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sexta-feira, 24 de julho de 2015

HERÓIS EM AÇÃO: MANTO & ADAGA




  Dois jovens proscritos usados como cobaias para drogas experimentais adquiriram talentos extraordinários e tiveram os seus destinos para sempre entrelaçados. Num frágil equilíbrio entre redenção e vingança, Manto e Adaga levam luz aos inocentes e trevas aos culpados. Subsistindo, contudo, a dúvida: serão eles mutantes ou não?

Nomes originais das personagens: Cloak & Dagger
Criadores: Bill Mantlo (história) e Ed Hannigan (arte)
Licenciadora: Marvel Comics 
Primeira aparição: Peter Parker, the Spectacular Spider-Man nº64 (março de 1982)
Identidades civis: Tyrone "Ty" Johnson (Manto) e Tandy Bowen (Adaga)
Locais de nascimento: Respetivamente, Boston (Massachusetts) e Cleveland (Ohio)
Afiliação: Ao longo da sua carreira, Manto e Adaga tiveram passagens fugazes por vários coletivos heroicos, entre os quais Vingadores Secretos, X-Men, X-Men Sombrios e Fugitivos. A título individual, Adaga esteve ainda temporariamente engajada com os Novos Guerreiros e com os Marvel Knights.
Base de operações: Nova Iorque
Armas, poderes e habilidades: Inicialmente classificados como mutantes cujo gene X latente fora ativado por via da ação das drogas experimentais que neles foram inoculadas, nos tempos mais recentes Manto e Adaga foram recategorizados como humanos transformados. Significando isto que os seus talentos especiais derivam de uma fonte mutagénica exógena.
  Utilizada pela primeira vez no decurso da saga Civil War, esta designação não colhe, porém, consenso, na medida em que genuínos homo superior, como os antigos X-Men Solaris e Pássaro Trovejante, também necessitaram de um estímulo exterior para que as suas habilidades se manifestassem.
 No entanto, o estatuto de mutantes já foi sonegado a Manto e Adaga por Matt Fraction, um dos argumentistas de Uncanny X-Men. Que foi taxativo nas suas declarações motivadas por esta controvérsia: "Não, Manto e Adaga não são mutantes nem se veem como membros dessa comunidade. Facto que não deixa de ser significativo num contexto em que os homo superior quase foram extintos. Afinal, como poderiam eles não ter conhecimento dessa família ou não desejarem pertencer-lhe?". 
 O postulado de Fraction já foi entretanto  parcialmente corroborado na banda desenhada. No arco de histórias Utopia, após o casal ter sido recrutado por Norman Osborn para os seus X-Men Sombrios, Manto e Adaga fizeram notar ao seu mentor que não são mutantes. Diagnóstico ulteriormente ratificado pelo Doutor Némesis que, depois de submeter Adaga a vários exames genéticos, concluiu que as suas habilidades derivam exclusivamente da droga que lhe foi injetada na adolescência.
  Depreendendo-se, portanto, que o mesmo princípio seria aplicável a Manto. Sem que isso tivesse, porém, sido empiricamente comprovado. Somando a isto o facto de o jovem ter adquirido a Forma Sombria do demónio Desespero, a dúvida quanto à verdadeira origem dos seus poderes não foi totalmente dissipada.
  Mutantes ou não, certo é que Manto e Adaga foram agraciados com poderes fascinantes. No caso dele, além da intangibilidade, avulta a sua capacidade de teleportar-se a si mesmo ou a outrem para uma dimensão de trevas. Já ela é  capaz de gerar e direcionar psionicamente adagas de luz, que tanto podem drenar a energia vital dos seus alvos como curá-los de adições.
  Entre os dois existe uma relação de interdependência - quase simbiótica- , visto que Manto sente uma "fome" constante, apenas aplacada pela luz nele projetada pela sua parceira ou pela energia vital dos indivíduos que envia para a dimensão escura. Adaga, por sua vez, encontra proteção e refúgio nas sombras de Manto, sendo-lhe extremamente leal.
  Ambos possuem ainda uma razoável experiência em combate corpo a corpo adquirida no período em que (sobre)viveram nas ruas.

Luz que alimenta a escuridão; escuridão que protege a luz.

Conceção e desenvolvimento: Segundo rezam as crónicas, a inspiração para criar Manto e Adaga acometeu Bill Mantlo na sequência de uma sua visita a Ellis Island (ilha situada na baía de Nova Iorque que, desde o século XIX, serve de porta de entrada a imigrantes à conquista do sonho americano).
 Em discurso direto,  Mantlo evoca esse momento singular: "As duas personagens surgiram-me noite adentro, quando tudo à minha volta estava silencioso e a minha mente estava em branco. Materializaram-se diante de mim, trazendo consigo a sua origem, atributos e motivações perfeitamente definidos. No fundo, eles corporizavam todo o medo, sofrimento e miséria que me tinham assombrado na minha visita a Ellis Island. Eram apenas mais dois proscritos que tinham se manter unidos para sobreviver."

Bill Mantlo teve a ideia de criar Manto e Adaga após uma visita a Ellis Island.

 Por seu turno, Ed Hannigan, o desenhador que colaborava com Mantlo em Peter Parker, The Spectacular Spider-Man, lembra-se bem de como os dois conceberam em conjunto o figurino das novas personagens: "Bill mostrou-me a sinopse da história, escrita numa página ou duas. Li-a e, de seguida, trocámos algumas impressões sobre qual a aparência mais adequada para cada uma das personagens. Apesar do grande espaço de manobra que me foi dado por Bill, ficou claro desde o primeiro momento que Manto seria afro-americano e que usaria um manto negro "animado", como se de uma extensão natural do seu corpo se tratasse. Adaga, por outro lado, seria caucasiana e vestiria uma espécie de body colante. Posso estar enganado, mas acho que partiu de mim a ideia de ela ser uma bailarina. Circunstância que serviria para realçar a sua elegância e graciosidade. Olhando a esta distância, admito que o figurino de Adaga era bastante audacioso para os padrões da época."

Ed Hannigan divide com Mantlo a paternidade de Manto e Adaga.

Histórico de publicação: Após a sua estreia em Peter Parker, the Spectacular Spider-Man nº64 (março de 1982), Manto e Adaga foram durante algum tempo coadjuvantes nas histórias do Escalador de Paredes. Em outubro de 1983 ganhariam, porém, uma minissérie própria composta por quatro volumes, com argumento de Bill Mantlo e arte de Rick Leonardi. Devido ao inesperado sucesso da iniciativa, dois anos depois a Marvel resolveu arriscar numa série bimestral estrelada pelo heterodoxo casal, e cuja produção ficaria a cargo da mesma equipa criativa.
  Supervilões fantasiados raramente surgiam nas histórias de Manto e Adaga, mais focados que estavam num combate sem tréguas ao narcotráfico. Traficantes de drogas, proxenetas e outros malfeitores comuns eram, pois, os seus alvos privilegiados.

