clique aqui e encontre um template com a sua cara - template for blogger»

terça-feira, 15 de Abril de 2014

BD CINE APRESENTA: «BATMAN - O INÍCIO»

 



     Naquele que seria o primeiro capítulo da épica trilogia do Cavaleiro das Trevas dirigida por Christopher Nolan, a origem do soturno herói foi revisitada, sendo notórias as influências de Batman: Year One. Sucesso de crítica e de bilheteira, Batman - O Início resgatou uma franquia que muitos julgavam irremediavelmente perdida.

Título original: Batman Begins
Ano: 2005
País: EUA/Reino Unido
Género: Ação/Drama/Suspense/Fantasia
Duração: 140 minutos
Realização: Christopher Nolan
Argumento: David S. Goyer e Christopher Nolan
Estúdio: Legendary Pictures e Syncopy Films
Distribuição: Warner Bros.
Elenco: Christian Bale (Bruce Wayne/Batman), Michael Caine (Alfred Pennyworth), Liam Neesson (Henri Ducard/ R'as Al Ghul), Katie Holmes (Rachel Dawes), Gary Oldman (Sargento James Gordon), Cillian Murphy (Dr. Jonathan Crane/Espantalho) e Morgan Freeman (Lucius Fox).
Orçamento: 150 milhões de dólares
Receitas: 374,2 milhões de dólares

Oito anos após a sua última aventura cinematográfica, Batman regressou triunfalmente ao grande ecrã.
 
Produção e desenvolvimento: Em janeiro de 2003, a Warner Bros. contratou o realizador de Memento, Christopher Nolan, para dirigir um filme de Batman. Meses depois, foi a vez de David S. Goyer (argumentista da quadrilogia cinematográfica de Blade) ser contratado. Coube a ambos reabilitar a franquia do Homem-Morcego, após o monumental fracasso de Batman & Robin, em 1997.
       Nolan sempre assumiu que a sua intenção seria retratar a origem do Cavaleiro das Trevas, história nunca devidamente contada nas anteriores transposições da personagem ao grande ecrã. Para tal, a humanidade e o realismo seriam as duas pedras de toque do filme. Goyer, por seu turno, afirmou que o objetivo da sua história era levar o público a identificar-se com Bruce Wayne e com o seu sombrio alter ego.
      Nolan teve em Superman (dirigido em 1978 por Richard Donner), a sua principal referência. À semelhança dessa película, Nolan, que considerava que as anteriores adaptações de Batman ao cinema tinham tido mais estilo do que drama, desejava que a história do seu filme se centrasse na origem e evolução do herói. Seguindo ainda o exemplo de Superman, o cineasta reivindicou um elenco coadjuvante repleto de estrelas, o qual serviria para conferir uma maior credibilidade ao projeto e um registo épico à narrativa.
      Segundo o próprio revelou, o ponto de partida para Nolan foi uma antiga história do Homem-Morcego, The Man Who Falls - escrita por Dennis O'Neil e ilustrada por Dick Giordano -, que narra as viagens de Bruce à volta do globo. A cena inicial de Batman Begins, na qual Bruce cai num poço e é atacado por morcegos, foi adaptada dela.

Christopher Nolan: o realizador britânico captou como ninguém a essência de Batman.
 
      Por outro lado, Batman: The Long Halloween, da autoria de Jeph Loeb e Tim Sale, influenciou o guião de David S. Goyer. Carmine Falcone é, aliás, um dos elementos retirados desse arco de histórias. Além disso, o sargento James Gordon do filme é baseado na sua encarnação de Batman: Year One. Goyer, de resto, aproveitou o artifício de Frank Miller na referida saga, que passava por apresentar uma força policial corrupta que leva Gordon e Gotham City a precisarem de Batman.
      Como em todos os seus filmes, Nolan, a fim de manter uma apertada supervisão, recusou ter uma segunda unidade de produção. As filmagens arrancaram em março de 2004, num glaciar finlandês que serviu de cenário para as sequências situadas no Butão.
      A equipa construiu uma grande vila e os portões fronteiros do templo de R'as Al Ghul, assim como as vias de acesso à área remota. Com chuva, ventos de 120 km/h e falta de neve, o clima revelou-se um autêntico quebra-cabeças.
      No entanto, a maior parte da produção teve lugar no Reino Unido, especificamente nos Shepperton Studios. O cenário da Batcaverna foi construído lá, com 76 metros de comprimento, 37 de largura e 12 de altura. Foram ainda instaladas 12 bombas para criar uma queda de água artificial.
      O prédio escolhido para representar o Asilo Arkham foi o National Institute for Medical Research, a noroeste de Londres. Já a University College London foi usada para fazer as vezes dos tribunais de Gotham City.
      Apesar do tom sombrio da película, Nolan quis que ela fosse apelativa para uma ampla faixa etária. Motivo pelo qual nada de muito sangrento foi filmado.

O visual renovado do Cavaleiro das Trevas.
Enredo: Um jovem Bruce Wayne cai num poço e é atacado por morcegos esvoaçantes. Ele acorda desse pesadelo sobre o seu passado e descobre que se encontra encarcerado numa prisão algures no Butão.
      Pouco depois, Bruce é apresentado ao misterioso Henri Ducard, um emissário de R'as Al Ghul, o líder da lendária Liga das Sombras. Ducard convida-o a ser treinado no templo da sua organização. Bruce aceita.
      A narrativa regressa à infância de Bruce, mais precisamente à noite em que os seus pais foram mortalmente baleados durante um assalto num beco esconso de Gotham City. Joe Chill, o assassino, é preso e o pequeno Bruce é levado para a mansão Wayne, onde fica aos cuidados do devoto mordomo da família, Alfred Pennyworth.
      Anos depois, Bruce retorna a Gotham com a intenção de matar Chill, cuja sentença está prestes a ser revogada para que testemunhe contra o padrinho da Máfia Carmine Falcone. Antes, porém, que Bruce tenha oportunidade de concretizar os seus intentos, Chill é executado a sangue frio por um dos sicários ao serviço de Falcone.
      Ao descobrir o plano gorado de Bruce, Rachel Dawes,  sua amiga de infância e agora assistente do promotor público, repreende-o e fá-lo notar que o seu pai se envergonharia do homem em que ele se tornou.
      Nessa mesma noite, Bruce confronta Carmine Falcone, que lhe diz que o seu império é invencível porque é alicerçado no medo. Simultaneamente frustrado e inspirado, Bruce decide viajar pelo mundo, a fim de aprofundar os seus conhecimentos sobre o universo do crime. É dessa forma que acaba num presídio no Butão.

Depois de Michael Keaton, Val Kilmer e George Clooney, Christian Bale assumiu o manto do morcego no cinema.
 
