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sábado, 4 de junho de 2016

CLÁSSICOS REVISITADOS: «A QUEDA DE MURDOCK"



   O que move um homem que perdeu tudo? O que o faz levantar-se do fundo do poço? Caído em desgraça devido à traição de um antigo amor, o Demolidor embarca numa épica jornada de redenção. Uma admirável fábula de ruína e renascimento impregnada da genialidade de Frank Miller e que sinaliza um momento definidor na trajetória do herói cego.

Título original: Born Again
Licenciadora: Marvel Comics
Autores: Frank Miller* (trama) e David Mazzucchelli (arte)
Data de lançamento: Fevereiro a junho de 1986
Títulos abrangidos: Daredevil nº227 a 231
Personagens principais: Matt Murdock/Daredevil (Demolidor) e Wilson Fisk/Kingpin (Rei do Crime)
Coadjuvantes: Karen Page, Foggy Nelson, Ben Urich, Captain America (Capitão América) e Nuke (Bazuca)
Cenário: Cozinha do Inferno e outros pontos da cidade de Nova Iorque

* Perfil disponível em http://bdmarveldc.blogspot.pt/2012/11/eternos-frank-miller-1957.html


Capa da edição encadernada da saga original.

Edições em Português

Pouco mais de um ano transcorrido sobre o lançamento da saga nos EUA, Born Again (traduzido no Brasil como A Queda de Murdock) chegou às páginas de Superaventuras Marvel (SAM), almanaque mensal editado pela Abril. Dividida em sete capítulos, a história foi apresentada pela primeira vez aos leitores lusófonos entre agosto de 1987 e fevereiro de 1988, nos números 62 a 68 de SAM.
Ainda sob os auspícios da Abril, em 1999 chegaria às bancas a minissérie A Queda de Murdock, composta por quatro fascículos publicados quinzenalmente entre agosto e setembro desse ano.
Já este século, a saga teve direito a duas republicações por outras tantas editoras, em ambos os casos sob o formato de volumes únicos. A primeira, com a chancela da Panini Comics, remonta a julho de 2010. Inserida na  Coleção Oficial das Graphic Novels Marvel da Salvat, três anos depois A Queda de Murdock  foi uma vez mais revisitada na língua de Camões (ainda que na sua variante tropical).





O início da saga em SAM nº 62 (acima)
 e a sua última revisitação pela Salvat.

Antecedentes: Há precisamente 30 anos, a série mensal do Demolidor tentava ainda recuperar da perda de Frank Miller, que a abandonara em 1982. Denny O'Neil, o senhor que se seguiu, mesmo contando com a arrojada arte de um talentoso novato chamado David Mazzucchelli, revelava-se incapaz de manter a dinâmica narrativa incutida pelo seu antecessor.
Daredevil foi, de facto, o primeiro título regular da Marvel Comics assumido por Mazzucchelli após desenhar histórias avulsas em Indiana Jones, Star Wars e Master of Kung Fu. Impressionado com o trabalho do jovem ilustrador de ascendência italiana, Bud Budinsky, o então editor da série, convidou-o a desenhar o Homem Sem Medo. Coincidindo, no entanto, a estreia de Mazzucchelli na série com o período de férias de Denny O'Neil. Assim, a primeira história do Diabo da Guarda a que emprestou o seu traço era da autoria de Harlan Ellison, consagrado escritor de ficção científica e confesso apaixonado por super-heróis. Algo que desde logo foi considerado como um bom prenúncio.
Com efeito, a cada edição de Daredevil, evidenciava-se o crescimento artístico de Mazzucchelli que aos poucos foi seduzindo os leitores com o seu design  impressionista e arrojadamente simplista.

À data do lançamento de Born Again,
David Mazzucchelli era um talentoso novato.

