clique aqui e encontre um template com a sua cara - template for blogger»

segunda-feira, 24 de Novembro de 2014

EM CARTAZ: «CATWOMAN»




  O que estava previsto ser um spin-off de Batman Regressa, ainda com Tim Burton na cadeira de realizador e Michelle Pfeiffer como protagonista, transformou-se em algo completamente diferente: um filme apresentando uma versão alternativa da Mulher-Gato, com pouca ou nenhuma ligação ao universo do Homem-Morcego.

Título original: Catwoman
Ano: 2004
País: EUA
Duração: 104 minutos
Realização: Pitof
Distribuição: Warner Bros. Pictures
Argumento: John Brancato, Michael Ferris e John Rogers
Elenco: Halle Berry (Patience Phillips/Mulher-Gato), Benjamin Bratt (detetive Tom Lone), Sharon Stone (Laurel Hedare), Lambert Wilson (George Hedare), Frances Conroy (Ophelia Powers) e Alex Borstein (Sally)
Orçamento: 100 milhões de dólares
Receitas:  82 milhões de dólares

Gata em telhado de zinco.

Produção: Em junho de 1993, ao mesmo tempo que a Warner Bros. avançava para a produção de um terceiro capítulo cinematográfico do Homem-Morcego, um filme a solo da Mulher-Gato era anunciado. Michelle Pfeiffer - que no ano anterior interpretara a personagem em Batman  Regressa - foi dada como certa para reassumir o papel. O mesmo sucedendo com Tim Burton, a quem voltaria a estar reservada a cadeira de realizador. No entanto, no início de 1994, Burton viu-se perante um dilema artístico: dirigir uma película com forte pendor comercial estrelada por uma charmosa ladra de moral ambígua saída dos quadradinhos ou assumir a direção da adaptação ao grande ecrã de um dos mais célebres contos de Edgar Allan Poe (The Fall of the House of Usher)?
   Precisamente no mesmo dia (16 de junho de 1995) em que chegava às salas de cinema de todo o mundo Batman Forever (Batman Para Sempre,em Portugal; Batman Eternamente, no Brasil), o argumentista Daniel Waters (um dos autores do enredo de Batman Regressa) entregou aos responsáveis da Warner o guião para o spin-off da Mulher-Gato.
   Por esta altura os produtores continuavam a cortejar Tim Burton para que este dirigisse a película. Numa entrevista concedida em agosto desse ano, Michelle Pfeiffer reiterou, por sua vez, o seu interesse em participar no projeto. Ressalvando, contudo, que as suas prioridades seriam revistas devido ao facto de ter sido mãe recentemente, bem como em função de outros compromissos profissionais entretanto assumidos.

Michelle Pfeiffer, a inesquecível Mulher-Gato de Batman Regressa (1992).

   Os anos foram passando e o projeto foi relegado para uma espécie de purgatório. Já com Burton e Pfeiffer desvinculados dele, em 2001 Ashley Judd foi a eleita para ser a próxima Mulher-Gato. Por motivos nunca devidamente esclarecidos, a atriz acabaria, todavia, por desistir do papel algum tempo depois.
    Halle Berry, à data uma das mais requisitadas atrizes de Hollywood depois de ter sido oscarizada pelo seu desempenho em Monster's Ball (Depois do Ódio), foi a senhora que se seguiu. Berry não era, de resto, uma estreante em matéria de participações em produções deste género. Entre 2000 e 2003 encarnara Tempestade em X-Men e X-Men 2 (papel que repetiria em 2006 com X-Men 3 e, já este ano, em X-Men- Dias de um Futuro Esquecido).
    A conceção do novo traje de Mulher-Gato ficou a cargo de Angus Strathie, estilista galardoado em 2001 com um Óscar Para Melhor Guarda-Roupa pelo trabalho desenvolvido para Moulin Rouge. Também o realizador Pitof, os produtores e a própria Halle Berry tiveram uma palavra a dizer nesse processo.
   Strathie explicou mais tarde que a ideia era criar uma indumentária o mais realística e ergonómica possível, que ao mesmo tempo representasse a metamorfose ocorrida na protagonista: de mulher insegura e reprimida a vingadora sensual.
   Devido à elevada exigência física do seu papel, Halle Berry iniciou em junho de 2003 um programa de treino intensivo que, entre outas valências, incluía aulas de capoeira (arte marcial brasileira) e de manejamento do chicote - usado como arma pela sua personagem. Trabalhou ainda com uma coreógrafa, que lhe ensinou a pensar e a mover-se como um gato.
  Meses depois, as filmagens arrancaram tendo como cenários a baixa de Los Angeles, Winnipeg e Vancouver (ambas no Canadá), além dos estúdios da Lions Gate e da Warner Bros.

Um dos mais icónicos posters promocionais de Catwoman.

Enredo: Patience Phillips é uma tímida designer ao serviço de uma companhia de cosméticos chamada Hedare Beauty. Apesar dos seus incansáveis esforços para agradar aos outros, Patience tem em Sally a sua única amiga.
  Em vésperas do lançamento de um novo e milagroso creme capaz de reverter os efeitos do envelhecimento, Patience visita a fábrica onde o mesmo está a ser produzido. Inadvertidamente, ela acaba por escutar uma acalorada discussão entre um dos cientistas da marca e Laurel Hedare, a esposa do proprietário. Em causa estavam os efeitos nocivos decorrentes da utilização do creme.
    Surpreendida por guardas da segurança, Patience fica aterrada ao perceber que estes receberam ordens para liquidá-la. Em pânico, a jovem procura escapulir-se por uma conduta. A qual é, no entanto, selada e de seguida inundada pelos guardas.    
   Em consequência disso, Patience morre afogada e o seu corpo dá à costa a alguns quilómetros do local onde foi assassinada. Sendo, porém, inexplicavelmente reanimada por um misterioso gato egípcio, que horas antes se materializara no apartamento da jovem. Na sequência desses eventos, Patience desenvolve habilidades felinas e um insaciável desejo de vingança.

Patience Phillips era uma jovem tímida com afinidade com gatos.
 
  Por intermédio de Ophelia Powers,a excêntrica dona do gato que a devolveu ao mundo dos vivos, Patience descobre que, no antigo Egito, esses animais eram usados como mensageiros pela deusa Bast. Não demora, por isso, a consciencializar-se de que se transformou numa espécie de avatar da divindade, cujos poderes felinos são ao mesmo tempo uma bênção e uma maldição.
   Passando a usar um disfarce inspirado na sua nova condição de mulher-gato, Patience mescla-se à noite enquanto procura pistas que a conduzam a quem ordenou o seu assassinato. As suas investigações levam-na até ao Dr. Ivan Slavicky, o cientista que discutia com Laurel Hedare naquela noite fatídica. Acaba,porém, por se deparar com o cadáver de Slavicky, sendo injustamente incriminada pela sua morte.
  Suspeitando ser George Hedare - o proprietário da Hedare Beauty - o responsável por ambos os homicídios, a Mulher-Gato vai ao encontro de Laurel e pede-lhe para ficar atenta às movimentações do marido. No entanto, ao confrontar o ex-patrão, este afiança-lhe nada saber sobre quaisquer efeitos secundários potencialmente perigosos do novo creme produzido pela sua empresa.
   Mais tarde nessa noite, Laurel assassina George, depois de lhe revelar ter sido ela quem matou o Dr. Slavicky e quem ordenou a execução de Patience Phillips. Tudo porque o marido a descartara como modelo das campanhas publicitárias da marca, e porque o cientista declarara a sua intenção de destruir a fórmula do novo creme. Já Patience tivera o azar de estar no local errado, à hora errada.

Gatas assanhadas.
   Ardilosa, Laurel contacta a Mulher-Gato pedindo-lhe que venha ao seu encontro. A heroína acede e acaba novamente incriminada por um homicídio que não cometeu, sendo levada sob custódia policial. Antes, porém, Laurel havia-lhe revelado os efeitos secundários causados pelo creme antienvelhecimento: usado em contínuo, deixa a pele do usuário dura como mármore; aplicado de uma forma não continuada, provoca desintegração celular acelerada. Não obstante, Laurel tenciona lançar o novo produto no mercado no dia seguinte.
    Após escapar às autoridades, a Mulher-Gato ruma ao escritório de Laurel para a confrontar, acusando-a pela morte de Patience Phillips. Durante a encarniçada luta que se segue, a Mulher-Gato arranha o rosto da vilã. Esta desequilibra-se e cai por uma janela, conseguindo agarrar-se in extremis a um cano aparafusado à parede do edifício. A Mulher-Gato apressa-se a acudir-lhe, estendendo o braço para que Laurel o agarre e ela a possa içar. Contudo, ao ver o reflexo da sua pele deteriorada no vidro da janela, Laurel fica horrorizada e opta por se deixar cair para a morte.
   Mesmo depois de ter sido inocentada dos crimes que lhe eram imputados, Patience opta por manter-se incógnita e à margem da Lei, desfrutando da sua recém-adquirida liberdade como Mulher-Gato.
Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=ePgLOVNMSTo


À espera de um tigela de leite morno.

