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domingo, 23 de julho de 2017

ETERNOS: OTTO BINDER (1911-1974)


  Escreveu alguns dos títulos mais populares da Idade do Ouro e da Prata ao mesmo tempo que ajudava a criar um magote de personagens inesquecíveis. Apesar desses admiráveis pergaminhos, continua a ser um dos mais menosprezados autores da 9ª Arte. Apaixonado pela ficção científica, perfilhou teorias exóticas sobre as origens da Humanidade antes de sucumbir a uma tragédia familiar.

O mais novo dos seis filhos de um casal de imigrantes austríacos recém-chegados a terras do Tio Sam, Oscar Otto Binder nasceu a 26 de agosto de 1911 em Bessemer, pequena cidade do Michigan assim batizada em homenagem a Sir Henry Bessemer, engenheiro britânico do século XIX inventor do processo de fabrico do aço.
Devido às suas raízes familiares centro-europeias, Otto, tal como os irmãos, foi educado de acordo como os preceitos morais e religiosos do Luteranismo. Em 1922, quando se despedia da infância para embarcar na odisseia da puberdade, a sua família resolveu trocar a modorra de Bessemer pela azáfama de Chicago. Foi na grande metrópole do Illinois que Otto e o seu irmão favorito, Earl, se deixaram seduzir pelo charme kitsch das historietas de ficção científica. Género que, naquela época e sobretudo entre os mais jovens, gozava de uma crescente popularidade.
Em vez de, como seria de esperar, contribuir para o esmorecimento da paixão assolapada dos manos Binder pela ficção científica, a passagem do tempo teve o condão de espevitá-la ainda mais. Levando-os mesmo a aventurarem-se na escrita de narrativas desse jaez. Sob o pseudónimo Eando Binder (acrónimo de "E and O", composto pelas respetivas iniciais),  Earl e Otto conseguiram vender a sua primeira produção literária conjunta em 1930. Intitulada The First Martian (O Primeiro Marciano), seria dada à estampa dois anos depois em Amazing Stories, o primeiro - e, provavelmente, o mais duradouro - magazine exclusivamente dedicado à ficção científica, que vinha sendo editado desde a primavera de 1926.

A história I, Robot, de Eando Binder, em destaque na capa desta edição de 1939
do magazine de ficção científica Amazing Stories.
Cientes de que essa atividade, por si só, não lhes garantiria a sobrevivência económica, os irmãos Binder exerceram paralelamente vários outros ofícios. Enquanto Earl calejava as mãos numa fundição na periferia de Chicago, Otto rumou a Nova Iorque. Fê-lo na qualidade de agente literário ao serviço de Otis Kline, afamado autor de novelas de ficção científica - conhecido, também, pela sua amizade (e pretensa parceria literária) com Edgar Rice Burroughs, o criador de Tarzan - , recentemente convertido em editor e empresário.
Durante o curto período como agente literário, Otto ficou essencialmente encarregue da divulgação das obras do então desconhecido Robert E. Howard, "pai" de Conan, o Bárbaro e do subgénero conhecido como Espada & Feitiçaria.
A partida do benjamim do clã Binder para a Cidade Que Nunca Dorme fora precedida pela dissolução da sua sociedade com Earl. Mesmo sendo agora o único autor das estórias de ficção científica que ia vendendo a magazines e outras publicações especializadas, como a Thrilling Wonder Stories e a Amazing (para a qual desenvolveu a cultuada série de Adam Link, o robô senciente criado à imagem e semelhança dos humanos), continuou a assiná-las com o velho pseudónimo que incluía a inicial do irmão.

