quinta-feira, 14 de junho de 2018

ETERNOS: JERRY SIEGEL & JOE SHUSTER


  Nos dias sombrios da Grande Depressão, dois jovens sonhadores marcados pelo infortúnio deram ao mundo o seu maior herói. A glória do Super-Homem, arauto de uma nova era alçado a ícone global, apresentá-los-ia, porém, à face menos luminosa do Sonho Americano.
  No ano em que o Último Filho de Krypton comemora o seu 80º aniversário, fiquem a conhecer alguns dos maiores segredos por trás da sua criação e os dramas dos seus criadores.

À putativa capacidade de antecipar acontecimentos vindouros, próximos ou remotos, chama-se precognição ou premonição. Termos diferentes para designar algo que, desde tempos imemoriais, fascina a Humanidade: a arte de adivinhar o futuro.
Mito ou realidade, trata-se de um dom (ainda que alguns possam, legitimamente, considerá-lo uma maldição) cobiçado tanto por deuses como por reles mortais, e do qual nem o próprio Super-Homem desdenharia. Esse é, aliás, um dos talentos em falta no seu robusto catálogo de poderes e habilidades.
Também os criadores do Homem de Aço gostariam certamente de ter tido acesso a uma bola de cristal que lhes permitisse perscrutar o futuro. Esse pequeno mirante sobre o porvir poderia tê-los poupado a uma ingrata sina ditada por uma decisão precipitada. A mesma que mudaria para sempre as suas vidas e a história da Nona Arte.


Quando dois jovens do Ohio deram asas à imaginação,
nasceu um mito imorredouro.
Com efeito, se, no princípio dos anos 30 do século transato, Jerry Siegel e Joe Shuster, dois jovens judeus residentes em Cleveland (no estado norte-americano do Ohio), tivessem o poder de prever o que o Amanhã lhes reservava, as suas jornadas pessoais teriam decerto invocado menos uma longa travessia do Cabo das Tormentas.
Ambos teriam, com elevada quota de probabilidade, acumulado fortuna colossal e transformado para sempre o sistema mediático do seu país - e, quiçá, do resto do mundo. Desprovidos de talentos adivinhatórios e guiados pelos impulsos da juventude, tiveram de conformar-se com as migalhas que lhes foram atiradas. Chegando à indignidade de esmolar um módico de justiça e reconhecimento depois de terem dado aos fracos e oprimidos o seu campeão supremo.
Apenas uma das muitas amargas ironias a marcarem as vidas de Jerry Siegel e Joe Shuster, dois homens aparentemente fadados a serem protagonistas da desdita. E que, apesar de nascidos em latitudes distantes, a bússola irrequieta do destino cuidou de fazer com que os seus rumos convergissem. Vidas cruzadas ou uma cruz partilhada?

Dois homens, um destino 

Jerome "Jerry" Siegel, o mais novo da meia dúzia de rebentos de um casal de imigrantes lituanos fugidos à miséria e ao antissemitismo, veio ao mundo a 17 de outubro de 1914, em Cleveland. O sustento da família - cujo apelido original era Segalovich - provinha de uma loja de roupa usada que o pai explorava na baixa da cidade.
Escassos meses antes, a 10 de julho desse longínquo ano de 1914, a metrópole canadiana de Toronto servira de berço a Joseph "Joe" Shuster. Também ele filho de imigrantes judaicos - com raízes ucranianas e holandesas - o pequeno Joe tinha pai alfaiate e mãe a tempo integral. As coincidências não se quedavam, no entanto, por aí.
Jerry e Joe eram fascinados por histórias de ficção científica, lendo com avidez aquelas que, à época, eram publicadas em Amazing Stories, Weird Tales e em outras revistas pulp dedicadas ao género. Também as aventuras aos quadradinhos de Tarzan e Buck Rogers davam rédea solta à imaginação dos petizes encalhados numa infância pouco idílica.

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Duas das leituras preferidas nos verdes anos de Jerry Siegel e Joe Shuster.
Seria, de resto, essa paixão comum pelo fantástico o catalisador de uma duradoura e frutífera amizade iniciada na viragem da década de 1930, nos corredores do liceu Glenville de Cleveland. Cidade para onde a família Shuster - originalmente Shusterowich - se mudara em 1924 em busca de uma vida mais desafogada do que aquela que conhecera no Grande Vizinho do Norte. E que, entre outras coisas, obrigara o pequeno Joe a trabalhar como ardina do Toronto Daily Star a fim de contribuir para o magro orçamento familiar.
Mesmo antes de a Grande Depressão deixar a economia americana em frangalhos, a pobreza era outro denominador comum nas vidas de Jerry Siegel e Joe Shuster. Enquanto o primeiro sonhava escapar-lhe tornando-se escritor de ficção científica, o segundo vasculhava o lixo à procura de papel onde pudesse rabiscar os seus desenhos.
Tímidos e obcecados com universos de fantasia, as versões púberes de Jerry Siegel e Joe Shuster encaixavam-se perfeitamente no estereótipo nerd. Escusado será dizer que estavam longe de serem populares entre os seus pares, em especial os de sexo oposto. Duas almas solitárias reunidas por um obséquio do acaso para, juntas, darem forma aos sonhos que as ajudavam a suportar um quotidiano de agruras.

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Dois jovens visionários com infâncias difícieis
deram ao mundo o seu maior herói.
Data de 1931 uma das primeiras colaborações artísticas da parelha criativa que, antes do final dessa década, conceberia aquele que seria o primeiro super-herói. Nesse ano, Jerry Siegel e Joe Shuster produziram Groober, the Mighty, uma confessa paródia de Tarzan. Publicada no Glenville Torch, o jornal da escola que ambos frequentavam, a história evidenciava já a predileção dos seus autores por figuras corajosas e viris. No fundo, aquilo que Jerry e Joe aspiravam ser.
Terminado o liceu, Joe Shuster teve uma breve passagem pela Cleveland School of Art. Apesar desse aprendizado formal, Joe era - mais por necessidade do que por opção - um autodidata. Sem o virtuosismo artístico de Hal Foster (criador do Príncipe Valente) ou Alex Raymond*, o seu traço primava pela simplicidade, sendo notória a influência cinematográfica na composição das suas narrativas visuais.
A arte de Joe Shuster era, contudo, prejudicada pelos seus graves problemas de visão. Como o próprio revelaria em entrevistas concedidas ao longo dos anos, para ver os seus próprios desenhos, Joe precisava aproximar a página até esta ficar a um palmo da sua cara. Mercê dessas dificuldades, foi ele o inventor das chamadas splash pages, páginas preenchidas por uma única ilustração. Uma inovação narrativa que, pelo seu impacto visual, faria escola entre muitos oficiais do mesmo ofício até aos dias de hoje.
Por sua vez, Jerry Siegel, sem meios para financiar um curso superior, abraçou vários empregos mal remunerados enquanto acalentava o sonho de ganhar a vida como autor de ficção científica. Cansado de cortejar em vão as editoras, partiu dele a ideia de lançar um fanzine - um dos primeiros surgidos em terras do Tio Sam - para divulgar as histórias produzidas a meias com o seu compincha.
Com o subtítulo The Advance Guard of Future Civilization, o número inaugural de Science Fiction seria editado em outubro de 1932, e expedido por correio aos interessados. No seu rol de colaboradores ocasionais pontificaram nomes como Mort Weisinger (futuro editor dos títulos do Homem de Aço na DC Comics) e Forrest J. Ackerman (cocriador de Vampirella**).
Além das historietas saídas da pena de Jerry Siegel - e, invariavelmente, ilustradas por Joe Shuster - , cada um dos cinco fascículos publicados de Science Fiction continha ainda resenhas de outros fanzines e de livros de ficção científica. Apesar da efemeridade do projeto, seria no seu terceiro número, lançado em janeiro de 1933, que seria apresentado o protótipo do Super-Homem.
Numa história intitulada The Reign of the Superman (O Reinado do Super-Homem), Jerry Siegel e Joe Shuster mostravam como um indigente chamado Bill Dunn era transformado por um cientista inescrupuloso, com recurso a substâncias alienígenas. num poderosíssimo telepata. Habilidade que Dunn usava para manipular mentes alheias, assumindo-se como uma ameaça para a Humanidade circundante e transformando-se desse modo num dos primeiros supervilões da banda desenhada.

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Originalmente, o Super-Homem era um criminoso
com poderes mentais.
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A fisionomia de Bill Dunn (o primeiro Super-Homem)
parece ter servido de molde a Lex Luthor,
o eterno némesis do Homem de Aço.
Notoriamente inspirada em Frankenstein e com atributos muito diferentes do herói que os imortalizaria no folclore popular, esta criação de Jerry Siegel e Joe Shuster foi a primeira a ser identificada como Super-Homem. Contrariamente à tese propalada por algumas mentes bizantinas, esta nomenclatura não emanou, porém, de Assim Falou Zaratrusta. Obra da autoria de Friedrich Nietzsche editada em 1885, na qual o filósofo germânico discorria sobre as potencialidades do Übermensch" - literalmente, o "Homem Superior"; termo que seria todavia traduzido como "Super-homem".
Sucede que não consta que Jerry e Joe tenham alguma vez lido a obra em apreço ou a ela tenham aludido para explicar a origem do nome escolhido para batizar a sua criação. De facto, a sua intenção consistia, tão-somente, em inverter o arquétipo heroico de personagens mitológicas consideradas sobre-humanas, como Hércules ou Sansão. Foi, pois, esse o real motivo para o Super-Homem ter sido inicialmente retratado como um criminoso.
O público, contudo, mostrou-se pouco recetivo ao conceito de um vilão omnipotente. Apesar do seu inquestionável valor histórico, The Reign of the Superman foi, do ponto de vista literário, pouco impactante. Tratou-se, não obstante, da primeira investida dos autores na ideia de um ser superpoderoso, ulteriormente transmutado de vilão para herói. Roupagens com que seria apresentado aos editores de revistas de banda desenhada - os famosos comics. Numa época em que este novo veículo de comunicação de massas se começava a afirmar no panorama mediático estadunidense.