Curiosidades: 
* 43 gatos (na sua maioria provenientes de abrigos para animais abandonados) foram treinados para o filme. Entre eles destacou-se um espécime de Bengala - branco e laranja -, ao qual Halle Berry se afeiçoou ao ponto de o adotar uma vez concluídas as filmagens. Facto que gerou alguma controvérsia na medida em que o felino em questão foi confundido por alguns media com um filhote de tigre;
*Uma das razões que levou Michelle Pfeiffer a recusar repetir o papel de Mulher-Gato foi o desconforto causado pelo fato que usou em Batman Regressa (1992). Uma foto sua surge, no entanto, numa cena do filme, sendo referida como um dos anteriores avatares da deusa Bast;
*Segundo consta, enquanto gravava uma das suas cenas, Sharon Stone recebeu uma chamada no seu telemóvel, a qual prontamente atendeu, para exasperação do restante staff;
* O papel de Ophelia Powers foi inicialmente oferecido a Julie Newmar, uma das três atrizes que vestiram a pele da Mulher-Gato na série televisiva de Batman, em finais dos anos 1960. Na qual pontificou também Eartha Kitt, a primeira atriz negra a dar vida à personagem;
* Halle Berry teve de receber assistência hospitalar depois de ter embatido com uma peça de equipamento durante a rodagem de uma sequência de perseguição em que não usou o seu duplo (um perito em artes marciais havaiano);
* Foram necessários nove dias para gravar a principal cena de luta entre a Mulher-Gato e Laurel Hedare;
* Apenas um mês antes da estreia oficial da película, várias cenas tiveram de ser regravadas por força das reações negativas ao primeiro trailer divulgado. O segundo trailer entretanto lançado não incluía qualquer diálogo;
As 6 atrizes que encarnaram a Mulher-Gato no cinema e na TV.
Em cima (da esq. para a dir.): Lee Meriwether (Batman, o filme de 1966), Michelle Pfeiffer (Batman Regressa1992) e Eartha Kitt (3ª temporada da série televisiva Batman, de 1966).
Em baixo (pela mesma ordem): Anne Hathaway (Cavaleiro das Trevas Renasce, 2012), Julie Newmar (1ª e 2ª temporadas da série televisiva de 1966) e Halle Berry (Catwoman, 2004).
Prémios e nomeações: Fazendo eco das críticas demolidoras recebidas aquando da sua estreia, Catwoman foi agraciado com vários Golden Raspberries (vulgo Razzies, espécie de anti-Óscares) em categorias tão diversificadas como Pior Atriz Principal (Halle Berry), Pior Atriz Secundária (Sharon Stone), Pior Argumento (consultar ficha técnica acima), Pior Realizador (Pitof) e Pior Casal de Protagonistas (Halle Berry e Benjamin Bratt). Nada que intimidasse Halle Berry, que fez questão de comparecer pessoalmente - e munida do seu Óscar de Melhor Atriz, recebido em 2001 por Monster's Ball - à cerimónia de entrega dos pouco prestigiantes prémios. No seu discurso de "vitória", a atriz não escondeu a sua amargura: "Em primeiro lugar, quero agradecer à Warner Bros. Muito obrigado por me terem posto num filme de merda. Era tudo o que a minha carreira precisava!".
   Bill Muller, crítico de cinema do Arizona Republic, foi mais longe ao sugerir que Berry (a primeira atriz afro-americana a ser contemplada com a tão cobiçada estatueta dourada) deveria, a título de penalização pela sua deplorável atuação em Catwoman, restituir o seu Óscar à Academia de Hollywood.

Halle Berry teve poucos motivos para sorrir após a estreia de Catwoman.

Veredito: 18%

    Mesmo à distância de uma década, a avaliação que fiz inicialmente de Catwoman mantém-se: trata-se de um mau filme sobre Halle Berry. Melhor dizendo, sobre os - inegáveis - atributos físicos da atriz. Tudo o mais é secundário. Exceto o enredo; esse é terciário.
   Cada movimento de câmara, cada sequência, cada plano parecem ter como única preocupação pôr em evidência a sensualidade de  Halle Berry vestida como uma dominatrix. Autêntico convite ao onanismo e voyeurismo de uma parcela considerável do público masculino heterossexual - e, em especial, dos espectadores adeptos do S&M -, o filme pouco mais tem para oferecer.
   Num verão em que teve como principal concorrente o soberbo Homem-Aranha 2, Catwoman surgiu como um filme insípido e datado. De tão previsível e desinspirada, a história torna-se soporífera. Facto para que contribui inegavelmente a atroz interpretação de Halle Berry, ganhando apenas na comparação com a da sua antagonista - uma monocórdica Sharon Stone que, claramente, preferia estar a fazer outra coisa qualquer. Do restante elenco nem valerá a pena falar, composto que é por autênticos canastrões.
   Outra das deficiências desta película é a quase total ausência de referências à mitologia de Batman. Dada a ausência da arquitetura neogótica adotada por Tim Burton nos dois filmes do Homem-Morcego por si realizados, é lícito concluir que a trama de Catwoman se desenrola numa cidade que não Gotham City. Esta, no entanto, em momento algum é identificada...
   Podemos até ir mais longe afirmando, em última análise, que a película gira em torno de uma impostora, visto que a Mulher-Gato nela retratada não é Selina Kyle. Estamos, pois, em presença de uma lastimável fraude. Motivo pelo qual a DC Comics relutou em assumir a sua paternidade.
  Intuía-se, porém, o desastre tendo em conta que o melhor que a Warner conseguiu desencantar para substituir Tim Burton foi uma mediocridade gaulesa praticamente sem currículo e aparentemente desprovida de apelido. Pitof soa a nome de palhaço. O que, por si só, deveria ter sido encarado como um mau presságio.
   Pelo seu charme e carisma, a verdadeira Mulher-Gato merece brilhar num filme próprio. De preferência, dirigido por um cineasta competente e sem a insossa Anne Hathaway (Cavaleiro das Trevas Renasce). Depois de Julie Newmar nos anos 1960 e de Michelle Pfeiffer em 1992, continua por encontrar a Mulher-Gato do século XXI.
Apesar das garras, esta Mulher-Gato arranha pouco.

     

quinta-feira, 13 de Novembro de 2014

DO FUNDO DO BAÚ: «A SAGA DO CLONE»



   Em resposta aos best-sellers da arquirrival DC, em finais do século passado a Marvel lançou uma das suas mais intrincadas e controversas sagas, cujas raízes remontam aos anos 70. O seu desfecho deixou, todavia, diversas pontas soltas, colocando em causa muito do que julgávamos saber sobre um certo Escalador de Paredes.

Título original: Clone Saga
Licenciadora: Marvel Comics
Data de publicação: Setembro de 1994 a novembro de 1996
Títulos abrangidos: Web of Spider-Man #117-129 (além dos números 0 a 11 do seu sucessor, Sensational Spider-Man); Amazing Spider-Man #394-418; Spider-Man #51-75; Spectacular Spider-Man #217-240; Spider-Man Unlimited Vol.1 #7-14. A este quinteto de títulos regulares (entretanto renomeados durante dois meses devido à substituição de Spider-Man por Scarlet Spider) somou-se um naipe de minisséries e edições especiais, destacando-se nele Spider-Man Maximum Clonage ou Spider-Man: The Osborn Journals.
Argumento: Terry Kavanagh, Tom DeFalco, Todd DeZago, Joey Cavalieri, Howard Mackie e  J.M. DeMatteis
Arte: Devido à extensão da saga, a respetiva arte ficou a cargo de uma constelação de desenhadores.

Web of Spider-Man #117 (1994) marcou o início da Saga do Clone.

Edição brasileira

Editora: Abril Jovem *
Títulos abrangidos: Homem-Aranha (do número 165 ao 186 da 1ª série) e A Teia do Aranha (do número 89 ao 110)
Formato: Formatinho económico (13,5 x 19 cm), colorido com lombada agrafada
Data de publicação: Março de 1997 a dezembro de 1998
Na minha coleção desde: 1997

* Em dezembro de 2010, já sob a égide da Panini Comics, foi lançada a versão definitiva da saga nas páginas de A Teia do Homem-Aranha nº4. Dando assim oportunidade aos fãs do Escalador de Paredes de conhecerem a história original.


O clímax de A Saga do Clone nas páginas de A Teia do Aranha.

Antecedentes:  Em bom rigor, não existiu uma, mas duas sagas envolvendo clones do Homem-Aranha. Remontando a primeira ao verão de 1973, quando o argumentista Gerry Conway resolveu matar Gwen Stacy, à data namorada de Peter Parker. Na origem desta decisão esteve o facto de a equipa editorial responsável pelos títulos do Escalador de Paredes considerar que a personagem em questão estava esgotada, havendo por isso a necessidade de incluir um novo elemento trágico nas histórias do herói. Nesse sentido, foi introduzido nelas um novo antagonista (o Chacal) e, em capítulos posteriores, Gwen foi (aparentemente) devolvida ao mundo dos vivos.
  Sob o disfarce do Chacal escondia-se Miles Warren, professor de Biologia de Peter e Gwen na Universidade Empire State e reputado especialista em clonagem. Em tempos, Warren nutrira uma paixão secreta pela rapariga, sentindo por isso ciúmes de Peter. Incapaz de se conformar com a morte de Gwen, Warren criou um clone dela e outro de Peter. Foi assim, de resto, que o Chacal descobriu a identidade secreta do Homem-Aranha. A quem culpava pela morte da jovem. Empenhado em matar o herói aracnídeo, Warren raptou-o e obrigou-o a lutar com o seu clone.
    O seu plano foi, no entanto, gorado quando os dois Homens-Aranha (cada um deles acreditando ser o verdadeiro) uniram esforços para derrotar o vilão. Um deles acabou morto na mesma explosão que tirou a vida ao Chacal. O Escalador de Paredes sobrevivente assumiu-se então como o original por força do seu amor por Mary Jane Watson, que se tornara a nova dona do coração de Peter Parker já depois do surgimento do clone.
   No desenlace da trama, o Homem-Aranha despejou o corpo sem vida do seu clone dentro de um incinerador enquanto a falsa Gwen escapou para parte incerta.

Duelo de Homens-Aranha tendo o Chacal como espectador em The Amazing Spider-Man #149 (1975).
     Poucos anos volvidos, um sinistro vilão que atendia pelo nome de Carniça (Carrion, no original) cruzou o caminho do Cabeça de Teia. Alegando tratar-se de um clone degenerado do Professor Warren, Carniça procurou matar o Homem-Aranha. Mais tarde, seria a vez de a falsa Gwen Stacy reaparecer quando estava a ser perseguida pelo Alto Evolucionário. O qual, por sua vez, procurava resolutamente descobrir como conseguira Warren uma clonagem tão perfeita. Chegando rapidamente à conclusão que aquilo que o cientista realmente desenvolvera fora um vírus genético que transformava seres vivos. Curada da doença, a falsa Gwen tornou a desaparecer sem deixar vestígios.
    A história estava, porém, longe de ter um fim. Ao investigar o antigo laboratório de Warren, o Homem-Aranha descobriu que o Carniça era, de facto, uma arma biológica criada pelo alter ego do Chacal. Outro ex-aluno de Warren, Malcolm McBride, foi entretanto infetado pelo vírus tornando-se o novo Carniça.
    Estes eventos dariam o mote para aquilo que será mais correto classificar como o segundo capítulo da Saga do Clone, retomada em finais de 1994.

