quinta-feira, 12 de julho de 2018

RETROSPETIVA: «JUSTICEIRO - ZONA DE GUERRA»



  Nesta sua terceira ofensiva  cinematográfica -  a primeira sob o estandarte Marvel Knights - o mais implacável dos anti-heróis venceu a batalha contra um dos seus arqui-inimigos mas perdeu a guerra das bilheteiras. Polémico e violento como o seu protagonista, o filme pagou o preço de ter sido feito a pensar nos fãs.

Título original: Punisher: War Zone 
Ano: 2008
País: EUA e Canadá
Duração: 103 minutos
Género: Ação
Produção: Lionsgate e Valhalla Motion Pictures
Realização: Lexi Alexander
Argumento: Art Marcum, Matt Holloway e Nick Santora
Distribuição: Lionsgate Films e Marvel Studios
Elenco: Ray Stevenson (Frank Castle / Justiceiro), Dominic West (Billy Russotti / Retalho), Julie Benz (Angela Donatelli), Colin Salmon (Paul Budiansky), Doug Hutchison ( James Russotti), Dash Mihok (Martin Soap) e Wayne Knight (Linus Lieberman  / Microship)
Orçamento: 35 milhões de dólares
Receitas: 10,1 milhões de dólares

A sequela que virou reboot

Em fevereiro de 2004, dois meses antes da chegada aos cinemas de The Punisher, a Lions Gate Entertainment  surpreendeu meio mundo ao anunciar a sua intenção de produzir uma sequela. Avi Arad, presidente-executivo dos Estúdios Marvel, chegou mesmo a vangloriar-se de que essa seria a quinta franquia cinematográfica baseada na mitologia da Casa das Ideias.
Também o realizador Jonathan Hensleigh sinalizou o seu interesse em dirigir o segundo capítulo da saga do Justiceiro no grande ecrã. Personagem que Thomas Jane se mostrara entretanto disponível para voltar a encarnar. Numa entrevista concedida, por aqueles dias, a uma publicação especializada, o ator chegou mesmo a confidenciar que The Punisher 2 teria o Retalho como vilão principal.
Contudo, por conta da dececionante prestação de The Punisher, o projeto para a realização de uma sequência direta seria deixado em banho-maria nos três anos seguintes. Período durante o qual Jonathan Hensleigh escreveu um primeiro rascunho do guião, que deixou para trás quando resolveu bater com a porta, em meados de 2006.
Nesse mesmo ano, John Dahl foi sondado para ocupar a vaga deixada por Hensleigh, mas as negociações não chegaram a bom porto. Ao que consta, o realizador terá ficado desagradado com a fraca qualidade do enredo, e mais ainda com a recusa dos produtores em abrirem os cordões à bolsa.
Meses depois, em maio de 2007, Thomas Jane seguiria as pisadas de Dahl, invocando os mesmíssimos motivos. Com efeito, após ler o novo guião, da autoria de Kurt Sutter, o ator teve o seguinte desabafo no decorrer de uma entrevista radiofónica: "Aquilo que eu nunca farei é desperdiçar meses da minha vida a dar o litro por um filme em que não acredito. Adoro os tipos da Marvel e desejo-lhes as maiores felicidades. Entretanto, continuarei à procura de projetos que não me venham a causar embaraços no futuro." 
Poucas semanas volvidas sobre estas declarações de Jane, os Estúdios Marvel anunciaram os nomes do novo realizador e do novo ator principal: respetivamente, Lexi Alexander (uma jovem cineasta germânica) e Ray Stevenson (ator nascido na Irlanda do Norte que, até aí, apenas numa ocasião fora cabeça de cartaz). De caminho foi ainda anunciado que o filme não seria afinal uma sequela, mas sim um relançamento da franquia do Justiceiro.

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Ray Stevenson e Lexi Alexander foram os eleitos
 para dar um novo elã ao Justiceiro.
Esta seria, de facto, a segunda tentativa nesse sentido, na medida em que The Punisher fora, também ele, um reboot da longa-metragem homónima de 1989, protagonizada por Dolph Lundgren.
Provisoriamente intitulado Punisher: Welcome Back, Frank, o projeto seria entretanto renomeado de Punisher: War Zone. Com a respetiva rodagem a ter lugar na cidade canadiana de Montreal, entre outubro e dezembro de 2007.
A estreia, essa, ficou agendada para 12 de setembro de 2008. O filme acabaria, no entanto, por chegar aos cinemas norte-americanos apenas três meses depois, em dezembro desse mesmo ano. Somada a esse inopinado adiamento, a ausência de Lexi Alexander na ComicCon de San Diego aquando da divulgação do primeiro trailer oficial de Punisher: War Zone deu azo a rumores acerca de uma eventual demissão da realizadora, o que a própria se apressaria a desmentir.
Numa entrevista concedida em 2015, Lexi Alexander reconheceu terem havido, no entanto, conflitos criativos com a Lionsgate e que não foi da sua responsabilidade a edição final da película. Não obstante, a realizadora declarou-se muito feliz com a sua obra e desvalorizou as reações adversas que a mesma suscitou por parte do público e da crítica. "Foi o preço a pagar por ter honrado o meu compromisso de fazer um filme a pensar nos fãs", atalhou Alexander.
Punisher: War Zone teve ainda a particularidade de ser o primeiro filme a ostentar o selo Marvel Knights. À semelhança do que já acontecia na banda desenhada, a ideia era apostar em personagens menos conhecidas e em temáticas vocacionadas para uma audiência madura. Em 2012, Ghost Rider 2 seria a segunda - e, até à data, última - produção emanada desse projeto.


Retalho, as cicatrizes do ódio

Um dos mais antigos e perigosos inimigos do Justiceiro, Retalho fez a sua estreia em outubro de 1976, nas páginas de Amazing Spider-Man nº161. Len Wein e Ross Andru foram os seus criadores e crismaram-no originalmente de Jigsaw por ser esse o nome dado em inglês aos quebra-cabeças cujas peças, quando corretamente encaixadas, formam uma imagem. Processo em tudo semelhante àquele que os cirurgiões levaram a cabo para reconstruir a face estraçalhada do vilão após o seu dramático confronto com Frank Castle.
Antes da sua transformação em Retalho, Billy Russo era um brutal assassino ao serviço do sindicato internacional do crime conhecido como Maggia. Devido à sua boa aparência, Billy fora alcunhado pelos seus pares de O Belo, sendo também um dos sicários de eleição do poderoso clã Costa. Foi precisamente nessa sua qualidade que Billy teve participação indireta no massacre da família de Frank Castle, que testemunhara acidentalmente a execução sumária de membros de um clã rival dos Costas.

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Em cima: Billy Russo antes
 da sua horrivel transformação no Retalho.

Após uma tentativa falhada de liquidar o Justiceiro, Billy foi por ele confrontado num clube noturno e acabou por atravessar de cabeça um enorme painel de vidro. Apesar de ter sobrevivido aos graves ferimentos infligidos, Billy teve o seu rosto horrivelmente desfigurado.
Mais sádico do que nunca, Billy passou a responder apenas por Retalho e a usar a sua hedionda aparência para aterrorizar as suas vítimas. Jurou também vingar-se do Justiceiro e em diversas ocasiões ficou muito perto de consumar esse desejo.
Além de ser um atirador exímio e um assassino de sangue-frio, Retalho possui também uma extraordinária tolerância à dor, que faz dele um osso duro de roer em combates mano a mano.

 Microchip, o (in)fiel escudeiro tecnológico

Criação de Mike Baron e Klaus Janson, Microchip foi introduzido nas histórias do Justiceiro em The Punisher Vol.1 nº4 (novembro de 1987).
De seu nome verdadeiro David Linus Lieberman, Microchip foi em tempos engenheiro de armamento e é um prodígio da informática. Atributos que foram de grande valia para um Justiceiro em início de carreira, de quem Microchip se tornou uma espécie de escudeiro tecnológico na sua sangrenta cruzada contra o crime.
Originalmente, Microchip era apenas o sujeito a quem Frank Castle recorria sempre que necessitava de algum tipo de equipamento especial para executar uma missão. Após a morte do seu filho, David Lieberman assumiu, porém, um papel mais ativo na guerra privada do Justiceiro contra a Máfia nova-iorquina.

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Microchip foi o que de mais parecido
 com um amigo o Justiceiro alguma vez teve.
Sem nunca negligenciar a componente logística, Microship usava simultaneamente os seus talentos informáticos para, entre outras coisas, piratear os servidores da Máfia ou para branquear o dinheiro confiscado pelo Justiceiro a narcotraficantes.
Mesmo sem possuir o sangue-frio de Castle, foi Microchip quem, em vários momentos, impediu o colapso emocional do Justiceiro. Quando este ficou descontrolado e embarcou numa espiral mortífera, Microchip manteve-o em quarentena e arranjou um substituto para patrulhar as ruas de Nova Iorque.
Por mais bem-intencionadas que tenham sido as ações do seu aliado, aos olhos do Justiceiro tratou-se de uma traição imperdoável. Sentimento que nem a morte de Microchip  às mãos de um bandido amenizou.
Estava prevista a participação de Microchip no anterior filme do Justiceiro com Thomas Crane (já aqui esmiuçado), mas a antipatia visceral do realizador Jonathan Hensleigh pela personagem ditou a sua exclusão da versão final do enredo.

