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sexta-feira, 22 de julho de 2016

ETERNOS: BOB LAYTON (1953 - ... )



  Teve um dos pontos mais altos da sua trepidante carreira na sua passagem pelas estórias do Homem de Ferro, a quem ajudou a restituir o fulgor de outrora. Visionário também no mundo dos negócios, fez prosperar uma pequena editora falida e revolucionou o circuito de distribuição de comics antes de rumar à Meca do cinema.

Biografia e carreira: Mesmo depois de ter trocado a Nona pela Sétima Arte, aos 63 anos Robert "Bob" Layton continua a ser um dos mais venerados autores de banda desenhada com super-heróis, tendo no Homem de Ferro a sua personagem-talismã. Conhecido pela sua astúcia e polivalência, erigiu uma sólida carreira ao serviço dos gigantes da indústria de quadradinhos norte-americana.Com cujas produções teve contacto ainda em tenra idade e cujas potencialidades de negócio começou a explorar numa fase igualmente precoce da sua vida.
Bob contava apenas quatro anos de idade quando foi alfabetizado pela sua irmã mais velha que, cansada de ler-lhe vezes sem conta a mesma edição de Showcase (almanaque de referência da DC Comics, muito popular nos anos 50 e 60 do último século), o ensinou pacientemente a juntar as primeiras letras.
Mal concluiu o liceu, Bob tornou-se uma espécie de traficante de revistas aos quadradinhos, vendendo-as a outros jovens nas imediações do edifício de apartamentos em Indianápolis onde residia com a família. Foi graças a esta pequena negociata que, em 1973, travou conhecimento com Roger Stern. À época, o futuro romancista e escritor de algumas das personagens de proa da Marvel e da DC trabalhava numa estação de rádio local. Deste encontro fortuito nasceu uma proveitosa sinergia que alçaria ambos a voos mais altos.
Com efeito, pouco tempo depois de os seus caminhos se terem cruzado, Bob Layton e Roger Stern lançaram um fanzine que logo os colocaria na berlinda. Sob o pomposo título Contemporary Pictorial Literature (Literatura Pictórica Contemporânea), mais não era, contudo, do que uma publicação amadorística dedicada à Nona Arte, material muito comum ao longo de toda a década de 1970. Sobressaindo, porém, o CPL pela sua elevada qualidade, tanto a nível gráfico como textual.
Vendido uma vez mais à porta da casa de Bob, foi muito por conta das apelativas capas por ele ilustradas que o CPL se tornou um fenómeno de popularidade, obrigando a sucessivos aumentos de tiragem. Sobremaneira apreciados pelos fãs - que, de quando em vez, eram convidados a participarem no projeto - eram também os artigos da lavra de Roger Stern.

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Capa de CPL nº17 (1975) com arte de Paul Gulacy,
outro dos virtuosos que  lá se deu a conhecer.

Tamanho furor não passou despercebido aos mandachuvas da Charlton Comics que, intuindo o virtuosismo dos jovens autores do CPL, os convidou a produzirem e publicarem o lendário Charlton Bullseye. Magazine a preto e branco que, entre 1975 e 1976, serviria essencialmente para divulgar material inédito da editora, indo dessa forma ao encontro de iniciativas análogas por parte da Marvel e da DC.
Entre os vários nomes que se tornariam sonantes nos meandros dos quadradinhos depois de terem engalanado as páginas do CPL com o seu talento, destaque para John Byrne, então um jovem desenhador freelancer a tentar afirmar-se na Charlton Comics.
Azougado como poucos, Bob Layton soube retirar grandes benefícios desta parceria com aquela que, à época, era uma das mais importantes editoras a operar no mercado dos comics. Desde logo porque foi graças a ela que foi apresentado a Wallace Wood, um dos mais prestigiados cartunistas estadunidenses do século transato, de quem se tornaria aprendiz. Esse aprendizado com tão insigne mestre abrir-lhe-ia as portas da Charlton, companhia da qual Bob assumiria vários dos seus títulos de charneira.

O primeiro número do Charlton Bullseye
foi lançado em janeiro de 1975.
Ainda que com alguma sorte e batota à mistura, também as portas da Casa das Ideias se entreabririam entretanto para Bob Layton. Entre as incumbências inerentes ao seu tirocínio com Wallace Wood, incluía-se a ocasional entrega de trabalhos do seu precetor nos estúdios nova-iorquinos da Marvel Comics. Tendo sido precisamente numa dessas visitas à sede da editora que era ainda capitaneada por Stan Lee que, com o arrojo que lhe é característico, Bob se atirou de cabeça para não deixar escapar a oportunidade em que lá inesperadamente tropeçou.
Recuperemos o relato na primeira pessoa de como tudo se passou: «Certo dia, estava eu na sede da Marvel para entregar alguns trabalhos do Woody (diminutivo pelo qual Wallace Wood é afetuosamente tratado no seu círculo de amizades) e resolvi aproveitar a oportunidade para mostrar parte do meu portfólio a quem se dispusesse a vê-lo. Ao passar pelo gabinete do diretor artístico, não pude deixar de ouvir John Romita a barafustar ao telefone. Percebi que ele tentava desesperadamente encontrar alguém que arte-finalizasse os esboços de George Tuska para a próxima edição de Iron Man. Como um perfeito idiota, enfiei a cabeça através da porta entreaberta do gabinete e, sem parar para pensar que isso seria humanamente impossível, dei comigo a dizer que conseguiria ter o trabalho pronto nos quatro ou cinco dias de que disporia para fazê-lo. Claro que era pura gabarolice minha, mas eu queria mesmo muito trabalhar para a Marvel. Para meu espanto, Romita estendeu-me as páginas inacabadas, dizendo-me: "Mostra-me do que és capaz, miúdo."»


Bob Layton teve no Homem de Ferro
 a sua personagem-talismã.
À alegria inicial por ter conseguido o seu primeiro trabalho para a Marvel seguiu-se o pânico de não conseguir tê-lo pronto a tempo. A procura frenética de Bob por ajuda levou-o a bater à porta do Continuity Associates, conceituado estúdio de ilustradores freelancers fundado em 1971 pela dupla Dick Giordano / Neal Adams e que, ao longo dos anos, se afirmou como um autêntico viveiro de talentos. Walt Simonson, Howard Chaykin e Jim Starlin foram apenas alguns dos que nele tiveram a rampa de lançamento para carreiras de estratosférico sucesso na indústria dos quadradinhos.
Apesar das adversidades iniciais, Bob Layton conseguiu, graças a essa providencial ajuda, entregar o trabalho dentro do prazo estabelecido. Proeza que lhe valeu o estatuto de arte-finalista residente de Champions, na altura uma das coqueluches editoriais da Casa das Ideias. Bob soube-o de uma forma invulgar: no mês seguinte, recebeu na sua morada um grosso envelope almofadado contendo os esboços de uma historieta completa dos Campeões, a primeira equipa de super-heróis Marvel a eleger Los Angeles como base de operações.
Seria, contudo, meteórica esta primeira passagem de Bob Layton pela Casa das Ideias. Ao cabo de apenas alguns meses, foi brindado com uma proposta irrecusável por parte da DC: um contrato de exclusividade com duração anual a troco de um salário chorudo. Período durante o qual Bob arte-finalizou títulos como All Star Comics e DC Special, além do número inaugural da série Star Hunters, escrita por David Michelinie. Pelo meio, participou na conceção da versão moderna da Caçadora (The Huntress, no original), heroína com raízes na Idade do Ouro dos Quadradinhos.
Bob Layton e David Michelinie voltariam a trabalhar juntos, aquando do regresso do primeiro à Casa das Ideias. Os dois firmariam, de resto, uma profícua parceria criativa, principiando a sua colaboração em Iron Man nº116 (novembro de 1978). Título que, antes da chegada dos novos autores, andava pelas ruas da amargura sempre assombrado pelo espectro negro do cancelamento iminente.
Sob a batuta de ambos (e, também, de John Romita, Jr, que a eles se juntou), a série regular do Homem de Ferro ganhou novo fôlego, tornando-se mesmo um best-seller. Circunstância para a qual contribuiu em grande medida o êxito retumbante da saga Demon in a Bottle (vide texto anterior). Para regozijo dos leitores, a arrojada abordagem de Layton e Michelinie  trouxe uma lufada de ar fresco às histórias bafientas de um herói que parecia condenado ao inexorável declínio.
Sempre em articulação com o seu parceiro criativo, Bob Layton ajudou a criar um naipe de influentes coadjuvantes para as histórias do Vingador Dourado, nele avultando James Rhodes, o braço-direito de Tony Stark que, anos mais tarde, passaria a atuar como Máquina de Guerra (War Machine). Este e outros conceitos da sua autoria têm vindo, aliás, a marcar presença nas produções dos Estúdios Marvel, com especial incidência, naturalmente, na franquia cinematográfica do Homem de Ferro.




Máquina de Guerra (cima) e Caçadora:
duas cocriações de Bob Layton .
Em setembro de 1982, após a sua saída de Iron Man seguida de fugazes passagens (sempre na qualidade de capista) por títulos como Captain America, The Incredible Hulk ou Micronauts, Bob Layton assumiu a sua primeira empreitada a solo. Nada menos do que a primeira minissérie da Marvel.
Apostado em não deixar os seus créditos por mãos alheias, Bob escreveu e ilustrou os quatro volumes de Hercules: Prince of Power, cujo sucesso, malgrado o seu improvável protagonista, excedeu mesmo as expectativas mais otimistas. Valendo-lhe assim novo e aliciante desafio: desenhar a linha de brinquedos da Mattel que estaria na origem de Secret Wars (saga emblemática da Marvel publicada nos idos de 1984).

Hercules: Prince of Power marcou a estreia a solo
 de Bob Layton na Marvel.
Cada vez mais requisitado, em fevereiro de 1986 Bob Layton foi o escolhido para reviver os X-Men originais em X-Factor, escrevendo os cinco primeiros números da série. Exatamente um ano depois, reuniu-se com David Michelinie em Iron Man. Dessa segunda incursão da parelha por um título que muito se ressentira da sua saída, resultou outra saga antológica do Homem de Ferro: Armor Wars (Guerra das Armaduras).

O regresso triunfal dos X-Men originais
 em X-Factor nº1 (1986).