As duas Sagas do Clone introduziram novas personagens e trouxeram de volta antigas.

Enredo: Vários anos transcorridos sobre os eventos supramencionados, o clone de Peter Parker - que sobrevivera afinal, vivendo todo esse tempo sob a identidade de Ben Reilly - reapareceu do nada. Saliente-se que Ben era o nome do falecido tio de Peter e Reilly o apelido de solteira da sua tia May.
    Ansioso por retomar a sua carreira heroica, Ben adotou a identidade de Aranha Escarlate e, durante um breve período, combateu o crime ao lado do Escalador de Paredes original.
    O ressurgimento do clone desencadeou, porém, uma série de eventos traumáticos que culminaram com a contaminação de Peter e Ben às mãos de um também redivivo Chacal e do pérfido Kaine (resultado de uma primeira e malsucedida tentativa de clonagem do Homem-Aranha). Nesse processo, outro clone do herói aracnídeo transformou-se  no vilão conhecido como Spidercide. As coisas ficaram ainda mais confusas com a intervenção do enigmático - e aparentemente omnipotente - Judas Traveller, cuja missão consistia em estudar a verdadeira natureza do Mal.

O enigmático Judas Traveller.
   Para estupefação geral, exames médicos revelaram que Peter era, na verdade, o clone. O que fazia de Ben o original. Uma revelação que provocou uma volta de 180 graus nas vidas de ambos: Peter tomou a decisão de se afastar temporariamente passando a Ben o manto de Homem-Aranha; este, por seu turno, além do papel de herói, teve de aprender, após o anúncio feito por Mary Jane de que estava grávida, o de pai. Peter chegou mesmo a perder os seus poderes durante o seu exílio autoimposto, recuperando-os após uma experiência de quase-morte.
   No clímax da saga, concluía-se que Peter, Ben, o Chacal e diversos outros protagonistas vinham sendo secretamente manipulados por Norman Osborn, vulgo Duende Verde. Dado como morto anos antes, Norman regressara misteriosamente do Além com o propósito de alquebrar o espírito de Peter. Tendo para isso congeminado um maquiavélico plano que consistia em convencê-lo de que não passaria de um impostor.
    A prova definitiva de que Ben era o clone surgiu quando este sacrificou a própria vida para salvar Peter de ser empalado pelo deslizador do Duende Verde. Devido à degeneração celular acelerada que caracteriza os clones, o corpo de Ben deteriorou-se rapidamente.

Ben Reilly começou por adotar a identidade de Aranha Escarlate.

Kaine era, na verdade, um clone defeituoso de Peter Parker.

Conceção e desenvolvimento: A Saga do Clone decorreu da determinação dos responsáveis da Casa das Ideias em produzirem um arco de histórias do Homem-Aranha que ombreasse com os recentes best-sellers da DC: The Death of Superman e Batman: Knightfall (respetivamente, A Morte do Super-Homem e Batman: A Queda do Morcego). Mark Bernardo, à data editor dos títulos estrelados pelo Escalador de Paredes, recorda: "Recebemos ordens superiores no sentido de concebermos algo com um escopo semelhante à morte do Super-Homem, que catapultou as vendas da DC para níveis estratosféricos. Recebemos portanto autorização por parte dos mandachuvas para criarmos algo verdadeiramente arrojado. Não demorou muito para  Terry Kavanagh lançar a ideia de um clone do Homem-Aranha. A qual, a princípio, não recolheu grande entusiasmo por parte da restante equipa criativa. Se a memória não me falha, foi J.M. DeMatteis o primeiro a perceber as enormes possibilidades dessa premissa. Fazendo eco disso, vários outros membros da equipa consideraram que a personagem se desvirtuara nos últimos anos, perspetivando na ideia aventada por Kavanagh uma soberana oportunidade para a reaproximar do conceito original".
   Howard Mackie, outro dos argumentistas envolvidos no projeto, sublinha que "sabíamos desde o primeiro momento que se trataria de uma saga controversa. Mas esse era um dos pontos. Queríamos agitar um pouco as águas. Razão pela qual só mais tarde foi discutido o cenário do regresso de um único Homem-Aranha. Não era, porém, esse o intuito da história".
    Mark Bernardo acrescenta: "A planificação editorial foi inicialmente delineada no sentido de termos uma história curta. Deveria ter terminado em Amazing Spider-Man #400, apresentando Ben Reilly como o verdadeiro Homem-Aranha. Com esse novo começo, a personagem recuperaria a sua quintessência e a sua mitologia seria simplificada".
    Recebida luz verde por parte do editor-chefe Tom DeFalco, a saga começou a ser produzida. Embora nas edições que antecederam o seu arranque os leitores tivessem vindo a ser brindados com pistas relacionadas com uma misteriosa personagem ligada a Peter Parker, a trama começou a desenrolar-se no final de Spectacular Spider-Man #216 (setembro de 1994), quando o herói aracnídeo se deparou com um sósia seu. Nos capítulos subsequentes foi narrado o passado do clone, retratado como um sem-abrigo marginalizado e atemorizado. De caminho  foi  introduzida outra personagem-chave: Judas Traveller. Isto enquanto era subtilmente sugerido nas entrelinhas que o clone poderia afinal ser o Homem-Aranha genuíno. Enquanto isso não se confirmava, Ben ganhou um novo uniforme e uma nova identidade: Aranha Escarlate.

Tom DeFalco, o primeiro editor-chefe responsável pela Saga do Clone.
   
   Entrementes, eram muitas as pontas soltas numa intrincada trama que desde o primeiro momento pareceu escapar ao controlo do seus autores. De acordo com o então editor-assistente dos títulos aracnídeos, Glenn Greenberg, "ninguém - nem argumentistas nem editores - sabia quem - ou o que - era Judas Traveller. Tratava-se de um ser extraordinariamente poderoso, quase místico, mas com desígnios insondáveis. Para ser franco, creio que uma personagem com essas características não se enquadrava no universo do Homem-Aranha". Por conseguinte, Judas Traveller teve uma participação intermitente na saga, sem que os leitores conseguissem perceber qual seria, afinal, o seu papel nela.
  Acreditando que isso acrescentaria peso dramático à história, Tom DeFalco sugeriu que Mary Jane engravidasse de Peter. Antes, porém, que a ideia vingasse, a Marvel mergulhou numa profunda crise financeira que quase ditou a insolvência da empresa. Em consequência disso, DeFalco foi demitido, sendo a linha de títulos publicados pela editora dividida entre cinco grupos diferentes, cada um deles dispondo do seu próprio editor-chefe. Bob Budiansky assumiu, assim, as funções de editor-chefe das séries regulares estreladas pelo Cabeça de Teia.
    Por essa altura, os argumentistas haviam concebido um novo antagonista: Kaine. Para atestar o seu grau de perigosidade, foi estabelecido que o neófito vilão mataria alguns inimigos jurados do Homem-Aranha, entre os quais o Doutor Octopus. Não tardou, porém, a que Kaine, mercê da sua origem e objetivos difusos, se diluísse na trama.
   Denotando já uma pontinha de desespero, os argumentistas da saga consensualizaram então reviver o Chacal que, como vimos, fora o criador da primeira cópia genética do Homem-Aranha. Desse modo foi explicada a deterioração dos clones, ao mesmo tempo que os leitores eram levados a crer que o Chacal, assim como Judas Traveller, seriam peças numa engrenagem maior.
   No entanto, a inclusão do Chacal na trama serviu para semear ainda mais dúvidas nas mentes dos leitores. Num primeiro momento, o vilão afirmou que Peter era o clone, apenas para logo depois dizer exatamente o contrário, rematando que tanto Peter como Ben eram clones por ele produzidos.

A ressurreição do Chacal acrescentou ainda mais pontos de interrogação à saga.

    Numa entrevista datada de 2008, Glenn Greenberg declarou a este propósito: " Uma narrativa assente em patranhas, reviravoltas e mistérios indecifrados só seria aceitável do ponto de vista dramático. Havia, porém, o risco efetivo de os leitores, sentindo-se à deriva num mar de dúvidas e incoerências, desistirem de acompanhar a saga".
   Aparentemente destituída de uma orientação precisa, a equipa criativa responsável pelo desenvolvimento da saga foi criando mais e mais pontas soltas  (nós górdios em alguns casos) : por que motivo Ben Reilly se angustiava perante a perspetiva de degeneração celular comum aos clones? Porque Kaine o tentava matar ao mesmo tempo que protegia o Homem-Aranha? Porque Ben e Peter partilhavam sonhos? Porque previa Kaine a morte de Mary Jane? Quem era o terceiro clone de Peter Parker? Perguntas sem resposta que se foram avolumando à medida que a trama se eternizava. Situação para a qual foi determinante a imposição por parte do departamento comercial da Casa das Ideias no sentido de prolongar a saga o mais possível.
    Numa conjuntura marcada pelo acentuado declínio da indústria dos quadradinhos, A Saga do Clone - a despeito das suas notórias inconsistências - continuava a garantir vendas muito acima da média. Não sendo portanto de estranhar que tenha sobrevivido a  diversas equipas criativas,  afastando-se paulatinamente do seu escopo original.
   Num dos seus capítulos mais controversos, publicado em Amazing Spider-Man #400, os argumentistas mataram uma coadjuvante tão antiga como o próprio protagonista, que o vinha acompanhando e orientando desde 1962: nada mais nada menos do que a bondosa tia May. Seguiu-se The Mark of Kaine, história onde eram apresentados vários outros clones do Escalador de Paredes. Com os títulos do herói aracnídeo a quebrarem sucessivos recordes de vendas, ninguém via motivo para matar a galinha dos ovos de ouro.
  No entanto, quando nas páginas de Spectacular Spider-Man #226, Ben Reilly foi confirmado como sendo o verdadeiro Homem-Aranha, muitos fãs expressaram o seu desagrado face a esta opção. Muito antes da banalização do correio eletrónico, dos fóruns na internet e das redes sociais, choveram cartas agastadas na sede da Marvel, em Nova Iorque.
   Com o propósito de pôr um ponto final na saga, atando de caminho as muitas pontas soltas da mesma,  foi lançado um novo arco de histórias intitulado Maximum Clonage. Além de confirmar Ben Reilly como o novo Homem-Aranha, a ideia original passava também por matar a falsa Gwen Stacy.