A estreia de Manto e Adaga mereceu destaque na capa de Peter Parker, the Spectacular Spider-Man nº64 (1982).
 

  A partir do 11º número de Cloak & Dagger (e já depois da saída de Leonardi), os editores da Marvel decidiram fundir o título com Doctor Strange, dando assim origem à nova série mensal Strange Tales.  
  Agora com enredos de Terry Austin e arte de Bret Blevins, as aventuras de Manto e Adaga continuaram na senda do sucesso por mais algum tempo, antes de as vendas entrarem em declínio. Numa tentativa de o contrariar, Austin introduziu o primeiro némesis do casal: Mister Jip, um feiticeiro perverso com uma aparência disforme.
 Em 1988, Manto e Adaga protagonizaram Marvel Graphic Novel nº34, edição que assinalou a despedida de Bill Mantlo da série. Quanto a Strange Tales, seriam publicados 19 fascículos antes da Marvel deliberar o seu cancelamento. Em consequência disso, Manto & Adaga e o Dr. Estranho retomaram as suas séries independentes com periodicidade bimestral.
 Agora sob o título The Mutant Misadventures of Cloak and Dagger, a série estrelada por Manto e Adaga continuava a ter enredos da autoria de Terry Austin, mas recebeu um novo desenhador, Mike Vosburg. Com Adaga a perder a visão logo no primeiro número, a forma como ela aprendeu a lidar com essa circunstância foi a pedra angular desta nova fase da dupla. Com o tempo a série foi, porém, perdendo o seu fulgor inicial, facto que acabaria por ditar o seu cancelamento ao fim de 19 edições.

Há precisamente 30 anos, Manto e Adaga ganhavam a sua série própria.

  Nos anos subsequentes, Manto e Adaga continuaram a fazer participações especiais nos títulos de outras personagens da Casa das Ideias, como Runaways ou na saga Maximum Carnage, na qual foram aliados do Homem-Aranha. Manto faria também uma aparição a solo na minissérie dos X-Men House of M (2005), na qualidade de membro do movimento subterrâneo de resistência humana. Já a existência de Adaga nessa realidade alternativa permanece uma incógnita, uma vez que não lhe foi feita qualquer referência no decurso da saga.
  Depois de terem ensaiado um regresso à ribalta por via de uma minissérie própria lançada pela Marvel em 2008, Manto e Adaga desempenhariam, no ano seguinte, um papel de relevo na saga Utopia. Incorporado nos X-Men Sombrios de Norman Osborn, o casal recuperou alguma da notoriedade de outrora. Que poderá consolidar-se já este ano com a sua anunciada participação no redivivo título Runaways.

O grotesco Mister Jip foi o primeiro arqui-inimigo de Manto e Adaga.

Origem: Os caminhos de Tyrone "Ty" Johnson e Tandy Bowen cruzaram-se casualmente pela primeira vez nas ruas de Nova Iorque. Ambos adolescentes fugitivos, depressa estabeleceram uma forte cumplicidade. Tinha sido, contudo, longo o caminho que cada um deles trilhara até chegar à cidade que nunca dorme.
  Com 17 anos de idade e de raízes modestas, Ty fora em tempos um promissor jogador de basquetebol no liceu onde estudava, em Boston. Cidade de onde fugiu na sequência do trágico atropelamento do seu melhor amigo que, devido à sua gaguez incapacitante, ele não conseguira evitar.
 Nascida num subúrbio abastado de Cleveland, Tandy, de apenas 16 anos, era filha de uma supermodelo e sonhava vir a ser bailarina. Depois de o seu pai partir para a Índia em busca de um renascimento espiritual, a jovem sentiu-se traída e magoada. Sentimentos exacerbados pelo desafeto da sua egocêntrica mãe, sempre demasiado focada na sua carreira profissional e vida social para dar atenção à filha. Cansada da indiferença materna, Tandy resolveu deixar para trás a sua vida confortável, porém infeliz.
 Partindo de pontos tão distintos, nada faria prever que as trajetórias de Tyrone e Tandy seriam convergentes. No entanto, foram essas as malhas que o Destino (ou o Desespero) teceu.
  Quando perambulava sozinha pelas ruas nova-iorquinas, Tandy viu a carteira ser-lhe roubada por um
meliante. A fuga deste seria, porém, corajosamente travada por um jovem sem-abrigo que, de seguida, devolveu a carteira a Tandy. Para o recompensar pelo seu heroico ato, ela comprou comida ao rapaz. Ficando também a saber o seu nome: Tyrone (Ty para os amigos).
 Nascia assim uma amizade para a vida entre dois jovens oriundos de mundos tão diferentes e, aparentemente, sem nada em comum. Os opostos parecem, porém, sentir uma irresistível atração entre eles.
  Enquanto o casal vivia nas ruas, um grupo de homens desconhecidos ofereceu-lhes abrigo. Oferta que Tandy ingenuamente aceitou. Desconfiado, Ty acompanhou-a para a proteger das eventuais más intenções dos seus presumíveis benfeitores.
 Confirmando-se os piores receios de Ty, os dois adolescentes foram levados à presença de Simon Marshall, um químico sem escrúpulos e com ligações ao submundo do crime. A pedido da organização terrorista Maggia, Marshall estava a desenvolver uma nova droga sintética que serviria de sucedâneo da heroína. Necessitava, porém, de testar os efeitos do narcótico em cobaias humanas. Dois sem-abrigo jovens e saudáveis seriam, pois, os candidatos perfeitos.
  Com a droga a correr-lhes nas veias, Tandy e Ty sofreram violentas convulsões, mas sobreviveram à experiência com resultados inesperados. Após conseguirem escapulir-se do seu cativeiro, os dois descobriram que haviam ganho habilidades sobre-humanas.
 
Manto e Adaga sobreviveram a várias provações e tiveram os seus destinos entrelaçados.  

  Ty viu-se subitamente engolfado pelas trevas e fustigado por uma estranha fome, aplacada apenas pela luz irradiada pela sua companheira. Tentando disfarçar a sua sinistra aparência, Ty embrulhou-se num enorme manto negro. Sempre faminto, absorveu para o seu interior de tenebrosa escuridão alguns dos asseclas de Marshall. Ao mesmo tempo que Tandy derrubava os restantes com as suas adagas de luz.
 Adotando os codinomes Manto e Adaga, o casal adolescente declarou uma guerra sem quartel ao narcotráfico, passando a atuar como vigilantes e a prestar auxílio a outros jovens fugitivos como eles.
  Vários anos depois seria, contudo, revelado que toda esta série de eventos fora secretamente manipulada pelo demónio Desespero, com quem Manto mantém uma ainda não totalmente explicada conexão.
  Certo é que, conforme foi referenciado na saga Ilha das Aranhas (Spider-Island), foi a interferência de Desespero que ditou a reversão dos dons que estavam destinados a Manto e Adaga. Ou seja, os poderes luminosos de Tandy pertenciam originalmente a Ty, e vice-versa.
  Inversão de papéis que, de resto, se verificou no decurso do aludido arco de histórias graças à ação do vilão conhecido como Senhor Negativo, e que persiste até hoje.
  Ignora-se, no entanto, até que ponto essas circunstâncias influenciaram as personalidades de Tandy e Tyrone.

