09 maio 2020

CLÁSSICOS DA 9ª ARTE: «BATMAN: ANO UM»


  Durante demasiado tempo, os intocáveis banquetearam-se com a riqueza e o espírito da sua cidade. Chegou, porém, a hora de o príncipe de Gotham interromper o festim de ganância e impunidade. Faminto de justiça, ele travará a coberto da noite uma guerra que não poderá vencer sozinho, mas que fará dele uma lenda.

Título original: Batman: Year One
Editora: Detective Comics (DC)
País: Estados Unidos da América
Autores: Frank Miller (argumento) e David Mazzucchelli (arte) 
Publicado em: Batman Vol.1 # 404-407 (fevereiro a maio de 1987)
Personagens: Bruce Wayne / Batman; James Gordon; Selina Kyle / Mulher-Gato; Arnold Flass; Gillian Loeb; Alfred Pennyworth; Carmine Falcone; Sarah Essen; Holly Robinson; Harvey Dent; Barbara Eileen Gordon
Cenários: Várias localizações de Gotham City, incluindo a sede do Departamento de Polícia, a Mansão Wayne e a Batcaverna. 

Edições em Português

Ao longo das últimas três décadas, Batman: Ano Um foi contemplado, em cada uma das margens do Atlântico, com uma miríade de edições e reedições na língua de Camões.
Seguindo o modelo de publicação original, no Brasil Ano Um foi inicialmente apresentado aos leitores nos quatro primeiros números da segunda série de Batman, dados à estampa pela Abril entre setembro e dezembro de 1987. Esta primeira versão em Português tropical - distribuída no ano seguinte em terras lusitanas - teve a particularidade de ser a única a ser lançada no chamado formatinho económico.
Ainda sob os auspícios da mesma editora - e inserida nas comemorações do 50º aniversário do Homem-Morcego - em 1989 foi lançada a primeira de várias compilações em formato americano, algumas das quais com capa dura.

Primeira compilação de Ano Um  (Abril Jovem, 1989).
Desde que, em 2002, obteve os direitos do Universo DC em terras de Vera Cruz, também a Panini vem lançado sucessivas reimpressões de Ano Um, a mais recente das quais remonta a dezembro de 2016.
Já a primeira versão lusa da saga teve a chancela da Devir e chegou às bancas nacionais em finais de 2001. Mercê do sucesso comercial da iniciativa (7 mil exemplares vendidos), em 2005 seria lançado um segundo volume encadernado da obra, cuja única diferença relativamente ao anterior era a inclusão de um livro de esboços (sketchbook) de David Mazzucchelli.
Em 2015, seria a vez de a Levoir selecionar Ano Um para inaugurar a sua coleção evocativa dos 75 anos do Batman, originalmente distribuída com o semanário Sol.
Agora com o mote da chancela norte-americana Black Label, em novembro do ano passado a Levoir brindou os leitores portugueses com nova republicação desta história clássica do Cavaleiro das Trevas.

Bertrand.pt - Batman: Ano Um
Ano Um abriu a coleção da Levoir evocativa dos 75 anos do Batman.

Morcego renascido

Foi em maio de 1939 - há precisamente 81 anos, portanto - que Batman debutou em Detective Comics #27. Numa historieta intitulada The Case of the Chemical Syndicate, o Homem-Morcego começava a construir a sua reputação de melhor detetive do mundo ao deslindar o mistério por detrás do homícidio de um industrial de Gotham City.
Criado por Bob Kane e Bill Finger a reboque do sucesso do Super-Homem no ano anterior, a Batman serviram de inspiração diversas personagens clássicas saídas da literatura pulp. O Sombra e o Zorro foram duas delas, conquanto sejam igualmente notórias as influências do Fantasma, de Lee Falk. A sua origem só seria, no entanto, revelada vários meses depois.
Em novembro de 1939, Detective Comics #33 incluía uma história escrita por Bill Finger que levantava, por fim, o véu que até aí cobrira o traumático passado do circunspecto defensor de Gotham City. Foi, pois, através dela que os leitores ficaram a par da tragédia pessoal de Bruce Wayne, um órfão milionário que, ainda criança, vira os seus pais serem assassinados a sangue-frio durante um assalto de rua.
De coração enlutado, o pequeno Bruce jurou vingar a morte dos seus pais, devotando a sua vida a combater o crime e a injustiça. Para esse efeito, ele criou um disfarce inspirado no morcego que, certa noite, invadira a Mansão Wayne. Sendo esse, de resto, um dos vários elementos referenciados por Frank Miller na sua releitura  da origem clássica do Batman, em Ano Um.

A origem de Batman foi revelada em Detective Comics #33 (1939).
Com o rolar das décadas, a cronologia da DC foi-se tornando, porém, cada vez mais convulsa e contraditória. Devido à sua natureza de simples vigilante urbano, Batman foi menos afetado pela bagunça instalada do que, por exemplo, Super-Homem ou Mulher-Maravilha. Mas nem por isso deixou de ter a sua origem sucessivamente retocada.
Em 1948, Bill Finger atribuiu, pela primeira vez, um nome ao assassino de Thomas e Martha Wayne. Até então um meliante anónimo, o homem que mudou as agulhas do destino de Bruce Wayne passou a ser identificado como Joe Chill.
Menos de uma década após esta primeira alteração, em 1956,  Finger acrescentou outro dado novo. A morte dos Waynes não resultara, afinal, de um crime aleatório, mas de uma execução sumária encomendada pela Máfia. Ao mesmo tempo que era sugerido que, para criar o seu alter ego noturno, Bruce se inspirara não num morcego, mas numa fantasia usada pelo pai num baile de máscaras.
Histórias subsequentes relatariam ainda as muitas viagens de Bruce à volta do mundo, com o propósito de desenvolver os talentos necessários para empreender a sua cruzada contra o crime.
Num esforço para corrigir erros de continuidade como estes, em 1985 - ano em que comemorava as suas bodas de ouro - a DC resolveu iniciar uma nova cronologia. Graças a Crise nas Infinitas Terras, a mãe de todas as sagas, os leitores puderam presenciar o alvorecer de uma nova era.
Coincidentemente, foi durante a produção de Crise nas Infinitas Terras que Frank Miller, uma das estrelas em ascensão na Marvel, assumiu as histórias do Demolidor. Miller começara por desenhar a série mensal do Homem Sem Medo mas o editor Dennis O'Neil desafiara-o a trocar o lápis pela máquina de escrever.

Comic Con Experience 2015 terá presença de Frank Miller
Da pena de Frank Miller saíram sagas memoráveis.
Provando o seu valor como obreiro de perspetivas revigorantes, poucas semanas depois Miller presenteava os leitores com um clássico instantâneo: A Queda de Murdock. Obra que deu um novo elã ao Demolidor e que foi  produzida a meias com David Mazzucchelli, cuja arte mereceu quase tantos elogios como a trama de Miller.
Foi com o currículo abrilhantado por essa obra-prima da 9ª Arte que, em 1986, Miller trocou a Marvel pela DC. Na Editora das Lendas assinou, nesse mesmo ano, aquele que muitos consideram ser o seu magnum opus: O Regresso do Cavaleiro das Trevas.
O contrato celebrado entre Miller e a DC previa igualmente que o escritor produzisse uma nova origem do Batman. Contrariamente ao que sucedera com O Regresso do Cavaleiro das Trevas, desta feita Miller preferiu não transformar a empreitada num projeto unipessoal. Por sua sugestão, a DC recrutou ninguém menos do que David Mazzucchelli para desenhar a história, reunindo assim a dupla-maravilha que fizera do Demolidor um caso sério de popularidade.

David Mazzucchelli (Person) - Comic Vine
Depois do Demolidor, o traço de David Mazzucchelli
ajudou a redefinir o Batman.
Miller concebera inicialmente Ano Um como uma graphic novel. Mostrando-se, por isso, reticente em acolher a sugestão de Dennis O'Neil - o novo editor de Batman - para que a história fosse apresentada ao longo dos quatro primeiros números da nova série mensal do Homem-Morcego. Miller temia que esse formato prejudicasse a dinâmica narrativa, ou que, em última instância, comprometesse o seu estatuto canónico.
A amizade com Dennis O'Neil - cunhada durante a passagem de ambos pela Casa das Ideias - acabaria, contudo, por falar mais alto, levando Miller a ceder. Mas apenas depois de O'Neil lhe ter asseverado que continuaria a dispor de total liberdade criativa no protocolo modificativo de um dos maiores ícones da cultura pop do século XX.
Apesar dessa carta de alforria, a abordagem de Miller revelou-se menos arrojada do que se previa. Consistindo, basicamente, em expandir a premissa glosada por Bill Finger em 1939, focalizando-se em aspetos da origem do Batman que permaneciam por explorar. Em contrapartida,  resumiu elementos fundamentais do mito à sua expressão mínima. O assassinato de Thomas e Martha Wayne, por exemplo, foi evocado sob a forma de breves flashbacks.
Por considerá-las desinteressantes, Miller suprimiu também as aventuras do jovem Bruce Wayne ao redor do mundo. Em vez de apresentar Batman como uma lenda viva, à semelhança do que fizera em O Regresso do Cavaleiro das Trevas, Miller caracterizou-o como um homem comum e inexperiente a tentar fazer a diferença numa sociedade de regras viciadas.
Do ponto de vista de Miller, a eficiência de um herói é inversamente proporcional ao seu apelo junto do público. Quanto mais falível, mais relacionável se torna uma personagem conotada com o Bem. Razão pela qual Ano Um apresentou um Batman imprudente que, não raro, subestimava os seus adversários.
Ao conferir-lhe uma atmosfera lúgubre, quase asfixiante, a arte de David Mazzucchelli enfatizava o tom realista imprimido por Miller à narrativa. O artista concebeu a sua interpretação de Gotham City para simbolizar a devassidão que contagiava os habitantes da cidade.