      Concluído o treino de Bruce pela Liga das Sombras, R'as Al Ghul e Ducard revelam-lhe enfim o seu propósito: ele deverá liderar a Liga em Gotham City com vista à sua aniquilação, uma vez que a cidade se tornara demasiado corrupta para poder ser salva. Bruce recusa alinhar no plano de genocídio e envolve-se numa refrega com R'as. Dela resulta a destruição do templo e a aparente morte do mentor da Liga das Sombras. Ducard, no entanto, é salvo por Bruce, que regressa a Gotham City.
      Falcone domina agora a cidade a seu bel-prazer. Empenhado em derrubá-lo, Bruce pede ajuda ao sargento James Gordon, um dos poucos elementos honestos do Departamento de Polícia de Gotham City, e a Lucius Fox, antigo membro da diretoria das Indústrias Wayne. Este último ajuda-o a adquirir os protótipos de um veículo blindado e de uma armadura de combate. Ambos projetos desenvolvidos em tempos pelas Indústrias Wayne para os militares, mas entretanto cancelados.
      Com a ajuda de Alfred, Bruce descobre uma outra entrada para as cavernas subterrâneas existentes sob a mansão Wayne, as quais resolve converter na sua futura base de operações.
      Na sua primeira noite como Batman, Bruce interceta um carregamento de drogas e captura Falcone, providenciando a Rachel Dawes provas suficientes para incriminá-lo. Todavia, em vez de ser enviado para a penitenciária, Falcone e os seus sequazes são internados no Asilo Arkham graças à intervenção do seu corrupto administrador, o Dr. Jonathan Crane.  Este vinha há muito fazendo negócios com o mafioso, designadamente a importação ilegal de um poderoso alucinogénio que o psiquiatra aplicava secretamente nos seus pacientes.
      Quando Falcone reclama um lucro maior na transação, Crane injeta-o com essa espécie de toxina do medo, deixando-o totalmente insano.
 
Cillian Murphy no duplo papel de Dr. Jonathan Crane e Espantalho.
 
      Enquanto investiga o circuito de distribuição da nova droga, Batman depara-se com Crane, que lhe aplica uma dose da sua toxina do medo. À beira de perder a razão, o herói é salvo por Alfred, que lhe inocula uma antitoxina produzida por Lucius Fox.
      Crane, entretanto, atrai Rachel Dawes ao Asilo Arkham, revelando-lhe que a sua toxina do medo vem sendo libertada há semanas nos reservatórios de água de Gotham. A própria Dawes acaba infetada pelo vilão. É, no entanto, salva por Batman que, depois de obrigar Crane a provar do seu próprio remédio, a transporta para a sua caverna, onde administra a antitoxina na jovem.
      De seguida, o Cavaleiro das Trevas confia dois frascos da antitoxina a Rachel Dawes: o primeiro para Gordon, o segundo para ser produzido em massa.
     Na festa do trigésimo aniversário de Bruce Wayne, na sua mansão, o jovem milionário é confrontado por Henri Ducard, que revela ser o verdadeiro R'as Al Ghul. O vilão veio a Gotham City para testemunhar in loco a destruição da cidade. Mancomunado com Crane, Al Ghul promoveu a contaminação da água de Gotham com a toxina do medo, para depois a evaporar empregando um dispostivo de micro-ondas roubado das Indústrias Wayne.
     Fingindo-se embriagado, Bruce expulsa todos os convidados da mansão. Quando ele e R'as Al Ghul ficam a sós, tem início um duelo frenético.
 
R'as Al Ghul (esq.) e Bruce Wayne: mestre e pupilo reencontram-se ao cabo de vários anos.
 
     Em simultâneo, os homens de R'as incendeiam a mansão, libertam todos os prisioneiros do Asilo Arkham e vaporizam o alucinogénio na atmosfera, potenciando dessa forma os seus efeitos mortíferos. 
     Apesar de a mansão Wayne ficar reduzida a uma pilha de escombros e cinzas fumegantes,  Bruce consegue escapar com a ajuda de Alfred. Rachel, entretanto, entrega o antídoto a Gordon e neutraliza o Espantalho - o alter ego insano do Dr. Crane - atingindo-o com um taser.
     Batman revela a sua verdadeira identidade a uma estarrecida Rachel e depois convence Gordon a conduzir o Batmobile para a Torre Wayne, onde funciona a central do metro suspenso de Gotham.
      Enquanto o herói confronta R'as no topo do comboio, Gordon destrói os carris. Desgovernada, a composição galga os trilhos arrastando consigo R'as Al Ghul. Batman, por seu lado, salva-se por um triz.
      Após estes eventos, Batman torna-se um herói aos olhos da opinião pública e Bruce Wayne recupera o controlo da sua empresa. Como primeiro ato oficial, demite o anterior diretor executivo e nomeia Lucius Fox para o seu lugar.
      Incapaz de amar Bruce e Batman ao mesmo tempo, Rachel abandona Gotham City com a promessa de voltar caso ele desista de ser o Homem-Morcego.
 
Rachel Dawes (Katie Holmes) é o par romântico de Bruce Wayne em Batman Begins.
 
      Na cena final - decalcada do epílogo da saga Batman: Year One (ver texto anterior) - Gordon encontra-se com Batman no telhado do Departamento de Polícia de Gotham e mostra-lhe uma carta com um Joker sorridente, representando a mais recente ameaça à segurança dos habitantes da cidade.
 
No seu regresso ao grande ecrã, Batman deu lugar ao Cavaleiro das Trevas.

Prémios e indicações: Foi na categoria de Melhor Fotografia que Batman - O Início teve a sua única nomeação para um Óscar, a qual acabaria contudo por não vencer. Foi igualmente indicado para Melhor Direção de Arte, Melhor Som e Melhores Efeitos Visuais nos BAFTA (homólogos britânicos dos Óscares).
      Escassos meses após o seu lançamento, o primeiro capítulo da nova vida do Cavaleiro das Trevas no cinema foi eleito o 36º melhor filme de todos os tempos pelos leitores da revista Empire. Venceu ainda três Saturn Awards nos segmentos Melhor Filme de Fantasia, Melhor Argumento (David S. Goyer e Chris Nolan) e Melhor Ator (Christian Bale). Já a performance de Katie Holmes no papel de Rachel Dawes foi pouco apreciada pelos espectadores, facto que lhe valeu um indicação para o Razzie (espécie de anti-Óscar) de Pior Atriz Secundária.
 
O olhar penetrante de um herói atormentado.

