12 novembro 2021

ETERNOS: CURT SWAN


  Durante mais de três décadas, o seu lápis esculpiu laboriosamente um dos maiores totens da cultura popular. Considerado o artista definitivo do Super-Homem, o seu monumental legado continua a ser reverenciado por pares e fãs nostálgicos. Via-se, porém, a si mesmo como operário de uma indústria ingrata.

Na esteira de Joe Shuster, foram dezenas os artistas que, ao longo de mais de 80 anos, emprestaram o seu traço ao Homem de Aço. Nessa multidão intermutável de talentos sobressaem nomes como Wayne Boring, John Byrne ou Dan Jurgens. Sem desprimor para os demais, a cada um deles correspondeu uma era de intenso fulgor. Mas nenhum deixou uma marca tão profunda no primeiro dos super-heróis como Curt Swan.
Existe um antes e um depois de Curt Swan na mitologia do Super-Homem. O seu percurso profissional confunde-se com a carreira editorial do herói nas Idades de Prata e de Bronze. Nenhum outro artista desenhou tantas  vezes ( e por tanto tempo) o Homem do Amanhã. Entre capas, tiras e páginas interiores, terão sido, por junto, mais de 19 mil as artes assinadas por Curt Swan durante o seu longo consulado nos títulos da Superfamília.
Tão importante como a quantidade era, outrossim, a qualidade do trabalho de Swan. Que, a despeito do seu inegável virtuosismo, sempre se viu a si mesmo como um humilde proletário de uma indústria em que todos são descartáveis. Um zangão incansável dentro de uma colmeia fervilhante, destinado a morrer depois de cumprir o seu propósito.
Swan definiu a aparência do Super-Homem não para uma, mas para duas gerações. Sob o seu lápis sensível, o Último Filho de Krypton humanizou-se. O estranho visitante de outro planeta passou a absorver mais do nosso afeto e simpatia. Swan chancelou também vários dos momentos capitais do cânone do Homem de Aço, como o primeiro encontro deste com  Batman ou o seu casamento com Lois Lane. Com Otto Binder, outro zangão, criou Krypto, o cão de estimação do Superboy e um dos elementos mais acarinhados da Superfamília. Apenas uma das muitas adições da sua coautoria à mitologia da personagem que o alcandorou ao panteão da 9ª Arte.
Por tudo isto, Curt Swan é geralmente apontado como o artista definitivo do Super-Homem. Mas por trás da lenda existiu um homem. Um homem decente na sua simplicidade, cuja vida e obra, um quarto de século volvido sobre o seu desaparecimento, vale a pena revisitar. Por imperativo de memória numa época fértil em revisionismos históricos.

Curt Swan criou a imagem do Super-Homem que se tornou ícone popular.
(Montagem executada por Emerson Andrade,
a quem deixo aqui o meu agradecimento muito especial).

Curt Swan nasceu Douglas Curtis Swan a 17 de fevereiro de 1920. Teve como berço Wilmar, cidadezinha agrícola do Minnesota ufana do seu estatuto de maior produtora de perus do estado. Seria no entanto outra a ave a defini-lo. Em finais do século XIX, a sua avó paterna, imigrante sueca instalada no Canadá, abreviara o apelido familiar de Swanson para Swan (cisne). No Oriente, o cisne simboliza, entre outras coisas, a coragem, a nobreza e a elegância. Predicados que, ao longo da sua vida, Swan demonstrou ter em comum com o Último Filho de Krypton.
O mais novo dos cinco filhos de um casal da classe trabalhadora - o pai ferroviário, a mãe auxiliar no hospital local -, Swan cresceu a admirar as histórias ilustradas dadas à estampa pela Collier's e outras revistas da época. Cedo demonstrou também talento para desenhar, vendendo o seu primeiro trabalho - um tira rudimentar desenhada na parte de trás de um calendário de mesa - a um colega da sua turma do 6º ano. A sua habilidade com o lápis também não passou despercebida aos professores, que frequentemente a requisitavam para as suas aulas ou em atividades extracurriculares. Ganhar a vida a rabiscar era, todavia, algo com que o pequeno Swan nem se atrevia a sonhar.
Nos anos de chumbo da Grande Depressão, Swan, ainda adolescente, conseguiu emprego num armazém para ajudar a equilibrar o magro orçamento familiar. Desenhar continuava a ser um passatempo que o ajudava a suportar as agruras de um dia a dia pautado pela incerteza.
Quando atingiu a maioridade, Swan alistou-se na Guarda Nacional do Minnesota e, dois anos mais tarde, foi incorporado nas fileiras do Exército. Em 1941, após breve passagem por Forte Dix (Nova Jérsia), o seu regimento de Infantaria foi destacado para a Irlanda do Norte. Foi já com as divisas de sargento cosidas na farda que Swan teve a sua primeira oportunidade como artista.
Enquanto desenhava um mural no Clube da Cruz Vermelha de Fintona - pequena vila rural a cerca de uma centena de quilómetros de Belfast - Swan travou conhecimento com Dick Wingert. Um daqueles obséquios do acaso que lhe mudaria as agulhas da vida. Wingert trabalhava como cartunista no jornal oficial do Exército - o Stars and Stripes - e, impressionado com o talento de Swan, sugeriu-lhe que contactasse o coronel que dirigia a publicação.

Foi no jornal castrense Stars and Stripes que Swan
 deu os seus primeiros passos no campo da ilustração.

Sem saber exatamente que tipo de função poderia desempenhar no jornal, e sem grande jeito com as palavras, Swan pediu a um colega que lhe redigisse uma breve nota de apresentação que juntou a algumas ilustrações da sua autoria enviadas por correio. Foi quanto bastou para, logo depois, ser transferido para Londres, onde reforçou o staff artístico do Stars and Stripes.
Longe das frentes de batalha onde alguns dos seus ex-camaradas de armas perderam a vida, Swan especializou-se no desenho de mapas que mostravam a progressão das tropas aliadas no terreno. Ilustrar reportagens de guerra e tiras humorísticas eram outras das suas incumbências. Durante a sua passagem pelo Stars and Stripes, Swan cunhou amizade para a vida com o escritor da DC France Herron. Anos mais tarde, seria pela mão dele que daria os primeiros passos na Editora das Lendas.
Nos últimos meses de 1943, Swan foi transferido para Paris e alugou um modesto apartamento perto da Torre Eiffel. A viver o sonho de qualquer artista, passava longas horas a desenhar junto às margens do Sena. Pedir em casamento a sua musa de sempre pareceu-lhe, por isso, o passo lógico seguinte. Helene Brickley era uma funcionária da Cruz Vermelha Americana destacada para a capital francesa. Os caminhos de ambos tinham-se cruzado pela primeira vez quando Swan estava aquartelado em Fort Dix. O amor floresceu e, após algum tempo separado pela guerra, o casal trocou alianças no verão de 1944, na Cidade Luz.
De regresso à vida civil e a terras do Tio Sam, Curt Swan acalentava a esperança de encontrar trabalho na área da ilustração. O passatempo de infância poderia, afinal, servir para pôr comida na mesa. Após uma breve estadia em Minneapolis (erroneamente indicada em biografias avulsas como a sua cidade natal), Swan mudou-se de armas e bagagens com a mulher para Nova Iorque.
Na Grande Maçã já se encontravam vários ex-colaboradores do Stars and Stripes, incluindo France Herron, que, nesse emmeio, recuperara o seu posto na  Editora das Lendas. Por sugestão deste, Swan fez chegar algumas amostras do seu trabalho a Whitney Ellsworth, um dos mais influentes editores da DC. Ellsworth ficou agradado com o que viu e Swan foi prontamente contratado para desenhar Boy Commandos, série originalmente desenvolvida por Joe Simon e Jack Kirby.

Boy Commandos #16 (julho de 1946) foi
 o primeiro trabalho de Swan para a DC.

