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quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

ETERNOS: DICK SPRANG (1915-2000)



  Sempre na sombra de Bob Kane, de quem foi o "fantasma" favorito, influenciou decisivamente a estética das histórias do Batman. Da sua imaginação saiu também um dos mais icónicos modelos do Batmobile. O merecido reconhecimento só chegaria, contudo, após ter trocado a 9ª Arte pela exploração arqueológica, outra das suas paixões.

Biografia: No já longínquo verão de 1915, a pequena cidade de Fremont, no estado norte-americano do Ohio, viu nascer aquele que viria a ser o seu segundo filho mais ilustre. No campeonato local de notoriedade, Richard W. Sprang (Dick para os mais íntimos) perde apenas para Rutherford B. Hayes, o advogado da terra que, entre 1877 e 1881, ocupou a Sala Oval. O antigo Presidente dos EUA seria, de resto, uma das duas celebridades à sombra das quais Sprang se habituaria a viver. Sendo a outra Bob Kane, cocriador do Batman sobejamente conhecido por ser avesso a dividir os louros com quem quer que fosse.
Da infância e vida familiar de Dick Sprang quase nada se sabe. Ainda adolescente, desdobrava-se entre os bancos da escola e as agências publicitárias da sua cidade natal. Onde, a troco de um punhado de dólares, coloria cartazes e panfletos depois das aulas. Embora modesto, esse seu primeiro emprego dotou-o do arcaboiço necessário para fazer face às exigências do ofício de ilustrador que abraçaria já homem feito.
Segundo Jerry Bails, eminente historiador da Nona Arte, quando ainda frequentava o liceu, na viragem da década de 1930, Dick Sprang começou a colaborar com a Thrilling Publications, editora especializada em magazines pulp. Essa não foi, porém, a única incursão do jovem artista nesse tipo de publicações que, à época, gozavam de enorme popularidade sobretudo entre o público juvenil.
Sem nunca negligenciar os estudos, Sprang emprestava também o seu traço às historietas do mesmo género publicadas com os selos da Columbia Publications e da Street & Smith. Transpondo dessa forma as fronteiras do seu Ohio natal, visto que esta última estava sediada em Nova Iorque. Cidade para onde o jovem Sprang se mudaria anos depois.


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Em cima: Dick Sprang na juventude.
Em baixo: Capa da sua autoria para um dos magazines pulp com que colaborou.
Com o diploma do secundário na mão, por volta de 1934 Dick Sprang arranjou emprego como cartunista num tabloide da cidade vizinha de Toledo. Demonstrando uma admirável capacidade de trabalho que se tornaria seu cartão de visita, não cessou a sua colaboração com os vários magazines pulp onde dera os primeiros passos como ilustrador e, ocasionalmente, como editor.
Famoso pela sua inatacável ética profissional, numa entrevista dada em 1987 Sprang descreveu nos seguintes termos os primórdios da sua notável carreira: "Eu fazia parte do departamento de arte de um jornal, onde tínhamos diariamente de cumprir religiosamente cinco prazos de entrega. Tínhamos outras tantas edições na rua que incluíam anúncios publicitários dos mais variados negócios, desde lojas de móveis a joalharias. Significando isto que, além dos cartunes humorísticos e das ilustrações que acompanhavam algumas das notícias, tínhamos ainda de desenhar os produtos que cada uma dessas empresas se propunha vender. Aprendi a usar gravadores para o fazer e a dominar como poucos as técnicas de impressão. Mas o mais importante foi ter aprendido o valor de um prazo. Que, para mim, é sagrado. Habituei-me, por isso, desde muito cedo, a trabalhar contra o relógio. Sem, no entanto, retirar esmero ao meu serviço. Temos de saber respeitar o nosso ganha-pão, pois só assim poderemos conservá-lo."

Retrato do Presidente Franklin D. Roosevelt desenhado por Dick Sprang.
E foi assim, com a mala a abarrotar de brio e esperança, que, nos primeiros meses de 1936, Dick Sprang trocaria a pacatez de Toledo pela azáfama da cidade insone. Em Nova Iorque trabalharia nos anos seguintes como ilustrador freelancer de diversos títulos pulp, sentindo-se como peixe na água. Tanto que, de quando em vez, se aventurava na escrita dessas historietas protagonizadas por cowboys, detetives particulares e toda a estirpe de heróis temerários que, com as suas aventuras mirabolantes, incendiavam a imaginação a miúdos e graúdos.
Facto pouco conhecido, em 1938 saíram da pena de Dick Sprang os guiões de uma mão-cheia de episódios de Lone Ranger, o lendário folhetim radiofónico que deu a conhecer o mais afamado dos justiceiros mascarados do Velho Oeste. Personagem com a qual Sprang já havia, aliás, trabalhado um par de anos antes, quando arte-finalizou algumas das suas histórias aos quadradinhos.

Dick Sprang escreveu alguns episódios de Lone Ranger (1933-54).
A década seguinte começaria com a entrada dos EUA na II Guerra Mundial e o inexorável declínio da literatura pulp. Quadro pouco auspicioso que levaria Dick Sprang a tentar a sua sorte na florescente indústria dos comics, a viver então os seus anos dourados.
De facto, as histórias com super-heróis estavam na moda e, por isso, vendiam como pãezinhos quentes no inverno. Raro era o dia em que não surgia mais uma dessas figuras espampanantes. Parecendo, no entanto, haver sempre lugar para mais uma, tal era a sofreguidão dos leitores. Princípio aplicável, também, às editoras que, por esses dias, se acotovelavam por um lugar ao Sol num mercado em convulsão e que prometia fama e fortuna a quem nele se conseguisse afirmar.
Cavalgando essa onda de euforia criativa, Dick Sprang propôs sociedade a dois colegas de ofício, Norman Fallon e Ed Kressey, assim nascendo logo depois o Estúdio Fallon-Sprang. Operando a partir de um minúsculo apartamento no coração de Manhattan, o trio providenciava material artístico a editoras de menor dimensão sem recursos para a contratação de ilustradores residentes.
Apesar desse seu projeto ir de vento em popa, Dick Sprang aspirava a voos mais altos. Na esperança de que isso desse asas ao seu sonho, ainda em 1941 apresentou parte do seu portefólio a Whitney Ellsworth, o todo-poderoso editor-chefe da DC Comics. Que, impressionado com o talento do jovem artista e precavendo a mais que provável mobilização de Bob Kane(1) para a guerra, nem hesitou em contratá-lo para desenhar as histórias do Batman.
No entanto, aquilo que poderia ter sido um passaporte para a ribalta, esbarrou na cláusula contratual, imposta por Kane, que impedia qualquer artista, que não ele, de ser creditado pelo seu trabalho com o Cavaleiro das Trevas.
Dick Sprang engrossaria, assim, a extensa lista de desenhadores-fantasmas do Batman que, até meados dos anos 1960 - quando a citada cláusula foi por fim revogada - foram obrigados a permanecer incógnitos de modo a que o obeso ego de Bob Kane não fosse sequer beliscado ao de leve.
Edição dada à estampa em setembro de 1943, Batman nº18 assinalou, sem pompa nem circunstância, a estreia de Dick Sprang como desenhador do Homem-Morcego. Era dele o traço da Dupla Dinâmica que surgia em destaque na respetiva capa. Menos modesta seria a sua contribuição para a edição seguinte ao assumir a arte da capa e de três das quatro histórias nela inclusas, tendo ainda feito os esboços da quarta. Um verdadeiro teste à sua capacidade de trabalho que Sprang superou com distinção.

O primeiro trabalho de Dick Sprang em Batman nº18 (1943).
Sempre à sombra de Bob Kane, ao longo das duas décadas seguintes Sprang foi um obreiro anónimo dedicando-se quase em exclusivo ao Cruzado da Capa. Sem nunca cortar o cordão umbilical que o ligava à personagem, entre 1955 e 1963 (ano em que se retirou dos quadradinhos), foi o "fantasma" de Curt Swan(2) em World's Finest Comics, série mensal que apresentava as aventuras conjuntas da Dupla Dinâmica e do Super-Homem. Caberia, aliás, a Sprang desenhar o primeiro protótipo da Supergirl, a fim de testar a recetividade dos leitores a uma contraparte feminina do Homem de Aço.