Sinopse

Há cinco anos que o Justiceiro vem travando uma guerra sem quartel contra as famílias mafiosas de Nova Iorque. E, como em qualquer guerra, os danos colaterais são inevitáveis.
Certa noite, depois de invadir o palacete do "padrinho" Gaitano Cesare e de chacinar todos os seus asseclas e convidados, o Justiceiro mata por engano um agente infiltrado do FBI chamado Nicky Donatelli.
No meio do caos instalado, Billy "O Belo" Russotti, um dos lugares-tenentes de Cesare, consegue escapar com vida. O Justiceiro parte de imediato no seu encalço, acabando por encurralá-lo numa fábrica de reciclagem.
Após um breve tiroteio, Billy cai numa gigantesca moedora de vidro. Sem pestanejar, o Justiceiro aciona o mecanismo e Billy, apesar de sobreviver, tem o seu rosto retalhado.

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A última ceia do clã Cesare.
Agora rebatizado de Retalho, Billy e os seus homens libertam o mais novo dos irmãos Russotti, que se encontrava trancafiado num hospício devido aos seus atos de canibalismo.
Enquanto isso, o agente Paul Budiansky, ex-parceiro de Nicky Donatelli, junta-se ao Destacamento Especial da Polícia de Nova-Iorque que tem como missão capturar o Justiceiro. Com a ajuda do detetive Martin Soap (o outro único membro do referido destacamento), Budiansky começa a investigar o passado de Frank Castle ficando atónito com as centenas de mortes com assinatura do Justiceiro.
Consternado com a morte de Donatelli, o Justiceiro procura, em vão, reparar a perda sofrida pela viúva e pela filha do agente. As trágicas consequências das suas falhas levam-no a querer colocar um ponto final na sua campanha contra o crime organizado, mas é demovido de fazê-lo por Microchip, o seu braço-direito.
Retalho e a sua trupe invadem a casa da família Donatelli e raptam a viúva e a filha do agente acidentalmente assassinado pelo Justiceiro. Quando este se prepara para resgatá-las é detido pelo agente Budiansky. É, contudo, ajudado a fugir pelo detetive Soap e consegue libertar as reféns. Os irmãos Russotti são, entretanto, presos por Budiansky.

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Habituado a rir-se da Justiça,
Retalho aprendeu a não se rir do Justiceiro.
Depois de negociarem com o FBI a sua imunidade total em troca de informações acerca de um carregamento biológico encomendado pela Máfia russa, os irmãos Russotti saem em liberdade e não perdem tempo em vingar-se do Justiceiro.
Os dois invadem o esconderijo do Justiceiro onde se encontravam refugiadas a mulher e a filha do agente Donatelli e voltam a sequestrá-las, assim como a Microchip. O grupo serve de engodo para atrair o Justiceiro para uma cilada montada com a ajuda de várias quadrilhas com contas a ajustar com Castle.
Por entre uma intensa chuva de balas, o Justiceiro consegue tomar de assalto um dos pisos do hotel onde Retalho e seus aliados se encontram acantonados, deixando uma pilha de cadáveres à sua passagem.
Após um violentíssimo combate corpo a corpo com o irmão de Retalho, o Justiceiro vê-se perante um dilema: salvar a vida de Microchip ou das reféns.
Quando Retalho mata Microchip com um tiro na cabeça, o Justiceiro investe furiosamente sobre o vilão, acabando por trespassá-lo com uma vara metálica antes de atirar o seu corpo moribundo para o meio das labaredas que consumiam o vestíbulo do hotel.
Perdoado pela viúva de Donatelli, o Justiceiro arrepia caminho acompanhado pelo detetive Soap que o tenta convencer a pôr fim à sua carreira como vigilante urbano. Soap muda, no entanto, rapidamente de ideias ao ser abordado por um assaltante armado, o qual é prontamente ceifado por um tiro certeiro do Justiceiro.

Trailer



Curiosidades

*Para estar à altura de um papel tão exigente no capítulo físico, Ray Stevenson submeteu-se a um rigoroso programa de treino militar ministrado pelos Fuzileiros Navais dos EUA;
*Da boca de Ray Stevenson não sai uma única palavra nos primeiros 25 minutos do filme. No restante tempo, o ator improvisou várias falas graças ao seu profundo conhecimento das histórias originais do Justiceiro que serviram de base ao enredo;
*Martin Soap, o detetive da polícia nova-iorquina aliado de Castle, é uma personagem retirada de Welcome Back, Frank, série que em abril de 2000, após um longo hiato, marcou o regresso do Justiceiro aos quadradinhos pela mão da dupla criativa Garth Ennis e Steve Dillon, Já Paul Budiansky, o agente do FBI apostado em capturar o Justiceiro, fora introduzido em 2007 na saga Widowmaker inclusa no sétimo volume de The Punisher;
*Palco do confronto final entre o Justiceiro e Retalho, o Hotel Bradstreet é uma homenagem a Timothy Bradstreet, um dos mais aclamados capistas de The Punisher;

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Justiceiro sob o traço de Tim Bradstreet.
*Dominic West despendia diariamente três horas na sala da caracterização: duas para colocar as próteses faciais do Retalho, e outra para removê-las. Experiência que, em entrevistas posteriores, o ator jurou não mais querer repetir;
*À semelhança do Joker em Batman (1989), Billy Russotti é um gângster psicótico que, depois de ficar desfigurado, assume o comando do clã mafioso para o qual trabalhava. A par de Sin City (2005), especula-se que o filme do Cavaleiro das Trevas dirigido por Tim Burton poderá ter sido uma das principais referências para Punisher: War Zone;
*Ex-campeã de karaté e ex-dupla de cinema, a realizadora Lexi Alexander participou, lado a lado com Ray Stevenson, nos treinos de tiro ao alvo sob a orientação de um ex-instrutor das Forças Especiais norte-americanas;
*Mais de 120 armas de diferentes tipos foram utilizadas na rodagem do filme, ao longo do qual o Justiceiro é responsável por 81 mortes;
*Por considerá-lo pueril, Lexi Alexander pretendia descartar o símbolo da caveira na indumentária do Justiceiro. Enfrentou. contudo, a feroz oposição dos fãs que, ao invés, exigiam que o símbolo fosse mais percetível do que no filme anterior. O resultado final foi uma caveira esbatida, em tudo semelhante àquela que, quatro anos antes, Thomas Jane ostentara em The Punisher;
*A par da trilogia de Blade, The Punisher: War Zone é um dos poucos filmes baseados no panteão da Marvel que não contam com uma pequena participação de Stan Lee. Isto porque o antigo mestre-de-cerimónias da Casa das Ideias não teve qualquer envolvimento na conceção do Justiceiro (criado em 1974 por Gerry Conway, John Romita Sr. e Ross Andru);
*Na cena final do filme, quando o detetive Soap está a tagarelar sozinho e é abordado por um assaltante armado num parque fronteiro a uma igreja, o letreiro de néon onde se podia ler "Jesus Saves" ("Jesus Salva") apaga-se parcialmente, deixando apenas visível a palavra "Saves", quando o Justiceiro abate o meliante que intimidava o seu amigo.

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Anjo vingador.

Veredito: 60%

Desde que, na viragem do milénio, os grandes estúdios de Hollywood perceberam enfim o enormíssimo potencial monetário e as imensas possibilidades de experimentação no campo das adaptações de super-heróis ao cinema, os espectadores têm sido brindados com sucessivas levas desse material.
Uma grande percentagem dessas obras pouco ou nada acrescenta, porém, à cultura cinematográfica. Quanto muito, limitam-se a servir generosas doses de alienação. Não obstante, se olharmos para lá dos compromissos sociais e políticos e das viciadas abordagens puramente ideológicas, poderemos identificar algumas de apurada constituição formal e estética, embora quase nunca narrativa.
Vejam-se, a título exemplificativo, os visualmente estupendos Sin City (2005) e Watchmen (2009). De permeio surgiu, por entre balas, sangue e violência extrema, este Justiceiro - Zona de Guerra, o terceiro - e, na minha modesta opinião, o melhor - filme baseado naquele que é um dos mais carismáticos e controversos anti-heróis da banda desenhada.
Sob a competente batuta de Lexi Alexander, a película mostra elementos inovadores, abordados com menor intensidade ou até mal trabalhados em produções anteriores, os quais terão sido diminuídos por uma filosofia em que as questões morais prevaleciam. Ora, é precisamente neste ponto que Justiceiro - Zona de Guerra se assume como revolucionário ao apresentar um Frank Castle decalcado dos quadradinhos e, logo, intrinsecamente amoral.
Tal como o Motoqueiro Fantasma ou Spawn, o Justiceiro é o epítome de um anti-herói exterminador que, apesar de alguns resquícios de humanidade, é implacável com aqueles que considera culpados.
Em harmonia com essas suas idiossincrasias de viés fascizante, tanto o protagonista como o filme, mercê do seu conteúdo ideológico, são rancorosos, amorais e insaciáveis de sangue. O princípio da ação pela situação é, assim, a linha-mestra no desenvolvimento narrativo. Com a história a assentar em três vetores: o trágico passado de Frank Castle, o sadismo de Retalho e a precária relação do Justiceiro com a família da sua vítima inocente.
O argumento é, pois, de uma simplicidade quase desconcertante: um homem, ao ter a sua família assassinada, busca vingança matando qualquer criminoso que lhe cruza o caminho. Apesar dessa premissa básica, a hábil direção de Lexi Alexander evita as armadilhas em que normalmente caem filmes de registo idêntico. Isto ao mesmo tempo que pisca o olho a grandes clássicos de ação dos anos 1980, como Rambo ou  Exterminador Implacável.
Mesmo que não se lhe reconheçam outros méritos, Justiceiro - Zona de Guerra é a prova provada que os filmes de ação e violência baseados nos comics atraem um público muito específico. Isto, porém, tem o seu preço: o inevitável apocalipse nas bilheteiras.
Sem esquecer, no entanto, que é deste material de risco que é feito o cinema contemporâneo onde a originalidade é um bem cada vez mais escasso. Talvez, por isso, o futuro deste tipo de adaptações passe, não pelos grandes estúdios, mas por produções independentes.
Se são fãs do Justiceiro e, por descaso ou preconceito, ainda não viram este filme, façam um favor a vocês mesmos: ignorem as críticas corrosivas que o fizeram naufragar e vejam-no. Quem sabe não ficarão agradavelmente surpreendidos como eu fiquei?