Na capital do crime, Batman é um alvo a abater.
Quando Dennis O'Neil sugeriu que o capítulo de abertura de Ano Um fosse publicado no número inaugural da segunda série de Batman, Miller mostrou-se irredutível. Em seu entender, a exploração de partes desconhecidas da origem do herói não justificava que fosse feita tábua rasa de quase meio século de aventuras.
Evitando um corte radical com o passado, Ano Um seria inserto nos números 404 a 407 de Batman. A saga de Miller e Mazzucchelli foi um sucesso comercial (mais do que duplicou a tiragem da série) e conservaria o seu estatuto canónico até 2011. Apesar de o ter perdido nesse ano para Ano Zero, no âmbito dos Novos 52, sobretudo entre os leitores veteranos Ano Um continua a ser percecionada como a origem definitiva do Cavaleiro das Trevas.

FORTALEZA DA SOLIDÃO: DO FUNDO DO BAÚ: «BATMAN - ANO UM»
Uma lenda em quatro atos.

Aurora negra

Bruce Wayne regressa a Gotham City após uma ausência de doze anos. Durante esse prolongado interregno longe da cidade que o viu nascer, o jovem milionário viajou pelo mundo, estudando artes marciais e ciências forenses. De volta a casa, traz uma missão na bagagem.
Transferido de Chicago e acompanhado pela esposa grávida, também James Gordon desembarca em Gotham ansioso por reabilitar a sua carreira policial. Os dois homens não demoram a ter o seu primeiro contacto com a sórdida e violenta realidade daquela que é reputada como a capital do crime.
Na sua primeira patrulha com o detetive Arnold Flass, Gordon vê o seu novo parceiro agredir um adolescente negro apenas por diversão. À medida que incidentes desta natureza se sucedem, cresce em Gordon a determinação de endireitar as coisas.
Depois de se registar num hotel para garantir um álibi, Bruce, irreconhecível no seu disfarce, aventura-se na sua primeira missão no terreno. Ao adentrar no nada recomendável Distrito da Luz Vermelha, é abordado por uma prostituta menor de idade chamada Holly Robinson. Perante a recusa do falso cliente, o proxeneta de Holly arrasta-a por um braço para um beco escuro. Bruce segue-os com a intenção de confrontar o homem, mas vê-se cercado por um grupo de meretrizes que investem sobre ele.
Prestes a desenvencilhar-se das suas agressoras, Bruce é surpreendido pela entrada em cena de Selina Kyle, uma dominatrix de elegância e agilidade felinas. Enquanto luta com a recém-chegada, Bruce é esfaqueado numa perna por Holly. Essa não será, porém, a única cicatriz que ganhará naquela noite.
Chegados ao local, dois polícias fardados ferem Bruce a tiro, transportando-o, em seguida, no carro-patrulha. A caminho da esquadra, Bruce consegue abrir as algemas e neutralizar os agentes. A viatura onde seguem entre em despiste, acabando por capotar violentamente. Antes de abalar, Bruce retira, porém, os agentes inconscientes do interior dos destroços em chamas.
Debilitado pelos vários ferimentos recebidos, Bruce consegue, a muito custo, regressar à Mansão Wayne. Enquanto, sentado sozinho na penumbra, roga ao seu falecido pai por orientação, um morcego atravessa subitamente a vidraça de uma janela antes de pousar em cima de um busto de Thomas Wayne. A criatura noturna foi a resposta às suas preces e inspira-o a criar uma persona capaz de infundir medo no coração dos criminosos.

Batman: Year One, Franck Miller & David Mazzucchelli | Batman year ...
Sob o signo do morcego.
Nas semanas imediatas, Gordon propõe-se limpar o Departamento de Polícia de elementos indesejáveis, colecionando inimizades no seio da corporação. Por ordem do Comissário Gillian Loeb, um grupo de agentes policiais encapuzados espancam brutalmente Gordon. Um deles - que Gordon reconhece como sendo Flass - chega mesmo a vociferar ameaças à sua esposa.
Tão logo fica restabelecido, Gordon visita a casa do agente onde o grupo de Flass se costuma reunir para noitadas de póquer regadas a álcool. Flass é ó ultimo a sair e, devido ao seu estado ébrio, é facilmente subjugado por Gordon.
Após espancar o ex-parceiro com um taco de basebol, Gordon deixa-o algemado e desnudo no meio da neve. Apesar de dolorosa,a lição não servirá de emenda a Flass.
Na noite seguinte é a vez de Bruce ter o seu batismo de fogo como Batman. Três adolescentes que roubavam um televisor de uma loja são rapidamente deixados fora de combate. O Cruzado Encapuzado logrou a sua primeira vitória mas esta não aplacou a sua fome de justiça.
O lauto banquete em que participavam alguns dos intocáveis de Gotham City torna-se indigesto quando Batman irrompe e anuncia que a sua impunidade tem os dias contados. Em resposta a essa afronta, o Comissário Loeb autoriza Gordon a usar todos os meios para capturar o vigilante. Batman tem agora a cabeça a prémio.

Batman Really Takes The Urine This Week...
Banquete indigesto.
Enquanto Gordon tenta debalde cumprir as ordens de Loeb, Batman prossegue a sua cruzada por justiça. O seu próximo alvo é ninguém menos do que Carmine "O Romano" Falcone, o chefe mafioso que controla o submundo de Gotham. Pela calada da noite, o Homem-Morcego invade a mansão de Falcone e, após intimidá-lo, deixa-o atado à cama. Antes de partir, tem ainda tempo para atirar a limusina do mafioso ao rio.
Estas e outras façanhas rendem a Batman o seu primeiro aliado. O promotor público Harvey Dent apoia secretamente as ações do vigilante, e tenciona cavalgar a onda de justiça que se encapela sobre Gotham, prometendo limpar uma cidade que não quer ser limpa.
Agora assistido pela charmosa detetive Sarah Essen, Gordon prossegue a sua investigação às atividades do misterioso Homem-Morcego que assombra a noite gothamita. Essen está convicta que Batman e Bruce Wayne são a mesma pessoa. Segundo ela, somente o príncipe de Gotham disporia dos recursos necessários para financiar as operações do vigilante.
No final de mais uma noite desperdiçada a seguir pistas inúteis, Gordon e Essen testemunham incrédulos o salvamento de uma sem-abrigo prestes a ser trucidada por um camião desgovernado. Saído da escuridão, Batman consegue tirar a mulher do caminho no último instante. Ao desviar-se de um obstáculo na via, Gordon perde o controlo do carro onde segue o casal de detetives e fica inconsciente após embater com a cabeça.
Ao voltar a si, Gordon depara-se com um quadro perturbador: Essen tem Batman na mira. O herói aproveita, porém, uma breve distração da detetive para desarmá-la antes de procurar abrigo num edifício devoluto.
Alegando que o prédio onde Batman se encontra encurralado já aguardava demolição, o Comissário Loeb ordena que seja lançada uma bomba no seu interior, a partir de um helicóptero da polícia.
A explosão obriga Batman a refugiar-se na cave fortificada do edifício, deixando para trás o seu cinto de utensílios que, por incluir substâncias inflamáveis, havia pegado fogo.
Uma equipa SWAT invade, pouco depois, o edifício para recolher o cadáver de Batman. Ao serem surpreendidos pelo mascarado, os agentes abrem fogo indiscriminadamente. Além do Homem-Morcego, também vários civis, aglomerados no exterior, são feridos pela saraivada de balas.

Batman: Year One, SWAT hunt | Cartoon art, Comic books art, Art
Caça ao morcego.
Ao ver os agentes comportarem-se como assassinos contratados, Batman não hesita em derrubá-los um por um. Usando, em seguida, um dispositivo para atrair uma densa revoada de morcegos.
Em meio ao caos instalado, Batman desaparece ao raiar do dia. Com um misto de pavor e esperança, Gotham testemunha a aurora negra de uma lenda; a lenda do Cavaleiro das Trevas.
Sem que Batman sequer o imagine, as suas audaciosas ações inspiram Selina Kyle a criar o seu próprio alter ego. Por conta da sua afinidade com felinos, Selina transforma-se na Mulher-Gato. A arte de roubar não mais será a mesma, agora que nasceu a rainha das ladras.