Era ainda a década de 1990 uma nascitura quando Bob Layton trocou a segurança da Marvel pela incerteza da Valiant (Voyager Communications, Inc). Fundada em 1989, esta pequena editora independente encontrava-se em situação financeira aflitiva caminhando a passos largos para a insolvência. Nada que demovesse, ainda assim, Bob de acumular os cargos de editor-chefe, coproprietário e vice-presidente executivo.
Herdando da anterior administração um passivo que ascendia aos 4 milhões de dólares, Bob logrou a façanha de, em apenas um par de anos, tirar as contas da empresa do vermelho para passar a apresentar lucros na ordem dos 30 milhões de dólares. Num abir e fechar de olhos, a Valiant passou de uma pequena editora detentora de uma quota de mercado residual para uma pujante empresa capaz de fazer sombra à Marvel e à DC.
Na base deste fulgurante sucesso da rediviva Valiant, esteve, entre outros fatores, o lançamento de um jogo de vídeo desenvolvido a partir de conceitos idealizados por Bob Layton. Com 1,5 milhões de unidades vendidas, Turok, Dinosaur Hunter foi um maná muito cobiçado pela concorrência.

O fenómeno de vendas que salvou a Valiant da bancarrota.
Em 1994, já depois de, no ano anterior, Bob Layton ter sido votado pelos leitores da revista Wizard Editor do Ano, a Valiant foi adquirida pela Acclaim Entertainment por uns astronómicos 65 milhões de dólares. Bob conservou, apesar disso, o cargo de vice-presidente executivo por mais dois anos. Momento em que, por vontade própria, resolveu abandoná-lo para desfrutar de uma espécie de reforma antecipada na Flórida.
Incapaz de se manter afastado por muito tempo daquilo que mais gosta de fazer, entre 1997 e 1998, Bob Layton escreveu e arte-finalizou uma dúzia de edições de Doctor Tomorrow, a mais recente aposta da Acclaim Entertainment (nome pelo qual era agora conhecida a Valiant), cujos esboços estavam a cargo do veterano Dick Giordano. A residir também na Flórida, este tornar-se-ia uma espécie de mentor de Bob nos anos que antecederam a fundação da Future Comics. Projeto que, além deles, teve como impulsionadores David Michelinie e Allen Berrebi.
Do peculiar repertório da Future Comics faziam parte Deathmask, Metallix, Peacekeeper e Freemind. Sendo este último escrito, editado e arte-finalizado por Bob Layton. Que, provando uma vez mais ser um homem de visão, quis revolucionar o circuito de distribuição desse tipo de material, fazendo da sua companhia uma pioneira do comércio digital. Descartando intermediários, a Future Comics - fazendo jus ao nome - apostou forte na Internet para captar clientes, vendendo-lhes diretamente as sua publicações.
Os proventos do negócios ficaram no entanto aquém do esperado. Vergada pelas severas pressões de tesouraria, no verão de 2002 a Future Comics viu-se compelida a assinar contrato com a Diamond Comics Distribution, a maior distribuidora de quadradinhos a nível mundial. Mudança de paradigma que não obstou à falência da companhia pouco tempo depois. À semelhança de tantos outros visionários, Bob Layton testemunhou, impotente, o lento ocaso de um sonho à frente do seu tempo.

Freemind foi uma das apostas editoriais
 da Future Comics.
Deixando para trás um impressionante lastro na História da Nona Arte, num passado recente Bob Layton deu uma guinada na sua vida profissional ao trocar os quadradinhos pelo cinema. Atualmente a residir em Hollywood, tem firmado créditos como guionista, empenhado-se em desenvolver novas ideias e conceitos a serem transpostos tanto ao grande como ao pequeno ecrã.
Longe de se sentir deslocado na feérica Meca da Sétima Arte, Bob - que, ao longo da sua carreira ligada à banda desenhada, privara com argumentistas e cineastas de renome, como George Romero (Night of the Living Dead) - tem prestado igualmente serviços de consultoria de guiões.
No entanto, de momento, a sua grande aposta é o filme Shumbler, uma comédia de terror da Odyssey Pictures que o creditará como cocriador, coargumentista e produtor executivo. Demonstrando uma admirável capacidade de trabalho, Bob escreve em paralelo o enredo de Mettle, longa-metragem ainda em fase de pré-produção que terá Edward James Olmos - nomeado para o Óscar de Melhor Ator em 1988 - como realizador.
Mesmo por estes dias arredado dos quadradinhos, Bob Layton será sempre uma figura incontornável para inúmeros consumidores desse produto cultural que ele ajudou a prestigiar, deixando a sua marca indelével em todas as personagens que perfilhou ao longo dos anos. Nalguns casos dando-lhes a notoriedade merecida, noutros devolvendo-lhes o glamour perdido. Mas tratando-as sempre com o carinho e respeito que um pai extremoso dedica aos filhos. Os leitores agradecem e jamais o esquecerão.

Voltará algum dia Bob Layton  às histórias do Homem de Ferro?




sábado, 9 de julho de 2016

CLÁSSICOS REVISITADOS: « O DEMÓNIO NA GARRAFA»



  A atravessar uma profunda crise existencial, Tony Stark contempla o abismo no fundo de cada garrafa esvaziada. Enquanto vacila na batalha contra o seu demónio interior, um misterioso inimigo conspira nas sombras para desacreditar publicamente o Homem de Ferro. São estas as empolgantes premissas de uma saga antológica do Vingador Dourado, cujo enorme impacto surpreende até hoje os seus autores.

Título original: Demon in a Bottle
Autores: David Michelinie & Bob Layton (história) e John Romita, Jr. (esboços)
Licenciadora: Marvel Comics
Títulos abrangidos: The Invencible Iron Man nº120 a 128
Data de publicação: Março a novembro de 1979 (EUA)
Protagonistas: Tony Stark/Homem de Ferro (Iron Man), Jim Rhodes e Bethany Cabe
Coadjuvantes: Bambi Aborgast, Arthur Pithins, Ling McPherson, Scott Lang/Homem-Formiga II (Ant-Man), Os Vingadores (The Avengers), Ed Koch, Embaixador Sergei Kotznin e S.H.I.E.L.D.
Vilões: Justin Hammer. Jonas Hale, Namor, o Príncipe Submarino (The Sub-Mariner), Phillip Barnett, Derretedor (Melter), Nevasca (Blizzard), Chicote Negro (Whiplash), Besouro (Beetle), Mago das Águas (Water Wizard), Estilete (Stiletto), Constritor (Constrictor), Espião Mestre (Spy-Master), Discus, Homem-Sapo (Leap-Frog), Porco-Espinho (Porcupine) e Matadora (Man-Killer)
Cenários principais: Atlântico Sul, diversos pontos da cidade de Nova Iorque, ilha artificial de Justin Hammer (estacionada algures no Mediterrâneo), Atlantic City e Mónaco
Edições em Português: Foi sob a égide da Abril brasileira que esta saga foi pela primeira vez apresentada aos leitores lusófonos. Que, ao longo de nove meses (entre fevereiro e outubro de 1985) puderam vibrar com a trama espraiada pelas páginas de Heróis da TV (do nº68 ao 76, com dois hiatos nos números 69 e 71). 

Heróis da TV nº76 (outubro de 1985) trouxe
 o emocionante desfecho da saga O Demónio na Garrafa.

Já este século, a história teve direito a duas republicações por outras tantas editoras de Terras Tupiniquins, ambas no formato de volume único. A primeira, datada de junho de 2008, foi lançada pela Panini sob o título Os Maiores Clássicos do Homem de Ferro nº1. Ao passo que a segunda, com a chancela da Salvat, chegou aos escaparates brasileiros em setembro de 2014, inaugurando a Coleção Oficial de Graphic Novels Marvel


As duas republicações da saga lançadas
 pela Panini e pela Salvat, respetivamente em 2008 e 2014.

Conceção e desenvolvimento: Na viragem da década de 70 do século passado, era este, em pinceladas largas, o quadro  da indústria dos comics estadunidenses: de um lado, tínhamos a DC  a explorar o mistério, a magia e o fantástico; do outro, a Marvel seguia à risca os sábios ensinamentos de Stan Lee para que se privilegiasse a natureza humana das personagens, apresentando-as como seres falhos, a braços com os seus próprios dilemas e angústias, pois só assim seria possível os leitores identificarem-se com elas.
Em linha com essas orientações, David Michelinie resolveu centrar a trama, cujo esqueleto vinha há semanas montando, numa batalha pessoal travada por Tony Stark contra um inimigo, desgraçadamente, bem real: o álcool. Importa desde logo ter presente que, à época, o tema do alcoolismo era ainda um tabu social. Ademais, não obstante a progressiva adultização do género super-heroístico que vinha fazendo escola desde o dealbar dos anos 1960, este continuava a ser perspetivado como um produto cultural destinado, essencialmente, a um público menor de idade.
Havia, portanto, o sério risco de a história gerar controvérsia. Algo que, de facto, acabaria por se verificar. Surtindo, porém, o efeito contrário ao temido pelos editores da Marvel. Em vez de chocar sensibilidades, Demon in a Bottle despertou consciências e captou toda uma gesta de leitores adultos, ávidos de enredos maduros e infundidos de realismo. Atributos narrativos que eram já a imagem de marca da Casa das Ideias, permitindo-lhe desse modo continuar a acentuar a diferença relativamente à arquirrival.
A despeito de tudo isso, o êxito de Demon in a Bottle apanhou desprevenidos os seus autores. Em 2008, em vésperas do 30º aniversário do lançamento da saga nos EUA, Bob Layton continuava a não esconder a sua perplexidade: "Nunca foi nossa intenção produzir algo relevante. Éramos pagos, basicamente, para escrever o próximo episódio  de Iron Man. Foi por mero acaso que escolhemos o alcoolismo como mau da fita. Podia ter sido o Doutor Destino ou qualquer outro vilão clássico. Mas tanto eu como o David Michelinie considerámos interessante o conceito de o Homem de Ferro ser transformado no seu próprio inimigo. Naquele mês o génio maligno saltou, literalmente, da garrafa. Bem vistas as coisas, o que normalmente derruba as pessoas por mais poderosas que elas sejam? Ganância, sexo, drogas e álcool. Deste cardápio pecaminoso optámos pelo álcool, como poderíamos ter escolhido qualquer uma das outras opções. Foi apenas isto. Nunca nos passou pela cabeça que a história se tornasse memorável."




David Michelinie & Bob Layton (cima) e John Romita, Jr. :
 a dream team que arvorou o Homem de Ferro aos píncaros da popularidade,

No entanto, Demon in a Bottle conquistou por mérito próprio um lugar de destaque na memorabilia da Casa das Ideias. Considerada pela generalidade da crítica especializada como uma das melhores sagas da editora, arrebatou em 1980 o Eagle Award para melhor arco de histórias individual. Galardão que premiava tanto o enredo inteligente de David Michelinie e Bob Layton, como o notável trabalho artístico de John Romita, Jr. Não sendo, portanto, de admirar que a saga continue ainda hoje a influenciar os escribas que vão desfilando a sua verve pelas páginas de Iron Man.
Abrangendo os números 120 a 128 de The Invencible Iron Man , Demon in a Bottle correspondia originalmente ao título do epílogo da saga. Refira-se, à laia de curiosidade, que quando foi lançada a respetiva compilação, em 1984 e 1989, o título genérico escolhido foi The Power of Iron Man. Designação que, indo ao encontro da preferência dos fãs, daria lugar em posteriores reedições ao icónico Demon in a Bottle.