Curiosidades:
* Numa entrevista concedida ao site Moviefone, Christian Bale revelou que ficou interessado em interpretar Batman depois de ler a aclamada novela gráfica da autoria de Grant Morrison e David McKean, Arkham Asylum, que lhe fora emprestada por um amigo em 2000;
* O tremendo desconforto que o fato de Homem-Morcego provocava no ator  deixava-o genuinamente mal-humorado, facto que ajudou à sua performance representativa. No primeiro dia de filmagens, Bale, num esforço homérico para se adaptar ao traje, usou-o horas a fio;
* Grande parte da parafernália usada pelo herói no filme - incluindo a sua capa e armadura - é baseada em tecnologia militar real;
* Antes do arranque das filmagens, Chris Nolan reuniu toda a equipa para o visionamento do clássico futurista Blade Runner (1982). No final da sessão cinematográfica, o realizador anunciou que a película seria a pedra de toque para Batman Begins;
* Durante as filmagens, Christian Bale ficou afónico em três ocasiões, em resultado das suas modelações de voz para tornar Batman mais sinistro;
* O cantor Marilyn Manson foi um dos nomes equacionados para assumir o papel de Espantalho;
* Na trilogia do Cavaleiro das Trevas dirigida por Nolan, apenas o primeiro filme conta com vilões inéditos, ou seja, que não figuraram na quadrilogia anterior a cargo de Tim Burton e Joel Schumacher;
* Foi também a primeira adaptação de Batman ao grande ecrã que não teve o seu criador como consultor (Bob Kane falecera em 1998), e na qual figurou o  novo logótipo da DC;
* Tim Burton e Michael Keaton reconheceram terem ficado impressionados após o visionamento de Batman Begins;
* Rachel Dawes é uma personagem inexistente na BD original, tendo sido criada a pensar especificamente na atriz Katie Holmes;
* Foram produzidos cinco Batmobiles. Apesar de dispensar duplos em muitas das suas cenas de luta, Christian Bale foi expressamente proibido de se aproximar dos veículos. Cautelas que não impediram, contudo, um episódio caricato: durante a gravação de uma cena nas ruas de Chicago, um condutor, aparentemente alcoolizado, abalroou o Batmobile, por o ter confundido com uma nave extraterrestre(!).

A nova versão do Batmobile foi batizada de Tumbler.
Veredito: 73%

     Muito distante do ambiente psicadélico de Batman Forever e Batman & Robin (ambos dirigidos por Joel Schumacher em 1995 e 1997, respetivamente), Batman Begins recupera a atmosfera sombria dos dois primeiros filmes do Homem- Morcego (Batman e Batman Returns), realizados por Tim Burton, acrescentando-lhe uma inédita densidade psicológica. Com efeito, nunca, fora dos quadradinhos, as motivações (leia-se obsessões) e medos da personagem haviam sido tão profundamente explorados. Tanto Bruce Wayne como a sua taciturna contraparte veem as suas forças e fraquezas postas a nu, tornando-os mais humanos do que nunca aos olhos dos espectadores e, dessa forma, conferindo maior verosimilhança à narrativa.
     Por outro lado, um enredo inteligente sustentado por um rol de atores de primeira grandeza - onde pontificam, entre outros, Morgan Freeman, Gary Oldman e Michael Caine -  robustece a carga dramática do filme, habilmente temperada por sequências de ação, a espaços, espetaculares.

No sentido dos ponteiros do relógio: Morgan Freeman, Gary Oldman, Michael Caine e Liam Neeson. Uma verdadeira constelação a abrilhantar Batman Begins.
 
     Ainda a propósito do magnífico elenco de Batman Begins, muitos são os que consideram que a escolha de Christian Bale para encarnar o Cavaleiro das Trevas foi o ingrediente que faltava na receita para o sucesso dos filmes baseados naquele que é, indubitavelmente, um dos mais populares super-heróis à escala planetária. Sem depreciar as inegáveis virtualidades representativas do ator galês, na minha opinião, ele perde na comparação com Michael Keaton. Falta a Bale o charme psicótico que Keaton esbanjou nos dois primeiros filmes da quadrilogia original. Na verdade, é curioso notar que se o segundo captou melhor a essência do Homem-Morcego, o primeiro é muito mais credível como Bruce Wayne.
     Christopher Nolan percebeu bem a importância de uma boa origem, algo que os seus antecessores na cadeira da realização negligenciaram. Quando a história apresentada teve como principais referências algumas das mais magistrais sagas do Homem-Morcego, é (quase) impossível o resultado final não ser fantástico.
     Por tudo isto, Batman Begins deixou enlevados os fãs, que, na altura, estavam longe de imaginar que as suas duas sequelas o superariam. Sim, porque, apesar da sua elevada qualidade, o primeiro capítulo é, ainda assim, o menos arrebatador da trilogia. É, pois, caso para dizer que o melhor ainda estava por vir. E ainda bem.

     

quinta-feira, 3 de Abril de 2014

DO FUNDO DO BAÚ: «BATMAN - ANO UM»




      Verdadeira pérola da 9ª arte com o toque genial de Frank Miller, Batman: Ano Um representa também um marco importante na história do Homem-Morcego, cuja influência se estendeu muito para além dos quadradinhos.

Título: Batman: Ano Um
Data: Dezembro de 1989
Licenciadora: Detective Comics (DC)
Editora: Abril Jovem
Formato: Americano (17 x 26 cm), colorido e com lombada quadrada
Número de páginas: 106
Categoria: Edição encadernada (em 2002 a Abril Jovem lançou uma segunda série deste volume e em 2011 chegou às bancas uma reedição da Panini Comics)
Argumento: Frank Miller
Arte: David Mazzucchelli
Publicado originalmente em: Batman 404 a 407 (EUA, 1987)
Na minha coleção desde: 1990

Capa da edição encadernada de Batman: Ano Um publicada no Brasil em 1989 pela Abril Jovem.

Histórico de publicação: Batman: Year One foi um arco de histórias publicado originalmente nos Estados Unidos entre fevereiro e maio de 1987, em quatro números da série regular do Homem-Morcego.
      Tudo começou um par de anos antes quando, em meados de 1985 e ao cabo de seis décadas de histórias, a DC achou por bem revitalizar a sua mitologia. Com esse objetivo em vista, a editora lançou a saga Crise on Infinite Earths, um ambicioso projeto que revolucionou para sempre o universo DC.
      Em consequência desses eventos, as principais personagens da Editora das Lendas viram as suas origens revistas. Batman não foi exceção.
      Tão exigente empreitada foi confiada ao consagrado escritor Frank Miller (aclamado no ano anterior pela minissérie The Dark Knight Returns), ficando a arte a cargo da então jovem promessa David Mazzucchelli.
      Considerada uma das melhores histórias do Cavaleiro das Trevas alguma vez produzidas (para o site IGN, por exemplo, trata-se da melhor saga de sempre estrelada pelo Homem-Morcego), Batman: Year One reformulou a origem do taciturno herói, sem contudo adulterar a essência da narrativa primordial idealizada em 1939 por Bob Kane e Bill Finger.


