração quando ferida com gravidade -  escrevendo as palavras encantadas com o próprio sangue.
Se não usados, os poderes mágicos de Zatanna aumentam exponencialmente. Em contrapartida, o seu uso excessivo poderá exauri-los ao ponto de prejudicar-lhe a saúde. Quando isto sucede, repouso prolongado é a única forma eficaz de restaurá-los.

Resultado de imagem para zatanna bullets
Zatanna transforma balas em aviões de papel.
Por favor. não tentem fazer isto em casa!
Por tudo isto, a exata extensão dos poderes daquela que é considerada uma das feiticeiras supremas do plano corpóreo permanece uma incógnita. Sabe-se, todavia, que o seu robusto inventário de habilidades inclui controlo elemental, aumento da massa corporal, hipnose, levitação, telepatia, telecinesia, transmutação, projeção astral e manipulação de memórias alheias.
Nos primórdios da sua colaboração com a Liga da Justiça, este seu último talento, em particular, foi determinante para derrotar a Sociedade Secreta de Supervilões. Num audacioso plano, o grupo conseguira trocar de corpos com os heróis descobrindo no processo as suas identidades civis. Coube então a Zatanna eliminar essas memórias dos inimigos da Liga.
Em Crise de Identidade (saga já aqui esmiuçada), foi também Zatanna quem alterou a personalidade do sádico Doutor Luz e apagou as memórias dos membros da Liga opositores dessa controversa medida. Por conta disso, a sua amizade com o Batman - um dos lobotomizados - saiu profundamente abalada.
Especula-se que o sentimento de culpa que ela carrega desde esse incidente a impede de alcançar o pleno potencial das suas já de si formidáveis capacidades. A intensidade dos poderes de Zatanna parece, com efeito, oscilar em função dos seus níveis de confiança.
Quanto mais fragilizada a sua autoestima, menos eficazes são os feitiços de Zatanna. Condicionalismo evidenciado nas sucessivas falhas que cometeu durante a sua breve aliança com os Sete Soldados da Vitória, porventura a fase mais conturbada da sua carreira heroica.
Não obstante, o único limite comprovado aos poderes da Mestra da Magia consiste na impossibilidade de ressuscitar defuntos. À parte isso, as suas capacidades parecem cerceadas apenas pela sua imaginação.

Resultado de imagem para zatanna bullets
Zatanna agiganta-se para combater o Mal.
Diletante do ilusionismo e da prestidigitação, os espetáculos de Zatanna arrancam sempre arquejos de espanto às plateias fascinadas. Aquilo que estas tomam por elaborados truques são, afinal, manifestações de pura magia.
Mesmo fora dos palcos, Zatanna é inseparável da sua cartola e da sua varinha de condão. Se se tratam de meros adereços ou de pontos focais para os seus feitiços é um dos segredos mais bem guardados da Mestra da Magia. De cuja cartola tanto pode sair um coelho como um portal para outra dimensão.
Como qualquer mágico que se preze, Zatanna nunca pára de surpreender. O que também consegue fazer graças à sua destreza no combate desarmado. Desengane-se, pois, quem a toma por indefesa se privada da sua magia.
Ainda pessoa de palmo e meio, Zatanna aprendeu com o pai técnicas de autodefesa. Já adulta, foi treinada em diversas artes marciais por ninguém menos que o Batman.
Zatanna herdou também do seu pai o misterioso Berço das Sombras. Trata-se de uma vetusta mansão, tradicionalmente instalada nas cercanias de Gotham City, que lhe serve de lar e base operacional. Além de albergar um infindável número de relíquias e artefactos místicos, o Berço das Sombras possui propriedades sobrenaturais.
Apesar de fisicamente localizada no nosso mundo, a casa parece vinculada a outro plano de existência e possuir vida própria (tem por hábito expulsar hóspedes inconvenientes). Na sua imponente biblioteca repousam centenas de obras místicas  e tratados sobre o Ocultismo, que Zatanna estuda com afinco. Sempre ciente de que a prática do Bem é a magia mais poderosa.

