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segunda-feira, 24 de novembro de 2014

EM CARTAZ: «CATWOMAN»




  O que estava previsto ser um spin-off de Batman Regressa, ainda com Tim Burton na cadeira de realizador e Michelle Pfeiffer como protagonista, transformou-se em algo completamente diferente: um filme apresentando uma versão alternativa da Mulher-Gato, com pouca ou nenhuma ligação ao universo do Homem-Morcego.

Título original: Catwoman
Ano: 2004
País: EUA
Duração: 104 minutos
Realização: Pitof
Distribuição: Warner Bros. Pictures
Argumento: John Brancato, Michael Ferris e John Rogers
Elenco: Halle Berry (Patience Phillips/Mulher-Gato), Benjamin Bratt (detetive Tom Lone), Sharon Stone (Laurel Hedare), Lambert Wilson (George Hedare), Frances Conroy (Ophelia Powers) e Alex Borstein (Sally)
Orçamento: 100 milhões de dólares
Receitas:  82 milhões de dólares

Gata em telhado de zinco.

Produção: Em junho de 1993, ao mesmo tempo que a Warner Bros. avançava para a produção de um terceiro capítulo cinematográfico do Homem-Morcego, um filme a solo da Mulher-Gato era anunciado. Michelle Pfeiffer - que no ano anterior interpretara a personagem em Batman  Regressa - foi dada como certa para reassumir o papel. O mesmo sucedendo com Tim Burton, a quem voltaria a estar reservada a cadeira de realizador. No entanto, no início de 1994, Burton viu-se perante um dilema artístico: dirigir uma película com forte pendor comercial estrelada por uma charmosa ladra de moral ambígua saída dos quadradinhos ou assumir a direção da adaptação ao grande ecrã de um dos mais célebres contos de Edgar Allan Poe (The Fall of the House of Usher)?
   Precisamente no mesmo dia (16 de junho de 1995) em que chegava às salas de cinema de todo o mundo Batman Forever (Batman Para Sempre,em Portugal; Batman Eternamente, no Brasil), o argumentista Daniel Waters (um dos autores do enredo de Batman Regressa) entregou aos responsáveis da Warner o guião para o spin-off da Mulher-Gato.
   Por esta altura os produtores continuavam a cortejar Tim Burton para que este dirigisse a película. Numa entrevista concedida em agosto desse ano, Michelle Pfeiffer reiterou, por sua vez, o seu interesse em participar no projeto. Ressalvando, contudo, que as suas prioridades seriam revistas devido ao facto de ter sido mãe recentemente, bem como em função de outros compromissos profissionais entretanto assumidos.

Michelle Pfeiffer, a inesquecível Mulher-Gato de Batman Regressa (1992).

   Os anos foram passando e o projeto foi relegado para uma espécie de purgatório. Já com Burton e Pfeiffer desvinculados dele, em 2001 Ashley Judd foi a eleita para ser a próxima Mulher-Gato. Por motivos nunca devidamente esclarecidos, a atriz acabaria, todavia, por desistir do papel algum tempo depois.
    Halle Berry, à data uma das mais requisitadas atrizes de Hollywood depois de ter sido oscarizada pelo seu desempenho em Monster's Ball (Depois do Ódio), foi a senhora que se seguiu. Berry não era, de resto, uma estreante em matéria de participações em produções deste género. Entre 2000 e 2003 encarnara Tempestade em X-Men e X-Men 2 (papel que repetiria em 2006 com X-Men 3 e, já este ano, em X-Men- Dias de um Futuro Esquecido).
    A conceção do novo traje de Mulher-Gato ficou a cargo de Angus Strathie, estilista galardoado em 2001 com um Óscar Para Melhor Guarda-Roupa pelo glamoroso figurino criado para Moulin Rouge. Também o realizador Pitof, os produtores e a própria Halle Berry tiveram uma palavra a dizer nesse processo.
   Strathie explicou mais tarde que a ideia era criar uma indumentária o mais realística e ergonómica possível, que ao mesmo tempo representasse a metamorfose ocorrida na protagonista: de mulher insegura e reprimida a vingadora sensual.
   Devido à elevada exigência física do seu papel, Halle Berry iniciou em junho de 2003 um programa de treino intensivo que, entre outas valências, incluía aulas de capoeira (arte marcial brasileira) e de manejamento do chicote - usado como arma pela sua personagem. Trabalhou ainda com uma coreógrafa, que lhe ensinou a pensar e a mover-se como um gato.
  Meses depois, as filmagens arrancaram tendo como cenários a baixa de Los Angeles, Winnipeg e Vancouver (ambas no Canadá), além dos estúdios da Lions Gate e da Warner Bros.

Um dos mais icónicos posters promocionais de Catwoman.