Em Adam Link Otto Binder teve a sua
  piéce de résistance no campo da ficção científica.
Sopravam ventos benfazejos na vida de Otto Binder até que os nefastos efeitos da Grande Depressão que devorava o coração da economia estadunidense obrigaram Otis Kline a cerrar as portas da sua editora, apenas um ano e meio decorrido sobre a sua fundação.
Vendo-se repentinamente privado da sua principal fonte de rendimento, em 1939, por sugestão de outro dos seus irmãos, Jack Binder (autor do Daredevil original), Otto resolveu tentar a sua sorte na fervilhante indústria dos comics. Pela mão de Jack, que há um par de anos lá vinha trabalhando como ilustrador, Otto juntou-se, assim, ao staff do estúdio Harry Chesler, um dos muitos que, no dealbar da Idade do Ouro, supriam as necessidades das cada vez mais numerosas editoras de banda desenhada.
Seria, no entanto, meteórica a passagem de Otto Binder pelo estúdio de Harry Chesler. Cerca de um ano depois de lá ter entrado pela primeira vez, estava já de malas aviadas para a Fawcett Comics, a recém-fundada subsidiária da Fawcett Publications.
Num primeiro momento, Otto Binder assumiu as histórias de personagens secundárias da Fawcett, como Bulletman, El Carim ou Golden Arrow. A sua criatividade e desenvoltura não passaram, porém, despercebidas ao editor Ed Herron que, em meados de 1941, lhe confiou os destinos da estrela da companhia: Captain Marvel (vulgo Shazam; não confundir, portanto, com o seu homónimo da Casa das Ideias).
Capitalizando o sucesso da série de ação real do Mortal Mais Poderoso da Terra (a primeira adaptação ao grande ecrã de um super-herói) que, por esses dias, atraía milhares de espectadores de todas as idades aos cinemas, a novela pulp The Return of the Scorpion foi, ainda em 1941, a primeira história do Capitão Marvel com o cunho de Otto Binder. Registando-se no ano seguinte o seu debute oficial como argumentista da série periódica do herói, em Captain Marvel Adventures nº9.

A edição que marcou a estreia de Otto Binder
como argumentista do Mortal Mais Poderoso da Terra.
Por conta da pródiga imaginação de Otto Binder, o título mensal do Capitão Marvel ganharia novo elã, destronando mesmo o Superman no pódio das vendas. Enquanto a coqueluche da DC Comics era assim inapelavelmente ofuscada (embora inconfessado, seria esse um dos verdadeiros motivos que, anos depois, levariam a Editora das Lendas a processar a Fawcett por um alegado plágio), o brilho de Otto Binder era mais intenso a cada dia que passava. E não tardou a irradiar um conjunto de spin-offs estrelados pelos igualmente icónicos Captain Marvel Jr. e Mary Marvel, esta última criada a meias por Otto Binder e o artista Marc Swayze, em dezembro de 1942.
Aqui ficam alguns números impressionantes que ilustram bem a envergadura da obra de Otto Binder ao serviço da Fawcett Comics: entre 1941 e 1953, ele escreveu 986 das 1743 histórias do Capitão Marvel, correspondendo, grosso modo, a 60% do total das que foram publicadas durante esse período. Ao longo do qual Otto concebeu, em articulação com C.C, Beck (o lendário criador do Mortal Mais Poderoso da Terra) e Marc Swayze, um magote de personagens que se tornariam emblemáticas.
Além da já citada Mary Marvel, Black Adam (Adão Negro), Uncle Dudley (Tio Marvel), Tawky Tawny (o tigre falante conhecido entre o público lusófono como Senhor Malhado) e os pérfidos filhos adolescentes do Doutor Sivana - Sivana Jr. e Georgia Sivana - completavam esse rol de coadjuvantes de luxo. Refira-se, a este propósito, que, em 1953, quando já se adivinhava o canto do cisne da Fawcett Comics, Otto Binder e C.C. Beck viram frustrada a sua intenção de produzir uma tira de jornal protagonizada pelo Senhor Malhado.



Mary Marvel (cima) e Adão Negro foram duas das mais icónicas criações
 de Otto Binder para a Fawcett Comics.
Ao imprimir nos enredos da Família Marvel a lógica dos sonhos, Otto Binder cumpria na perfeição os desejos de qualquer criança sem, contudo, infantilizar em demasia as suas narrativas. Exorbitando frequentemente as fronteiras da imaginação, as aventuras dos discípulos do mago Shazam tanto podiam transportar os leitores para um conto de fadas como para um plano surreal. Foi, pois, essa dimensão onírica que fez de Captain Marvel Adventures um caso sério de popularidade, mobilizando, mês após mês, o interesse e a imaginação de milhares de leitores.