Uma das capas de World's Finest Comics ilustradas por Sprang.
Paralelamente a tudo isto, os títulos periódicos do Homem-Morcego continuavam a ser abrilhantados pela singular arte de Dick Sprang. Cuja influência, embora desconhecida dos fãs, seria decisiva para a evolução visual do herói, bem como para o enriquecimento da sua mitologia.
Juntamente com Bill Finger (a quem só muito tardiamente a DC reconheceu a "paternidade" do Batman), em 1948 Dick Sprang introduziu um novo e carismático vilão nas histórias da Dupla Dinâmica: o Charada (3).
Dando rédea solta à sua criatividade, nesse mesmo ano Sprang apresentou também um novo modelo do Batmobile. Com linhas modernas e equipado com tecnologia de ponta, tornar-se-ia uma referência na história do veículo que há quase 80 anos serve de meio de transporte ao Cavaleiro das Trevas e seus ocasionais escudeiros. Motivos de sobra para que Bob Kane tenha confidenciado mais do que uma vez ter em Dick Sprang o seu "fantasma" favorito.



Charada e um novo Batmobile:
 duas das criações mais emblemáticas de Sprang para a Bat-universo.
Sprang sobressaía, de facto, entre a chusma de desenhadores-fantasmas que acolitavam anonimamente Bob Kane. Les Daniels, outro renomado estudioso da Nona Arte, não hesita mesmo em qualificá-lo como o artista supremo do Batman na chamada Idade de Prata dos comics. Segundo ele, Sprang conhecia como ninguém a forma como os mais pequenos liam as bandas desenhadas. Para os manter suspensos do que aconteceria ao virar de cada página, ele trabalhava meticulosamente na transição de painéis, conferindo desse modo maior fluidez à narrativa. Para a qual muito concorria a limpidez e o dinamismo que caracterizavam o seu traço.
Outra explicação possível para o desenvolvimento desse estilo poderá ser atribuída aos constantes atrasos de Bill Finger na entrega dos seus roteiros. Uma vez que estes começavam frequentemente a ser desenhados com o final em aberto, isso requeria um enorme jogo de cintura da parte de Sprang.
Nada disso teria sido, porém, possível sem a valiosa ajuda de Lora Sprang, a polivalente cara-metade de Dick Sprang. A quem ele, logo após ter sido contratado pela DC, tratara de ensinar os segredos da balonagem. Sob o pseudónimo de Pat Gordon, Lora, que era também fotógrafa freelancer, seria a letrista de largas dezenas de histórias do Batman, Super-Homem e outros até 1961, ano em que cessou a sua colaboração com a Editora das Lendas.
Dick Sprang incutiu maior dinamismo às aventuras de Batman e Robin.
Em busca de geografias mais arejadas, em 1946 o casal Sprang tinha-se mudado de armas e bagagens para Sedona, cidadezinha do Arizona que tem nas suas imponentes formações de areia vermelha o seu ex libris. Foi lá que Dick Sprang descobriu outra das suas paixões: a exploração arqueológica. Atividade à qual se dedicou de corpo e alma depois de ter abandonado, corria o ano de 1963, a indústria dos comics. E que lhe valeu a notoriedade que esta durante tanto tempo lhe sonegou.
Dessas suas prospeções no terreno resultaria, em 1952, um importante achado arqueológico. Em conjunto com um casal amigo, Dick Sprang trouxe à luz do dia umas ruínas Anasazi (tribo indígena desaparecida antes do advento dos europeus à América), nunca antes vistas pelo homem branco.
Fascinado também pela fotografia, Sprang tornar-se-ia nos anos seguintes um perito no mapeamento de antigos trilhos usados pelos pioneiros que, nos alvores do século XIX, haviam partido à conquista do Oeste bravio. A sua voz pode ser, de resto, ouvida em diversos registos áudio do National Park Service, agência federal à qual compete administrar a rede de parques naturais e de monumentos nacionais dos EUA.
A despeito de ter tido a sua obra parcialmente republicada em 1961, apenas em meados da década seguinte Dick Sprang obteve o merecido reconhecimento por parte dos fãs. Para quem, até então, por força das circunstâncias acima descritas, não passava de um perfeito desconhecido.
Subitamente basculado ao estrelato, nos anos seguintes Dick Sprang tornar-se-ia um habitué das convenções de banda desenhada e outros certames ligados à cultura pop. Quando não estava a distribuir autógrafos aos fãs embevecidos, vendia as suas reproduções de capas da Idade do Ouro a colecionadores endinheirados. Conservando, no entanto, intacta a sua proverbial modéstia.
Após ter ensaiado o seu regresso aos quadradinhos em 1987, através de colaborações esporádicas com a DC, em 1995 Sprang lançaria aquela que seria a sua obra testamentária: duas edições limitadas contendo litografias da sua autoria mostrando os segredos da Bat-Caverna e a galeria de personagens do Batman.
Segredos da Bat-Caverna revelados numa das litografias de Sprang.
Três anos antes, em 1992, Sprang fora agraciado com um Inkpot Award, galardão que distingue anualmente a nata dos iconoclastas. Prémio mais do que merecido, porém insuficiente para reparar a indignidade a que ele, à semelhança de tantos outros artistas da sua geração, havia sido sujeito.
Com a mesma discrição com que vivera, Dick Sprang despediu-se do mundo dos vivos em 2000, escassos meses depois de ter sido indicado para o Will Eisner Comic Book Hall of Fame. Deixando para trás  um impressionante espólio que vale a pena (re)descobrir. Sendo, portanto, da mais elementar justiça que eu, na minha dupla condição de fã do Batman e diletante da Nona Arte, renda aqui a minha singela, porém sentida, homenagem a este grande vulto dos quadradinhos. A quem o tempo se encarregou de resgatar ao ostracismo a que parecia condenado devido ao exacerbado narcisismo de alguns dos seus pares.

"A imortalidade é uma espécie de vida que adquirimos na memória dos homens."
 (Denis Diderot, filósofo francês do século XVIII)

(1) Perfil de Bob Kane: http://bdmarveldc.blogspot.pt/2011/10/eternos-bob-kane-1915-1998.html
(2)  Idem de Curt Swan: http://bdmarveldc.blogspot.pt/2013/07/eternos-curt-swan-1920-1996.html
(3) Prontuário do Charada: http://bdmarveldc.blogspot.pt/2013/11/galeria-de-viloes-charada.html

Galeria de capas desenhadas por Sprang:

































terça-feira, 20 de dezembro de 2016

GALERIA DE VILÕES: DUENDE MACABRO

   

  Emergiu, por entre risadas maníacas, das ruínas do legado do Duende Verde para levar o medo mesmo aos corações mais empedernidos. Deslindando enfim o mistério da sua identidade, muitas perguntas ficaram, porém, sem resposta. Fruto das inúmeras peripécias que marcaram a conceção deste que é um dos mais carismáticos e perigosos inimigos do Homem-Aranha.

Denominação original: Hobgoblin
Licenciadora: Marvel Comics
Primeira aparição (como Roderick Kingsley): Peter Parker, The Spectacular Spider-Man nº43 (junho de 1980)
Primeira aparição como Duende Macabro: Amazing Spider-Man nº238 (março de 1983)
Criadores: Roger Stern (história) e John Romita Jr. (arte conceitual)
Identidade civil: Roderick Kingsley
Local de nascimento: Belize
Parentes conhecidos: Daniel Kingsley (irmão gémeo falecido)
Afiliação: Presidente-executivo da Kingsley Ltd e ex-membro da Legião Amaldiçoada (Accursed Legion) durante as segundas Guerras Secretas
Base de operações: Nova Iorque, Paris e Caraíbas
Armas, poderes e habilidades: Dada a sua fonte comum, as valências especiais do Duende Macabro são em tudo semelhantes às do Duende Verde. Ambos tiveram a sua fisiologia incrementada pelo chamado Soro do Duende. Composto químico com propriedades mutagénicas, foi uma invenção de Norman Osborn aprimorada por Roderick Kingsley. Esse aprimoramento objetivou a supressão dos efeitos secundários da fórmula original, o principal dos quais era a demência.
Quando ingerido ou inoculado, o Soro do Duende capacita o seu usuário de força, resistência e velocidade sobre-humanas, acrescendo ainda um fator de cura acelerado. Os seus efeitos fazem sentir-se também a nível intelectual, potenciando as capacidades cognitivas de quem o toma.
Este aumento de inteligência é, no entanto, normalmente acompanhado por psicoses, alucinações e outros distúrbios do foro psíquico. Apesar de menos afetado por estas contraindicações devido às melhorias que introduziu na fórmula original, Roderick Kingsley não lhes ficou totalmente imune. Instabilidade mental que, em maior ou menor grau, caracterizou igualmente todos aqueles que, depois dele, portaram o manto do Duende Macabro. E que, em última análise, representa a principal fraqueza do vilão, estando frequentemente na base das suas derrotas.
Estrategista brilhante, o Duende Macabro é também um exímio lutador. Não se furtando, por isso, à confrontação direta com os seus adversários, nomeadamente com o Homem-Aranha. Nesses combates mano a mano conta com a proteção adicional conferida pela sua armadura, cuja cota de metal absorve eficazmente o impacto dos golpes que lhe são desferidos. O traje é uma declinação do modelo usado pelo Duende Verde, inicialmente projetado pela Oscorp para fins militares.
Equipadas com micro-circuitos e filamentos, as luvas da sua vestimenta habilitam o Duende Macabro a disparar rajadas elétricas. Em função da respetiva potência, elas podem atordoar ou eletrocutar os seus adversários de circunstância. Já as botas possuem minijatos propulsores incorporados que lhe permitem voar curtas distâncias.
Sem embargo, é no seu planador (também ele uma réplica do utilizado pelo Duende Verde) que o vilão tem o seu meio de transporte de eleição. Aparato que, devido às suas rebarbas pontiagudas e cortantes, pode igualmente ser usado em manobras ofensivas, ou até mesmo como arma de arremesso. São, todavia, as bombas-abóbora (outra patente do Duende Verde) as armais mais icónicas e mortíferas do arsenal do Duende Macabro. Que inclui ainda granadas de gás e de fumaça.