Maximum Clonage ou a multiplicação de aranhiços.
   Impressionado pelo sucesso comercial de Age of Apocalypse - saga estrelada pelos X-Men cujo êxito parecia associado à sua durabilidade - Bob Budiansky fez ouvidos de mercador às críticas dos fãs e ordenou que A Saga do Clone prosseguisse. Assim, em vez de serem remendados os buracos no rebuscado rendilhado narrativo, a cada novo capítulo acrescentava-se mais um rasgão, sob a forma de uma multitude de clones do herói aracnídeo.
  Previsivelmente, Maximum Clonage foi causticada pelos fãs e pela crítica, insatisfeitos com a errática trajetória  da trama e com as difusas motivações dos seus intervenientes. Na esteira deste fiasco, foram introduzidas versões renovadas de personagens clássicas, nomeadamente uma Doutora Octopus e um novo Abutre. A estratégia, porém, redundou em fracasso. Era evidente para (quase) toda a gente que os leitores haviam perdido a paciência com o magote de clones à solta e que desejavam o regresso imediato do Homem-Aranha original.
  Glenn Greenberg recorda: "A ideia era renomear todo o portfólio de títulos do Homem-Aranha e relançar a respetiva numeração, capitalizando dessa forma a popularidade do Aranha Escarlate. Nome que substituiria o do Homem-Aranha nas novas séries regulares. O problema surgiu quando o departamento comercial exigiu que fossem produzidas quatro edições alternativas para o primeiro número de cada título. Após árduas negociações, Bob Budiansky conseguiu reduzir esse número para metade".
   Após muitas pressões dos fãs e por parte da própria equipa criativa sob a sua alçada, Budiansky transigiu na sua decisão de transformar Ben Reilly no Homem-Aranha. Originalmente concebida para marcar o adeus de Peter Parker ao seu alter ego mascarado, Spider-Man: The Final Adventure acabaria por ser reescrita à pressa a fim de o reinstalar como o primeiro e único Homem-Aranha. Na sua versão primitiva, a história culminaria com o nascimento da filha de Peter e Mary Jane. Budiansky considerou, porém, que a parentalidade não se compaginaria com o combate ao crime. Nesse sentido, o nascimento do bebé foi substituído pela perda de poderes de Peter. Expediente que permitia facilmente aos argumentistas devolverem-lhos, para depois o fazerem regressar ao seu lugar de direito. Havia, contudo, que assegurar que esse regresso seria plausível e, acima de tudo, que não comprometeria toda a saga.
  Na sequência de uma maratona de reuniões, surgiu a ideia de introduzir um vilão cujas perversas maquinações haviam estado na origem de toda a trama. Apesar de ter sido dado como morto tempos atrás, o eleito foi Norman Osborn (notabilizado como Duende Verde). Proposta que não recolheu consenso entre a equipa criativa responsável pela saga. Tom Brevoort, um dos argumentistas, sugeriu em alternativa uma história na qual Peter retrocederia cinco anos no tempo (coincidindo com o início da primeira Saga do Clone) graças aos poderes de Judas Traveller. Seria então revelado que nem ele nem Ben eram clones, mas sim versões  de si mesmos oriundas de épocas diferentes. Malgrado a contestação dos restantes argumentistas, Budiansky e Greenberg deram o seu aval à ideia.

Norman Osborn, o suspeito do costume.

   Gerado novo impasse, a conclusão da saga foi sendo sucessivamente protelada. A situação só seria desbloqueada após Bob Harras substituir Budiansky como editor-chefe. Sem mais delongas, Harras deliberou que Norman Osborn seria o vilão por detrás de tudo. Ideia que esteve longe de entusiasmar quem quer que fosse. Tratava-se, todavia, de uma escolha lógica: Osborn seria o único a dispor dos recursos, conexões e motivações para orquestrar semelhante ignomínia.
    Estava finalmente encontrado o caminho para o desfecho de uma saga labiríntica e sobre a qual pairava o espectro do fracasso. Em jeito de epílogo, The Osborn Journals (Os Diários de Osborn) revelava detalhes importantes da narrativa sob o  do ponto de vista do vilão.
   Anos depois, Tom DeFalco teceu as seguintes considerações: "Se tivesse dependido de mim, a saga teria tido uma conclusão diferente. O plano inicial passava por estruturá-la em três atos. O clímax do primeiro ato ocorreria  aquando da revelação de que Ben Reilly era o verdadeiro Homem-Aranha; o segundo ato duraria aproximadamente três meses e acompanharia as aventuras de Ben como Homem-Aranha; no último ato assistiríamos ao regresso triunfal de Peter como o primeiro e único Homem-Aranha. Tanto eu como Mark Bernardo acreditávamos no potencial de Ben, que passaria a estrelar a sua própria série regular. Algo muito parecido com que eu fizera anos antes com Thor e Thunderstrike (Trovejante para o público lusófono): dois títulos distintos baseados num mesmo conceito. Claro que o plano foi por água abaixo quando fui despedido..."

Homem-Aranha e Aranha Escarlate: o original prevaleceu sobre a imitação.
   
Notas finais: É voz corrente que o tempo cura quase tudo. Adágio que encerra em si a ideia de que o primeiro passo a dar para a superação de traumas será esquecê-los. Quem como eu é fã incondicional do Homem-Aranha e acompanhou de perto a polémica Saga do Clone, dá graças aos deuses da nona arte por terem já transcorrido quase duas décadas sobre o seu fim. Certas feridas, porém, demoram muito a cicatrizar.
   Tenho ainda hoje as maiores dúvidas acerca da possibilidade de aceitação por parte dos fãs do  Cabeça de Teia relativamente à hipótese de substituição de Peter Parker por Ben Reilly. Considerei,aliás, estapafúrdia desde o primeiro momento a premissa da saga: durante anos a fio os leitores tinham sido enganados por um impostor, que era afinal um clone do verdadeiro Homem-Aranha. Difícil de engolir. Não querendo com isto dizer que, com a orientação certa, a história não pudesse ter resultado.
   No entanto, conforme ficou bem patente no texto acima, orientação (diria até bom senso) foi coisa que não abundou entre a vasta equipa criativa que se deixou enredar na teia (metáfora assaz adequada) que ela própria urdiu. Num ápice, a saga adquiriu contornos de telenovela mexicana, assemelhando-se no seu auge a uma espécie de Crise dos Infinitos Clones.
   Concebida com o intuito de simplificar a mitologia daquela que é, indubitavelmente, a personagem de charneira da Marvel - e que tão maltratada continua a ser - a Saga do Clone revelou-se uma trapalhada monumental. Sendo também lícito afirmar que ela foi vítima do descaso e  ganância dos mandachuvas da Casa das Ideias. Os quais, em prol do lucro, fizeram tábua rasa das críticas dos leitores face a uma perigosa deriva editorial que ameaçava deixar irreconhecível um dos mais amados heróis dos quadradinhos. A exemplo, aliás, do que sucedeu pouco tempo depois com o Super-Homem, quando algumas cabecinhas pensadoras da DC (demonstrando nada terem aprendido com os erros da concorrência) acharam que seria uma ideia formidável transformar o Homem de Aço numa variante anabolizada do Electro. Em ambos os casos acabaram, afortunadamente, por prevalecer os conceitos originais devido à exasperação dos fãs.

Em 1997, a DC chocou os fãs do Homem de Aço com uma transformação eletrizante.   

   Em consequência do fiasco da Saga do Clone caiu por terra a oportunidade de revitalizar o Homem-Aranha, quando este já contava mais de três décadas de existência. Seguiram-se, naturalmente, várias tentativas para alcançar esse objetivo. Uma das quais passou por inventar uma origem mística e totémica para os poderes do Escalador de Paredes. Nenhuma delas, porém, colou.
   A Saga do Clone teve, não obstante, alguns aspetos positivos. Desde logo a criação do Aranha Escarlate - que mesmo após a morte de Ben Reilly ainda se balança por aí na sua teia. Teve também o condão de devolver ao mundo dos vivos aquele que é o eterno némesis do Cabeça de Teia e seguramente um dos mais carismáticos vilões dos quadradinhos: Norman Osborn (a quem, de resto, estaria reservado um papel importantíssimo em sagas futuras, como Civil War). Além, claro, de, no campo financeiro, ter garantido um balão de oxigénio para uma Casa das Ideias à beira da bancarrota.
   Rebuscada e controversa, a Saga do Clone representou um passo atrás na história do Homem-Aranha. Proporcionando, ainda assim, o impulso necessário para avançar por novos caminhos.

Cabeça de Teia há só um. Ou pelo menos assim o esperamos...


sexta-feira, 31 de Outubro de 2014

HEROÍNAS EM AÇÃO: CRISTAL




    Antiga X-Man e atual agente da S.H.I.E.L.D., a heroína mutante conhecida como Cristal foi fruto de uma iniciativa multimédia conjunta da Marvel Comics e de uma editora discográfica visando promover uma estrela do disco sound. Mesmo tratando-se de uma personagem datada, logrou resistir à passagem do tempo, conquistando lugar cativo na mitologia da Casa das Ideias e no coração dos fãs.