Super-Homem renascido

Após extinguirem o seu fanzine, Jerry Siegel e Joe Shuster resolveram tentar a sua sorte na florescente indústria dos quadradinhos. Importa ter presente que, até meados da década de 1930, era no formato de tiras diárias na imprensa que heróis clássicos como Tarzan, Mandrake ou Flash Gordon tinham as suas histórias publicadas. Obrigando dessa forma os leitores a esperarem até ao dia seguinte para acompanhar o próximo episódio romanesco dos seus ídolos.
Ora tudo isso mudaria com o advento dos comic books. Que, além de apresentarem histórias completas, podiam também ser colecionados. Se, numa fase inicial, as revistas incluíam, essencialmente, republicações de tiras e outro material preexistente, o sucesso comercial do novo formato logo ditaria a necessidade de personagens e histórias inéditas.
Atentos à evolução do mercado editorial, Jerry Siegel e Joe Shuster, com o entusiasmo próprio da juventude, imaginaram que poderiam encontrar nos comics o espaço ideal para desenvolverem as suas atividades.
Os dois haviam, nesse ínterim, reformulado por completo o conceito do Super-Homem. De vilão com talentos telepáticos, a personagem passara a um vigoroso herói - embora ainda sem superpoderes.
Sem delongas, os dois amigos apresentaram a renovada versão do Super-Homem à Consolidated Book Publishers, editora com sede em Chicago interessada em lançar uma linha de comics, e que procurava por isso matéria-prima para o seu projeto.
Intitulada The Superman, a obra de Jerry Siegel e Joe Shuster apresentada à Consolidated consistia numa revista completa, da qual sobraria apenas a capa chamuscada. As restantes páginas foram queimadas por um enraivecido Joe Shuster depois de a editora ter encerrado inopinadamente o seu departamento de quadradinhos.

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Um dos primeiros esboços do Super-Homem
saído do lápis de Joe Shuster em 1936.

Gorada essa primeira tentativa de publicação, a ideia de uma banda desenhada protagonizada por um ser superpoderoso seria temporariamente posta de lado, mas não descartada. Cerca de um ano depois, Jerry Siegel, o sempre laborioso escriba da dupla, propôs ao colega o reaproveitamento do Super-Homem numa tira diária a ser oferecida aos syndicates que forneciam esse tipo de material aos jornais.
Apesar dos reveses anteriores, Joe Shuster deixou-se uma vez mais contagiar pelo entusiasmo do amigo e deitou, de pronto, mãos à obra. Desenhando de forma quase febril, em pouco tempo tinha prontas para publicação várias tiras daquele que viria a ser um dos mais importantes ícones da  cultura pop mundial.
O resultado final afigurou-se bastante satisfatório aos olhos dos dois jovens autores. Nos meses seguintes, enviaram o seu trabalho a uma caterva de editores, colecionando recusa atrás de recusa.
Em 1934, por exemplo, o pacote que haviam remetido para a revista Famous Funnies foi-lhes devolvido sem sequer ter sido aberto. Ainda nesse ano, Jerry Siegel e Joe Shuster encetaram negociações com a editora Super Magazine, mas não chegaram a acordo sobre os termos contratuais.
Seria apenas no final de 1937 que a sorte dos dois amigos começaria a mudar. M.C. Gaines, que rejeitara o Super-Homem quando trabalhava para a Dell Comics, indicou-o para um novo título em produção para a National Allied Publications, uma das editoras que estaria na génese da DC Comics.
Nessa época, Jerry e Joe já não eram propriamente neófitos no ramo dos comics ou completamente desconhecidos para a National. Desde outubro de 1935 que ambos vinham colaborando regularmente em algumas publicações da editora, iniciadas por meio de duas personagens da sua autoria: Henri Duval of France, Famed Soldier of Fortune (um garboso aventureiro gaulês) e Doctor Occult, the Ghost Detective (um investigador paranormal que alguns historiadores classificam como o primeiro super-herói da DC).

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Um dos primeiros trabalhos profissionais
 de Jerry Siegel e Joe Shuster.

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Outra criação da dupla Siegel/Shuster, o Dr. Oculto é
considerado o primeiro super-herói da DC.
Estas e outras criações bem-sucedidas encorajaram Jerry Siegel e Joe Shuster a aperfeiçoar o Super-Homem. Agora retratado como o último sobrevivente do planeta Krypton, o herói ganhara  entretanto um uniforme colorido (inspirado na indumentária circense), uma identidade secreta (Clark Kent, o timorato repórter tirado a papel químico de Joe Shuster), uma cidade (Metrópolis, inspirada no filme homónimo de Fritz Lang) e uma namorada (Lois Lane, a quem Joanne Siegel, a segunda esposa de Jerry, serviu de modelo).
Apesar de ainda não voar (limitava-se originalmente a pular muito alto), o Super-Homem possuía já força descomunal e era virtualmente invulnerável. Ao longo dos anos foi consensualizado que esta sua característica refletia a influência de Gladiator, novela de ficção científica da autoria de Philip Wylie dada à estampa em 1930. Poderá existir, no entanto, outra explicação para Jerry Siegel ter imaginado uma personagem indestrutível.
Episódio ainda envolto em denso mistério, em junho de 1932 o pai de Jerry Siegel morrera durante um assalto à sua loja de roupa usada. Várias testemunhas garantiram às autoridades terem sido disparados tiros. No entanto, a causa oficial da morte apresentada no relatório da autópsia foi um ataque cardíaco.
Em meio século de entrevistas, Jerry Siegel nunca fez qualquer menção ao sucedido. Interrogo-me, no entanto, se terá sido mera coincidência um jovem órfão ter criado um herói à prova de bala e empenhado em fazer justiça pelas próprias mãos depois de o pai ter morrido durante um assalto?
Conjeturas à parte, em junho de 1938 aterrava nas bancas norte-americanas Action Comics nº1, trazendo na capa ninguém menos do que o Super-Homem. Fora ele o escolhido para apadrinhar o lançamento do novo título mensal da agora denominada Detective Comics, Inc. Estava desbravado o caminho para a fama e fortuna dos dois jovens idealistas do Ohio que o haviam criado.

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Action Comics nº1, a histórica edição
 que apresentou o Super-Homem ao mundo, em junho de 1938.

Arautos de uma nova era

O Super-Homem foi um sucesso imediato. Não demorou a que os editores percebessem que era ele, e não Action Comics, que os leitores procuravam freneticamente nas bancas e escaparates espalhados pelo país. Antes mesmo de completar um ano de publicação, o Último Filho de Krypton era o soberano absoluto das vendas, atingindo meio milhão de exemplares de tiragem - cifra que duplicaria nos anos imediatos.
Mercê desses momentos tonitruantes do Homem de Aço, em junho de 1939 - precisamente um ano após a sua estreia - chegava às bancas o primeiro número de Superman. De ora em diante, para gáudio de uma audiência que aumentava de tamanho de mês para mês, o herói desdobrar-se-ia entre o seu título em nome próprio e Action Comics. Foi, de resto, o primeiro a fazê-lo.

Com o lançamento de Superman nº1, em junho de 1939, o
Homem de Aço tornou-se o primeiro super-herói a
estrelar duas séries periódicas.
Apesar desse registo impressionante, o maior mérito do Super-Homem foi ficar inextrincavelmente ligado à proposição de um novo género narrativo que doravante se confundiria com os comics. A criação de Jerry Siegel e Joe Shuster serviu, com efeito, de matriz a um miríade de justiceiros fantasiados a que se convencionou chamar "super-heróis". Conceito que se tornaria predominante na indústria dos quadradinhos, concorrendo em larga medida para a sua prosperidade no período conhecido como Idade de Ouro da banda desenhada. E que teve em Jerry Siegel e Joe Shuster os seus principais arautos.
Na sua qualidade de proponentes dessa nova ordem narrativa, Jerry Siegel e Joe Shuster foram os primeiros profissionais diretamente beneficiados por ela, atingindo rapidamente a fama e o prestígio com que haviam sonhado desde as suas empreitadas juvenis. Mas, contrariamente ao que seria de supor, não enriqueceram à boleia do retumbante sucesso da sua criação. Em vez disso, seriam apresentados ao reverso do Sonho Americano, do qual, enquanto, imigrantes bem-sucedidos, eram representações vivas.