Batman: Year One foi originalmente publicada nos números 404 a 407 da série mensal do Cavaleiro das Trevas.

     A uma breve recapitulação dos acontecimentos que conduziram à morte dos pais de Bruce Wayne às mãos de  um assaltante, segue-se uma inovadora abordagem aos efeitos psicológicos que essa tragédia teve no jovem órfão. Nunca antes as suas motivações - e obsessões - haviam sido tão habilmente esmiuçadas.
     Também a personagem Alfred Pennyworth, o fiel mordomo da família Wayne, foi reintroduzida nesta nova versão da história. Contudo, a sua importância na formação do caráter do jovem Bruce é reforçada e a sua personalidade surge agora temperada por um acutilante sarcasmo. Características que conserva desde então, tanto na banda desenhada como nas várias transposições das aventuras do Homem-Morcego a outros media, designadamente ao cinema.
      O sucesso do trabalho de Frank Miller inspirou outros autores a expandirem o conceito por ele introduzido em Batman: Year One. Assim, a este  seguiram-se Batman: Year Two e Batman: Year Three. Também Robin e Batgirl tiveram as suas origens reescritas em moldes idênticos.
     Mais tarde, em 1995, todas as edições anuais da DC apresentaram histórias baseadas nesse conceito. Títulos como Batman: Legend of the Dark Knight, Batman: The Long Halloween ou Batman: Dark Victory, replicaram a fórmula de sucesso criada por Frank Miler ao revisitarem os primórdios da carreira heroica do Cavaleiro das Trevas.

Capa de uma das reedições de Batman: Year One lançadas nos EUA.
       
Enredo: Bruce Wayne regressa a Gotham City 18 anos após o assassinato dos seus pais. Durante esse longo período de ausência, o jovem, agora com 25 anos, viajou pelo mundo, aprendeu várias artes marciais e estudou ciência forense.
     O tenente James Gordon pede transferência para o Departamento de Polícia de Gotham City (DPGC), tentado deixar para trás os seus problemas em Chicago. Vem acompanhado da sua esposa grávida, Barbara. 
     No DPGC, a Gordon é-lhe atribuído como parceiro o corrupto detetive Flass, que lida mal com a sua renitência em quebrar as regras éticas e morais. Não tarda pois a que ambos se incompatibilizem, já que Floss, acobertado pelo igualmente corrupto Comissário Loeb, corporiza os males que minam os alicerces da sociedade gothamita.

Bruce Wayne prepara-se para combater o crime que apodrece os alicerces de Gotham City.
 
     Numa operação de vigilância na zona de East End, Bruce Wayne - sob disfarce - é abordado por uma prostituta adolescente chamada Holly Robinson. Atraído para um beco esconso, Bruce vê-se rapidamente rodeado pelo proxeneta da jovem e por várias outras meretrizes, incluindo uma dominatrix que responde pelo nome de Selina Kyle.
     Segue-se uma violenta refrega, com Bruce a ser esfaqueado numa perna por Holly.
      Quando a polícia chega ao local, um dos agentes dispara sem aviso e sem motivo sobre Bruce. Ferido e aturdido, Bruce é algemado e metido à força no carro-patrulha. No caminho para a esquadra, porém, ele consegue soltar-se e ordena aos agentes que o libertem. Estes recusam fazê-lo e, na sequência da luta no interior da viatura, esta capota violentamente e incendeia-se. Bruce escapa, não sem antes arrastar os dois polícias inconscientes para longe das chamas.
      A esvair-se em sangue e mal se aguentando em pé, Bruce volta à Mansão Wayne e senta-se diante do busto do seu pai, suplicando-lhe orientação para a cruzada contra o crime que pretende iniciar. Como que em resposta ao seu pedido, um morcego atravessa a vidraça da janela e poisa sobre o busto de Thomas Wayne. Bruce toma isso como um sinal e decide usar o morcego como inspiração para infundir medo nos corações dos criminosos.
Para atemorizar os malfeitores, Bruce Wayne transforma-se no Homem-Morcego.
      Entretanto, o tenente Gordon envida esforços para expurgar os elementos corruptos do DPGC. O que lhe vale um espancamento às mãos de um grupo de colegas - incluindo Floss - ordenado pelo igualmente corrupto Comissário Loeb. Furioso por Floss ter ameaçado a vida da sua mulher grávida, Gordon parte no seu encalço, sova-o com um taco de basebol e deixa-o, nu e algemado, no meio da neve.
      Ao mesmo tempo que Gordon ganha notoriedade em virtude de vários atos de bravura, Batman entra em ação pela primeira vez, capturando uma bando de ladrões. Pouco tempo depois, é a vez de o detetive Floss ser surpreendido pelo vigilante no preciso momento em que recebia um suborno.
      Todavia, a sua ação mais espetacular passa por interromper um jantar de gala onde estão presentes diversos chefes da Máfia e políticos corruptos. Na sequência desse episódio, o Comissário Loeb ordena a Gordon que capture o herói mascarado, seja por meios forem.
      Enquanto Gordon procura, em vão, cumprir as ordens do seu superior, Batman captura Carmine Falcone - um dos principais líderes mafiosos da cidade - despe-o e ata-o à sua própria cama, depois de lançar o seu carro ao rio.
      Impressionado pelas façanhas do mascarado, o promotor Harvey Dent torna-se o seu primeiro aliado na sua missão de limpar a cidade.
      Algum tempo depois, a nova parceira de Gordon, a detetive Sarah Essen, sugere que Batman e Bruce Wayne poderão ser uma só pessoa. Ela e Gordon testemunham o salvamento de uma mendiga levado a cabo pelo misterioso Homem-Morcego nas ruas de Gotham. Essen aponta-lhe a arma, mas acaba desarmada por Batman, que de seguida se refugia num prédio abandonado.
      Ao tomar conhecimento do sucedido, o Comissário Loeb ordena o lançamento de uma bomba a partir de um helicóptero do DPGC sobre o edifício onde Batman se acoitou. Este sobrevive ao ataque refugiando-se na cave fortificada do prédio.
      Para o local é então enviada uma equipa SWAT, com ordens para abater o herói mascarado. No entanto, os seus elementos acabam encurralados e subjugados por ele. Não sem antes os disparos dos agentes terem causado feridos entre a multidão que se tinha juntado para assistir à operação policial. Entre os mirones encontrava-se Selina Kyle que, inspirada pela audácia de Batman, resolve passar a atuar como Mulher-Gato, uma ladra mascarada.