Iron Man Vol 1 123
Aperta-se o cerco ao Vingador Dourado em Iron Man nº123 (junho de 1979).

Quem era Bethany Cabe?




O mais recente interesse romântico de Tony Stark surgira pela primeira vez em dezembro de 1978 no número 117 de Iron Man. Criação conjunta de David Michelinie, Bob Layton e John Romita, Jr., foi apresentada como a charmosa viúva de um adido diplomático da República Federal Alemã em terras do Tio Sam chamado Alexander van Tilburg. Esposa-troféu, Bethany Cabe viveu um matrimónio infeliz devido à dependência de drogas do marido que ela tentou, em vão, combater. Facto que, pouco tempo depois, esteve na origem da separação do casal.
Após a morte de Alexander num acidente de viação, Bethany recriminou-se por tê-lo abandonado em vez de permanecer ao seu lado para, juntos, o libertarem do vício que destruíra o casamento de ambos. Na esteira deste trágico episódio na sua história pessoal, Bethany jurou a si mesma que jamais voltaria a ficar dependente de quem quer que fosse.Resoluta, foi treinada pelos melhores agentes policiais e lutadores de rua da Costa Leste, tornando-se uma das mais requisitadas guarda-costas de celebridades, diplomatas e até de membros da realeza. Com a sua amiga e associada Ling McPherson fundou a empresa de segurança pessoal Cabe & McPherson.
Os caminhos de Bethany Cabe e Tony Stark cruzaram-se pela primeira vez em Nova Iorque durante uma receção oficial realizada na Embaixada da República da Carnélia (nação fictícia localizada no Leste europeu). Bethany desempenhava então as funções de guarda-costas do novo embaixador carneliano na ONU.
Passando por cima da velha máxima que desaconselha a mistura de negócios com prazer, Bethany e Tony envolveram-se romanticamente pouco tempo depois de o milionário ter contratado a Cabe & McPherson como especialistas de segurança da Stark Internacional.
Quando Tony começou a beber em excesso, Bethany temeu estar a reviver o pesadelo do seu casamento com Alexsander Van Tilburg, e tudo fez para prevenir idêntico desfecho para o seu novo relacionamento.

O que movia Justin Hammer?



Igualmente fruto da prodigiosa imaginação da dupla Michelinie/Latyon, Justin Hammer foi propositadamente concebido para ser o antagonista principal de Tony Stark nesta saga do Vingador Dourado. Nesse sentido, a sua estreia ocorreu em Iron Man nº120 (edição datada de março de 1979). E logo o velhaco mostrou ao que vinha.
Barão da indústria nascido na Velha Albion, dirigia com pulso férreo - e sem qualquer vestígio detetável de ética - um conglomerado de negócios internacionais. Que tinha no fabrico e comercialização de armas o seu ramo mais lucrativo.
Concorrentes diretas da Stark Internacional, as Indústrias Hammer  dominavam o mercado de armamento desde que Tony dele se retirara tempos atrás. Após  anos de guerra surda marcados por alguns episódios de espionagem industrial, os dois conglomerados entraram em acesa disputa pelo licenciamento de unidades de produção em território carneliano.
Consciente de que o Homem de Ferro era um símbolo vivo do poderio tecnológico da Stark Internacional  e uma peça-chave da sua segurança ( mas ignorando que ele e Tony eram a mesma pessoa), Hammer incumbiu os seus engenheiros de arranjarem forma de interferir com o funcionamento do traje blindado do herói.
Quando essa missão foi coroada de êxito, o vilão passou a poder controlar remotamente a armadura do Homem de Ferro. Foi assim, aliás, que ativou o sistema de armamento do traje para assassinar publicamente o embaixador carneliano nas Nações Unidas, incriminando o Vingador Dourado. Incidente diplomático que causou graves danos reputacionais à companhia de Tony Stark.
Paralelamente, Justin Hammer financiava e apetrechava com a sua parafernália tecnológica um contingente de super-criminosos. Os mesmos que não se fez rogado em usar para tentar neutralizar o Homem de Ferro. Saber-se-ia mais tarde que o patrocínio de Hammer tinha como contrapartida metade dos proventos obtidos pelos seus seu asseclas nos crimes por eles praticados.
Em paradeiro incerto após o desenlace da saga, Justin Hammer ressurgiria, uma e outra vez, para atormentar Tony Stark e a sua persona heroica. Consolidando, assim, o seu estatuto de arqui-inimigo de ambos.

A invencibilidade  do Homem de Ferro posta à prova.

Enredo: Após uma estadia em França, Tony Stark viaja a bordo de um avião com destino a Nova Iorque. O seu estado de espírito não podia, porém, ser mais taciturno. Acaba de descobrir que os seus pretensos aliados da SHIELD vêm adquirindo em segredo ações da Stark Internacional, objetivando assumir o controlo da companhia. Com os nervos em franja, o milionário bebe vários vermutes de enfiada.
Subitamente, uma das asas da aeronave é atingida por um tanque militar arremessado a grande altitude. Instalado o pânico entre os restantes passageiros, Tony aproveita o pandemónio para se esgueirar até uma das portas de emergência. Depois de abri-la, salta no vazio carregando apenas a sua pasta de executivo onde guarda a armadura do Homem de Ferro. Vestindo o traje em pleno ar, apressa-se a travar a queda do avião, guiando-o para uma suave amaragem.
Equipas de socorro confluem entretanto para o local, bem como um pequeno destacamento militar. Enquanto os passageiros são resgatados em segurança do interior do aparelho, o Homem de Ferro é escoltado por soldados até uma base militar instalada numa ilha próxima dali. Pela voz do seu comandante. o herói fica a saber que o tanque que atingira o avião fora arremessado por Namor, o Príncipe Submarino. Facto ocorrido quando os militares tentavam remover um residente da ilha que protestava contra a sua utilização como aterro tóxico.
Furioso com a irracionalidade de Namor, o Homem de Ferro parte no seu encalço e os dois envolvem-se numa violenta escaramuça subaquática. Durante a qual as lentes vedantes do capacete do Vingador Dourado se abrem inopinadamente, deixando a água entrar. Prestes a afogar-se dentro do próprio traje, Tony consegue, no último instante, retificar o problema.
Por fim, o Homem de Ferro e o Príncipe Submarino percebem que os soldados são na verdade mercenários a soldo da Corporação Roxxon, uma multinacional petrolífera interessada na exploração das jazidas de vibranium (metal fictício extremamente raro com propriedades isolantes) existentes na ilha.
Juntando forças, os dois titãs desbaratam facilmente o contingente de mercenários. Que conseguem, ainda assim, escapar depois de terem feito deflagrar potentes cargas explosivas plantadas em diversos pontos estratégicos da ilha. Causando o seu afundamento e consequente eliminação de quaisquer vestígios das operações de mineração que lá tinham sido efetuadas.

Choque de titãs a abrir a saga em Iron Man nº120 (março de 1979).
Na sua jornada de volta a terra firme, o Homem de Ferro é surpreendido por uma súbita avaria da sua armadura, desta feita afetando o seu sistema de voo. Voando de forma descontrolada durante alguns minutos, o herói acaba por despenhar-se no solo, saindo contudo ileso do acidente.
A milhares de quilómetros dali, comodamente instalado na sua base flutuante estacionada em águas mediterrânicas, Justin Hammer exulta com os resultados dos seus testes de controlo remoto do traje blindado daquele que supõe ser um mero empregado de Tony Stark.
Intrigado com o sucedido, nessa mesma noite o milionário analisa minuciosamente a armadura do Homem de Ferro no seu laboratório. E mais intrigado fica com o diagnóstico obtido: nenhuma anomalia detetada.
Na noite seguinte, de visita a um casino em Atlantic City na companhia de Bethany Cabe (a sua mais recente conquista amorosa), Tony Stark e os demais visitantes são surpreendidos por uma tentativa de assalto levada a cabo por um trio de super-criminosos composto por Nevasca, Derretedor e Chicote Negro.
Enquanto a quadrilha tenta arrombar o cofre do casino, Tony aproveita uma vez mais o pânico instalado para se transformar no Homem de Ferro. Os vilões, no entanto, não se deixam intimidar e o Vingador Dourado fica à mercê dos seus poderes combinados. Ouvindo-os comentar entre si que um tal Hammer lhes ordenara que não o matassem.
Antes que consiga, porém, processar esta informação, o Vingador Dourado é salvo in extremis pela corajosa e eficiente intervenção de Bethany Cabe. Com um disparo certeiro, a rapariga corta ao meio o chicote do Chicote Negro quando se ele preparava para desferir um golpe potencialmente fatal no herói.
Uma vez subjugados os agressores, Bethany critica severamente a inépcia do Homem de Ferro em proteger Tony Stark. Após trocar rapidamente de roupa, o milionário volta descontraidamente para junto da sua acompanhante para que possam ambos continuar a desfrutar do serão.
No dia seguinte, Tony recebe e aceita o convite das Nações Unidas para que o Homem de Ferro represente a Stark Internacional na assinatura do tratado de adesão da República da Carnélia à organização. Consternado, o milionário monitoriza, em paralelo, a aquisição hostil de que a sua companhia vem sendo alvo por parte de testas-de-ferro ao serviço da SHIELD.
No final de uma cerimónia cheia de pompa e circunstância, o Homem de Ferro e o embaixador carneliano, Sergei Kotznin, posam para os fotógrafos na sede da ONU. Sem que nada o fizesse prever, o raio repulsor da luva do herói encostada às costas do diplomata é repentinamente ativado. Perante uma vasta plateia horrorizada, o Vingador Dourado comete um homicídio a sangue-frio.