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À noite, todos os gatos são pardos.
Nas semanas seguintes, Gordon e Essen vivem um breve affair. Batman, por seu turno, coage um traficante de drogas a testemunhar contra o detetive Flass, que acaba detido por Gordon.
Sem tempo sequer para colher os louros, Gordon é chantageado pelo Comissário Loeb com provas da sua relação extraconjugal com Essen. Disposto a arcar com as consequências, Gordon confessa o seu deslize amoroso à esposa. Barbara decide então abandonar Gotham a poucas semanas de dar à luz o primeiro filho do casal. Mas esse poderá muito bem ser o menor dos problemas de Gordon.
Ao invadir novamente a mansão de Falcone a coberto da noite, Batman escuta um plano para liquidar Gordon. A reunião é no entanto interrompida pelo advento da Mulher-Gato.
Frustrada pelo facto de os seus sofisticados golpes virem sendo atribuídos ao Batman, Selina Kyle resolveu não deixar os seus créditos por mãos alheias. Enquanto faz gato sapato dos guarda-costas de Falcone, é discretamente ajudada pelo Homem-Morcego, que se mantém camuflado entre as sombras.
Ao sair de casa na manhã seguinte, Gordon deteta as movimentações suspeitas de um motociclista que ronda a garagem do seu prédio. Decide investigar e encontra a sua família feita refém por um grupo de sequazes de Falcone liderados por Vitti, o sádico sobrinho do mafioso.
Tomado pelo instinto, Gordon abate os sequestradores, mas Vitti consegue fugir levando consigo o filho recém-nascido de Gordon.
Sempre com o misterioso motociclista no seu encalço, Vitti acaba por perder o controlo do seu automóvel quando tentava atravessar uma ponte sobre o rio. Vitti e Gordon envolvem-se numa luta corpo a corpo, durante a qual o detetive perde os óculos.
Disposto a tudo para salvar a pele, Vitti lança o bebé ao rio. Gordon corre para salvar o filho mas é o motociclista quem salta da ponte para lhe amparar a queda fatal.
Já com o filho, são e salvo, nos braços, Gordon percebe estar na presença do homem por trás da máscara do Batman. A quem tranquiliza dizendo que, sem os óculos, é "cego como um morcego", e que ele é livre de partir. Bruce aproveita a deixa para sair de cena, ciente de que ganhara um precioso aliado.

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O início de uma aliança improvável.
Caído em desgraça, o detetive Flass arrasta consigo praticamente toda a hierarquia do Departamento de Polícia de Gotham City (DPGC), incluindo o Comissário Loeb. Rende-lhe no posto o Comissário Grogan, que aparenta ser ainda mais corrupto do que o antecessor. Gordon, por sua vez, é recompensado com uma promoção e uma nova oportunidade para salvar o seu casamento.
No epílogo, o agora Capitão Gordon aguarda pacientemente no telhado da sede do DPGC pela chegada do Batman. Acaba de receber informações sobre os planos de um lunático para envenenar o reservatório de água da cidade. Diz-lhe a sua intuição que o tal Joker ainda dará muito que falar...

Apontamentos

*O título do capítulo inaugural de Ano Um - Quem eu sou e como vim a ser (Who He Is and How He Came To Be, no original) - referencia a primeira origem canónica do Homem-Morcego apresentada em novembro de 1939, nas páginas de Detective Comics Vol.1 #33.
*O verdadeiro motivo da transferência de James Gordon para Gotham City é vagamente sugerido na narrativa. A mudança de cidade não foi de todo voluntária, e ter-se-á ficado a dever a um incidente não especificado envolvendo elementos corruptos da Polícia de Chicago. Esse episódio só seria clarificado em Batman: Gordon of Gotham, um spin-off de Year One publicado em 1998 e que segue inédito em língua portuguesa;
*Carmine Falcone, o poderoso chefe da Máfia que durante muito tempo controlou o submundo de Gotham, fez a sua primeira aparição em Ano Um. O seu reinado seria, porém, interrompido tanto pela ação concertada de Batman e Gordon, como pelas disputas territoriais com outros barões do crime, como o Pinguim;

ULTIMATE BATMAN - Mickeys Tavern
Carmine Falcone, o Padrinho.
*Ano Um teve como colorista Richmond Lewis. Pintora consagrada, Lewis é casada com David Mazzucchelli e foi a convite do marido que colaborou no projeto;
*Ano Um estabelece que Bruce Wayne teria 25 anos de idade quando empreendeu a sua campanha para libertar Gotham do crime e da corrupção que a haviam feito refém. No que aparenta ter sido um lapso de Frank Miller, é referido que Bruce teria apenas sete anos quando assistiu ao assassinato dos seus pais. Outras fontes refutam, com efeito, esta informação. Na cronologia emanada de Zero Hora, por exemplo, é ponto assente que Bruce Wayne teria na verdade oito anos quando ficou órfão;
*O facto de o Super-Homem ser referenciado em Ano Um atesta que a sua entrada em cena precedera em vários meses a do Homem-Morcego. Essa referenciação ocorre em dois momentos distintos da trama: no primeiro deles, Barbara Gordon compara a tensão muscular acumulada nas costas do marido ao "Homem de Aço"; no segundo, Alfred sugere ironicamente que Bruce aprenda a voar como "aquele sujeito de Metrópolis";
*Vários locais emblemáticos de Gotham são referenciados ao longo da narrativa, designadamente Robinson Park, Finger Memorial e a Missão Sprang. Tratam-se de homenagens toponímicas a Jerry Robinson (cocriador de Robin), Bill Finger (cocriador de Batman) e Dick Sprang (o mais famoso dos artistas "fantasmas" de Bob Kane);
*A ideia de Batman usar um sonar para atrair morcegos para a sua localização seria revisitada no filme Batman - O Início (2005). De igual modo, a cena final daquele que foi o primeiro capítulo da trilogia cinematográfica do Cavaleiro das Trevas - quando Joker é mencionado por Gordon - remete para os últimos painéis de Ano Um;

Gotham Alleys: Comic Book references in movies Part V: 'Batman Begins'
A aurora negra de Ano Um recriada em Batman - O Início.

*Quando sucedeu a Tim Burton como realizador de Batman Para Sempre (1995), Joel Schumacher planeava adaptar Ano Um. Ideia que seria no entanto prontamente descartada pelos produtores da franquia, interessados numa sequela e não numa prequela. Schumacher incluiria, ainda assim, vários elementos da obra nos flashbacks que acometiam Bruce Wayne ao longo do filme;
*Após o fiasco de Batman & Robin (1997), na viragem do milénio a Warner Bros. contratou Darren Aronofsky para escrever e dirigir um reboot da Bat-franquia baseado em Ano Um. O argumento apresentado por Aronofsky era todavia apenas vagamente inspirado na história original, chegando mesmo a pôr em causa várias convenções da personagem. Em virtude disso, o projeto foi engavetado e Aronofsky defenestrado;
*Apresentado em plena Comic-Con de San Diego, o filme animado Batman: Year One foi, em 2011, a primeira (e, até à data, única) adaptação oficial de Ano Um ao segmento audiovisual;

Batman: Year One (dvd_video) : Target
A versão animada de Ano Um.
*Aclamada pela crítica e pela generalidade dos leitores, Ano Um surge em segundo lugar na lista das dez melhores histórias do Batman de todos os tempos divulgada na plataforma IGN. A encabeçar o ranking, outro épico com assinatura de Frank Miller: O Regresso do Cavaleiro das Trevas;
*Desde a publicação de Ano Um, foram várias as histórias que expandiram o conceito glosado por Frank Miller. Logo em 1987, Mike W. Barr escreveu Ano Dois, colocando Batman na peugada de Joe Chill, o assassino dos seus pais. Um par de anos volvidos, em 1989, foi a vez de Marv Wolfman recontar a origem de Robin em Ano Três. Ambos os arcos seriam, porém, desconsiderados na sequência dos ajustes cronológicos impostos por Zero Hora. Em sentido oposto, O Homem Que Ri foi consagrada como sequência direta de Ano Um. Saída da pena de Ed Brubaker em 2005, a história revisita o primeiro encontro entre Batman e Joker, e antecede cronologicamente os eventos de O Longo Halloween (outro desdobramento de Ano Um).

Amazon.com: Batman: The Man Who Laughs (8601400566909): Brubaker ...
Em 2005, Ed Brubaker assinou
 a única sequela oficial de Ano Um.

Vale a pena ler?

A despeito das suas oscilações criativas (nos últimos anos parece ter desaprendido de desenhar), Frank Miller sempre foi um autor visionário. O meu primeiro contacto com o seu trabalho deu-se através desse épico moderno chamado O Regresso do Cavaleiro das Trevas. Mesmo sendo ainda pessoa de palmo e meio, percebi de imediato que tinha em mãos algo verdadeiramente especial, muito diferente de tudo que lera até àquele momento. Só então tomei consciência de que as histórias de super-heróis poderiam abordar temas mais complexos e adultos, em vez de se resumirem à eterna luta entre as forças do Bem e do Mal.
Em Ano Um, Miller desenvolve a trama com simplicidade, embora sem perder o requinte narrativo, para o qual muito contribui o magistral traço de David Mazzucchelli. A trama equilibra-se bem entre Batman e Gordon, demonstrando serem ambos peças fundamentais na representação de um mesmo ideal: o primado da Lei e da Justiça. Com Gordon a personificar a primeira e Batman a segunda.
O amadurecimento das duas personagens é, com efeito, perfeitamente observável na obra. Após erros e acertos em campo, Batman adota progressivamente a rigidez e disciplina que o caracterizam; Gordon, único elemento incorruptível da corporação, paga um preço alto pela sua integridade. A retidão de caráter é-lhes comum e, por isso, ambos se admiram mutuamente, antes mesmo de se conhecerem.
Se Batman é a figura heroica vista com ligeiro distanciamento por conta do luto e revolta que carrega desde a infância, Gordon é concebido como o homem comum que realiza o possível na medida das suas forças. O futuro Comissário é um herói falho, que trai a esposa grávida e sofre violência física e emocional por parte dos seus companheiros. Mas cujas boas intenções acabam por sobressair num quadro de absoluta amoralidade. Não é por acaso que Gordon é uma das personagens mais empáticas do imaginário do Cavaleiro das Trevas.
Outro aspeto positivo de Ano Um radica na ausência de qualquer representante da burlesca galeria de vilões do Batman. Desse modo fica claro que, nos primórdios da sua carreira heroica, o Homem-Morcego tinha como principais inimigos a sua consciência e uma sociedade profundamente corrupta. Não obstante, futuros antagonistas, como Harvey Dent (Duas-Caras) e Selina Kyle (Mulher-Gato), são introduzidos de forma brilhante.
Ano Um é, sem margem para dúvidas, uma das melhores histórias do Batman e uma obra-prima da 9ª Arte. É também um tratado sobre como (re)contar histórias tão grandiosas e imorredouras como o herói que as protagoniza. Ditando a mais elementar justiça que esse mérito seja dividido, em partes iguais, pelos seus autores. Frank Miller e David Mazzucchelli foram os homens certos no tempo certo.