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quinta-feira, 28 de junho de 2018

HERÓIS EM AÇÃO: SUPER-HOMEM


  Ao fazer da Terra o seu lar, um órfão das estrelas tornou-se filho de dois mundos sem realmente pertencer a qualquer um deles. A par da sua incessante luta pela Verdade e pela Justiça, aprender o significado de ser humano foi desde sempre o maior desafio deste estranho visitante, que apenas quer ser um de nós. 


Nota prévia: É altamente recomendável a leitura do artigo precedente, por forma a obter uma melhor compreensão da génese do Super-Homem, da sua importância enquanto precursor da Idade de Ouro da banda desenhada e do contencioso judicial desencadeado pelos respetivos direitos autorais.

Denominação original: Superman 
Licenciadora: Detective Comics (DC)
Criadores: Jerry Siegel (história) e Joe Shuster (arte conceitual)
Estreia: Action Comics nº1 (junho de 1938)
Nome verdadeiro: Kal-El (originalmente Kal-L)
Identidade civil: Clark Joseph Kent
Espécie: Alienígena 
Local de nascimento: Kryptonopolis ( cidade elevada a capital do planeta Krypton na sequência da abdução de Kandor perpetrada por Brainiac) 
Parentes conhecidos: Jor-El e Lara Lor-Van (pais biológicos, falecidos); Jonathan e Martha Kent (pais adotivos, falecidos); Zor-El e Alura In-Ze (tios, falecidos); Kara Zor-El/Supergirl (prima); Lois Lane (esposa) e Jonathan Samuel Kent (filho)
Profissão: Ex-agricultor, repórter e aventureiro
Afiliações: Membro fundador da Liga da Justiça e líder da Super-Família 
Base operacional: Metrópolis, Torre de Vigilância (satélite da Liga em órbita geoestacionária) e Fortaleza da Solidão (localizada algures no Ártico) 
Armas, poderes e habilidades: "Mais rápido do que uma bala! Mais forte do que uma locomotiva! Capaz de galgar prédios altos de um só salto!". Empregue pela primeira vez na série animada produzida pelos Irmãos Fleischer nos anos 1940 (ver Noutros media), esta descrição tradicional dos poderes do Super-Homem tornar-se-ia icónica mitologia do herói e na cultura popular do último século.
Contudo, o catálogo de poderes e habilidades do Último Filho de Krypton, bem como a respetiva magnitude, variou consideravelmente ao longo dos anos.
Na sua conceção original, e tal como descrito nas suas primeiras histórias, os poderes do Super-Homem eram limitados. Consistindo os mesmos em força sobre-humana - que lhe permitia, por exemplo, erguer um automóvel sobre a cabeça - correr a velocidades incríveis e pular grandes distâncias. A sua relativa invulnerabilidade era explicada pelo facto de possuir uma pele muito resistente, que nem balas ou outros projéteis conseguiam trespassar.
Quando os Irmãos Fleischer criaram aquela que seria a primeira série animada do Super-Homem, os constantes saltos do herói revelaram-se inconvenientes para o projeto, pelo que foi pedido à DC que os substituísse pela capacidade de voar.
Durante a Idade da Prata, os escritores que passaram pelas histórias do Homem de Aço incrementaram gradualmente os seus poderes para níveis cada vez mais elevados. Do seu arsenal clássico de poderes faziam parte, então, o voo, a superforça, a invulnerabilidade, os super-sentidos, a supervelocidade, o sopro congelante e uma gama de poderes óticos onde pontificava a visão de raios-X, térmica, microscópica e telescópica.
A este verdadeiro índice de superpoderes, foram ainda acrescentadas algumas habilidades insólitas. A saber, o super-ventriloquismo, o super-hipnotismo, gritos sónicos com mais de um milhão de decibéis e um super-beijo indutor de amnésia - o mesmo que, no filme Superman II, o herói usou para apagar as memórias de Lois Lane acerca da sua identidade secreta.
Era também comum, nesse mesmo período histórico, o Super-Homem voar através de galáxias ou deslocar planetas das suas órbitas. Como resultado, era tarefa cada vez mais complicada para os escritores das suas histórias desencantarem desafios credíveis para um herói que resvalava alegremente para a omnipotência.
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Não havia limites para as proezas do Super-Homem da Idade da Prata.
Até mesmo rebocar planetas  era uma tarefa corriqueira.
Houve então a necessidade de diminuir o poderio do Super-Homem, Várias tentativas foram ensaiadas ao longo dos anos, mas seria John Byrne a solucionar o problema em 1986. Na aclamada saga Man of Steel (já aqui esmiuçada), o escriba canadiano estabeleceu uma série de obstáculos intransponíveis para as habilidades do Super-Homem.
De há uns anos a esta parte, os níveis de poder do Homem de Aço têm vindo, porém, a aumentar novamente. Nas suas encarnações mais recentes, o herói consegue sobreviver a detonações nucleares ou viajar no espaço sideral sem oxigénio.
A fonte dos poderes do Super-Homem também nem sempre foi a mesma. Aquando do seu debute em Action Comics nº1, foi explicado que as suas capacidades sobre-humanas advinham da sua herança kryptoniana, que o tornava fisicamente mais evoluído do que os humanos. Mais tarde seria, contudo, estabelecido que a sua fisiologia kryptoniana lhe permitia, afinal, absorver a energia de estrelas amarelas como o nosso Sol. De acordo com esta explicação - tornada canónica- o organismo do Super-Homem funciona como uma espécie de bateria solar que absorve e armazena constantemente a energia emanada pelo Astro-Rei.
Não são, no entanto, apenas os seus assombrosos poderes que fazem do Super-Homem primus inter pares. O seu carisma e idealismo inspiram muitas vezes aqueles que o rodeiam e a sua vontade inquebrantável impele-o sempre a lutar por aquilo em que acredita. Além disso, o Homem de Aço é também um exímio lutador corpo a corpo e possui um quociente de inteligência difícil de quantificar numa escala humana. Dispondo, ademais, do acesso à mais sofisticada tecnologia kryptoniana na sua Fortaleza da Solidão.

Super-Homem desenhado por Joe Shuster, seu cocriador.

Vulnerabilidades: A despeito do seu enorme poderio e da sua virtual indestrutibilidade, o Homem de Aço é mortal e pode ser ferido. Desde logo por qualquer forma de magia ou feitiçaria, às quais é tão suscetível como qualquer pessoa comum.
O chumbo, por outro, lado bloqueia a sua visão de raios-X e demais poderes óticos. Ironicamente, esse é também o único material na Terra capaz de proteger o Super-Homem dos devastadores efeitos que a kryptonita surte no seu organismo.
Na sua variante mais comum - a verde, embora exista kryptonita de cores e efeitos diversos - esses detritos radioativos do seu planeta natal enfraquecem o Homem de Aço, causando-lhe náuseas e dores lancinantes. Uma exposição prolongada à kryptonita poderá mesmo ser-lhe fatal ou, no caso da sua variante dourada, resultar na perda definitiva dos seus poderes.
Sendo, como vimos, o sol amarelo da Terra a fonte dos poderes do Super-Homem, o herói é enfraquecido quando privado de luz solar durante longos períodos de tempo. O mesmo sucede quando é exposto à radiação - natural ou artificial - de um sol vermelho igual ao que aquecia e alumiava Krypton.

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Kryptonita, um presente envenenado para o Homem de Aço. 

Origem

Apesar de, ao longo dos anos, ter sido objeto de sucessivas revisitações, a origem do Super-Homem manteve-se, na sua essência, inalterada. Sendo, também por isso, do conhecimento geral, mesmo entre aqueles para quem o conceito de super-heróis é pouco ou nada apelativo.
Filho de Jor-El e Lara, o bebé Kal-El foi enviado para a Terra a bordo de uma nave construída pelo seu pai, instantes antes da explosão de Krypton. Chegado ao nosso planeta, foi adotado por Jonathan e Martha Kent, um simpático casal de agricultores do Kansas que o batizaram de Clark Kent.
Após passar a infância e a adolescência em Smallville - como Superboy, em algumas versões da história - , já adulto Clark mudou-se de armas e bagagens para Metrópolis. Na Cidade do Amanhã arranjou emprego como repórter do Daily Planet, onde travou amizade com o fotógrafo Jimmy Olsen e se perdeu de amores por Lois Lane, sua colega de profissão.
Secretamente, porém, Clark Kent usava os seus fabulosos poderes para lutar pela Verdade e Justiça ao melhor estilo americano como Super-Homem.
Clara alegoria dos imigrantes em busca do Sonho Americano, na origem do Super-Homem é possível identificar também diversos elementos religiosos. Desde logo o paralelismo existente entre a jornada do pequeno Kal-El e a de Moisés, o principal profeta do Judaísmo. Ambos foram salvos pelos seus progenitores de uma morte certa e ambos adotaram como sua uma cultura estrangeira que ajudaram a prosperar.