Enredo: Patience Phillips é uma tímida designer ao serviço de uma companhia de cosméticos chamada Hedare Beauty. Apesar dos seus incansáveis esforços para agradar aos outros, Patience tem em Sally a sua única amiga.
  Em vésperas do lançamento de um novo e milagroso creme capaz de reverter os efeitos do envelhecimento, Patience visita a fábrica onde o mesmo está a ser produzido. Inadvertidamente, ela acaba por escutar uma acalorada discussão entre um dos cientistas da marca e Laurel Hedare, a esposa do proprietário. Em causa estavam os efeitos nocivos decorrentes da utilização do creme.
    Surpreendida por guardas da segurança, Patience fica aterrada ao perceber que estes receberam ordens para liquidá-la. Em pânico, a jovem procura escapulir-se por uma conduta. A qual é, no entanto, selada e de seguida inundada pelos guardas.    
   Em consequência disso, Patience morre afogada e o seu corpo dá à costa a alguns quilómetros do local onde foi assassinada. Sendo, porém, inexplicavelmente reanimada por um misterioso gato egípcio, que horas antes se materializara no apartamento da jovem. Na sequência desses eventos, Patience desenvolve habilidades felinas e um insaciável desejo de vingança.

Patience Phillips era uma jovem tímida com afinidade com gatos.
 
  Por intermédio de Ophelia Powers,a excêntrica dona do gato que a devolveu ao mundo dos vivos, Patience descobre que, no antigo Egito, esses animais eram usados como mensageiros pela deusa Bast. Não demora, por isso, a consciencializar-se de que se transformou numa espécie de avatar da divindade, cujos poderes felinos são ao mesmo tempo uma bênção e uma maldição.
   Passando a usar um disfarce inspirado na sua nova condição de mulher-gato, Patience mescla-se à noite enquanto procura pistas que a conduzam a quem ordenou o seu assassinato. As suas investigações levam-na até ao Dr. Ivan Slavicky, o cientista que discutia com Laurel Hedare naquela noite fatídica. Acaba,porém, por se deparar com o cadáver de Slavicky, sendo injustamente incriminada pela sua morte.
  Suspeitando ser George Hedare - o proprietário da Hedare Beauty - o responsável por ambos os homicídios, a Mulher-Gato vai ao encontro de Laurel e pede-lhe para ficar atenta às movimentações do marido. No entanto, ao confrontar o ex-patrão, este afiança-lhe nada saber sobre quaisquer efeitos secundários potencialmente perigosos do novo creme produzido pela sua empresa.
   Mais tarde nessa noite, Laurel assassina George, depois de lhe revelar ter sido ela quem matou o Dr. Slavicky e quem ordenou a execução de Patience Phillips. Tudo porque o marido a descartara como modelo das campanhas publicitárias da marca, e porque o cientista declarara a sua intenção de destruir a fórmula do novo creme. Já Patience tivera o azar de estar no local errado, à hora errada.

Gatas assanhadas.
   Ardilosa, Laurel contacta a Mulher-Gato pedindo-lhe que venha ao seu encontro. A heroína acede e acaba novamente incriminada por um homicídio que não cometeu, sendo levada sob custódia policial. Antes, porém, Laurel havia-lhe revelado os efeitos secundários causados pelo creme antienvelhecimento: usado em contínuo, deixa a pele do usuário dura como mármore; aplicado de uma forma não continuada, provoca desintegração celular acelerada. Não obstante, Laurel tenciona lançar o novo produto no mercado no dia seguinte.
    Após escapar às autoridades, a Mulher-Gato ruma ao escritório de Laurel para a confrontar, acusando-a pela morte de Patience Phillips. Durante a encarniçada luta que se segue, a Mulher-Gato arranha o rosto da vilã. Esta desequilibra-se e cai por uma janela, conseguindo agarrar-se in extremis a um cano aparafusado à parede do edifício. A Mulher-Gato apressa-se a acudir-lhe, estendendo o braço para que Laurel o agarre e ela a possa içar. Contudo, ao ver o reflexo da sua pele deteriorada no vidro da janela, Laurel fica horrorizada e opta por se deixar cair para a morte.
   Mesmo depois de ter sido inocentada dos crimes que lhe eram imputados, Patience opta por manter-se incógnita e à margem da Lei, desfrutando da sua recém-adquirida liberdade como Mulher-Gato.
Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=ePgLOVNMSTo


À espera de um tigela de leite morno.