Radiante com a perspetiva de receber 18 dólares (maquia apreciável na época) por cada página desenhada, Swan acreditava, contudo, que, quando muito, aquele seria um emprego para um par de anos. Com o declínio das vendas no pós-guerra, ele intuía que a indústria dos comics teria os dias contados. Nem imaginava que trabalharia nela pelo resto da vida.
À parte um trimestre de aulas noturnas no Instituto Pratt (instituição privada com forte tradição nas artes), ao abrigo de um programa de reinserção social de veteranos da II Guerra Mundial patrocinado pelo governo federal, Curt Swan era um autodidata. Por conseguinte, embora o salário auferido na DC fosse atrativo, depressa descobriu o ror de tempo necessário para desenhar uma página. Como era apanágio de muitos artistas novatos, Swan colocava demasiados detalhes no seu trabalho, ficando desapontado com a sua reduzida capacidade de produção.
Graças às preciosas dicas de Steve Brodie, um dos mais experientes artes-finalistas da DC, Swan aprendeu a acelerar o lápis e logo passou a produzir 3 a 4 páginas por dia. Para embolsar a pequena fortuna de 10 mil dólares anuais, Swan trabalhava 14 a 16 horas por dia, sete dias por semana. Quando não estava sentado diante do estirador, Swan, pai de três filhos, gostava de passar o seu tempo livre em família ou em ocasionais partidas de golfe.
Na viragem da década de 50, o azafamado Curt Swan tinha assumido a arte de três séries periódicas (a Boys Commandos, somara Tommy Tomorrow e Gangbusters), datando também dessa época as primeiras capas de Superboy da sua autoria. Começava assim a sua vetusta relação com os títulos do Último Filho de Krypton. Estes tinham como editor Mort Weisinger, notório pelo seu temperamento explosivo e por ser mais papista do que o Papa. Qualquer ligeiro desvio ao padrão visual do Super-Homem fazia-o torcer-se de furor. Swan foi alvo recorrente do bullying editorial de Weisinger, ao ponto de começar a sofrer de dores de cabeça insuportáveis.
Em 1951, Swan atingiu o limiar crítico da sua paciência. Depois de constatar que a pressão profissional lhe estava a prejudicar a saúde e a vida familiar, trocou a DC por uma pequena agência publicitária especializada na promoção de brinquedos.

Superboy foi o primeiro membro da Superfamília desenhado por Swan.

Embora apreciasse sobremaneira o ritmo mais tranquilo do seu novo emprego, o rendimento mensal de Swan encolheu para menos de metade. Regressou, por isso, à DC no mês seguinte, tendo sido recebido de braços abertos por todos - inclusive pelo próprio Weisinger. Que, no entanto, continuava a não poupá-lo às suas diatribes. Novamente acometido de enxaquecas, Swan encheu-se de brios e, de pé firme, enfrentou Weisinger. Para sua surpresa, o mais temido dos editores passou a respeitá-lo e, como por magia, as dores de cabeça desapareceram.
Indicar com precisão qual foi o primeiro trabalho de Curt Swan com o Super-Homem afigura-se tarefa complicada. Até meados dos anos 50, nem todos os autores de cada edição eram devidamente creditados. Era também comum o recurso a "artistas fantasmas", que encontravam maneiras engenhosas de esconder as suas iniciais no material que produziam. Segundo alguns investigadores da 9ª Arte, Swan preferia outro artifício: desenhar personagens com os dedos do meio das mãos unidos. Razão pela qual algumas fontes sinalizam Superman #51 (março de 1948) como a primeira vez em que o lápis de Swan substituiu o de Wayne Boring na série mensal do Homem de Aço. 
Certo é que, em 1953, Swan foi o eleito (em detrimento de Boring e Al Plastino) para ilustrar Three-Dimension Adventures Superman, edição especial em 3D lançada à boleia da popularidade de que os filmes nesse formato gozavam na altura. Esse projeto marcou a estreia oficial de Curt Swan como artista do Super-Homem.

Nesta edição especial de 1953,
Swan foi creditado pela primeira vez como artista do Homem de Aço. 

Dois anos mais tarde, em 1955, Swan foi chamado por Weisinger a render Wayne Boring em Superman. Como já vinha ilustrando Superboy e Superman's Pal Jimmy Olsen desde o ano anterior, Swan encarou isso como uma extensão natural do seu trabalho.
A pedido de Weisinger, Swan retocou o visual do Homem de Aço. Começando pelo queixo quadrado que, durante o longo consulado de Boring, se tinha tornado imagem de marca do herói. Como forma de torná-lo mais poderoso e menos caricatural, Swan acentuou-lhe também os músculos.
Swan desenhava como ninguém expressões faciais. Por meio delas conseguia reproduzir os diferentes estados de alma do Último Filho de Krypton, cujo voo adquiriu igualmente maior graciosidade. Foi essa elegância e humanidade que Swan trouxe à personagem. Para esse efeito, tomou como modelos John Weissmuller (o mítico Tarzan cinematográfico dos anos 30 e 40) e George Reeves (que viveu o Super-Homem na não menos lendária série televisiva da década de 1950).
Nos anos 60, o traço de Curt Swan era ubíquo na linha de títulos da Superfamília: Action Comics, Superman, Adventure Comics, Superboy, Superman's Pal Jimmy Olsen, Superman's Girl Friend Lois Lane e World's Finest. Era difícil encontrar naquela época uma história do Homem de Aço desenhada por outro artista. A obsessão de Swan pelo realismo, inspirada nos ilustradores clássicos, e a sua predileção por temas genuinamente americanos faziam dele o Norman Rockwell dos quadradinhos. Essa influência era patente, em particular, nas histórias do Superboy, onde as paisagens de Smallville invocavam os óleos bucólicos de Rockwell.
Um facto muitas vezes omisso no impressionante currículo de Curt Swan é que, além de fazer o pleno nos títulos da Superfamília, ele desenhava ainda as tiras diárias do Super-Homem. Em 1954, Swan vira ser rejeitada por diversos jornais uma tira da sua autoria (Yellow Hair contava a história de um menino branco adotado por índios), mas o Homem de Aço permitiu-lhe trabalhar com esse tipo de material.

Yellow Hair, a tira inédita de Curt Swan.

Nessa era de absoluto esplendor, Swan não foi apenas o criador da imagem arquetípica do mais arquetípico dos super-heróis, mas também o melhor expoente do estilo gráfico característico da DC naquela época: figuras bem proporcionadas, traços definidos e simétricos, vestuário impecável e, claro, mulheres lindas de morrer. Também as crianças desenhadas por Swan pareciam crianças, ao invés de adultos em miniatura. Não admira, por isso, que a Marvel o tenha assediado sem, contudo, conseguir enfraquecer a sua lealdade à sua editora de sempre.
Em agosto de 1967, Swan associou o seu nome a outro momento histórico do cânone da DC: a primeira corrida entre o Super-Homem e o Flash. Publicada em Superman #199, a arte cinética de Swan ainda hoje serve de referência aos profissionais do lápis chamados a recriar a alucinante competição para encontrar o homem mais rápido do mundo.

A arte vibrante de Swan na corrida do século.

Embora sempre tenha preferido desenhar o Homem de Aço, o trabalho realizado por Curt Swan na Legião dos Super-Heróis foi tudo menos despiciendo.  A sua versatilidade e o seu estilo elegante incutiram um novo apelo às histórias do grupo nas quais Superboy era um habitué. Computo e Imperatriz Esmeralda, arqui-inimigos da Legião, foram duas das suas criações mais importantes para a série.
À medida que os comics evoluíam durante a chamada Idade de Bronze, o mesmo acontecia com o Super-Homem de Swan. Sob cujo traço o Último Filho de Krypton se tornou uma figura mais graciosa e inspiracional com o toque dramático que os padrões da época impunham. Uma das razões pelas quais Christopher Reeve foi a escolha perfeita para encarnar Kal-El no cinema foi porque ele parecia ter sido recortado de um qualquer painel desenhado por Swan. Superman, The Movie foi uma carta de amor à Idade de Prata, apresentando o mesmo herói imponente e compassivo que Swan esculpira laboriosamente.


Christopher Reeve foi a versão de carne e osso do Super-Homem de Curt Swan.