A morte risonha que vem do céu.
Histórico de publicação: Nos primeiros anos da década de 1980, as histórias do Homem-Aranha ressentiam-se ainda da morte do Duende Verde. Como tantos outros escritores antes dele, Roger Stern sentiu-se pressionado a ressuscitar o vilão para preencher esse vazio na vida do herói aracnídeo, há largos anos privado do seu némesis.
Stern resistiu, porém, a carimbar a passagem de Norman Osborn para o mundo dos vivos, a repassar o testemunho ao seu filho, Harry, e até mesmo a criar um novo alter ego para o Duende Verde. Em alternativa, decidiu-se pela inserção de uma personagem inédita, uma espécie de herdeiro para o funesto legado do arqui-inimigo do Escalador de Paredes.
Ao som de risadas maníacas capazes de gelar mesmo a mais valente das almas, em março de 1983, nas páginas de The Amazing Spider-Man nº238, entrava em cena o Duende Macabro. À primeira vista um mero pastiche do Duende Verde, o novo vilão logo provou ser muito mais do que isso. No entanto, o processo criativo a montante da sua primeira aparição é recordado de maneiras distintas pelos seus dois intervenientes.

Amazing Spider-Man Vol 1 238 Direct
O Duende Macabro mostra ao que vem
na sua estreia em Amazing Spider-Man nº238 (1983).
Roger Stern sustenta que instruiu John Romita Jr. a basear-se no uniforme do Duende Verde para conceber o figurino do Duende Macabro, embora dando-lhe um toque mais medieval. Romita, por seu turno, nega que Stern lhe tenha sugerido essa cambiante. Malgrado estas pequenas discrepâncias nos seus relatos, ambos concordam que a aparência do mais recente inimigo do Homem-Aranha teve a assinatura de Romita.
Naquele que viria a ser um dos mais intrincados e duradouros enigmas das histórias do Escalador de Paredes, a verdadeira identidade do Duende Macabro seria mantida no segredo dos deuses durante largos meses. Tantos que, como veremos mais adiante, se transformaria numa rábula com mais buracos do que um queijo suíço. Culpa, em primeiro lugar, de Roger Stern. Conforme o próprio admitiria anos mais tarde, houve precipitação da sua parte ao lançar a personagem sem lhe ter definido previamente um alter ego.
Numa entrevista datada de 2009, Stern explicou como se deu esse momento eureca: "Enquanto escrevia aquelas magníficas páginas ilustradas pelo John Romita Jr., e ia estabelecendo os padrões discursivos do Duende Macabro, ocorreu-me que ele só poderia ser uma pessoa. Nenhum outro que Roderick Kingsley, o estilista amoral que eu introduzira logo na primeira edição que escrevera de The Spectacular Spider-Man."



Roger Stern (cima) e John Romita Jr.
dividem a "paternidade" do Duende Macabro.
De facto, uns quantos leitores com costela detetivesca depressa deduziram que seria o rosto insolente de Kingsley a esconder-se sob a máscara do Duende Macabro. A fim de despistá-los ao mesmo tempo que providenciava uma explicação retroativa para a caracterização inconsistente de Kingsley nas suas aparições pregressas, Stern atribuiu-lhe um irmão gémeo, criado propositadamente para o efeito.
Daniel Kingsley, assim foi crismado o sósia de Roderick, encarnaria por vezes o Duende Macabro. Com essa pirueta narrativa, os leitores seriam mantidos em suspense durante mais algum tempo até à grande revelação. Para que o logro fosse crível, Stern tratou de mostrar a presença simultânea de Roderick Kingsley e do Duende Macabro em Amazing Spider-Man nº249.
Determinado em bater o recorde de longevidade do mistério em redor da identidade do Duende Verde, Roger Stern pretendia expor a verdadeira face do Duende Macabro em The Amazing Spider-Man nº264. Superando desse modo o número de edições ao longo das quais, uma vintena de anos antes, os leitores haviam tentado adivinhar quem era o homem por detrás do duende que infernizava a vida do Cabeça de Teia.
O plano de Stern iria, contudo, por água abaixo quando ele foi inesperadamente afastado das histórias do herói aracnídeo em The Amazing Spider-Man nº252. Até então editor dos títulos periódicos do Homem-Aranha, Tom DeFalco assumiria logo depois o lugar deixado vago por Stern. E foi aí que a maré mudou, arrastando o Duende Macabro para águas ainda mais turvas.
Apostado em solucionar rapidamente o mistério acerca da verdadeira identidade do Duende Macabro sem desvirtuar o trabalho desenvolvido pelo seu antecessor, DeFalco perguntou a Stern quem se escondia afinal atrás da máscara. Quando este lhe revelou que se tratava de Roderick Kingsley, DeFalco rejeitou prontamente essa hipótese. No seu entender, além de desonesto para com os leitores, o ardil de um irmão gémeo era um beco sem saída do ponto de vista narrativo, pois em momento algum a sua existência fora sequer sugerida.
Mesmo discordando do parecer do seu interlocutor, Stern deu-lhe carta branca para escolher outra persona civil para a sua criação. Confiante de que, fosse qual fosse a escolha de DeFalco, ela seria a mais acertada.
Após uma revisão exaustiva das pistas que Stern fora plantando desde o surgimento do Duende Macabro, DeFalco concluiu que ele deveria ser Richard Fisk, o filho pródigo do Rei do Crime*. Entendeu igualmente por bem manter o segredo pelo máximo tempo possível, por ser esse o elemento que tornava a personagem tão interessante aos olhos dos leitores. Com o intuito de lhes espicaçar ainda mais a curiosidade, várias capas de The Amazing Spider-Man mostravam o Homem-Aranha a desmascarar o Duende Macabro sem que, contudo, a verdade viesse ao de cima.