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Jor-El prestes a enviar o seu único filho para o nosso mundo.
Com uma sonoridade tipicamente hebraica, invocando outros dos grandes profetas do Judaísmo como Daniel ou Samuel, Kal-El - o nome kryptoniano do Super-Homem - pode ser traduzido como "A Voz de Deus". O sufixo El significa de facto "deus", ao passo que a grafia de Kal é muito semelhante à da palavra hebraica para "voz" ou "vaso". A despeito de terem dado à sua criação uma identidade eminentemente cristã, por forma a tornar o Homem de Aço mais apelativo ao público em geral, importa recordar que Jerry Siegel e Joe Shuster possuíam raízes judaicas.
Contudo, temáticas retiradas da mitologia cristã estão também ocasionalmente presentes na origem do Último Filho de Krypton. Um bom exemplo disso é a forma como ela foi apresentada em Superman, the Movie (ver Noutros media). No filme, a jornada de Kal-El  paraboliza o advento de Jesus Cristo à Terra, não faltando sequer uma nave a fazer lembrar a Estrela de Belém. Também a missão messiânica de liderar a Humanidade para um futuro radioso que lhe é confiada pelo pai não deixa grande margem para dúvidas.

Super-Homem sob o traço de Wayne Boring, o sucessor de Joe Shuster.

.Influências visuais

Conforme referido no artigo anterior dedicado aos autores do Super-Homem, nos seus verdes anos Jerry Siegel e Joe Shuster nutriam um grande fascínio por heróis viris e eram leitores vorazes de estórias de ficção científica. Muitas das quais apresentavam personagens dotadas de poderes extraordinários, como telepatia, invisibilidade ou força sobre-humana.
Assim, uma das principais influências na conceção do Homem de Aço foi John Carter de Marte, herói saído em 1917 da imaginação de Edgar Rice Burroughs - o criador de Tarzan, outro dos ídolos de juventude da dupla Siegel/Shuster.
Enviado acidentalmente para o Planeta Vermelho, John Carter, apesar da sua condição de simples humano, adquiria superforça e a capacidade de saltar grandes distâncias graças aos efeitos da baixa gravidade marciana. Qualquer semelhança com a versão primitiva do Super-Homem será, pois, mais do que uma singela coincidência.
Apesar de ser comummente aceite que a novela Gladiator (escrita em 1930 por Philip Wylie, e cujo protagonista detinha habilidades similares às do Super-Homem) terá influenciado sobremaneira o processo criativo de Siegel e Shuster, esse tese foi perentoriamente refutada pelo primeiro.
Certo é que Jerry Siegel e Joe Shuster eram grandes apreciadores de filmes, sendo notória a influência cinematográfica nas aventuras iniciais do Super-Homem. Shuster, em particular, era fã incondicional de Douglas Fairbanks - ator que interpretou Zorro e Robin Hood no grande ecrã - e foi na sua postura desafiante que se inspirou para desenhar a pose heroica do Homem de Aço.
Já a Clark Kent serviu como modelo o comediante Harold Lloyd, cuja principal personagem era um homem gentil que era acossado por rufias até ao dia em que perdia por fim as estribeiras e revidava com violência. Por ele próprio usar óculos e se rever na pacatez da personagem de Lloyd, Joe Shuster considerava-a passível de gerar identificação com muitos leitores.


Douglas Fairbanks (cima) e Harold Lloyd
 influenciaram, respetivamente, o visual do Super-Homem
 e de Clark Kent.
Shuster era também um grande fã daquilo a que hoje chamamos cultura fitness. Colecionava várias publicações a ela dedicadas e usavas as respetivas fotografias como referências visuais para a sua arte.
A conceção visual do Super-Homem foi, com efeito, fortemente influenciada pela temática desportiva. Começando pelo seu uniforme, que emulava as fatiotas justas e de cores garridas que recobriam os corpos musculados de halterofilistas e homens fortes circenses. A bem do pundonor imposto pelos rígidos padrões morais da época, era comum uns e outros usarem uma espécie de calção para resguardarem a respetiva genitália de olhares indiscretos. Explicando-se, assim, a inclusão desse adereço nos paramentos do Super-Homem. Ou seja, o Homem de Aço nunca usou a roupa interior por fora, como alguns brincalhões gostam de sugerir...
Não foi também por acaso que Shuster começou por desenhar o Super-Homem com sandálias entrelaçadas em vez das icónicas botas vermelhas. Tratava-se do tipo de calçado habitualmente usado tanto pelos halterofilistas do início do século XX como por heróis mitológicos como Sansão.
Por sua vez, a insígnia peitoral do Super-Homem (cujo S estilizado se tornaria com o tempo um símbolo mundialmente reconhecível) poderá muito bem ter sido inspirada nos emblemas costurados nos uniformes dos atletas de alta competição.

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Halterofilista do início do século XX.
Outros dos seus elementos mais distintivos, a capa do Super-Homem foi uma ideia retirada da literatura pulp onde era comum os espadachins usarem esse adereço. Uma opção estética que ficaria para sempre associada ao arquétipo super-heroico, conquanto as capas sejam hoje consideradas demodé.
Quanto à fisionomia apolínea do Homem de Aço, foi decalcada de John Weissmuller, o ex-nadador olímpico celebrizado pelo papel de Tarzan nos anos 30 e 40 do último século. Misturada, também, com os traços cartunescos de Dick Tracy, o famoso detetive de gabardina amarela.
Shuster definiu a estética do Super-Homem e durante várias décadas os artistas que lhe sucederam eram obrigados a conformar o seu traço a esse estilo predefinido. O que não obstou a uma constante evolução visual da personagem ao sabor tanto das tendências da época como do talento dos seus ilustradores. São também eles os homenageados neste artigo.

Super-Homem por Curt Swan,
 o artista que mais tempo desenhou
as histórias do herói kryptoniano.


Personalidade

Contrastando com a bonomia que hoje caracteriza o Super-Homem, nas suas primeiras histórias assinadas por Jerry Siegel e Joe Shuster, o herói era rude e agressivo. Sempre que interferia em algum crime, fazia-o com recurso a métodos extremamente violentos, mercê de um código de conduta menos estrito do que aquele que segue atualmente.
Ainda que não fosse tão desapiedado como o Batman era por aqueles dias, nos seus alvores o Homem de Aço não se preocupava com os danos que o seu uso desproporcionado da força poderia causar.  Vale a pena lembrar, a este propósito, que, no início da sua carreira, o Super-Homem enfrentava quase exclusivamente bandidos comuns. Pessoas de carne e osso a quem, com perturbadora frequência, o herói não hesitava em tirar a vida. Embora, por norma, essas mortes não fossem mostradas de forma explícita, de modo a evitar ferir a sensibilidade dos jovens leitores.

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Impensável nos dias de hoje, nos seus primórdios o Super-Homem não tinha pejo em matar os seus adversários.
 Se preciso fosse, com recurso a armas de fogo.

Esta vaga de violência desmedida terminaria em 1940, quando Whitney Ellsworth, o novo editor das histórias do Super-Homem, instituiu um código de conduta obrigatório para as suas personagens. Ficando, o Super-Homem, a partir desse momento, proibido de matar.
Alguns dos escribas que renderam Jerry Siegel cuidaram de vincar ainda mais esse traço no caráter do Super-Homem, incutindo-lhe um senso de idealismo e uma moral inabalável. Donde resultou o juramento solene do herói de nunca tomar uma vida humana. Juramento que seria, contudo, violado por mais do que uma vez, em diferentes segmentos culturais. Quem não se lembra, por exemplo, do pescoço partido do General Zod, no filme Homem de Aço?
Muitas vezes atribuído aos valores tradicionais do Centro-Oeste americano que lhe foram transmitidos pelos seus pais adotivos, o compromisso do Super-Homem em operar em estrita obediência da lei, tem constituído um exemplo para muitos heróis. Mas também criou ressentimentos noutros. São esses que se lhe referem pejorativamente como "o grande escuteiro azul". 
Com efeito, a intransigência moral do Homem de Aço tem suscitado ocasionalmente atritos no seio da comunidade super-heroica, visto que nem todos os seus pares se reveem nesse ethos.
Devido à destruição do seu planeta natal e consequente perda da sua família biológica, o Super-Homem denota uma natureza superprotetora em relação à Terra, especialmente no que aos seus entes queridos diz respeito.
Essa perda, combinada com a pressão para fazer um uso responsável dos seus poderes, provoca no Super-Homem um profundo sentimento de solidão, que nem a sua esposa e amigos conseguem por vezes aplacar. Momentos que servem como um doloroso lembrete da sua origem extraterrestre, e nos quais Kal-El compreende o real significado do sábio ensinamento do seu pai biológico: "Parecer-te-ás com eles, mas nunca serás um deles."