Dois homens e um destino.


*Este blogue tem como Guia de Estilo o Acordo Ortográfico de 1990 aplicado à variante europeia da Língua Portuguesa;
**Artigos sobre A Queda de Murdock, Zero Hora, Dennis O'Neil, Crise nas Infinitas Terras e Bill Finger disponíveis para leitura complementar.




07 abril 2020

HERÓIS EM AÇÃO: ARQUEIRO VERDE



  Inspirado pelo seu herói de infância - o lendário Robin Hood -, um caçador urbano de pontaria infalível distribui justiça na ponta de cada flecha. Os seus alvos: o crime organizado, a corrupção política e um sistema forte com os fracos e fraco com os fortes.

Denominação original: Green Arrow 
Editora: Detective Comics (DC)
Criadores: Mort Weisinger (história) e George Papp (arte conceptual)
Estreia: More Fun Comics nº73 (novembro de 1941)
Identidade civil: Oliver Jonas "Ollie" Queen
Espécie: Humano
Local de nascimento: Star City, Califórnia
Parentes conhecidos: Robert e Moira Queen (pais, falecidos); Dinah Lance / Canário Negro (ex-cônjuge); Connor Hawke/ Arqueiro Verde II (filho); Robert (filho); Roy Harper / Ricardito (filho adotivo); 
Ocupação: Empresário, filantropo, aventureiro, vigilante, ativista ambiental e ex-mayor de Star City.
Base operacional: Star City (anteriormente, Seattle)
Afiliações: Ex-parceiro de Ricardito/Arsenal; ex-parceiro da Canário Negro; ex-parceiro do Lanterna Verde Hal Jordan; ex-membro da Liga da Justiça e dos Renegados, lidera atualmente a Equipa Flecha e as Indústrias Queen.
Némesis: Malcom Merlyn 
Poderes e parafernália: Oliver Queen é um mestre arqueiro de gabarito mundial; muito provavelmente, o melhor da história da modalidade. Além da sua pontaria virtualmente infalível, há registo de outras proezas extraordinárias. Disparar flechas à razão de 29 por segundo ou atingir com precisão cirúrgica alvos tão minúsculos como uma gota de água a sair da torneira encabeçam a lista. Outra das suas especialidades consiste em neutralizar armas de fogo atirando flechas para o interior dos respetivos canos.
Impressionados por essas e outras façanhas, os seus colegas da Liga da Justiça começaram a suspeitar que Ollie seria na verdade um meta-humano. Também o Departamento de Operações Extranormais, a agência federal americana responsável pela monitorização de atividades meta-humanas, coligiu um ficheiro confidencial acerca do Arqueiro Esmeralda. As conclusões da investigação permanecem, todavia, no segredo dos deuses.
Até prova em contrário, as habilidades inatas de Ollie no manejo do arco e flecha foram sublimadas graças ao treino intenso e à rigorosa disciplina. Não resultando, portanto, de qualquer vantagem biológica ou superpoder latente.
Se o arco funciona quase como uma extensão natural do corpo de Ollie, a sua proficiência com outro tipo de armas não é menos notável. Quando dispara uma metralhadora, por exemplo, a precisão do seu tiro é irrepreensível ao ponto de rivalizar com a do próprio Pistoleiro (conhecido por nunca falhar o alvo).

O Arqueiro Verde é capaz de proezas sobre-humanas.
Mas será ele um superser?
Da tradicional parafernália do Arqueiro Verde fazem parte arcos simples ou compostos (que lhe possibilitam disparar múltiplas setas em simultâneo) e uma aljava onde transporta flechas padrão e/ou especiais. De entre estas, a mais icónica é, sem dúvida, a flecha luva de boxe, usada para esmurrar adversários à distância. A gama com funções especiais inclui ainda, entre muitos outros itens, flechas-boleadeiras, flechas-rede, flechas-gancho, flechas com ponta explosiva e até uma flecha de kryptonita especificamente concebida para derrubar kryptonianos. A fim de contrariar a sua dependência relativamente às flechas especiais, com o tempo Ollie foi privilegiando cada vez mais a utilização das flechas simples.
Revestida com uma fina cota metálica, a túnica do Arqueiro Verde garante-lhe proteção eficaz contra esfaqueamentos e disparos de armas de pequeno calibre, evitando a perfuração de órgãos vitais. Em versões mais recentes do seu uniforme, a discreta mascarilha foi substituída por um sofisticado par de óculos com lentes infravermelhas para visão noturna.

Flechas especiais para alvos especiais.
No período pré-Crise, o Arqueiro Verde, à semelhança do Batman, dispunha de uma frota de veículos temáticos. Nela pontificava o lendário Flechamóvel (Arrowcar, no original), um carro com várias modificações, como assentos reclináveis capazes de catapultar os seus ocupantes. À medida que as histórias do Arqueiro Esmeralda iam adquirindo contornos menos pueris, esse envoltório espampanante foi desaparecendo. Por estes dias, o defensor de Star City e seus aliados da Equipa Flecha preferem deslocar-se em potentes motociclos.
Com vastos recursos financeiros ao dispor, quando decidiu abraçar uma carreira como vigilante urbano Oliver Queen contratou os melhores mestres de artes marciais que o dinheiro podia comprar, sendo por isso exímio no combate corpo a corpo. Anos de treino físico intenso fizeram dele um atleta de nível olímpico e um acrobata fora de série. É comum ver o Arqueiro Verde, epítome da sincronia, disparar flechas ao mesmo tempo que executa saltos impossíveis sem nunca falhar o alvo.
O Arqueiro Verde é, ademais, um talentoso e obstinado caçador. Na floresta ou na selva de betão, consegue facilmente seguir o rasto das suas presas por mais esquivas que estas sejam. E não se deterá perante nada, pois extrai grande prazer da caçada.

A Equipa Flecha catapultada para nova aventura.
Fraquezas: Carismático, sedutor e com o porte garboso de um cavaleiro andante, Oliver Queen é um colecionador de aventuras galantes. Mulheres bonitas são, comprovadamente, um dos seus pontos fracos. Vicissitude que o torna permeável aos ardis de qualquer femme fatale. Shado, assassina da Yakuza e ex-aliada do Arqueiro Verde, violou-o quando ele se encontrava delirante, concebendo assim um filho dele, Robert.
A atávica promiscuidade de Ollie já lhe valeu numerosos dissabores tanto no plano profissional como  no pessoal. Recorde-se, a este propósito, que foi por causa dela que o seu casamento com Dinah Lance chegou ao fim. Certos comportamentos de Ollie sugerem mesmo que poderá ser viciado em sexo.
Se a luxúria é o pecado capital de Oliver Queen, o álcool parece ser a sua serpente tentadora. Quando deprimido, Ollie tende a consumi-lo como se de alento líquido se tratasse. Um mau hábito que remonta aos seus tempos de juventude, quando, para fugir ao tédio da sua vida de playboy, se embriagava e se entregava a todo o tipo de excessos.
Conhecido por ferver em pouca água, Ollie age frequentemente por impulso. Com preocupante frequência coloca-se em situações perigosas em nome de uma boa causa. O caso mais extremo foi quando, indiferente aos apelos do Super-Homem, se martirizou para salvar Metrópolis de um ataque biológico planeado por ecoterroristas.

A morte (temporária) do Arqueiro Verde foi
 um dos momentos mais marcantes da década de 90.

De Batman genérico...

Receando a erosão dos seus campeões de vendas, em finais de 1941 a DC começou a procurar alternativas a Batman e Super-Homem. Se a este último a Mulher-Maravilha, apresentada em outubro desse ano, serviu de contraparte feminina, no caso do Cavaleiro das Trevas houve necessidade de desenvolver um conceito genérico com os atributos do original. À época editor dos títulos do Homem de Aço, Mort Weisinger chamou a si essa tarefa, na qual seria assistido por George Papp, cocriador de Congo Bill.
Sugestivamente crismado de Arqueiro Verde, o néofito fez a sua primeira aparição em More Fun Comics nº73, volume datado de novembro de 1941. Segundo consta - a par da óbvia influência de Robin Hood -, Green Archer, adaptação cinematográfica do romance homónimo de Edgar Wallace, terá sido a principal fonte de inspiração de Weisinger.


Mort Weisinger (cima) e George Papp ,
os criadores do Arqueiro Verde.

Da amálgama desses dois conceitos resultou um vigilante mascarado que, descontando o aspeto visual, foi totalmente decalcado do Batman. Senão vejamos: ambos tinham playboys milionários como alter egos (Bruce Wayne e Oliver Queen); ambos eram acolitados por adolescentes (Robin e Ricardito); ambos se faziam transportar em veículos temáticos (Batmóvel e Flechamóvel); ambos eram convocados através de sinais luminosos projetados no céu noturno (Bat-sinal e Sinal-flecha); ambos usavam cavernas secretas localizadas no subsolo das respetivas mansões (Batcaverna e Caverna da Flecha) e, como se tudo isso não bastasse, ambos tinham palhaços assassinos como arqui-inimigos (Joker e Bull's Eye).
Usados inicialmente para preencher o alinhamento de More Fun Comics, Arqueiro Verde e Ricardito precisaram apenas de quatro meses para destronar Espectro e Senhor Destino como astros principais dessa mítica série mensal da Idade de Ouro. Contudo, alguns historiadores da 9ª Arte atribuem mais essa proeza a Ricardito do que propriamente ao seu mentor.
Sidekicks juvenis eram, por aqueles dias, extremamente apelativos para o público do mesmo segmento etário, facto que ajuda a sustentar essa tese. Se levarmos em consideração que o grosso da audiência das historietas de super-heróis era composto por crianças e adolescentes, facilmente se percebe que Ricardito, tal como Robin antes dele, terá sido um engodo eficaz para atrair os leitores mais jovens.