Frank Miller, por seu turno, vinha traçando uma trajetória meteórica na indústria dos quadradinhos que, por esses dias, se pautava por profundas transformações. Tendo recebido carta branca da DC Comics, lançou Ronin (uma minissérie experimental que lhe valeu rasgados elogios) antes de ser colocado num pedestal devido à ovacionada saga Batman: The Dark Knight (Batman, o Cavaleiro das Trevas, Abril, 1987). No entanto, embora ausente do título do Homem Sem Medo, Miller não se afastara por completo do herói. Nesse período, produziu, numa bem-sucedida parceria criativa com Bill Sienkiewicz, a igualmente aclamada graphic novel Daredevil:Love and War (Demolidor: Amor e Guerra, Abril, 1988)).
O Demolidor, propriamente dito, chapinhava em águas pantanosas. Malgrado a competência narrativa  do veterano Denny O'Neil, os seus enredos não empolgavam os leitores, porventura mal habituados pela genialidade com que Miller infundira a série. O venerável escriba dera, entretanto, mais um sinal da sua intenção de reassumir uma personagem que tão bem conhecia.Presentando os seus saudosos fãs com uma pequena história ilustrada pelo lendário John Buscema e publicada em Daredevil nº219.
Quando O'Neil abandonou a série no final de 1985, Miller assumiu interinamente as histórias do Homem Sem Medo, exigindo que David Mazzucchelli, por cuja arte se dizia fascinado, continuasse a desenhá-las. O seu retorno efetivo só se verificaria, porém, alguns meses depois, começando de imediato a preparar o terreno para Born Again.

Frank Miller marcou uma era
nas histórias do Homem Sem Medo.

Em Daredevil nº227, edição onde foi dado a conhecer o primeiro dos sete capítulos que compunham a saga, a dupla Miller/Mazzucchelli, trabalhando numa harmoniosa simbiose criativa, tratou logo de estabelecer quem seriam os protagonistas. Além de Matt Murdock, estariam em evidência as seguintes personagens:

- Ben Urich, astuto e temerário repórter do Clarim Diário e um dos poucos conhecedores da verdadeira identidade do Demolidor;
Foggy Nelson, sócio e melhor amigo de Matt que, na esteira de importantes reveses, procurava relançar a sua carreira jurídica;
- Glorianna O'Breen, fotógrafa e atual namorada de Matt;
- Wilson Fisk, o Rei do Crime e arqui-inimigo do Homem Sem Medo;
- Karen Page, ex-secretária da firma de advogados Nelson & Murdock e antiga amante de Matt, desaparecida há vários anos após largar o emprego para rumar a Hollywood em busca de fama e fortuna como atriz. É ela, de resto, a personagem-chave da trama ao expor o maior segredo do Demolidor. Colocando dessa forma em movimento uma sinistra engrenagem que mudará para sempre a vida do herói.

Escrava do vício, Karen Page está disposta
 a tudo pela próxima dose de heroína.

Desde o início, Miller e Mazzucchelli tinham uma ideia muito clara do que pretendiam com Born Again. Era para ser uma fábula de ruína e redenção. Nesse sentido, eles testariam os limites do herói, levando-o à miséria, à loucura e, por fim, à beira da morte. Para, então, trazê-lo de volta purificado, praticamente renascido. Daí o título original da saga (Born Again = Renascido). Já o título adotado no Brasil - A Queda de Murdock - enfatiza somente a primeira etapa dessa longa e árdua provação.
Além da oportunidade de explorar novas possibilidades para os coadjuvantes já conhecidos, Born Again permitiu a Miller e Mazzucchelli elaborar uma gama de conceitos que os interessavam naquela época.
Assim se explica, por exemplo, o acréscimo tardio à obra de Basuca (Nuke, no original), personagem que não figurava do esboço original. Desde a sua primeira passagem por Daredevil - e, sobretudo, após Batman, The Dark Knight - Miller vinha demonstrando um nítido interesse pela dimensão mítica do herói e pelo seu lugar no mundo moderno.
Basuca, o perturbado supersoldado dos anos 1980, serve portanto o duplo propósito de levar o leitor a questionar-se sobre esses temas, servindo ao mesmo tempo de mote para a entrada em cena do Capitão América. A polarização que se estabelece entre ambos chega a ser tão intensa e impactante como o confronto entre Batman e o Super-Homem em The Dark Knight.
Born Again tem ainda o condão de desvendar parcialmente um dos principais mistérios propostos por Miller aquando da sua primeira passagem pelas histórias do Homem Sem Medo: o verdadeiro destino da mãe de Matt Murdock. Rezam as crónicas que, meses antes, Denny O'Neil chegara a discutir com David Mazzucchelli o desenvolvimento de uma saga para abordar o assunto. Projeto que, devido à saída extemporânea do escritor, seria posto na gaveta antes mesmo de poder ser definida a respetiva tónica. Deixando assim via aberta para a inusitada revelação feita por Miller sobre uma das mais enigmáticas personagens do passado do Demolidor.
Resta apenas acrescentar que o fim de Born Again não encerrou a parceria entre Miller e Mazzucchelli. Dupla de sucesso que se reuniria logo em 1987 para, agora ao serviço da DC, produzir o magistral arco de histórias Batman: Year One (Batman: Ano Um, Abril, 1987).