Reveses da fortuna

Ansiosos por garantirem finalmente a publicação do Super-Homem, Jerry Siegel e Joe Shuster haviam vendido ao desbarato - uns míseros 130 dólares - a sua primeira história. Longe de imaginarem o filão que tinham em mãos, concordaram igualmente com a venda de todos os direitos sobre a personagem. Tal como observei no terceiro parágrafo deste artigo, uma bola de cristal teria vindo mesmo a calhar para prevenir um negócio que se revelaria ruinoso para os criadores do Homem de Aço.
Em 1946, insatisfeitos com a exígua parcela que lhes cabia no latifúndio proporcionado pelas aplicações mercantis da sua criação, Jerry Siegel e Joe Shuster interpuseram um processo judicial a fim de exigirem à DC aquilo que consideravam ser o seu justo quinhão. Disputa que seria, porém, vencida pela empresa um par de anos volvidos.
Aos olhos da Justiça norte-americana, os criadores do Super-Homem não detinham qualquer direito de propriedade sobre a personagem, porquanto tinham aberto mão dela em favor da editora responsável pela sua publicação e licenciamento.
Jerry e Joe receberiam, contudo, 100 mil dólares ao abrigo de um acordo extrajudicial em que renunciavam definitivamente aos direitos sobre o Super-Homem e seus derivados. Seguindo-se a sua inapelável exoneração do corpo criativo da Editora das Lendas.
Expropriados da sua criação máxima e com os seus méritos dispensados pela DC, os "pais" do Super-Homem ensaiaram ainda um regresso à ribalta. Agora ao serviço da Magazine Enterprises, em 1948 criaram Funnyman. Uma rábula ao género super-heroico cujo resultado ficou, porém, muito aquém do esperado.

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Funnyman foi o último trabalho conjunto da dupla Siegel/Shuster.
Nos anos seguintes, Jerry Siegel assumiu as funções de diretor artístico da Ziff Comics antes de, no final da década de 1950, regressar à DC. Período durante o qual voltou a escrever histórias do Super-Homem não sendo, contudo, creditado por elas. Coincidindo esta fase com o lançamento de The Adventures of Superman, a lucrativa primeira série televisiva do Homem de Aço estrelada por George Reeves.
Tal como em outras produções prévias, os nomes de Siegel e Shuster não constavam da respetiva ficha técnica. À ausência de dividendos, somava-se, assim, o vexame de quem havia criado uma máquina de fazer dinheiro.
Ao mesmo tempo que prosseguia a sua campanha judicial com vista à recuperação dos direitos do Super-Homem, ao longo dos anos 1960 Jerry Siegel passou por diversas concorrentes da DC, entre as quais a Marvel Comics, a Charlton Comics*** e até a italiana Mondadori Editore.
A carreira de Joe Shuster como ilustrador foi, no entanto, mais curta. Após uma passagem meteórica pela Charlton, desenhou durante algum tempo histórias eróticas para a revista Night Terror antes de a sua quase cegueira ditar a procura por novo ofício. O momento mais triste da sua vida - já de si marcada por sucessivas desventuras - ocorreu precisamente nesta época.

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Uma das bandas desenhadas para adultos com arte de Joe Shuster.

A trabalhar como carteiro, Joe, numa daquelas dramáticas piruetas do destino, era frequentemente obrigado a entregar correspondência no edifício-sede da DC, onde - seguramente de coração pesado - via artistas mais jovens a desenharem as histórias do herói que ele tinha ajudado a criar.
O pungente drama pessoal de Joe Shuster provocou a indignação de muitos colegas de profissão que se solidarizaram com a sua luta para que lhe fosse atribuída uma pensão decente por parte da DC. A editora, no entanto, respondeu com gélida indiferença aos apelos que lhe foram sendo dirigidos para que se compadecesse da situação do seu ex-colaborador. Do ponto de vista dos mandachuvas da DC, a empresa não tinha qualquer obrigação legal - tampouco moral -  de o fazer.
Com os seus nomes simplesmente obliterados dos créditos das revistas do Super-Homem, bem como da galáxia de produtos licenciados, a história dos criadores do Homem de Aço poderia ter tido um desfecho ainda mais lúgubre não fosse pela corajosa decisão de Jerry Siegel de empreender uma campanha de relações públicas em 1975. No ano em que a DC anunciou, com pompa e circunstância, a sua intenção de produzir uma longa-metragem do Super-Homem para assinalar o 40º aniversário do herói, Jerry recorreu à imprensa para denunciar o tratamento indigno que lhe vinha sendo aplicado e a Joe Shuster por parte da Editora das Lendas.

Em nome da Verdade e da Justiça

Receosa das repercussões negativas decorrentes da campanha de Jerry Siegel, em especial no que ao desempenho comercial do filme dizia respeito, a DC concordou com a atribuição de uma pensão vitalícia de 30 mil dólares anuais a cada um dos criadores da sua galinha dos ovos de ouro. Comprometendo-se de igual modo a reconhecer formalmente os direitos autorais de Jerry Siegel e  Joe Shuster em todas as publicações e merchandising afetos ao Super-Homem.
Em termos económicos era assim feito um módico de justiça aos autores, conquanto o valor em questão representasse uma ninharia se comparado com o manancial financeiro proporcionado pelo Super-Homem. Mais importante do que a compensação material era, porém, a reparação moral, pois a partir desse momento Jerry e Joe puderam gozar do respeito e admiração dos seus pares. Sem falar na legião de fãs que, um pouco por todo o mundo, acompanhavam com devoção religiosa as aventuras do Homem do Amanhã nascido há 80 anos da imaginação de dois jovens desajustados do Ohio.
Vítima de cegueira nos últimos anos de vida, Joe Shuster despediu-se do mundo a 30 de julho de 1992. Jerry Siegel sobreviveu-lhe apenas quatro anos, fulminado em 1996 por um ataque cardíaco. Depois de uma vida passada à sombra do magnífico legado do Super-Homem - entretanto alçado a ícone global - gosto de imaginar que os dois velhos amigos se terão reencontrado num lugar melhor.
Contudo, logo após o falecimento de Jerry Siegel, a sua mulher e filhos voltaram aos tribunais, determinados a reaver todos os direitos sobre o Super-Homem. Após uma longa e onerosa guerra judicial, a Justiça americana deliberou que os copyrights do Homem de Aço pertencem agora aos herdeiros de Siegel, e  não mais à Warner Bros., atual proprietária da DC Comics.
Uma sentença histórica que estipulou ainda que os Siegels terão direito a todos os proventos relacionados com o licenciamento do Super-Homem após 1999. Data a partir da qual nos créditos das revistas do herói passou a figurar a legenda informativa "Super-Homem criado por Jerry Siegel e Joe Shuster. Por um acordo especial com a família de Jerry Siegel". Joe Shuster não teve filhos e, portanto, não deixou herdeiros que pudessem beneficiar desse acordo.
A consagração definitiva dos criadores do Super-Homem só aconteceria, porém, já este século. Em 2005, Jerry Siegel recebeu postumamente o Bill Finger Award for Excellence in Comic Book Writing, ao passo que Joe Shuster teve o seu nome inserido no Canadian Comic Book Hall of Fame. Foram também criados os Joe Shuster Awards for Canadian Book Creators, galardões concedidos anualmente aos autores canadianos que, pelo seu mérito, se destacam na Nona Arte.
Um reconhecimento serôdio mas mais do que merecido aos dois homens que deram ao mundo o seu maior herói. E a quem, por meio deste artigo, presto a minha singela, porém sentida, homenagem. Jerry e Joe, onde quer que estejam um grande bem-haja por tudo. Mesmo em tempos ensombrados pelo desalento e pela incerteza, o Super-Homem será sempre um farol de esperança a alumiar a Humanidade.

Jerry Siegel e Joe Shuster fizeram-nos acreditar
que um homem pode voar.

*http://bdmarveldc.blogspot.com/2017/12/eternos-alex-raymond-1909-1956.html
**http://bdmarveldc.blogspot.com/2017/07/heroinas-em-acao-vampirella.html
***http://bdmarveldc.blogspot.com/2018/03/fabricas-de-mitos-charlton-comics.html

Agradecimento muito especial ao meu mui talentoso amigo Emerson Andrade que, com a bonomia com que sempre acede aos meus pedidos, restaurou digitalmente a imagem que serve de ilustração principal a este artigo, associando-se dessa forma à homenagem que nele é rendida aos criadores do maior herói de todos os tempos. 































































































quarta-feira, 23 de maio de 2018

HEROÍNAS EM AÇÃO: VIÚVA NEGRA


  Outrora uma espia soviética com licença para seduzir, levou paixões ao rubro na mais fria das guerras. Nos Vingadores, lutou ao lado de velhos inimigos e tomou o gosto pelo heroísmo. Redimir-se dos seus pecados é a sua nova e solitária missão. 