Depois de, em 1985, ter visto o seu nome incluído em Fifty Who Made DC Great, no ano seguinte Curt Swan foi inopinadamente afastado dos títulos do Super-Homem. Longe dos seus tempos de glória, o Último Filho de Krypton era agora considerado antiquado. E o mesmo se aplicava à arte de Swan. De um dia para o outro, o artista que redefinira o Homem de Aço fazendo dele um imbatível campeão de vendas teve os seus serviços dispensados. Sem pompa nem circunstância, sem uma palavra de reconhecimento. Derrubado do pedestal por quem lhe devia carregar o andor. Apesar de nunca a ter verbalizado, a mágoa daí resultante acompanharia Swan pelo resto da vida. 
Escrita por Alan Moore, O que aconteceu ao Homem do Amanhã? (já aqui esmiuçada) assinalou, a um só tempo, o fim da Idade de Prata e a despedida de Curt Swan enquanto artista regular do Super-Homem. Foi o cintilante culminar de uma era que teve em Swan um dos seus mais diligentes obreiros.
Nos anos seguintes, Curt Swan, apesar de reformado, continuou envolvido em projetos menores da DC, incluindo a arte de uma das mais raras edições do Super-Homem. This Island Bradman foi uma banda desenhada personalizada encomendada em 1988 por Godfrey Bradman, magnata do imobiliário, como presente para o Bar Mitzvah do seu filho. Fora da sua zona de conforto, Swan ilustrou ainda Swamp Thing, Teen Titans e uma minissérie de Aquaman

This Island Bradman (1988).
Uma das maiores raridades do Super-Homem com assinatura de Curt Swan.

Curt Swan ganhou o seu primeiro prémio apenas em 1984,
ano em que lhe foi atribuído o Inkpot Award para melhor desenhador.

A exemplo de muitos dos seus pares, Curt não acautelara financeiramente o seu futuro, pelo que se viu obrigado a continuar a trabalhar, em prol tanto da sua sanidade mental como da sua sobrevivência. Com o tempo, porém, as suas colaborações com a DC foram-se tornando cada vez mais escassas. O seu canto do cisne foram as cinco páginas publicadas postumamente em Superman: The Wedding Album (dezembro de 1996). Numa amarga ironia, o casamento de Swan com Helene Brickley tinha chegado ao fim pouco tempo antes.
Curt Swan partiu durante o sono no seu apartamento em Wilton (Connecticut), a 17 de junho de 1996. Um fim sereno para um discreto mestre da Arte Sequencial; cisne branco transformado em patinho feio pelos caprichos de uma indústria sem escrúpulos em triturar quem a engrandeceu. 
Swan transcendeu gerações, dedicou-se de alma e coração à sua personagem de sempre e, acima de tudo, abriu caminho. Embora não tenha sido o primeiro a chegar, ele introduziu estilos, recursos e elementos que serviram de referências para as gerações posteriores de artistas a quem foi concedido o privilégio de desenhar o maior herói de todos os tempos. 
À sua maneira, Curt Swan foi ele próprio um herói.  Quando questionado sobre qual havia sido o prémio mais importante da sua carreira, ele respondeu simplesmente: "O sorriso de uma criança ao ler uma história do Super-Homem desenhada por mim." 


*Este blogue tem como Guia de Estilo o Acordo Ortográfico de 1990 aplicado à norma europeia da Língua Portuguesa.







     



 








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14 outubro 2021

RETROSPETIVA: «WATCHMEN - OS GUARDIÕES»



  Na sua hora mais negra, uma pandilha de vigilantes amorais desvenda a terrível verdade por detrás de uma conspiração que poderá mudar o curso da História. Com as doze badaladas prestes a soarem no Relógio do Apocalipse, até onde estarão eles dispostos a ir para salvar a Humanidade de si mesma?

Título original: Watchmen
Ano: 2009
País: Estados Unidos da América
Duração: 163 minutos
Género: Ação / Mistério / Fantasia / Super-heróis
Produção:  Warner Bros. Pictures e Legendary Pictures 
Realização: Zack Snyder
Argumento: David Hayter & Alex Tse (baseado na história original de Alan Moore)
Distribuição: Warner Bros. (apenas na América do Norte) e Paramount Pictures (resto do mundo)
Elenco: Billy Crudup (John Osterman / Doutor Manhattan); Jackie Earle Haley (Walter Kovacs / Rorschach); Patrick Wilson (Daniel Dreiberg / Coruja II); Matthew Goode (Adrian Veidt / Ozymandias); Malin Akerman (Laurie Jupiter / Espectral II); Jeffrey Dean Morgan (Edward Blake / Comediante); Carla Gugino (Sally Jupiter / Espectral); Matt Frewer (Edgar Jacob / Moloch)
Orçamento: 130 milhões de dólares
Receitas globais: 185,3 milhões de dólares

Anatomia de um épico 

Pioneira na desconstrução das convenções do género heroico, em 1986 Watchmen, dos britânicos Alan Moore e Dave Gibbons, revolucionou os meandros dos quadradinhos americanos e colocou a DC na vanguarda de uma nova era. Nesse mesmo ano, os produtores Lawrence Gordon e Joel Silver adquiriram os direitos da saga para a 20th Century Fox. Depressa se tornou porém evidente que a transição para o celuloide daquela que é uma das sagas mais cultuadas da história da 9ª Arte seria missão espinhosa.
A primeira contrariedade surgiu quando Alan Moore se recusou a escrever um argumento baseado na sua história. Moore sempre se demarcou das adaptações audiovisuais das suas obras e, como tantos outros, considerava que Watchmen era um filme impossível de ser feito. O longo caminho das pedras que o projeto teve de percorrer parecia dar-lhes razão.

Há um antes e um depois de Watchmen na história da 9ªArte.

Face à recusa de Moore, a Fox contratou Sam Hamm (argumentista de Batman) para escrever um enredo que condensasse os doze capítulos da saga original num único filme. Partiu dele a ideia de alterar o rebuscado final da história de Moore (que envolvia uma lula gigante), substituindo-o pelo assassinato do eu passado do Doutor Manhattan, originando um paradoxo temporal. 
Já depois de o projeto ter passado para as mãos da Warner Bros., em 1991 o ex-Monty Phyton Terry Gilliam (12 Macacos) foi o primeiro nome escolhido para ocupar a cadeira de realizador. Com um orçamento estimado em 100 milhões de dólares, os produtores conseguiram apenas angariar um quarto desse valor. Muito por causa da reputação despesista de Gilliam que, logo depois, bateria com a porta, taxando Watchmen de inadaptável. A malapata de Moore fazia a sua primeira vítima.
Depois de uma década a marinar, em 2001, à boleia do estrepitoso sucesso de O Senhor dos Anéis: A Irmandade do Anel, Watchmen ganhou novo fôlego. Em outubro desse ano, Lawrence Gordon firmou uma parceria com Lloyd Levin e a Universal Pictures, contratando David Hayter (argumentista de X-Men) para escrever e dirigir a película. Aproveitando a carta de alforria recebida, Hayter transferiu a trama para a atualidade, descontextualizando-a da Guerra Fria.
Quando diferenças criativas ditaram o fim prematuro da parceria com a Universal, os produtores ensaiaram uma tentativa falhada de colocar o projeto sob os auspícios da Revolution Studios. Mesmo os que não são dados a superstições não tinham como negar o enguiço. Watchmen voltava, uma vez mais, à estaca zero.
Até que, em julho de 2004, a Paramount Pictures, ao abrigo de um acordo extrajudicial com os produtores (que acusava de violação contratual), anunciou que teria a seu cargo a distribuição internacional do filme. Michael Bay (Transformers), Tim Burton (Batman) e Darren Aronofsky (Cisne Negro) foram alguns dos cineastas sondados para capitanear o projeto, No entanto, por um motivo ou por outro, todos acabariam por se descartar.
Impressionada com o brilhante trabalho de Zack Snyder em 300 (adaptação da saga homónima da autoria de Frank Miller), a Warner Bros. ofereceu-lhe a cadeira vaga de realizador. Snyder não se fez rogado e, à semelhança do que fizera em 300, usou a saga original como storyboard. Entretanto, o argumento de Hayter foi revisto por Alex Tse que, de uma penada, devolveu a história ao contexto original da Guerra Fria e alterou uma vez mais o respetivo desfecho. Adicionalmente, as cenas de luta foram estendidas e uma trama secundária sobre recursos energéticos foi incluída para tornar o filme menos datado.

Zack Snyder fez o que muitos
 duvidam que pudesse ser feito.