Uma das imagens mais marcantes de toda a saga.
Interrogado pela Polícia, o Homem de Ferro clama inocência, justificando o sucedido com uma avaria no seu traje. Apesar do perturbado herói ser mandado em liberdade, Tony Stark é intimado pelo gabinete do mayor a entregar a armadura do seu empregado para inspeção. De coração pesado, o milionário aquiesce e nos dias que se seguem refugia-se cada vez mais no álcool.
Depois de entregar uma armadura inoperacional às autoridades, Tony e Bethany têm uma acalorada discussão sobre o papel do Homem de Ferro na Stark Internacional. Para aquietar o espírito, Tony procura uma vez mais conforto na bebida.
Ainda ébrio, o milionário desloca-se como Homem de Ferro à mansão dos Vingadores. A pedido destes, ele concorda em abandonar temporariamente a liderança da equipa. Aproveitando para receber uma lições de combate corpo a corpo com o Capitão América, precavendo assim a possibilidade de a sua armadura voltar a falhar.
É também esse o motivo que leva Tony a contratar Scott Lang (o segundo Homem-Formiga) para uma arriscada missão: infiltrar-se na prisão para onde foi levado Chicote Negro e arrancar-lhe informações sobre o seu misterioso empregador.
Na posse de novos dados sobre o seu némesis, Tony, acompanhado por Jim Rhodes (seu piloto e amigo), ruma ao principado do Mónaco. Seguindo uma pista fornecida pelo Chicote Negro, os dois localizam o esconderijo de Justin Hammer. Sendo, no entanto, atacados e deixados fora de combate pelos mercenários ao serviço deste antes que consigam penetrar nas instalações.
Abandonado numa praia deserta, Jim Rhodes é detido pela polícia monegasca e levado para interrogatório. Tony, por sua vez, acorda na sumptuosa villa de Justin Hammer, com quem fica finalmente mano a mano.
O vilão revela-lhe ser ele o responsável pelas recentes avarias na armadura do Homem de Ferro que, entre outras coisas, resultaram na morte do embaixador carneliano. Questionado por Tony sobre os motivos de tanto rancor em relação a si, Hammer explica-lhe que tudo se resume a uma vingança. Na origem da qual estivera um suposto favorecimento da Stark Internacional num lucrativo negócio na República da Carnélia em que as Indústrias Hammer também eram parte interessada.
Apostado em causar o maior prejuízo possível ao conglomerado de Stark, Hammer ordenara aos seus engenheiros que sabotassem os circuitos internos da armadura do Homem de Ferro, obtendo controlo remoto sobre ela.

Justin Hammer. o rosto por trás do infortúnio de Tony Stark.
Aproveitando uma distração momentânea dos seus captores, Tony consegue escapulir-se e escala um dos altos muros que cercam a propriedade. Apenas para descobrir que esta é na verdade uma ilha artificial sem escapatória possível.
Novamente feito prisioneiro, Tony consegue no entanto evadir-se depois de ludibriar um dos guardas. Alertado da fuga, Hammer convoca o seu contingente particular de supervilões (constituído por Discus, Matadora, Constritor, Besouro, Mago das Águas, Estilete, Porco-Espinho e Homem-Sapo) para localizar e recapturar Stark. Este recupera entretanto a sua pasta de executivo contendo a armadura do Homem de Ferro que lhe fora confiscada pelos esbirros de Hammer. Trocando rapidamente de roupa, o herói derrota sem apelo nem agravo os criminosos fantasiados e segue na peugada do vilão.
Persuadida da veracidade do relato apresentado por Jim Rhodes, a polícia monegasca envia uma esquadrilha de helicópteros armados para atacar a base flutuante de Hammer. O vilão consegue contudo escapar e o Homem de Ferro usa todo o poder da sua armadura para afundar a ilha.
Apesar desta vitória, uma vez regressado a casa, Tony Stark continua a embriagar-se com cada vez maior frequência. Certa noite, ao chegar à mansão dos Vingadores com uma acompanhante de ocasião, destrata o mordomo Jarvis. Que, logo ao raiar do dia, lhe apresenta a sua carta de demissão.
Continuando a beber para esquecer os problemas, Tony é confrontado por Bethany Cabe. Que lhe confidencia como a toxicodependência do seu ex-marido destruíra o seu casamento e, em última análise, o matara. Emocionado com o dramático relato da namorada, Tony admite o seu problema com a bebida e pede-lhe ajuda para enfrentá-lo.

Quando os problemas apertavam, Tony Stark bebia coragem líquida.
Com resultados desastrosos.

Empenhado em reparar os seus erros, o primeiro passo de Tony é apresentar um sentido pedido de desculpas a Jarvis. O mordomo, comovido, aceita regressar ao serviço. Não sem antes lhe confidenciar que, por ter a mãe gravemente doente e julgando-se desempregado, se vira na contingência de penhorar o seu pequeno lote de ações da Stark Internacional para financiar o tratamento médico requerido.
Receando que as ações acabem em mãos erradas, Tony tenta debalde reavê-las. Dessa frustração resulta um impulso quase irreprimível de voltar a beber. Apanhado em flagrante por Bethany Cabe, ele consegue resistir à tentação e mantém o seu demónio interior preso dentro da garrafa.

Lado a lado, passo a passo,
Tony e Bethany vencem a batalha contra o vício.
Apontamentos: 

* Casino Fatale (título do quarto episódio da saga, publicado em Iron Man nº123) é, provavelmente, uma referência à novela de Ian Fleming - Casino Royale -  e ao filme homónimo de James Bond que, em 2006, estreou nas salas de cinema de todo o mundo;
* A carta de demissão apresentada por Jarvis no penúltimo capítulo da história contém duas gafes. A primeira das quais está relacionada com o apelido do fiel mordomo dos Vingadores, que nela surge ilegível. Em consequência disso, seria mais tarde estabelecido que o nome próprio da personagem seria Edwin, assim promovendo Jarvis a apelido. O segundo equívoco suscitado pela citada missiva prende-se com o facto de David Michelinie nunca ter tido a intenção de incluí-la na história. Isto porque, conforme seria explicado na secção de correspondência de Iron Man nº130, a carta foi adaptada de uma minuta oficial da Marvel;

Jarvis apresenta a Tony Stark
a sua polémica carta de demissão.

* Na derradeira página de Iron Man nº128, é legível a inscrição "So Long JR!" num pedaço de papel espalhado sobre a secretária de Tony Stark. Foi a forma que a restante equipa criativa encontrou de se despedir de John Romita, Jr. que, nessa edição, dizia adeus às histórias do Vingador Dourado;
* No fundo da garrafa de uísque retratada na capa dessa mesma edição é possível ler "Coming Soon Jeremy Bingham", numa alusão ao artista que sucederia a Romita a partir do 131º número da série regular do Homem de Ferro;
* Jon Favreau, realizador de Iron Man (2008) e Iron Man 2 (2010), observou que a cena neste último na qual Tony emborca copo atrás de copo numa festa - motivando dessa forma a intervenção de James Rhodes - foi inspirada em elementos de Demon in a Bottle. Saga que o seu sucessor na franquia, Shane Black, quis adaptar em Iron Man 3. Não tendo, contudo, recebido o aval dos Estúdios Marvel, preocupados em não ferir a suscetibilidade do seu público infanto-juvenil.

Também no cinema Tony Stark provou
 ter uma relação problemática com o álcool.

Vale a pena ler?

Não é fácil sentirmos compaixão por uma personagem como Tony Stark. Rico, inteligente, sempre rodeado de belas mulheres e um dos mais formidáveis super-heróis, ele parece ter o mundo na palma da mão. E, na maior parte das vezes, age como se o tivesse.
Provavelmente, o leitor comum sentirá maior empatia por personagens mais terra a terra como Peter Parker e o seu alter ego aracnídeo. Ambos travando - tal como a maior parte de nós, simples mortais - uma luta diária para superar os seus problemas financeiros e os seus dramas pessoais.
Antes mesmo de ser transformado num ícone da cultura pop deste século por via da sua participação no Universo Cinematográfico Marvel, Tony Stark sempre dividiu opiniões. São, pois, tantos os que o admiram como o visionário tecnológico que é como os que desprezam o seu caráter enviesado de playboy mimado. Basta ter presente, por exemplo, o papel por ele desempenhado em Civil War (refiro-me à saga original, não ao filme nela vagamente inspirado). À conta dele, não falta por aí quem, até hoje, o considere um escroque da pior laia.
Entre outros méritos, Demon in a Bottle serviu, desde logo, para injetar uma substancial dose de realismo nas histórias do Homem de Ferro. Mas também para amenizar o perfil egocêntrico e fanfarrão de Tony Stark.
Ao lidar com as consequência do alcoolismo, o habitualmente inabalável Stark toma dolorosa consciência das suas fraquezas. Que armadura alguma, por mais sofisticada que seja, poderá esconder. Habituado a enfrentar os mais poderosos oponentes, ele vê-se assim obrigado a travar uma árdua batalha contra si mesmo.
Desse fascinante duelo ao espelho resulta uma valiosa lição: um verdadeiro herói é aquele que tem coragem para combater os seus demónios interiores. Ao expor este seu lado mais humano, Tony Stark conquistou a simpatia de muitos leitores que passaram a vê-lo com outros olhos. Inclusive este humilde escriba que nunca teve em grande conta o homem dentro da reluzente armadura dessa espécie de cavaleiro andante dos tempos modernos.
À semelhança de Bruce Wayne e Batman, sempre perspetivei Tony Stark e o Homem de Ferro como duas entidades distintas. Com a diferença de que, no primeiro caso, é Batman quem se disfarça de Bruce Wayne. Já Stark criou a sua persona heroica para compensar as suas falhas de caráter.
Por conta da cativante intriga desenvolvida pela dupla Michelinie/Layton, da soberba arte de Romita, Jr. e da coragem da Marvel Comics em ter abordado um tema tão delicado numa época de ideias menos arejadas, Demon in a Bottle é, sem sombra de dúvida, um clássico da Nona Arte que merece ser (re)descoberto.


De que vale uma armadura
se o inimigo se acoita dentro de nós?

segunda-feira, 27 de junho de 2016

GALERIA DE VILÃS: TALIA AL GHUL




   Assassina de gabarito mundial, nas veias corre-lhe o sangue de um dos arqui-inimigos do Batman. Herói a quem salvou a vida em diversas ocasiões e com quem concebeu o mais recente Menino Prodígio. Alcunhada de Filha do Demónio, tem-se esmerado em fazer jus à sua reputação.