Imagem relacionada
Zatanna dá boas-vindas a Mary Marvel,
antiga hóspede do Berço das Sombras.
Fraquezas: Conjurar os seus feitiços e sortilégios por meio de palavras e frases invertidas é um método que requer enorme concentração por parte de Zatanna. Ou não fosse a encantação mnemónica a mais complexa das artes místicas, somente ao alcance de magos superiores. Sendo também esse o momento em que ela fica mais vulnerável a eventuais ataques.
Do conhecimento da generalidade dos seus adversários, esse constrangimento aos poderes de Zatanna é frequentemente explorado por eles. Uma das táticas mais eficazes consiste em amordaçá-la e/ou vendá-la, já que ela precisa pronunciar ou ler as suas palavras encantadas para invocar a magia.
Alguns, como o Exterminador, optam por medidas ainda mais drásticas. Certa vez, o vilão direcionou um violento golpe ao fígado de Zatanna, induzindo-lhe a regurgitação e impedindo-a, desse modo, de recitar os seus encantamentos reversos.
Ironicamente, a Princesa da Prestidigitação é também suscetível à magia mais poderosa do que a sua. Se o seu oponente for um deus ou um mago de nível superior, dificilmente ela sairá vencedora do duelo. Ademais, a energia negativa emanada de certos reinos místicos, como o Inferno, não só interfere profundamente com a magia de Zatanna como lhe provoca intenso sofrimento físico.

Imagem relacionada
Sortilégios amordaçados.


Filha da magia

Zatanna foi criada em 1964 pelo escritor Gardner Fox (perfil disponível neste blogue) e pelo artista Murphy Anderson quando a DC decidiu reforçar o seu panteão com uma heroína com poderes mágicos.
Em harmonia com as releituras de outras personagens clássicas da editora, como o Flash ou o Lanterna Verde, Zatanna era a declinação de um conceito preexistente. Nesse sentido, convencionou-se que seria a filha de Geovanni Zatara, um lendário mágico da Idade de Ouro há muito relegado para a obscuridade.
No momento de definir o visual de Zatanna, Murphy Anderson atribuiu-lhe uma indumentária inspirada na do pai, trocando apenas as calças por umas insinuantes meias de rede. Em conjunto com o fraque e a cartola, este acessório ajudou a fazer de Zatanna um expoente de sensualidade. A despeito das várias mudanças de uniforme no rolar das décadas, esta sua primeira versão continua a ser a mais icónica.

Murphy Anderson (1926-2015) criou
o icónico visual de Zatanna.
Mesmo não sendo um conceito inédito, Zatanna possuía algumas especificidades interessantes. Desde logo o facto de a sua natureza mística destoar entre a fornada de heróis com origens científicas da Idade de Prata. Se o imaginário da Idade de Ouro ficou impregnado de magia e Ocultismo, o da Idade de Prata invocava essencialmente elementos da ficção científica. Sendo o Lanterna Verde um caso paradigmático: de herói místico passou a agente policial intergaláctico. Zatanna, pelo contrário, manteve viva a tradição familiar de usar a varinha de condão para salvar o dia.
Vítima do sexismo que à época fazia escola na cultura popular, Zatanna viu também as suas capacidades serem frequentemente diminuídas, de modo a prevenir o ofuscamento dos seus ocasionais apêndices masculinos. Apesar dos seus incríveis poderes, a Mestra da Magia via-se amiúde reduzida à vexatória condição de donzela indefesa.
Zatanna fez o seu debute em Hawkman nº4 (novembro de 1964), numa história intitulada The Girl Who Can Split in Two (A Rapariga que Pode Dividir-se em Duas), e cuja trama girava em redor da sua obstinada demanda pelo pai misteriosamente desaparecido há vários anos. A esta sua primeira aparição na série periódica do Gavião Negro (outro dos heróis reimaginados na Idade de Prata) seguiram-se participações noutros títulos da Editora das Lendas precedendo o seu reencontro com Zatara, em Justice League of America nº51 (1967).

Imagem relacionada
A sensacional estreia de Zatanna em Hawkman nº4 (1964).
À crescente notoriedade da Princesa da Prestidigitação não correspondeu, porém, um desenvolvimento dos aspetos relacionados com o seu passado. Zatanna parecia, ao invés, fadada a ser apenas uma personagem genérica, espécie de pau para toda a obra requisitado sempre que era preciso incluir elementos místicos numa história.
Prova disso foi o seu reconhecimento tardio como membro de pleno direito da Liga da Justiça da América. Apesar das suas recorrentes colaborações com o grupo, Zatanna só seria oficialmente admitida cerca de uma década mais tarde.
Com a inclusão de Zatanna no organograma da Liga da Justiça coincidiu a sua primeira mudança de visual. A Mestra da Magia passou então a apresentar-se com um traje negro cingido ao corpo e adornado por uma longa capa vermelha. Mais tarde seria revelado que este seu novo figurino (detestado pelos fãs) replicava o de Sindella, a mãe que julgava morta (ver texto seguinte).

Quando trocou os palcos pela Liga da Justiça.
Zatanna adotou um novo visual.