No período pós-Crise nas Infinitas Terras, 
John Byrne humanizou o Super-Homem.

Um rosto na multidão

Ridículo aos olhos de alguns e genial aos olhos de outros, o disfarce de Clark Kent usado pelo Super-Homem para se camuflar na paisagem humana de uma grande cidade como Metrópolis é mais elaborado do que à primeira vista parece.
Ao passo que muitos dos seus congéneres usam máscaras ou sofrem algum tipo de transformação física quando assumem as respetivas identidades heroicas, o Super-Homem exibe constantemente o seu rosto sorridente à luz do dia.
Por mais paradoxal que isso possa soar, reside precisamente neste facto o segredo para o anonimato do herói. Que, ao expor publicamente a sua face, transmite a ideia de nada ter a esconder.
Afinal de contas, por que motivo haveria um ser tão poderoso como o Super-Homem querer levar uma vida normal entre aqueles que protege?
Existe, assim, entre as pessoas comuns a crença de que o Homem de Aço é apenas um estranho visitante de outro mundo que dispensa mundanidades como ter um emprego ou uma identidade secreta. Poucos são aqueles que imaginam ser possível cruzarem-se com ele no elevador ou numa rua apinhada. Mais a mais porque o seu disfarce corresponde, de facto, a uma minuciosa encenação.

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Clark Kent serve de disfarce ao Homem de Aço ou vice.-versa?

Senão vejamos: para se fazer passar por um de nós, o Super-Homem cria um alter ego que, de tão medíocre, se torna invisível mesmo aos olhos dos que com ele convivem. Basta atentar na forma como a própria Lois Lane costumava suspirar pelo Homem de Aço ao mesmo tempo que desprezava Clark Kent. E se a frase anterior está conjugada no pretérito imperfeito do modo indicativo é porque, hoje em dia, Lois e Clark são marido e mulher, não havendo, por isso, lugar para segredos entre eles.
De todo o modo não são os óculos o adereço principal do disfarce do Super-Homem, contrariamente ao que muitos, erradamente, sustentam. Há toda uma complexa composição por detrás da personagem Clark Kent. Consistindo a mesma na simulação de gaguez, na postura atrofiada e no comportamento desastrado. Características que, somadas, fazem do repórter do Daily Planet a perfeita antítese do Super-Homem. Que, dessa forma, logra a proeza de se esconder à vista de todos. Apenas mais um rosto entre a multidão anónima que diariamente circula pelas ruas de Metrópolis.



De cima para baixo:
Dan Jurgens matou o Super-Homem,
Jim Lee modernizou-o
García-López iconizou-o.

Trivialidades

*Além de Homem de Aço e Último Filho de Krypton, Maravilha de Metrópolis, Grande Escuteiro Azul e Homem do Amanhã são outras das alcunhas normalmente associadas ao Super-Homem;
*Lois Lane, Lana Lang, Lara Lor-Van e Lex Luthor são apenas alguns dos muitos nomes com as iniciais LL inscritos na mitologia do Homem de Aço. Apesar da multitude de teses aventadas ao longo dos anos, permanece por clarificar o verdadeiro motivo por detrás desta profusão aliterativa;
*Embora tenha tido desde sempre em Lois Lane o seu principal interesse amoroso, ao longo dos anos o Super-Homem manteve romances com outras mulheres. Lana Lang, Loris Lemaris (uma sereia descendente de atlantes surgida durante a Idade da Prata) e mais recentemente, nos Novos 52, a Mulher-Maravilha foram, em algum momento, donas do coração do herói;

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O estranho amor entre um kryptoniano e uma sereia.
*Os kryptonianos prestavam culto religioso a Rao, o sol vermelho orbitado pelo seu planeta. Na versão clássica da origem do Super-Homem foi a implosão de Rao a provocar a destruição de Krypton;
*Clark Kent resulta da combinação dos nomes próprios dos atores Clark Gable e Kent Taylor;
*Toronto, cidade natal de Joe Shuster, serviu de modelo arquitetónico a Metrópolis, cujo nome, por sua vez, foi retirado do filme homónimo realizado em 1927 pelo germânico Fritz Lang;
*Em novembro de 2011, um exemplar de Action Comics nº1 foi vendido online por mais de 2 milhões dólares. Especula-se que poderá tratar-se de uma das edições roubadas da coleção privada do ator Nicholas Cage onze anos antes;
*O famoso mantra "pela Verdade e Justiça ao estilo americano" é na verdade uma declinação daquele que servia de introdução a cada episódio do primeiro folhetim radiofónico baseado no Super-Homem. A sua versão original estabelecia que o herói lutava pela "Verdade, Honestidade e Justiça". A substituição de "honestidade" por "ao estilo americano" visava apaziguar o sentimento anticomunista fortemente arraigado na cultura popular dos EUA durante os anos do macarthismo; 
*A opção de transformar Clark Kent num repórter sobreveio do facto de, na sua juventude, Jerry Siegel ter ambicionado uma carreira jornalística. Essa foi também a forma encontrada pelo Super-Homem de estar sempre em cima do acontecimento, possibilitando-lhe uma atuação mais eficiente. Apesar de tradicionalmente ligado à imprensa escrita, nos anos 1970 Clark Kent trocou o Daily Planet (originalmente trabalhava no Daily Star) pela Rede Galáxia, onde se tornaria pivô de telejornal;
*Em tempos, ao Super-Homem foi concedido o estatuto de cidadão honorário de todos os países membros das Nações Unidas. Já este século, numa história controversa, o herói renunciou à nacionalidade estadunidense;
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Super-Homem torna-se cidadão honorário das Nações Unidas.
*O Super-Homem ocupa o primeiro lugar no Top 100 dos super-heróis organizado pelo IGN e foi eleito pela revista Empire como a melhor personagem de banda desenhada de todos os tempos;
*Muitos fãs acreditam na existência da chamada "Maldição do Super-Homem". Na origem desta macabra superstição, a tragédia e o infortúnio que se abateram sobre vários dos atores que deram vida ao herói (vide texto seguinte): George Reeves morreu em circunstâncias nebulosas, Christopher Reeve (falecido em 2004) ficou tetraplégico ao cair de um cavalo, ao passo que Kirk Alyn, Dean Cain e Brandon Routh tiveram as suas carreiras estagnadas. Será Henry Cavill a próxima vítima dessa suposta malapata?
*Clark Kent não fuma, não ingere bebidas alcoólicas e, num passado recente, assumiu-se temporariamente como vegetariano; 
*A primeira aparição do Homem de Aço em Terras Tupiniquins remonta a dezembro de 1938, no número 445 de A Gazetinha, suplemento infanto-juvenil distribuído à época com o jornal A Gazeta. O seu advento a Portugal seria mais tardio, tendo ocorrido em meados de 1952 num fascículo não especificado de Mundo de Aventuras, almanaque de banda desenhada publicado entre 1949 e 1987 sob os auspícios da extinta Agência Portuguesa de Revistas.

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Em Portugal, as aventuras do Homem de Aço
 começaram por ser publicadas em Mundo de Aventuras.

Noutros media

Há muito consagrado como um portento mediático e um ídolo de multidões, foi à boleia da sua popularidades nos comics que o Super-Homem partiu à conquista de outros segmentos culturais. Logo em 1940, foi para o ar The Adventures of Superman, um folhetim radiofónico que só abandonaria as ondas hertzianas 11 anos depois, e que sinalizou a estreia do herói kryptoniano noutro meio de comunicação.
No ano seguinte, ao mesmo tempo que da pena de George Lowther saíam várias novelas dedicadas ao Homem de Aço ilustradas por Joe Shuster, o herói chegava pela primeira vez ao cinema por intermédio de uma série animada produzida pelos Irmãos Fleischer, e simplesmente intitulada Superman.

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O Homem de Aço salva uma donzela em apuro
s na sua primeira série animada.

Ainda nessa década, seguiu-se, em 1948, o lançamento de Superman, a primeira série cinematográfica em ação real estrelada por Kirk Alyn. Aquele que foi o primeiro ator a dar vida ao Homem de Aço, repetiria o papel dois anos depois em Atom Man versus Superman, espécie de segunda temporada da série original.
Em 1951, o Super-Homem teve direito à sua primeira longa-metragem. Em Superman and the Mole Men, George Reeves surgiu como o herdeiro do manto sagrado que Kirk Alyn recusara continuar a ostentar. O filme serviu, na prática, como episódio-piloto de Adventures of Superman, a primeira série televisiva baseada no Super-Homem, exibida sem interrupções entre 1952 e 1958. O seu cancelamento seria, de resto, precipitado pelo aparente suicídio de Reeves - não faltando, todavia, quem acredite que o ator tenha sido vítima de homícidio.
Ao longo da década de 1960, o Super-Homem foi cabeça de cartaz de um par de séries animadas da DC e até de um musical da Broadway sugestivamente intitulado It's a bird... It's a plane... It's Superman.
Seria, contudo, em 1978, com a estreia de Superman, The Movie, no qual coube a Christopher Reeve representar o Último Filho de Krypton, que o herói conquistou toda uma nova audiência. Ovacionado pelo público e pela crítica, o filme foi um verdadeiro divisor de águas e inspirou quatro sequelas. A última das quais, Superman Returns,  aterrou nos cinemas de todo o mundo em 2006, com Brandon Routh a fazer as vezes do saudoso Christopher Reeve.