Curiosidades: 
* 43 gatos (na sua maioria provenientes de abrigos para animais abandonados) foram treinados para o filme. Entre eles destacou-se um espécime de Bengala - branco e laranja -, ao qual Halle Berry se afeiçoou ao ponto de o adotar uma vez concluídas as filmagens. Facto que gerou alguma controvérsia na medida em que o felino em questão foi confundido por alguns media com um filhote de tigre;
*Uma das razões que levou Michelle Pfeiffer a recusar repetir o papel de Mulher-Gato foi o desconforto causado pelo fato que usou em Batman Regressa (1992). Uma foto sua surge, no entanto, numa cena do filme, sendo referida como um dos anteriores avatares da deusa Bast;
*Segundo consta, enquanto gravava uma das suas cenas, Sharon Stone recebeu uma chamada no seu telemóvel, a qual prontamente atendeu, para exasperação do restante staff;
* O papel de Ophelia Powers foi inicialmente oferecido a Julie Newmar, uma das três atrizes que vestiram a pele da Mulher-Gato na série televisiva de Batman, em finais dos anos 1960. Na qual pontificou também Eartha Kitt, a primeira atriz negra a dar vida à personagem;
* Halle Berry teve de receber assistência hospitalar depois de ter embatido com uma peça de equipamento durante a rodagem de uma sequência de perseguição em que não usou o seu duplo (um perito em artes marciais havaiano);
* Foram necessários nove dias para gravar a principal cena de luta entre a Mulher-Gato e Laurel Hedare;
* Apenas um mês antes da estreia oficial da película, várias cenas tiveram de ser regravadas por força das reações negativas ao primeiro trailer divulgado. O segundo trailer entretanto lançado não incluía qualquer diálogo;
As 6 atrizes que encarnaram a Mulher-Gato no cinema e na TV.
Em cima (da esq. para a dir.): Lee Meriwether (Batman, o filme de 1966), Michelle Pfeiffer (Batman Regressa1992) e Eartha Kitt (3ª temporada da série televisiva Batman, de 1966).
Em baixo (pela mesma ordem): Anne Hathaway (Cavaleiro das Trevas Renasce, 2012), Julie Newmar (1ª e 2ª temporadas da série televisiva de 1966) e Halle Berry (Catwoman, 2004).
Prémios e nomeações: Fazendo eco das críticas demolidoras recebidas aquando da sua estreia, Catwoman foi agraciado com vários Golden Raspberries (vulgo Razzies, espécie de anti-Óscares) em categorias tão diversificadas como Pior Atriz Principal (Halle Berry), Pior Atriz Secundária (Sharon Stone), Pior Argumento (consultar ficha técnica acima), Pior Realizador (Pitof) e Pior Casal de Protagonistas (Halle Berry e Benjamin Bratt). Nada que intimidasse Halle Berry, que fez questão de comparecer pessoalmente - e munida do seu Óscar de Melhor Atriz, recebido em 2001 por Monster's Ball - à cerimónia de entrega dos pouco prestigiantes prémios. No seu discurso de "vitória", a atriz não escondeu a sua amargura: "Em primeiro lugar, quero agradecer à Warner Bros. Muito obrigado por me terem posto num filme de merda. Era tudo o que a minha carreira precisava!".
   Bill Muller, crítico de cinema do Arizona Republic, foi mais longe ao sugerir que Berry (a primeira atriz afro-americana a ser contemplada com a tão cobiçada estatueta dourada) deveria, a título de penalização pela sua deplorável atuação em Catwoman, restituir o seu Óscar à Academia de Hollywood.

Halle Berry teve poucos motivos para sorrir após a estreia de Catwoman.

Veredito: 18%

    Mesmo à distância de uma década, a avaliação que fiz inicialmente de Catwoman mantém-se: trata-se de um mau filme sobre Halle Berry. Melhor dizendo, sobre os - inegáveis - atributos físicos da atriz. Tudo o mais é secundário. Exceto o enredo; esse é terciário.
   Cada movimento de câmara, cada sequência, cada plano parecem ter como única preocupação pôr em evidência a sensualidade de  Halle Berry vestida como uma dominatrix. Autêntico convite ao onanismo e voyeurismo de uma parcela considerável do público masculino heterossexual - e, em especial, dos espectadores adeptos do S&M -, o filme pouco mais tem para oferecer.
   Num verão em que teve como principal concorrente o soberbo Homem-Aranha 2, Catwoman surgiu como um filme insípido e datado. De tão previsível e desinspirada, a história torna-se soporífera. Facto para que contribui inegavelmente a atroz interpretação de Halle Berry, ganhando apenas na comparação com a da sua antagonista - uma monocórdica Sharon Stone que, claramente, preferia estar a fazer outra coisa qualquer. Do restante elenco nem valerá a pena falar, composto que é por autênticos canastrões.
   Outra das deficiências desta película é a quase total ausência de referências à mitologia de Batman. Dada a ausência da arquitetura neogótica adotada por Tim Burton nos dois filmes do Homem-Morcego por si realizados, é lícito concluir que a trama de Catwoman se desenrola numa cidade que não Gotham City. Esta, no entanto, em momento algum é identificada...
   Podemos até ir mais longe afirmando, em última análise, que a película gira em torno de uma impostora, visto que a Mulher-Gato nela retratada não é Selina Kyle. Estamos, pois, em presença de uma lastimável fraude. Motivo pelo qual a DC Comics relutou em assumir a sua paternidade.
  Intuía-se, porém, o desastre tendo em conta que o melhor que a Warner conseguiu desencantar para substituir Tim Burton foi uma mediocridade gaulesa praticamente sem currículo e aparentemente desprovida de apelido. Pitof soa a nome de palhaço. O que, por si só, deveria ter sido encarado como um mau presságio.
   Pelo seu charme e carisma, a verdadeira Mulher-Gato merece brilhar num filme próprio. De preferência, dirigido por um cineasta competente e sem a insossa Anne Hathaway (Cavaleiro das Trevas Renasce). Depois de Julie Newmar nos anos 1960 e de Michelle Pfeiffer em 1992, continua por encontrar a Mulher-Gato do século XXI.
Apesar das garras, esta Mulher-Gato arranha pouco.