Em paralelo às suas aventuras ao lado da Liga da Justiça, durante esta fase Zatanna ajudou também o Super-Homem a compreender melhor a sua vulnerabilidade à magia. Eram, de resto, comuns as suas colaborações com outros heróis a braços com ameaças sobrenaturais.
No entanto, à medida que a relevância de Zatanna nas histórias da Liga ia aumentando, os seus poderes iam encolhendo. Até ao ponto em que conseguia apenas manipular os quatro elementos primordiais. Constrangimento que não a impediu de ser eleita líder do grupo - o primeiro membro não fundador a exercer o cargo.
Curiosamente, esta nova alteração de estatuto veio acompanhada de uma segunda mudança de visual. Parecendo ter descartado de vez a cartola e as meias de rede, a Princesa da Prestidigitação envergava agora um uniforme negro e azul de mangas largas e com uma capa branca, que se tornaria a sua imagem de marca durante a Idade de Bronze.

Imagem relacionada
Novas funções, novo uniforme.
Quando, em 1984, o elenco clássico da Liga da Justiça foi parcialmente substituído por membros mais jovens, Zatanna, a par de Aquaman, foi uma das representantes da anterior geração a permanecer no grupo. Que seria no entanto desmantelado pouco tempo depois, no início dos eventos narrados em Lendas. Na nova Liga da Justiça entretanto formada deixou de haver lugar para a Mestra da Magia.
Zatanna passou por profundas transformações na continuidade pós-Crise nas Infinitas Terras. Além de uma amizade cunhada com Bruce Wayne nos tempos de infância, o grosso das suas histórias foi publicado sob o selo Vertigo, a linha de temáticas adultas da DC. Durante essa fase, Zatanna recuperou o seu visual original (apesar de ter tingido o cabelo de loiro), tornou-se parceira e amante de John Constantine e reforçou a sua influência entre a comunidade mística.
Em 2010, Zatanna foi pela primeira vez contemplada com uma série em nome próprio. Após o seu cancelamento precoce ditado pelo reboot Os Novos 52, a Mestra da Magia juntou-se à recém-formada Liga da Justiça Sombria, espécie de filial esotérica da Liga da Justiça. O grupo teve, porém, existência efémera e, por estes dias, Zatanna prefere explorar sozinha as encruzilhadas da vida e do mundo sobrenatural.

Zatanna and John
Zatanna e John Constantine escreveram juntos
 fábulas de magia e sedução.

Zatanna e a Liga da Justiça Sombria.

Meu pai, meu herói

Zatanna é a filha única do malogrado casal composto por Giovanni Zatara, um mágico aventureiro de origem italiana, e Sindella, membro da tribo de feiticeiros conhecida como Homo Magi. A jovem herdou da mãe a afinidade com a magia, e do pai a costela aventureira.
Após o nascimento da filha, Sindella encenou a própria morte para poder regressar ao santuário secreto do seu povo, situado algures na Turquia. Apesar de viúvo, Zatara criou sozinho a pequena Zatanna.
Enquanto os dois viajavam juntos pelas sete partidas do mundo, Zatara ensinou a filha a aprimorar os seus talentos místicos. Zatanna idolatrava o pai e sonhava um dia seguir-lhe as pisadas nos palcos.
Anos mais tarde, Zatara evaporou-se da face da Terra devido à maldição que Allura, uma cruel feiticeira extradimensional, lançou sobre Zatanna. Uma maldição que a manteria separada do pai durante vários anos.
Sozinha no mundo, Zatanna embarcou numa infrutífera busca por Zatara. Encontrou, no entanto, os seus diários, que a inspiraram a abraçar uma bem-sucedida carreira como ilusionista. Com a sua sensualidade e carisma a fazerem dela um espetáculo dentro do espetáculo.

Imagem relacionada

Imagem relacionada
Zatara e Sindella,  a magia corria
 nas veias dos pais de Zatanna.
Auxiliada pela Liga da Justiça da América, Zatanna conseguiu finalmente reverter a maldição de Allura e reencontrar o pai pouco antes da reunião de ambos com Sindella. A felicidade familiar foi, porém, novamente desfeita quando Sindella morreu ao resgatar a filha do santuário dos Homo Magi.
Ainda destroçada por essa tragédia, pouco depois Zatanna assistiria, impotente, ao martírio do pai, para salvá-la das garras da Grande Besta do Mal.
Na esteira desses fatídicos eventos, Zatanna, de coração enlutado, suspendeu a sua atividade heroica. Após uma temporada dedicada quase exclusivamente a estudar os segredos do Berço das Sombras, o ancestral lar do clã Zatara, a Princesa da Prestidigitação procurou um novo começo em São Francisco. Na ensolarada urbe californiana vem procurando levar uma vida normal ao mesmo tempo que tenta preservar o equilíbrio entre luz e trevas no seio da comunidade mística. Mas trilhando sempre o caminho iluminado pelo exemplo do seu maior herói: Geovanni Zatara.