Nome original da personagem: Dazzler 
Licenciadora: Marvel Comics
Primeira aparição: The Uncanny X-Men #130 (fevereiro de 1980)
Criadores: Tom DeFalco/Roger Stern (história) e John Romita, Jr. (arte)
Identidade civil: Alison Blaire
Local de nascimento: Gardendale, Long Island (Nova Iorque)
Parentes conhecidos: Carter Blaire (pai falecido), Katherine Blaire (mãe, também conhecida como Barbara London), Lois London (meia-irmã) e  Longshot (ex-marido)
Afiliação: Ex-membro dos Gladiadores (grupo de lutadores mutantes que atuavam num teatro subterrâneo de Los Angeles) e dos X-Men. É atualmente uma operacional ao serviço da S.H.I.E.L.D.
Base de operações: Móvel
Armas, poderes e habilidades:  A habilidade mutante de Cristal consiste em converter vibrações sónicas captadas pelo seu organismo em vários tipos de luz. Esta habilidade parece operar numa vasta gama de frequências, incluindo o espectro audível. No entanto, a heroína prefere usar sons musicais como fonte de alimentação dos seus poderes. Não só por serem mais agradáveis aos seus ouvidos, mas também porque asseguram uma menor aleatoriedade. Donde resulta um maior controlo de Cristal sobre as suas habilidades, permitindo-lhe assim definir a cor, frequência, intensidade e duração dos feixes luminosos por si produzidos. Além, claro, de os conseguir direcionar com precisão para um determinado alvo.
  Originalmente, Cristal apresentava-se apetrechada com um leitor de cassetes customizado que lhe providenciava a música de que necessitava para ativar os seus poderes. Mais tarde, passou a envergar um traje especial - concebido pelo Professor Xavier - que lhe permitia armazenar os sons por ela absorvidos. Com o tempo, Alison desenvolveu a capacidade de acumular os sons captados no interior do seu corpo, libertando-os em pequenas porções sob a forma de luz ou de energia.
  Cristal consegue gerar um plêiade de efeitos luminosos: desde simples padrões multicoloridos para abrilhantar os seus concertos até à projeção de lasers ou de pulsos de luz estroboscópica que cegam e/ou afetam temporariamente o equilíbrio dos seus oponentes. Com algum esforço e concentração, Alison consegue ainda produzir hologramas tridimensionais de pessoas ou objetos, bem como erguer escudos defletores que a protegem de ataques com projéteis ou rajadas energéticas. Graças aos seus olhos polarizados, ela não é encandeada pela luz, própria ou alheia. Do mesmo modo, um sofisticado sistema natural de ecolocalização, permite-lhe detetar sons impercetíveis ao ouvido humano antes de os absorver e transformar em energia.
   Um fluxo ultraconcentrado de fotões sólidos é, todavia, a mais poderosa manifestação das suas habilidades mutantes. Devido à enorme quantidade de energia necessária à sua geração, no passado a heroína relutava em usar esse poder, sob pena de ficar exaurida. Aquando da sua passagem pelos X-Men aprendeu, contudo, a fazê-lo em segurança. Durante o mesmo período demonstrou ser capaz de manipular o espectro eletromagnético, por forma a criar radiação de micro-ondas com considerável potencial destrutivo.
    Alison é também uma atleta de topo que aperfeiçoou as suas técnicas de combate corpo a corpo em resultado do treino recebido no Instituto Xavier para Jovens Sobredotados. Hábil patinadora, nos primórdios da sua carreira era comum usar patins magnéticos acoplados às suas botas, os quais lhe permitiam mover-se a grande velocidade.
    Recentemente agraciada com um misterioso dom de ressurreição, tudo indica que Cristal não pode ser morta através dos métodos convencionais.

Rainha da pista de dança e justiceira nas horas vagas.

Histórico de publicação: Tendo como referência um projeto análogo envolvendo a banda de rock Kiss, na reta final da década de 1970 - numa altura em que o disco sound já vinha perdendo terreno para outros géneros musicais - a editora discográfica norte-americana Casablanca Records decidiu patrocinar uma iniciativa multimédia com o fito de lançar uma nova cantora. Com efeito, desde 1977 que os Kiss dispunham de duas séries próprias (e extremamente populares) de banda desenhada que ajudavam a promover o grupo. Um caso de sucesso que a Casablanca Records pretendia replicar para daí retirar proventos. Nesse sentido, firmou uma parceria com a Marvel Comics, incumbida de conceber uma super-heroína que seria uma espécie de Rainha do Disco Sound. Em paralelo, a Casablanca Records introduziria no mercado uma nova estrela musical. Esta plataforma multimédia ficaria completa com inclusão da Filmworks, sob cujos auspícios seria produzida uma longa-metragem protagonizada pela nova personagem.

Desde 1977 que os Kiss vivem aventuras aos quadradinhos.

   Definidos os moldes e objetivos do projeto, Jim Shooter, à época editor-chefe da Marvel, logo apresentou um primeiro esboço do conceito: na sua versão primitiva, a personagem (ainda sem nome atribuído) seria uma cantora com o poder de obrigar qualquer pessoa a dizer a verdade. No entanto, Shooter também logo se deparou com a primeira dificuldade à realização do projeto: nenhum dos principais argumentistas ou ilustradores da Marvel queria ter nada a ver com ele.
     A solução encontrada passou por contratar o ex-argumentista da Archie Comics, Tom DeFalco. O qual introduziu diversas alterações ao conceito original desenvolvido por Shooter: em alternativa à capacidade de levar as pessoas a dizerem a verdade, DeFalco sugeriu que a personagem tivesse poderes baseados na luz. Aprovada a ideia, coube a John Romita, Jr. desenhar o visual de Dazzler (assim crismada pelo argumentista Roger Stern e que, em tradução literal, é sinónimo de "deslumbrante" ou "estonteante").
    Como modelo para a conceção da aparência da nova personagem, Romita, Jr. usou inicialmente Grace Jones, uma exótica manequim, cantora e atriz afro-americana muito em voga na época. Contudo, a Filmworks pretendia aproveitar o projeto para promover a também modelo e atriz Bo Derek. Nesse sentido, impôs alterações ao visual de Dazzler, plasmando as características fisionómicas da curvilínea protagonista de Bolero (1984).

Bo Derek, a beldade que serviu de modelo aos criadores de Cristal.
   
  A Casablanca Records, por seu turno, insistiu para que Dazzler fosse promovida através de participações especiais nos principais títulos da Marvel: The Fantastic Four, The Amazing Spider-Man e The Uncanny X-Men. Tratando-se de uma mutante, foi, aliás, neste último que a heroína debutou, em fevereiro de 1980.

A estreia de Cristal em The Uncanny X-Men #130 (1980), título talismã para a personagem.

  Os responsáveis da editora discográfica continuaram, não obstante, a exigir sucessivas alterações conceptuais, designadamente no que à aparência e personalidade da personagem dizia respeito. Facto que motivou os diversos cancelamentos temporários do projeto que precederam o abandono definitivo do mesmo por parte da Casablanca Records, alegadamente por razões financeiras. Perante este revés, à Casa das Ideias não restou outro remédio se não apostar numa série mensal estrelada pela sua nova coqueluche.
    Fazendo no fé no testemunho de Tom DeFalco, o lançamento de um título próprio de Dazzler foi adiado cinco ou seis vezes, antes da sua materialização em março de 1981.Isto porque, nesse ínterim, a Marvel (já depois de a Filmworks ter desertado do projeto) afadigou-se na busca de produtores cinematográficos dispostos a investirem num filme baseado na personagem. Mesmo sem lograrem êxito nessa sua demanda, Jim Shooter e Stan Lee resolveram avançar com o lançamento da série mensal intuindo o sucesso da mesma.
    Assim, Dazzler #1 foi editado no sentido de espelhar as transformações operadas no Universo Marvel e para se enquadrar no novo formato de publicações compostas por 22 páginas. Outra das alterações introduzidas no conteúdo do número inaugural da série consistiu na exclusão de Ciclope (então líder dos X-Men) como convidado especial e na inserção da benjamim dos pupilos do Professor X, Kitty Pryde (futura Lince Negra). Como bónus, o referido volume continha igualmente a origem de Dazzler, entretanto estrategicamente distanciada do universo disco sound, numa altura em que era já evidente a sua decadência.
   Numa aposta de alto risco, Jim Shooter deliberou que Dazzler #1 fosse colocado à venda somente em lojas de comics especializadas, contornando dessa forma o tradicional circuito de distribuição comercial. Resolução com tanto de inédita como de audaciosa, considerando que à data a indústria dos quadradinhos atravessava uma fase conturbada.
    Com mais de 400 mil exemplares vendidos (correspondendo a mais do dobro da média de vendas desse tipo de material), Dazzler #1 saldou-se num estrondoso sucesso. Facto a que não foram decerto alheias as participações, ao longo dos seus cinco primeiros números, de algumas personagens de charneira da Marvel: Homem-Aranha, X-Men, Hulk, Doutor Destino e até mesmo Galactus abrilhantaram com a sua presença as histórias da neófita heroína. Que, por sua vez, retribuiu a cortesia levando ocasionalmente o seu glamour a títulos como The Avengers ou The Uncanny X-Men.

O primeiro número de Dazzler valeu um recorde de vendas à Marvel.

   Malgrado o seu sucesso comercial, Dazzler não escapou a críticas. Muitos eram os leitores que desaprovavam o enfoque dado nas histórias da personagem a aspetos da sua vida pessoal e familiar em detrimento de sequências de ação mais consentâneas com o género super-heroico. Também o facto de a heroína usar a mesma indumentária quando atuava em palco ou quando combatia malfeitores mereceu duras críticas por parte de alguns fãs.
     A esse propósito Tom DeFalco teceu, anos depois, as seguintes considerações: "Havia nessas críticas uma hipocrisia intrínseca por parte de alguns leitores: ao mesmo tempo que clamavam por conceitos inovadores, exigiam que Dazzler se conformasse aos esterótipos preexistentes no género".


Tom DeFalco.

   John Romita, Jr. abandonou o título ao fim de três edições, sendo substituído por Frank Springer. DeFalco, por sua vez, manteve-se como argumentista da série até ao seu sexto número. Continuou, porém, a supervisionar o trabalho desenvolvido pelo seu sucessor, Danny Fingeroth. Este e Springer formariam uma dupla criativa estável até Dazzler #27 -dois números depois de o título passar a bimestral em virtude da quebra de vendas registada. Esta nova periodicidade de publicação, aliada às muitas modificações sofridas pela personagem (Springer convertera-a numa aspirante a atriz em Los Angeles), tornaram-na ainda menos apelativa tanto para os seus atuais leitores como para os novos.