Recebida a luz verde por parte da Warner Bros., as filmagens decorreram entre setembro de 2007 e fevereiro de 2008, em Vancouver. A escolha desta cidade canadiana para fazer as vezes de Nova Iorque deveu-se à insistência de Snyder em privilegiar cenários reais, reservando as telas verdes para as sequências em Marte e na Antártida. A complexidade dos efeitos visuais requereu a contratação de uma dezena de empresas do ramo e Dave Gibbons aceitou ser consultor artístico do projeto, tendo inclusivamente desenhado um dos cartazes promocionais de Watchmen.
À meia-noite em ponto de 23 de fevereiro de 2009, Watchmen fez a sua estreia mundial no Odeon Leicester Square, um dos cinemas mais emblemáticos da capital britânica. Apesar das receitas de bilheteira terem ficado aquém do esperado (55 milhões de dólares arrecadados no primeiro fim de semana em cartaz) e de ter polarizado opiniões, Watchmen demorou menos de uma década a tornar-se um filme de culto (que Alan Moore se gaba de nunca ter visto).


Quem vigia os vigilantes?


Enredo

A trama desenrola-se numa linha temporal alternativa na qual vigilantes mascarados são reais e vêm lutando, há longos anos, contra o crime em terras do Tio Sam. Fenómeno surgido na viragem da década de 1930, em resposta aos métodos cada vez mais violentos das quadrilhas tradicionais e ao crescente número de bandidos fantasiados.
Durante a II Guerra Mundial, alguns desses vigilantes - entre os quais o Comediante e a primeira Espectral - formaram um grupo apelidado de Minutemen, para fazerem aquilo que a Lei não conseguia. Dos oito membros fundadores, três foram mortos em ação, um desapareceu sem deixar vestígios e outro foi internado num manicómio. De permeio, o Comediante fora expulso da equipa, depois de uma tentativa de violação a Espectral.

Os Minutemen.

Décadas mais tarde, uma segunda geração de justiceiros fantasiados, inspirados pelos Minutemen, fundaram uma nova equipa chamada Watchmen. Em consequência das suas ações, vários eventos históricos, como o assassinato de John F. Kennedy e a Guerra do Vietname, foram alterados. A vitória americana no Vietname, alcançada graças à interferência do omnipotente Doutor Manhattan (o único Watchman com superpoderes), prolongou a estadia de Richard Nixon na Casa Branca, possibilitada pela prévia revogação da lei que limitava os mandatos presidenciais. 
No final dos anos 70, um forte sentimento antivigilante instalou-se no país, levando o Congresso americano a proibir os heróis fantasiados, daí resultando a dissolução dos Watchmen. Paralelamente, a Guerra Fria ficou ao rubro com uma escalada de tensão entre os EUA e a URSS pontuada pela ameaça cada vez menos teórica de um holocausto nuclear. A cada dia que passava, o ponteiro do Relógio do Apocalipse deslizava perigosamente para a meia-noite e a Humanidade parecia ter os minutos contados.
Em 1985, apenas três Watchmen permanecem no ativo: o Comediante e o Dr. Manhattan (ambos agentes do Governo) e Rorschach, que opera na clandestinidade. Ao investigar o assassinato de Edward Blake, Rorschach descobre que ele era na verdade o Comediante e conclui que os Watchmen poderão estar na mira de alguém determinado em eliminar aqueles que costumavam ser os defensores da sociedade.

A  morte do Comediante coloca a nu uma tenebrosa conspiração.

Rorschach apressa-se a alertar os seus antigos aliados, começando pelo seu ex-parceiro Daniel Dreiberg (o segundo Coruja). Embora cético, Dreiberg transmite as inquietações de Rorschach a Adrian Veidt, outrora conhecido como Ozymandias e agora um dos homens mais ricos e inteligentes do mundo. Veidt descarta prontamente a teoria conspirativa de Rorschach, que também não recebe crédito por parte do Dr. Manhattan nem de Laurie Jupiter, a segunda Espectral (filha da original).
Após o funeral de Blake, o Dr. Manhattan é acusado de ter causado cancro à sua ex-namorada e a outras pessoas que com ele privaram desde o acidente científico que transformou John Osterman num deus vivo. Temendo pela segurança daqueles que o rodeiam, em particular de Laurie (de quem se vinha distanciando cada vez mais), Manhattan parte para o exílio em Marte. A sua ausência desfalca o poderio americano e dá aos soviéticos a confiança necessária para invadirem o Afeganistão. E assim a contagem decrescente para o Juízo Final acelera um pouco mais.
Dias mais tarde, é a vez de Adrian Veidt escapar por pouco a um atentado levado a cabo por desconhecidos. Mas nem todos os Watchmen têm a mesma sorte. 
Quando interrogava Moloch, ex-némesis do Comediante e principal suspeito da sua morte, Rorschach cai numa cilada e acaba incriminado pela morte do vilão. Condenado a uma pesada pena de prisão, Rorschach tem o seu verdadeiro rosto exposto pela primeira vez. Resta-lhe o consolo de saber que a sua paranoia era real e que os Watchmen são, efetivamente, alvos a abater.
Agora um casal, Laurie Jupiter e Daniel Dreiberg regressam ao ativo como Espectral e Coruja para resgatarem Rorschach da prisão. Mesmo a anos-luz de distância, o Dr. Manhattan continua a acompanhar a evolução dos acontecimentos e teletransporta a ex-amante para o Planeta Vermelho. Espectral implora a Manhattan que salve o mundo, mas ele limita-se a expressar-lhe a sua indiferença relativamente ao destino da Humanidade. 

Espectral e Coruja resgatam Rorschach da prisão.

Contudo, ao sondar as memórias da jovem, Manhattan descobre que ela é, afinal, filha do Comediante. Apesar da agressão sexual, ele e a mãe de Espectral tinham-se apaixonado e mantido uma relação em segredo. Fascinado com aquela sequência improvável de acontecimentos, Manhattan concorda em retornar à Terra. A Humanidade é uma espécie sui generis que talvez valha a pena preservar.
Rorschach e Coruja desvendam, entretanto, a terrível verdade acerca da conspiração que quase desbaratou os Watchmen: Ozymandias está por trás de tudo. Antes de viajarem para a Antártida para confrontarem o ex-colega de equipa na sua fortaleza, Rorschach regista os factos no seu diário, enviando-o em seguida para a redação de um jornal nova-iorquino.
Ozymandias confirma, sem rebuço, ser ele o cérebro da operação que resultou na morte do Comediante, no exílio do Dr. Manhattan e na prisão de Rorschach. Para se colocar acima de qualquer suspeita, encenou também um atentado contra si mesmo. 
Perante a incredulidade dos seus ex-camaradas, Ozymandias explica que o seu plano consiste em unir as duas superpotências contra uma ameaça comum, prevenindo dessa forma a III Guerra Mundial. Para concretizar este desígnio, Ozymandias sabotou vários reatores nucleares que, a pretexto de fornecer energia gratuita à Humanidade, convencera o Dr. Manhattan a construir. Da explosão dos reatores resultará a destruição das principais metrópoles e a incriminação de Manhattan, cuja assinatura energética está por todo o lado.
Enquanto Rorschach e Coruja tentam desesperadamente impedir Ozymandias, este informa-os da marcha avançada do seu maquiavélico plano. Naquele preciso momento, em diferentes pontos do globo, há reatores a serem detonados numa sincronia mortífera.
Longe dali, entre as ruínas radioativas de Nova Iorque, o Dr. Manhattan e Espectral deduzem que a hecatombe será obra de Ozymandias e teletransportam-se para a sua fortaleza na Antártida. Ozymandias atrai Manhattan para uma máquina idêntica àquela que o criou e que, aparentemente, o atomiza. No entanto, Manhattan não pode ser morto e ressurge na forma de um gigante.

Nem o todo-poderoso Dr. Manhattan consegue travar a engrenagem do Apocalipse.