Zatanna putting on a show
O palco é o habitat natural de Zatanna.

Miscelânea

*Além de Princesa da Prestidigitação, Zatanna é também usualmente cognominada Mestra da Magia, Dama da Magia, Zanna ou simplesmente Z;
*Criação de Fred Guardineer, o mágico Zatara, pai de Zatanna, é uma das personagens mais antigas do Universo DC. A sua estreia teve lugar em Action Comics nº1, a mesma edição histórica que, em junho de 1938, apresentou o Super-Homem ao mundo, sinalizando de caminho o início da chamada Idade de Ouro dos super-heróis. Tal como a filha, Zatara ganhava a vida como ilusionista sem que o público suspeitasse que não eram truques mas magia real aquilo com que ele o brindava nos seus espetáculos. Os poderes de Zatara eram, porém, consideravelmente mais limitados do que os de Zatanna. Já a sua aparência evocava a de Mandrake, o mestre do ilusionismo imaginado por Lee Falk em 1934, e do qual era um assumido pastiche. Para entrelaçar os passados de Zatanna e Bruce Wayne, um retcon estabeleceu que Zatara era um velho amigo de Thomas Wayne, tendo-lhe inclusivamente apresentado a sua futura esposa, Martha. Em virtude dessas alterações retroativas, Zatanna e Bruce partilharam a infância em Gotham City;

Resultado de imagem para dc comics zatara
Zatara hipnotiza bandidos em Action Comics nº1 (1938).
Qualquer semelhança com Mandrake não será decerto
mera coincidência. 
*Antes mesmo do supracitado retcon, a infância de Zatanna era pontuada por múltiplas contradições. Na sua primeira aparição, em Hawkman nº4 (1964), a filha de Geovanni Zatara afirmava que o seu pai estava desaparecido há alguns anos. Contudo, em Justice League of America nº51 (1967), ela revelou aos seus companheiros de equipa que haviam passado vinte longos anos desde a  última vez que vira o pai. Mas as inconsistências não se ficam por aqui. Em Secret Origins nº27 (1988), Zatanna afirmava que o pai havia desaparecido logo após o seu 18º aniversário. Isto já depois de, em Justice League of America nº163 (1979), ter sido por fim revelada a identidade da sua mãe, que a abandonou à nascença. Ora, se tanto esta última circunstância como a ausência de Zatara durante duas décadas forem tomadas como verdadeiras, tal significaria que Zatanna crescera órfã. O que colide com a informação revelada em diferentes histórias que davam como ponto assente ela ter sido criada pelo pai. Assim sendo, é mais razoável presumir que o sumiço de Zatara terá coincidido com o 18º aniversário de Zatanna, corroborando a tese original de que os dois apenas teriam estado separados por alguns anos;
*Zatanna e Zatara são descendentes diretos de Leonardo da Vinci, o visionário artista italiano que viveu nos séculos XV e XVI. Foi, aliás, depois de decifrar os diários desse seu ilustre antepassado - escritos de trás para frente - que Zatara descobriu a sua habilidade inata de invocar magia. O ramo paterno da árvore genealógica de Zatanna inclui ainda outras celebridades históricas conotadas com o Ocultismo. A saber: Nostradamus ( médico e profeta francês do século XVI); Alessandro Cagliostro (alquimista e curandeiro italiano do século XVIII) e Arion, o mago supremo da Atlântida;
*No baralho de Tarô - arte que Zatanna também domina - de Madame Xanadu, a Mestra da Magia surge sugestivamente representada como a Ilusionista;
*No Universo Amálgama (mescla dos universos Marvel e DC ocorrida em finais dos anos 1990), Zatanna foi fundida com a Feiticeira Escarlate, originando Wanda Zatara, a Feiticeira Branca;