De convidados, Arqueiro Verde e Ricardito
 rapidamente fizeram de More Fun Comics a sua casa.
Os fãs da Equipa Flecha (outra analogia com a Dupla Dinâmica) tiveram, porém, de esperar quase dois anos para ficarem a conhecer a origem dos seus ídolos. Em março de 1943, More Fun Comics nº89 levantou finalmente o véu que cobria o passado de Arqueiro Verde e Ricardito.
Na história em questão, saída da pena de Joseph Samachson (curiosamente, um ex-escriba de Batman), Oliver Queen era apresentado como um antropólogo fascinado pela cultura nativa americana a viver tranquilamente numa reserva indígena. Um belo dia, quando realizava uma exploração arqueológica, descobrira acidentalmente uma mina de ouro abandonada.
Após ter sobrevivido a um sequestro motivado por essa descoberta, Oliver adotou um pequeno órfão chamado Roy Harper, que se tornaria seu fiel escudeiro numa cruzada contra o crime financiada pela sua recém-adquirida fortuna. Movia-os no entanto mais a adrenalina do que o sentimento de dever.

Green Arrow - More Fun Comics #89
More Fun Comics nº89 revelou a origem do Arqueiro Esmeralda,
muito diferente daquela que hoje conhecemos.
Sem embargo para a sua longevidade nos quadradinhos, o Arqueiro Verde nunca deixou de ser um simples vigilante urbano. Enquanto Batman enfrentava supervilões com cada vez maior frequência, o Robin Hood de Star City continuava a limpar as ruas da sua cidade de bandidos comuns, distribuindo justiça na ponta de cada flecha disparada.
Apesar de nunca ter alcançado os níveis de notoriedade de alguns dos seus contemporâneos, o Arqueiro Verde logrou a proeza de sobreviver-lhes. Foi, de resto, uma das raras personagens da Idade de Ouro a escapar incólume à sangria editorial motivada pelo declínio dos comics no pós-guerra, bem como às subsequentes releituras a que, anos depois, seriam sujeitos outros heróis clássicos, como Flash, Lanterna Verde ou Átomo.
Mais uma vez, essa circunstância não ficou a dever-se ao mérito da personagem, mas sim à influência do seu criador. Mort Weisinger manteve o Arqueiro Verde no alinhamento de More Fun Comics, primeiro, e no de Adventure Comics, depois. Ambos os títulos eram agora estrelados por Superboy, que funcionava como uma espécie de seguro de vida para qualquer personagem a ele associada. Associação que seria reforçada quando, em 1959, uma história dada à estampa em Adventure Comics nº 259 revisitava o encontro entre o jovem Oliver Queen e o Rapaz de Aço, assim transformados em velhos amigos.
A viragem da década de 1960 traria, porém, profundas transformações na vida do Arqueiro Verde. Após tantos anos a viver à sombra do Batman, Oliver Queen, agora impelido pelo ativismo social, pôde finalmente rasgar novos caminhos, assumindo uma trajetória divergente em relação ao Cavaleiro das Trevas.

...a justiceiro social.

Esse ponto de viragem aconteceria em 1969, quando Neal Adams vestiu o Arqueiro Verde com um uniforme da sua autoria acrescentando-lhe um cavanhaque que se tornaria outra das suas imagens de marca. Porém, nem sempre o hábito faz o monge. Mais importante do que essa transformação visual foi, sem dúvida, a radical alteração da personalidade do herói.
Sob a batuta de Dennis O'Neil, escritor engajado com as causas de esquerda, Oliver Queen, nascido em berço de ouro, assumiria o papel de porta-voz dos mais desfavorecidos. O vigilante urbano evoluía assim para um justiceiro social, e o Arqueiro Verde demarcava-se finalmente do Batman.

O novo visual do Arqueiro Verde (aqui recriado por García-López)
foi apresentado em The Brave and the Bold nº85 (setembro de 1969).
Nessa sua nova encarnação, Oliver Queen era o herdeiro de um poderoso conglomerado empresarial, as Indústrias Queen, que tinha Robin Hood como ídolo de infância. Antes do acidente que lhe mudaria a vida para sempre, Ollie vivia insulado numa bolha de privilégio, tendo como único propósito divertir-se.
Tudo mudaria quando, em mais uma noite de farra a bordo do seu iate, Oliver caiu ao mar acabando por dar à costa numa ilha deserta ao largo da Califórnia onde permaneceria vários anos. Essa temporada longe da civilização aguçou-lhe o engenho na sobrevivência e a destreza inata no manejo do arco e da flecha. Mas fê-lo sobretudo colocar as coisas em perspetiva. Apesar da sua existência solitária, Ollie sentia-se mais feliz do que nunca.
Quando, por fim, conseguiu sair da ilha e regressar a Star City, Oliver Queen tinha abraçado uma missão sagrada: combater a corrupção e a injustiça que enquistavam a sua cidade. E decidiu fazê-lo à imagem e semelhança de Robin Hood, embora sem a parte de roubar aos ricos para dar aos pobres. Classe social da qual ele próprio viria a fazer parte quando as manigâncias de um sócio inescrupuloso o espoliaram da sua fortuna. Em consequência desse revés, Oliver desenvolveu uma aguda consciência social que lhe afinaria ainda mais a pontaria.
Entretanto, o Arqueiro Verde ganhara um novo némesis: Malcom Merlyn (vulgo Arqueiro Negro) provou ser um desafio à altura dos talentos de Oliver Queen. A renhida disputa entre ambos pelo título de mestre arqueiro supremo prossegue até hoje.
Malcolm Merlyn (Prime Earth) | DC Database | Fandom
Um rival de pontaria implacável.
Emparelhado com o Lanterna Verde Hal Jordan numa fracassada tentativa de suster o declínio de vendas da série mensal do Gladiador Esmeralda, em 1970 o Arqueiro Verde coprotagonizou uma breve, porém aclamada, fase pautada pelas preocupações sociais.
Em digressão pela América profunda, os dois heróis de personalidades assimétricas testemunhavam de perto alguns dos maiores problemas que, tal como no mundo real, os EUA enfrentavam por aqueles dias: racismo, corrupção, poluição ambiental e um crescente sentimento antiguerra motivado pelo eternizar do conflito no Vietname.
Embora acusasse o seu compagnon de route de alheamento em relação a essas questões mundanas, seria o Arqueiro Verde a ser surpreendido pela toxicodependência de Roy Harper. De tão absorvido pela sua cruzada quixotesca, Oliver Queen não vira o que se passava bem debaixo do seu nariz.
Publicada nos números 85 e 86 de Green Lantern, a história, ainda com assinatura da dupla Adams/ O'Neil, marcou o fim da inocência dos super-heróis e alertou os leitores para o flagelo social representado pelo consumo de drogas. Em reconhecimento pelo serviço público prestado, o mayor de Nova Iorque louvou os autores numa carta aberta.

Green Lantern Vol 2 85 | DC Database | Fandom
A chocante revelação que abalou as convicções do Arqueiro Verde.
Anos mais tarde, seria o próprio Oliver Queen a fazer-se eleger mayor de Star City, duplicando dessa forma o serviço prestado à comunidade. Enquanto o Arqueiro Verde ajudava a reduzir os índices de criminalidade na cidade, Ollie empenhava-se em varrer a corrupção dos corredores do poder. Conquanto fugaz e de viés demagógico, a sua carreira política permitiu-lhe testar os anticorpos do status quo dominando pelos ricos e poderosos.
Na continuidade emanada de Crise nas Infinitas Terras, Oliver Queen trocou a sua ensolarada Star City natal pela chuvosa e distante Seattle. Fê-lo na companhia da Canário Negro, aliada e amante de longa de data, com quem sonhava constituir família. No entanto, o destino brindaria o casal com núpcias trágicas, abrindo caminho à sua separação.
Nesse trepidante fase assinada por Mike Grell, as histórias do Arqueiro Esmeralda ganharam uma atmosfera mais sombria e violenta. Refletindo essa mudança de registo, o herói sofreu nova transformação visual: o tradicional chapéu à Robin Hood foi substituído por um capuz que lhe cobria parcialmente as feições e as cores do seu traje foram ligeiramente escurecidas. O justiceiro social idealista cedia assim lugar ao implacável caçador urbano.