Desespero, o demónio que tem manipulado as vidas de Manto e Adaga.

Noutros media: Com diminuta expressão fora dos quadradinhos, Manto e Adaga poderão nos próximos anos notabilizar-se junto do grande público caso se concretizem os planos dos Estúdios Marvel e da Paramount Pictures para uma adaptação cinematográfica.
  Outros projetos audiovisuais envolvendo as personagens, como uma série televisiva a ser produzida para o canal ABC Family e anunciada em plena San Diego Comic Con 2011, nunca saíram do papel. Por conseguinte, a única saída da sua zona de conforto mediática ocorreu quando Manto e Adaga fizeram uma participação especial na terceira temporada da série de animação Ultimate Spider-Man (em exibição desde 2012).

Manto e Adaga continuam à espera de uma oportunidade fora da BD.


quinta-feira, 9 de julho de 2015

ETERNOS: LEN WEIN (1948 - ...)




  Monstro do Pântano, Wolverine e Noturno são apenas parte da memorabilia criativa deste veterano escritor e editor, que desde muito cedo percebeu ser um predestinado da 9ª arte. A sua influência exorbitou, contudo, o universo dos quadradinhos, estendendo-se a outros meios de comunicação, designadamente à televisão.

Biografia: Leonard Norman Wein nasceu a 12 de junho de 1948, na cidade de Nova Iorque. Numa entrevista concedida em 2003, recordava: "Em criança tive diversos problemas de saúde. Passei, por isso, largas temporadas no hospital. Durante uma dessas ocasiões, quando tinha sete anos, o meu pai comprou-me uma pilha de bandas desenhadas para eu matar o tempo. Foi assim que fiquei viciado nesse tipo de material. Anos depois, quando andava no liceu, um dos meus professores de Arte disse-me que eu tinha um talento artístico inato que deveria explorar. A partir daí, resolvi não me poupar a esforços para realizar o meu sonho de vir, um dia, a trabalhar na indústria dos comics".
  Ainda na puberdade, Len e o seu inseparável amigo Marv Wolfman (vide biografia já publicada neste blogue) participavam, pelo menos uma vez por mês, nas visitas guiadas aos escritórios da DC Comics. Wolfman era um já um elemento ativo na subcultura dos fanzines. Len, que por esses dias estava mais interessado em tornar-se desenhador do que escritor, ajudou o amigo a produzir algumas histórias com super-heróis. Com ambos a submetê-las, de seguida, à apreciação dos editores da DC.
   A perseverança de Len e Marv acabaria por dar frutos: os dois foram convidados por Joe Orlando (à época editor-chefe da DC) para se tornarem escritores freelancers. Len estreou-se nessa qualidade com Eye of the Beholder, história dada à estampa em dezembro de 1968 no 18º número de Teen Titans. Mantendo a parceria criativa com Wolfman, os dois criaram em conjunto, especificamente para essa aventura dos Titãs, o Estrela Vermelha. Sendo este o primeiro super-herói soviético a ser incorporado na mitologia da Editora das Lendas.

A estreia de Len Wein como escritor profissional verificou-se em Teen Titans nº18 (1968).

  Pouco tempo depois, Neal Adams (outro Eterno já dado a conhecer neste blogue) foi encarregue de reescrever e de redesenhar uma outra história dos Titãs escrita por Len Wein e Marv Wolfman. Intitulada Titans Fit the Battle of Jericho!, caso não tivesse sido vetada, a história em questão introduziria no Universo DC o seu primeiro super-herói africano. Carmine Infantino ( então editor de Teen Titans, e cujo perfil já foi igualmente traçado neste blogue) foi o responsável por essa decisão.
  Em meados de 1969, Len Wein trabalhava simultaneamente para a Marvel e para a DC. Escrevendo contos de mistério e suspense para, respetivamente, Tower of Shadows e The House of Secrets. Ainda antes do final desse ano, Len tornou-se argumentista de Secret Hearts, título da DC com um forte cunho romântico, muito popular entre o público feminino. 
  Escriba incansável e versátil, Len passou por várias outras séries regulares da Editora das Lendas abarcando géneros tão diversos como terror sobrenatural, westerns e ficção científica. Dentro desta última categoria, há a destacar o trabalho por ele desenvolvido nos títulos Star Trek e The Twilight Zone,  baseados nas cultuadas séries televisivas homónimas .
  Mesmo sem nunca ter conseguido realizar a sua ambição de ganhar a vida a desenhar, numa outra entrevista, datada de 2008, Len declarou: "O meu estudo no sentido de me tornar um artista dotou-me da capacidade de descrever detalhadamente aos ilustradores com quem trabalhei as ideias e as imagens que trazia na cabeça. Especialmente durante a minha primeira passagem pela DC, era comum alguns artistas pedirem ao editor-chefe (Julius Schwartz) para desenharem as minhas histórias. Segundo eles, os meus guiões eram muito gráficos, o que lhes facilitava imenso o trabalho".
  Corria o ano de 1971 quando, em colaboração com o artista Bernie Wrightson, Len Wein concebeu o Monstro do Pântano (Swamp Thing). Personagem que debutaria em julho desse ano, nas páginas de The House of Secrets nº91. E que, no decurso das décadas seguintes, protagonizaria um amplo cardápio de títulos e minisséries com a chancela da DC, além de dois filmes e uma série televisiva. Curiosamente, mais ou menos por esta altura, Wein escreveu também a segunda história do Homem-Coisa (Man-Thing), personagem da Marvel que emulava diversos aspetos do Monstro do Pântano (ou vice-versa, dependendo do ponto de vista).
   Já na qualidade de editor de Saga of the Swamp Thing, em meados dos anos 80 Wein supervisionou o trabalho nela desenvolvido pelo escritor britânico Alan Moore (vide biografia já publicada neste blogue).

Monstro do Pântano, a desconcertante personagem que notabilizou Len Wein.


  Em 1972, após uma memorável passagem por Justice League of America, Wein foi, com Carmine Infantino, o cocriador da segunda encarnação do Alvo Humano (Human Target). Um audaz detetive privado e guarda-costas que assumia a identidade dos seus clientes marcados para morrer às mãos de assassinos contratados. O enorme êxito da personagem abriu caminho para a sua transposição ao pequeno ecrã por via de duas séries televisivas datadas de 1992 e 2010.

Alvo Humano, outra das cocriações bem-sucedidas de Len Wein.