Resultado de imagem para amalgam comics white witch
Wanda Zatara, a Feiticeira Branca.
*Senhora de uma beleza exuberante, Zatanna derrete corações à sua passagem. Entre aqueles que sucumbiram aos seus encantos avultam vários notáveis da Editora das Lendas. Com o Flash Barry Allen, por exemplo, Zatanna manteve um curto affair quando eram ambos membros da Liga da Justiça e o Velocista Escarlate se recompunha ainda da morte da sua esposa. Devido ao passado em comum, Zatanna mantém igualmente uma forte amizade com o Batman. Apesar de ambos terem em tempos discutido a possibilidade de transporem a relação para um novo patamar, concordaram que a devoção do Homem-Morcego à sua missão seria um enorme entrave, optando por permanecerem apenas bons amigos. Foi, no entanto, com John Constantine, seu ex-parceiro de aventuras, que Zatanna viveu o seu mais tórrido e duradouro romance. Mais recentemente, no contexto dos Novos 52, a Princesa da Prestidigitação partilhou os seus afetos com Jason Blood, o alter ego humano do demónio Etrigan;
*A confirmar o seu estatuto de sex symbol, o Comics Buyer's Guide atribuiu a Zatanna o 4º lugar na sua lista das cem mulheres mais sensuais dos quadradinhos. Surgindo, de resto, como a personagem feminina da DC mais bem cotada na tabela, superando a própria Mulher-Maravilha.

Imagem relacionada
A cumplicidade entre o Cavaleiro das Trevas e a Princesa da Prestidigitação.

Noutros media

Um episódio de Batman: The Animated Series apropriadamente intitulado Zatanna foi, em 1993, o cenário da estreia da Princesa da Prestidigitação no segmento audiovisual, no qual tem já presença de relevo.
Essa sua primeira versão animada tinha a particularidade de ser desprovida de poderes mágicos. Zatanna é descrita como uma simples ilusionista em digressão por Gotham City que mantém uma velha amizade com Bruce Wayne.
Com grau variável de importância, Zatanna tem sido desde então uma habitué nas séries animadas baseadas no Universo DC, mas também em jogos de vídeo. Mais modesta é a sua participação em produções em ação real. Smallville apresentou-nos a única versão de carne e osso da personagem. Serinda Swan vestiu o fraque de Zatanna nas últimas três temporadas da série que revisitava os tempos de juventude do Homem de Aço.
Mais próxima do cânone, a versão televisiva de Zatanna era a deslumbrante filha do mágico Zatara e uma mestra das artes arcanas.
Ainda sem espaço no Universo Cinematográfico DC, no início deste ano correram rumores - entretanto desmentidos - sobre uma possível participação de Zatanna em Esquadrão Suicida 2. Entretanto, os fãs sonham com o dia em que a magia da Princesa da Prestidigitação salpicará o grande ecrã.

Resultado de imagem para batman the animated series zatanna"

Resultado de imagem para smallville zatanna"
Zatanna ao lado do Homem-Morcego em
 Batman: The Animated Series (cima)
 e interpretada por Serinda Swan em Smallville.


06 novembro 2019

ETERNOS: JOE SIMON (1913-2011)


  Pôs o seu Capitão América a esmurrar Hitler antes mesmo do Tio Sam declarar guerra ao Führer. Demiurgo da 9ª Arte, formou com Jack Kirby uma das mais poderosas forças criativas da Idade de Ouro e foi pioneiro em diferentes géneros narrativos.

Naquele tórrido final de tarde de julho de 2011, o mítico El Capitan Theatre de Los Angeles engalanou-se para receber a estreia mundial de Captain America - The First Avenger. De Chris Evans a Robert Downey Jr. passando pelo inevitável Stan Lee, foram muitas as celebridades que, para gáudio dos fãs, desfilaram pela passadeira vermelha.
O glamoroso evento ficou, contudo, marcado por uma ausência de peso: a de Joe Simon. A frágil saúde do nonagenário cocriador do Capitão América impediu-o de estar presente. Mas nem por isso deixou de se fazer representar, uma vez que os seus netos chamaram a si essa tarefa. E terão decerto sentido um frémito de emoção ao verem, pela primeira vez, o nome do avô associado a uma produção dos Estúdios Marvel.
Após longos anos de disputas judiciais com a Casa das Ideias motivadas por direitos de autor, Joe Simon e o seu saudoso compagnon de route Jack Kirby (falecido em 1994) eram finalmente reconhecidos como criadores do Capitão América. Consagração tão tardia quanto merecida da parelha que, em tempos de tirania e desesperança, animara a luta dos justos com o seu Sentinela da Liberdade.
Quis no entanto o destino, sempre pródigo em amargas ironias, que aquele ano da graça de 2011 fosse o primeiro do Capitão América no Universo Cinematográfico Marvel e o último na vida do seu criador. Uma vida que principiara quase um século antes e que se entrançara com a história dos comic books americanos.
Segundo filho de um humilde casal judaico de Rochester (a terceira cidade mais populosa do estado de Nova Iorque), Joseph "Joe" Henry Simon nascera Hymie Simon a 11 de outubro de 1913. Harry Simon, o pai, trocara em 1905 as terras de Sua Majestade pelas do Tio Sam em busca de um futuro menos austero do que aquele que a sua Leeds natal lhe poderia oferecer. Alfaiate de profissão, assentara arraiais em Rochester por ser este à época um importante centro de manufatura têxtil.