Arqueiro Verde e Canário Negro
 tiveram um amargo recomeço em Seattle.
A década de 1990 ficou marcada pela conversão de Oliver Queen ao ativismo ambiental. Cada vez mais radicalizado na defesa dessa causa, o Arqueiro Verde deixou-se seduzir pela perversa líder de um grupo ecoterrorista que planeava a destruição de Metrópolis. Ao tomar consciência das reais intenções dos seus aliados, Ollie sacrificou a própria vida para salvar a Cidade do Amanhã.
Após a morte de Ollie, coube ao seu filho, Connor Hawke (fruto de uma relação extraconjugal), assumir o legado do Arqueiro Verde. Ollie seria no entanto ressuscitado pelo seu velho amigo Hal Jordan, à época avatar do todo-poderoso Espectro.
Tal como o restante panteão da Editora das Lendas, o Arqueiro Verde teve a sua origem revisitada no contexto dos Novos 52. Naquele que foi o penúltimo reboot do Universo DC, Oliver Queen descobriu que a sua passagem pela ilha fizera parte de um rebuscado plano do seu pai que objetivava prepará-lo para lhe suceder na liderança do Clã da Flecha - um dos ramos dos Renegados, organização ancestral à qual pertencia também a sua meia-irmã Emiko Queen (outra novidade introduzida nessa fase).
Ao longo da sua vetusta carreira heroica, o Arqueiro Verde assumir-se-ia também como a bússola moral da Liga da Justiça. Sempre que os seus companheiros se focavam em demasia nas ameaças cósmicas ou extradimensionais, ele lá estava para lhes lembrar que a defesa do cidadão comum era a sua missão mais importante. Sendo por esse princípio cardeal que o Arqueiro Esmeralda rege até hoje a sua conduta.  Sem nunca deixar de contestar um sistema forte com os fracos mas fraco com os fortes. Ou não fosse ele o último dos heróis românticos que matizam o mundo com as cores garridas do seu idealismo mais ou menos inconsequente.

Jose Luis Garcia Lopez
O Arqueiro Verde foi o primeiro membro não-fundador a ser admitido na Liga da Justiça,
e a sua espessura moral fez dele a consciência da equipa.

Miscelânea

*Durante a Idade de Ouro, o Arqueiro Verde não usava o seu icónico cavanhaque e surgia ocasionalmente com cabelo castanho, em vez da tradicional trunfa loira. Quando, no início dos anos 1980, Roy Thomas reviveu a lendária série All-Star Comics, recuperou essa característica para diferenciar o herói da Terra-2 do seu homólogo da Terra-1. No entanto, aquando da sua morte em Crise nas Infinitas Terras, o Arqueiro Verde clássico exibia novamente o seu visual loiro;
*Num dos muitos paralelismos com a Dupla Dinâmica, nos primórdios das suas carreiras como vigilantes de Star City Arqueiro Verde e Ricardito colecionavam troféus das suas aventuras. Armas, artefactos místicos e uma variedade de outras relíquias compunham a memorabilia que ornamentava a caverna secreta que lhes servia de quartel-general;
*Speedy no original, o imberbe protegido do Arqueiro Esmeralda foi insolitamente batizado de Ricardito no Brasil, pela EBAL. Essa nomenclatura seria preservada pela Abril levando assim à sua consagração editorial em Terras de Vera Cruz. Speedy é, no entanto, a palavra inglesa para "rápido", "veloz" ou, numa tradução mais livre, "ligeirinho". Roy Harper ganhou essa alcunha logo na sua primeira aparição, quando a rapidez com que se esquivava dos golpes levou um dos malfeitores que enfrentava a apelidá-lo dessa forma;
1209 Best Legion images | Legion of superheroes, Superhero, Hero
O eterno Ricardito. 
*Arqueiro Esmeralda, Ás do Arco e Arqueiro de Batalha são os cognomes associados à persona heroica de Oliver Queen;
*O Arqueiro Verde mantém uma relação crispada com o Gavião Negro, seu antigo colega de equipa na Liga da Justiça. Na origem dessa animosidade mútua estão as suas inconciliáveis mundivisões (o primeiro alinha com a esquerda panfletária, o segundo com a direita mais radical), mas também a circunstância de o Gavião Negro ter sugerido a execução sumária do Doutor Luz em Crise de Identidade;
*A morte do Arqueiro Verde na explosão de um avião referencia a realidade alternativa de Batman - O Regresso do Cavaleiro das Trevas. Na saga de Frank Miller, uma versão amarga e envelhecida de Oliver Queen alimenta um ódio de estimação pelo Super-Homem, devido a um incidente não especificado que lhe custou um braço;
*Canário Negro foi consagrada como interesse romântico do Arqueiro Verde em resposta às insinuações maliciosas sobre uma pretensa relação homossexual entre Oliver Queen e Roy Harper. Tal como a Dupla Dinâmica, a Equipa Flecha foi vítima da campanha difamatória de Fredric Wertham, o psiquiatra germânico que odiava super-heróis, e que na sua obra Sedução dos Inocentes  (1954) os acusava de promoverem a delinquência juvenil, a pederastia e toda a sorte de comportamentos desviantes;

Nem tudo foram rosas na relação entre o Arqueiro Verde e Canário Negro.
*Apesar da sua relutância no que concerne ao uso de força letal, o Arqueiro Verde contabiliza oficialmente 17 mortes no seu currículo. Prometeus, o vilão responsável pela morte da filha bebé de Roy Harper, foi uma das suas vítimas mortais. Ficando, porém, implícito que essa estatística pecará por defeito;
*As indesmentíveis semelhanças físicas entre o Arqueiro Verde e Guerreiro (Warlord, criação de Mike Grell) já motivaram todo o tipo de paródias e equívocos. Certa vez, durante a sua passagem por Seattle, o Guerreiro foi alvo de vários ataques ao ser confundido com o Arqueiro Verde pelos criminosos locais;

O gémeo perdido de Oliver Queen?
*Oliver Queen partilha com Dinah Lance o mesmo tipo de sangue raro. Quando a Canário Negro foi severamente ferida numa emboscada em Seattle, uma transfusão do seu parceiro salvou-lhe a vida;
*Desde 2011 que o Arqueiro Verde ocupa um honroso 30º lugar no Top dos 100 Melhores Super-heróis dos Quadradinhos organizado pelo site IGN - 14 posições acima do seu émulo da Casa das Ideias, o Gavião Arqueiro;
*Conhecido pelos seus apurados dotes culinários, Oliver Queen confeciona o chili mais picante do mundo. Consta que, de tão condimentado, até o próprio Super-Homem tem dificuldade em comê-lo;
*Antes da sua participação em Justice League Unlimited (2004-06), o Arqueiro Verde era pouco conhecido do grande público. A sua transição para o segmento audiovisual remonta no entanto a 1973, quando marcou presença num único episódio da série animada Super Friends. No ar entre 2006 e 2007, a sexta temporada de Smallville assinalou a estreia de Oliver Queen em ação real e foi o seu passaporte para a ribalta. Justin Hartley emprestou corpo ao Arqueiro Esmeralda, que se tornaria personagem recorrente nas restantes temporadas da série. De tão meritório, o desempenho de Hartley levou os produtores a cogitarem um spin-off. Projeto que só em 2012 se tornaria realidade, embora num formato diferente. Com Stephen Amell como protagonista, Arrow provou-se um fenómeno de longevidade televisiva ao mesmo tempo que lançava as bases para o chamado Arrowverse, espécie de tubo de ensaio para o universo compartilhado da DC.

Green Arrow V.S. Green Arrow | DC Entertainment Amino
Justin Hartley (esq.) precedeu Stephen Amell no papel
de Arqueiro Esmeralda.


* Este blogue tem como Guia de Estilo o Acordo Ortográfico de 1990 aplicado à norma europeia da Língua Portuguesa.
** Artigos sobre Dennis O'Neil, Neal Adams e Crise de Identidade disponíveis para leitura complementar.










06 março 2020

ETERNOS: STEVE DITKO (1927-2018)


   Foi um dos virtuosos arquitetos da Casa das Ideias, mas bateu com a porta quando esta se provou acanhada para as suas convicções. Esquivo como uma sombra de vidro, esculpia totens da cultura popular com o implacável cinzel do Objetivismo. 

Quando, em 2007, o popular apresentador televisivo britânico Jonathan Ross se propôs realizar um documentário sobre Steve Ditko para a BBC Four, sabia que teria de perseguir um fantasma arisco. Avesso a entrevistas (a última remontava a 1968) e aparições públicas, o lendário cocriador do Homem-Aranha e do Doutor Estranho vivia há anos em reclusão voluntária. Qualquer jornalista, fã ou simples curioso que pisasse a soleira da sua porta era, ademais, prontamente enxotado. Nada disso desencorajou, porém, Ross de tentar a sua sorte, confiante que esta tende a bafejar os audazes.
Ao cabo de meses de aturada investigação, Ross localizou finalmente o seu alvo num anónimo edifício de escritórios nova-iorquino. Escoltado pelo seu compatriota Neil Gaiman (outro assumido admirador da obra de Ditko), conseguiu um breve, porém cordial, tête-à-tête com o velho mestre da Arte Sequencial, no seu modesto estúdio.
O que nesse encontro foi discutido permanece até hoje no segredo dos deuses. Fiel aos seus rígidos princípios, Ditko não autorizou a gravação do mesmo e tudo indica que terá exigido máxima discrição aos seus visitantes. Mas nem por isso Ross voltou para casa de mãos vazias. Do ex-parceiro criativo de Stan Lee e Jack Kirby recebeu uma seleção de histórias da sua autoria. Resumindo-se a essa inesperada oferenda o contributo de Ditko para um projeto que, à semelhança de tantos outros, o teria como protagonista omisso.
Uma vez mais, era por meio da sua exuberante obra que Steve Ditko, o eremita, comunicava com o mundo. O homem por trás do artista genial e do filósofo espontâneo, esse, permaneceria um enigma.
Apontado como uma referência no género, o documentário de Ross - apropriadamente intitulado In Search of Steve Ditko (À procura de Steve Ditko) - falhou, previsivelmente, em decifrar o biografado.