De Kirk Alyn a Henry Cavill:
os muitos rostos do Super-Homem no cinema e na TV.

Em 2013, o polémico Man of Steel inaugurou uma nova franquia cinematográfica da DC e teve a particularidade de, pela primeira vez, vermos um ator não-americano - Henry Cavill é britânico - a interpretar o Super-Homem.
No pequeno ecrã, Lois and Clark: The New Adventures of Superman (1993-97) e Smallville (2001-2011) foram as duas últimas séries de ação real do Homem de Aço a serem produzidas e estreladas, respetivamente, por Dean Cain e Tom Welling.
Além de personagem de jogos de vídeo e de ter inspirado vários parques temáticos nos EUA, o Homem de Aço foi também retratado em dois quadros da autoria de Andy Warhol. Confirmando,dessa forma, o seu estatuto de ícone da cultura mundial.


O Homem de Aço sob o traço do meu bom amigo Emerson Andrade,
 a quem agradeço mais este generoso contributo para o meu blogue.






quinta-feira, 14 de junho de 2018

ETERNOS: JERRY SIEGEL & JOE SHUSTER


  Nos dias sombrios da Grande Depressão, dois jovens sonhadores marcados pelo infortúnio deram ao mundo o seu maior herói. A glória do Super-Homem, arauto de uma nova era alçado a ícone global, apresentá-los-ia, porém, à face menos luminosa do Sonho Americano.
  No ano em que o Último Filho de Krypton comemora o seu 80º aniversário, fiquem a conhecer alguns dos maiores segredos por trás da sua criação e os dramas dos seus criadores.

À putativa capacidade de antecipar acontecimentos vindouros, próximos ou remotos, chama-se precognição ou premonição. Termos diferentes para designar algo que, desde tempos imemoriais, fascina a Humanidade: a arte de adivinhar o futuro.
Mito ou realidade, trata-se de um dom (ainda que alguns possam, legitimamente, considerá-lo uma maldição) cobiçado tanto por deuses como por reles mortais, e do qual nem o próprio Super-Homem desdenharia. Esse é, aliás, um dos talentos em falta no seu robusto catálogo de poderes e habilidades.
Também os criadores do Homem de Aço gostariam certamente de ter tido acesso a uma bola de cristal que lhes permitisse perscrutar o futuro. Esse pequeno mirante sobre o porvir poderia tê-los poupado a uma ingrata sina ditada por uma decisão precipitada. A mesma que mudaria para sempre as suas vidas e a história da Nona Arte.


Quando dois jovens do Ohio deram asas à imaginação,
nasceu um mito imorredouro.
Com efeito, se, no princípio dos anos 30 do século transato, Jerry Siegel e Joe Shuster, dois jovens judeus residentes em Cleveland (no estado norte-americano do Ohio), tivessem o poder de prever o que o Amanhã lhes reservava, as suas jornadas pessoais teriam decerto invocado menos uma longa travessia do Cabo das Tormentas.
Ambos teriam, com elevada quota de probabilidade, acumulado fortuna colossal e transformado para sempre o sistema mediático do seu país - e, quiçá, do resto do mundo. Desprovidos de talentos adivinhatórios e guiados pelos impulsos da juventude, tiveram de conformar-se com as migalhas que lhes foram atiradas. Chegando à indignidade de esmolar um módico de justiça e reconhecimento depois de terem dado aos fracos e oprimidos o seu campeão supremo.
Apenas uma das muitas amargas ironias a marcarem as vidas de Jerry Siegel e Joe Shuster, dois homens aparentemente fadados a serem protagonistas da desdita. E que, apesar de nascidos em latitudes distantes, a bússola irrequieta do destino cuidou de fazer com que os seus rumos convergissem. Vidas cruzadas ou uma cruz partilhada?

Dois homens, um destino 

Jerome "Jerry" Siegel, o mais novo da meia dúzia de rebentos de um casal de imigrantes lituanos fugidos à miséria e ao antissemitismo, veio ao mundo a 17 de outubro de 1914, em Cleveland. O sustento da família - cujo apelido original era Segalovich - provinha de uma loja de roupa usada que o pai explorava na baixa da cidade.
Escassos meses antes, a 10 de julho desse longínquo ano de 1914, a metrópole canadiana de Toronto servira de berço a Joseph "Joe" Shuster. Também ele filho de imigrantes judaicos - com raízes ucranianas e holandesas - o pequeno Joe tinha pai alfaiate e mãe a tempo integral. As coincidências não se quedavam, no entanto, por aí.
Jerry e Joe eram fascinados por histórias de ficção científica, lendo com avidez aquelas que, à época, eram publicadas em Amazing Stories, Weird Tales e em outras revistas pulp dedicadas ao género. Também as aventuras aos quadradinhos de Tarzan e Buck Rogers davam rédea solta à imaginação dos petizes encalhados numa infância pouco idílica.

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Duas das leituras preferidas nos verdes anos de Jerry Siegel e Joe Shuster.
Seria, de resto, essa paixão comum pelo fantástico o catalisador de uma duradoura e frutífera amizade iniciada na viragem da década de 1930, nos corredores do liceu Glenville de Cleveland. Cidade para onde a família Shuster - originalmente Shusterowich - se mudara em 1924 em busca de uma vida mais desafogada do que aquela que conhecera no Grande Vizinho do Norte. E que, entre outras coisas, obrigara o pequeno Joe a trabalhar como ardina do Toronto Daily Star a fim de contribuir para o magro orçamento familiar.
Mesmo antes de a Grande Depressão deixar a economia americana em frangalhos, a pobreza era outro denominador comum nas vidas de Jerry Siegel e Joe Shuster. Enquanto o primeiro sonhava escapar-lhe tornando-se escritor de ficção científica, o segundo vasculhava o lixo à procura de papel onde pudesse rabiscar os seus desenhos.
Tímidos e obcecados com universos de fantasia, as versões púberes de Jerry Siegel e Joe Shuster encaixavam-se perfeitamente no estereótipo nerd. Escusado será dizer que estavam longe de serem populares entre os seus pares, em especial os de sexo oposto. Duas almas solitárias reunidas por um obséquio do acaso para, juntas, darem forma aos sonhos que as ajudavam a suportar um quotidiano de agruras.

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Dois jovens visionários com infâncias difícieis
deram ao mundo o seu maior herói.
Data de 1931 uma das primeiras colaborações artísticas da parelha criativa que, antes do final dessa década, conceberia aquele que seria o primeiro super-herói. Nesse ano, Jerry Siegel e Joe Shuster produziram Groober, the Mighty, uma confessa paródia de Tarzan. Publicada no Glenville Torch, o jornal da escola que ambos frequentavam, a história evidenciava já a predileção dos seus autores por figuras corajosas e viris. No fundo, aquilo que Jerry e Joe aspiravam ser.
Terminado o liceu, Joe Shuster teve uma breve passagem pela Cleveland School of Art. Apesar desse aprendizado formal, Joe era - mais por necessidade do que por opção - um autodidata. Sem o virtuosismo artístico de Hal Foster (criador do Príncipe Valente) ou Alex Raymond*, o seu traço primava pela simplicidade, sendo notória a influência cinematográfica na composição das suas narrativas visuais.
A arte de Joe Shuster era, contudo, prejudicada pelos seus graves problemas de visão. Como o próprio revelaria em entrevistas concedidas ao longo dos anos, para ver os seus próprios desenhos, Joe precisava aproximar a página até esta ficar a um palmo da sua cara. Mercê dessas dificuldades, foi ele o inventor das chamadas splash pages, páginas preenchidas por uma única ilustração. Uma inovação narrativa que, pelo seu impacto visual, faria escola entre muitos oficiais do mesmo ofício até aos dias de hoje.
Por sua vez, Jerry Siegel, sem meios para financiar um curso superior, abraçou vários empregos mal remunerados enquanto acalentava o sonho de ganhar a vida como autor de ficção científica. Cansado de cortejar em vão as editoras, partiu dele a ideia de lançar um fanzine - um dos primeiros surgidos em terras do Tio Sam - para divulgar as histórias produzidas a meias com o seu compincha.
Com o subtítulo The Advance Guard of Future Civilization, o número inaugural de Science Fiction seria editado em outubro de 1932, e expedido por correio aos interessados. No seu rol de colaboradores ocasionais pontificaram nomes como Mort Weisinger (futuro editor dos títulos do Homem de Aço na DC Comics) e Forrest J. Ackerman (cocriador de Vampirella**).
Além das historietas saídas da pena de Jerry Siegel - e, invariavelmente, ilustradas por Joe Shuster - , cada um dos cinco fascículos publicados de Science Fiction continha ainda resenhas de outros fanzines e de livros de ficção científica. Apesar da efemeridade do projeto, seria no seu terceiro número, lançado em janeiro de 1933, que seria apresentado o protótipo do Super-Homem.
Numa história intitulada The Reign of the Superman (O Reinado do Super-Homem), Jerry Siegel e Joe Shuster mostravam como um indigente chamado Bill Dunn era transformado por um cientista inescrupuloso, com recurso a substâncias alienígenas. num poderosíssimo telepata. Habilidade que Dunn usava para manipular mentes alheias, assumindo-se como uma ameaça para a Humanidade circundante e transformando-se desse modo num dos primeiros supervilões da banda desenhada.