Denominação original: Black Widow 
Licenciadora: Marvel Comics 
Criadores: Stan Lee (editor), Don Rico (história) e Don Heck (arte conceitual)
Estreia: Tales of Suspense nº52 (abril de 1964)
Identidade civil: Natalia Alianovna Romanova (vulgo Natasha Romanoff)
Espécie: Humana
Local de nascimento: Estalinegrado, URSS (atual Volvogrado, na Rússia)
Parentes conhecidos: Mãe anónima, Ivan Petrovitch Bezukhov (pai adotivo), Vindiktor (presumível irmão, falecido)  Alexei Shostakov/Guardião Vermelho (ex-marido)
Ocupação: Aventureira, mercenária e assassina profissional. Abraçou em tempos uma efémera carreira como estilista e foi professora sob disfarce.
Base operacional: De bússola irrequieta, Natasha Romanoff é uma verdadeira cidadã do mundo. Moscovo, Nova Iorque e Los Angeles foram algumas das metrópoles onde, a solo ou integrada em coletivos, a Viúva Negra esteve hospedada. 
Afiliações: Ex-agente da KGB; ex-operacional e diretora interina da SHIELD; ex-líder dos Campeões; ex-membro dos Vingadores e dos Vingadores Secretos (adstritos à SHIELD). Presentemente, prefere operar por conta própria ou em ocasionais parcerias com o Soldado Invernal.
Armas, poderes e habilidades: Atleta de nível olímpico. Mestre de artes marciais. Perita em disfarce. Atiradora exímia. Treinada desde o início da puberdade para ser uma espia de classe mundial e uma assassina implacável, a Viúva Negra possui uma vasta gama de recursos e talentos que fazem dela uma das mulheres mais letais do planeta.
Durante a sua passagem pela Sala Vermelha, o programa ultrassecreto da KGB (ver Origem e Evolução), Natasha recebeu uma variação do Soro do Super-Soldado, a fórmula que transformara Steve Rogers no Capitão América. Em virtude disso, ela teve as suas capacidades físicas e cognitivas quimicamente aprimoradas.
A fisiologia artificialmente incrementada da Viúva Negra torna-a capaz de executar proezas sobre-humanas, uma vez que possui força, agilidade e reflexos acima da média. No entanto, o efeito mais extraordinário dessa biotecnologia consiste no retardamento do envelhecimento (apesar da sua aparência jovial, Natasha é na verdade uma nonagenária) e consequente aumento da longevidade. Graças às suas propriedades regenerativas, Natasha consegue cicatrizar cinco vezes mais depressa do que um humano normal, sendo também menos suscetível a doenças e infeções.
Conjugando a sua exuberante sensualidade com apuradas técnicas de sedução, a Viúva Negra é irresistível para o sexo oposto, sendo uma hábil manipuladora de vontades masculinas.
Extremamente eficiente na recolha e processamento de informações, a Viúva Negra é também uma excelente estratega com comprovada capacidade de liderança mesmo nas situações mais adversas.
Ferramenta imprescindível para as suas missões de infiltração em território estrangeiro, o multilinguismo é outra das habilidades da Viúva Negra - fluente em russo, inglês, francês, mandarim e vários outros idiomas. É ainda uma talentosa hacker e programadora, o que lhe permite piratear facilmente qualquer computador ou sistema informático.

Durante vários anos, Natasha Romanoff foi submetida
 a um rigoroso programa de treino na Sala Vermelha.
Produzido a partir de um tecido especial desenvolvido por cientistas soviéticos, o uniforme da Viúva Negra foi concebido para resistir a altas temperaturas e até a projéteis de pequeno calibre. As ventosas que apetrecham a indumentária permitem-lhe, à imagem da aranha que lhe dá nome, escalar paredes e aderir a uma grande variedade de superfícies.
Sempre que a missão o justifica, a Viúva Negra utiliza armas de fogo, facas balísticas e/ou explosivos plásticos em complemento ao pequeno arsenal embutido no seu traje. Entre este destacam-se as suas braceletes que, além de um fino cabo de aço, lhe permitem também disparar uma potente rajada elétrica equivalente a 30 mil volts. A curta distância, a chamada Picada da Viúva é suficiente para atordoar um meta-humano superpoderoso.
Percecionada muitas vezes como o elo mais fraco dos Vingadores, a Viúva Negra tira partido desse menosprezo para surpreender os seus oponentes.

Até um meta-humano pode ser desestabilizado pela Picada da Viúva,
a mais icónica das armas do arsenal da ex-agente do KGB.
Fraquezas: Além de todas as limitações e vulnerabilidades inerentes à sua condição de simples humana, a variante do Soro do Super-soldado responsável pelo aprimoramento físico e pelo incremento da longevidade da Viúva Negra teve como efeito colateral a infertilidade. Razão pela qual  Natasha está impossibilitada de gerar descendência biológica.

Histórico de publicação

Inicialmente uma espia soviética enviada sob disfarce para os EUA com a missão de se infiltrar nas Indústrias Stark, a Viúva Negra fez a sua primeira aparição em Tales of Suspense nº52, edição datada de abril de 1964 e que marcou o seu primeiro confronto com o Homem de Ferro, de quem a vilã idealizada por Stan Lee, Don Rico e Don Heck se tornaria adversária recorrente.
Cinco meses mais tarde, em Tales of Suspense nº59, a Viúva Negra voltaria a enfrentar o Vingador Dourado depois de ter seduzido e  recrutado o Gavião Arqueiro para a sua causa.
Apesar deste passado criminoso, o casal acabaria por reforçar as fileiras dos Vingadores. No caso da Viúva Negra, isso aconteceu em Avengers nº29 (julho de 1966).
Em 1970, a Viúva Negra obteve aquele que se tornaria o seu visual mais icónico. Numa história publicada em julho desse ano em The Amazing Spider-Man nº86, a ex-agente do KGB surgiu com cabelo ruivo e ostentando um elegante uniforme negro apetrechado com braceletes multifunções.

Ainda à paisana, a Viúva Negra fez a sua primeira aparição
 em Tales of Suspense nº52 (abril de 1964) como antagonista do Homem de Ferro.
Ainda em 1970, a Viúva Negra teve as suas primeiras aventuras a solo publicadas em Amazing Adventures, título que dividiu com os Inumanos até ao cancelamento precoce da série.
Entre novembro de 1971 e agosto de 1975, a Viúva Negra coadjuvou o Demolidor em Daredevil, o que motivou a renomeação temporária da série que, durante alguns números, se designou Daredevil and the Black Widow. Ideia que partiu de Gerry Conway*, admirador confesso das façanhas de Natasha Romanoff e que considerava existir uma química especial entre ela e o Homem Sem Medo.
Os escritores que lhe sucederam tiveram, contudo, entendimento diferente e, a partir de setembro de 1975, a Viúva Negra transitou de Daredevil para The Champions, título que acomodava as aventuras dos recém-formados Campeões.

A partir do nº81, a série do Demolidor
 foi renomeada de Daredevil and the Black Widow.
Nos anos 80 e 90 do último século, na sua dupla qualidade de Vingadora e agente freelance da SHIELD, a Viúva Negra teve breves passagens por Marvel Fanfare, Journey into Mystery e outros títulos emblemáticos da Casa das Ideias. Protagonizou também quatro minisséries e outras tantas graphic novels, a mais ovacionada das quais foi Black Widow: The Coldest War, lançada originalmente em abril de 1990, nas vésperas do colapso da União Soviética.
Em 2010, à boleia da sua introdução no Universo Cinemático da Marvel - ocorrida em Homem de Ferro 2 (ver Noutros media) -, a Viúva Negra ganhou nova série em nome próprio, participando paralelamente em Secret Avengers.
Mais recentemente, entre maio de 2016 e maio de 2017 - e já depois de ter sido cabeça de cartaz de várias minisséries e volumes especiais- , a heroína russa teve direito a nova série epónima, na esteira dos eventos narrados em Secret Wars.

O número final da mais recente série da Viúva Negra
 chegou às bancas americanas em maio de 2017.

Origem e evolução

Adensando ainda mais a aura de mistério ao redor do seu passado, existem relatos díspares acerca da origem da Viúva Negra.
De acordo com um deles, Natasha Romanoff e a mãe estariam encurraladas num prédio em chamas quando foram encontradas por Ivan Petrovitch, um soldado soviético que procurava sobreviventes no rescaldo da Batalha de Estalinegrado.
Num ato desesperado para salvar a vida da filha, antes de ser tragada pelas chamas a mãe de Natasha tê-la-á atirado pela janela diretamente para os braços de Ivan Petrovitch. Que, sentindo-se responsável pela pequena órfã, a perfilhou e acompanhou o resto da vida, tornando-se seu motorista na idade adulta.
Ansiosa por servir o seu país, ainda adolescente Natasha terá sido recrutada pela KGB, da qual viria a ser uma das suas operativas de topo.

Na escola de espiões da KGB, Natasha foi uma aluna exemplar.
Num outro relato introduzido retroativamente, após um périplo pela Europa devastada do pós-guerra na companhia de Ivan Petrovitch, Natasha terá sido recrutada para a Sala Vermelha. Nesse programa ultrassecreto da KGB, a jovem terá sido treinada para ser uma espia-mor e psicologicamente condicionada com recurso a sofisticadas técnicas de lavagem cerebral - que incluíam a implantação de falsas memórias.
Durante o seu estágio na Sala Vermelha. Natasha terá tido como instrutor o Soldado Invernal. Foi também inoculada com uma fórmula genérica do Soro do Super-Soldado que lhe incrementou a fisiologia.
Antes de ser enviada para os EUA com a missão de se infiltrar nas Indústrias Stark, Natasha foi forçada a casar-se com Alexei Shostakov, herói de guerra que, como Guardião Vermelho, seria a resposta da União Soviética ao Capitão América.
Pouco tempo depois, Natasha foi no entanto levada a acreditar que o marido havia morrido num acidente envolvendo o protótipo de um foguete espacial.
Na sua primeira incursão em território norte-americano, a Viúva Negra assistiu Boris Turgenov (o infame Dínamo Escarlate) na sua missão de assassinar o Professor Anton Venko. Dissidente soviético e cientista brilhante, Venko estava ao serviço das Indústrias Stark, colocando o casal de espiões em rota de colisão com o Homem de Ferro.