Prestes a ser vaporizado por Manhattan, Ozymandias mostra aos restantes Watchmen a comunicação ao país que o Presidente Nixon faz naquele preciso momento na TV. Em resposta ao ataque atribuído a Manhattan, americanos e soviéticos aliaram-se contra o inimigo comum e comprometem-se a defender a Humanidade. 
Todos compreendem então que revelar a verdade serviria apenas para perturbar a paz mundial. Apenas Rorschach não deseja permanecer em silêncio e, a seu pedido, é morto por Manhattan. Impassível, este anuncia em seguida a sua intenção de viajar para uma galáxia menos complicada.
Também o Coruja rejeita a ideia de que o sacrifício de milhões de vidas humanas foi um pequeno preço a pagar pela paz mundial e, antes de partir com Espectral, insta Ozymandias a refletir sobre a enormidade dos seus atos.
Semanas depois, o editor do New Frontiersman, um jornal de ultradireita, reclama da ausência de notícias, agora que a Guerra Fria acabou e o mundo vive em harmonia. À falta de melhor ideia, manda um estagiário esquadrinhar a correspondência enviada pelos leitores, entre a qual repousa o diário de Rorschach...

Trailer


Curiosidades

*"Who watches the Watchmen?" ("Quem vigia os vigilantes?") é uma frase da autoria de Aristóteles (384 a.C.- 322 a.C.). Foi originalmente proferida no contexto de um debate com Platão para contestar a sua proposta de criação dos filakes (guardiões) como autoridade máxima e infalível das cidades-estado gregas. Apesar de servir de bordão ao filme, a frase nunca é totalmente visível na saga original, surgindo ora incompleta ora parcialmente coberta;
*Múltiplas referências históricas e culturais, ligeiramente alteradas, foram incorporadas no introito da película. Silhouette, ocupando o lugar do marujo na célebre fotografia tirada por Alfred Eisenstaedt no dia da vitória aliada na II Guerra Mundial, beija uma enfermeira em plena Times Square; a festa de despedida da primeira Espectral recria a pintura "A Última Ceia", de Leonardo Da Vinci; a foto do Comediante a apertar a mão de Nixon é baseada naquela que, no mundo real, o ex-Presidente dos EUA tirou com Elvis Presley no final do encontro entre ambos na Casa Branca; a imagem de uma jovem manifestante pacifista a enfiar uma flor branca no cano da espingarda de um soldado americano referencia "Flower Power", a icónica fotografia captada por Bernie Boston em 1967, no auge dos protestos estudantis contra a Guerra do Vietname; 

A festa de despedida de Espectral I recria A Última Ceia.

*Divulgado aquando da estreia de O Cavaleiro das Trevas, em julho de 2008, o primeiro trailer de Watchmen despertou enorme interesse, ao ponto de devolver a saga homónima à lista dos mais vendidos. Para responder à intensa procura, a DC reimprimiu mais de um milhão de exemplares nos meses imediatos. Além do fundo musical dos Smashing Pumpkins, as únicas frases percetíveis no trailer saem da boca do Comediante e de Rorschach, as duas personagens que morrem no filme;
*Todas as bandeiras dos EUA presentes no filme incluem 51 estrelas porque, nessa realidade alternativa, o Vietname tornou-se o 51º estado da União, após a vitória americana no conflito militar travado nesse país do sudeste asiático;
*Entre o elenco principal, apenas Jackie Earle Haley - que fez ativamente campanha para obter o papel de Rorschach - conhecia a saga original. Apesar de ser cinturão negro em Kenpo, Haley optou por não se valer dessas habilidades nas suas cenas de luta, por considerar que a sua personagem teria um estilo mais indisciplinado; 
*Em conjunto com o guião, todos os atores receberam uma cópia de Watchmen, que estavam autorizados a levar para o set. A ideia era que eles sugerissem alterações aos respetivos diálogos, por forma a que estes fossem mais fluidos e mais fiéis à história original;
*Quando lhe foi oferecido o papel de Coruja II, Patrick Wilson consultou um amigo especialista em comics antes de tomar uma decisão. A conselho deste, o ator - que atraíra a atenção de Zack Snyder com a sua prestação em Pecados Íntimos (2006) - aceitou encarnar a personagem, cujo excesso de peso o obrigou a ganhar 11 quilos. Em sinal de apreço pelo conselho do amigo, Wilson convidou-o a assistir à gravação da cena da fuga de Rorschach da prisão; 
*Zack Snyder debateu-se com algumas dificuldades no processo de seleção do ator que vestiria a pele do Comediante. Snyder procurava alguém tão carismático e rabugento como a personagem, encontrando em Jeffrey Dean Morgan o candidato perfeito. Durante a entrevista com o realizador, Morgan - que começara por rejeitar o papel, mudando de ideias por influência do seu agente - mostrou-se particularmente mal-humorado, o que foi determinante para o seu escalonamento;
*Também Ozymandias provou ser um papel difícil de preencher, uma vez que requeria um ator simultaneamente atraente, atlético e com uma expressão blasé. Atributos que, aos olhos de Zack Snyder, só o britânico Matthew Goode reunia. Muito diferente do visual do seu congénere canónico, o figurino do Ozymandias cinematográfico parodiava a infame armadura com mamilos usada por George Clooney em Batman & Robin (1997);

O figurino de Ozymandias parodia
os Bat-mamilos de George Clooney.

*Para evitar um processo de gravação demorado e dispendioso, envolvendo duas tomadas por cada cena do Doutor Manhattan, Billy Crudup usou um traje especial de captura de movimento com 2500 LED incrustados e marcadores no rosto. Dessa forma, o brilho azulado do Dr. Manhattan seguia mais de perto os seus movimentos do que um projetor instalado no set, obtendo, de caminho, um efeito mais convincente do que qualquer CGI;
*Watchmen foi o primeiro filme de super-heróis a incluir nudez frontal. Na Tailândia, a genitália do Dr. Manhattan foi censurada com recurso à pixelização; 
*Apenas sete anos separam Carla Gugino de Malin Akerman que, no filme, interpretam, respetivamente, mãe e filha;
*Por junto, Watchmen arrecadou quatro prémios, incluindo o Saturn Award para melhor filme de fantasia. Integrou ainda a lista de pré-nomeados ao Óscar de Melhores Efeitos Visuais, mas não passou à fase seguinte;
*A banda sonora oficial do filme inclui três canções da autoria de Bob Dylan- Desolation Row, All Along the Watchtower e The Times They Are a-Changin' -, mas apenas esta última é interpretada pelo próprio, ao passo que a primeira não é referenciada na saga original.

A banda sonora oficial de Watchmen
 inclui 3 temas da autoria de Bob Dylan.


Veredito: 90%

Rareiam as adaptações cinematográficas de grandes sagas da 9ª Arte que justificam o uso de F maiúsculo no requisito da fidelidade. Watchmen é uma dessas honrosas exceções e, só por isso, merece ser celebrada. 
À direção de Snyder preside um impressionante cuidado estético. Patente, desde logo, na recriação milimétrica das vinhetas mais impactantes de Dave Gibbons na BD original. Dando mostras de um zelo quase apostólico, o realizador vai ainda mais longe ao reproduzir, ipsis verbis, praticamente todos os diálogos de Alan Moore.
Pautada por flashbacks e longas sequências concentradas no passado dos protagonistas, a narrativa segue um modelo invulgar para uma longa-metragem deste género. Apesar dos riscos inerentes, Snyder seguiu rigorosamente o ritmo explorado na história de Moore. Sem conseguir evitar alguns desequilíbrios, Snyder logrou ainda assim a proeza de condensar os doze capítulos da saga em pouco mais de duas horas e meia de projeção. 
Em virtude dessa duração extensa, Snyder enfatizou inteligentemente a ação. Embora nem sempre consentâneas com o realismo da saga original, o filme possui cenas empolgantes como a luta do Comediante com o seu misterioso assassino, a violenta rixa no beco em que o Coruja e Espectral se vêm envolvidos ou a espetacular fuga de Rorschach da prisão. Se Watchmen é, em última análise, um thriller psicológico, a sua versão cinemática é, inquestionavelmente, um filme de ação temperado com muito suspense.
Imunes às grosseiras descaracterizações que deixam tantas vezes irreconhecíveis as personagens adaptadas, todos os Watchmen estão, tanto a nível físico como moral, perfeitamente representados. A começar pela excelente prestação de Jackie Earle Haley, absorvido pela obsessão maníaca de Rorschach e com uma voz rouca tão incómoda como as verdades por ele gritadas na cara da sociedade.
O sempre competente Patrick Wilson oferece-nos um Coruja profundamente humano e convincente no seu drama de impotência face à magnitude dos eventos. Billy Crudup, por sua vez, aborda muito bem o desacoplamento moral do Doutor Manhattan, que se vê como um deus entre insetos. Jeffrey Dean Morgan, apesar do pouco tempo de ecrã, é a encarnação perfeita do sarcasmo e sadismo do Comediante, contrastando com a ocasional inexpressividade e falta de carisma de Malin Akerman (o elo mais fraco do elenco) como Espectral. Por fim, Matthew Goode apresenta-nos um Ozymandias diferente do original, mas tão maquiavélico como este.
Além de uma obra-prima no capítulo visual, Watchmen beneficiou ainda da escolha inspirada da sua banda sonora, pecando apenas pela ausência de uma partitura épica como aquela que John Williams compôs para Superman, The Movie. Destaque para a atemporal The Times They Are A-Changin', de Bob Dylan, que acompanha uma das melhores sequências de abertura de todos os tempos. Atendendo à atmosfera lúgubre do filme, até o alívio cómico proporcionado por Hallelujah, de Leonard Cohen, à cena de sexo entre o Coruja e Espectral é bem-vindo. 
Tecnicamente sublime, com um estilo distinto e emocionalmente poderoso, Watchmen é uma mescla de realidade e fantasia que verga os limites da imaginação. Mas é, também, tão imperfeito como os seus protagonistas. Que, apesar das suas boas intenções e dos seus conceitos distorcidos de justiça, não passam de simples humanos (ou ex-humanos) a tentarem proteger a sociedade de si mesma. Exatamente aquilo que Snyder procura fazer em relação à essência da obra adaptada.
Watchmen pode não ter sido um campeão de bilheteira nem nunca vir a agradar aos puristas, mas é certamente a adaptação possível de uma saga que muitos consideravam impossível de transpor ao cinema, e um dos melhores filmes de super-heróis alguma vez feitos.