Tigres falantes e planetas vivos?
Nas histórias do Capitão Marvel saídas da pena de Otto Binder tudo era possível.
Mesmo após a extinção da Fawcett Comics, Otto Binder agora um escriba consagrado, continuou sem mãos a medir. Até finais de 1954 (ano em que assentou arraiais na DC Comics, com a qual vinha colaborando pontualmente desde 1948), desdobrou-se entre a Timely Comics e a Quality Comics*.
Para a primeira, Otto escreveu histórias do Capitão América, Príncipe Submarino e do Tocha Humana original**, ícones da Idade do Ouro e personagens de charneira daquela que seria a precursora da Marvel Comics. Sobrando-lhe ainda tempo e imaginação para participar na criação de The Whizzer (Ciclone) e All-Wiinners Squad (Esquadrão Vitorioso).
Já para  segunda, o seu trabalho consistiu em escrever algumas das suas séries periódicas mais bem-sucedidas, nomeadamente Blackhawk, Doll Man e Uncle Sam. Para não fugir à regra, foi ainda cocriador de Kid Eternity (Kid Eternidade) que, sem embargo, se converteria numa das figuras de proa da Quality Comics.
Há ainda a registar, durante esse ínterim que preludiou a sua transferência para a DC, algumas colaborações episódicas com a MLJ Comics (antecessora da Archie Comics), a Gold Key Comics (para qual criou Mighty Samson, um das personagens mais icónicas da editora) e com a EC Comics (onde voltou a escrever histórias de ficção científica).
Na DC, Otto Binder reencontrou um velho conhecido dos seus tempos na Thrilling Wonder Stories: o editor Mort Weisinger. Sob a sábia batuta de Weisinger, Otto, que nunca foi homem de ficar arrimado às glórias pretéritas, empreendeu nova fase seminal, que mudaria para sempre a mitologia do Superman.
Assim, ao longo de década e meia, de 1954 a 1969, Otto Binder assumiu sozinho o catálogo de títulos do Homem de Aço (no qual pontificavam os históricos Superman, Superboy e Action Comics), introduzindo neles um lote de personagens inéditas que logo se tornariam presença assídua nas aventuras do campeão de Metrópolis.

Otto Binder era um mestre do burlesco
que caracterizou a Idade da Prata dos comics.
Entre os conceitos que ajudou a desenvolver nesse contexto, avultavam - citando somente os mais emblemáticos - Supergirl, Brainiac, Bizarro e a Legião dos Super-Heróis. Se a participação de Otto Binder na conceção de Bizarro é por vezes contestada, é consensual que a versão mais conhecida do vilão é da sua autoria. Assim como outros elementos que, no decurso da Idade da Prata. se tornaram recorrentes nas aventuras do Superman. A saber: a Zona Fantasma, o relógio-sinalizador de Jimmy Olsen e a cidade engarrafada de Kandor, essa fascinante reminiscência da civilização kryptoniana.

Supergirl, uma das mais acarinhadas cocriações de Binder
 ao serviço da Editora das Lendas.
O estilo narrativo de Otto Binder correspondia, com efeito, ao epítome da Idade da Prata dos quadradinhos. Caracterizada, entre outros aspetos, pelos conflitos derivados da ansiedade das personagens e pelas tramas rocambolescas com reviravoltas a condizer. Não admira, portanto, que o trabalho de Otto Binder tenha feito escola, sendo emulado por muitos argumentistas da sua geração.
Mesmo depois de ter abandonado a DC por razões pessoais que mais adiante explanarei, Otto Binder não foi esquecido pelos seus pares. Quando, em 1972, foi publicada a primeira história do Capitão Marvel (entretanto renomeado de Shazam) com a chancela da Editora das Lendas, foi-lhe rendida uma singela homenagem. Desenhado pelo próprio C.C. Beck, Otto Binder surgia como um dos coadjuvantes do Mortal Mais Poderoso da Terra naquela edição histórica.
Ironicamente, a referida homenagem coincidiu com um dos períodos mais infaustos da vida de Otto Binder. Se na indústria dos comics trazia o sucesso e o prestígio à ilharga, fora dela a desdita fez-lhe marcação cerrada, sombreando-lhe os dias com as cores negras do fracasso e da tragédia.
No início dos anos 1960 - sem que daí adviesse prejuízo para o fenomenal trabalho que continuava a executar na DC - ,  Otto Binder foi cofundador e editor-chefe de Space World, um magazine de Astronomia. Vítima das fracas vendas, o projeto seria, porém , cancelado após 16 números, deixando Otto Binder em grandes apuros financeiros.
Apesar de ter hipotecado a própria casa e de ter desbaratado todas as suas poupanças, Otto continuava endividado até ao tutano. Não tendo, portanto, outro remédio se não adiar a sua reforma e o seu sonho  de se tornar escritor de ficção científica a tempo inteiro. O que não o impediu de dar largas à sua veia literária.