Uma das capas de Amazing Spider-Man
que serviram de chamariz aos leitores mais curiosos.
Tudo parecia bem encaminhado até James Owsley ser designado editor da linha de títulos do Escalador de Paredes. Tensa seria um eufemismo para caracterizar a sua relação com DeFalco. Por isso, quando, numa conferência de autores, Owsley o questionou sobre a verdadeira identidade do Duende Macabro, DeFalco mentiu despudoradamente, indicando Ned Leeds (ver lista de alter egos) como sendo o homem por detrás da máscara.
Na posse dessa informação privilegiada, Owsley escreveria num ápice Spider-Man versus Wolverine, crossover que incluía a presumível morte de Ned Leeds. De seguida, Owsley propôs a Peter David**, escriba responsável pelas estórias do aranhiço em The Spectacular Spider-Man, a apresentação do Estrangeiro (The Foreigner, no original) como o alter ego do Duende Macabro.
Conceito desenvolvido pouco tempo antes por David, o Estrangeiro era um assassino de gabarito mundial que tivera um breve recontro com o Homem-Aranha. Apesar de lisonjeado por a escolha de Owsley para tão importante papel contemplar uma personagem da sua autoria, David declinou a proposta.
A exemplo dos demais participantes na conferência de autores, Peter David estava firmemente convencido de que Ned Leeds seria, de facto, o Duende Macabro e sabia bem quão pouco amistosa era a relação entre Owsley e DeFalco. Razões de sobra para ele não se querer envolver na polémica que antevia.
A revelação de que Ned Leeds era o Duende Macabro
foi apenas o começo de um mistério maior.
Descartada a possibilidade de utilização do Estrangeiro, e uma vez que a história de Owsley já fora desenhada, era demasiado tarde para reverter a morte de Ned Leeds. A solução encontrada para o imbróglio passou, assim, por uma revelação póstuma, nas páginas de The Amazing Spider-Man nº289.
Ficando desse modo os leitores a conhecer a verdade, quando era já Jason Macendale o portador do capuz do Duende Macabro. Escusado será dizer que esta foi uma opção deveras impopular.
Ciente desse facto,  Peter David continua, ainda assim, a dizer-se orgulhoso da história que atamancou. Argumentando que, apesar de ser um lugar-comum, é sempre emocionante ver um vilão odioso ser desmascarado no clímax de uma batalha épica contra o herói de quem é inimigo.
Quem nunca se conformou com a decisão de transformar Ned Leeds no primeiro Duende Macabro foi Roger Stern. E, à primeira oportunidade, tratou de emendar isso. Em 1997, Stern escreveu Spider-Man: Hobgoblin Lives, minissérie em três volumes que serviu para recontar a origem do vilão.
Entre outros ajustamentos retroativos, a história mostrava a criação do Duende Macabro por parte de Roderick Kingsley e a lavagem cerebral a que ele submeteu Ned Leeds para que este lhe servisse de bode expiatório.
Após matar Macendale, Kingsley reassumiu a sua antiga persona criminosa. Solução proposta pelo editor de Roger Stern enquanto este se debatia com o problema da existência de dois Duendes Macabros. Mas, como veremos em seguida, a procissão de duendes ainda ia no adro...

* Biografia não autorizada do Rei do Crime em http://bdmarveldc.blogspot.pt/2015/09/galeria-de-viloes-rei-do-crime.html
** Perfil disponível em http://bdmarveldc.blogspot.pt/2015/12/eternos-peter-david-1956.html

Um vilão capaz de causar calafrios
 a quem lhe cruza o caminho.

Revoada de duendes

Conheçamos, então, um pouco melhor os homens que, ao longo dos anos, mantiveram vivo o legado do Duende Macabro. Note-se que a ordem pela qual eles figuram na lista abaixo é cronológica, não editorial.
Feito este esclarecimento prévio, passemos, sem mais delongas, às apresentações sumárias de cada um deles.

*Roderick Kingsley: Notório pela sua visão e práticas empresariais antiéticas, Roderick Kingsley era um bem-sucedido criador de alta costura que administrava um vasto império financeiro. Após descobrir a localização de alguns dos esconderijos secretos de Norman Osborn - o Duende Verde original - Kingsley tornou-se obcecado com o legado do malogrado vilão e decidiu dar-lhe continuidade. Sempre com esse objetivo em mente, apropriou-se da parafernália tecnológica projetada por Osborn e aplicou em si mesmo uma versão melhorada do Soro do Duende, adquirindo habilidades sobre-humanas similares às do seu antecessor.

Roderick Kingsley,
o fundador de uma macabra dinastia.
Operando como Duende Macabro, Kingsley começou por usar o seu novo alter ego para chantagear alguns dos seus rivais na indústria da moda. Rapidamente se tornaria, no entanto, uma das figuras mais temidas do submundo nova-iorquino, o que fez tilintar o sentido de aranha de um certo Escalador de Paredes.
Para acobertar os seus incontáveis crimes, Kingsley raptou Ned Leeds e sujeitou-o a uma lavagem cerebral, induzindo-o a acreditar que era ele o verdadeiro Duende Macabro. Quando teve a sua identidade comprometida pelo Homem-Aranha e por Betty Brant, a viúva de Ned Leeds, Kingsley fugiu para as Caraíbas, onde pretendia gozar a sua reforma dourada.

*Ned Leeds: Edward "Ned" Leeds era um promissor repórter do Clarim Diário casado com Betty Brant, também ela secretária pessoal de J. Jonah Jameson, o temperamental editor do jornal. Usado como bode expiatório por Roderick Kingsley, julgava-se o verdadeiro Duende Macabro. Acabaria executado pelo Estrangeiro na ex-RDA quando deixou de ter utilidade para Kingsley.

Ned Leeds, o bode expiatório.

*Jason Philip Macendale Jr.:
O mais veterano dos Duendes Macabros (envergou o uniforme durante exatamente uma década, de 1987 a 1997), Jason Macendale era um mercenário de sangue frio treinado pela CIA e que se notabilizara como Halloween, um criminoso fantasiado que enfrentou o Homem-Aranha em diversas ocasiões.
Macendale entraria em cena quando, empenhado em arranjar novo testa-de-ferro, Roderick Kingsley incriminou Flash Thompson, velho amigo de Peter Parker. Julgando estar a fazer um favor ao Duende Macabro que o faria cair nas boas graças do vilão, Macendale ajudou Thompson a fugir da prisão. Ao perceber o logro, decidiu ele próprio tornar-se o Duende Macabro.

Jason Macendale, o mercenário de sangue frio.
Durante os eventos de Inferno (saga já dissecada neste blogue), Macendale foi imbuído de poderes sobrenaturais e sofreu uma horrível transformação física que o dotou de uma aparência monstruosa. Período durante o qual o Duende Macabro deu lugar ao ainda mais sinistro Duende Demoníaco (Demogoblin).
Tal como o seu antecessor, Macendale acabaria assassinado. Desta feita, pelo próprio Roderick Kingsley, regressado ao ativo para reclamar o seu legado.

*Daniel Kingsley: Quando o seu irmão gémeo foi forçado a abandonar a identidade de Duende Macabro e a procurar novamente santuário nas Caraíbas em consequência da sua derrota às mãos do Duende Verde, coube a Daniel Kingsley manter vivo o seu legado. Seria, porém, assassinado por Phil Urich, sobrinho de Ben Urich, o veterano jornalista do Clarim Diário e amigo de longa data de Peter Parker.

Daniel Kingsley, o sósia.
*Phil Urich: Depois de matar, em legítima defesa, Daniel Kingsley e de assumir o manto do Duende Macabro, Urich tornar-se-ia um agente do Rei do Crime. Quando o império criminoso de Wilson Fisk foi desmantelado pelo Homem-Aranha Superior (combinação da mente de Otto Octavius com o corpo de Peter Parker), Urich foi preso e teve a sua identidade exposta. Libertado pelo Duende Verde, jurou-lhe lealdade e adjuvou-o na sua campanha para reconquistar o submundo de Nova Iorque. Na esteira da presumível morte do seu benfeitor, Urich autoproclamou-se Rei Duende.

Phil Urich, o príncipe degenerado.
*Claude: Mordomo de Roderick Kingsley, por ordem do patrão fez-se passar pelo Duende Macabro numa tentativa de derrubar o Rei Duende. Não sobreviveu à batalha com o vilão e teve o seu corpo destruído. Após estes eventos, Roderick Kingsley viajou para Paris. De onde passou a administrar discretamente o seu império pessoal, dedicando-se, em paralelo, ao lucrativo negócio da venda de patentes a aspirantes a supervilões.

Guerra de Duendes.

Trivialidades:

*Senhor de uma mente maquiavélica e de uma psicologia sui generis, Roderick Kingsley integra o restrito lote dos que lograram trapacear génios criminosos como Norman Osborn ou Wilson Fisk;
* Arnold "Lefty" Donovan, um patife de meia-tigela, serviu de cobaia humana a Kingsley quando este necessitou testar a nova fórmula do Soro do Duende. Apesar dos resultados satisfatórios do ensaio, Lefty acabaria assassinado pelo seu "benfeitor";
* Durante a sua segunda estada nas Caraíbas, Roderick Kingsley criou a persona Devil-Spider, para prosseguir a sua atividade criminosa. Tudo apontando para que o figurino do Tarântula, outro dos inimigos clássicos do Homem-Aranha, lhe tenha servido de inspiração na hora de definir o novo visual;

Devil-Spider, a outra faceta criminosa de Roderick Kingsley.
* Certa vez, após ter escapado do hospício onde fora internado, Deadpool usou o disfarce de Duende Macabro para fazer explodir um hangar a mando de um empregador. No entanto, o Mercenário Tagarela não gostou de vestir a fatiota e, depois de ter mandado pelos ares o hangar errado, não mais voltou a enfiar-se dentro dela;
* O Duende Macabro tem papel de destaque em The Amazing Adventures of Spider-Man, uma das atrações mais populares do Islands Adventures, parque temático aberto ao público desde 1999 em Orlando (Florida).