  Nos anos seguintes, Wein escreveu vários títulos icónicos da Marvel. A saber, The Amazing Spider-Man, Thor, Fantastic Four, Marvel Team-Up e The Incredible Hulk. Foi, aliás, aquando da sua passagem por este último que participou ativamente na conceção daquela que se viria a tornar numa das personagens de charneira da Casa das Ideias: Wolverine.
  O carismático mutante canadiano seria, de resto, uma das coqueluches da nova encarnação dos X-Men, introduzida em maio de 1975 por Len Wein e Dave Cockrum. Entre as personagens criadas pela dupla nesse contexto sobressaíram Tempestade (Storm), Noturno (Nightcrawler), Colossus e Pássaro Trovejante (Thunderbird). Exceção feita a este último, os restantes tornar-se-iam peças-chave nas sagas vindouras dos Filhos do Átomo.
  A este propósito, em 2009 Chris Claremont (com John Byrne, um dos artífices daquela que é quase unanimamente considerada a melhor fase da história dos X-Men), teceu as seguintes considerações: "A história moderna dos quadradinhos seria muito diferente sem o contributo de Len Wein. É, portanto, lastimável que ele nem sempre seja reconhecido como devia ser. Particularmente os fãs dos X-Men têm um enorme débito de gratidão para com Len Wein e Dave Cockrum, cujo trabalho desenvolvido com a equipa foi, visto sob qualquer prisma, extraordinário".


O visual  primitivo de Wolverine desenhado por Dave Cockrum.


 Algures a meio da década de 70, Len Wein assumiu, durante aproximadamente um ano, o cargo de editor-chefe da Marvel, sucedendo assim ao lendário Roy Thomas e sendo depois sucedido pelo seu velho amigo Marv Wolfman.
  Quando nada o fazia prever, o casamento de Len Wein com a Marvel chegou ao fim. Ainda por cima, de forma litigiosa e envolvido em polémica. Facto que ditou o seu regresso à DC, na dupla qualidade escritor e editor. Além de assumir as histórias do Cavaleiro das Trevas em Batman, Wein colaborou igualmente em Green Lantern. Já depois de ter cocriado a terceira versão do vilão Cara-de-Barro (Clayface), escreveu, em 1980, a primeira minissérie do Homem-Morcego, The Untold Legend of the Batman.
  Como editor, Len Wein trabalhou numa mão cheia de séries bem-sucedidas: Camelot 3000, New Teen Titans, Batman and the Outsiders, além da aclamada saga Watchmen.
  No período pós-Crise, Len Wein foi incumbido de revitalizar o Besouro Azul (Blue Beetle) e trabalhou em estreita articulação com George Pérez em Wonder Woman.
  No início dos anos 90, Len Wein mudou-se para a Costa Oeste dos EUA. Assumindo então o cargo de editor-chefe da Disney Comics. Terminada essa experiência, dedicou-se a produzir e a editar guiões para séries de animação, como Batman, X-Men, Godzilla ou War Planets: Shadow Riders.
  Seria preciso esperar até 2012 para Len Wein fazer o seu regresso à 9ª arte. E fê-lo pela porta grande. No âmbito do projeto Before Watchmen, escreveu a minissérie Ozymandias, cuja coletânea figurou durante várias semanas na lista de best-sellers do New York Times.

O primeiro volume de Ozymandias, prequela de Watchmen que trouxe Len Wein de volta à ribalta.

 De ascendência judaica, Len Wein é atualmente casado em segundas núpcias com Christine Valada, advogada e fotógrafa. A residir na Califórnia há cerca de duas décadas, o casal viu a sua casa ser consumida pelas chamas em abril de 2009. Episódio de consequências trágicas, já que no incêndio morreu o cão da família e foram destruídos os Shazam Awards de Wein.
  Meses depois, porém, Christine amealhou 60 mil dólares na sua participação num concurso televisivo. Pecúlio que ela se comprometeu a investir na recuperação e/ou substituição dos livros e outros bens culturais que o casal perdeu no referido sinistro.
 Já este ano, Len Wein foi submetido a uma cirurgia cardíaca para a colocação de um bypass triplo, depois de sentir fortes dores no peito. Completou 68 anos no mês passado e tem ainda muito para dar à 9ª arte. E nós, leitores agradecidos, cá estaremos para fazer uma respeitosa vénia ao seu admirável legado que perdurará nos anais da história da BD.
 
Um grande senhor da 9ª arte.

Prémios e distinções: Sem surpresa, ao longo da sua longeva e prolífica carreira, Len Wein foi contemplado com diversos galardões. A abrilhantar o seu currículo, os dois Shazam Awards conquistados em 1972, nas categorias de Melhor Escritor Dramático (Swamp Thing) e de Melhor História Individual (Dark Genesis em Swamp Thing nº1). No ano seguinte, dividiria com Bernie Wrightson um terceiro Shazam Award, desta feita para Melhor Série Regular (novamente com Swamp Thing).
  Ainda na década de 70, mais precisamente em 1977, Wein foi distinguido com um Inkpot Award para Melhor Escritor. Cinco anos depois, em 1982, foi a vez de o Comics Buyer's Guide lhe atribuir o seu prémio para Melhor Editor.
  Pela sua história The Dreaming: Trial and Error, publicada na linha Vertigo da DC Comics, em 1998 Len Wein foi nomeado para o Bram Stoker Award, atribuído pela Associação Americana de Escritores de Terror. Já este século, em 2008, foi nomeado para o prestigiadíssimo Will Eisner Comics Book Hall of Fame.
   Um palmarés impressionante, condizente com toda uma vida dedicada à sua paixão pelos quadradinhos.

     

sábado, 27 de junho de 2015

GALERIA DE VILÕES: MONGUL



  Pela sua natureza brutal e implacável, o Senhor do Mundo Bélico representa uma enorme ameaça à paz intergaláctica. Inimigo jurado do Homem de Aço, em incontáveis ocasiões teve os seus planos de conquista por ele travados.

Nome original da personagem: Mongul, The Elder
Licenciadora: DC Comics
Criadores: Len Wein (história) e Jim Starlin (arte)
Primeira aparição: DC Comics Presents nº27 (novembro de 1980)
Local de nascimento:  Desconhecido
Parentes conhecidos: Mongul II (filho) e Mongal (filha falecida)
Afiliação: Mongul II foi em tempos membro da Tropa Sinestro
Base de operações: Mundo Bélico

A primeira aparição de Mongul em DC Comics Presents nº27, numa história datada de 1980 que contava ainda com a participação especial do Caçador de Marte. 