Batman encurralado pela polícia. Ou será o contrário?
 
      Gordon tem um breve affair com a detetive Essen, enquanto Batman intimida um traficante de droga para lhe extorquir informações. O traficante procura então Gordon e anuncia-lhe o seu desejo de testemunhar contra Floss, acusado de extorsão.
      Para proteger o seu subordinado, o Comissário Loeb chantageia Gordon com provas da sua traição conjugal. Em resultado disso, Gordon confessa a sua infidelidade à esposa. De seguida, retoma a sua investigação à vida do playboy milionário Bruce Wayne, a qual se revela inconclusiva.
      Certa noite, Batman introduz-se na mansão de Carmine Falcone onde escuta um plano para matar Gordon, mas é surpreendido pela entrada em cena da Mulher-Gato que, perseguindo a fama, ataca o mafioso e os seus guarda-costas. Ambos acabam por lutar lado a lado contra os malfeitores.
      Dias depois, ao sair de casa, Gordon repara num motociclista suspeito a esgueirar-se para o interior da sua garagem. Gordon regressa de imediato a casa e depara com um cenário dramático: um sobrinho de Carmine Falcone, Johnny Vitti, e alguns dos seus capangas fizeram reféns a sua mulher e o seu filho bebé, James Gordon Junior.
      Gordon dispara sobre os asseclas de Vitti, mas este põe-se em fuga num carro, levando consigo o bebé. Gordon e o misterioso motociclista - que, na verdade, trata-se de Bruce Wayne - partem no encalço do biltre.
      Durante a perseguição a alta velocidade pelas ruas de Gotham City, Gordon e Vitti trocam tiros. Um deles atinge um pneu do carro do criminoso quando este atravessava uma ponte, imobilizando-o. Segue-se uma luta corpo a corpo de Gordon e Vitti, com o primeiro a perder os seus óculos, antes de o segundo e o bebé caírem ao rio.
      O pequeno James Gordon Jr. é salvo in extremis por Bruce Wayne. Quando este devolve o bebé ao pai, Gordon, apesar da visão turva, percebe que tem diante de si o homem que se esconde por trás da máscara do morcego.
      No entanto, devido ao facto de ser "cego como um toupeira" sem os óculos, Gordon é incapaz de enxergar o rosto do vulto que o fita e que se apressa a desaparecer ao escutar as sirenes que se aproximam do local.
      No epílogo da história, o detetive Floss entrega o Comissário Loeb, fornecendo ao promotor Harvey Dent abundantes provas e testemunhos incriminatórios. Em consequência do escândalo, Loeb demite-se e James Gordon é promovido a capitão. 
     Nessa mesma noite, ele aguarda no telhado do DPGC pela chegada de Batman, com quem pretende discutir a ameaça representada por um novo e sinistro vilão que responde pelo nome de Joker.

Esboços de David Mazzucchelli.

Nota: São feitas referências ao Super-Homem na história, sugerindo que o herói kryptoniano já se encontrava no ativo quando Batman iniciou a sua carreira de combatente do crime.
      A primeira dessas referências é feita por Barbara Gordon que, enquanto massaja as costas do marido, o compara ao "Homem de Aço de Metrópolis". A outra é feita por Alfred Pennyworth, que sugere a Bruce Wayne que aprenda a voar como "o sujeito de Metrópolis".

Uma imagem que se tornou icónica para os fãs do Cavaleiro das Trevas.

Adaptações noutros media: Muitos dos temas e personagens apresentados em Batman:Year One acabaram por se transpostos quer para o pequeno, quer para o grande ecrãs. Entre as adaptações notoriamente influenciadas pela saga de Frank Miller destaca-se, desde logo, o filme homónimo de animação, realizado em 2000 por Darren Aronofsky, e cuja primeira versão do argumento foi escrita pelo próprio Frank Miller.

O filme de animação baseado na saga homónima do Homem-Morcego estreou-se nas salas de cinema em 2000.

       Antes de Christopher Nolan incluir vários dos elementos de Batman: Year One no primeiro capítulo da sua aclamada trilogia do Cavaleiro das Trevas (Batman Begins, 2005), já outro realizador - Joel Schumacher - o fizera, dez anos antes, em Batman Forever.
        Apesar de ter visto ser recusada pelo produtores a sua ideia de realizar uma prequela dos dois filmes do Homem-Morcego dirigidos por Tim Burton (Batman e Batman Returns), baseada em Batman: Year One, Schumacher conseguiu ainda assim incluir algumas referências a ela. Sendo um exemplo a cena - posteriormente reutilizada em Batman Begins - em que o pequeno Bruce Wayne cai dentro de uma caverna habitada por morcegos, nas imediações da Mansão Wayne.
        Todavia, foi Batman Begins que mais fielmente adaptou a essência de Batman: Year One, adotando inclusivamente várias personagens da saga, como o Comissário Loeb, o detetive Floss e o padrinho da Máfia Carmine Falcone.

Poster promocional de Batman Begins (2005), o primeiro capítulo da triologia do Cavaleiro das Trevas dirigida por Christopher Nolan e baseada em  Batman: Year One.

      

 

segunda-feira, 24 de Março de 2014

ETERNOS: JOHN BUSCEMA (1927-2002)




      De ascendência italiana, em pequeno gostava de ler as banda desenhadas de Popeye e Flash Gordon. Em adulto, tornou-se num dos mais talentosos e prolixos artistas da sua geração. Com o seu traço, os Vingadores conheceram uma das suas melhores fases de sempre. Assim como Conan, O Bárbaro, de quem desenhou mais de 200 histórias.

Biografia: Nascido em Brooklyn (Nova Iorque), a 11 de dezembro de 1927, no seio de uma família italo-americana, John Buscema - cujo nome de batismo foi Giovanni Natale Buscema - desde muito cedo demonstrou interesse pelo desenho.
       Na infância entretinha-se a copiar as tiras de algumas das suas bandas desenhadas favoritas, em especial Popeye. Já adolescente, desenvolveu interesse tanto pelas histórias aos quadradinhos com super-heróis como pelas aventuras de personagens clássicas da 9ª arte, como Flash Gordon, Tarzan ou o Príncipe Valente. Revelou ainda interesse pelo trabalho de alguns reputados ilustradores de publicidade da altura, nomeadamente Norman Rockwell, Dean Cornell, Albert Dorne, entre outros.
       Depois de concluir o ensino secundário no Manhattan's High School of Music and Art, ingressou em regime noturno no Pratt Institute, frequentando durante o dia aulas de desenho no Museu de Brooklyn.
       Outra das suas paixões era o pugilismo (que lhe valeu a alcunha de Big John). Enquanto treinava esse desporto, começou a desenhar retratos de pugilistas e vendeu alguns trabalhos seus para o Hobo News, um jornal dedicado aos trabalhadores migrantes que viviam nas ruas da cidade que nunca dorme.
       Quando procurava emprego como ilustrador comercial, John Buscema deu por si a entrar - corria o ano de 1948 - na fervilhante indústria dos comics. O seu primeiro trabalho no ramo foi ao serviço da Timely Comics (antepassada da Marvel),  sob a supervisão do seu lendário editor-chefe Stan Lee.
       Datam de agosto desse ano os seus primeiros créditos como ilustrador, quando desenhou uma história em quatro páginas para o terceiro número da série policial da Timely Lawbrakers Always Lose. Deu também o seu contributo a outros títulos da editora que apresentavam histórias decalcadas do quotidiano, como True Adventures e Man Comics (cuja edição inaugural teve a sua capa desenhada por Buscema).
 