A aranha e o duende: inimigos naturais.
Noutros segmentos culturais: Quedando-se num mui digno 57º lugar no Top 100 dos melhores vilões da banda desenhada elaborado em 2009 pela plataforma IGN, a popularidade do Duende Macabro nos quadradinhos não teve, até ao momento, correspondência fora deles.
Ainda sem espaço no Universo Expandido da Marvel, a única incursão do vilão no panorama audiovisual reporta a meados dos anos 1990, quando participou em diversos episódios de Spider-Man: The Animated Series (1994-98). Com a particularidade de surgir retratado como um dos primeiros inimigos do Homem-Aranha, precedendo mesmo a sua aparição a do Duende Verde.

Mark Hamill (o eterno Luke Skywalker, de Star Wars) emprestou a sua voz
 ao Duende Macabro em Spider-Man. The Animated Series.
Mais ou menos na mesma altura, o Duende Macabro marcou presença em The Amazing Spider-Man, série de tiras diárias da autoria de Stan Lee e do seu irmão Larry Lieber, que vêm sendo publicadas desde 1977 em vários jornais de todo o mundo.
Também aí a personagem teve, no entanto, a sua história revista. Nesta versão, era Harry Osborn, filho de Norman Osborn, quem assumia a identidade do Duende Macabro para vingar a morte do pai. Em comum com o original, o ódio visceral em relação ao herói aracnídeo, a quem culpava pela sua tragédia familiar.

O legado do Mal.


terça-feira, 6 de dezembro de 2016

CLÁSSICOS REVISITADOS: «GUERRA CIVIL»




   Heróis contra heróis. Liberdade versus segurança. Antigos camaradas de armas atirados para lados opostos da barricada num conflito fratricida de proporções épicas. Entrincheirados nas suas convicções, os dois homens que os comandam estão dispostos ao sacrifício supremo em prol do que acreditam ser um futuro melhor. Por quem dobrarão os sinos?

Título original: Civil War
Data de publicação: Julho de 2006 a fevereiro de 2007
Categoria: Minissérie em sete edições mensais
Licenciadora: Marvel Comics
Autores: Mark Millar (enredo), Steve McNiven (ilustrações) e Dexter Vines (cores)
Personagens principais: Capitão América (Captain America), Homem de Ferro (Iron Man), SHIELD, Quarteto Fantástico (Fantastic Four), Pantera Negra (Black Panther), Tempestade (Storm), Homem-Aranha (Spider-Man), Vingadores Secretos (Secret Avengers) e Atlantes (Atlanteans)
Coadjuvantes: Novos Guerreiros (New Warriors), X-Men, Inumanos (Inhumans) e O Vigia (The Watcher)
Vilões: Nitro e Ragnarok
Cenários: Stamford (Connecticut), Zona Negativa e vários pontos da cidade de Nova Iorque
Guia de leitura: http://www.howtolovecomics.com/2014/11/30/marvel-civil-war-reading-order-guide/



O alfa e o ómega de uma guerra perdida.

                                    
Edições em Português: No Brasil, a primeira edição de Guerra Civil na língua de Camões remonta a 2007/08, tendo sido publicada sob os auspícios da Panini Comics. Além dos sete fascículos mensais que a compunham, foram igualmente lançados no mesmo período vários volumes correlatos, designadamente Rumo à Guerra Civil e Guerra Civil Especial. Ainda com a chancela da mesma editora, nos anos imediatos a saga teria direito a diversas republicações em diferentes formatos.
Também por Terras Tupiniquins, em 2014 seria a vez de a Salvat dedicar a esta obra capital um volume encadernado na sua Coleção Oficial de Graphic Novels da Marvel.
Do outro lado do Atlântico, em Portugal, as honras de edição couberam à Levoir que, em 2012, incluiria Guerra Civil na sua coletânea de histórias essenciais da Casa das Ideias.

A edição portuguesa da saga lançada pela Levoir.

Antecedentes:
 Em retrospeto, podemos afirmar que em, certa medida, as sementes da Guerra Civil começaram a ser plantadas em 1981. Nesse já longínquo ano, Chris Claremont e John Byrne exploraram pela primeira vez a ideia de os mutantes e demais superseres terem as suas atividades controladas pelo Governo dos EUA em X-Men: Days of Future Past (X-Men: Dias de um Futuro Esquecido).
Noutra história dos Filhos do Átomo, publicada em 1984 nas páginas de Uncanny X-Men nº181, era discutida no Congresso uma proposta de lei que contemplava a obrigatoriedade do registo de todos os Homo Superior residentes em território norte-americano.
Aprovada em tempo recorde, a medida requeria o registo junto das autoridades federais de qualquer indivíduo nascido com habilidades mutantes, tão-logo as mesmas se manifestassem. Para supervisionar a aplicação da nova legislação, foi criado o controverso Comité de Atividades Meta-Humanas. Com o qual, ao longo dos anos, heróis como o Capitão América, os Vingadores e o X-Factor se incompatibilizariam.
Desdobramento da Lei do Registo de Mutantes, em 1990 entraria em vigor a Lei do Registo de Superseres. Com um escopo mais lato do que a sua antecessora, abrangia todos os indivíduos que, mesmo tendo nascido sem o gene X no seu ADN, haviam adquirido capacidades sobre-humanas por outros meios. Ironicamente, na eventualidade de ter sido aprovada nesses moldes, a lei deixaria de fora vigilantes como o Justiceiro ou a Viúva Negra, conhecidos pela letalidade dos seus métodos no combate à criminalidade, porém ambos simples humanos.

O primeiro ensaio de cadastramento de superseres
 ocorreu em X-Men: Days of Future Past (1981).

Face à celeuma instalada, Reed Richards foi convidado a depor perante um comité especial do Congresso. Numa análise clarividente, como é seu timbre, o líder do Quarteto Fantástico denunciou as incoerências da lei, bem como a sua futilidade. Desde logo porque a supervisão governamental serviria tão-somente para dificultar a ação dos super.heróis, Mas, também, por causa da flagrante subjetividade que presidia à definição de "superseres" vertida no respetivo texto. E que, conforme ficou comprovado, daria azo a toda a sorte de arbitrariedades.
Sensíveis à argumentação de Richards, os membros do comité deliberaram a revogação imediata da Lei do Registo de Superseres. Uma pequena vitória que, contudo, não encerrou o debate em torno da necessidade de monitorização das atividades dos meta-humanos. De facto, em 1993, seria a vez de o Canadá promulgar um pacote legislativo decalcado do americano. Com a diferença de, apesar de se manter em vigor desde essa data, nunca ter espoletado qualquer conflito no seio da comunidade meta-humana do grande vizinho do Norte.
Porventura encorajados por esse precedente, em 2006 um grupo de congressistas norte-americanos entendeu por bem ressuscitar a Lei do Registo de Superseres. Cuja versão revista ia mais longe do que qualquer uma das anteriores ao abranger igualmente indivíduos desprovidos de superpoderes mas detentores de tecnologia avançada e/ou exótica (leia-se: de origem alienígena, mística ou outra). Categoria onde se encaixava, por exemplo, a armadura do Homem de Ferro. Precisamente a primeira voz a alertar para os enormes perigos que uma medida dessa natureza comportaria.
Perante o Senado, Tony Stark, tal como antes dele fizera Reed Richards, apontou o dedo ao caráter subjetivo dos conceitos contemplados pela lei. Advertindo de caminho para as eventuais consequências nefastas de os heróis e vigilantes virem a ter a sua liberdade de ação coartada pelas autoridades oficiais.
Determinado em fazer valer o seu ponto de vista, Stark contratou em segredo um supervilão para atentar contra a sua própria vida e resolveu usar o Homem-Aranha como peão. Ignorando que tudo não passava de uma encenação, o herói aracnídeo foi em socorro do magnata em apuros. Enquanto confrontava o agressor de Stark, este, seguindo à risca o guião predefinido, confidenciou-lhe que várias potências estrangeiras inimigas dos EUA contavam com a nova lei para deixar o país desguarnecido, já que ela levaria ao encarceramento de alguns dos seus mais poderosos defensores.
Munido de um vídeo do atentado de que presumivelmente fora alvo, Tony Stark persuadiu o Senado de que, a ser aprovada, a Lei do Registo de Superseres faria mais mal do que bem. Por seu lado, o Homem-Aranha sustentou que a existência de super-heróis se justifica pela necessidade de responder a situações às quais as autoridades oficiais não estão em condições de dar resposta.
À luz desses desenvolvimentos, a lei seria novamente sujeita a discussão no Congresso. Confiante na renitência dos políticos em tomarem decisões impopulares, Tony Stark tranquilizou o Homem-Aranha, asseverando-lhe que, salvo alguma mudança drástica na forma como a opinião pública percecionava os super-heróis, a medida acabaria por ser metida na gaveta.
Claro que o impensável acabaria mesmo por acontecer e logo as nuvens negras se começariam a acumular no horizonte, num funesto prenúncio dos dias de chumbo que estavam por vir...