Armas, poderes e habilidades: Na sua versão primordial, introduzida ainda na Idade do Bronze dos Quadradinhos, Mongul era descrito como virtualmente invulnerável e fisicamente mais forte do que o próprio Super-Homem. Consequentemente, as derrotas do vilão às mãos do Homem de Aço eram ocasionadas pela astúcia deste último que, invariavelmente, encontrava maneira de abortar os esquemas do Senhor do Mundo Bélico. Na única vez em que o Super-Homem logrou superiorizar-se a Mongul num combate corpo a corpo, o herói kryptoniano tombou inconsciente, logo depois de o mesmo ter acontecido com o seu oponente.
  Ao seu formidável poderio físico, Mongul somava habilidades de teletransporte, vestígios de telepatia e a capacidade de disparar rajadas energéticas de elevada potência através das mãos e dos olhos. O vilão dispunha ainda de tecnologia que lhe permitia encolher os seus adversários, colocando-os de seguida em cubos de inversão dimensional. Estes sofisticados dispositivos de contenção eram concebidos para serem à prova de fugas. Para isso, os cubos distorciam a realidade percecionada pelos que neles eram aprisionados, além de absorverem quaisquer poderes usados no seu interior.
  Na sua versão moderna, retocada no pós-Crise, Mongul começou por aparentar ser ligeiramente menos poderoso do que o seu predecessor. Ideia desfeita quando o vilão derrotou alguns pesos-pesados do Universo DC (com a Mulher-Maravilha à cabeça) e chacinou diversos elementos da Tropa Sinestro com o intuito de os expropriar dos seus anéis energéticos.
  Exímio estratega e proficiente em múltiplas artes marciais, Mongul tem, contudo, no Mundo Bélico a sua mais temível arma. Trata-se de um gigantesco satélite artificial móvel criado muito tempo atrás por uma raça de conquistadores espaciais chamados Warzoons. Apetrechado com um vasto arsenal que incluí canhões laser e mísseis termonucleares, o Mundo Bélico dispõe de poder de fogo suficiente para pulverizar um planetoide.

O Mundo Bélico (qualquer semelhança com a Estrela da Morte da saga Guerra das Estrelas será decerto mera coincidência).
   

Biografia: Apesar dos créditos pela criação da personagem serem frequentemente imputados apenas a Jim Starlin, Mongul foi, na verdade, uma conceção do escritor Len Wein. Questionado sobre este facto no decurso de uma entrevista à The Krypton Companion, Lein  foi perentório: "Bem, Starlin foi o autor dos esboços, mas o conceito foi desenvolvido por mim". Acrescentando ainda: "A ideia era criar um vilão que pudesse igualar ou até suplantar o poderio físico do Super-Homem".
 Com efeito, foi nesses termos que o vilão alienígena foi descrito na sua estreia em DC Comics Presents nº27. Mongul era o regente tirânico do Mundo Bélico, um colossal satélite artificial que percorria a galáxia em busca de escravos que pudessem ser usados como gladiadores em arenas mortíferas. 

Len Wein reclama a paternidade de Mongul.

  Depois de uma das suas naves esclavagistas capturar o Homem de Aço, Mongul promoveu um combate entre o herói e Draaga, um seu rival que cobiçava o trono do Mundo Bélico. Quando o Super-Homem se recusou a tirar a vida ao seu adversário, Mongul resolveu travar ele próprio um combate com o kryptoniano. Que foi salvo in extremis de uma morte brutal pela intervenção do Clérigo. 
  À medida que os súbditos de Mongul se começaram a revoltar contra a sua tirania, o vilão foi sobrepujado por Draaga e viu o trono do Mundo Bélico ser usurpado por ele. Por entre um arrazoado de juras de vingança, o tirano apeado fugiu do planeta.

Figurino clássico de Mongul.

  Na posse de uma reduzida parcela da tecnologia do Mundo Bélico e acolitado somente por algumas dezenas de esbirros, Mongul conseguiu conquistar um pequeno planeta onde se exilara. Foi nele que seria casualmente encontrado pelo Supercyborg (um dos quatro falsos Super-Homens que reclamaram o  legado do herói após a sua a morte às mãos de Apocalypse). Reconhecendo o seu ódio mútuo pelo Último Filho de Krypton, o impostor cibernético propôs uma aliança a Mongul.
  Em troca da sua lealdade, o Supercyborg ofereceu a Mongul um novo Mundo Bélico para governar. Perante a recusa do orgulhoso alienígena em ser seu subalterno, o Supercyborg obrigou-o à força a participar no seu esquema..
  A bordo de uma gigantesca nave espacial, Mongul rumou então à Terra, tendo como alvo Coast City. Com a cidade na mira, o vilão lançou um ataque massivo que a obliterou, assim como a quase totalidade dos seus habitantes. 
  De seguida, a nave expeliu centenas de milhares de nanitas que, em poucos minutos, construíram um colossal motor para servir aos intentos do Supercyborg. Mongul, entretanto, esperava pelo momento certo para trair o seu amo. O qual se proporcionaria após um ataque fracassado a Metrópolis com mísseis e a subsequente retaliação levada a cabo pelo verdadeiro Super-Homem (regressado entretanto dos mortos),  secundado por Superboy e Aço (dois outros émulos do herói kryptoniano).

O Supercyborg obrigou Mongul a participar no seu infame esquema.

  O referido ataque a Metróplis tinha como objetivo sentenciar a cidade a idêntico destino ao sofrido por Coast City, para lá instalar um segundo motor  que transformaria a Terra e seus habitantes numa nova versão do Mundo Bélico. Caso fosse acionado o único motor construído, o planeta sairia da sua órbita e despedaçar-se-ia. E foi justamente isso que Mongul ordenou aos seus asseclas que fizessem.
  Ao consciencializarem-se das funestas intenções do vilão, o Super-Homem (praticamente sem poderes) e a Supergirl tentaram travá-lo. Os seus esforços resultaram, porém, infrutíferos, tendo ambos sido prontamente subjugados por Mongul.
 Simultaneamente, Aço confrontou o Supercyborg numa desesperada - e bem-sucedida - tentativa de impedir o acionamento do motor. Ciente da traição de Mongul e do iminente fracasso dos seus planos, o Supercyborg permitiu o acesso do Lanterna Verde Hal Jordan ao motor, vendo nele um veículo de fuga. 
  As coisas, porém, não correram como previsto: enraivecido pela destruição da sua cidade e pelo extermínio dos seus cidadãos, o Lanterna Verde investiu violentamente contra Mongul. Apesar de a pele amarela do alienígena anular os poderes do anel energético de Hal Jordan, este conseguiu ainda assim derrotá-lo e encarcerá-lo. Logo depois, foi a vez de o Supercyborg ser neutralizado pelo Super-Homem.

Além do Super-Homem, Mongul tem também um longo historial de confrontos com Lanternas Verdes.

 Transportado para uma prisão de máxima segurança especificamente concebida para albergar meta-humanos, Mongul revelou-se, porém, um recluso difícil de conter. Durante um motim, o vilão conseguiu evadir-se e, sedento de vingança, rumou à Costa Oeste dos EUA.
  Indiferente ao facto de Hal Jordan - o humano que o humilhou - já não ser o Lanterna Verde responsável pela proteção do nosso mundo,  envolveu-se numa feroz batalha com Kyle Rainer (o sucessor de Jordan). Foi, no entanto, apanhado de surpresa pelo facto de o anel energético do novo Lanterna Verde o conseguir ferir. Com a ajuda do Super-Homem, Kyle Rainer conseguiu conter o vilão e levá-lo de volta ao cárcere de onde escapara.
  Algum tempo depois, quando voltou a conseguir evadir-se, Mongul resolveu abandonar de vez a Terra, tendo sido, todavia, impedido pelo Flash de o fazer.
  Confinado no nosso planeta, Mongul marinou o seu ódio aos seus carcereiros até ser aliciado pelo demónio Neron que, a troco da sua alma, se prontificava a amplificar-lhe os seus poderes (eventos ocorridos na saga A Vingança do Submundo, publicada em 1995 pela Abril brasileira). Vendo nisso uma assunção do seu fracasso, o ex-soberano do Mundo Bélico declinou a oferta de Neron e ameaçou matá-lo. Foi, no entanto, Mongul quem acabou morto às mãos do demónio, que aproveitou o ensejo para lhe subtrair a alma.
  Facto que, contudo, não ditou o fim do legado maligno de Mongul. O seu filho, Mongul II, deu-lhe continuidade, tornando o Universo um lugar menos seguro.