Basuca, o reflexo distorcido do Capitão América.

Enredo: Karen Page, antiga secretária da Nelson & Murdock e ex-namorada de Matt, partira anos atrás para Hollywood no encalço do sonho de construir uma carreira ligada ao cinema. Após algumas experiências positivas como atriz, tornou-se uma heroinómana, vendo-se obrigada a participar em filmes pornográficos rodados no México para sustentar o vício. Tolhida pela ressaca, ela aceita vender um segredo que guardava há largos anos a troco de uma dose de droga: o de que Matt Murdock é o Demolidor. Informação que não tardaria a ser repassada ao Rei do Crime.
Nos meses seguintes, o poderoso chefe do submundo do crime nova-iorquino usa a sua influência junto de diversas entidades para arruinar a vida ao seu ódio de estimação. Para começar, Matt tem as suas contas bancárias congeladas pelo Fisco. Segue-se uma ordem de despejo do seu apartamento interposta pelo banco com o qual ficara em incumprimento. A estocada final é desferida sob a forma de um falso depoimento prestado em tribunal por um agente policial corrupto que, a mando de Fisk, acusa Matt Murdock de ter subornado uma testemunha para cometer perjúrio.
Como se tudo isso não fosse suficiente para desmoralizar qualquer um, Glorianna O'Breen, a atual namorada de Matt, anuncia a sua intenção de pôr um ponto final à relação de ambos. Reatando de seguida o seu romance com Foggy Nelson, sócio e melhor amigo de Murdock.
Acossado, o Homem Sem Medo pressente que está a ser alvo de uma cabala para o destruir e resolve descobrir quem está por detrás dela. As suas investigações iniciais levam-no até um sujeito chamado Nick Manolis. A troco de tratamento médico para o seu filho gravemente doente, Manolis tem ajudado a tramar Matt Murdock. No entanto, malgrado os seus esforços, o Homem Sem Medo não consegue descobrir quem está por detrás do complô, tampouco consegue provar a sua inocência.
Graças ao brilhante trabalho jurídico de Foggy Nelson, Matt escapa a uma pena de prisão efetiva, mas tem cassada a sua licença de advogado. Frustrado o seu plano original, o Rei do Crime ordena um ataque à bomba ao apartamento de Matt. Ordena também que o traje do Demolidor seja deixado entre os destroços fumegantes, para que o herói tome consciência de que a sua identidade deixou de ser secreta para o seu maior inimigo. E que é ele o responsável pelo seu tormento.

Uma mensagem do Rei do Crime deixada
entre as ruínas fumegantes do lar de Matt Murdock.
Tentando tirar o maior proveito possível dessa vantagem tática, o Rei do Crime ordena a morte de toda e qualquer pessoa que conheça a verdadeira identidade do Demolidor. Karen Page consegue, porém, iludir os seus carrascos e planeia retornar a Nova Iorque na esperança de conseguir chegar até Matt.
Agora um sem-abrigo, Matt desenvolve uma personalidade paranoide e assume comportamentos extremamente agressivos. A sua paranoia é, todavia, real visto que ele é constantemente vigiado por esbirros do Rei do Crime, que lhe fornecem relatórios detalhados do estado de saúde de Matt.
Impelido por um fortíssimo desejo de vingança, Matt Murdock confronta Wilson Fisk no seu próprio escritório. Física e mentalmente diminuído, o herói acaba, porém, brutalmente espancado às mãos do seu arqui-inimigo. De seguida, visando prevenir uma eventual investigação policial à morte de Murdock, o seu corpo manietado é regado com uísque antes de ser enfiado no interior de um táxi roubado, que é, depois, empurrado para o East River. A água gelada faz no entanto com que Matt recupere os sentidos e consiga libertar-se da armadilha fatal, nadando depois até à superfície.
Ferido com gravidade, Matt cambaleia pelas ruas da Cozinha do Inferno até conseguir chegar ao bafiento ginásio onde o seu pai outrora treinara como pugilista. Local onde é encontrado pela sua mãe, cujo paradeiro era incerto desde o seu nascimento. Mas que tinha, afinal, abraçado uma carreira religiosa como freira numa igreja das redondezas. É ela quem cuida dos ferimentos do filho, velando e orando por ele enquanto o seu corpo se cura.