Criadores: Dennis O'Neil (história) e Bob Brown (esboços)
Licenciadora: Detective Comics (DC)
Primeira aparição: Detective Comics nº411 (maio de 1971)
Identidade civil: Talia al Ghul
Local de nascimento: Desconhecido
Parentes conhecidos: Ra's al Ghul (pai), Melisande (mãe falecida), Dusan al Ghul (irmão), Nyssa Raatko (meia-irmã), Damian Wayne (filho) e Bruce Wayne (ex-marido)
Afiliação: Líder da Leviatã, ex-líder da Liga de Assassinos e membro reserva da Sociedade Secreta de Supervilões
Base de operações: Móvel
Armas, poderes e habilidades: Comummente descrita como uma atleta de nível olímpico, Talia al Ghul é também uma atiradora de elite. Extraordinariamente destra no manuseamento tanto de armas de fogo como brancas, não depende contudo delas para cultivar a letalidade que faz dela uma assassina de renome mundial.
Apesar de muitas vezes subestimada pelos seus adversários, a sua proficiência numa vasta gama de artes marciais tornam-na uma exímia lutadora mano a mano.
Detentora de um quociente de inteligência muito superior à média, a sua eclética formação académica inclui pós-graduações em Biologia, Engenharia e Gestão Financeira, sendo também poliglota.
Sedutora por natureza, é dona de uma beleza exótica à qual nem o próprio Batman consegue resistir. Essa é, aliás, outras das armas a que Talia não hesita em lançar mão para cumprir os seus desígnios.
Em adição a tudo isto, teve a sua longevidade incrementada pelo uso reiterado do Poço de Lázaro, pertença do seu pai.


Talia al Ghul deu todo um novo significado
 ao conceito de femme fatale.

Histórico de publicação: Saída da imaginação do escritor Dennis O'Neil e do artista Bob Brown, não é por acaso que Talia al Ghul faz lembrar uma Bond Girl. Tanto as aventuras cinematográficas de 007 como as do Doutor Fu Manchu* serviram de inspiração ao desenvolvimento da personagem.Que fez a sua estreia em maio de 1971, nas páginas de Detective Comics nº411. Ainda que nessa sua primeira aparição a filha de R'as al Ghul seja referenciada apenas como Talia, servindo de emissária do pai, o qual  revelaria a sua presença somente no mês seguinte, em Batman Vol.1 nº232.
De então para cá, a Filha do Demónio já soma mais de duas centenas de aparições individuais em diversos títulos da DC, com especial incidência naqueles que têm o Cavaleiro das Trevas como cabeça de cartaz. Sem contar com as suas múltiplas adaptações a outros meios audiovisuais (ver Noutros media).

A Filha do Demónio aparentava ser uma donzela indefesa
na sua primeira aparição em Detective Comics nº411 (1971).
Retratada tanto como vilã como anti-heroína, Talia parece sentir-se confortável na pele de ambas. Outro papel de que nunca desdenhou foi o de interesse romântico do Batman. Com quem, ao longo dos anos, já viveu tórridos - porém efémeros - romances. De um dos quais resultaria o nascimento do filho de ambos: Damian Wayne, o quinto (e, de longe, o mais petulante) Menino Prodígio.
Tudo porque o diabólico pai de Talia, Ra's al Ghul**, mesmo sendo inimigo jurado do Homem-Morcego vê nele o sucessor perfeito para assumir as rédeas do seu vasto império criminoso. No entanto, face ao total desinteresse do herói em assumir o cargo, compete a Talia administrar os negócios paternos, apesar de não ser a sua única herdeira. Nyssa Raatko é sua meia-irmã e principal rival, mesmo no que aos afetos de Batman diz respeito.
Este pôde contar com a ajuda de Talia al Ghul em variadíssimas ocasiões. Tantas como aquelas em que teve a vida salva pela filha do seu némesis. Com efeito, a maior parte dos atos criminosos cometidos por Talia foram motivados mais pela sua lealdade ao pai do que por ganância ou malícia. Ambiguidade moral por que sempre pautou a sua conduta mas que, em encarnações mais recentes, tem vindo a diluir-se. Afirmando-se agora Talia cada vez mais como vilã e adversária do Cavaleiro das Trevas, tanto na sua qualidade de líder da Liga de Assassinos como integrada na Sociedade Secreta de Supervilões. Ou ainda como cérebro da Leviatã, organização terrorista subsidiária da Liga de Assassinos fundada para travar uma guerra sem quartel com a Corporação Batman.

* Personagem ficcional criada em 1933 pelo escritor britânico Sax Rohmer, já adaptada ao cinema.
** Perfil disponível em http://bdmarveldc.blogspot.pt/2012/08/nemesis-ras-al-ghul.html

Talia al Ghul: bela e letal como uma Bond Girl.

Biografia: Na adolescência, Talia al Ghul viajou pelo mundo na companhia do pai, o temido terrorista internacional Ra's al Ghul. Nessa jornada aprendeu com a sabedoria do seu progenitor ao mesmo tempo que se inteirava dos seus inúmeros negócios. Apesar de Ra's al Ghul considerar as mulheres inferiores aos homens - e, por conseguinte, indignas de serem suas herdeiras - Talia provou estar muito mais preparada do que o irmão para assumir o controlo do vasto império familiar.
Demonstrando uma extraordinária habilidade para administrar quer os negócios legítimos quer as atividades clandestinas do pai, Talia afirmou-se como a principal candidata à sua sucessão. Complexa e meticulosa, o seu primeiro encontro com o Batman ocorreu quando este a resgatou das garras do Dr. Darkk, o autoproclamado líder da Liga de Assassinos. Organização que, na verdade, prestava vassalagem a Ra's al Ghul, sendo Darkk um simples lacaio insubordinado. No final dessa história, a Filha do Demónio saldou o seu débito para com o Homem-Morcego salvando-lhe a vida. Sendo essa a primeira de muitas vezes que o faria no decurso dos anos.
Após Robin (Dick Grayson) ter sido raptado, Ra's al Ghul invadiu a Batcaverna, revelando assim conhecer os segredos mais íntimos da Dupla Dinâmica, inclusive as suas identidades secretas. Confrontado pelo Batman, o vilão pediu-lhe auxílio para encontrar Talia, também ela em paradeiro incerto. Presumindo haver uma ligação entre ambos os casos, o herói acedeu ao pedido e partiu com Ra's em busca de Talia e de Robin. Apenas para logo descobrir que tudo não passara de uma artimanha engendrada por Ra's para testar as capacidades do seu inimigo por quem a sua filha se perdera de amores.

Talia cresceu na sombra do seu diabólico pai.
No entanto, apesar de Batman ter passado com distinção no teste a que foi submetido, recusou desposar Talia e dessa forma herdar o legado de Ra's al Ghul. Decisão que deixou a Filha do Demónio de coração partido e  R'as profundamente desapontado.
Nos anos que se seguiram, Talia viveu dividida entre a sua lealdade ao pai e o seu amor pelo seu maior inimigo. Sentimento que, gradualmente, foi sendo correspondido pelo Cavaleiro das Trevas. Culminando com o casamento de ambos em Batman: Son of the Demon (1987). Esta foi, porém, tecnicamente, a segunda vez que os dois deram o nó, visto que, numa história anterior - datada de 1978 - eles já o haviam feito. Aconteceu em DC Special Series nº15 e foi uma das inconsistências produzidas pela reestruturação da cronologia da DC operada em Crise nas Infinitas Terras.
Em qualquer caso, dessas segundas núpcias de Batman e Talia resultou uma gravidez. Pouco tempo depois, o herói sobreviveu por um triz a um atentado que tinha por alvo a sua cara-metade. Ganhando consciência de que os dois nunca poderiam levar uma vida normal juntos, Talia simulou um aborto antes de exigir a dissolução do matrimónio.

Batman e Talia desfrutam das delícias conjugais
em Batman: Son of The Demon (1987).
Meses depois, foi entregue num orfanato um bebé dado secretamente à luz por Talia. Adotado por um casal estrangeiro , o menino foi batizado de Ibn al Xu'ffasch (literalmente, "Filho do Morcego" em árabe). Outra pista quanto à verdadeira origem da criança consistia  num colar de joias preciosas com que Batman presenteara Talia, e que esta deixou com o filho quando o abandonou à porta do orfanato, embrulhado apenas num pequeno cobertor.
Ainda no campo dos segredos familiares, em Batman: Death and the Maidens (história saída da pena de Greg Rucka em 2003), foi revelada a existência de uma meia-irmã de Talia al Ghul. Durante uma jornada pelo Império Russo no século XVIII, Ra's al Ghul envolvera-se com uma mulher de quem tivera uma filha a quem deu o nome de Nyssa. E que fora abandonada por Ra's num momento crucial: em pleno Holocausto, a rapariga foi torturada e teve toda a sua família exterminada num campo de concentração nazi. Deixada estéril depois de ter o útero queimado com ácido por um médico do campo, Nyssa jurou vingança em relação ao seu desnaturado pai.
Subentendendo-se que durante todos esses anos Nyssa terá recorrido ao Poço de Lázaro para incrementar a sua longevidade, a filha mais velha de Ra's al Ghul empregou a sua considerável fortuna e recursos para localizá-lo. Conquistando de seguida a confiança de Talia apenas com o intuito de usá-la como arma contra o pai de ambas.

Nyssa Raatko, a cruel meia-irmã de Talia al Ghul.
Capturada por Nyssa, Talia foi atrozmente torturada pela irmã. Que, não satisfeita, a matou repetidas vezes para, em seguida, a ressuscitar mergulhando o seu corpo sem vida no Poço de Lázaro. Traumatizada por esse horror indizível, Talia percebeu, ainda assim, que tudo fazia parte de mais um dos maquiavélicos planos de Ra's al Ghul, entretanto assassinado por Nyssa.
Na sequência da aparente morte do seu progenitor, as duas irmãs aceitaram finalmente a sua herança, dando continuidade aos planos genocidas de Ra's. Entronizada como a nova Cabeça do Demónio, Talia renegou o seu amor pelo Batman e, tal como Nyssa, passou a considerá-lo seu inimigo figadal.
Os destinos de Talia e do Cavaleiro das Trevas continuariam, porém, entrelaçados. Vários anos mais tarde, um segredo antigo voltaria para assombrar a Filha do Demónio e de caminho virar do avesso a vida do herói. Pese embora com muitas liberdades poéticas (e algum ultraje à mistura), em 2006 o escritor britânico Grant Morrison reinterpretou os acontecimentos narrados quase duas décadas antes em Batman: Son of the Demon. Nessa espécie de desdobramento tardio da história original a que foi atribuído o título Batman and Son, foi apresentada a biografia secreta de Damian Wayne, filho de Bruce Wayne e Talia al Ghul.