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Originalmente, o Super-Homem era um criminoso
com poderes mentais.
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A fisionomia de Bill Dunn (o primeiro Super-Homem)
parece ter servido de molde a Lex Luthor,
o eterno némesis do Homem de Aço.
Notoriamente inspirada em Frankenstein e com atributos muito diferentes do herói que os imortalizaria no folclore popular, esta criação de Jerry Siegel e Joe Shuster foi a primeira a ser identificada como Super-Homem. Contrariamente à tese propalada por algumas mentes bizantinas, esta nomenclatura não emanou, porém, de Assim Falou Zaratrusta. Obra da autoria de Friedrich Nietzsche editada em 1885, na qual o filósofo germânico discorria sobre as potencialidades do Übermensch" - literalmente, o "Homem Superior"; termo que seria todavia traduzido como "Super-homem".
Sucede que não consta que Jerry e Joe tenham alguma vez lido a obra em apreço ou a ela tenham aludido para explicar a origem do nome escolhido para batizar a sua criação. De facto, a sua intenção consistia, tão-somente, em inverter o arquétipo heroico de personagens mitológicas consideradas sobre-humanas, como Hércules ou Sansão. Foi, pois, esse o real motivo para o Super-Homem ter sido inicialmente retratado como um criminoso.
O público, contudo, mostrou-se pouco recetivo ao conceito de um vilão omnipotente. Apesar do seu inquestionável valor histórico, The Reign of the Superman foi, do ponto de vista literário, pouco impactante. Tratou-se, não obstante, da primeira investida dos autores na ideia de um ser superpoderoso, ulteriormente transmutado de vilão para herói. Roupagens com que seria apresentado aos editores de revistas de banda desenhada - os famosos comics. Numa época em que este novo veículo de comunicação de massas se começava a afirmar no panorama mediático estadunidense.

Super-Homem renascido

Após extinguirem o seu fanzine, Jerry Siegel e Joe Shuster resolveram tentar a sua sorte na florescente indústria dos quadradinhos. Importa ter presente que, até meados da década de 1930, era no formato de tiras diárias na imprensa que heróis clássicos como Tarzan, Mandrake ou Flash Gordon tinham as suas histórias publicadas. Obrigando dessa forma os leitores a esperarem até ao dia seguinte para acompanhar o próximo episódio romanesco dos seus ídolos.
Ora tudo isso mudaria com o advento dos comic books. Que, além de apresentarem histórias completas, podiam também ser colecionados. Se, numa fase inicial, as revistas incluíam, essencialmente, republicações de tiras e outro material preexistente, o sucesso comercial do novo formato logo ditaria a necessidade de personagens e histórias inéditas.
Atentos à evolução do mercado editorial, Jerry Siegel e Joe Shuster, com o entusiasmo próprio da juventude, imaginaram que poderiam encontrar nos comics o espaço ideal para desenvolverem as suas atividades.
Os dois haviam, nesse ínterim, reformulado por completo o conceito do Super-Homem. De vilão com talentos telepáticos, a personagem passara a um vigoroso herói - embora ainda sem superpoderes.
Sem delongas, os dois amigos apresentaram a renovada versão do Super-Homem à Consolidated Book Publishers, editora com sede em Chicago interessada em lançar uma linha de comics, e que procurava por isso matéria-prima para o seu projeto.
Intitulada The Superman, a obra de Jerry Siegel e Joe Shuster apresentada à Consolidated consistia numa revista completa, da qual sobraria apenas a capa chamuscada. As restantes páginas foram queimadas por um enraivecido Joe Shuster depois de a editora ter encerrado inopinadamente o seu departamento de quadradinhos.

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Um dos primeiros esboços do Super-Homem
saído do lápis de Joe Shuster em 1936.

Gorada essa primeira tentativa de publicação, a ideia de uma banda desenhada protagonizada por um ser superpoderoso seria temporariamente posta de lado, mas não descartada. Cerca de um ano depois, Jerry Siegel, o sempre laborioso escriba da dupla, propôs ao colega o reaproveitamento do Super-Homem numa tira diária a ser oferecida aos syndicates que forneciam esse tipo de material aos jornais.
Apesar dos reveses anteriores, Joe Shuster deixou-se uma vez mais contagiar pelo entusiasmo do amigo e deitou, de pronto, mãos à obra. Desenhando de forma quase febril, em pouco tempo tinha prontas para publicação várias tiras daquele que viria a ser um dos mais importantes ícones da  cultura pop mundial.
O resultado final afigurou-se bastante satisfatório aos olhos dos dois jovens autores. Nos meses seguintes, enviaram o seu trabalho a uma caterva de editores, colecionando recusa atrás de recusa.
Em 1934, por exemplo, o pacote que haviam remetido para a revista Famous Funnies foi-lhes devolvido sem sequer ter sido aberto. Ainda nesse ano, Jerry Siegel e Joe Shuster encetaram negociações com a editora Super Magazine, mas não chegaram a acordo sobre os termos contratuais.
Seria apenas no final de 1937 que a sorte dos dois amigos começaria a mudar. M.C. Gaines, que rejeitara o Super-Homem quando trabalhava para a Dell Comics, indicou-o para um novo título em produção para a National Allied Publications, uma das editoras que estaria na génese da DC Comics.
Nessa época, Jerry e Joe já não eram propriamente neófitos no ramo dos comics ou completamente desconhecidos para a National. Desde outubro de 1935 que ambos vinham colaborando regularmente em algumas publicações da editora, iniciadas por meio de duas personagens da sua autoria: Henri Duval of France, Famed Soldier of Fortune (um garboso aventureiro gaulês) e Doctor Occult, the Ghost Detective (um investigador paranormal que alguns historiadores classificam como o primeiro super-herói da DC).

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Um dos primeiros trabalhos profissionais
 de Jerry Siegel e Joe Shuster.

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Outra criação da dupla Siegel/Shuster, o Dr. Oculto é
considerado o primeiro super-herói da DC.
Estas e outras criações bem-sucedidas encorajaram Jerry Siegel e Joe Shuster a aperfeiçoar o Super-Homem. Agora retratado como o último sobrevivente do planeta Krypton, o herói ganhara  entretanto um uniforme colorido (inspirado na indumentária circense), uma identidade secreta (Clark Kent, o timorato repórter tirado a papel químico de Joe Shuster), uma cidade (Metrópolis, inspirada no filme homónimo de Fritz Lang) e uma namorada (Lois Lane, a quem Joanne Siegel, a segunda esposa de Jerry, serviu de modelo).
Apesar de ainda não voar (limitava-se originalmente a pular muito alto), o Super-Homem possuía já força descomunal e era virtualmente invulnerável. Ao longo dos anos foi consensualizado que esta sua característica refletia a influência de Gladiator, novela de ficção científica da autoria de Philip Wylie dada à estampa em 1930. Poderá existir, no entanto, outra explicação para Jerry Siegel ter imaginado uma personagem indestrutível.
Episódio ainda envolto em denso mistério, em junho de 1932 o pai de Jerry Siegel morrera durante um assalto à sua loja de roupa usada. Várias testemunhas garantiram às autoridades terem sido disparados tiros. No entanto, a causa oficial da morte apresentada no relatório da autópsia foi um ataque cardíaco.
Em meio século de entrevistas, Jerry Siegel nunca fez qualquer menção ao sucedido. Interrogo-me, no entanto, se terá sido mera coincidência um jovem órfão ter criado um herói à prova de bala e empenhado em fazer justiça pelas próprias mãos depois de o pai ter morrido durante um assalto?
Conjeturas à parte, em junho de 1938 aterrava nas bancas norte-americanas Action Comics nº1, trazendo na capa ninguém menos do que o Super-Homem. Fora ele o escolhido para apadrinhar o lançamento do novo título mensal da agora denominada Detective Comics, Inc. Estava desbravado o caminho para a fama e fortuna dos dois jovens idealistas do Ohio que o haviam criado.

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Action Comics nº1, a histórica edição
 que apresentou o Super-Homem ao mundo, em junho de 1938.

Arautos de uma nova era

O Super-Homem foi um sucesso imediato. Não demorou a que os editores percebessem que era ele, e não Action Comics, que os leitores procuravam freneticamente nas bancas e escaparates espalhados pelo país. Antes mesmo de completar um ano de publicação, o Último Filho de Krypton era o soberano absoluto das vendas, atingindo meio milhão de exemplares de tiragem - cifra que duplicaria nos anos imediatos.
Mercê desses momentos tonitruantes do Homem de Aço, em junho de 1939 - precisamente um ano após a sua estreia - chegava às bancas o primeiro número de Superman. De ora em diante, para gáudio de uma audiência que aumentava de tamanho de mês para mês, o herói desdobrar-se-ia entre o seu título em nome próprio e Action Comics. Foi, de resto, o primeiro a fazê-lo.