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Matt Murdock derrotado às mãos do seu arqui-inimigo.
Entrementes, Ben Urich, repórter do Clarim Diário e confidente de Matt, inicia uma investigação por contra própria aos recentes acontecimentos na vida do amigo. Investigação essa  que o conduz ao hospital onde o filho de Nick Manolis luta pela vida. Quando o menino exala o seu último suspiro, o pai confidencia a Ben o seu envolvimento numa cabala para arruinar Matt Murdock. Dando-lhe igualmente conta  das suas suspeitas de que por detrás dela estará ninguém menos do que o Rei do Crime. A conversa é, contudo, abruptamente interrompida por Lois,  uma espadaúda enfermeira a soldo de Fisk.  Depois de partir os dedos de uma mão a Urich, ela espanca Manolis quase até à morte.
Dias depois, Manolis telefona a Urich a partir da sua cama de hospital com o objetivo de retomar a sua confissão. Antes que o possa fazer é novamente atacado pela enfermeira Lois que, desta vez, não tenciona deixar o serviço a meio. Manolis é assim lentamente esganado por ela enquanto do outro lado da linha Urich escuta, impotente, a sua agonia. Contudo, em vez de ficar intimidado, o repórter ganha novo alento para prosseguir com a sua investigação, alertando o seu jornal e as autoridades para o sucedido.
Karen Page chega entretanto a Nova Iorque após uma viagem de pesadelo.Que só foi possível graças à  boleia de um pervertido chamado Paul Scorcese que, a troco de favores sexuais, lhe fornece heroína. Sem demora, ela entra em contacto com Foggy Nelson a fim de se inteirar da condição de Matt Murdock. Ao detetar os sinais de agressão no corpo da jovem, Foggy insiste em levá-la para sua casa.
Cada vez mais obstinado em liquidar o Demolidor, o Rei do Crime recorre aos seus contactos nas altas esferas do Exército americano para assegurar os serviços de Bazuca, um supersoldado gerado pelo mesmo programa militar que criara o Capitão América. Para atrair o Homem Sem Medo para fora do seu esconderijo, Fisk envia um maníaco homicida - cuja fuga do hospício engendrara entretanto - para assassinar Foggy Nelson usando um uniforme idêntico ao do herói.
Depois de ter salvo Ben Urich de nova tentativa de homicídio perpetrada pela enfermeira Lois, Matt toma conhecimento da conspiração em curso para tirar a vida ao seu amigo e decide tomar providências para impedir que isso aconteça. Lois, por seu turno, fica sob custódia policial.
Longe dali, Karen Page surpreende Paul Scorcese a rondar o prédio onde Foggy Nelson reside. Receando que ele tencione matar o seu amigo, a jovem vai ao encontro de Scorcese na rua. Sendo ambos prontamente alvejados por atiradores furtivos a quem o Rei do Crime ordenara que abatessem qualquer pessoa que saísse do edifício. Instantes depois, é a vez do falso Demolidor chegar ao local, ansioso por executar a sua macabra missão. Deparando-se, porém, com Matt Murdock que facilmente neutraliza o impostor e salva Karen que fora apenas atingida de raspão pelo disparo do sniper.
Consumida pela culpa, a rapariga confessa-lhe ter sido ela a revelar o seu segredo. Mas Matt tranquiliza-a dizendo-lhe que já superara a perda dos seus bens materiais. Os dois refugiam-se em seguida num apartamento devoluto onde Matt ajuda Karen a suportar os efeitos da ressaca.