John Romita, Jr.
   Perante este quadro precário, a Marvel procurou revitalizar a série interligando-a com uma graphic novel ( Dazzler, The Movie, a quadrinização do guião do filme nunca realizado da personagem) e uma minissérie estreladas pela heroína. Se a primeira foi aclamada pela crítica e pelos leitores, a segunda redundou num fiasco.
     Com as vendas em queda livre, a Marvel apostou as fichas todas na dupla composta pelo argumentista Archie Goodwin e pelo desenhista Paul Chadwick , que assumiram a produção de Dazzler a partir do seu 38º número. Eliminado o subtexto que caracterizava anteriormente as suas histórias, Dazzler aproximou-se mais do conceito genérico de super-heroína, ganhando de passagem um novo uniforme. Nada disso foi, porém, suficiente para salvar a série, que acabaria cancelada em 1985.
     Depois de ter sido equacionada a hipótese de conceder a Dazzler o estatuto de fundadora do X-Factor (equipa inicialmente formada pelos cinco X-Men originais), a ideia seria descartada devido à decisão de ressuscitar Jean Grey. A alternativa passou por integrá-la nos X-Men, ao lado dos quais atuou até aos primeiros anos da década de 1990, altura em que se eclipsou. Seguiu-se uma longa travessia do deserto, interrompida apenas por esporádicas aparições em histórias alheias. Seria, pois, preciso esperar até ao dealbar do presente século para assistirmos ao regresso triunfal de Dazzler. Com o lançamento de The New Excalibur, a heroína mutante voltou a assegurar presença regular no Universo Marvel. Quando a série foi cancelada, Dazzler tornou-se coadjuvante no título onde se estreou: The Uncanny X-Men.
    Em fevereiro de 2010, chegou às bancas norte-americanas uma edição especial estrelada por Dazzler, escrita por Jim McCann e com arte a cargo de Kalman Andrasofszky. Um par de anos volvidos, a personagem reapareceu, (agora na qualidade de operacional da S.H.I.E.L.D) novamente nas páginas de The Uncanny X-Men. É,pois, caso para dizer que a boa filha a casa torna...
   
A graphic novel que retrata o filme nunca feito de Cristal.
     
Biografia: Filha única do casal Carter e Katherine Blaire, Alison nasceu em Long Island, um subúrbio de Gardendale, Nova Iorque. Os seus progenitores tinham uma relação tensa, uma vez que o seu pai era um austero estudante de Direito, ao passo que a sua mãe se considerava um espírito livre tendo na música a sua grande paixão. Em consequência dessas diferenças de personalidade, Katherine acabou por abandonar o companheiro quando Alison ainda mal gatinhava. Foi, pois, com a ajuda da avó paterna de Alison que o seu pai a conseguiu criar e educar.
   O abandono de Katherine deixou profundas marcas emocionais em Carter, que optou durante muitos anos por guardar segredo do episódio junto da filha. Quando, já adolescente, ela começou a sonhar com uma carreira ligada à música, o pai - agora um respeitado juiz - opôs-se veementemente e tentou direcioná-la para uma trajetória de vida similar à sua. Alison interiorizou então a ideia de que, um dia, conseguiria conciliar ambas as carreiras. Para essa decisão contribuiu o encorajamento recebido por parte da sua avó paterna, mais benevolente relativamente às suas veleidades artísticas.
   Alison frequentava o liceu quando as suas habilidades mutantes se manifestaram pela primeira vez. Aspirante a cantora, tinha-se voluntariado para atuar num espetáculo musical organizado na sua escola, durante o qual descobriu que, a partir de sons, conseguia gerar variados efeitos luminosos. No entanto, a sua plateia em delírio julgou tratarem-se de efeitos especiais. Uma assunção comum antes de Alison, alguns anos volvidos, revelar a sua natureza mutante. Esse foi, de resto, um dos segredos mais bem guardados da sua vida: mesmo os que lhe eram mais próximos - incluindo o próprio pai -ignoravam que Alison era, na verdade, uma homo superior.
    Em vésperas de entrar para a universidade - e para desespero do pai- , Alison começou a explorar mais ativamente os seus poderes luminosos e os seus dotes musicais, relegando para plano secundário os estudos. Com efeito, em plena cerimónia de entrega dos diplomas do liceu, a jovem comunicou ao seu progenitor que não pretendia ingressar na faculdade de Direito que ele escolhera para ela. Mesmo sem a bênção e o apoio monetário paternos, Alison estava determinada em tentar a sua sorte no mundo da música.

Os poderes luminosos de Cristal proporcionavam experiências extáticas aos seus fãs que, contudo, desconheciam que a  diva do disco sound era uma mutante.

   Alison sabia que a sua habilidade mutante de converter som em luz seria uma mais-valia para as suas performances artísticas. De facto, os estonteantes efeitos visuais que abrilhantavam os seus espetáculos logo atraíram a atenção de diversas discotecas e clubes noturnos nova-iorquinos. Adotando o pseudónimo Cristal e confecionando o seu próprio guarda-roupa (que incluía um colar com um pendente em forma de bola de espelhos herdado da sua mãe), Alison tornou-se uma das cantoras mais badaladas da cidade. Contudo, quer o seu público quer os proprietários dos estabelecimentos onde atuava, desconheciam em absoluto a verdadeira origem dos seus poderes. Apesar de alguma especulação em torno do assunto, Alison conseguiu convencer todos que se tratava de uma sofisticada tecnologia de efeitos especiais.
     Foi precisamente num dos seus espetáculos que se cruzou pela primeira vez com os X-Men, sob ataque de elementos ligados ao Clube do Inferno. Furiosa com a inusitada interrupção da sua atuação, Cristal usou as suas habilidades para neutralizar os atacantes, deixando acidentalmente um deles em estado catatónico. De seguida ajudou os heróis mutantes a encontrarem a benjamim da equipa, Kitty Pryde.
    Apesar de ter considerado excitante essa experiência ao lado dos X-Men, Cristal declinou o convite dos pupilos do Professor Xavier para se juntar à equipa, receando que o preconceito em relação aos mutantes prejudicasse a sua fulgurante carreira musical ( o que viria efetivamente a acontecer anos mais tarde).

Ao lado dos X-Men, Cristal ganharia um novo visual e um maior controlo dos seus poderes.

    Nada que a impedisse, ainda assim, de desenvolver paralelamente uma carreira de combatente do crime, ao mesmo tempo que ia travando conhecimento (mais ou menos amistoso) com outros super-heróis. Numa época em que muitos ainda questionavam o seu posicionamento moral, Cristal manteve uma fugaz parceria com Escudo Azul e um ainda mais fugaz romance com o Anjo. Enfrentou também vários pesos pesados vilanescos: Doutor Destino, Encantor e Terrax (o brutal arauto de Galactus). Pelo meio foi coagida a juntar-se ao Clube do Inferno, cuja Rainha Branca (Emma Frost) cedo percebeu o potencial dos poderes da jovem.
    Num golpe do destino, Alison descobriu por acaso que a sua treinadora vocal era, afinal, a mãe que a abandonara ainda bebé. Com essa descoberta veio um conjunto de revelações bombásticas: depois de abandonar a filha e o companheiro, Katherine mudara-se para a Costa Oeste, assumira a identidade de Barbara London e constituíra nova família. Alison ficou também ao corrente do passado de toxicodependência da mãe, dos abusos por ela sofridos às mãos do seu novo companheiro e da existência de uma meia-irmã de seu nome Lois London. Ela e Alison logo se tornaram inseparáveis.
    Outro ponto de viragem na vida pessoal e profissional de Alison ocorreu quando ela revelou publicamente a sua condição de mutante. Contrariando as suas expectativas, a reação por parte dos fãs e da imprensa foi bastante adversa. Em consequência disso, Alison viu sucessivas portas fecharem-se-lhe em Nova Iorque levando-a a migrar para Los Angeles na esperança de aí poder encetar uma carreira como atriz. Acabaria, no entanto, por se juntar durante a sua estada na Cidade dos Anjos aos Gladiadores, um grupo de combatentes mutantes que lutavam entre si até à morte num teatro subterrâneo para diversão de humanos endinheirados. Uma experiência que também não terminou da melhor maneira: depois de ter sido drogada e obrigada a combater com o Fera, Alison abandonou os Gladiadores. Sob diversos nomes falsos, passou então a trabalhar como empregada de mesa em restaurantes da cidade.
    Algum tempo depois, Alison regressou a Nova Iorque e procurou a ajuda do Professor Xavier. Este forneceu-lhe um novo uniforme que lhe permitia não só armazenar sons como também amplificava as suas habilidades mutantes. Recebeu também de Wolverine treino intensivo em técnicas de sobrevivência e combate corpo a corpo.Findo o qual, uma revigorada Cristal se tornou membro de pleno direito dos X-Men.
    Ao lado dos pupilos de Xavier, Cristal conheceu Longshot, um herói mutante oriundo de um mundo extradimensional e seu futuro marido. Para ficar junto dele, a jovem abandonou a Terra e os X-Men durante alguns anos.

Cristal na sua segunda passagem pelos X-Men.

   Regressaria, no entanto, ao nosso planeta e aos X-Men após uma sucessão de contrariedades (incluindo uma gravidez interrompida) que haviam ditado o fim do seu casamento com Longshot. Apenas para ser arrastada para o épico conflito que opôs os seus companheiros de equipa aos Vingadores. Na sequência do cisma mutante daí resultante, Cristal foi recrutada pela S.H.I.E.L.D. com a missão de localizar e descobrir os desígnios da fação extremista liderada por Ciclope.
     
Alison Blaire, agente da S.H.I.E.L.D.
Noutros media: Na lista das 100 Mulheres Mais Sexys dos Quadradinhos divulgada pelo Comics Buyer's Guide, Cristal quedou-se pela 83ª posição. Embora, como vimos, tenha sido produto de uma fracassada iniciativa multimédia, a heroína mutante poucas oportunidades tem tido noutros meios de comunicação que não os quadradinhos. No seu currículo constam apenas algumas participações em séries de animação estreladas pelos Filhos do Átomo: X-Men: Pryde of The X-Men (1989), X-Men: The Animated Series (1992-1997) e Wolverine and the X-Men (2009). Exceto pelo episódio-piloto da primeira (no qual surgia integrada na equipa), nas restantes duas foi apenas coadjuvante.

Um estrela musical literalmente dotada de luz própria.

segunda-feira, 20 de Outubro de 2014

GALERIA DE VILÕES: BIZARRO



   Conhecido também como Super-Homem Bizarro ou Bizarro nº1, trata-se, a todos os níveis, de uma duplicata imperfeita do Homem de Aço. Descrito originalmente como um monstro ingénuo e desajeitado que se regia por uma lógica invertida, com o tempo tornou-se mais sinistro e ameaçador.