Nota final: Não obstante Mongul ter sido introduzido na cronologia da DC anterior a Crise Nas Infinitas Terras, a sua existência não foi apagada da nova realidade resultante dos eventos nela retratados. Alguns elementos referentes à história da personagem no período pré-Crise foram, porém, alterados ou suprimidos, pelo que deverão ser considerados apócrifos. 

São sempre renhidos os combates entre o Homem de Aço e o Senhor do Mundo Bélico.
   
Noutros media: Na lista dos cem melhores vilões dos quadradinhos de todos os tempos, divulgada em 2009 no site IGN, Mongul quedou-se no 41º lugar. A sua estreia fora da banda desenhada ocorreu em 2001, na série de animação Justice League. Marcaria igualmente presença na sua sucessora, Justice League Unlimited (2004-2006). Em ambas as produções o ator Eric Roberts emprestou a voz ao déspota do Mundo Bélico.
  Em 2008, Mongul II participou no episódio inaugural de Batman: The Brave and the Bold. Dois anos depois, a versão original da personagem voltaria a dar um ar da sua graça em Young Justice.
   Pelo meio, em 2009, Mongul foi o principal antagonista do Homem de Aço e do Cavaleiro das Trevas no filme de animação Superman/Batman: Public Enemies (lançado apenas em DVD).

Tirania personificada.

sábado, 13 de junho de 2015

EM CARTAZ: « CAPITÃO AMÉRICA: O PRIMEIRO VINGADOR»


   Apesar do subtítulo, foi o último filme a solo de um Vingador antes do lançamento da película que reuniu o resto da equipa. Devido a percalços de vária ordem, o projeto demorou quase década a meia a ganhar forma. A longa espera valeu, porém, a pena. Com o produto final a assegurar a reabilitação cinematográfica do Sentinela da Liberdade após o monumental fiasco de 1990.

Título original: Captain America: The First Avenger
Ano: 2011
País: EUA
Duração: 124 minutos
Género: Ação/Aventura/Guerra/Fantasia
Produção: Marvel Studios
Realização: Joe Johnston
Distribuição: Paramount Pictures
Argumento: Christopher Markus e Stephen McFeely
Elenco: Chris Evans (Steve Rogers/Capitão América), Tommy Lee Jones (coronel Chester Phillips), Hugo Weaving (Johann Schmidt/Caveira Vermelha), Hayley Atwell (Peggy Carter), Sebastian Stan ( sargento James "Bucky" Barnes) e Dominic Cooper (Howard Stark)
Orçamento: 140 milhões de dólares
Receitas: 370,6 milhões de dólares



Desenvolvimento: Em abril de 1997, a Marvel estava em negociações para produzir um novo filme do Capitão América. Sete anos antes, outra transposição ao grande ecrã da personagem criada em 1941 por Joe Simon e Jack Kirby redundara num confrangedor fiasco. Estando, por isso, a Casa das Ideias empenhada em assegurar a reabilitação cinematográfica do herói, em pleno boom de produções do género.
  Já com dois argumentistas designados, em maio de 2000 a Marvel estabeleceu uma parceria com a Artisan Entertainment com vista ao financiamento do projeto. Este seria, porém, suspenso ao longo dos três anos seguintes em virtude de um litígio judicial entre Joe Simon e a Casa das Ideias envolvendo os direitos de autor do Capitão América.
 Em 2005, a Marvel recebeu uma injeção de capital na ordem dos 525 milhões de dólares por parte do fundo de investimento Merrill Lynch. Montante que lhe permitiu assegurar a produção independente de uma dezena de filmes. Incluindo um baseado no Sentinela da Liberdade cuja distribuição ficaria a cargo da Paramount Pictures. Seria, de resto, a última vez que a Paramount o faria antes de os Estúdios Marvel passarem a ser uma subsidiária da Disney.
 Originalmente, os produtores tencionavam explorar a premissa de o Capitão América ser um homem fora do seu tempo. Metade do filme teria, assim, como pano de fundo a II Guerra Mundial, e a outra metade desenrolar-se-ia na atualidade. Com Avi Arad, um dos produtores do projeto, a indicar a trilogia de Regresso ao Futuro como uma das principais influências do enredo.
 Em meados de 2006, e já depois de Jon Favreau se ter oferecido para dirigir a película - acabando, no entanto, por assumir a realização de Homem de Ferro- , Joe Johnston foi sondado para dar forma ao projeto. Sem que das negociações entre o cineasta e a Marvel saísse, porém, fumo branco.

Joe Johnston, o homem por trás das câmaras.

  O cronograma da produção seria entretanto atrasado devido à greve de argumentistas que, entre 2007 e 2008, semiparalisou Hollywood. Após chegar a um acordo com o sindicato dessa classe profissional, a Marvel, empolgada pelo sucesso de Homem de Ferro, anunciou o lançamento de uma longa-metragem do Capitão América no verão de 2011.
  Apesar deste anúncio extemporâneo, a cadeira de realizador continuava vaga. Louis Leterrier, que dirigira O Incrível Hulk, ofereceu os seus serviços. A Marvel tinha, porém, outro nome em mente.
  Finalmente, em novembro de 2008, foi formalizada a contratação de Joe Johnston para assumir a direção do projeto. A sua experiência prévia em realizar filmes com super-heróis (Rocketeer em 1991) e o seu trabalho no campo dos efeitos especiais na primeira trilogia de Guerra das Estrelas, fizeram dele o candidato ideal aos olhos dos produtores. Com Johnston vieram dois novos argumentistas encarregues de reescrever o enredo da película: Christopher Markus e Stephen McFeely.
  Sobre o projeto pairou durante algum tempo o espectro do antiamericanismo instalado em vários pontos do globo, essencialmente devido à ocupação do Iraque. Sentimentos entretanto mitigados pela eleição de Barack Obama para a Casa Branca.
 Alheio a preocupações políticas, em dezembro de 2009 Joe Johnston anunciou que pretendia iniciar as filmagens em abril do ano seguinte. Escassas semanas antes de isso acontecer, a Variety confirmou que Chris Evans e Hugo Weaving haviam sido selecionados para interpretar, respetivamente, o Capitão América e o Caveira Vermelha. Nos meses seguintes foram sendo conhecidos outros nomes do elenco, como Tommy Lee Jones e Sebastian Stan.
  Passando por Londres, Manchester e vários outros pontos do Reino Unido e dos EUA, as filmagens de Capitão América: O Primeiro Vingador prolongaram-se por cerca de dez meses (junho de 2010 a abril de 2011). A antestreia mundial teve lugar a 19 de julho de 2011, no cinema El Capitan Theatre, em Hollywood.