Man Comics nº1 (1949) foi uma das primeiras capas ilustradas por John Buscema.

        Enquanto se acentuava o declínio da indústria dos quadradinhos após a II Guerra Mundial, Buscema, ainda ao serviço da Timely, desenhou e coloriu uma panóplia de histórias policiais, românticas e do Velho Oeste.
        Em 1953 - ano em que se casou com Dolores Buscema, com quem viveria o resto dos seus dias - Big John trabalhava como freelancer para a Atlas Comics (ex-Timely Comics), assim como para vários outras licenciadoras, entre as quais a Ace Comics e a Hillman Periodics.
       A década de 1950 foi, no campo profissional, muito profícua para Buscema. Um dos pontos altos ocorreu em 1957 quando foi convidado a ilustrar as minibiografias de todos os presidentes dos EUA que haviam ocupado a Casa Branca até essa data.
       Contudo, face às pouco auspiciosas perspetivas de futuro do negócio dos comics, Buscema arriscou uma carreira no ramo publicitário, colaborando como freelancer com a agência nova-iorquina Chaite. Durante os oito anos que se seguiram, desdobrou-se entre ela e o estúdio Triad. Período em que produziu um vasto e diversificado portfólio. De acordo com o próprio, essas experiências permitiram-lhe, entre outras coisas, aperfeiçoar as suas técnicas.
       O seu regresso aos quadradinhos deu-se em 1966. Em novembro desse ano, arte-finalizou os esboços de Jack Kirby numa história de Nick Fury publicada em Strange Tales nº150. Estava assim de volta a uma casa que tão bem conhecia, embora entretanto renomeada de Marvel Comics.
       Após ter desenhado três histórias do Hulk em Tales to Astonish, Buscema transitou em 1967 para a série The Avengers, onde fez dupla com o argumentista Roy Thomas. Os dois foram responsáveis pela introdução das novas versões do Cavaleiro Negro e do Visão.
 
Os Vingadores e o Homem-Aranha pelo traço de John Buscema.
       Com vista a adaptar o seu estilo aos cânones artísticos consignados pela Casa das Ideias, Buscema sintetizou nele as principais características que identificavam o traço de Jack Kirby: sequências de ação altamente dinâmicas, perspetivas arrojadas e cenários imponentes. Processo que conferiu uma enorme vivacidade à sua arte e que deixou os leitores em delírio.
       Desenhando uma média de duas edições por mês, Buscema emprestou o seu traço a várias outras personagens icónicas da Marvel, como o Homem-Aranha e o Surfista Prateado. Foi de resto o seu trabalho em Silver Surfer nº4 (fevereiro de 1969) que lhe valeu os mais rasgados elogios por parte dos fãs. O duelo entre o herói cósmico e o Deus do Trovão é considerado por muitos a sua obra-prima.
 
Silver Surfer nº4 (1969) é por muitos considerado o melhor trabalho de John Buscema.
 
       Em finais de 1969, John Buscema fez curta uma pausa no seu trabalho com super-heróis para reassumir a arte de histórias de cariz sobrenatural nas séries Chamber of Darkness e Tower of Shadows (ambas com a chancela da Marvel).
      No entanto, logo em abril do ano seguinte, regressou ao título dos Vingadores, onde reencontrou Roy Thomas. Dessa nova parceria criativa resultou uma das melhores fases de sempre da equipa que reúne os maiores heróis da Terra.
      Com a saída de Jack Kirby da Marvel nesse mesmo ano, coube a John Buscema a enorme responsabilidade de substituir o Rei em dois dos mais emblemáticos títulos da editora: Fantastic Four e Thor. Buscema não se sentiu intimidado e o seu trabalho superou, uma vez mais, todas as expectativas.
      Sucedendo a Barry Smith a partir do vigésimo quinto número de Conan, The Barbarian, Buscema iniciou dessa forma uma longeva ligação ao guerreiro cimério. A fim de maximizar o êxito comercial da personagem idealizada por Robert E. Howard, a Marvel lançou, em agosto de 1974, um segundo título seu, intitulado The Savage Sword of Conan, cuja arte a preto e branco foi assumida também por Buscema. Nos anos seguintes, o frenético lápis de Big Jonh desenharia mais de duas centenas de histórias do herói bárbaro.
 
A cores ou a preto e branco, Conan ficará para sempre associado a Jonh Buscema - e vice-versa.
 
        Em meados dos anos 1970, Buscema lançou a sua própria escola de artes, amplamente divulgada nas páginas de vários títulos  Marvel. Passou assim a acumular as funções de desenhador com as de professor. Apesar de ter considerado gratificante a sua experiência letiva, Big John, que tinha de realizar uma viagem de 70 quilómetros após um dia de trabalho, acabou, porém, por desistir de dar aulas.
        Dessa breve aventura pedagógica resultaria, porém, o livro How to Draw Comics the Marvel Way, produzido a meias com Stan Lee. Tratava-se de um manual prático para aspirantes a ilustradores, cujos ensinamentos tinham por base as aulas lecionadas por Buscema anos antes.
 
Em How to Draw Comics the Marvel Way, John Buscema dava dicas sobre como desenhar super-heróis.
 
        Depois de desenhar o primeiro número de She-Hulk (de quem foi cocriador), em fevereiro de 1980, John Buscema abandonou temporariamente as séries regulares de super-heróis para se dedicar por inteiro aos três títulos de Conan, cuja popularidade abriu caminho à realização de um filme do herói. Quando este chegou às salas de cinema em 1982, Buscema assumiu a arte da respetiva adaptação aos quadradinhos.
        Ao fim de quase cinco anos arredado do género super-heroico, em 1985 Buscema regressou a um terreno que lhe era muitíssimo familiar, reassumindo The Avengers. Três anos depois reeditou a sua parceria com Stan Lee para produzir a aclamada graphic novel Silver Surfer: The Judgment Day.
        O novo século trouxe novidades à sexagenária carreira de John Buscema. Pela primeira vez, ele trabalhou para a DC. Logo em 2000 assumiu a arte de Batman Black and White e, no ano seguinte, desenhou a edição especial Just Imagine Stan Lee Creating Superman, na qual ele e o Papa da Marvel reinventavam a origem e o conceito do Homem de Aço, no âmbito de um polémico projeto editorial da Distinta Concorrência.
 