Quem nos protege dos nossos protetores?
Conceção: Conforme explanado no texto anterior, a introdução de legislação a requerer o cadastro de todos os meta-humanos radicados nos EUA serviu de premissa ao arco de histórias genericamente intitulado Civil War. Ideia que, contudo, nada tinha de inovadora, considerando que havia já sido glosada nos universos de outras editoras. Astro City (Image Comics) e Watchmen* (DC Comics) representam apenas os exemplos mais sonantes de sagas com idêntico ponto de partida.
A esta aparente falta de originalidade, Mark Millar, o escriba de Civil War, contrapôs o seguinte: «Ao lerem a história, as pessoas certamente perceberão que a minha abordagem ao dilema super-heroico é ligeiramente diferente das fórmulas já antes testadas. Cujo denominador comum consistia na exigência por parte do público da ilegalização das atividades vigilantistas. Algo que não se verifica em Civil War. Mesmo conscientes dos perigos que lhes estão associados, as pessoas não reclamam o banimento dos super-heróis, mas, sim, a sua reconversão em funcionários públicos. À semelhança dos bombeiros ou dos agentes policiais, os super-heróis, vigilantes e afins deveriam ser remunerados pelo Estado e sujeitar-se ao mesmo escrutínio das forças de proteção civil. Em teoria, seria a solução perfeita para o problema. E, tanto quanto sei, nunca ninguém a equacionara.»

Mark Millar, o homem que pôs heróis contra heróis.
Ao registo obrigatório de todos os superseres a operar dentro das fronteiras estadunidenses, somava-se a exigência legal de que eles revelassem as suas verdadeiras identidades às autoridades. Classificados como armas de destruição massiva, os meta-humanos teriam ainda de submeter-se a um programa de treino específico ministrado pelo Governo. Terminado o mesmo, àqueles que optassem por juntar-se às fileiras da SHIELD ficaria reservado o estatuto de agente federal, passando a obedecer a uma cadeia de comando e a auferir um vencimento.
Embora aliciante aos olhos de muitos dos seus membros, a proposta cindiu a comunidade super-heroica. De um lado, a fação presidida pelo Homem de Ferro que encarava o registo obrigatório como um dever cívico e um garante de segurança. Do outro, o setor que, sob a liderança do Capitão América, contestava a medida por considerar que ela violava direitos constitucionalmente consignados ao mesmo tempo que comprometia a proteção conferida pelo anonimato.
À medida que se assistia a um extremar de posições, muitos supervilões acabariam também por tomar partido. Alguns aliaram-se ao Capitão América, outros aderiram à causa do Homem de Ferro. Houve ainda um pequeno grupo, constituído tanto por heróis como por malfeitores, a optar pela neutralidade. Poucos foram, no entanto, aqueles que escaparam aos ricochetes da Guerra Civil.

*Resenha disponível em http://bdmarveldc.blogspot.pt/2013/04/do-fundo-do-bau.html

Histórico de publicação: Em consequência de outros compromissos profissionais do artista Steve McNiven, em agosto de 2006, a Marvel anunciou o adiamento em alguns meses de vários capítulos de Civil War. Decisão que implicou atrasos voluntários no lançamento dos títulos periódicos cujas histórias entroncavam na saga. Outra vítima das circunstâncias seria a minissérie Civil War: Front Line, que teve a sua chegada às bancas retardada em várias semanas.
Todas estas alterações ao cronograma editorial visavam evitar que desenvolvimentos importantes do enredo de Civil War fossem precocemente revelados. Por conta dos sucessivos atrasos, o seu epílogo só seria conhecido em meados de fevereiro de 2007, dois meses após o inicialmente previsto.

Uma das vítimas das
 alterações de calendário da Marvel.
Enredo: Já depois de, numa das suas proverbiais erupções de fúria irracional, o Hulk ter causado acidentalmente a morte a 26 pessoas em Las Vegas, e de 99% da população mutante ter sido dizimada por uma mentalmente perturbada Feiticeira Escarlate, um outro infausto acontecimento protagonizado por meta-humanos suscita a histeria coletiva.
Em Stamford, pequena e pacata cidade do Connecticut, os Novos Guerreiros, acompanhados de perto pelas câmaras de televisão devido à sua participação num reality show, invadem uma casa que serve de esconderijo a um bando de supercriminosos evadidos de uma prisão de alta segurança. Um deles, Nitro, usa os seus poderes explosivos para arrasar vários quarteirões numa tentativa desesperada de escapar ao cerco montado pelos heróis.
Quando a poeira assenta, mais de seis centenas de cadáveres jazem entre os escombros fumegantes. Entre eles, os de 60 crianças que se encontravam numa escola primária nas redondezas. Ao desastre, transmitido em direto em rede nacional, sobrevivem apenas Speedball, dos Novos Guerreiros, e o próprio Nitro.
No rescaldo da tragédia são vários os super-heróis que participam nas operações de socorro e que procuram transmitir algum alento às famílias das vítimas. Gestos solidários insuficientes, ainda assim, para calar a profunda revolta que toma conta de muitos cidadãos anónimos, indignados por mais esta carnificina causada por meta-humanos. Nos dias seguintes, essa revolta e indignação dão mesmo lugar a ataques violentos contra superseres. Um dos primeiros alvos é o Tocha Humana do Quarteto Fantástico, quase linchado por uma multidão enfurecida.


Entre as ruínas de Stamford germinaram as sementes da guerra.
Sob forte pressão da opinião pública, o Governo Federal apressa-se a retirar da gaveta a Lei do Registo de Superseres. Nesta sua nova versão, além da obrigatoriedade do registo de todos os indivíduos dotados de habilidades meta-humanas residentes no interior das fronteiras estadunidenses, é-lhes exigido que revelem as suas verdadeiras identidades às autoridades.
Perante a perspetiva de uma medida deste cariz ser aprovada pelo Congresso, a comunidade super-heroica divide-se. Apesar de a ela se ter oposto no passado, o Homem de Ferro assume-se agora como seu principal defensor. Justificando a sua mudança de posição com a necessidade de garantir a segurança dos civis em futuras ações levadas a cabo por meta-humanos. O que, no seu entender, só será possível com treino e monitorização governamentais. Tese subscrita, entre outros, por Hank Pym e Reed Richards, dois dos mais respeitados cientistas mundiais e eles próprios meta-humanos. Mas prontamente rejeitada pelo Capitão América, para quem a Lei do Registo de Superseres retiraria liberdade de movimentos aos heróis e colocaria em risco as suas vidas privadas, assim como os seus entes queridos.
Enquanto o debate sobe de tom, numa reunião secreta com o Presidente dos EUA, o Homem de Ferro exorta-o a avançar o quanto antes com a Lei do Registo de Superseres. Aprovada poucos dias depois, a supervisão da sua aplicação fica a cargo da SHIELD, sob o comando interino de Maria Hill.
Empurrados para a clandestinidade, vários heróis antirregisto aderem ao movimento de resistência fundado pelo Capitão América. A despeito da tensão crescente entre as duas fações, as primeiras batalhas são meramente propagandísticas. Ao passo que o Sentinela de Liberdade e seus aliados continuam a enfrentar supervilões, deixando-os à mercê das mesmas autoridades que os acossam, o grupo liderado pelo Homem de Ferro lança-se numa frenética caça aos refratários sem fazer distinção entre vigilantes e malfeitores.
O primeiro momento de viragem no curso dos acontecimentos ocorre quando o Homem de Ferro persuade o Homem-Aranha a expor publicamente a sua identidade. Decisão que teria repercussões extremamente negativas no porvir do herói e dos que o rodeavam.