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Jonathan Ross, autor do documentário À Procura de Steve Ditko.
A despeito de ter colocado um pouco de si em todas as suas criações - mesmo aquelas alcandoradas a ícones globais - Ditko será para sempre um livro proibido trancado a sete chaves numa biblioteca secreta a que quase ninguém teve acesso. Passagens avulsas, quase sempre encriptadas, foi tudo o que ele alguma vez nos permitiu ler.
Aqui ficam algumas delas, na certeza de que, tal como o próprio Ditko, personagem desconcertante,  suscitarão numerosas interpretações.
Stephen John Ditko Jr. nasceu a 2 de novembro de 1927 em Johnstown, pequena cidade industrial no estado da Pensilvânia martirizada ao longo da sua história por violentas cheias. Segundo filho de uma ninhada de quatro de um humilde casal de imigrantes originários da antiga Checoslováquia - ele mestre carpinteiro numa fábrica de aço local, ela dona de casa - do pai herdou o nome e a paixão pelas histórias aos quadradinhos. Às quais foi apresentado através das tiras do Príncipe Valente à época publicadas nos jornais. Batman e The Spirit seriam, no entanto, os verdadeiros catalisadores do fascínio do pequeno Steve Ditko em relação à 9ª Arte.
A passagem de Ditko pelo liceu coincidiu com a entrada dos EUA na II Guerra Mundial. No auge do conflito, participava no Clube de Ciências e num outro que fabricava modelos em madeira de aviões alemães para serem utilizados nos treinos de observadores aéreos.
Concluído o secundário, em 1945 Ditko alistou-se no Exército, sendo destacado no ano seguinte para a Alemanha sob ocupação aliada, onde o seu talento artístico lhe rendeu o posto de ilustrador num jornal castrense. Durante essa temporada longe de casa, produziu também uma banda desenhada que enviava todos os meses para um dos seus irmãos.

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Postal ilustrado da cidade natal de Steve Ditko e o mestre nos seus tempos de juventude.
De regresso à vida civil e aos EUA, em 1950 Steve Ditko matriculou-se na Cartoonists and Illustrators School (atualmente conhecida como School of Visual Arts), em Nova Iorque. Jerry Robinson, pupilo de Bob Kane e cocriador do Menino-Prodígio, foi o professor que mais influenciou o seu estilo e a sua vontade de abraçar uma carreira como desenhador profissional.
Com Eric Stanton, seu colega de turma e futuro artista e fotógrafo fetichista, Ditko cunharia amizade para a vida. Entre 1958 e 1968, os dois partilharam um estúdio em Manhattan e, ao que consta, ter-se-ão assistido mutuamente nos seus trabalhos (algo que ambos sempre negaram). Stanton terá sido, de resto, uma das raras pessoas que terão conhecido o homem por trás da lenda. Mas também ele levou esse segredo para o túmulo.
Em finais de 1953, então com 26 anos, Steve Ditko conseguiu o seu primeiro trabalho profissional ao ser contratado pela Key Publications para ilustrar um conto de terror intitulado Stretching Things. A história em questão seria, contudo, vendida à Ajax-Farrell, que a publicou em Fantastic Fears nº5.´

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Fantastic Fears nº5  (1954) apadrinhou
 a estreia profissional de Steve Ditko.
Ansioso por fazer parte da indústria dos comics, poucos meses depois Ditko reforçaria o staff do estúdio Crestwood dirigido por Joe Simon e Jack Kirby, a ex-dupla maravilha da Timely. A principal função de Ditko consistia em arte-finalizar os esboços de Mort Meskin, um dos mais talentosos e respeitados artistas da Idade de Ouro.
Quase sem tempo para aquecer o lugar, no trimestre seguinte Ditko migrou para a Charlton Comics. O ano de 1954 marcou, assim, o início da sua longa, porém intermitente, ligação à editora sediada no Connecticut. Que compensava as modestas remunerações com as amplas liberdades criativas concedidas aos seus colaboradores. Prerrogativa que contribuiu sobremodo para o florescimento artístico de Ditko, que por lá viveu uma das suas fases mais prolíficas.
Em menos de um ano, Ditko desenhou 170 páginas e 19 capas para a Charlton. Feito ainda mais notável se levarmos em conta que essa produção frenética coincidiu com um diagnóstico de tuberculose.
Sob os cuidados da mãe, Ditko restabeleceu-se em tempo recorde e, logo no início de 1955, estava pronto para voltar à liça. Contudo, durante a sua convalescença um furacão arrasara as instalações da Charlton. Novamente saudável mas sem emprego, no ano seguinte Ditko bateu à porta da Atlas Comics (sucessora da Timely e antecessora da Marvel), para a qual começou então a desenhar contos de terror publicados em títulos emblemáticos da editora, como Journey into Mystery ou World of Suspense. Dada a sua experiência prévia em histórias desse género, Ditko sentiu-se como peixe na água e depressa se tornou um dos artistas mais requisitados da companhia.
Em 1957, com a crise instalada na indústria dos comics, a Atlas foi forçada a dispensar a maior parte dos seus colaboradores. Ditko não escapou à razia mas teve a ventura de encontrar abrigo na rediviva Charlton. Nessa sua segunda passagem por uma casa que tão bem conhecia, dividiu com o escritor Joe Gill os créditos da criação do Capitão Átomo, herói espacial apresentado ao mundo em março de 1960, no 33º número de Space Adventures.
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Capitão Átomo, o primeiro super-herói criado por Steve Ditko.
Durante essa fase, Ditko desdobrava-se incansavelmente entre a Charlton e a Marvel, à qual aceitara regressar logo em 1958 e onde tinha agora como parceiro criativo Stan Lee. As sofisticadas histórias de suspense da autoria de ambos eram extremamente apreciadas pelos leitores e tinham dado novo elã a títulos clássicos como Strange Tales, Tales to Astonish ou Amazing Fantasy. Incidindo sobre este último a escolha do presidente executivo da Casa das Ideias, Martin Goodman, para acolher um novo super-herói.
Assistia-se, desde meados da década de 50, ao renascimento do género super-heroico e a Marvel teria uma palavra a dizer.  Com Stan Lee e Jack Kirby, Steve Ditko seria o terceiro vértice do triângulo de visionários que reinventaram os super-heróis. Revolução posta em marcha com o Quarteto Fantástico, em 1961, e que prosseguiria agora com a irreverência de um certo Escalador de Paredes.
O Sensacional Homem-Aranha fez a sua vibrante estreia em agosto de 1962, nas páginas de Amazing Fantasy nº15, e logo prendeu os leitores na sua teia. A ideia de apresentar o primeiro super-herói adolescente emancipado da tutela de um adulto partiu de Stan Lee. Tanto a conceção visual da personagem como boa parte da sua caracterização psicológica ficaram, todavia, por conta de Steve Ditko. Que projetou vários traços da sua personalidade no alter ego do herói.
Da aparência franzina ao isolamento social decorrente de uma timidez superlativa, Peter Parker era praticamente um autorretrato de Ditko. A identificação do público nerd com o Homem-Aranha foi instantânea fazendo-o atingir níveis estratosféricos de popularidade apenas comparáveis aos do Super-Homem e Batman.
Diversos dos elementos que compõem o imaginário do Escalador de Paredes, como os lançadores de teias ou o sentido de aranha, tiveram igualmente assinatura de Ditko. O mesmo se podendo dizer acerca dos principais antagonistas do herói, com o Duende Verde à cabeça.
Tudo isto só foi possível graças à aplicação extrema do famoso Método Marvel. A partir de uma sinopse de Stan Lee, Ditko narrava as histórias visualmente cabendo depois ao seu parceiro escrever os respetivos diálogos. Donde a dificuldade em atribuir a cada um deles uma quota-parte na criação do Homem-Aranha.

A partir de uma ideia de Stan Lee,
Ditko criou um dos mais icónicos super-heróis de todos os tempos.
Mesmo depois de ter visto reconhecido o seu estatuto de coautor do Escalador de Paredes, Ditko nunca escondeu o seu desconforto com o facto de, durante demasiado tempo, Stan Lee ter reclamado sozinho os louros pela criação daquele que se tornaria o maior símbolo da Marvel e um totem da cultura popular. Vicissitudes que não se repetiriam aquando da criação do Doutor Estranho, conceito totalmente desenvolvido por Ditko para a Casa das Ideias.
Em julho de 1963, o Mago Supremo debutou em Tales of Suspense nº110 e desde logo ficou claro que as suas histórias transbordantes de visões abstratas e espirais de ectoplasma seriam um desafio à imaginação dos leitores. Outrora um brilhante cirurgião com ego obeso, Stephen Strange tivera as suas mãos incapacitadas após um violento acidente rodoviário. Na demanda por uma cura milagrosa, viajou para o Tibete onde encontrou o misterioso Ancião. Sob os auspícios deste, foi iniciado nas artes arcanas e, de regresso a Nova Iorque, assumiu a missão de defender a Terra de ameaças místicas e extradimensionais.
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As aventuras psicadélicas do Doutor Estranho.
O psicadelismo das histórias do Doutor Estranho atraiu a atenção de muitos estudantes universitários e da comunidade hippie que, por aqueles dias, formavam a vanguarda da revolução cultural em curso. Instalando-se entre esses grupos sociais a crença de que as viagens extradimensionais do herói eram uma alegoria para os efeitos do LSD ou de qualquer outro potente alucinogénio. Ditko foi, assim, tomado por um expoente da contracultura que procurava implantar-se. Ledo engano.
Steve Ditko não só não era consumidor de substâncias psicoativas como desprezava profundamente qualquer movimento de massas. Enformado pelos austeros preceitos do Objetivismo - corrente de pensamento que teve a filósofa russa Ayn Rand (1905-1982) como principal impulsionadora - Ditko acreditava que cada indivíduo deve travar apenas a sua própria guerra; uma guerra contra o relativismo moral e outros venenos das sociedade modernas.
À luz dos ensinamentos objetivistas, Ditko via o mundo a preto e branco, sem espaço para áreas cinzentas. Perante o seu olhar, era nítida a fronteira entre Bem e Mal. E poderá muito bem ter sido essa ortodoxia moral a precipitar a sua saída da Casa das Ideias, que assim ficou desfalcada de um dos seus virtuosos arquitetos.
Donos de personalidades contrastantes, Steve Ditko e Stan Lee concordavam apenas em discordar uma do outro. Se "conservador" era um termo lisonjeiro para descrever o primeiro, "liberal" era um adjetivo que assentava ao segundo como um fato feito por medida.
Ditko passara a imbuir os seus valores morais nas histórias do Homem-Aranha e do Doutor Estranho, e as diferenças criativas e ideológicas com Lee aprofundaram-se ao ponto dos dois deixarem de se falar.  Finalmente, em 1966, Ditko abandonou, sem motivo aparente, a Casa das Ideias.
Alguns oficiais do mesmo ofício da privança de ambos apontam, no entanto, uma razão mais prosaica para a zanga. Segundo eles, as divergências de Lee e Ditko acerca da identidade secreta do Duende Verde (revelada após longos meses de suspense) teria sido o verdadeiro pomo da discórdia. Lee escolheu Norman Osborn - pai do melhor amigo de Peter Parker - ao passo que Ditko preferia que o vilão fosse uma personagem aleatória. A visão de Lee acabaria por prevalecer e, em resposta, Ditko terá batido com a porta. Versão nunca confirmada ou desmentida por nenhum dos intervenientes.