No princípio deste século, Stan Lee e John Buscema revisitaram a origem do Super-Homem e de outras personagens icónicas da DC.
 
        Em meados de 2002, John Buscema viu ser-lhe diagnosticado um cancro do estômago em fase terminal, tendo falecido poucos meses depois, com 74 anos. Uma litografia gigante retratando os Vingadores dos anos 1960/70 foi o seu último trabalho enquanto profissional. A seu pedido, foi sepultado com uma caneta na mão.
        Sal Buscema, seu irmão mais novo e também ele um talentoso desenhador, declarou: "John era obcecado por desenhar. Não importava onde estivesse ou que se passava à sua volta; ele acabaria por aborrecer-se e começar a rabiscar alguma coisa. Agora que terá muito tempo livre no Céu, tenho a certeza de que a caneta lhe será útil".
        Além do irmão e da viúva, John Buscema deixou um filho, uma filha e uma neta - Stephanie Buscema -que parece apostada em seguir as pisadas do avô, trabalhando atualmente como ilustradora freelancer.
        A este legado biológico, soma-se o vastíssimo espólio artístico de uma figura incontornável na história da 9ª arte e que ainda hoje serve de referência a muitos a ela ligados.
 
John Buscema: um mito que perdurará pela eternidade.
 
Prémios e distinções: Entre os múltiplos prémios com que foi agraciado ao longo da sua carreira, destacam-se o Alley Award Para Melhor História Completa em 1968 (Origin of the Silver Surfer) e o Shazam Award de 1974 para Melhor Artista.
        Em jeito de homenagem póstuma, a partir de 2002, foi instituído o Prémio Especial John Buscema nos Haxtur Awards (que distinguem o que de melhor se publica em quadradinhos em Espanha). Nesse mesmo ano, foi nomeado para o Eisner Award Hall of Fame (espécie de Óscar honorário que distingue, em vida ou postumamente, carreiras artísticas de excelência).
 

sábado, 15 de Março de 2014

HEROÍNAS EM AÇÃO: MULHER-HULK




      Foi a última criação de Stan Lee antes da saída de cena do Papa da Marvel. Surgiu na senda do sucesso da mítica série televisiva do Golias Esmeralda (de quem é prima). Uma das mais irreverentes e charmosas heroínas dos quadradinhos, a Mulher-Hulk deve os seus poderes a uma transfusão sanguínea.
 
 
Nome original da personagem: She-Hulk
Primeira aparição:  The Savage She-Hulk nº1 (fevereiro de 1980)
Criadores: Stan Lee (história) e John Buscema (arte)
Licenciadora: Marvel Comics
Identidade civil: Jennifer Susan Walters
Local de nascimento: Los Angeles, Califórnia (EUA)
Parentes conhecidos: Morris Walters (pai), Elaine Banner-Walters (mãe falecida), Bruce Banner (primo), John Jameson (ex-marido)
Filiação: Vingadores, Quarteto Fantástico, Fundação Futuro, Heróis de Aluguer e Fantastic Force
Base de operações: Móvel (entre as suas  ex-bases de operações destacam-se a mansão dos Vingadores e o edifício Baxter,  antigas sedes, respetivamente, dos Vingadores e do Quarteto Fantástico)
Armas, poderes e habilidades: Derivando os seus poderes de uma transfusão de sangue radioativo recebida do seu primo Bruce Banner (o Hulk), estes são em tudo idênticos aos do Golias Esmeralda. Assim, a Mulher-Hulk possui força descomunal, velocidade e resistência sobre-humanas, fator de cura, invulnerabilidade e imunidade a um amplo espectro de doenças. Habilidades que fazem dela uma das mais formidáveis personagens femininas do Universo Marvel.
       Treinada pelo Capitão América, a Amazona de Jade domina várias técnicas de combate corpo a corpo. Acresce a isto que, contrariamente ao que sucede com o primo, a mutação de Jennifer Walters praticamente não afetou a sua personalidade e inteligência. Contudo, durante um longo período, ela foi incapaz de reverter à sua forma humana.

Mulher-Hulk, a Amazona de Jade.
 
Histórico de publicação: Mais um produto do génio criativo de Stan Lee (que, no entanto, escreveu apenas a sua primeira história), a Mulher-Hulk foi o último conceito desenvolvido pelo chamado Papa da Marvel antes da sua retirada da indústria dos quadradinhos.
      A personagem surgiu em consequência do enorme êxito da série televisiva The Incredible Hulk, transmitida nos EUA entre 1977 e 1982. Receando que, a exemplo do que sucedera com Bionic Man (outra série televisiva muito popular à epoca), os produtores da série do Golias Esmeralda introduzissem uma sua contraparte feminina, numa jogada de antecipação, a Marvel tomou a decisão de lançar a sua própria versão de uma personagem com essas características, assegurando assim os respetivos direitos de autor.

Stan Lee (esq.) e John Buscema foram os "progenitores" da Mulher-Hulk.

      Em fevereiro de 1980, chegou às bancas o mais recente título da Casa das Ideias, The Savage She-Hulk, estrelado pela neófita heroína cor de jade. Entre essa data e março de 1982, foram publicados 25 volumes da série. Com o cancelamento desta, a Mulher-Hulk, quase sempre no âmbito de participações especiais, passou a coadjuvar outras personagens do Universo Marvel.

A Mulher-Hulk debutou em 1980 em The Savage She-Hulk nº1.