Nome original da personagem: Bizarro 
Primeira aparição (versão clássica): Superboy #68 (outubro de 1958)
Criadores (versão clássica)*: Alvin Schwartz / Otto Binder (história) e George Papp (arte)
Primeira aparição (versão moderna)**: Superman vol.2 #160 (setembro de 2000)
Criadores (versão moderna): Jeph Loeb (história) e Ed McGuinness (arte)
Licenciadora: DC Comics
Identidade civil: Bizarro
Local de nascimento: Terra
Base de operações: Mundo Bizarro
Parentes conhecidos: Lois Lane Bizarra (esposa), Bizarro Jr. (filho, na realidade pré-Crise)
Afiliação: Liga da Injustiça, Sociedade Secreta de Supervilões, Liga da Anarquia do Joker
Armas, poderes e habilidades: Originalmente, Bizarro dispunha de poderes e habilidades similares às do Super-Homem. Em algumas versões, todavia, esses poderes e habilidades foram, em harmonia com a lógica pela qual a criatura se pauta, invertidos. Assim, em vez de visão de calor e de supersopro congelante, Bizarro passou a ser dotado, respetivamente, de visão congelante e supersopro incandescente. Acresce a isto o insólito facto de a sua visão de raios X apenas lhe permitir ver através do chumbo. Por outro lado, também a sua visão microscópica tem a particularidade de tornar qualquer objeto mais pequeno aos olhos de todas as pessoas, ao invés de permitir ampliá-lo apenas aos olhos do seu usuário. À parte estas diferenças relativamente à sua matriz, Bizarro possui superforça equivalente (ou, em algumas versões, superior) à do Homem de Aço, invulnerabilidade, poder de voo e supervelocidade.
Fraquezas: À imagem e semelhança do Super-Homem, Bizarro tem na kryptonita a sua maior fraqueza. Na sua variante azul (por oposição à verde), o mineral drena-lhe os poderes e, em caso de exposição prolongada, poderá ser-lhe fatal. Outra das suas vulnerabilidades advém do seu intelecto limitado. Apesar do seu elevado nível de poder, a criatura possui um QI equivalente ao de uma criança de cinco anos.

*/**: baseado no conceito original desenvolvido por Jerry Siegel e Joe Shuster

Bizarro não é mais do que um reflexo invertido do Homem de Aço.

Histórico de publicação: Bizarro debutou em Superboy #68 (com data de outubro de 1958, mas colocado à venda nos EUA em agosto desse ano). Através da introdução da nova personagem, o escritor Otto Binder rendeu um tributo ao monstro de Frankenstein, atribuindo-lhe poderes idênticos aos do Rapaz de Aço. Rejeitada pela sua aparência grotesca, a versão juvenil de Bizarro não mais voltaria a aparecer nas aventuras de Superboy. Reaparecendo, contudo, pouco tempo depois, já adulto, numa tira diária estrelada pelo Super-Homem e escrita por Alvin Schwartz. Este sempre reclamou a paternidade da personagem, afirmando ter desenvolvido o conceito antes da primeira aparição de Bizarro nas páginas de Superboy. Diga-se, em bom rigor, que o discurso invertido e na terceira pessoa do singular adotado por Bizarro na referida tira serviria daí em diante de padrão à forma de expressão da criatura. Com efeito, para decifrar os comentários de Bizarro, é necessário ter em conta os antónimos de tudo o que ele diz: "mau" significa "bom", "salvar" é sinónimo de "matar", e por aí fora. É, aliás, essa sua imperfeição que faz dele um vilão, visto que, em grande parte das vezes, a criatura apenas tenta imitar o Super-Homem, acabando por causar problemas ao agir de maneira diametralmente oposta à do herói. De referir ainda que, como marca distintiva, na tira ele usava um "B" e não o célebre "S" invertido.

A estreia de Bizarro em Superboy #68 (1958).

   Em discurso direto, Alvin Schwartz explicou assim o processo criativo de que resultou tão burlesca personagem: "Pode dizer-se que eu me andava a debater com a ideia de reflexos invertidos. As imagens que o espelho nos mostra são sempre reversas, uma espécie de negativos das originais.  Esse conceito entusiasmou-me, numa época em que as principais personagens dos comics, de tão unidimensionais, eram demasiado simplistas, logo fastidiosas. Procurei, por isso, adicionar uma nova dimensão ao Super-Homem, por via de uma sua réplica defeituosa. Bizarro correspondeu, em certa medida, ao arquétipo de "sombra" introduzido por Carl Jung, e no qual me inspirei quando me propus a criar a personagem."


Bizarro e Super-Homem: a cópia imperfeita e o original.

   Otto Binder, por seu turno, apresentou a versão adulta de Bizarro (ostentando já o característico "S" reverso como insígnia) em Action Comics #254 (julho de 1959). Contrariamente ao que se verificara com a sua variante juvenil, desta feita Bizarro teve uma receção positiva por parte dos leitores das histórias do Homem de Aço. Mercê da sua inesperada popularidade, Bizarro protagonizou de seguida um arco de histórias publicado ao longo de 15 números de Adventure Comics, no período compreendido entre junho de 1961 e agosto de 1962. Estrelou ainda uma edição especial com 80 páginas de Superman #202 (dezembro de 1967/janeiro de 1968). Acrescente-se que grande parte das suas aventuras passaram a ser ambientadas no Mundo Bizarro, cópia imperfeita da Terra (começando pela sua forma cúbica) onde vigoravam uma lógica e uma moral assimétricas às aplicadas no nosso planeta.
    Desde a sua primeira aparição, em 1958, até à reestruturação da cronologia da DC no âmbito de Crise nas Infinitas Terras (1985), Bizarro marcou presença em 40 ocasiões nos títulos que compunham o cardápio de publicações do Super-Homem: Action Comics, Superman, Superman's Pal Jimmy Olsen, Superman's Girlfriend Lois Lane, Adventure Comics, Secret Society of Super Villains e DC Comics Presents.


Otto Binder.
Alvin Schwartz.

   Com uma aparência semelhante à original, Bizarro foi reintroduzido no Universo DC pós-Crise numa história publicada em Man of Steel #5 (dezembro de 1986), no final da qual terá aparentemente morrido. Seria, porém, revivido no âmbito da saga Bizarro's World narrada no universo de títulos do Último Filho de Krypton, entre março e abril de 1994, e em Action Comics Annual #8 (1996). Sem qualquer relação com esse arco de histórias, foi também lançada, em 1999, uma minissérie mensal em quatro volumes sob o título A. Bizarro.
    Outra versão da personagem foi apresentada na saga Emperor Joker (que entre, setembro e outubro de 2000, preencheu o leque de títulos do Super-Homem nos EUA). De então para cá, Bizarro conservou, essencialmente por via de participações especiais em aventuras alheias, o seu lugar na continuidade da DC e na mitologia do Homem de Aço. Como se perceberá mais adiante neste artigo, a criatura voltou recentemente à ribalta através da sua participação na minissérie Forever Evil (Vilania Eterna, a ser atualmente publicada no Brasil sob a égide da Panini Comics). Nesta sua versão de Os Novos 52!, a criatura é um clone disforme do Super-Homem, produzido por Lex Luthor a partir de uma única célula extraída do herói kryptoniano.
    Comum a todas as versões de Bizarro, o óbvio paralelo que é possível traçar com a fábula do monstro de Frankenstein. Uma criatura grotesca e desprovida de alma, cuja natureza dramática a torna merecedora de compaixão visto que, em última análise, apenas procura ser humano.

O século XXI trouxe um Bizarro mais caricatural, mas também mais sinistro.
Biografia: Na sua versão primitiva, a origem de Bizarro remetia para um passado distante de Krypton: com o fito de se tornar regente absoluto do planeta, o General Zod recorreu em tempos à engenharia genética para produzir centenas de sósias seus. Ainda que desprovidos de superpoderes (devido à ausência de um sol amarelo idêntico ao da Terra), os clones (que mercê do seu aspeto defeituoso foram alcunhados de Bizarros) revelaram-se contudo soldados obedientes, dispostos a matar ou morrer sem hesitação. Foi, de resto, este episódio que motivou o banimento de Zod para a Zona Fantasma.
   Desconhecendo estes eventos, anos depois um cientista terrestre convidou o Superboy para assistir a uma demonstração do seu chamado raio de duplicação. Quando o jovem herói foi acidentalmente atingido pelo raio, logo surgiu uma réplica sua. Devido à sua pele cor de giz, ao seu semblante desfigurado e ao seu comportamento errático, a criatura foi batizada de Bizarro.
  Repudiado pelo povo de Smallville, Bizarro encontrou numa jovem invisual um pouco de afeto e empatia. Perdeu, porém, toda a esperança de ser aceite como um ser humano ao tomar consciência que apenas pela sua cegueira a rapariga não se assustara com a sua grotesca aparência.
  Face ao crescente descontrolo de Bizarro, Superboy viu-se forçado a tomar medidas drásticas, usando fragmentos de kryptonita azul extraídos dos destroços da máquina que emitira o raio de duplicação. Hesitando em tirar a vida ao seu sósia, o Rapaz de Aço foi surpreendido pelo impulso suicidário de Bizarro, que deliberadamente se empalou na lasca afiada de kryptonita azul. Da explosão que se seguiu resultou a cura milagrosa da cegueira da jovem por quem a criatura se enamorara.
    Vários anos volvidos sobre este episódio, Lex Luthor, o arqui-inimigo do Super-Homem, reproduziu o raio de duplicação que estivera na origem do primeiro Bizarro e resolveu usá-lo no Homem de Aço, confiante de que conseguiria controlar o seu clone. Este, contudo, revelou-se ainda mais volátil do que seu antecessor, não demorando a virar-se contra o seu criador. Entretanto, tentando emular o comportamento do Super-Homem, a criatura perambulou por Metrópolis, deixando um rasto de caos e destruição à sua passagem, e quase expondo a identidade secreta do herói kryptoniano como Clark Kent.
    Quando Bizarro se apaixonou por Lois Lane, a jornalista usou em si mesma o raio de duplicação, dando vida a uma cópia sua dotada de idênticas características mentais e fisionómicas às do monstro. Imediatamente atraídas uma pela outra, as criaturas resolvem deixar a Terra para partir em busca de um lar onde pudessem viver juntas e em paz.
   Algum tempo depois, o Super-Homem reencontrou o casal , descobrindo que o seu sósia usara uma versão defeituosa do raio de duplicação para criar o Mundo Bizarro, um planeta em forma de cubo habitado por caricaturas de amigos e adversários do Homem de Aço. Para se diferenciar dos restantes clones, Bizarro ostentava agora ao peito um tosco medalhão de pedra com a inscrição "Bizarro nº1".