O falhanço de Space World deixou Otto Binder em maus lençóis.
Indefetível da controversa Teoria dos Astronautas Ancestrais, cujos postulados pseudocientíficos foram apresentados pela primeira vez em 1919 pelo escritor americano Charles Fort, Otto Binder foi o autor de dois livros dedicados ao assunto: Flying Saucers Are Watching Us (Os Discos Voadores Observam-nos, de 1968) e, em coautoria com Max Flindt, Mankind Child of Stars (Humanidade Filha das Estrelas, 1974). Ambas as obras serviram para Otto Binder sustentar a hipótese de a Humanidade ser uma espécie híbrida, resultado de experimentos de bioengenharia realizados por extraterrestres que visitaram o nosso planeta milénios atrás.

O primeiro dos dois livros de Otto Binder
dedicados à controversa Teoria dos Astronautas Ancestrais.
Crenças que nem a tragédia familiar sofrida anos antes conseguira abalar. Em 1967, a única filha do casal Binder (Mary, de apenas 14 anos) fora colhida mortalmente por um automóvel desgovernado à entrada da escola onde estudava.
Devastados, Otto e a esposa nunca recuperaram do desgosto. Enquanto ele afogava as mágoas na bebida, ela sufocava lentamente no abraço viscoso da depressão. Na viragem da década, já depois de Otto ter abandonado definitivamente a DC, o casal ainda ensaiou um novo começo fora de Nova Iorque. Uma fuga para a frente precocemente interrompida pelo falecimento da mulher.
Até ser fulminado por um ataque cardíaco em outubro de 1974 (escassos meses após o seu regresso a Nova Iorque), Otto Binder, apesar do espírito esmagado, devotou os últimos dias da sua vida à mais imorredoura das suas paixões: as histórias de ficção científica. Agora ao serviço da Pendulum Press, ganhava a vida a escrever adaptações aos quadradinhos de clássicos da literatura fantástica como Frankenstein e 20.000 Léguas Submarinas.
O reconhecimento, esse, seria tardio mas condigno. Em 2004, cumpridos trinta anos sobre o seu desaparecimento, o nome de Otto Binder seria inscrito no Will Eisner Hall of Fame. Seis anos antes de ser contemplado com um Bill Finger Award, galardão que, desde 2005, laureia (quase sempre a título póstumo) a nata dos escritores de banda desenhada.
Com menos pompa e circunstância, também os produtores de Supergirl não deixaram de homenagear o cocriador da Última Prima de Krypton. Otto Binder era o nome da ponte que, no episódio-piloto da série, a heroína de aço evita que seja destruída por um avião em queda.
Acredito, no entanto, que o maior tributo que poderá ser prestado a este gigante da Nona Arte consistirá na (re)descoberta da vastíssima obra que nos legou, e que merece ser reverenciada. Faço, por isso, votos para que esta minha modesta evocação de Otto Binder sirva esse propósito. A ele, o meu muito obrigado pelos momentos inesquecíveis que as suas histórias me proporcionaram. Sem elas,a minha infância teria sido decerto menos divertida e empolgante.

Otto Binder (1911-1974).
«O mérito é como os rios: quanto mais profundo, menos ruído faz.»
(George Halifax, estadista inglês do século XVII)

* http://bdmarveldc.blogspot.pt/2017/06/fabrica-de-mitos-quality-comics.html
** http://bdmarveldc.blogspot.pt/2016/11/herois-em-acao-tocha-humana.html