Rochester serviu de berço a Joe Simon, em 1913.
O pequeno Joe (assim rebatizado pela mãe, Rose, que abominava o nome original) cresceu com a irmã mais velha, Beatrice, no modesto apartamento da família Simon, que servia também de ateliê ao pai. Foi ainda nos seus anos de meninice, marcados pela pobreza, que Joe Simon começou a rabiscar os primeiros desenhos.
Esse seu talento precoce não mais cessou de evoluir, valendo-lhe, já adolescente, o cargo de diretor artístico do jornal do liceu Benjamin Franklin, onde estudou. O primeiro trabalho profissional chegaria por esses dias, quando duas universidades lhe encomendaram desenhos para ilustrar os respetivos anuários.
Em 1932, concluído o liceu, Joe Simon foi contratado como assistente do diretor artístico do Rochester Journal-American, um tabloide local de tiragem modesta. Posto em que, curiosamente, rendeu Al Liederman, seu futuro colega na Timely Comics.
Um par de anos volvidos, em 1934, Joe Simon assumiu as funções de cartunista e ilustrador da secção desportiva do Syracuse Herald. Sem que o soubesse, desenhar atletas prepará-lo-ia para desenhar super-heróis. Chamado a vestir ocasionalmente a pele de repórter, ganhou também tarimba na escrita.
Após essa enriquecedora experiência - abruptamente interrompida pela falência do jornal - Joe Simon, então um mancebo de 23 anos, achou que Rochester lhe ficara estreita e resolveu rasgar novos caminhos em Nova Iorque.

Resultado de imagem para young joe simon
Verdes de anos de um gigante da 9ªArte.
Na Grande Maçã, Joe Simon começou por trabalhar como freelancer para a Paramount Pictures, retocando fotos promocionais dos filmes produzidos pelo estúdio. Simon gabava-se mesmo de ter retocado os bustos de algumas das maiores divas de Hollywood, como Bette Davis e Joan Crawford.
Aos serviços prestados à Paramount, Joe Simon acrescentava o trabalho no departamento de arte da Macfadden Publications, editora que tinha na revista True Story a sua publicação mais popular.
Pouco tempo depois, o seu chefe, Harlan Crandall, recomendá-lo-ia a Lloyd Jacquet, dono da Funnies, Inc., uma das muitas agências que, nos primórdios da indústria dos comics, providenciavam matéria-prima às editoras que se aventuravam no mercado sem staff ou ideias próprias.
A estreia de Joe Simon no género super-heroico aconteceria logo em seguida. A pedido de Martin Goodman. presidente da recém-fundada Timely Comics, Lloyd Jacquet incumbiu-o de conceber um herói flamejante à imagem e semelhança do Tocha Humana, uma das estrelas da companhia.
Sem tempo a perder, Joe Simon arregaçou as mangas e deitou mãos à obra. Dias depois, apresentou aquele que seria o primeiro super-herói da sua lavra. Fiery Mask (Máscara Flamejante) debutou em Daring Mystery Comics nº1 (janeiro de 1940) numa história totalmente produzida por Simon.
Essa polivalência seria, de resto, uma das chaves do seu sucesso na indústria onde dava os primeiros passos. A outra seria a sua fecunda parceria com Jack Kirby, com quem cunharia amizade para a vida.

Imagem relacionada
Máscara Flamejante, o primeiro super-herói com assinatura de Joe Simon.
Joe Simon conheceu Jack Kirby em finais de 1939, quando ambos começaram a trabalhar na Fox Comics. Um encontro com contornos inusitados revisitado por Simon em 1998 na Comic-Con de San Diego: «Eu tinha um fato, o que impressionou Jack. Ele nunca tinha visto um desenhador vestido daquela forma. Expliquei-lhe que o meu pai era alfaiate e que fora ele a fazer-me o fato por medida. Jack disse-me que o pai dele também era alfaiate, mas só confecionava calças. Na altura, eu trabalhava como freelancer a partir de um pequeno estúdio alugado a poucos quarteirões do edifício onde estavam instaladas a DC e a Fox Comics, e tinha acabado de criar Blue Bolt para a Novelty Press. Quando Jack me mostrou alguns dos seus esboços fiquei de queixo caído. O traço dele era fantástico! Quando ele me perguntou se podíamos fazer alguns trabalhos em conjunto, levei-o de imediato para o meu estúdio. E, nesse mesmo dia, começámos a trabalhar no segundo número de Blue Bolt.»
Dessa aliança de talentos nasceria uma das mais poderosas e duradouras forças criativas da Idade de Ouro que ajudaria a definir a iconografia de várias editoras. São muitos os historiadores da 9ª Arte a sustentar que Joe Simon e Jack Kirby trouxeram a anatomia de volta aos comics. Sequências dinâmicas e painéis explosivos com personagens de corpos bem delineados seriam a pedra de toque da dupla.