Natalia Romanova (Earth-616) from Tales of Suspense Vol 1 52 001
Nas suas primeiras aparições, a Viúva Negra agia à paisana.
Depois de ter seduzido o Gavião Arqueiro, a Viúva Negra instigou-o a enfrentar o Vingador Dourado. Durante o confronto de ambos, Natasha foi gravemente ferida, vicissitude que levou o Gavião Arqueiro a bater em retirada para garantir a sobrevivência da amante.
Natasha vinha, contudo, planeando em segredo a sua deserção para os EUA, e os sentimentos que acalentava pelo Gavião Arqueiro fizeram-na questionar ainda mais a sua lealdade à Mãe Rússia.
Antes que se propiciasse a sua deserção, a Viúva Negra foi raptada pela KGB e levada de volta à União Soviética, onde foi objeto de nova lavagem cerebral. Findo o processo de reeducação, foi prontamente recambiada para terras do Tio Sam usando pela primeira vez um uniforme que lhe permitiria bater-se em paridade de armas com os heróis fantasiados que por lá proliferavam.

O primeiro uniforme da Viúva Negra foi um presente da KGB.
Aliada ao Espadachim e ao Poderoso, a Viúva Negra participou numa ofensiva falhada contra os Vingadores, aos quais se uniria uma vez consumada a sua deserção para os EUA. Ela e o Gavião Arqueiro engrossariam, aliás, o contingente de criminosos regenerados admitidos ao longo dos anos nas fileiras dos Heróis Mais Poderoso da Terra.
Nem sempre a Víuva Negra conseguiu, porém, observar o código de conduta dos Vingadores, que proibia expressamente o emprego de força letal. Agastada com essas restrições à sua liberdade de ação, Natasha  abandonaria o grupo.
Durante a fase em que atuou a solo, a Viúva Negra foi agente freelance da SHIELD ao mesmo tempo que combatia o crime nas ruas de Nova Iorque. Na Grande Maçã envolveu-se romanticamente com o Demolidor, de quem se tornaria parceira e amante. Os dois seriam, aliás, o primeiro casal da banda desenhada a ter uma vida em comum sem estarem unidos pelos laços do matrimónio.
Nesse período marcante da sua vida, Natasha empreendeu também uma efémera carreira como estilista.
Sentindo que o Demolidor não a tratava como igual no campo de batalha, a Viúva Negra pôs um ponto final no romance e rumou a Los Angeles. Lá, seria convidada a liderar os Campeões, um heterodoxo coletivo reunido pelos antigos X-Men Anjo e Homem de Gelo, e que contava ainda com o Motoqueiro Fantasma e Hércules.
Quando, por motivo de insolvência, os Campeões foram dissolvidos, a Viúva Negra enveredou por nova carreira a solo. Para assinalar esse virar de página na sua vida, adotou também um novo visual.

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A Viúva Negra ao lado dos Campeões (cima)
 e o novo seu visual a solo.

Anos mais tarde, a Viúva Negra voltaria, porém, a juntar-se aos Vingadores. Chegando inclusivamente a comandar o que restou da equipa quando vários dos seus membros foram dados como mortos às mãos do Devastador (Massacre, no Brasil; Onslaught, no original).
Desde o início do presente o século,  a Viúva Negra vem participando em algumas das sagas mais impactantes da Marvel. Em Guerra Civil**, por exemplo, fez parte da fação pró-registo obrigatório de superseres.
A Viúva Negra tem, no entanto, preferido trilhar o seu próprio caminho, numa jornada de redenção para os seus muitos pecados passados. Para aliviar a consciência pesada, doa parte substancial dos seus honorários de mercenária a orfanatos e outras instituições de caridade.

Uma mercenária em busca de redenção.

Uma femme fatale da Idade do Ouro

Dando de barato que esta informação constituirá uma novidade para alguns dos que me leem, importa esclarecer que o nome de código Viúva Negra nem sempre pertenceu a Natasha Romanoff. Em boa verdade, ela herdou-o de uma anti-heroína da Idade do Ouro há muito relegada para a obscuridade, apesar de algumas tentativas recentes de a resgatar de lá.
A despeito desse legado nominal, não existe contudo qualquer relação entre as duas personagens. À parte a beleza superlativa que as caracteriza, quase nada têm de facto em comum. Nacionalidades diferentes, talentos diferentes, motivações diferentes.
Mas quem era, afinal, a primeira Viúva Negra?
Claire Voyant era uma médium norte-americana que se servia dos seus poderes psíquicos para comunicar com os defuntos. Depois de ter sido possessa pelo próprio Satanás quando tentava ajudar uma família que havia contratados os seus serviços, Claire foi assassinada a sangue-frio por um dos elementos do clã, que a culpava pela desgraça que sobre ele se abatera.
Enviada para o Inferno, Claire concordou em servir o Príncipe das Trevas a troco da oportunidade de vingar a sua morte. Desígnio em que seria bem-sucedida graças ao toque mortal com que foi agraciada pelo seu tenebroso mestre.
Com efeito, uma vez restituída ao mundo dos vivos, Claire descobriu que um simples toque dos seus dedos na fronte de outra pessoas bastaria para causar-lhe morte instantânea. Esse tétrico poder ficaria conhecido como "a marca da Viúva Negra".

Claire Voyant, a primeira Viúva Negra.
A missão terrena da Viúva Negra seria, no entanto, prolongada por Satanás. Que, cansado de esperar pela morte natural dos facínoras cujas almas reclamaria, a incumbiu de acelerar o processo.
Sem o mais leve vestígio de hesitação ou remorso, a Viúva Negra passou então a matar toda a sorte de malfeitores. De mafiosos a traficantes de armas, passando por políticos corruptos todos sucumbiram aos seus encantos, e todos foram por ela condenados à danação eterna.
Se este seu traço de caráter era inato ou consequência da nefasta influência do Príncipe das Trevas, não é claro. Certo é que a crueldade com que a Viúva Negra tratava os criminosos contrastava com a compaixão que demonstrava em relação às vítimas inocentes. As quais, não raro, protegia ou até curava com recurso aos seus poderes místicos, que não se esgotavam na já mencionada "marca da Viúva Negra".
Numa época em que a femme fatale era um ícone da literatura policial e do cinema noir, também nos quadradinhos não tardou a despontar um robusto contingente dessas mulheres com tanto de belas como de perigosas. Distinguindo-se a Viúva Negra das suas congéneres pelo facto de ter sido a primeira a dispor, simultaneamente, de um uniforme e de poderes sobrenaturais.
É, pois, nesses aspetos inovadores que reside o valor histórico da personagem criada por George Kapitan (trama) e Harry Sahle (desenhos), e que fez a sua estreia em agosto de 1940, nas páginas de Mystic Comics nº4. Um dos três títulos periódicos da Timely Comics (antecessora da Marvel) onde marcou discreta presença até finais de 1943. E digo "discreta" porque, durante esse ínterim, a Viúva Negra fez apenas cinco aparições em histórias que nunca excederam as oito páginas.
Após mais de meio século votada ao ostracismo, em 2007 a Viúva Negra seria revivida em The Twelve (Os Doze), iniciativa editorial da Casa das Ideias que reintroduziu na sua continuidade vários dos justiceiros mascarados originalmente detidos pela Timely.
Apesar da sua sensualidade e motivações se manterem intactas, nesta sua versão moderna Claire Voyant assumiu a persona de Viúva Negra em 1928 (coincidentemente, a data de nascimento de Natasha Romanoff) após o assassinato da sua irmã. Sedenta de vingança, Claire aceitou ser o instrumento de uma perversa entidade que, mesmo nunca explicitamente nomeada, tudo indica que seja, uma vez mais, o próprio Satanás.

Trivialidades

*Apesar de ser ruiva natural, nas suas primeiras missões de espionagem ao serviço da KGB, era frequente a Viúva Negra tingir o seu cabelo de preto;
*Cidade natal de Natasha Romanoff, Volvogrado serviu também de berço a Sergei Kravinoff, o vilão notabilizado como Kraven, o Caçador;
*Além de ter sido casada com Alexi Shostakov (o Guardião Vermelho), o extenso currículo amoroso da Viúva Negra inclui vários outros heróis fantasiados. A saber: Clint Barton (Gavião Arqueiro), Matt Murdock (Demolidor), James Barnes (Soldado Invernal) e Hércules, com quem Natasha manteve um fugaz romance durante a fase em que capitaneou os Campeões;

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Demolidor e Viúva Negra: muito mais do que parceiros no combate ao crime.
*Ao serviço da SHIELD, a Viúva Negra foi uma operacional de nível 10. Estatuto que lhe rendeu a liderança interina da organização quando Tony Stark e Maria Hill (respetivamente, diretor e diretora-adjunta) ficaram temporariamente incapacitados;
*A pedido de Nick Fury, Natasha assumiu a identidade de Yelena Belova ( sua antiga rival e a terceira Viúva Negra) para se infiltrar nos Thunderbolts, então às ordens do perverso Norman Osborn; 
*A Viúva Negra figura em 31º lugar na lista das cem maiores beldades da banda desenhada elaborada pelo Comics Buyer's Guide Já no Top 50 de Vingadores organizado pelo site IGN, a ex-agente da KGB surge na 42ª posição;
*Black Widow: Forever Red (2015) e Black Widow: Red Vengeance (2016) são os títulos das duas novelas - ainda inéditas em português - da autoria de Margaret Sthol e que têm a Viúva Negra como protagonista;
*Rumores nunca confirmados aventavam a possibilidade de, atendendo ao seu apelido, Natasha ser filha de Anastásia Romanova, a filha do Czar Nicolau II que muitos acreditam ter sobrevivido ao massacre da família real russa na sequência da Revolução Bolchevique.