*Este blogue tem como Guia de Estilo o Acordo Ortográfico de 1990 aplicado à norma europeia da língua portuguesa.








10 setembro 2021

CLÁSSICOS DA 9ª ARTE: «A ÚLTIMA CAÇADA DE KRAVEN»


  Pressentindo o próprio fim, o rei dos caçadores regressa à selva urbana na peugada da única presa que o derrotou. A morte do Homem-Aranha, a astuta fera que o atormenta, será a coroa de glória sob a qual poderá descansar em paz. Mas será que os heróis também se abatem?

Título original: Kraven's Last Hunt (também conhecida como Fearful Simmetry: Kraven's Last Hunt)
Editora: Marvel Comics
País: Estados Unidos da América
Data de lançamento: Outubro e novembro de 1987
Autores: John Marc DeMatteis (argumento), Mike Zeck (arte) e Bob McLeod (arte-final)
Personagens: Homem-Aranha, Kraven, Mary Jane Watson e Rattus
Cenários: Nova Iorque
Edições em português: Os leitores lusófonos tomaram contacto pela primeira vez com esta saga na sua língua materna em 1991, quando ele foi editada pela Abril brasileira. Em vez do tradicional formatinho económico, A Última Saga de Kraven foi publicada como uma minissérie em três volumes em formato americano, sendo compilada em álbum de capa mole no final desse mesmo ano. Ainda por terras de Vera Cruz, desde o início deste século que a obra teve direito a várias reimpressões - sempre em capa dura -, com a chancela alternada da Panini e da Salvat. Em Portugal, foi pela mão da Levoir que, em julho de 2014, ganhou a sua primeira versão em português europeu, inserida na coleção Universo Marvel e originalmente distribuída com o jornal Público.

Em 2015, a Panini Comics republicou pela segunda vez a saga.
Tal como na primeira edição, optou por não usar a icónica capa mostrando
o Homem-Aranha a soerguer-se da campa.

Terrível simetria

Peter Parker bem poderia ser o protagonista da desdita. Órfão desde o berço, viu morrer-lhe nos braços o tio que o criou como filho e foi incapaz de salvar o grande amor da sua vida de uma queda fatal. A tragédia ensombrou sempre a periferia da vida de Peter, enlutando-lhe, uma e outra vez, o coração. Ao longo do percurso editorial do Homem-Aranha, iniciado em 1962, raras foram no entanto as incursões por terrenos mais sombrios. Apesar dos pesares, a natureza otimista de Peter prevaleceu.
Porém, até o mais ensolarado dos heróis tem um lado lunar. Aquele que, antes de A Última Caçada de Kraven, nunca tinha sido devidamente aprofundado. Filha do seu tempo e dos demónios interiores do seu autor, a saga justifica a reputação de ser uma das mais perturbadoras no extenso repertório do Escalador de Paredes.
A segunda metade da década de 1980 foi, de facto, pródiga em reinterpretações adultas e tingidas de negro de algumas personagens que sempre tinham sido alvo de abordagens ligeiras, se não tanto no conteúdo, pelo menos na forma. Batman - O Regresso do Cavaleiro das Trevas (1986) e Watchmen (1987), ambas com a chancela da DC, foram obras pioneiras dessa nova tendência que mudaria sem recuo o género super-heroico.
De um dia para o outro, heróis inabaláveis nas suas convicções viram-se enleados em dilemas morais plasmados em narrativas complexas. Reflexo tanto da mudança geracional entre autores como de uma maior sofisticação intelectual dos leitores.
Com as vendas da rival, impulsionadas por esse fenómeno, a subirem em flecha, a Marvel não quis ficar para trás e decidiu responder com uma história de tintas carregadas. O protagonista não poderia, contudo, ser mais inesperado: ninguém menos que o Simpático Amigo da Vizinhança. Escolha tão mais surpreendente se considerarmos a natureza sensível e afável do Homem-Aranha, assim como a circunstância de a história em questão ter sido imaginada com outra personagem da Casa das Ideias.
Algures entre 1984 e 1985, o escritor J.M. DeMatteis, obreiro de perspetivas revigorantes, propôs a Tom DeFalco, à época editor-chefe da Marvel, uma minissérie em que Magnum (Wonder Man, no original), após um duelo com o seu meio-irmão Ceifador (Grim Reaper), seria enterrado vivo, emergindo mais tarde do túmulo para se vingar. Quiçá desagradado com a morbidez da proposta, DeFalco não hesitou em rejeitá-la.

Magnum e Ceifador eram os protagonistas originais da saga.

Quando trocou a Marvel pela DC, em finais de 1985, DeMatteis substituiu Magnum por Batman e o Ceifador por Joker. Na sinopse fornecida aos editores, o escritor sustentava que essa seria a cura definitiva para a insanidade mental do Príncipe Palhaço do Crime. Numa (in)feliz coincidência, Alan Moore desenvolvia por aqueles dias A Piada Mortal. Dada a existência de alguns pontos de contacto entre as duas histórias, DeMatteis teve de voltar a enfiar a sua na gaveta.
Mas DeMatteis não se deu por vencido. Nas semanas seguintes, reescreveu a história introduzindo-lhe mais umas quantas alterações. Em vez do Joker, o Batman seria agora subjugado por Hugo Strange (outro velho inimigo do Cavaleiro das Trevas) que, em seguida, assumiria o manto do morcego. A ideia voltou, no entanto, a ser rejeitada.
De regresso à Casa das Ideias, DeMatteis fez uma derradeira tentativa para vê-la aprovada. Agora com o Homem-Aranha como protagonista e com um novo vilão criado propositadamente para o efeito, o projeto recebeu finalmente luz verde por parte dos editores.
Vários elementos importantes foram sendo acrescentado, à medida que DeMatteis limava as arestas de um enredo cada vez menos decalcado da trama original. Com Peter Parker e Mary Jane Watson recém-casados, o escritor optou por fazer do casal o eixo emocional da narrativa. Já a ideia de usar Kraven como antagonista surgiu após DeMatteis ter lido o seu perfil em The Official Handbook of the Marvel Universe (espécie de "Quem é quem" da editora). Grande admirador da obra literária de Dostoievski - especificamente de Crime e Castigo -, DeMatteis ficou fascinado com a herança russa de Sergei Kravinoff.

J.M. DeMatteis teve a sua história
 rejeitada por 3 editores.