Resultado de imagem para joe simon and jack kirby
Joe Simon e Jack Kirby (em pé), a Dupla Dinâmica.
Mercê da sua atribulada saída da Fox Comics, Joe Simon (sempre com Kirby à ilharga) mudou-se de armas e bagagens para a Timely Comics. O ano de 1940 ia a meio e os EUA relutavam ainda em envolver-se na II Guerra Mundial, que não tardaria a invadir-lhes o quintal das traseiras. Prevendo essa inevitabilidade, o duo criou aquele que seria simultaneamente o epítome do patriotismo americano e a personagem que os imortalizaria no imaginário popular.
O Capitão América fez a sua primeira aparição em Captain America nº1. Edição histórica, lançada em dezembro de 1940, que vendeu um milhão de exemplares. E cuja capa, assinada por Joe Simon, se tornaria icónica. Nela, o Sentinela da Liberdade assestava um potente gancho de direita no queixo de Adolf Hitler. O líder supremo do III Reich fora, de resto, o principal fautor para o surgimento do herói.
Na sua autobiografia My Life in Comics (2011), Joe Simon explicitou os pormenores da ligação entre as duas personagens: «Um dos segredos por detrás das histórias de super-heróis eram alguns dos supervilões que enfrentavam. Por isso, quando Martin Goodman me pediu para criar um novo herói para a Timely, tratei logo de procurar o adversário perfeito. Ocorreu-me então usar um vilão da vida real. Com o seu bigode ridículo e os seus maneirismos teatrais, Hitler pareceu-me adequado para o papel. Afinal de contas. havia muito de caricatural nele.»

Resultado de imagem para captain america #1

O Sentinela da Liberdade fez a sua estreia
 em Captain America nº1 (1940).
Em consequência do seu retumbante sucesso comercial, rapidamente o Capitão América foi arvorado a porta-estandarte da Timely Comics. De igual modo os seus criadores subiram na hierarquia da editora. Joe Simon foi promovido a editor (o primeiro a ocupar esse cargo na história da companhia) e exigiu a nomeação de Jack Kirby como diretor artístico.
Apesar de todas as benesses recebidas, à medida que o Capitão América consolidava o seu estatuto de campeão de vendas Joe Simon começou a suspeitar que não estaria a receber a fatia dos lucros a que ele e Kirby tinham direito. Foi esse o motivo que o levou a oferecer os serviços da dupla à arquirrival National Comics (uma das antecessoras da DC). Fê-lo contudo em segredo, receando que se Martin Goodman descobrisse as suas intenções os despediria - o que, efetivamente, viria a acontecer.
Algures no curto ínterim que mediou a transição de Simon e Kirby para a National, a dupla produziu outra edição histórica. Captain Marvel nº1 (março de 1941) foi o primeiro título epónimo do Mortal Mais Poderoso da Terra e personagem charneira da Fawcett Comics.
Além de uma apreciável melhoria salarial, na National Comics Joe Simon e Jack Kirby beneficiaram de ampla liberdade criativa. À reabilitação de Sandman (um dos heróis mais antigos da editora), seguiu-se, em julho de 1942, a criação dos Boy Commandos. Traduzidos no Brasil como Patrulha Juvenil (EBAL) ou Comando Juvenil (Abril), a série acompanhava as aventuras de um grupo de jovens órfãos de diferentes nacionalidades que combatiam os nazis na frente europeia da II Guerra Mundial. Boy Commandos foram também o primeiro coletivo da National a estrelar o seu próprio título mensal. O qual depressa se tornaria o terceiro mais rentável da editora, abrindo dessa forma caminho para o lançamento de um sucedâneo.


Resultado de imagem para dc boy commandos
Boy Commandos foi  o terceiro título mais vendido da DC.
Meses mais tarde, Joe Simon e Jack Kirby apresentaram a sua Newsboy Legion, grupo de pequenos ardinas órfãos que combatiam a criminalidade nas ruas de Metrópolis. Muito popular entre os leitores de palmo e meio, a série tornar-se-ia um spin-off das histórias do Super-Homem. No Brasil, o grupo ficou conhecido como Legião Jovem.
Chamado a cumprir serviço militar na Divisão de Informação Pública da Guarda Costeira, em Washington D.C., Joe Simon criou True Comics, uma série de banda desenhada editada pela National, distribuída com todos os jornais dominicais e que tinha por objetivo divulgar as atividades daquele ramo das Forças Armadas estadunidenses. Dado o sucesso da iniciativa, Joe Simon e o jornalista Milt Gross seriam logo depois chamados a produzir um segundo título. Adventure is My Career serviria para aliciar novos recrutas para a Guarda Costeira, ficando a distribuição nacional por conta da Street & Smith Publications - a mesma editora do Sombra.