Noutros media

Por via das suas numerosas participações em animações e videojogos baseados no Universo Marvel, era já apreciável o lastro mediático da Viúva Negra antes do seu advento ao grande ecrã, em Homem de Ferro 2.
Com efeito, a sua estreia no segmento audiovisual remonta a 1966, ano em que marcou presença no trecho dedicado ao Homem de Ferro em The Marvel Super Heroes, aquela que foi a primeira série animada produzida sob os auspícios da Casa das Ideias.
Habitué noutras produções do género, já este século a Viúva Negra tem estado em grande plano em Avengers Assemble (em exibição desde 2013). Ainda no campo da animação, em 2014 coprotagonizou com o Justiceiro Avengers Confidential: Black Widow & Punisher, película lançada diretamente em vídeo.

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Uma das muitas animações da Marvel
 em que a Viúva Negra participou.
No capítulo da ação real, a introdução da Viúva Negra no Universo Cinemático Marvel foi precedida por duas tentativas fracassadas de adaptá-la ao pequeno e ao grande ecrã. A primeira registou-se em 1975, quando a heroína russa e o Demolidor foram escolhidos para protagonizar uma série televisiva nunca produzida. Angie Bowie, ex-mulher do falecido David Bowie, teria encarnado Natasha Romanoff se o projeto tivesse chegado a bom porto.
Antes da Marvel chamar a si a produção dos próprios filmes, em 2004 a Lionsgate adquiriu os direitos de adaptação da Viúva Negra, com vista ao lançamento de uma longa-metragem da heroína. Projeto que nunca saiu da gaveta em consequência do fracasso comercial de películas como Mulher-Gato e Elektra. Fiascos que levaram os responsáveis da Lionsgate a ficarem descrentes na viabilidade de filmes protagonizados por super-heroínas.

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Angie Bowie como Natasha Romanoff
 na série nunca produzida do Demolidor e da Viúva Negra.
Desde 2010 que a Viúva Negra integra a franquia cinematográfica da Marvel, onde vem sendo competentemente interpretada por Scarlett Johansson. Após a sua estreia em Homem de Ferro 2, a atriz repetiu o papel em Os Vingadores (2012), Capitão América: O Soldado Invernal (2014), Os Vingadores: Era de Ultron (2015), Capitão América: Guerra Civil (2016) e Os Vingadores: Guerra Infinita (2018), Tendo já presença confirmada na respetiva sequência, com estreia marcada para o próximo ano.
Entretanto, Kevin Feige, Presidente Executivo dos Estúdios Marvel, já manifestou reiteradas vezes  o seu interesse na produção de um filme a solo da Viúva Negra. Até à data, o projeto continua no entanto em lume brando embora conste que poderá receber luz verde num futuro próximo.
Enquanto isso não acontece, resta aos fãs da heroína russa acompanharem as suas aventuras e desventuras ao lado dos Vingadores no próximo capítulo da saga Guerra Infinita.

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De 2010 a 2016: a evolução visual da Viúva Negra cinematográfica.


* http://bdmarveldc.blogspot.pt/2016/03/eternos-gerry-conway-1952.html
** http://bdmarveldc.blogspot.pt/2016/12/classicos-revisitados-guerra-civil.html



quinta-feira, 3 de maio de 2018

RETROSPETIVA: «SUPERGIRL»


  Primeira super-heroína adaptada ao cinema, à Rapariga de Aço exigiu-se que, de um fôlego, salvasse o último vestígio de Krypton e a decadente franquia herdada do primo. Apenas uma dessas hercúleas missões foi, porém, coroada de êxito num filme em que, pela sua frescura e talento, a protagonista foi a única aposta ganha.
  
Título original: Supergirl
Ano: 1984
País: Reino Unido
Duração: 105 minutos (versão norte-americana) / 124 minutos (versão internacional)
Género: Ação/Aventura/Ficção científica
Produção: Timothy Burrill e Ilya Salkind
Realização: Jeannot Szwarc 
Argumento: David Odell 
Distribuição: TriStar Pictures (Reino Unido) / Columbia-EMI-Warner (EUA)
Elenco: Helen Slater (Kara Zor-El/Linda Lee/Supergirl); Faye Dunaway (Selena); Peter O'Toole (Zaltar); Hart Bochner (Ethan); Mia Farrow (Alura In-Ze); Brenda Vaccaro (Bianca); Peter Cook (Nigel); Simon Ward (Zor-El); Marc McClure (Jimmy Olsen) e Maureen Teefy (Lucy Lane)
Orçamento: 35 milhões de dólares
Receitas (EUA): 14,3 milhões de dólares

Anatomia de um clássico fracassado

Quando, a meio da década de 1970, os produtores Alexander e Ilya Salkind negociaram a aquisição dos direitos de adaptação do Superman ao cinema, acharam prudente incluir os da Supergirl no pacote. Com a visão que fez deles marajás de Hollywood, os Salkinds acautelaram dessa forma a possibilidade de alguma sequela ou spin-off vir a ser realizado.
Em virtude das reações negativas da crítica e do dececionante desempenho comercial de Superman III em 1983, no ano seguinte os Salkinds resolveram apostar numa longa-metragem protagonizada pela prima do Homem de Aço. A ideia seria refrescar uma franquia que começava a evidenciar sinais de decadência.
Apesar da ligação familiar entre as duas personagens, os produtores consideravam que o novo projeto exploraria uma área totalmente diversa daquela que estivera na base da até aí bem-sucedida saga cinematográfica do Último Filho de Krypton.

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Ilya (esq.) e Alexander Salkind.
Os produtores da Super-franquia são pai e filho.
Richard Lester, que dirigira Superman III e fora chamado a completar Superman II após a demissão de Richard Donner, foi o primeiro realizador a ser sondado pelos Salkinds. Perante o desinteresse de Lester em associar-se ao projeto, os produtores estudaram várias alternativas, acabando a escolha final por recair em Jeannot Szwark.
Com uma carreira construída essencialmente no pequeno ecrã, o cineasta gaulês fora recomendado pelo próprio Christopher Reeve que, em 1980, trabalhara às suas ordens no filme Somewhere in Time (Algures no Tempo).
A banda sonora, essa, teve a assinatura do veterano Jerry Goldsmith, que fez questão de homenagear algumas das memoráveis partituras compostas por John Williams para os dois primeiros filmes do Superman.

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Jeannot Szwark foi o eleito para dirigir
 a primeira longa-metragem
 protagonizada por uma super-heroína.
Assim, dentre um lote de oito anónimas finalistas, a eleita seria a novata Helen Slater. À data com 19 anos, Slater participara apenas num episódio especial da série televisiva ABC Afterschool e nunca antes fizera cinema. O seu papel como Supergirl marcaria, portanto, a sua estreia absoluta no grande ecrã.
Centenas de atrizes foram, entretanto, testadas para o papel principal, com destaque para Brooke Shields (a ninfeta de Lagoa Azul) e Melanie Griffith que, aos 26 anos, contava já com vários filmes de sucesso no currículo. Apesar de a primeira ser a favorita de Alexander Salkind, Ilya e Szwark preferiram apostar numa ilustre desconhecida, mantendo-se fiéis à mesma política que levara à descoberta de Christopher Reeve durante as audições para Superman.
Nos primeiros testes de ecrã que realizou, Helen Slater usou um figurino em tudo semelhante ao uniforme que, por aqueles dias, a Supergirl usava na banda desenhada. Refletindo o estilo dos anos 80, o modelo em causa incluía, por exemplo, uma fita de cabelo vermelha.
Dada a natureza datada desse visual, os produtores acabaram por descartá-lo, optando antes por um  de linhas mais modernas. E, sem o saberem, forneceram a inspiração para a indumentária de Matriz, a Supergirl genérica inserida em 1988 na continuidade da DC após a morte da original em Crise nas Infinitas Terras.

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De cima para  baixo:
O uniforme da Supergirl na BD no início dos anos 80.
Helen Slater testa um protótipo nele baseado.
O figurino oficial.
O visual de Matriz.