Quando soube que Mike Zeck (com quem colaborara anteriormente em Captain America) fora o escolhido para trabalhar com o lápis, DeMatteis considerou que seria interessante a inclusão de uma personagem criada por ambos. Foi assim que o repulsivo Rattus (Vermin) assegurou a sua participação na saga que redefiniria o Homem-Aranha.
Publicada originalmente entre outubro e novembro de 1987, a história em seis capítulos teria sido incluída apenas em Spectacular Spider-Man se o editor Jim Salicrup não tivesse tido a brilhante a ideia de a espalhar pelos outros dois títulos mensais do Homem-Aranha (Amazing Spider-Man e Web of Spider-Man), cujo alinhamento preencheu em exclusivo durante dois meses. Decisão ditada por razões comerciais (obrigava os leitores a comprarem as três revistas para acompanhar a saga), mas também por questões de lógica editorial. Se Kraven presumivelmente matava o Homem-Aranha, seria absurdo que a vida de Peter Parker seguisse a sua rotina normal nos outros títulos. Embora consagrada hoje em dia, foi a primeira vez que essa estratégia editorial foi testada (ainda por cima, com resultados muito positivos).
A atravessar uma fase conturbada na sua vida pessoal, DeMatteis projetou nos protagonistas o seu próprio sofrimento emocional. Ao fazê-lo, sujeitou o Homem-Aranha a uma dilacerante tortura psicológica. Isto ao mesmo tempo que adicionava camadas de complexidade a Kraven.
Depois de abater o Homem-Aranha, Kraven tomaria o lugar do herói. Porém, aquilo em que ele se transforma não é o Homem-Aranha, mas sim a sua perceção equivocada dele. As ações brutais do falso Homem-Aranha ilustram a terrível simetria entre a crueldade do vilão e a benevolência do herói. Que, mesmo levado ao limite, resiste a abrir mão dos seus princípios éticos.
Anos mais tarde, num texto intimista divulgado no seu blogue, DeMatteis reconheceu que teria sido incapaz de escrever a história se, naquela época, o seu estado de espírito fosse diferente. Segundo ele, as grandes histórias possuem vida própria, servindo os escritores de meros veículos para a mensagem que elas desejam transmitir. A Última Caçada de Kraven parece endossar esta teoria.

A última caçada de Kraven teve início em Web of Spider-Man #31.


Réquiem pelo caçador

Houve um tempo em que o mundo admirava a sua astúcia e coragem. Uma época debruada a ouro em que a sua virilidade inspirava reverência e as suas façanhas eram lendárias. Uma época em que ele foi coroado rei dos caçadores e imperador da savana. Mas isso foi antes de ambientalistas e ativistas dos direitos animais lhe arruinarem a reputação. Antes de ele se cruzar com a única presa que o derrotou e que o atormenta desde então: o Homem-Aranha.
Sergei Kravinoff, celebrizado nesse passado glorioso como Kraven, o Caçador, está ciente de que a morte o ronda. Pressente a sua presença nas sombras e quase consegue perscrutar o seu tétrico semblante. Mas ele não está preparado para reencontrar o Criador. Não sem antes recuperar a honra e a dignidade perdidas. Não sem antes curar o seu orgulho ferido, provando a sua superioridade. E isso só será possível fazendo do Homem-Aranha o seu supremo troféu de caça.
Reunindo as forças que ainda lhe restam, Kraven regressa à selva urbana na peugada da sua derradeira presa. Apesar de ser ainda ágil como uma gazela e forte como um leão, Kraven sabe que está longe do seu ápice físico de outrora. Mas sabe, também, que nunca descansará em paz se não vergar o Homem-Aranha.
Para aguçar os sentidos e aumentar a sua força, Kraven ingere poções secretas e infusões de ervas trazidas das selvas mais profundas. Vai precisar de estar no seu melhor para consumar o macabro plano que concebeu: abater o Escalador de Paredes e enterrá-lo com centenas de aranhas.
Recém-regressado da sua lua-de-mel com Mary Jane, Peter Parker ignora que o seu alter ego tem a cabeça a prémio. Absorto em divagações, o Homem-Aranha baloiça-se nas suas teias no que deveria ser um ameno passeio noturno. Mas acaba emboscado por Kraven que, emergindo das sombras, o alveja e captura com uma rede.
Sob o efeito de um potente sedativo, o herói aracnídeo impende no abismo da inconsciência. Tem, contudo, um vislumbre da espingarda e do olhar maníaco de Kraven enquanto este se prepara para executá-lo a sangue-frio. Por entre palavras balbuciadas sobre a restauração da sua honra, o vilão alveja o Homem-Aranha à queima-roupa.

A presa à mercê do caçador.

Transportando o corpo inerte do herói, Kraven coloca-o num ataúde repleto de aranhas, antes de sepultá-lo em local desconhecido. No entanto, abater a grande fera de azeviche não basta. É imperativo demonstrar a sua superioridade sobre ela. E, para isso, o caçador terá de vestir a pele da sua presa.
Nessa mesma noite, envergando uma cópia do traje negro do Homem-Aranha, Kraven começa a patrulhar os desfiladeiros de néon da cidade que nunca dorme. Impelido pelo seu distorcido conceito de justiça, não se inibe de liquidar alguns dos criminosos que tiveram a desventura de lhe cruzar o caminho.
Depois de dias e noites de angústia causada pelo inexplicável sumiço do marido, Mary Jane é assediada por um bando de delinquentes no seu caminho de regresso a casa. Apesar de salva pelo Homem-Aranha, ela percebe estar na presença de um impostor. Kraven, por seu lado, nem imagina que acabou de salvar a vida à esposa do seu inimigo e volta a desaparecer na escuridão da noite. As lágrimas de Mary Jane diluem-se na chuva que não cessa de cair, como se o céu estivesse em pranto pelo infortúnio da jovem.

O caçador veste a pele da presa.

Entrementes, um novo predador começa a semear o terror em Nova Iorque. Rattus, um híbrido canibal de homem e rato, vem atacando aleatoriamente transeuntes indefesos. As suas sangrentas ações atraem a atenção do falso Homem-Aranha, que lhe move feroz perseguição através da rede subterrânea de esgotos. Quando, por fim, encurrala a sua presa, Kraven espanca Rattus quase até morte, levando-o, em seguida, para o seu covil.
Enquanto Kraven se regozija com mais este seu triunfo, o verdadeiro Homem-Aranha desperta do seu longo coma e rasteja para fora da sua sepultura. Tinha, afinal, sido atingido por um dardo tranquilizante e, depois, enterrado vivo pelo seu algoz. Sem que o soubesse, o seu sórdido calvário durara duas semanas. Apesar da fúria que lhe revira as entranhas, o seu primeiro pensamento vai para Mary Jane.
Desesperado por rever a sua adorada esposa, o herói aracnídeo vai ao encontro de Mary Jane. Após certificar-se de que ela está em segurança, parte no encalço de Kraven. Peter sabe que o caçador vira caça quando subestima a sua presa. E sabe que Kraven o atirou às profundezas daquilo que um homem comum é capaz de suportar. Mas ele não é um homem comum.

Um amor mais forte do que a morte.

Com recurso a toda a sorte de sevícias, Kraven subjugara Rattus, agora reduzido a um animal assustado. Algo que o Homem-Aranha fora incapaz de fazer sozinho no seu último confronto com a criatura, em que tivera o Capitão América como aliado.
Ao pressentir a presença do Homem-Aranha no seu covil, Kraven liberta Rattus para testar as capacidades do seu renascido rival. Mas Peter nada tem a provar e compadece-se do sofrimento de Rattus. O monstro, porém, não hesita em investir violentamente sobre o herói e está prestes a matá-lo. Kraven interfere para salvar a vida do Escalador de Paredes. Não pode conceder a outrem o privilégio de matar a sua presa suprema. Confuso, Rattus aproveita a oportunidade para escapar. 

A ferocidade de Rattus.