Karen Page expia os seus pecados
 nos braços de Matt Murdock.

Enquanto isso, a enfermeira Lois dispõe-se a testemunhar contra Wilson Fisk a troco de uma pena mais leve. Antes que possa fazê-lo, é assassinada a sangue-frio por um falso jornalista do Clarim Diário a quem concordara conceder uma entrevista. Falhado o seu plano para descobrir o paradeiro do Demolidor, o Rei do Crime ordena a Basuca um ataque generalizado à Cozinha do Inferno.
Basuca mata dezenas de civis inocentes e destrói o restaurante onde Matt Murdock vem trabalhando anonimamente. Ressurgindo em público pela primeira vez desde a destruição do seu lar, o Demolidor não tem outra alternativa se não provocar a queda do helicóptero em que o vilão se faz transportar. Embora ferido com gravidade, Basuca sobrevive e fica sob a custódia dos Vingadores que haviam entretanto acorrido ao local.
Perturbado pelo facto de Basuca ter uma bandeira dos EUA tatuada na face, o Capitão América resolve investigar o seu passado. Perante as respostas evasivas que obtém por parte das chefias militares, o Sentinela da Liberdade infiltra-se na base do Exército para onde Basuca fora entretanto transferido e vasculha arquivos confidenciais. A descoberta de que Basuca é um produto do mesmo programa militar que, durante a II Guerra Mundial, o transformou num formidável supersoldado, deixa o herói mortificado.

Diabo da Guarda renascido.
Basuca consegue entretanto evadir-se, sendo prontamente detido pelo Capitão América. Contudo, o Rei do Crime ordenara que Basuca fosse morto, acabando assim alvejado pelos militares. Chegado entretanto ao local, o Demolidor arranca o moribundo vilão das mãos do Sentinela da Liberdade e apressa-se a levá-lo à redação do Clarim Diário, na esperança de que ele possa testemunhar contra Fisk. Não é, porém, lesto o suficiente e Basuca morre antes de poder incriminar o seu ex-empregador.
Numa tentativa para resgatar Basuca, o Capitão América tropeça acidentalmente nos franco-atiradores  enviados para matá-lo. Um deles denuncia Wilson Fisk como tendo sido o mandante do ataque à Cozinha do Inferno que se saldou na perda de dezenas de vidas humanas. Rebenta o escândalo na comunicação social e chovem processos judiciais sobre Fisk. Este, apesar de conseguir ser ilibado de todas as acusações tem a sua imagem pública de respeitável homem de negócios destruída. Facto que motiva a deserção dos seus lugares-tenentes.
Mais obcecado do que nunca, o Rei do Crime logo começa a congeminar os seus planos de vingança contra Matt Murdock. Este, por sua vez, reencontra a felicidade na Cozinha do Inferno e ao lado de Karen Page, agora livre do vício. Mesmo sabendo no seu íntimo que, apesar de ter saído vencedor de mais esta batalha contra o seu némesis, a guerra entre ambos está longe de terminar...
     
Matt Murdock e Karen Page
 reencontram a esperança um no outro.

Simbolismo: Pejada de elementos religiosos relacionados com a mitologia cristã, a saga assume-se na sua essência como uma parábola bíblica. O próprio título original invoca uma frase que, segundo o Evangelho de João, terá sido proferida por Jesus Cristo para expressar a necessidade de preceder o início de uma nova vida com o fim da antiga.
Note-se, à guisa de curiosidade, que apesar de a história se desenrolar em plena quadra natalícia, a temática nela aflorada remete quase exclusivamente para a Páscoa (celebração da morte e ressurreição de Cristo). Senão vejamos: as páginas de abertura dos quatro primeiros capítulos mostram sempre Matt Murdock prostrado. Com a particularidade de, no segundo e terceiro capítulos, ele surgir enroscado em posição fetal. Ainda no terceiro capítulo, o herói - agora convertido num pária - arrasta-se ensanguentado pelas ruas da Cozinha do Inferno, numa óbvia alegoria da Via Sacra calcorreada pelo Messias até ao local da sua crucificação. Não faltando sequer as três quedas que terão marcado esse tortuoso percurso levado a cabo pelo Filho de Deus enquanto carregava uma pesada cruz de madeira.
Já a imagem que encerra esse capítulo (e que serve de ilustração principal deste artigo) invoca claramente a icónica Pietá de Michelangelo. Nela, um agonizante Matt Murdock jaz inerte no regaço da Irmã Maggie, que assim faz as vezes da Virgem Maria. Há ainda a ressaltar o pormenor de na referida imagem ser visível uma pomba branca pousada acima de ambos. Ave que, como é sabido, é tradicionalmente usada na iconografia cristã para simbolizar o Espírito Santo. Finalmente, a página de abertura do quinto capítulo da saga mostra Matt de pé, numa representação metafórica da ascensão de Cristo.
No que concerne ao simbolismo religioso subjacente à obra, importa ainda observar que todos os títulos dados aos capítulos que a compõem advêm de conceitos do Cristianismo (Apocalipse, Purgatório, etc.). Tudo elementos que refletem as raízes profundamente católicas de Frank Miller.