Sobrepujada em combate pelo próprio filho,
 o insolente Damian Wayne.
Gerado num útero artificial, o menino fora treinado pela Liga de Assassinos praticamente desde que deixara de gatinhar. Tendo também o seu caráter moldado pelo seu pérfido avô materno, que viu nele o tão almejado herdeiro para o seu império velho de séculos.
Apresentado pela mãe a um atónito Batman que, de um dia para o outro, se viu chamado a assumir responsabilidades parentais em relação a um filho cuja existência sequer conhecia, Damian assumiria pouco tempo depois o manto de Robin. Passando dessa forma a acolitar o pai na sua interminável cruzada contra o crime. Apesar de a relação entre ambos nem sempre ser pacífica por conta da petulância e da falta de compaixão evidenciadas pelo pequeno Damian.
Assumindo conservar memórias pouco vivídas da história original, Grant Morrison admitiu ter cometido algumas incongruências na sua revisitação da mesma. Começando pelo pormenor de, nesta nova versão da trama, Talia ter drogado Batman antes de abusar sexualmente dele. Circunstância que acrescentou ao já de si pouco recomendável currículo da Filha do Demónio o  anátema de predadora sexual.

Talia al Ghul entronizada como a nova Cabeça do Demónio.
Apontamentos:

* Malgrado a introdução de Talia al Ghul nos cânones da DC reportar ao período pré-Crise nas Infinitas Terras, a sua existência manteve-se intacta na sequência desses eventos. Alguns elementos da sua história pregressa poderão, contudo, ter sido modificados ou suprimidos na nova continuidade da Editoras das Lendas. Devendo, por conseguinte, ser considerados apócrifos;
*Desconhecem-se os contornos precisos da origem de Talia al Ghul revista no período pós-Crise. Na graphic novel Batman: Birth of the Demon (1992) é explicitado que a sua mãe seria uma beldade mestiça - descendente de árabes e chineses - , cujo caminho cruzara o de Ra's al Ghul durante o festival musical de Woodstock (1969). E que teria morrido em consequência de uma overdose pouco tempo depois de trazer Talia ao mundo. Narrativa que colide de frente com aquela que fora apresentada, cinco anos antes, em Batman: Son of the Demon. Nesta versão, a mãe de Talia é identificada como Melisande, tendo sido assassinada por um serviçal de Ra's. Em comum, o facto de ambas as histórias serem narradas na perspetiva de um adulto que se autodenomina Ibn al Xu'ffasch. Expressão árabe para Filho do Morcego, sugerindo, assim, que se trataria de um presumível descendente de Batman e Talia. Trata-se, todavia, de uma personagem não canónica que serviria de base à conceção de Damian Wayne e sua ulterior inserção na continuidade da DC.

Muito permanece ainda por esclarecer
 sobre o passado de Talia al Ghul.
Noutros media: Surgindo num meritório 42º lugar na lista dos 100 Maiores Vilões de Todos os Tempos organizada pelo site IGN, Talia al Ghul tem perfumado com o seu charme assassino muitas produções audiovisuais com a chancela da DC.
A sua estreia fora da banda desenhada verificou-se em 1992, num episódio da temporada inaugural de Batman: The Animated Series, intitulado Off Balance, e no qual contou com a voz emprestada de Helen Slater (atriz que interpretou  Supergirl no filme homónimo de 1984). Esta foi, contudo, a primeira de muitas participações suas em produções similares, tanto para o pequeno como para o grande ecrã. Assumindo papel preponderante no recente filme de animação estrelado pelo Homem-Morcego, Batman: Bad Blood. Lançada já este ano no circuito DVD, a película mostra-nos uma Talia totalmente amoral e mais perigosa do que nunca.
A mesma amoralidade e perigosidade que, em 2012, haviam caracterizado a sua versão cinematográfica em The Dark Knight Rises (O Cavaleiro das Trevas Renasce). Neste terceiro e último capítulo da trilogia de Batman dirigida por Chris Nolan, coube à atriz Marion Cotillard emprestar corpo à insidiosa filha de Ra's al Ghul que quase consegue varrer Gotham City do mapa. Ainda no campo da ação real, já este ano, a vilã fez um cameo na primeira temporada da série DC's Legends of Tomorrow, surgindo retratada ainda como uma criança.

Marion Cotillard , uma sedutora Talia al Ghul
em Cavaleiro das Trevas Renasce (2012).

sexta-feira, 17 de junho de 2016

EM CARTAZ: «HOMEM DE AÇO»




   Fazendo um corte radical com o passado, Zack Snyder apresentou ao mundo a sua arrojada visão do Super-Homem, num filme, onde, pela primeira vez em muito tempo, a principal ameaça não era Lex Luthor nem os cristais de kryptonita. Polarizador de opiniões, o novo conceito continua a ser tão amado quanto odiado. Serviu, ainda assim, o duplo propósito de transpor para o cinema a versão moderna do herói, lançando de caminho as bases para o Universo Estendido DC.

Título original: Man of Steel
Ano: 2013
País: Estados Unidos da América/Reino Unido
Género: Ação/Aventura/Fantasia
Duração: 143 minutos
Realização: Zack Snyder
Argumento: David S. Goyer
Elenco: Henry Cavill (Kal-El/Clark Kent/Super-Homem); Amy Adams (Lois Lane); Michael Shannon (General Zod); Antje Traue (Faora); Russell Crowe (Jor-El); Ayelet Zurer (Lara Lor-Van);Kevin Costner (Jonathan Kent); Diane Lane (Martha Kent) e Laurence Fishburne (Perry White)
Companhias produtoras: Legendary Pictures, Syncopy Films e DC Entertainment
Orçamento: 225 milhões de dólares
Receitas: 668 milhões de dólares
Distribuição: Warner Bros.

Tal como o filme de 1978,
 Man of Steel fez-nos crer que um homem pode voar.

Produção e desenvolvimento: Tomada a decisão de reiniciar a franquia cinematográfica do Super-Homem, em junho de 2008 a Warner Bros. começou a receber propostas de realizadores, argumentistas e de escritores de banda desenhada. Dentre estes últimos, Grant Morrison, Mark Waid e Geoff Jonhs foram os nomes mais sonantes a manifestar vontade de colaborar  no projeto.
Na origem dessa decisão por parte da Warner estivera a fraca prestação de Superman Returns dois anos antes. No entanto, à parte alguns contactos exploratórios com realizadores, o projeto pouco ou nada evoluiu ao longo do ano seguinte.
Até que, em agosto de 2009, uma decisão judicial restituiu 50% dos direitos da origem do Super-Homem à família de Jerry Siegel (que, com Joe Shuster, criara o herói em 1938). Esta deliberação não se revestiu, porém, de efeitos retroativos. Por conseguinte, o tribunal decretou que a Warner Bros. não devia royalties aos familiares de Siegel referentes às películas anteriormente produzidas. Em contrapartida, caso não fosse iniciada até 2011 a rodagem de um filme baseado no Homem de Aço, o clã Siegel poderia processar a Warner pela perda de receitas financeiras decorrente dessa não produção. Cláusula que teve o condão de acelerar o cronograma de um projeto que até aí não atava nem desatava.
Assim, em outubro de 2010, Zack Snyder (Watchmen) foi anunciado como o realizador de uma película que pretendia demarcar-se da franquia iniciada em 1978 com Superman, The Movie e que chegara ao fim em 2006 com Superman Returns. Snyder não foi, contudo, o único cineasta a ser sondado pela Warner, tampouco foi a primeira escolha dos produtores. Antes dele, Darren Aronofsky (Cisne Negro), Matt Reeves (Projeto Cloverfield) e até Ben Affleck (que nesse mesmo ano dirigira The Town) foram outras das hipóteses em cima da mesa.

Zack Snyder, o controverso realizador de Man of Steel.

Já a escolha do argumentista foi mais consensual. Recomendado por Chris Nolan pelo seu estupendo trabalho na trilogia do Cavaleiro das Trevas (2005-12), David S. Goyer assumiu as despesas do enredo. Privilegiando uma narrativa não linear, a história idealizada por Goyer está igualmente impregnada de elementos religiosos que remetem para a mitologia cristã. Muitos críticos viram nela uma alegoria para a Paixão de Cristo. O Super-Homem assume-se, de facto, com um salvador vindo dos céus disposto ao sacrifício supremo em prol da Humanidade. Ademais, no seu diálogo com o Professor Hamilton, o herói revela estar na Terra há 33 anos. Idade que Jesus Cristo teria aquando da sua crucificação.
Escolhido o realizador e a restante equipa, as filmagens arrancaram em agosto de 2011 em Chicago, transferindo-se depois para a Califórnia e, por fim, para Vancouver, no Canadá. Com uma duração inicialmente prevista de dois meses, a rodagem do filme só terminaria, contudo, em fevereiro do ano seguinte. Facto para o qual terá contribuído a recusa de Zack Snyder em filmar em 3D ( por conta das limitações técnicas desse formato), obrigando a uma posterior reconversão do filme.
Numa entrevista concedida à Entertainment Weekly em abril de 2013 (dois meses antes da estreia de Man of Steel), o presidente executivo da Warner, Jeff Robinov, levantou um pouco do véu acerca do filme e da sua importância para o futuro do Universo Estendido DC: "Haverá referências a outros super-heróis que não o Super-Homem porque o filme servirá de precursor de uma franquia mais abrangente. O seu tom obscuro servirá de bitola a futuras produções". Com efeito, quando Zod destrói um satélite em órbita geossincrónica, é possível ler a inscrição Wayne Enterprises, indicando a presença do Batman naquele contexto (ver Sequela).

Duas das referências a Batman em Man of Steel.

Figurino: Man of Steel apresenta um traje do Super-Homem redesenhado por James Acheson e Michael Wilkinson. Notoriamente inspirada no visual contemporâneo do herói, saído de Os Novos 52 (mas também com óbvias influências de Kingdom Come), a vestimenta preserva o esquema cromático e a icónica insígnia peitoral com um S estilizado. Adotando, no entanto, tons menos garridos  do que os tradicionalmente usados na banda desenhada e em anteriores adaptações ao pequeno e ao grande ecrã. Estética moderna que dispensa igualmente o clássico calção encarnado sobre as calças que, até 2011, fora uma das imagens de marca do herói, dentro e fora dos quadradinhos.
Por outro lado, devido ao peso excessivo que um traje real acarretaria, a armadura de combate kryptoniana envergada pelo General Zod no filme foi totalmente gerada com recurso a tecnologia digital. Garantindo dessa forma que a prestação de Michael Shannon não seria prejudicada pela  sua reduzida liberdade de movimentos.


Figurino de Man of Steel versus uniforme de Os Novos 52:
descubram as diferenças.