Da esq. para dir.: Joe Johnston. Chris Evans e Hugo Weaving na Comic Con 2010 de San Diego.
   
Enredo: Na atualidade, um objeto metálico com formato circular e motivos azuis, brancos e vermelhos é descoberto por cientistas no habitáculo de uma vetusta aeronave militar soterrada pelo gelo do Ártico.
  Em 1942, na Noruega sob ocupação nazi, Johann Schmidt, um sinistro oficial germânico , e os seus homens tomam de assalto um pequeno vilarejo em busca de um misterioso artefacto conhecido como Tesseract, e ao qual são atribuídos enormes poderes.
 Do outro lado do Atlântico, em Nova Iorque, o franzino Steve Rogers é rejeitado pelo Exército em consequência dos seus diversos problemas de saúde. Depois de assistir a uma exposição de tecnologia futurista na companhia do seu amigo James "Bucky" Barnes, o jovem tenta novamente, sem sucesso, alistar-se.

Devido à sua debilidade física, Steve Rogers é sucessivamente rejeitado pelo Exército.

 Inconformado, Steve expressa a Bucky o seu desejo de participar ativamente na guerra. Ao escutar estas palavras, o Dr. Abraham Erskine usa a sua influência para autorizar o recrutamento do jovem, não para as fileiras das forças armadas, mas para um ultrassecreto projeto militar. Tutelado pelo próprio Erskine, pelo coronel Chester Phillips e pela agente secreta britânica Peggy Carter, o Programa do Supersoldado tem como objetivo conceber combatentes fisicamente aprimorados.
  Apesar de Erskine apresentar Steve como o candidato ideal para participar no experimento, o coronel Phillips veta a escolha do cientista. Mudando, contudo, de opinião após testemunhar um impressionante ato de bravura e autossacrifício praticado pelo rapaz.
  Na noite antes da realização da experiência, Erskine confidencia a Steve que o seu antecessor, um alemão de nome Johann Schmidt, sofreu terríveis efeitos colaterais, convertendo-se numa aberração com delírios de grandeza. Steve, porém, não vacila e reafirma-se ansioso por servir o seu país.
  De volta à Europa, Johann Schmidt e o Dr. Arnim Zola utilizam o Tesseract como fonte de energia para as invenções bélicas do cientista nazi. Ambos ambicionam montar uma ofensiva que mudaria o curso da guerra a favor do III Reich.

Da esq. para a dir.: Coronel Chester Phillips, Peggy Carter, Bucky Barnes, Dr. Erskine e Arnim Zola.

  Ao descobrir o paradeiro do Dr. Erskine, Schmidt envia um espião para assassiná-lo. Nos EUA, Steve Rogers é inoculado com um soro especial e de seguida irradiado com raios Vita. Perante o assombro dos que assistem ao experimento, o frágil Steve dá lugar a um vigoroso Adónis.
  Quando é felicitado pelos presentes pelo sucesso da experiência, o Dr. Erskine é baleado mortalmente pelo espião a soldo de Schmidt. Pondo-se de imediato em fuga, o homem é perseguido e finalmente capturado por Steve. Antes, porém, de poder ser levado para interrogatório, o agente nazi suicida-se trincando uma cápsula de cianeto.
  Com Erskine morto e a fórmula do soro do supersoldado perdida, em vez de permitir que os cientistas estudem Steve, o senador Brant leva-o em digressão pelos EUA. Batizado de Capitão América pelo político, Steve é obrigado a usar um uniforme inspirado no estandarte norte-americano para promover a compra de Obrigações de Guerra (instrumento financeiro comercializado pelo Governo estadunidense que tinha com objetivo ajudar a suportar os custos do conflito). Visto como um fantoche, o Capitão América é amiúde  ridicularizado pelas plateias que assistem às suas atuações.

Instrumento propagandístico de carne e osso.
  Durante uma passagem por Itália em 1943, Steve toma conhecimento de que a unidade militar do seu amigo Bucky Barnes havia desaparecido em combate após batalhar as forças de Schmidt. Recusando-se a aceitar a hipótese de Bucky estar morto, Steve convence Peggy Carter e Howard Stark a auxiliarem-no numa arriscadíssima missão de resgate atrás das linhas inimigas.
  Por sua conta e risco, Steve infiltra-se na fortaleza da Hidra onde se acoitam os apaniguados de Schmidt e são mantidos prisioneiros Bucky e os seus camaradas de armas.Após libertá-los, Steve vê-se frente a frente com Schmidt. Este remove a máscara para exibir o seu medonho rosto que lhe valeu a alcunha de Caveira Vermelha. Segue-se uma acirrada refrega entre as duas cobaias do Dr. Erskine, com o alemão a conseguir escapulir-se. Steve regressa então à base acompanhado de Bucky e dos demais soldados libertados, sendo aclamado como um herói.
  Determinado a debelar a ameaça representada pelo Caveira Vermelha, o Capitão América mobiliza o Comando Selvagem para empreender um  ataque a outras bases da Hidra. De Howard Stark o herói recebe um novo escudo feito de vibranium, um metal raro e virtualmente indestrutível.

Caveira Vermelha, o supersoldado do III Reich.

 Nos dias seguintes, o Sentinela da Liberdade e seus aliados sabotam diversas operações da Hidra. O seu próximo alvo é um comboio que transporta Arnim Zola. O cientista é capturado mas Bucky Barnes é dado como morto depois de cair da composição em movimento.
 Interrogado pelos americanos, Zola revela a localização do reduto secreto da Hidra onde estão a ser produzidas armas de destruição massiva para serem usadas contra os principais centro urbanos dos EUA.
 Novamente liderado pelo Capitão América, o Comando Selvagem invade o quartel-general do Caveira Vermelha. Pressentindo a derrota iminente, o vilão tenta escapar a bordo de um avião. Levando, contudo, um passageiro indesejado: ninguém menos que o Sentinela da Liberdade.

Comando Selvagem.
  Enquanto cruzam os céus, o Capitão América e o seu némesis guerreiam-se até que o recetáculo que continha o Tesseract é danificado. Ao empunhar o artefacto, o Caveira Vermelho é dissolvido em meio a um clarão de luz ofuscante. Em consequência disso, o Tesseract tomba no chão da aeronave, derretendo-o e caindo na vastidão do Atlântico.
  Sem conseguir descortinar uma forma de aterrar o avião sem deflagrar as armas a bordo, o Capitão América toma a decisão de despenhar o aparelho no Ártico. Pouco tempo depois, o Tesseract é resgatado por Howard Stark do fundo do oceano. As diligências deste para localizar Steve Rogers e a aeronave onde ele seguia, revelam-se, contudo, infrutíferas. O Capitão América é, por conseguinte, dado como morto.
  Steve Rogers desperta num quarto hospitalar que parece saído da década de 40. Quase imediatamente deduz que algo não bate certo, ao escutar uma transmissão radiofónica que veicula uma informação anacrónica.
  Aturdido, Rogers foge da instalação onde se encontra e depara-se com a vertigem feérica da Times Square dos nossos dias. Sendo então informado pelo diretor da SHIELD, Nick Fury, de que esteve em hibernação durante 70 anos.
  Numa cena pós-créditos, Fury convida Rogers a participar numa missão com ramificações globais.