Uma decisão de que Peter Parker se arrependeria amargamente.
Ainda com os ecos dessa revelação bombástica a fazerem-se sentir um pouco por toda a parte, o Homem de Ferro faz uma visita à Mansão X, lar dos X-Men. Num tête-à-tête com Emma Frost, o Vingador Dourado procura apurar qual o posicionamento da comunidade mutante face à nova legislação. Pela voz da antiga Rainha Branca do Clube do Inferno, o herói blindado fica a saber que os X-Men nunca aceitariam submeter-se a uma lei que vai contra tudo aquilo em que Charles Xavier acreditava. No entanto, a população Homo Superior, manter-se-á neutral, contanto que deixada em paz.
O segundo episódio que conduz a uma escalada no conflito ocorre quando os Vingadores Secretos (coletivo heroico às ordens do Capitão América) é atraído para uma cilada montada pelas forças pró-registo numa petroquímica. Ao convite do Homem de Ferro para um debate pacífico, o Capitão América responde com uma agressão, usando um dispositivo oculto nas luvas para desativar momentaneamente a armadura do seu antigo amigo e colega Vingador.
No final da escaramuça que se segue entre os dois grupos, o Homem de Ferro espanca selvaticamente o Capitão América. Já os Vingadores Secretos são sumariamente derrotados por Ragnarok, um clone de Thor ao serviço da SHIELD. Trespassado por um relâmpago invocado pelo falso Deus do Trovão, Golias é a primeira baixa na Guerra Civil.

Baixas de guerra: a morte de Golias às mãos de Ragnarok.
A morte de Golias tem, no entanto, o condão de colocar as coisas em perspetiva, levando vários heróis a passarem para o outro lado da barricada. Devido ao elevado número de deserções, a fação pró-registo vê-se obrigada a acelerar o seu plano de operações.
Sem tempo a perder, o Homem de Ferro e o Senhor Fantástico concebem uma prisão na Zona Negativa (dimensão paralela da nossa composta exclusivamente por antimatéria) para confinar todos os insurgentes capturados. Por corresponder à 42ª iniciativa que ambos tomaram desde o desastre de Stamford, o presídio é batizado de Projeto 42.
O movimento pró-registo sofre entretanto outro revés inesperado. Ao tomar consciência que quem não aceitar registar-se será encarcerado por tempo indeterminado, o Homem-Aranha troca de lado, juntando-se à resistência chefiada pelo Capitão América. Não sem antes aplicar uma valente tareia no Homem de Ferro. O que o Escalador de Paredes não sabia é que o seu novo traje blindado (um presente de Tony Stark) servira para este lhe analisar secretamente os poderes em busca de uma forma de anulá-los.
Entretanto, o Justiceiro, que conseguira infiltrar-se no quartel-general do Quarteto Fantástico, apodera-se dos planos do Projeto 42. Na posse dessa informação preciosa, o Capitão América e seus aliados tomam de assalto a prisão na Zona Negativa, com o propósito de libertarem todos os reclusos. São, no entanto, traídos por Tigra que tinha em segredo alertado o Homem de Ferro para o ataque. Acolitado por um grupo de supervilões recrutados à força para as suas fileiras, o Vingador Dourado procura desesperadamente impedir a fuga em massa. No calor da batalha, todos os beligerantes são misteriosamente transportados para Time Square, bem no coração de Nova Iorque.
Perante uma plateia horrorizada, o Capitão América, com a ajuda do Visão, derrota o Homem de Ferro e prepara-se para lhe desferir um golpe potencialmente fatal. É, no entanto, detido no último momento por elementos das equipas de socorro que haviam entretanto acorrido ao local.
Tomando consciência do absurdo de uma guerra fratricida que, em última análise, ele desencadeara, o Capitão América remove a máscara e rende-se.
Chegava assim ao fim, sem um vencedor declarado, a trágica Guerra Civil. E nada voltaria a ser como dantes no Universo Marvel.


"Coragem alimenta as guerras, mas é o medo que as faz nascer"
(Émile-Auguste Chartier, ensaísta e filósofo francês do século XX)
Repercussões:

* Já depois de cessadas as hostilidades entre as duas fações conflitantes, o Capitão América seria, aparentemente, assassinado por Ossos Cruzados quando subia a escadaria do tribunal onde seria julgado. O vilão agia às ordens do Caveira Vermelha e de Sharon Carter, agente da SHIELD e ex-namorada do herói a quem o Doutor Fausto fizera uma lavagem cerebral. Seria entretanto revelado que o disparo supostamente fatal fora efetuado pela jovem;

Ecos do pós-guerra: a morte do supersoldado.
* Quase todos os Vingadores Secretos foram amnistiados pelo Governo. Alguns optaram, ainda assim, por manter-se na clandestinidade e outros houve que emigraram para o Canadá;
* Nomeado diretor da SHIELD, o Homem de Ferro reuniria a sua própria equipa de superseres, os Poderosos Vingadores;
* Os Novos Vingadores, por seu turno, passariam à clandestinidade. Punho de Ferro, Doutor Estranho e Ronin (vulgo Clint Barton, anteriormente conhecido como Gavião Arqueiro) juntar-se-iam logo depois ao grupo;
* Entre as ruínas do desastre de Stamford, seria construído Camp Hammond, o novo centro de treino de meta-humanos da SHIELD, assim batizado em homenagem ao primeiro Tocha Humana (ver post anterior);
* Sob a tutela férrea de Norman Osborn, os Thunderbolts seriam convertidos numa agência federal;
* Ainda abalados pelos eventos dramáticos da Guerra Civil, o Senhor Fantástico e a Mulher Invisível abandonariam temporariamente o Quarteto Fantástico, sendo substituídos pelo Casal Real de Wakanda: Pantera Negra e Tempestade.

Trivialidades:

* No prelúdio de Siege, (arco de histórias lançado nos EUA em 2009/10), Loki e Norman Osborn discutem a possibilidade de engendrar uma tragédia semelhante à que serviu de catalisador à Guerra Civil para justificar um ataque contra Asgard;
* Os eventos da Guerra Civil foram igualmente referenciados no decurso da minissérie Avengers versus X-Men (2012), quando o Homem de Ferro relembrou o Capitão América do período em que ele agiu na orla da legalidade;
* Combinação do intelecto de Otto Octavius com o corpo de Peter Parker, o Homem-Aranha Superior descreveu a Guerra Civil como um conflito declarado pelo Capitão América em prol do direito à privacidade. Do seu ponto de vista, tudo se resumiu à necessidade de uma boa parte dos vigilantes mascarados preservarem o seu anonimato como forma de salvaguardarem os seus entes queridos de eventuais represálias por parte dos seus inimigos.


As feridas sararam, as cicatrizes ficaram.
Versões alternativas: Em What if? Civil War nº1 (edição dada à estampa em fevereiro de 2008), foram apresentados dois desfechos diferentes para a Guerra Civil. Ao visitar o túmulo do Capitão América no Cemitério Nacional de Arlington, Tony Stark é abordado por um estranho. Da boca deste ouve a descrição detalhada de duas linhas de tempo divergentes, nas quais o curso dos acontecimentos foi substancialmente alterado por circunstâncias de vária ordem.
Na primeira narrativa, é-lhe mostrado o que teria acontecido se o Capitão América tivesse liderado toda a comunidade super-heroica contra a Lei do Registo Obrigatório. Nesta realidade paralela, o cisma seria evitado pela morte prematura de Tony Stark, infetado pelo tecnovírus Extremis. Em consequência disso, o Governo norte-americano elegeria o Sentinela da Liberdade como porta-voz oficial dos meta-humanos.
Contestatário da medida que contemplava a exposição das identidades civis dos registados, o velho soldado conseguiria, a custo, postergar a sua aprovação no Congresso. No entanto, a exemplo do que se verificou no universo canónico, o desastre de Stamford precipitaria uma dramática cadeia de eventos que, sem a intercessão do Homem de Ferro junto das autoridades, as levaria a retaliar de forma desproporcionada. Sob o comando do agente especial Henry Peter Gyrich, as forças governamentais levariam a cabo operações militares que desbaratariam a resistência. Entre as muitas vítimas da carnificina que daí adviria, contar-se-ia um número assinalável de heróis.

Um olhar diferente sobre os eventos da Guerra Civil.
A segunda realidade seria bastante mais auspiciosa: em vez de optar por uma estratégia de intimidação, o Homem de Ferro pediria ajuda ao Capitão América. Admitindo as suas dúvidas quanto às virtualidades da Lei de Registo Obrigatório e à sua própria conduta no respetivo processo de implementação, o Vingador Dourado evitaria assim que o seu antigo colega de equipa usasse a arma escondida na luva para lhe desabilitar a armadura.
De seguida, os dois heróis uniriam forças para deter Ragnarok, o furioso clone do Deus do Trovão, entretanto libertado pela SHIELD. Convencido da boa vontade do Homem de Ferro, o Capitão América acederia ao seu pedido de ajuda para aplicar o programa de registo, sendo o único a quem os outros heróis se disporiam a confiar as suas identidades. Evitado o conflito entre apoiantes e opositores da Lei do Registo Obrigatório, centenas de vidas seriam poupadas e abrir-se-ia uma nova era de paz e segurança.
Quanto ao estranho, era, afinal, Uatu, o Vigia responsável pela monitorização da atividade humana. Ao consciencializar-se do futuro radioso que boicotou com as suas ações, Tony Stark fica devastado e chora junto à última morada do amigo tombado.