Como beleza e talento na representação não bastam quando toca a emprestar corpo a um super-herói (ou, no caso, a uma super-heroína), Helen Slater teve de submeter-se a um rigoroso programa de treino ministrado por Alf Joint, o mesmo preparador físico que, meia dúzia de anos antes, transformara o franzino Christopher Reeve no Homem de Aço.
Christopher Reeve que, de resto, declinou o convite para participar no filme da Supergirl. Presença que, segundo admitiria o próprio Jeannot Szwark, teria contribuído para uma maior visibilidade e credibilidade da produção.
Definido o restante elenco (no qual pontificavam a oscarizada Faye Dunaway e outros astros de primeira grandeza como Peter O'Toole), as filmagens decorreram quase exclusivamente nos londrinos Pinewood Studios, prolongando-se por todo o verão de 1983.
Ainda que a película tenha sido financiada na íntegra pelos Salkinds, a Warner Bros, detentora dos respetivos direitos de distribuição, teve uma palavra a dizer. Com efeito, da rodagem à edição tudo foi feito sob a apertada supervisão da gigante de entretenimento proprietária da DC Comics.

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Faye Dunaway e Helen Slater.: a diva e a debutante.
No entanto, apenas duas semanas antes da estreia de Supergirl (inicialmente programada para julho de 1984, o que só viria a acontecer no Reino Unido e Japão), a Warner Bros. desligou-se da produção devido à prestação insatisfatória de Superman III e ao diferendo com os Salkinds acerca da data de lançamento.
Nos meses seguintes o filme ficou a aboborar numa qualquer prateleira até que a TriStar Picutres se propôs lançá-lo em novembro. Por ser esse o mês em que se celebra o Dia de Ação de Graças, um dos mais importantes feriados do calendário litúrgico norte-americano, fora sempre essa a data preferida dos Salkinds.
A TriStar impôs, contudo, como condição uma nova edição do filme. Totalmente arbitrários, os cortes levados a cabo resultaram num encolhimento da respetiva duração (de 124 minutos passou para 105 minutos) em prejuízo das interpretações de Helen Slater e Faye Dunaway.
Algumas das cenas eliminadas - que, durante largos anos, permaneceram inéditas nos EUA -  continham momentos e diálogos importantes quer para a caracterização das protagonistas quer para o desenrolar da trama.
Um bom exemplo foi o da sequência conhecida como "O Ballet Voador", por sinal uma das mais magistralmente coreografadas de todo o filme.
Ao chegar ao nosso planeta, Kara fica surpreendida ao descobrir ser capaz de fazer praticamente qualquer coisa, incluindo voar. A cena em questão serviria para demonstrar que, além do legado nominal, os seus poderes eram similares aos do Superman. Ora nada disso foi visto pelos espectadores norte-americanos, originando alguma confusão entre os menos versados na mitologia do Homem de Aço.
Também as cenas ambientadas na Zona Fantasma eram originalmente mais longas e dramáticas. Numa delas, a heroína dava provas de grande altruísmo ao  expressar a sua vontade de imolar a própria vida para pôr fim ao reinado sombrio de Selena.
Antes de serem restauradas na primeira edição em DVD (2000), muitas das cenas cortadas haviam já sido incluídas na adaptação oficial de Supergirl aos quadradinhos lançada em 1985 pela DC Comics - e publicada nesse mesmo ano pela Abril em Terras Tupiniquins .

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A adaptação oficial de Supergirl
aos quadradinhos
 incluía a versão estendida do filme.
Foi, no entanto, uma versão amputada(para não dizer vandalizada) da película aquela que chegou aos cinemas americanos em novembro de 1984. Apesar de Supergirl ter liderado o box office no seu fim de semana de estreia, (arrecadando uns razoáveis 8,4 milhões de dólares), as receitas de bilheteira cairiam a pique nas semanas seguintes, convertendo-o no capítulo menos rentável de toda a Super-franquia.
Somadas ao fraco desempenho comercial, as críticas soezes que, de forma desapiedada, fustigaram o filme durante as nove semanas em que se manteve em cartaz, surtiram efeito idêntico ao da exposição prolongada à kryptonita, ditando a morte prematura de Supergirl.
Mercê de todas as vicissitudes acima descritas, a primeira aventura da Rapariga de Aço no cinema seria também a última. Caindo assim por terra o sonho dos Salkinds de iniciarem uma nova franquia que se queria tão lucrativa como havia sido a do Homem de Aço.

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Um dos mais icónicos  posteres promocionais do filme.
Sinopse

A fruir dos últimos dias de uma adolescência despreocupada, Kara Zor-El vive com os pais, Zor-El e Alura, em Argo City, uma colónia perdida que sobreviveu à destruição de Krypton.
Encravada num recesso do espaço inter-dimensional, Argo City tem como principal fonte de energia o Omegahedron. Essa pequena esfera pulsante, fruto da mais avançada tecnologia kryptoniana, consegue, entre outras coisas, manipular matéria a nível molecular e gerar energia ilimitada.
Um belo dia, Zaltar, o precetor de Kara, mostra-lhe o Omegahedron, que havia requisitado sem o consentimento do conselho governativo da cidade. Quando um pequeno construto voador criado por Kara se descontrola e abre um buraco na redoma que protege Argo City, o Omegahedron é sugado pelo vácuo espacial.
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Zaltar mostra a Kara o potencial do Omegahedron.
Ciente de que, sem o Omegahedron, Argo City estará sentenciada a uma morte agonizante, Kara, para grande aflição dos seus pais, voluntaria-se para recuperá-lo. Para isso, terá de viajar através do espaço inter-dimensional a bordo do paraquedas binário projetado por Zaltar.
Durante a sua vertiginosa jornada até à Terra, Kara transforma-se na Supergirl e fica maravilhada com os formidáveis poderes que lhe são concedidos pelo nosso sol amarelo.
O Omegahedron foi, entretanto, encontrado por Selena, uma bruxa sedenta de poder e ansiosa por libertar-se da influência de Nigel, um feiticeiro dos tempos modernos de quem é, simultaneamente, discípula e concubina.
Mesmo sem saber do que se trata, ou qual a origem do Omegahedron, Selena intui o seu imenso poder e depressa descobre que ele lhe permite conjurar feitiços verdadeiramente eficazes.
Longe dali, a Supergirl segue no encalço do Omegahedron. Após ter escapado a uma tentativa de violação por parte de dois camionistas, a jovem toma consciência dos perigos de um mundo que não é o seu e resolve agir disfarçada.
Apresentando-se como prima de Clark Kent (alter ego do Superman), Kara assume a identidade de Linda Lee e matricula-se no colégio feminino de Midvale. É lá que trava amizade com Lucy Lane, a irmã mais nova de Lois Lane, de quem herdou o espírito irrequieto e aventureiro.
Enquanto se tenta integrar com a ajuda de Lucy e do seu namorado, Jimmy Olsen, Linda conhece também Ethan, o apolíneo zelador da escola por quem de pronto se enamora.

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Linda Lee e Lucy Lane tornam-se amigas inseparáveis.
Sem o saber, Ethan captou também a atenção de Selena, a agora autoproclamada "Princesa da Terra". Resoluta em fazer dele seu consorte, a vilã droga Ethan com uma poção do amor que o fará apaixonar-se pela primeira pessoa que vir quando voltar a si.
Para azar de Selena, Ethan recobra a consciência quando ela está ausente e, após escapulir-se do covil da bruxa, vagueia sem rumo pelas ruas da cidade.
Furiosa, Selena faz uso dos seus recém-adquiridos poderes mágicos para animar uma escavadora com a qual pretende recapturar o seu objeto de desejo. À sua passagem o veículo desgovernado deixa um rasto de destruição obrigando à intervenção da Supergirl.
Quando a ameaça é por fim debelada, a Rapariga de Aço, já sob o disfarce de Linda Lee, resgata Ethan que, assim, se perde de amores por ela, passando a cortejá-la de todas as formas possíveis e imagináveis.
Culminado uma série de ferozes recontros entre ambas, Selena usa o Omegahedron para lançar a Supergirl na Zona Fantasma, o purgatório onde, outrora, eram aprisionados os piores criminosos de Krypton. Privada dos seus poderes, a heroína perambula pela paisagem desolada e quase se afoga num pântano. É, no entanto, salva no último instante por Zaltar, que ali se exilara para expiar os seus pecados.
Graças ao sacrifício supremo do seu antigo precetor, a Supergirl consegue escapar da Zona Fantasma e regressar à Terra através de um espelho. Com o seus poderes restaurados, a heroína confronta uma vez mais Selena. Que, por sua vez, usa o Omegahedron para invocar um gigantesco demónio das sombras.

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Kara chora a morte do seu mentor.
Prestes a ser subjugada pelo monstro, a Rapariga de Aço ouve a voz etérea de Zaltar exortando-a a lutar. Nigel, por seu turno, revela-lhe que a única maneira de derrotar Selena será virando contra ela o demónio das sombras.
Agindo com rapidez e precisão, Supergirl usa a sua supervelocidade para gerar um enorme redemoinho, cuja força centrípeta suga a bruxa e o demónio para a Zona Fantasma.
Finalmente livre do feitiço de Selena, Ethan declara o seu amor por Linda Lee, mesmo sabendo que ela e Supergirl são uma só pessoa, e que os dois nunca poderão ficar juntos.
A cena final do filme mostra a Supergirl a voar em direção a uma Argo City escurecida que prontamente se ilumina graças à energia emanada pelo Omegahedron.