Mundo Bizarro.

     Fruto do seu casamento com a Lois Bizarra nasceu uma criança que, apesar de dotada de superpoderes, possuía a aparência de um ser humano normal. À luz, porém, dos padrões daquele mundo insano, Bizarro Jr. (assim foi crismado o bebé) foi considerado uma aberração, servindo de catalisador para um breve conflito com a Terra. Tempo ainda assim suficiente para serem inventadas a kryptonita azul e uma Supergirl Bizarra.
     A influência de Bizarro estendeu-se também ao nosso planeta: Jimmy Olsen, fotógrafo do Planeta Diário e amigo tanto do Super-Homem como do seu alter ego Clark Kent, foi temporariamente transformado num Bizarro. Também uma versão juvenil do próprio Bizarro viajou no tempo até ao século XXX na esperança de poder ser admitido nas fileiras da Legião dos Super-Heróis. Ao ser recusada pela equipa, a criatura criou a sua própria versão da Legião. A qual acabaria por desmantelar, a pedido do Superboy.
     No encontro seguinte de Bizarro com o Homem de Aço, os poderes do primeiro sofreram mutações tão profundas que agora correspondiam à antítese dos do segundo. Por contraponto à visão de calor e ao sopro congelante do herói kryptoniano, o seu émulo passou a dispor de visão congelante e sopro incandescente. Antes de se juntar temporariamente à Sociedade Secreta de Supervilões para combater a Liga da Justiça e o Capitão Cometa, Bizarro foi malsucedido na sua tentativa de raptar a verdadeira Lois Lane.
    Na sua penúltima aparição no período que antecedeu Crise nas Infinitas Terras (ver texto anterior), um Bizarro mais irracional e violento, após obliterar o seu próprio planeta, viaja até Metrópolis onde semeia a destruição antes de abruptamente se suicidar. Eventos narrados na história What Happened to the Man of Tomorrow? (setembro de 1986), da autoria do celebrado escritor Alan Moore.
   Nesse mesmo mês, DC Comics Presents #97 assinala, simultaneamente, a derradeira aparição de Bizarro no Universo DC pré-Crise e o fim da própria série. Com as suas habilidades místicas amplificadas por um sinistro feiticeiro aprisionado na Zona Fantasma, o vilão interdimensional Mzyzlptlk provoca a implosão do Mundo Bizarro exterminando todos os seus habitantes, incluindo o próprio Bizarro nº1, cuja cabeça decapitada aterra na secretária de Clark Kent no Planeta Diário instantes antes de a sua última centelha de vida se exaurir. Derivando deste facto a não participação de Bizarro na saga que revolucionou para sempre a cronologia da Editora das Lendas.
    No entanto, os eventos supramencionados contradizem uma história posterior na qual é revelado que, algures no futuro, o Mundo Bizarro não só continuaria a existir como teria assumido uma forma mais convencional (assemelhando-se agora a um ovo) devido à radiação libertada pela explosão de um misterioso corpo celeste. Ainda em consequência disso, os habitantes do planeta haviam adquirido uma aparência humana, conquanto subsistissem alguns vestígios da lógica invertida que durante muito tempo regeu os destinos do Mundo Bizarro.
    No pós-Crise, Lex Luthor, depois de ver o Super-Homem recusar o seu convite para que trabalhasse para ele, ordena aos seus cientistas que produzam um clone do Homem de Aço. A experiência, porém, fracassa, na medida em que Luthor desconhecia ainda a origem alienígena do herói, julgando equivocadamente tratar-se de um humano geneticamente modificado. Do processo resulta, assim, uma réplica disforme do Super-Homem, prontamente descartada por Luthor.

No pós-Crise Bizarro ressurgiu mais sombrio do que o original.

   O monstro, no entanto, sobrevive. Embora mudo e possuindo apenas uma inteligência rudimentar, o bizarro ser, impulsionado por vagas memórias herdadas da sua matriz, procura mimetizar as ações heroicas do Homem de Aço. Depois de causar grande perturbação em Metrópolis, impede a irmã mais nova de Lois Lane, Lucy, de cometer suicídio. Cega, a jovem julga ter sido o Super-Homem o seu salvador. No entanto, quando Bizarro tenta raptar Lois, o Homem de Aço entra em ação para detê-lo. No clímax do titânico duelo aéreo que se segue, Bizarro é destruído pelo herói. Lucy é coberta pelas partículas resultantes da explosão da criatura, recuperando milagrosamente a visão. Pairando no ar a ideia de que Bizarro terá provocado a própria morte para curar a rapariga.
   Um segundo Bizarro, capaz de falar e de articular pensamentos toscos, resultou, uma vez mais, da tentativa de Luthor de clonar o Homem de Aço. O vilão, a braços com uma doença degenerativa, planeava transferir a sua mente para o corpo do clone. Este, porém, rebelou-se contra os seus criadores, evadiu-se do complexo da LexCorp e, ao mesmo tempo que definhava em ritmo acelerado, construiu um grotesco arremedo de Metrópolis num armazém abandonado. Numa paródia distorcida do heroísmo do Super-Homem, Bizarro, depois de sequestrar Lois Lane, expô-la deliberadamente a situações de enorme perigo com o intuito de a "salvar". Perseguido pelo herói kryptoniano, Bizarro voou até Smallville para raptar Lana Lang (o primeiro amor do jovem Clark), mas acabou derrotado pelo Super-Homem. Devolvido à LexCorp, o monstro usou a sua última réstia de poder para incendiar o laboratório onde estava aprisionado, morrendo no processo.

Um dos muitos confrontos do Homem de Aço com a sua cópia bizarra.
    Houve ainda um terceiro Bizarro criado pelo Joker, depois do arqui-inimigo do Batman ter roubado os poderes de Mxyzptlk, um criminoso da 5ª Dimensão. Com eles, o Palhaço do Crime concebeu uma versão distorcida da Terra e autoproclamou-se seu Imperador. Para o lugar de maior herói do planeta, o vilão criou a sua versão insana do Super-Homem. Cabendo-lhe igualmente liderar a Liga da Anarquia do Joker (uma perversão da Liga da Justiça).
    Durante Crise Infinita este terceiro Bizarro foi induzido pelo Professor Zoom (inimigo jurado do Flash) a juntar-se à renovada Sociedade Secreta de Supervilões acabando, inadvertidamente, por assassinar o Bomba-Humana, membro dos Combatentes da Liberdade.
    Quando, algum tempo depois, criminosos kryptonianos comandados pelo General Zod chegaram à Terra, Bizarro partiu para o espaço sideral em busca de um novo lar. Num sistema planetário dominado por um sol azul, ele gerou um mundo em forma de cubo que preencheu com reproduções abstratas de cenários terrestres. Graças, por outro lado, à radiação do referido sol azul, a criatura adquiriu um novo poder: a visão Bizarro. Com ela, o monstro conseguia criar outros Bizarros. A sua primeira criação foi uma Lois Bizarra que, contudo, o rejeitou. Sentindo-se só e angustiado, Bizarro voou até Smallville para raptar Jonathan Kent. O que obrigou o Homem de Aço a visitar o Mundo Bizarro a fim de resgatar o seu pai adotivo. Sensibilizado pelo drama do seu clone, Super-Homem ajuda-o a tornar-se um campeão da justiça e a conquistar o amor da Lois Bizarra.
    Na renovada cronologia do Universo DC saída de Os Novos 52!, Bizarro surge pela primeira vez durante os eventos narrados na saga Vilania Eterna. Cinco anos antes, Luthor havia-se proposto a criar o seu próprio exército de meta-humanos. Com esse desígnio em mente, combinou o ADN kryptoniano do Homem de Aço com o de um adolescente humano. Sendo o resultado da experiência desastroso: em vez de uma réplica do Super-Homem, tudo o que Luthor obtém é um monstro disforme, imune aos efeitos da kryptoninta e detentor de poderes opostos aos do herói que lhe serviu de matriz. Deduzindo a fraqueza da criatura, Luthor expõe-a a uma dose maciça de energia solar, que sobrecarrega as suas células, matando-a.
    Apesar do falhanço, Luthor não desiste dos seus intentos. Recolhendo amostras do clone defeituoso, o magnata, apostado em recriar um kryptoniano perfeito, retoma as suas experiências de bioengenharia. Vendo os seus esforços coroados de sucesso cinco anos depois. Esse novo Bizarro será usado para libertar a Terra do jugo do Sindicato do Crime (tema para um próximo artigo).

A mais recente versão de Bizarro em Os Novos 52!.
Noutros media: Símbolo da cultura pop, Bizarro quedou-se num honroso 25º lugar no ranking dos 100 Melhores Supervilões dos Quadradinhos organizado pelo site IGN. A sua estreia fora das páginas da banda desenhada data de 1978, num episódio da série de animação Challenge of the Super Friends, onde surge inserido na Legion of Doom. Além de ulteriores participações em produções similares, o clone defeituoso do Super-Homem marcou igualmente presença em episódios avulsos das séries televisivas Superboy (1989-1992), Lois & Clark: New Adventures of Superman (1993-1997) e na 6ª temporada de Smallville (2006-07).


Bizarro em Superboy.

      No cinema, Bizarro integra o elenco do filme de animação (ainda inédito em Portugal) JLA Adventures: Trapped in Time (2014). Não sendo, por outro lado, consensual se a contraparte maligna do Homem de Aço originada pela exposição à kryptonita vermelha em Superman III (1983) corresponderia a uma personificação de Bizarro ou a uma simples projeção do subconsciente do herói. Certo é que circulam neste momento rumores na internet acerca de estar a ser equacionada a produção de um filme a solo da criatura. O tempo dirá se há algum fundamento neles...