Tomando enfim consciência de tudo aquilo que Kraven lhe tirou, o Homem-Aranha ataca-o com uma ferocidade nunca antes vista. O vilão limita-se, porém, a encaixar os golpes do seu adversário, com um sorriso trocista. 
Apesar daquela reviravolta, Kraven vencera. Permitira que a sua presa vivesse quando podia facilmente tê-la matado. Dessa forma provara a si mesmo a sua superioridade relativamente ao rival que o humilhara. Não havia razões para continuar a lutar. Nem para continuar a viver. Estava consumada a sua vingança final.
Kraven nada faz para impedir que o Homem-Aranha parta no encalço de Rattus. De volta à sua taciturna mansão, o caçador suicida-se com a mesma arma com que alvejara o Escalador de Paredes. Junto ao seu corpo sem vida jazem fotografias e uma confissão escrita em que assume a culpa pelas mortes causadas pelo falso Homem-Aranha.
Longe dali, o herói aracnídeo consegue, a dura penas, neutralizar Rattus, acabando mesmo por salvar a vida da criatura. Também a violenta tempestade que há dias fustigava Nova Iorque deu finalmente lugar à bonança.
Terminado o pesadelo, Peter regressa para junto de Mary Jane, radiante ao ver o marido são e salvo. O amor que os une curará as feridas e o casal anela por nova etapa de felicidade conjunta. O Sol voltou a brilhar, mas é a esperança que lhes aquece os corações.
Na mansão Kraven, os serviçais homenageiam o seu malogrado amo com um réquiem silencioso antes de depositarem o seu cadáver sob sete palmos de terra. O rei dos caçadores pode finalmente repousar em paz sob a sua coroa de glória.

A morte do caçador.


Apontamentos

*O primeiro e último capítulos da saga terminam, respetivamente, com os enterros do Homem-Aranha e de Kraven enquadrados pela frase "Aranha! Aranha! Flamejando nas florestas da noite. Que mão ou olho imortal poderia plasmar a tua terrível simetria?". Trata-se de uma das muitas citações extraídas do poema The Tyger (escrito em 1794 pelo britânico William Blake) que permeiam A Última Caçada de Kraven. Com efeito, os seis capítulos da saga correspondem ao número de quadras que compõem o poema em questão;
*Apenas aquando do lançamento da sua primeira compilação, em 1989, a saga foi titulada como A Última Caçada de Kraven. A sugestão partiu de Jim Salicrup, na altura editor das séries mensais do Homem-Aranha, e não convenceu DeMatteis. O autor preferia Terrível Simetria (Fearful Simmetry, a expressão que remata The Tyger);
*Também o suicídio de Kraven teve inspiração literária. A cena em que o vilão usa a própria carabina para pôr termo à vida reproduz a morte de Ernest Hemingway, em tempos conhecido como Grande Caçador Branco;
*Aranhas e ratos assumem funções simbólicas na história. Aparentemente, estes motivos animais representam, respetivamente, o medo e o instinto primitivo de sobrevivência. Kraven refere mesmo que todo o homem tem a sua aranha e consome várias delas antes de enfrentar o Escalador de Paredes. Pouco antes  da "ressurreição" de Peter, um rato é visto a rondar o seu túmulo;

Manjar aracnídeo antes da batalha.

*O icónico uniforme negro usado à época pelo Homem-Aranha foi criado em 1982 por Randy Schueller. Um jovem fã do Illinois, Schueller foi o vencedor do concurso organizado pela Marvel com vista à captação de novos talentos e aceitou vender o conceito por uns módicos 220 dólares. Apesar de a mudança de visual ter ocorrido em maio de 1984, no histórico Amazing Spider-Man #252, a origem da nova vestimenta só seria revelada mais de meio ano depois, em Secret Wars #8. Na verdade um simbionte alienígena, o traje, depois de rejeitado por Peter, encontrou em Eddie Brock um novo hospedeiro. Da fusão de ambos nasceu Venom, um dos mais perigosos inimigos do Escalador de Paredes. Que, na sequência desses eventos, passou a usar um modelo de tecido normal oferecido pela Gata Negra. É, pois, esse segundo traje negro que aparece na saga. Para desapontamento de muitos fãs, o Homem-Aranha voltaria a vestir de azul e vermelho em maio de 1988 (precisamente quatro anos após a estreia do uniforme negro);
*Em resposta às acusações de glorificação do suicídio, em agosto de 1992, cinco anos após a obra original ter sido dada à estampa, J.M. DeMatteis e Mike Zeck reataram o seu casamento criativo para produzir uma continuação de A Última Caçada de Kraven. Intitulada Soul of the Hunter (Alma de Caçador), a história revela a existência de um vínculo espiritual entre Peter Parker e Sergei Kravinoff, cuja alma não descansa em paz devido ao facto de ter acabado com a própria vida. Apesar dessa e de outras revisitações posteriores, o vilão permaneceria morto até 2009.

Vingança aquém e além-túmulo.


Vale a pena ler?

Em 2012, os visitantes do site canadiano Comic Book Resources votaram A Última Caçada de Kraven como a melhor história do Homem-Aranha alguma vez contada. Ainda que esse resultado seja debatível, ela merece, com toda a certeza, figurar no Top 5 das aventuras do Escalador de Paredes.
À primeira vista, a história tinha, porém, tudo para dar errado. Transpor o herói mais otimista da Marvel para um contexto de trevas e desespero prefigurava-se um exercício deveras arriscado. Mais ainda tendo como antagonista um vilão como Kraven que, desde a sua criação em 1964, nunca ultrapassara a condição de personagem secundária.
No entanto, a abordagem de DeMatteis foi genial. A sua escrita dá um salto quântico em complexidade e qualidade, como pouquíssimas vezes tinha acontecido até então nas histórias de super-heróis - e nunca nas dos Homem-Aranha (nem mesmo aquando da morte de Gwen Stacy). As notas poéticas, os diálogos psicologicamente reveladores e a análise profunda das motivações dos dois protagonistas são bons exemplos do virtuosismo narrativo de um escriba consagrado que assina aqui uma das obras mais candentes da sua carreira.
Além de esculpir tridimensionalidade a Kraven, DeMatteis aflora temas muito interessantes, designadamente a dicotomia entre o Homem-Aranha e Peter Parker. Quem é, afinal, o mais nobre? O herói ou o homem por detrás da máscara? O autor inclina-se claramente para a segunda opção e, nesse sentido, socorre-se de diversos subterfúgios narrativos para ressaltar a importância da figura de Peter Parker. A sua humanidade, as suas emoções e as suas ações perante os problemas e dilemas que a vida lhe apresenta são a quintessência do Escalador de Paredes. Ao contrário do Super-Homem, por exemplo, Peter não é um disfarce para o Homem-Aranha, mas sim o inverso. A sua personalidade não transmuda de cada vez que ele enfia o uniforme. Seja este preto ou azul e vermelho.
Apesar do excelente enredo, A Última Caçada de Kraven dificilmente teria tido o mesmo impacto sem a sensacional arte de Mike Zeck. Poucos artistas conseguem traçar movimentações com tal maestria, conferindo uma fluidez cinematográfica às sequências, ao mesmo tempo que preenchem uma atmosfera dramática com minuciosos retratos emocionais das personagens.
A única ressalva reside nos monólogos de Kraven que, a espaços, soam repetitivos, conquanto se perceba o seu propósito de imergir o leitor na retorcida psique do vilão. Sem embargo para a sua qualidade global, a saga poderia perfeitamente acabar no penúltimo capítulo, onde a caçada de Kraven de facto termina. Funcionando, assim, o sexto e último capítulo como uma espécie de epílogo estendido que, à parte o destino de Rattus, pouco acrescenta à história.
A Última Caçada de Kraven é também a prova provada que não precisamos de mudanças arbitrárias de género, raça ou orientação sexual para produzir boas histórias de personagens com longos históricos de publicação. O que precisamos mesmo é de menos ativismo identitário e de mais bons autores e bons desenhadores. Tendo isso, as histórias serão sempre refrescantes, por mais vetustos que sejam os protagonistas.
Trágica, filosófica e com fino recorte literário, esta é uma obra que não pode faltar na bedeteca de nenhum aficionado da Arte Sequencial. E que, como qualquer clássico, merece ser revisitada de tempos em tempos.

O traje negro do Homem-Aranha marcou uma era
 e acentuou o tom fúnebre da saga.




*Este blogue tem como Guia de Estilo o Acordo Ortográfico de 1990 aplicado à variante europeia da língua portuguesa.
*Prontuário de Kraven, o Caçador disponível para leitura complementar.