Trailer



Curiosidades

*À semelhança do que se verificara no primeiro filme do Superman com Christopher Reeve, em Supergirl o cachê pago à atriz que interpretou a vilã (Faye Dunaway) foi consideravelmente superior ao recebido pela protagonista. A atuação de Dunaway seria, contudo, arrasada pela crítica, valendo-lhe mesmo uma nomeação para a Framboesa de Ouro de Pior Atriz. Por contraste, a novata Helen Slater ficou muito perto de conquistar um Saturn Award na categoria de melhor atriz;
*O primeiro poster promocional do filme mostrava. erradamente, a Estátua da Liberdade a segurar a tocha na mão esquerda;

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A Estátua da Liberdade virou canhota
 num dos cartazes de Supergirl.

*Na gravação da cena em que a Supergirl sai a voar do lago foi utilizada uma fotografia de Helen Slater colada num recorte de madeira. Já a produção do genérico de abertura cifrou-se em um milhão de dólares;
*Único filme baseado no Universo DC a não ser distribuído pela Warner Bros, Supergirl nunca foi incluído em qualquer antologia da saga cinematográfica do Superman, apesar de dela ser oficialmente parte integrante;
*Criação de Otto Binder e Al Plastino, Supergirl fez a sua primeira aparição em maio de 1959, nas páginas de Action Comics nº252 (fiquem a saber mais em http://bdmarveldc.blogspot.pt/2014/02/heroinas-em-acao-supergirl.html). Um quarto de século após a sua estreia na banda desenhada, tornar-se-ia a primeira super-heroína de língua inglesa a protagonizar o seu próprio filme;
*Nos quadradinhos, Argo City escapa à destruição de Krypton graças à genialidade científica de Zor-El (pai de Kara), que prepara antecipadamente a cidade para sobreviver à iminente implosão do planeta. Nessa versão clássica da sua origem, Kara nasce vários anos após o seu primo, Kal-El, ter sido enviado para a Terra;
*Em 2017, 33 anos após o advento da Rapariga de Aço aos cinemas, a personagem Selena ganhou estatuto canónico ao ser introduzida em Supergirl nº10. Uma ironia considerando que, apenas dois meses antes do lançamento do filme, a DC Comics havia inopinadamente cancelado a série mensal da heroína. Como se isso não bastasse, em 1985 removeria a Supergirl da sua continuidade após  sua morte às mãos do Antimonitor num dos capítulos mais dramáticos da saga Crise nas Infinitas Terras;
*Dada a ausência do Superman no filme, coube a Jimmy Olsen fazer a ponte com a saga original. Marc McClure foi, aliás, o único ator a fazer o pleno de participações nas cinco produções que compõem a franquia;

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Marc McClure marcou presença em todos os filmes da Super-família.
*Num dos rascunhos iniciais do enredo estava prevista a participação do Superman. O herói marcaria presença em duas cenas: na primeira daria as boas-vindas à prima no momento da sua chegada ao nosso mundo; na segunda seria salvo por ela depois de ter perdido os seus poderes e de ter envelhecido precocemente por causa da magia de Selena. Apesar de nada disto se ter concretizado, o Homem de Aço é duplamente referenciado na película. Através de um noticiário escutado atentamente por Selena, ficamos a saber que o herói se encontra temporariamente ausente da Terra em missão de paz numa galáxia distante. Na parede do quarto partilhado por Linda Lee e Lucy Lane, está também colado um poster do Superman;
*Superman e Supergirl encontraram-se no mundo real. Helen Slater e Christopher Reeve combinaram encontrar-se certa noite em Nova Iorque para discutirem o significado de interpretar um super-herói. Enquanto conversavam sentados num banco do Central Park foram surpreendidos pelas sirenes dos bombeiros que acorriam a um incêndio nas redondezas. Percebendo a ironia da situação, Reeve, segundo relatou a própria Helen Slater, terá gracejado: "Parece que é a nossa noite de folga";
*Atualmente com 56 anos de idade, em 2001 Helen Slater retomou contacto com o Universo DC ao interpretar Lara - a mãe kryptoniana do Superman - em três episódios de Smallville. Já na série televisiva da Supergirl no ar desde 2015, coube-lhe o papel de Eliza Danvers, mãe adotiva de Kara;

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Helen Slater no papel de mãe adotiva
 da atual Supergirl (Melissa Benoist).
*Tanto na adaptação oficial de Supergirl aos quadradinhos como na novela posteriormente editada, fica claro que decorreram vários anos entre o momento da partida de Kara de Argo City e a sua chegada à Terra. Devido ao desejo dos produtores de usarem Helen Slater desde o início, esse elemento foi omitido do filme;
*Quando Linda Lee e Lucy Lane se encontram pela primeira vez, a irmã mais nova de Lois Lane estava ler uma revista do Hulk, propriedade da rival Marvel Comics. Este é, de resto, um dos muitos easter eggs plantados ao longo do filme que convido os meus sagazes leitores a descobrirem.

Veredito: 58%

Logo a seguir à Mulher-Maravilha, Supergirl ocupa o segundo lugar no meu pódio de super-heroínas favoritas. Dada a minha elevada estima pela prima do Homem de Aço, seria o primeiro a zurzir o seu filme se este fosse realmente tão mau como o pintaram.
Mais frustrante do que o fraco apuro de bilheteira, foi o linchamento de que Supergirl foi sendo vítima ao longo dos anos quer por parte da crítica dita especializada quer por parte de pretensos fãs. Acredito até que, neste como em tantos outros casos, esses ataques virulentos terão partido de quem nunca viu o filme ou prefira os da concorrência.
Infelizmente, essa é uma prática consagrada que tem vindo a ganhar maior expressão nos últimos anos, mercê da rivalidade entre os Universos Estendidos da Marvel e da DC. E que, em última instância, serve, essencialmente, para condicionar o julgamento dos mais desavisados. Tendo como efeito colateral a morte prematura de franquias em favor da prosperidade de outras.
Em todo o caso, não há como negar certos aspetos negativos de Supergirl. Trama incoerente, interpretações sofríveis e vilões insípidos são alguns dos problemas mais frequentemente apontados a um filme que, não obstante, possui também pontos positivos que importa realçar.
O maior trunfo de Supergirl é, sem sombra de dúvida, a sua protagonista. Tal como Christopher Reeve foi O Superman sem, contudo, deixar de ser convincente no papel de Clark Kent, Helen Slater também teve o condão de ser duplamente competente na sua interpretação. Sem prejuízo da graciosidade da Rapariga de Aço, a jovem atriz transmitiu na perfeição a ingenuidade de Linda Lee.
Helen Slater partilha, de resto, com Christopher Reeve o dom de usar uma roupa espampanante sem parecer ridícula. Isto apesar de ter disposto de menos tempo para aprimorar esse talento do que a sua contraparte masculina.

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Helen Slater foi uma aposta ganha como Supergirl.
Mesmo à luz dos padrões técnicos atuais, os efeitos especiais de Supergirl - numa época que não existia CGI - são bastante aceitáveis. Ao contrário, por exemplo, de Superman IV, a produção não olhou a despesas nesse capítulo, possibilitando dessa forma sequências de rara beleza como o "ballet voador" de Kara aquando da sua chegada ao nosso planeta.
Outro dos pontos positivos do filme é o desenvolvimento de alguns conceitos herdados da saga original. Caso, por exemplo, da Zona Fantasma cuja representação consistira até esse momento num espelho rodopiante.
Em Supergirl conseguimos finalmente espreitar o que se esconde por trás do espelho. Contudo, a estética da Zona Fantasma poderia ter sido ainda mais fascinante se o realizador não tivesse desistido da ideia de filmar as respetivas cenas a preto em branco, o que teria reforçado a natureza etérea desse território povoado pelos mais perigosos malfeitores de Krypton.
Também o recurso à magia foi uma jogada de mestre. A par da kryptonita, essa é outra das vulnerabilidades dos kryptonianos. Como os argumentistas já tinham usado e abusado das pedras verdes nos filmes do Homem de Aço, desta feita deitaram mão às artes arcanas para dificultar a vida à heroína.
O único problema desta opção foi não ter sido devidamente explanada na trama. Por conseguinte, não deverá ter faltado quem tenha achado patético ver uma heroína capaz de dobrar barras de aço com as mãos a ser afetada por bruxarias de uma aprendiz de feiticeira.
Estranho foi também que, para salvar uma franquia em declínio, os produtores tenham laborado nos mesmos erros que ditaram o fracasso de Superman III. Embora mais doseado, o histrionismo está presente em Supergirl, sobretudo em cenas envolvendo os vilões - já de si caricaturais.
Por mais que essa vertente cómica seja apreciada pelo público em geral, os verdadeiros fãs de super-heróis não vão ao cinema para ver os seus ídolos fazerem umas palhaçadas. Fazem-no para recapturar alguma da inocência perdida da infância e em busca de um salutar escapismo à amoralidade do mundo real, onde é cada vez mais difusa a fronteira entre o certo e o errado.
Duas raridades nos filmes de super-heróis mais recentes mas que podem ser encontradas em Supergirl, esse clássico injustiçado que merece ser visto com um olhar menos cínico.

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De certo modo, a Supergirl continua cativa na Zona Fantasma
 para onde os críticos a atiraram.