Com o lançamento de Superman nº1, em junho de 1939, o
Homem de Aço tornou-se o primeiro super-herói a
estrelar duas séries periódicas.
Apesar desse registo impressionante, o maior mérito do Super-Homem foi ficar inextrincavelmente ligado à proposição de um novo género narrativo que doravante se confundiria com os comics. A criação de Jerry Siegel e Joe Shuster serviu, com efeito, de matriz a um miríade de justiceiros fantasiados a que se convencionou chamar "super-heróis". Conceito que se tornaria predominante na indústria dos quadradinhos, concorrendo em larga medida para a sua prosperidade no período conhecido como Idade de Ouro da banda desenhada. E que teve em Jerry Siegel e Joe Shuster os seus principais arautos.
Na sua qualidade de proponentes dessa nova ordem narrativa, Jerry Siegel e Joe Shuster foram os primeiros profissionais diretamente beneficiados por ela, atingindo rapidamente a fama e o prestígio com que haviam sonhado desde as suas empreitadas juvenis. Mas, contrariamente ao que seria de supor, não enriqueceram à boleia do retumbante sucesso da sua criação. Em vez disso, seriam apresentados ao reverso do Sonho Americano, do qual, enquanto, imigrantes bem-sucedidos, eram representações vivas.

Reveses da fortuna

Ansiosos por garantirem finalmente a publicação do Super-Homem, Jerry Siegel e Joe Shuster haviam vendido ao desbarato - uns míseros 130 dólares - a sua primeira história. Longe de imaginarem o filão que tinham em mãos, concordaram igualmente com a venda de todos os direitos sobre a personagem. Tal como observei no terceiro parágrafo deste artigo, uma bola de cristal teria vindo mesmo a calhar para prevenir um negócio que se revelaria ruinoso para os criadores do Homem de Aço.
Em 1946, insatisfeitos com a exígua parcela que lhes cabia no latifúndio proporcionado pelas aplicações mercantis da sua criação, Jerry Siegel e Joe Shuster interpuseram um processo judicial a fim de exigirem à DC aquilo que consideravam ser o seu justo quinhão. Disputa que seria, porém, vencida pela empresa um par de anos volvidos.
Aos olhos da Justiça norte-americana, os criadores do Super-Homem não detinham qualquer direito de propriedade sobre a personagem, porquanto tinham aberto mão dela em favor da editora responsável pela sua publicação e licenciamento.
Jerry e Joe receberiam, contudo, 100 mil dólares ao abrigo de um acordo extrajudicial em que renunciavam definitivamente aos direitos sobre o Super-Homem e seus derivados. Seguindo-se a sua inapelável exoneração do corpo criativo da Editora das Lendas.
Expropriados da sua criação máxima e com os seus méritos dispensados pela DC, os "pais" do Super-Homem ensaiaram ainda um regresso à ribalta. Agora ao serviço da Magazine Enterprises, em 1948 criaram Funnyman. Uma rábula ao género super-heroico cujo resultado ficou, porém, muito aquém do esperado.

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Funnyman foi o último trabalho conjunto da dupla Siegel/Shuster.
Nos anos seguintes, Jerry Siegel assumiu as funções de diretor artístico da Ziff Comics antes de, no final da década de 1950, regressar à DC. Período durante o qual voltou a escrever histórias do Super-Homem não sendo, contudo, creditado por elas. Coincidindo esta fase com o lançamento de The Adventures of Superman, a lucrativa primeira série televisiva do Homem de Aço estrelada por George Reeves.
Tal como em outras produções prévias, os nomes de Siegel e Shuster não constavam da respetiva ficha técnica. À ausência de dividendos, somava-se, assim, o vexame de quem havia criado uma máquina de fazer dinheiro.
Ao mesmo tempo que prosseguia a sua campanha judicial com vista à recuperação dos direitos do Super-Homem, ao longo dos anos 1960 Jerry Siegel passou por diversas concorrentes da DC, entre as quais a Marvel Comics, a Charlton Comics*** e até a italiana Mondadori Editore.
A carreira de Joe Shuster como ilustrador foi, no entanto, mais curta. Após uma passagem meteórica pela Charlton, desenhou durante algum tempo histórias eróticas para a revista Night Terror antes de a sua quase cegueira ditar a procura por novo ofício. O momento mais triste da sua vida - já de si marcada por sucessivas desventuras - ocorreu precisamente nesta época.

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Uma das bandas desenhadas para adultos com arte de Joe Shuster.

A trabalhar como carteiro, Joe, numa daquelas dramáticas piruetas do destino, era frequentemente obrigado a entregar correspondência no edifício-sede da DC, onde - seguramente de coração pesado - via artistas mais jovens a desenharem as histórias do herói que ele tinha ajudado a criar.
O pungente drama pessoal de Joe Shuster provocou a indignação de muitos colegas de profissão que se solidarizaram com a sua luta para que lhe fosse atribuída uma pensão decente por parte da DC. A editora, no entanto, respondeu com gélida indiferença aos apelos que lhe foram sendo dirigidos para que se compadecesse da situação do seu ex-colaborador. Do ponto de vista dos mandachuvas da DC, a empresa não tinha qualquer obrigação legal - tampouco moral -  de o fazer.
Com os seus nomes simplesmente obliterados dos créditos das revistas do Super-Homem, bem como da galáxia de produtos licenciados, a história dos criadores do Homem de Aço poderia ter tido um desfecho ainda mais lúgubre não fosse pela corajosa decisão de Jerry Siegel de empreender uma campanha de relações públicas em 1975. No ano em que a DC anunciou, com pompa e circunstância, a sua intenção de produzir uma longa-metragem do Super-Homem para assinalar o 40º aniversário do herói, Jerry recorreu à imprensa para denunciar o tratamento indigno que lhe vinha sendo aplicado e a Joe Shuster por parte da Editora das Lendas.

Em nome da Verdade e da Justiça

Receosa das repercussões negativas decorrentes da campanha de Jerry Siegel, em especial no que ao desempenho comercial do filme dizia respeito, a DC concordou com a atribuição de uma pensão vitalícia de 30 mil dólares anuais a cada um dos criadores da sua galinha dos ovos de ouro. Comprometendo-se de igual modo a reconhecer formalmente os direitos autorais de Jerry Siegel e  Joe Shuster em todas as publicações e merchandising afetos ao Super-Homem.
Em termos económicos era assim feito um módico de justiça aos autores, conquanto o valor em questão representasse uma ninharia se comparado com o manancial financeiro proporcionado pelo Super-Homem. Mais importante do que a compensação material era, porém, a reparação moral, pois a partir desse momento Jerry e Joe puderam gozar do respeito e admiração dos seus pares. Sem falar na legião de fãs que, um pouco por todo o mundo, acompanhavam com devoção religiosa as aventuras do Homem do Amanhã nascido há 80 anos da imaginação de dois jovens desajustados do Ohio.
Vítima de cegueira nos últimos anos de vida, Joe Shuster despediu-se do mundo a 30 de julho de 1992. Jerry Siegel sobreviveu-lhe apenas quatro anos, fulminado em 1996 por um ataque cardíaco. Depois de uma vida passada à sombra do magnífico legado do Super-Homem - entretanto alçado a ícone global - gosto de imaginar que os dois velhos amigos se terão reencontrado num lugar melhor.
Contudo, logo após o falecimento de Jerry Siegel, a sua mulher e filhos voltaram aos tribunais, determinados a reaver todos os direitos sobre o Super-Homem. Após uma longa e onerosa guerra judicial, a Justiça americana deliberou que os copyrights do Homem de Aço pertencem agora aos herdeiros de Siegel, e  não mais à Warner Bros., atual proprietária da DC Comics.
Uma sentença histórica que estipulou ainda que os Siegels terão direito a todos os proventos relacionados com o licenciamento do Super-Homem após 1999. Data a partir da qual nos créditos das revistas do herói passou a figurar a legenda informativa "Super-Homem criado por Jerry Siegel e Joe Shuster. Por um acordo especial com a família de Jerry Siegel". Joe Shuster não teve filhos e, portanto, não deixou herdeiros que pudessem beneficiar desse acordo.
A consagração definitiva dos criadores do Super-Homem só aconteceria, porém, já este século. Em 2005, Jerry Siegel recebeu postumamente o Bill Finger Award for Excellence in Comic Book Writing, ao passo que Joe Shuster teve o seu nome inserido no Canadian Comic Book Hall of Fame. Foram também criados os Joe Shuster Awards for Canadian Book Creators, galardões concedidos anualmente aos autores canadianos que, pelo seu mérito, se destacam na Nona Arte.
Um reconhecimento serôdio mas mais do que merecido aos dois homens que deram ao mundo o seu maior herói. E a quem, por meio deste artigo, presto a minha singela, porém sentida, homenagem. Jerry e Joe, onde quer que estejam um grande bem-haja por tudo. Mesmo em tempos ensombrados pelo desalento e pela incerteza, o Super-Homem será sempre um farol de esperança a alumiar a Humanidade.

Jerry Siegel e Joe Shuster fizeram-nos acreditar
que um homem pode voar.

*http://bdmarveldc.blogspot.com/2017/12/eternos-alex-raymond-1909-1956.html
**http://bdmarveldc.blogspot.com/2017/07/heroinas-em-acao-vampirella.html
***http://bdmarveldc.blogspot.com/2018/03/fabricas-de-mitos-charlton-comics.html

Agradecimento muito especial ao meu mui talentoso amigo Emerson Andrade que, com a bonomia com que sempre acede aos meus pedidos, restaurou digitalmente a imagem que serve de ilustração principal a este artigo, associando-se dessa forma à homenagem que nele é rendida aos criadores do maior herói de todos os tempos.