      Pouco tempo depois, a Mulher-Hulk ingressou nas fileiras dos Vingadores. Ao mesmo tempo que vivia sensacionais aventuras ao lado dos heróis mais poderosos da Terra nas páginas de Avengers, participava ocasionalmente nas histórias do seu primo em The Incredible Hulk. Durante esse período foi desenhada por artistas consagrados como Sal Buscema (irmão mais novo de John Buscema, seu cocriador) ou John Byrne. Este último ficaria intimamente ligado à evolução da personagem quando, em 1989, assumiu o seu segundo título a solo, The Sensational She-Hulk.
      Antes, porém, em meados de 1984, na sequência da conclusão da saga Secret Wars, a Mulher-Hulk trocou os Vingadores pelo Quarteto Fantástico, em substituição do Coisa. Fantastic Four tornou-se assim o seu novo lar de acolhimento.
      Lançado em 1989, o título The Sensational She-Hulk - inicialmente escrito e desenhado por Jonh Byrne - catapultou para a ribalta a Gigante Verde. Com 60 números editados (o último chegou às bancas em fevereiro de 1994), foi, até ao momento, a mais duradoura série protagonizada por uma personagem feminina do Universo Marvel. A natureza irreverente das suas histórias, onde não faltavam sátiras bem-humoradas aos clichés do género super-heroico, fez da Mulher-Hulk um caso sério de popularidade.
      Na década seguinte, a Mulher-Hulk voltou, depois de uma breve passagem pelo título Heroes For Hire, às páginas de The Avengers. Esta sua itinerância só terminaria em maio de 2004, quando a heroína teve direito a uma nova série própria. Todavia, apesar das críticas favoráveis, She-Hulk acabaria suspensa ao fim de seis edições em virtude das fracas vendas. Ainda houve uma tentativa de relançamento, mas a série acabaria definitivamente cancelada após o seu 12º número.
      Seguiu-se novo interregno marcado pela participação da heroína em diversas minisséries e edições especiais, próprias ou alheias. Até que em, novembro de 2012, a Amazona de Jade se mudou de armas e bagagens para as páginas de Future Foundation, um dos mais recentes projetos editoriais da Casa das Ideias que retrata o quotidiano de uma fundação filantrópica criada pelo Senhor Fantástico para acautelar o futuro da humanidade.
       
Hulk e Mulher-Hulk: primos com sangue radioativo.
 
Biografia: Jennifer Walters era a frágil e tímida filha do xerife do condado de Los Angeles, Morris Walters. Coincidindo com a visita do seu primo Bruce Banner à cidade, a jovem foi baleada pelos homens de um gângster com velhas contas a ajustar com o seu pai.
      Gravemente ferida, Jennifer foi transportada para o hospital em estado crítico. A sua única esperança era receber uma transfusão sanguínea de um dador compatível. Apesar da radioatividade do seu sangue, Bruce Banner ofereceu-se para salvar a vida da prima.
       Desse facto resultou uma mutação genética em Jennifer, transformando-a numa furiosa gigante de pele esmeralda.

Nos seus primórdios, a Mulher-Hulk tinha uma aparência - e um temperamento-  mais selvagem.
 
       Como Mulher-Hulk, a jovem passou a possuir poderes similares ao titânico alter ego do seu primo, embora num nível mais reduzido. Inicialmente, à semelhança de Banner, a sua transformação era espoletada pela raiva. No entanto, a sua aparência foi sempre menos monstruosa do que a do Hulk. Outra diferença em relação a este residiu no facto de, ao fim de pouco tempo, Jennifer ter aprendido a controlar a selvageria da sua contraparte, conservando assim a sua inteligência e racionalidade mesmo quando transformada em Mulher-Hulk. Razão pela qual rapidamente se passou a sentir mais confortável nesta sua forma.
       Após uma curta carreira heroica a solo, a Mulher-Hulk juntou-se aos Vingadores, de onde transitou para o Quarteto Fantástico. Durante o período em que substituiu o Coisa na equipa, a Amazona de Jade teve de travar uma fuga radioativa no porta-aviões aéreo da S.H.I.E.L.D. Dessa exposição massiva à radiação resultou a aparente irreversibilidade da sua transformação.
       Nada que, contudo, a deixasse abalada, visto que Jennifer preferia vestir a pele da sua poderosa contraparte. E este percalço também não obstou a que continuasse a sua bem-sucedida carreira como advogada.
       Vários anos transcorridos sobre estes eventos, foi revelado que a pretensa irreversibilidade da transformação da Mulher-Hulk resultava, na verdade, de um bloqueio psicológico. Uma vez desfeito, a heroína pôde reassumir a sua forma humana.

Mesmo incapaz de reverter à sua forma humana, a Mulher-Hulk construiu uma fulgurante carreira de advogada.
        Com o regresso do Coisa à Terra, a Mulher-Hulk abandonou o Quarteto Fantástico, sendo readmitida nos Vingadores. Paralelamente, foi convidada a integrar a equipa do Procurador Distrital de Nova Iorque. Anteriormente, enquanto advogada, Jennifer destacara-se na defesa dos direitos das minorias e na denúncia de práticas antiéticas das grande corporações.
        Anos depois, a Gigante Verde foi um dos membros fundadores da efémera Fantastic Force (equipa de meta-humanos sediada no reino de Wakanda e liderada pelo Pantera Negra). Nos Heróis de Aluguer prestou essencialmente apoio jurídico, apesar de também ter participado ativamente em algumas das aventuras do grupo.
       Devido à sua afiliação em diversos grupos ao longo do tempo, a Mulher-Hulk usou diferentes uniformes, não possuindo portanto um traje icónico como é regra entre os seus colegas de profissão.
       A sua personalidade também passou por alterações significativas: de personagem agressiva e irracional, passou a bem-humorada, sedutora e assertiva.

Divertida e inteligente, a Mulher-Hulk é uma das heroínas mais populares da BD.
  
Noutros media: Na lista das melhores personagens de sempre dos quadradinhos, publicada pela revista da especialidade Wizard, a Mulher-Hulk ocupa o 104º lugar. Já o site IGN atribuiu-lhe a 88ª posição no seu ranking dos maiores heróis e heroínas da BD, sublinhando tratar-se de uma das raras versões femininas de uma personagem masculina consagrada a conseguir libertar-se da sua sombra.
       Na televisão, a estreia da Mulher-Hulk ocorreu em 1982, em vários episódios da série de animação The Incredible Hulk. Em 1989 foi anunciada a sua participação  num telefilme baseado na antiga série televisiva do Gigante Verde, o que acabaria por não se concretizar. Tal como também não passou do papel a ideia, proposta em tempos ao canal ABC, de lançar um série protagonizada pela heroína de jade
       Na sequência destes dois projetos abortados de transposição ao pequeno ecrã, no início da década de 1990, surgiu a intenção de produzir um filme da Mulher-Hulk. Para lhe dar vida, foi escolhida a atriz dinamarquesa Brigitte Nielsen (Rocky IV), que chegou a posar em sessões fotográficas com vista à promoção da película. Esta, no entanto, acabou por nunca ser realizada.
       Emitida pelo canal Disney XD a partir de agosto de 2013, a série animada Hulk and the Agents of S.M.A.S.H. tem a Mulher-Hulk como coprotagonista, cabendo à atriz Eliza Dushku emprestar-lhe a voz.

Brigitte Nielsen posando como Mulher-Hulk para um filme que nunca veria a luz do dia.