Resultado de imagem para adventure in my career comics
Uma das séries criadas por Joe Simon
para a Guarda Costeira americana.
De volta à vida civil e a Nova Iorque, em 1946 Joe Simon, sempre acompanhado por Jack Kirby, teve fugaz passagem pela Harvey Comics, para a qual criou Stuntman. A personagem teria vida curta, ao contrário do casamento de Simon com Harriet Feldman, a secretária do patrão da Harvey. O casal permaneceria junto durante mais de meio século, trazendo ao mundo cinco filhos.
O declínio dos super-heróis no pós-guerra motivou Joe Simon e Jack Kirby a explorarem outros géneros narrativos. O primeiro ensaio foi realizado sob os auspícios da Crestwood Publications e não poderia ter corrido melhor. Série romântica criada a pensar no público feminino, Young Love vendeu mais de um milhão de exemplares e lançou uma nova tendência no mercado editorial.
Entre 1953 e 1955, Joe Simon e Jack Kirby foram donos da sua própria editora. Sediada num pequeno estúdio cedido por Al Harvey (o mandachuva da Harvey Comics), a Mainline Publications começou por apostar, com mediano sucesso, em títulos policiais e românticos.
No entanto, quando, em 1954, a Atlas Comics (herdeira da Timely Comics) decidiu tirar o Capitão América do congelador, Simon e Kirby, ainda ressentidos pela "traição" de Martin Goodman, criaram em resposta Fighting American. Inicialmente retratado como um patriota movido pelo anticomunismo (vivia-se o auge do macarthismo), essa espécie de paródia do Capitão América acabaria por evoluir para uma sátira ao próprio género super-heroico. O fracasso do projeto ditaria a separação da dupla, sem que saísse beliscada a amizade que os unia. Ao fim de década e meia, Simon e Kirby seguiam caminhos diferentes.

Young Love foi o maior sucesso comercial de Simon e Kirby.

Resultado de imagem para joe simon fighting american
Um dos sete números publicados de Fighting American
 com o selo da Mainline Publications.
Ávido de novos desafios, nos anos seguintes Joe Simon tirou o seu sustento essencialmente da publicidade e da arte comercial. Não resistindo, contudo, a abrir pequenos parêntesis para matar saudades dos super-heróis. Foi o que aconteceu quando, no final da década de 1950, revitalizou The Shield (O Escudo), da Archie Comics. Ironicamente, tratava-se do mesmo herói que lhe valera acusações de plágio aquando da criação do Capitão América.
Em resposta à enorme popularidade da revista humorística Mad, em 1960 Joe Simon lançou a Sick, da qual foi editor ao longo da década seguinte. Período que ficou igualmente marcado por colaborações esporádicas com Jack Kirby na DC.

Resultado de imagem para sick magazine
A revista Sick teve Joe Simon como fundador e editor.
Desde a viragem do século que Joe Simon, agora viúvo, se dedicava quase exclusivamente à escrita e à venda de arte original. Em 2003, no âmbito de um acordo extrajudicial, a Marvel Comics concordou por fim em pagar-lhe direitos de autor e licenciamento do Capitão América.
Consumados 98 anos de vida terrena, no fatídico dia 14 de dezembro de 2011, o mundo dos mortos, governado por Hades, reclamou Joe Simon, acolhendo-o nos Campos Elísios, onde terá certamente reencontrado o seu velho amigo Jack Kirby.
Desaparecia assim uma lenda viva da 9ª Arte e um dos derradeiros detentores da memória descritiva da Idade de Ouro dos comics. Não sem antes lhe ter sido concedido o privilégio de assistir, numa sessão privativa em Nova Iorque, Captain America - First Avenger. Apesar dos seus problemas de audição e da ausência do seu amigo de sempre, consta que Simon terá saído da sala de cinema com um sorriso rasgado e um brilhozinho nos olhos.

Poster promocional do filme do Sentinela da Liberdade
 inspirado na icónica capa de Captain America nº1.


Agradecimento muito especial ao meu bom e incansável amigo Emerson Andrade, autor da belíssima montagem que abre este artigo.