Apocalipse, Purgatório e Pária:
conceitos bíblicos titulam 3 primeiros capítulos da saga.

Sequela: Embora produzido por um conjunto de autores totalmente diverso do da saga original, o arco de histórias Last Rites, publicado nos números 297 a 300 de Daredevil, corresponde a um desdobramento de Born Again. Com a respetiva trama centrada na forma como o Homem Sem Medo destrói metodicamente a reputação pública de Wilson Fisk, ao mesmo tempo que o desapossa do seu vasto património espalhado pelo globo. Retribuindo assim as agruras que o Rei do Crime lhe infligira. Paralelismo que fica bem explícito quando, no desfecho da saga, o vilão, num momento de devaneio, balbucia "born again".
A história mostra também como Matt Murdock consegue recuperar a sua licença para exercer advocacia, a qual fora cassada em consequência da campanha difamatória orquestrada por Fisk na saga original.

Capa do capítulo final de Last Rites
(em Português traduzida como A Queda do Rei do Crime).

Notas finais:

Anos atrás, o realizador Mark Steven Johnson deu conta do seu interesse em dirigir uma sequela de Daredevil (longa-metragem de 2003 protagonizada por Ben Affleck), baseada em Born Again. Projeto que seria oficialmente descartado pela Fox em agosto de 2012, escassos meses antes de os direitos do filme reverterem para os Estúdios Marvel;
* Sob a égide da IDW Publishing, em 2012 foi dada à estampa David Mazzucchelli's Daredevil: Born Again - Artist's Editon. Trata-se de uma coletânea de 200 páginas impressas nas dimensões da  arte original de Mazzucchelli. Entre outros extras que fizeram as delícias dos fãs, o volume incluía notas editoriais e correções feitas ao trabalho da dupla de autores.

David Mazzucchelli autografa um exemplar
 da Artist´s Edition na Midtown Comics de NY em 2012.

Vale a pena ler?

Em 2001, o explosivo capítulo inaugural de Born Again foi votado pelos leitores como a 11ª melhor história da Marvel de todos os tempos.
É, no entanto, difícil explicar porque é tão fantástica a saga. É algo que o leitor terá de descobrir por si próprio. Pode até nem ser o tipo de  história que, pela sua intensidade psicológica e nível de violência, agradará a todos. Mas será certamente um bom entretenimento.
Na minha modesta opinião, Born Again poderá mesmo ser a melhor história alguma vez produzida pela Marvel. Mostrando-nos como um homem íntegro que perdeu tudo consegue reerguer-se mais forte do que nunca. Porque, mais do que o Demolidor, é Matt Murdock quem sobrevive a tão grande provação. É, pois, ele o verdadeiro herói da saga. Dispensando poderes espalhafatosos e pondo em evidência os seus maiores predicados: coragem e perseverança.
Uma palavra ainda para o magnífico trabalho desenvolvido por Frank Miller que  a par de Batman, The Dark Knight, tem em Born Again as suas obras-primas. Muitos foram os escritores que, ao longo das décadas, assumiram - com maior ou menor brilhantismo - as histórias do Homem Sem Medo. Mas nenhum deles sequer chegou perto da genialidade de Miller. Cuja visão marcou uma era no género super-heroístico, pavimentando caminho para a adultização que o caracteriza nos dias de hoje.