Trailer:

Curiosidades: 

* Antes de aceitar interpretar o Capitão América no grande ecrã, Chris Evans declinou três vezes o papel. Não porque este lhe desagradasse, mas porque o ator temia o impacto que a fama acrescida que dele adviria poderia ter na sua vida pessoal. Foi Robert Downey Jr. (com quem, no ano seguinte, contracenaria no filme dos Vingadores) quem o fez mudar de ideias. Decisão que valeu a Evans um cachê de 300 mil dólares;
* A banda desenhada do Capitão América mostrada no filme é um fac-símile da capa de Captain America nº1, lançado em 1941. O escudo inicialmente manejado pelo herói é também uma réplica daquele que apetrechava a personagem nos seus primórdios nos quadradinhos. Tendo a sua posterior substituição pelo  icónico modelo circular sido ditada pelas acusações de plágio feitas pela Archie Comics. Editora que publicava o Escudo (The Shield em inglês), super-herói patriótico criado um ano antes do Sentinela da Liberdade;

 São notórias as parecenças entre o Capitão América e o Escudo da Archie Comics.

* Em apenas dois trechos do filme Johann Schmidt é referido como Caveira Vermelha: quando os emissários do Fuehrer trazem as ordens de encerramento da Hidra, e quando um oficial das SS lê em voz alta uma missiva da lavra do próprio Hitler;
* Na feira tecnológica onde Howard Stark dá a conhecer as suas criações visionárias, é visível dentro de uma redoma de vidro um manequim trajando um uniforme encarnado. Trata-se de uma referência ao primeiro Tocha Humana, um androide que foi também o mais antigo super-herói da Timely Comics (idealizado em 1939 pela precursora da Marvel). Na banda desenhada, o Tocha Humana foi um dos fundadores dos Invasores (ver prontuário da equipa já publicado neste blogue), grupo a que também pertenceu o Capitão América;
* Para se preparar para o papel de Bucky Barnes, Sebastian Stan assistiu a vários documentários e filmes sobre a II Guerra Mundial. Dentre estes últimos elegeu Irmãos de Armas (2011) como sua principal referência;
* Joe Simon (que com Jack Kirby criou o Capitão América em 1941, antes de Stan Lee o revitalizar em 1964) foi convidado a fazer um pequeno cameo no filme.Então com 97 anos e uma saúde debilitada, Simon viu-se, no entanto, impedido de corresponder ao convite. Acabaria, aliás, por falecer escassos meses após a estreia da fita;
* Hugo Weaving declarou publicamente o seu diminuto interesse em repetir o papel de Caveira Vermelha,  essencialmente por causa do desgastante processo de caracterização inerente à personagem;

Hugo Weaving em plena sessão de caracterização.
* Apesar do subtítulo o sugerir, na banda desenhada o Capitão América não fez parte do quinteto fundador dos Vingadores. Este era composto por Thor, Homem de Ferro, Vespa, Homem-Formiga e Hulk. Foi, aliás, na sequência do abandono da equipa por parte deste último que o Capitão foi recrutado para as suas fileiras. Cronologicamente, porém, o Sentinela da Liberdade é mais antigo do que qualquer um dos seus companheiros. Justificando-se assim o título de Primeiro Vingador;
* Capitão América: O Primeiro Vingador é a quinta adaptação em ação real do herói. A primeira remonta a 1944 e foi lançada sob o formato de uma série cinematográfica em  15 episódios -ainda a preto e branco - com Dick Purcell como protagonista; seguiram-se dois telefilmes produzidos em 1979 (Capitão América e Capitão América II), ambos estrelados por Reb Brown; finalmente, em 1990, no que pretendia ser a resposta da Marvel ao sucesso do Batman de Tim Burton no ano anterior, foi lançada uma tosca coprodução internacional de baixo orçamento e repleta de liberdades poéticas intitulada As Aventuras do Capitão América. Tendo como ator principal Matt Salinger, o descalabro foi de tal ordem que o filme acabaria por nunca chegar às salas de cinema, acabando por ser distribuído apenas no circuito de vídeo em 1992.

A evolução do Sentinela da Liberdade no pequeno e no grande ecrã.

Prémios e nomeações (2011): Chris Evans arrebatou o Scream Award na categoria de Melhor Super-Herói. Já a banda sonora composta por Alan Silvestri foi distinguida com um BMI Film & TV Award. Tanto o filme como  alguns elementos do elenco foram nomeados para diversos outros prémios. Destaque para o MTV Award para Melhor Ator (Chris Evans), o Saturn Award  para Melhores Efeitos Especiais e para o Teen Choice Award para Melhor Filme de Verão.



Veredito: 74%

  Precedo a minha avaliação com uma declaração de interesses: Capitão América é o meu segundo herói favorito do Universo Marvel (perdendo apenas para o Homem-Aranha). Chamem-me antiquado, mas identifico-me com muitos dos valores e princípios defendidos pela personagem. Tal como Steve Rogers, sinto-me frequentemente como se tivesse nascido na época errada.
  Dito isto, e tendo visto na minha adolescência o infame As Aventuras do Capitão América, seria muito difícil eu não gostar desta nova vida do Sentinela da Liberdade no grande ecrã.
 Ao contrário de Matt Salinger na fita de 1990, Chris Evans sabe realmente representar e interpretou admiravelmente bem o Capitão América, captando a essência idealista e tenaz do herói. Hugo Weaving também foi uma escolha acertada para Caveira Vermelha (com os argumentistas a não trocarem desta vez a nacionalidade ao vilão).
 Apesar do seu fortíssimo cunho patriótico e anacrónico, o Capitão América é também um símbolo vivo da Liberdade. Em paralelo com a sua valentia, é esse o aspeto mais destacado na película. Tornando, assim, o herói simpático aos olhos da maioria dos espectadores (exceto, porventura, os tiranetes em potencial ou os visceralmente antiamericanos).
 Com um argumento consistente temperado com as doses certas de humor e ação, Capitão América: O Primeiro Vingador possui mais substância do que à primeira vista possa parecer. Num mundo onde a fronteira entre o Bem e o Mal está cada vez mais esbatida, é agradável evocar um conflito onde os bons e os maus estavam perfeitamente identificados.
 Mesmo aos leigos, o filme conseguirá facilmente garantir um par de horas bem passadas graças ao seu registo ligeiro e ao seu charme retro. Sugiro que o vejam acompanhados por um balde de pipocas, ao bom estilo americano.