Enredo: Com o seu núcleo planetário altamente instável em consequência de décadas de mineração intensiva motivada pelo exaurimento dos seus recursos naturais, Krypton enfrenta um cenário de destruição iminente. Indiferente aos dramáticos avisos de Jor-El, um dos maiores cientistas kryptonianos, o Conselho Regente menospreza a ameaça e prima pela inércia.
Quando a situação se torna insustentável, Jor-El sugere uma evacuação em larga escala, a fim de salvar o maior número possível de vidas. Antes, porém, que o plano possa ser posto em marcha, o General Zod, chefe supremo da guilda militar e velho amigo de Jor-El, lidera um golpe de Estado para depor o Conselho antes que seja tarde de mais.
Pressentindo o fatídico destino de Krypton, Jor-El rouba o Códice (dispositivo que armazena o genoma kryptoniano) e infunde-o nas células do seu filho recém-nascido. Kal-El é, de resto, o primeiro bebé em séculos a ser concebido através do método tradicional de procriação, uma vez que os kryptonianos há muito se vinham reproduzindo artificialmente com recurso a câmaras de gestação que também pré-programavam a função social de cada ser nelas gerado.
Após celebrarem brevemente o nascimento do seu único filho, Jor-El e a sua esposa, Lara Lor-Van, concordam em enviá-lo para a Terra a bordo do protótipo da nave espacial projetada em segredo pelo cientista.


Jor-El e Lara: os pais biológicos do Super-Homem.
Ao descobrir o plano de Jor-El, Zod mata o seu velho amigo mas não consegue reaver o Códice. Ordena então a destruição da pequena nave que se eleva nos céus de Krypton, mas as suas forças são entretanto subjugadas pelos militares fiéis ao Conselho.
Levados a tribunal marcial, Zod e o seus subordinados são condenados por sedição e sentenciados ao exílio perpétuo na Zona Fantasma. Para estarrecimento de Lara, Zod tem ainda tempo de jurar que encontrará o filho dela, aonde quer que Jor-El o tenha enviado.
Horas depois, o núcleo de Krypton entra em convulsão, provocando a implosão do planeta. Com as gigantescas ondas de choque a libertarem acidentalmente os prisioneiros da Zona Fantasma que, assim, se convertem nos últimos sobreviventes de uma civilização extinta.
Seguindo as coordenadas programadas por Jor-El, a nave transportando Kal-El aterra nas redondezas de Smallville, uma pequena e pachorrenta cidade do Kansas. Encontrado por Jonathan e Martha Kent, um casal de modestos agricultores sem filhos, o bebé é perfilhado por eles e batizado como Clark Kent.

Jonathan e Martha Kent adotam
 o pequeno órfão vindo das estrelas.
À medida que vai crescendo e as suas extraordinárias habilidades se vão desenvolvendo, Clark é visto como uma aberração pelos seus colegas de escola. Quando a situação ameaça ficar fora de controlo, Jonathan Kent revela ao filho as suas verdadeiras origens, mostrando-lhe em seguida o local onde escondera durante todos aqueles anos o foguete espacial que o trouxera ao nosso mundo.
A pedido de Jonathan, Clark promete manter em segredo a sua origem e poderes. Promessa que cumpre mesmo quando, anos depois, vê o pai ser estraçalhado por um tornado diante dos seus olhos. Consumido pela culpa, Clark embarca numa solitária jornada que o leva a vários pontos do globo. Sempre em busca de um propósito para a sua existência, ele usa identidades falsas para conservar o anonimato mas as suas ações não passam totalmente despercebidas.
Lois Lane, uma veterana jornalista do Daily Planet, é escalada pelo seu editor, Perry White, para investigar a descoberta de uma pretensa nave extraterrestre no Ártico. Fazendo-se passar por um dos operários destacados para o local das escavações, Clark infiltra-se na nave e aciona o computador de bordo, utilizando uma chave deixada por Jor-El no seu foguete. Isso permite-lhe interagir com o holograma que serve de avatar à consciência preservada do seu pai biológico. É, pois, pela voz dele que Clark fica a saber que o seu nome verdadeiro é Kal-El e que é o Último Filho de Krypton, enviado para a Terra para servir de farol à Humanidade e evitar que o nosso planeta sofra destino idêntico ao do seu mundo natal. Sendo, para isso, presenteado com um traje cerimonial kryptoniano ostentando no peito o brasão familiar da Casa de El. Um símbolo de esperança em Krypton.

O reencontro (virtual) de pai e filho na Fortaleza da Solidão.

De repente, porém, o sistema de segurança automatizado da nave é acidentalmente acionado por Lois Lane que seguira furtivamente Clark até ao seu interior. Atingida pelos lasers de uma das sentinelas robóticas, a repórter é salva pelo filho adotivo dos Kents que usa a sua visão de calor para lhe cauterizar o ferimento. Após a partida da jovem, Clark veste pela primeira vez o uniforme de Super-Homem, ensaiando de seguida os primeiros voos no exterior da Fortaleza da Solidão.
Regressada a Metrópolis, Lois procura convencer Perry White a autorizar a publicação do seu artigo expondo a presença na Terra de um alienígena com poderes semidivinos. Em virtude da inconsistência das provas apresentadas, Perry recusa, porém, fazê-lo. Obstinada, Lois decide então rastrear os movimentos do seu misterioso salvador, acabando por localizá-lo em Smallville.
Após um breve encontro junto ao túmulo de Jonathan Kent, durante o qual Clark lhe relata a sua história, Lois compromete-se a guardar segredo sobre a sua existência.

Lois Lane, a intrépida repórter foi
 a primeira a descobrir o segredo de Clark Kent.

À deriva no espaço sideral, Zod e a sua tripulação buscam antigas colónias kryptonianas. Mas depressa concluem que nenhuma delas terá sobrevivido. Depois de terem intercetado uma transmissão de emergência feita a partir da nave encontrada por Clark no Ártico, eles deduzem que o filho de Jor-El deverá estar perto dela e traçam rota para o nosso planeta.
Chegados à órbita terrestre, os renegados kryptonianos emitem uma comunicação à escala global exigindo que Kal-El se renda, sob a ameaça de uma guerra sem quartel contra o mundo que o acolheu.
Determinado em evitar a morte de milhares de vidas inocentes, o Super-Homem resolve entregar-se ao Exército estadunidense que, por sua vez, o entrega a Faora, a lugar-tenente de Zod. Inesperadamente, Lois é também levada para bordo da espaçonave kryptoniana.
Cara a cara com o filho de Jor-El, Zod revela enfim o seu tenebroso plano: transformar a Terra num novo Krypton. Perante a recusa de Kal-El em juntar-se a ele, Zod ordena a Jax-Ur, seu consultor científico, que lhe extraia o Códice. Com o qual o vilão pretende produzir uma nova gesta de colonizadores geneticamente modificados para repovoar a Terra após o extermínio dos humanos.
No último momento, porém, o Super-Homem e Lois Lane conseguem escapar da nave graças à ajuda do holograma de Jor-El. Sem perder tempo, os dois regressam à Terra para avisar o Exército americano das reais  intenções de Zod. Este envia Faora e outro dos seus soldados para recapturar Kal-El. Seguindo-se uma violenta refrega entre o trio de kryptonianos que transformam Smallville num campo de batalha. Com a ajuda dos militares, o Super-Homem consegue levar a melhor, embora saiba estar iminente uma ameaça muito pior.
Furioso, Zod ordena o processo de terraformação. Acionados os gigantesco engenhos estrategicamente posicionados sobre Metrópolis e ao sul do Oceano Índico, a destruição assume proporções bíblicas.
Zod e seus comparsas.

Disposto a imolar-se para salvar o seu mundo adotivo, o Super-Homem consegue, a muito custo, destruir um dos engenhos, sendo o outro devolvido à Zona Fantasma por Lois Lane, graças à chave e às instruções de Jor-El.
Agora o único sobrevivente da armada kryptoniana, Zod jura vingar a morte da sua tripulação, matando o maior número possível de terráqueos. Tentando desesperadamente aplacar a fúria destruidora do seu compatriota, o Super-Homem trava com ele um combate épico nos céus de Metrópolis.
Encurralado numa estação de comboios, Zod recusa render-se e usa a sua visão de calor para tentar incinerar um pequeno grupo de passageiros. Indiferente às súplicas do Super-Homem para que poupe a vida daquelas pessoas, o vilão continua a tentar atingi-las com os seus lasers oculares, obrigando o herói a matá-lo, partindo-lhe o pescoço. Enquanto o cadáver de Zod jaz no chão, o Homem de Aço solta um lancinante grito de angústia que gela a alma de Lois Lane.
Assumindo-se publicamente como o defensor da Humanidade, o Super-Homem inutiliza um satélite usado pelos militares para monitorizá-lo e convence-os a deixarem-no operar de forma independente. Para ter acesso a informação privilegiada, Clark Kent começa, paralelamente, a trabalhar como repórter no Daily Planet. Contando com a cumplicidade de Lois Lane para manter a sua identidade secreta.


Trailer:




Curiosidades:
* Henry Cavill - o primeiro ator não americano a encarnar o Homem de Aço -  recusou recorrer ao consumo de esteroides anabolizantes ou a qualquer tipo de manipulação digital por forma a aumentar artificialmente a sua massa muscular para o papel. Optou, ao invés, por um exigente programa de preparação física nos meses que antecederam o arranque das filmagens. Programa esse que, além de um intenso trabalho de ginásio, incluiu também um rigoroso regime alimentar. Em poucas semanas, Cavill  obteve um teor de gordura corporal de apenas 7%, equivalente ao dos fisiculturistas profissionais durante as competições. O ator britânico recusou igualmente depilar o peito para as cenas em que exibia o seu tronco nu. Justificando essa recusa com a aparência viril dada por John Byrne ao Super-Homem em Man of Steel, arco de histórias que revisitou a origem do herói após Crise nas Infinitas Terras, e que serviu de inspiração ao título e a importantes segmentos da película;

O invejável porte físico
 de Henry Cavill em Man of Steel.