Sequela: Anunciada com pompa e circunstância pela Marvel em dezembro de 2015, Civil War II vem sendo publicada em terras do Tio Sam desde junho último. Brian Michael Bendis (história) e David Marquez (arte) repartem os créditos na produção desta sequência direta da saga original, no ano em que se assinala o seu décimo aniversário.
Agora do mesmo lado da barricada, o Homem de Ferro e o Capitão América têm a Capitã Marvel como adversária num conflito em larga escala que volta a pôr heróis contra heróis e que promete abalar os alicerces da Casa das Ideias.
Desta feita o rastilho é aceso pelo surgimento de uma personagem agraciada com poderes precognitivos que lhe fornecem visões nítidas de futuros prováveis. Um talento extraordinário que, no entendimento da Capitã Marvel, deverá servir como instrumento de prevenção de delitos. Tese conflitante com a do Homem de Ferro (e, a bem dizer, com os princípios basilares de qualquer Estado de Direito) para quem, em circunstância alguma, o castigo deverá preceder o crime.
Em resultado dessas divergências aparentemente insanáveis, assiste-se a um progressivo extremar de posições no seio da comunidade super-heroica que culmina num novo cisma. Do cisma à guerra fratricida é um pequeno passo e poucos são os que se conseguirão manter à margem dela.

Dez anos depois, nova guerra fratricida abala o Universo Marvel.
Noutros media: Data de julho de 2012 a primeira adaptação de Civil War a outros segmentos culturais. Quatro anos antes da sua chegada ao cinema, a saga teve direito a uma novelização da autoria de Stuart Moore, escritor celebrizado pelo seu trabalho com o Príncipe Submarino. O livro inaugurou, de resto, uma série literária baseada em quatro histórias fundamentais na memorabilia da Marvel.
Tomando diversas licenças poéticas relativamente ao material original, Moore ambientou a sua história no primeiro mandato presidencial de Barack Obama, e não na ponta final do consulado de George W. Bush. Para que não restassem dúvidas quanto ao contexto político, logo no capítulo de abertura do livro, Tony Stark menciona o polémico Obamacare.
Essa não é, no entanto, a única diferença assinalável em relação à banda desenhada. Nela, após expor publicamente a sua identidade, o Homem-Aranha vê-se forçado a celebrar um pacto com Mefisto para reverter essa situação. Processo que, para infortúnio do herói, incluiu o apagamento das memórias que Peter Parker e Mary Jane Watson tinham um do outro, inclusive do casamento de ambos. Já na versão saída da pena de Moore, Peter nunca chegou a dar o nó com MJ. Premissa retirada de One More Day, realidade alternativa que explora precisamente essa possibilidade.
Da novelização de Civil War nasceria um audiolivro. Lançado em março de 2013, era composto por seis CDs e, além do elenco que emprestava as vozes à multitude de personagens, incluía ainda efeitos sonoros nas cenas mais dramáticas.
Tanto o jogo de vídeo Marvel Ultimate Alliance 2 (2009) como o filme Captain America: Civil War (2016) são igualmente baseados na saga. No entanto, por oposição ao primeiro, o segundo contém apenas alguns dos elementos-chave da história original. Exemplos: a chacina de civis numa explosão provocada por meta-humanos e o facto de a mãe de um deles, Miriam Sharpe, culpar diretamente Tony Stark pela morte do filho.
Uma vez que as identidades secretas são um conceito estranho ao Universo Cinemático Marvel, o enfoque da película incide essencialmente na necessidade de supervisão das atividades meta-humanas por parte do Governo americano.

Capitão América: Guerra Civil foi um campeão de bilheteira.

Vale a pena ler?

"De que lado ficarás?". Foi sob este lema enganador que, há precisamente uma década, Civil War foi lançada entre enorme alarido. Enganador porque, contrariamente ao que sugere a estafada frase de efeito, a história (também ela, à primeira vista, um cliché) não se resume à escolha de um lado num conflito que, pela sua natureza fratricida, nunca poderia ter um vencedor inequívoco.
À imagem e semelhança das guerras civis do mundo real que dividem nações e famílias e transformam em adversários amigos de ontem, fosse qual fosse o resultado desta rixa entre heróis, todos sairiam a perder. Mais ainda quando ambas as partes defendiam pontos de vista válidos e cometeram terríveis erros de julgamento no decurso da liça.
Convém lembrar que, dentro da armadura de alta tecnologia do Homem de Ferro ou atrás do escudo indestrutível do Capitão América, se escondem homens. E homens são falíveis. Sendo a magnitude das consequências das suas ações proporcional ao respetivo nível de poder e de responsabilidade.
Não faltará, ainda assim, quem tenha cedido à tentação de tomar partido num afrontamento clássico entre a liberdade e a segurança. Dois valores essenciais em qualquer sociedade democrática. Mas que, apesar de indissociáveis, nem sempre coabitam harmoniosamente.
Haverá verdadeira liberdade sem uma vigilância constante por parte das autoridades contra as múltiplas ameaças que impendem sobre os cidadãos? E que parcela da nossa liberdade individual estaremos dispostos a penhorar num regime securitário? Questões prementes que encapsulam um dos principais dilemas das sociedades atuais. E a que Civil War serve de alegoria quase perfeita, sem aventar respostas simplistas. É, pois, nesse busílis trágico do conflito entre as fações pró e antirregisto que repousa a beleza de uma narrativa consideravelmente menos superficial do que muitos a continuam a pintar.
Discordam? Façamos então o seguinte exercício de imaginação: e se os eventos descritos na saga ocorressem no mundo real? E se devido às constantes batalhas entre seres superpoderosos a operar fora da lei perdessem o vosso lar, o vosso emprego ou um ente querido? No entanto, como ninguém conhece as suas verdadeiras identidades, os causadores da vossa desgraça não poderiam ser responsabilizados pelas suas ações. Continuariam a tolerá-las e a defender a existência desses vigilantes anónimos? Continuariam a achar que a razão assiste ao Capitão América?
Vejamos agora as coisa sob um prisma diferente: imaginem que, um belo dia, acordam com capacidades muitos superiores às do comum dos mortais. Aceitariam de bom grado serem cooptados pelo Governo do vosso país para colocarem os vossos poderes ao serviço do bem maior? Aceitariam ter a vossa privacidade devassada pelas autoridades, pondo em risco as pessoas que mais amam? Ainda querem ir a correr juntar-se à equipa do Homem de Ferro?
Acredito que, quando colocadas desta forma, as coisas se tornam um pouco mais complexas. Os mais conscienciosos, pelo menos, pensarão duas vezes antes de escolher um lado da barricada. Os mais sábios talvez optem pela neutralidade. Haverá ainda os que continuarão a tomar partido apenas em função da sua preferência pessoal pelo Capitão América ou pelo Homem de Ferro. Em qualquer dos casos, conforme observei no preâmbulo deste comentário, Civil War nunca foi sobre escolher lados. Como seria isso possível se estão ambos certos e, ao mesmo tempo, errados?
Em temas fraturantes como aquele que serve de mote à saga, sabermos pôr-nos no lugar do outro, fazer um esforço efetivo para compreender as suas motivações e os seus receios é fundamental. Só assim será possível trabalhar em conjunto na busca por respostas a problemas comuns. Quando isso não acontece, quando diálogo fracassa ou sequer é ensaiado, dá-se rédea solta à intolerância. E esta é sempre um bom rastilho para toda a sorte de quezílias de maiores ou menores proporções.
Foi essa a amarga lição que dois Vingadores desavindos aprenderam numa história que é muito mais do que um pretexto para ver super-heróis a trocarem uns sopapos entre si. Mas que, por conta dessa análise redutora feita por muito boa gente, continua a ser polémica e mal-amada. Mesmo por aqueles que, curiosamente, não regateiam elogios ao filme epónimo. Apesar de este fazer uma abordagem muito mais rasa ao dilema que marca o compasso da saga original.
Escusam, porém, de desembainhar as vossas espadas, pois considero Capitão América: Guerra Civil um dos melhores filmes de super-heróis deste ano. Ainda que o título me soe um tanto quanto abusivo, já que, em bom rigor, ele é apenas vagamente inspirado em Civil War. Assunto para uma futura recensão...

Como escolher um lado numa guerra entre a liberdade e a justiça?