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Terá sido a identidade secreta do Duende Verde
 a ditar a saída de Ditko da Casa das Ideias?
Certo é que os anos passados na Marvel corresponderam ao auge da carreira de Steve Ditko, como bem atestam os oito Alley Awards conquistados entre 1962 e 1965. Mas o mestre da Arte Sequencial tinha ainda muito para oferecer a uma panóplia de editoras. As décadas seguintes seriam, com efeito, pautadas pelo seu nomadismo ao mesmo tempo que reforçaria a sua reputação de libertário.
Novamente ao serviço da Charlton, Ditko reencontrou o "seu" Capitão Átomo e reabilitou o Besouro Azul (originalmente detido pela Fox Comics) antes de criar um avatar do Objetivismo. Introduzido em Blue Beetle nº1 (julho de 1967), o Questão era um anti-herói que servia de alter ego a Vic Sage, um obstinado jornalista especializado em expor casos de corrupção. Tal como seu criador, o Questão obedecia a um rígido código moral e era implacável para com os transgressores. Assumindo com frequência o papel de juiz, júri e executor para impor a sua justiça sem rosto.

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Justiça ou vingança?
Eis a Questão.
Malgrado o radicalismo dos seus métodos, o Questão provou ser uma versão amenizada do impiedoso Mr. A. Assim crismado em referência a um dos axiomas de Ayn Rand - "Um A é só um A." - era um cruel vigilante que aterrorizava criminosos nas páginas (a preto e branco, como o mundo em que se movia) do fanzine Witzend, com o qual Ditko aceitara colaborar.
Em comum com a sua contraparte da Charlton, o facto de Mr. A levar a cabo a sua cruzada no duplo papel de jornalista e campeão mascarado da Justiça. Ao mesmo tempo que expressava sem filtros as convicções filosóficas de Ditko, visto que as suas histórias semiclandestinas escapavam ao escrutínio prévio da Comic Code Authority. Da fusão das duas personagens nasceria, duas décadas mais tarde, o insano Rorschach, de Watchmen.

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O crime é uma doença, Mr. A a cura.
Em concomitância com o trabalho desenvolvido sob a égide da Charlton, Ditko colaborava à época com várias editoras menores, transitando por uma multitude de géneros. Warren Publishing, Dell Comics e Tower Comics foram algumas das beneficiárias do seu génio antes da sua surpreendente mudança para a DC, em 1968.
A meteórica passagem de Ditko pela arquirrival da Marvel ficou marcada pela criação de um dos mais bizarros super-heróis de sempre.  Ao visual garrido, o Rastejante (Creeper, no original) somava um insólito poder: uma risada capaz de infligir dor física. Tal como o questão e Mr. A, tinha como identidade civil um destemido repórter chamado Jack Ryder. Destoava, contudo, das anteriores criações de Ditko pela sua personalidade irracional com laivos psicóticos. Alguns historiadores da 9ª Arte identificam a influência do Joker na conceção do Rastejante. Que, apesar do apelo inicial, veria a sua série mensal cancelada ao fim de apenas meia dúzia de números.
Coincidindo com o pico da contestação social à guerra no Vietname, Steve Ditko criou pouco depois uma parelha de heróis com posições assimétricas relativamente ao conflito. Rapina e Columba (Hawk and Dove, em inglês) tinham ainda a particularidade de serem irmãos. Mas enquanto o primeiro se caracterizava pela belicosidade, o segundo era assumidamente pacifista. Dicotomia que refletia na perfeição as profundas divisões que a intervenção militar dos EUA naquele longínquo país asiático suscitavam na sociedade americana. Sendo, ademais, facilmente reconhecíveis as influências objetivistas de Rapina, com cujas posições Ditko claramente se identificava.
Ditko seria no entanto obrigado a abandonar Rapina e Columba ao fim de apenas dois números, por motivos de saúde. A tuberculose que, na década anterior, lhe refreara o ímpeto criativo voltava a tolher-lhe o corpo e o espírito.

The Creeper by Steve Ditko

Duas séries da DC com a assinatura de Steve Ditko
 tiveram existência efémera.
Ditko recuperaria a saúde mas não o fulgor profissional de outrora. Ao longo das décadas seguintes, à medida que principiava a sua quarentena social autoimposta, deambularia por dezenas de editoras abraçando quase sempre projetos experimentais e de curta duração.
Ao serviço da DC, por exemplo, criou, em 1977 (ano do seu regresso), o Homem Mutável (Shade, The Changing Man), um herói alienígena com uma veste especial que lhe distorcia a aparência em função das emoções circundantes. Ditko tinha grandes planos para o néofito mas as dificuldades financeiras que a Editora das Lendas enfrentou a partir de 1978 obrigou ao cancelamento precoce da respetiva série.
Seria, porém, aquando da sua passagem pela defunta Pacific Comics que Ditko conceberia uma das suas mais desconcertantes e obscuras personagens. Com o improvável poder de desaparecer em pleno ar deixando para trás esboços cartunescos de si próprio, Missing Man é geralmente percecionado como uma representação caricatural do próprio Ditko. Cuja obra nimbada pela cintilante luz da genialidade encerra os únicos vestígios da sua passagem pelo mundo.

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Shade, o Homem Mutável.

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Missing Man. Uma caricatura de Ditko?
Solteiro inveterado e sem descendência biológica conhecida, não existe qualquer indício de uma ligação íntima de Ditko a qualquer outro ser humano. Will Eisner, seu velho compincha, declarou certa vez ter conhecido o filho de Ditko mas é quase certo que o terá confundido com um sobrinho.
De permeio, Ditko ensaiou repetidos regressos à Marvel. A cada um deles sentindo-se mais um fantasma que assombrava a Casa das Ideias que ajudara a pôr de pé e onde vivera alguns dos seus dias mais felizes.
Cada vez mais entrincheirado no seu fundamentalismo objetivista, sepultou velhas amizades (como aquela que o unia a Dick Giordano, que levara consigo para a DC) e recusou todo e qualquer projeto que colidisse com as suas ideias.
Cidadão mental de uma época distante, o presente afigurava-se a Ditko como uma distopia futurista. E por isso rejeitava o mundo moderno e tudo aquilo que ele tinha para oferecer. Nas suas histórias abundavam ainda personagens de chapéu e gabardina que pareciam saídas diretamente dos anos 1950.
Mesmo quando os trabalhos começaram a rarear e a subsistência era uma luta diária, Ditko recusou vender a arte original que lhe teria rendido boa maquia. Do mesmo modo que nunca reclamou um cêntimo dos lucros astronómicos gerados pelas adaptações do Homem-Aranha e do Doutor Estranho ao cinema. Fama e fortuna nada significavam para ele. A prová-lo, o facto de, em 1987, ter recusado o Comic-Con Inkpot Award com o qual fora distinguido à revelia.
No fatídico dia 29 de junho de 2018, em vésperas de cumprir o seu 91º aniversário, Steve Ditko foi encontrado sem vida pela Polícia no interior do seu modesto apartamento, em Nova Iorque. Curiosamente, poucos meses antes de também Stan Lee se despedir do mundo terreno.
No entanto, por contraste com a celeuma mediática em torno do óbito de Lee, a morte de Ditko pouco mais foi do que uma nota de rodapé na generalidade da imprensa.
Para a posteridade ficam as palavras pronunciadas numa das suas últimas entrevistas, concedida algures na década de 1960: "Steve Ditko é uma marca comercial. O meu trabalho é tudo o precisam conhecer sobre mim. É por ele que quero ser lembrado." O mundo fez-lhe a vontade.

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A criatura chora a morte do criador.

Agradecimento muito especial ao meu bom amigo Emerson Andrade, autor da montagem que abre este artigo, que espero estar à altura do seu talento e expectativas.

Nota 1: Este blogue tem como Guia de Estilo o Acordo Ortográfico de 1990 aplicado à norma europeia da Língua Portuguesa.
Nota 2: Artigos sobre a Timely Comics, Charlton Comics e Homem-Aranha disponíveis para leitura complementar.