*No decorrer das audições para o protagonista, a equipa de produção pediu a Henry Cavill que vestisse o uniforme usado em tempos por Christopher Reeve. Apesar das cores mais vistosas e do calção vermelho por fora das calças, ninguém se riu ao vê-lo assim vestido. Segundo Zack Snyder, esse foi o momento em que teve a certeza de que Cavill era perfeito para o papel. Importa recordar que, anos antes, ele fora preterido em relação a Brandon Routh em Superman Returns (2006);
*Para enfatizar o virar de página que Man of Steel pretendeu representar na filmografia do Último Filho de Krypton, o icónico tema de abertura de John Williams foi substituído por uma partitura musical composta por Hans Zimmer. Foi a primeira vez, desde 1978, que isso aconteceu;
*Quando Jor-El escapa da sede do Conselho, é visível uma lua semidestruída no céu.Trata-se de Wegthor, um satélite natural de Krypton que, na BD original, foi destruído por uma detonação nuclear operada por Jax-Ur. Cientista renegado condenado à Zona Fantasma que, no filme, é interpretado por Mackenzie Gray (ator que, anos antes, encarnara um clone adulto de Lex Luthor num episódio de Smallville). Conforme também é explicado por Jor-El,a destruição parcial de Wegthor motivou o início da exploração espacial kryptoniana;
* Em Man of Steel, a Fortaleza da Solidão é uma astronave kryptoniana enterrada sob o  gelo do Ártico. Conceito que mistura elementos retirados de várias versões do refúgio do herói nos comics: se, por um lado, a sua localização remete para a Idade da Prata, a ideia de que se trataria de um artefacto abandonado séculos antes por exploradores kryptonianos baseia-se tanto em Adventures of Superman (1989) como em The New 52! (2011);
* O monólogo de Jonathan Kent que serve de pano de fundo ao teaser trailer do filme, é uma reprodução textual das palavras do pai adotivo de Kal-El em Superman: Secret Origin, história escrita em 2010 por Geoff Johns, sendo considerada a origem definitiva do Homem de Aço;
*Na banda desenhada World of Krypton, Zero Negro era o nome da organização terrorista responsável pela destruição de Kandor (antiga capital de Krypton) durante uma revolução pelos direitos dos clones escravizados. No filme, era esse o nome da nave do General Zod;
* Faora Ul, a lugar-tenente de Zod, fora rebatizada de Ursa em Superman (1978) e Superman II (1980), recuperando em Man of Steel o seu nome original. Ironicamente, devido ao sucesso de Ursa, a personagem seria posteriormente incorporada no Universo DC, desprovida de qualquer ligação com Faora. Papel  para o qual foi cogitada Gal Gadot, a atriz que emprestou o corpo à Mulher-Maravilha em Batman versus Superman: Dawn of  Justice (vide texto seguinte). Gadot seria, no entanto, descartada por causa da sua gravidez, recaindo a escolha sobre a germânica Antje Traue;

Ursa e Faora: separadas à nascença.
* Na versão primitiva do argumento, Zod era devolvido pelo Super-Homem à Zona Fantasma. Por insistência de Zack Snyder, a cena final entre ambos foi alterada, culminando com a morte do vilão, que teve o pescoço partido por Kal-El. Ao fazer tábua rasa do solene (e raras vezes violado) juramento do herói de nunca tirar vidas, o cineasta pretendia dessa forma que o episódio fosse um lembrete perpétuo para as ações vindouras do Homem de Aço. O resultado prático desta decisão foi, contudo, uma monumental controvérsia que reverbera até hoje nos recantos do ciberespaço, e que ameaça prologar-se até ao fim dos tempos. Com um sem número de fãs a acusarem Snyder de ter subvertido por completo a essência da personagem que é também um símbolo do que de melhor a Humanidade tem para oferecer;
* A data escolhida para a estreia de Man of Steel (junho de 2013) não foi fruto do acaso: foi nesse mês que, 75 anos antes, o Super-Homem debutara nas páginas de Action Comics nº1.
Super-Homem prestes a matar Zod
 na cena mais polémica de todo o filme.

Prémios e nomeações: Nomeado para diversos prémios nas mais variadas categorias, Man of Steel acabaria, no entanto, por arrebatar apenas três deles: um Golden Trailer Award (Melhor Póster Promocional), um MTV Award (Melhor Herói) e um New Now Next Award (Melhor Filme de Verão 2013).
Sequela: Mercê do estrepitoso sucesso de bilheteira de Homem de Aço, logo nas semanas seguintes à sua estreia mundial, Zack Snyder e David S. Goyer anunciaram os seus planos para a produção de uma sequência direta do filme, bem como de uma longa-metragem baseada na Liga da Justiça. Na edição de 2014 da Comic-Con de San Diego, Snyder confirmou que a sequela traria a inédita reunião de Batman e Super-Homem no grande ecrã.
Já depois de, em agosto de 2013, Ben Affleck  ter sido o escolhido para assumir o duplo papel de Bruce Wayne/Batman, em várias entrevistas Snyder avançou que parte substancial do enredo seria inspirada em The Dark Knight Returns (Batman, O Cavaleiro das Trevas), a aclamada saga saída da pena de Frank Miller em 1986. 
Devido ao compromisso de Goyer com outros projetos, em dezembro de 2013 Chris Terrio foi contratado para reescrever o guião do filme. Quase em simultâneo, foi oficializada a escolha da atriz e ex-Miss Israel Gal Gadot para interpretar a Mulher-Maravilha.
O título oficial da película, por outro lado, só seria revelado em maio de 2014: Batman versus Superman: Dawn of Justice (Batman versus Superman: A Origem da Justiça). Depois de várias alterações na data de estreia, esta foi confirmada para 25 de março de 2016 (EUA), em 2D, 3D e IMAX 3D.


Batman versus Superman: Dawn of Justice chegou este ano aos cinemas de todo o mundo.

Prequela: Após muitos rumores e especulações, em dezembro de 2014 foi confirmada a produção de uma série televisiva cuja trama terá lugar aproximadamente 200 anos antes dos eventos mostrados em Man of Steel. Escrita e coproduzida por David S. Goyer, Krypton deverá ir para o ar ainda este ano no canal SyFy.

Cartaz promocional de Krypton,
a série televisiva que servirá de prequela a Man of Steel.


Veredito: 73%


Precedo este meu parecer a Man of Steel com uma breve declaração de interesses (cuja obrigatoriedade deveria ser imposta aos críticos encartados): conforme certifica o título deste blogue, praticamente desde que deixei de gatinhar que elegi o Super-Homem como minha personagem favorita, cresci com os filmes do herói estrelados pelo insuperável Christopher Reeve, emocionei-me com Superman Returns e não perco uma produção dos Estúdios Marvel. Feita esta importante ressalva prévia, permitam-me então dizer de minha justiça.
Sei bem o que a crítica dita especializada (e de língua afiada) escreveu acerca deste magnífico filme: que é demasiado obscuro e violento, que lhe falta romance, que lhe falta humor e por aí fora. Curiosamente, ao seu predecessor - Superman Returns-  parecia faltar o contrário: cenas de ação e dinâmica narrativa.Sem mencionar o fastio que o romance meloso entre o herói e Lois Lane suscitou na generalidade do público. Circunstancialismos de uma película que, como é sabido, tentou fazer reviver no nosso século a versão clássica do Super-Homem saída diretamente da Idade da Prata dos comics. E que, à conta disso, se tornou num dos mais mal-amados filmes de super-heróis da história da 7ª Arte. Ou seja, muitos dos espíritos refinados que desdenham até hoje do registo realista de Man of Steel também não tinham morrido de amores pela versão romantizada do herói apresentada por Bryan Singer há precisamente uma década. Donde se conclui que, muito provavelmente, a sua implicância passará menos pelos filmes do que pelo herói em si. Fator que explica muito do que se tem dito e escrito sobre as mais recentes aventuras cinematográficas do Homem de Aço.
Quem conhece os meandros do chamado fandom super-heroístico, sabe bem quão menosprezado é o Super-Homem hoje em dia. Personagem à qual costumam ser colados adjetivos como "anacrónico", "chato" e "inútil" (citando apenas os mais lisonjeiros).
Obviamente que não foi a pensar na claque anti-Super-Homem (tampouco nos críticos que, não raro, ignoram os cânones dos super-heróis adaptados a outros meios de comunicação) que Zack Snyder pensou enquanto dirigia Man of Steel. Era nos verdadeiros fãs que ele pensava. Reforçando dessa forma o seu estatuto de filmador de histórias aos quadradinhos, granjeado com os igualmente fabulosos 300 e Watchmen.
Enquanto fã de super-heróis - e do Homem de Aço em particular - estou-lhe deveras grato por isso, visto que o resultado final me encheu as medidas. Desde logo porque se demarcou da estafada receita humorística usada pela concorrência em produções do género. Mas já lá irei.

Man of Steel representa uma nova alvorada
na história cinemática do Super-Homem.
Um dos pontos mais fortes de Man of Steel são, sem sombra de dúvida, as sequências de ação. Primorosamente coreografada e com efeitos visuais simplesmente espetaculares, a batalha final entre o Super-Homem e o General Zod fez vibrar qualquer um. Exceto, claro, os críticos e espectadores de sensibilidade delicada que viram nela um monumento à violência sem sentido. E, possivelmente, uma apologia subliminar da xenofobia, já que temos uma cidade norte-americana semidestruída pela ação de dois alienígenas.
Eu, por outro lado, além de me estar a marimbar para as patetices dos críticos, considero que, nesse quesito específico, Man of Steel bate aos pontos muitas das recentes produções da concorrência. Mas não apenas nesse. Também no que a referências ao material original concerne, este filme é muito mais rico do que algumas das mediocridades saídas dos Estúdios Marvel. Que, como fica mais evidente a cada filme lançado, se limitam a reciclar a mesma fórmula humorística, para gáudio de quem perspetiva os filmes de super-heróis como um subgénero cómico a ser consumido entre mãos-cheias de pipocas em salas de cinema a abarrotar de adolescentes.
Dito de outro modo, se não dispensam graçolas num filme de super-heróis, escusam de ver Man of Steel. Em vez de servir mais do mesmo, a DC tem-se esforçado em criar um estilo próprio, demarcando-se assim do da concorrência. O que não significa que para gostar de um terá de odiar-se o outro. Deixem isso para os pobres de espírito e para os haters (que, no fundo, são a mesmíssima coisa).
Claro que o filme não é perfeito. Nem seria de esperar que o fosse. Afinal, trata-se do primeiro capítulo de uma franquia totalmente nova. Assim, entre as principais falhas a assinalar, destaco o por vezes vertiginoso carrossel de flashbacks que, a espaços, deixam o espectador com a cabeça a andar à roda. Ligeiramente confusa e pouco inovadora, a trama de Man of Steel corresponde, bem vistas as coisas, à mescla dos enredos de Superman e Superman II, devidamente filtrada de dois clichés: Lex Luthor e kryptonita. É pois preciso recuar até 1951 (ano em que estreou Superman and the Mole Men) para encontrarmos um longa-metragem do Homem de Aço que não contasse com a presença de, pelo menos, um desses habitués nas aventuras cinematográficas do herói.
Outro aspeto negativo a salientar é a partitura musical composta por Hans Zimmer. Que, nem por sombras, possui o carisma do icónico tema de abertura que John Williams produziu para os filmes com Christopher Reeve (de quem considero Henry Cavill um digno sucessor). Aqueles que levaram toda uma geração a acreditar que um homem podia voar.Algo em que eu próprio também voltei a acreditar com Man of Steel. Prevendo, por isso, altos voos para o Universo Estendido DC.