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sexta-feira, 31 de Outubro de 2014

HEROÍNAS EM AÇÃO: CRISTAL




    Antiga X-Man e atual agente da S.H.I.E.L.D., a heroína mutante conhecida como Cristal foi fruto de uma iniciativa multimédia conjunta da Marvel Comics e de uma editora discográfica visando promover uma estrela do disco sound. Mesmo tratando-se de uma personagem datada, logrou resistir à passagem do tempo, conquistando lugar cativo na mitologia da Casa das Ideias e no coração dos fãs.

Nome original da personagem: Dazzler 
Licenciadora: Marvel Comics
Primeira aparição: The Uncanny X-Men #130 (fevereiro de 1980)
Criadores: Tom DeFalco/Roger Stern (história) e John Romita, Jr. (arte)
Identidade civil: Alison Blaire
Local de nascimento: Gardendale, Long Island (Nova Iorque)
Parentes conhecidos: Carter Blaire (pai falecido), Katherine Blaire (mãe, também conhecida como Barbara London), Lois London (meia-irmã) e  Longshot (marido)
Afiliação: Ex-membro dos Gladiadores (grupo de lutadores mutantes que atuavam num teatro subterrâneo de Los Angeles) e dos X-Men. É atualmente uma operacional ao serviço da S.H.I.E.L.D.
Base de operações: Móvel
Armas, poderes e habilidades:  A habilidade mutante de Cristal consiste em converter vibrações sónicas captadas pelo seu organismo em vários tipos de luz. Esta habilidade parece operar numa vasta gama de frequências, incluindo o espectro audível. No entanto, a heroína prefere usar sons musicais como fonte de alimentação dos seus poderes. Não só por serem mais agradáveis aos seus ouvidos, mas também porque asseguram uma menor aleatoriedade. Donde resulta um maior controlo de Cristal sobre as suas habilidades, permitindo-lhe assim definir a cor, frequência, intensidade e duração dos feixes luminosos por si produzidos. Além, claro, de os conseguir direcionar com precisão para um determinado alvo.
  Originalmente, Cristal apresentava-se apetrechada com um leitor de cassetes customizado que lhe providenciava a música de que necessitava para ativar os seus poderes. Mais tarde, passou a envergar um traje especial - concebido pelo Professor Xavier - que lhe permitia armazenar os sons por ela absorvidos. Com o tempo, Alison desenvolveu a capacidade de acumular os sons captados no interior do seu corpo, libertando-os em pequenas porções sob a forma de luz ou de energia.
  Cristal consegue gerar um plêiade de efeitos luminosos: desde simples padrões multicoloridos para abrilhantar os seus concertos até à projeção de lasers ou de pulsos de luz estroboscópica que cegam e/ou afetam temporariamente o equilíbrio dos seus oponentes. Com algum esforço e concentração, Alison consegue ainda produzir hologramas tridimensionais de pessoas ou objetos, bem como erguer escudos defletores que a protegem de ataques com projéteis ou rajadas energéticas. Graças aos seus olhos polarizados, ela não é encandeada pela luz, própria ou alheia. Do mesmo modo, um sofisticado sistema natural de ecolocalização, permite-lhe detetar sons impercetíveis ao ouvido humano antes de os absorver e transformar em energia.
   Um fluxo ultraconcentrado de fotões sólidos é, todavia, a mais poderosa manifestação das suas habilidades mutantes. Devido à enorme quantidade de energia necessária à sua geração, no passado a heroína relutava em usar esse poder, sob pena de ficar exaurida. Aquando da sua passagem pelos X-Men aprendeu, contudo, a fazê-lo em segurança. Durante o mesmo período demonstrou ser capaz de manipular o espectro eletromagnético por forma a criar radiação de micro-ondas com considerável potencial destrutivo.
    Alison é também uma atleta de topo que aperfeiçoou as suas técnicas de combate corpo a corpo em resultado do treino recebido no Instituto Xavier para Jovens Sobredotados. Hábil patinadora, nos primórdios da sua carreira era comum usar patins magnéticos acoplados às suas botas, os quais lhe permitiam mover-se a grande velocidade.
    Recentemente agraciada com um misterioso dom de ressurreição, tudo indica que Cristal não pode ser morta através dos métodos convencionais.

Rainha da pista de dança e justiceira nas horas vagas.

Histórico de publicação: Tendo como referência um projeto análogo envolvendo a banda de rock Kiss, na reta final da década de 1970 - numa altura em que o disco sound já vinha perdendo terreno para outros géneros musicais -, a editora discográfica norte-americana Casablanca Records decidiu patrocinar uma iniciativa multimédia com o fito de lançar uma nova cantora. Com efeito, desde 1977 que os Kiss dispunham de duas séries próprias (e extremamente populares) de banda desenhada que ajudavam a promover o grupo. Um caso de sucesso que a Casablanca Records pretendia replicar para daí retirar proventos. Nesse sentido, firmou uma parceria com a Marvel Comics, incumbida de conceber uma super-heroína que seria uma espécie de Rainha do Disco Sound. Em paralelo, a Casablanca Records introduziria no mercado uma nova estrela musical. Esta plataforma multimédia ficaria completa com inclusão da Filmworks, sob cujos auspícios seria produzida uma longa-metragem protagonizada pela nova personagem.

Desde 1977 que os Kiss vivem aventuras aos quadradinhos.

   Definidos os moldes e objetivos do projeto, Jim Shooter, à época editor-chefe da Marvel, logo apresentou um primeiro esboço do conceito: na sua versão primitiva, a personagem (ainda sem nome atribuído) seria uma cantora com o poder de obrigar qualquer pessoa a dizer a verdade. No entanto, Shooter também logo se deparou com a primeira dificuldade à realização do projeto: nenhum dos principais argumentistas ou ilustradores da Marvel queria ter nada a ver com ele.
     A solução encontrada passou por contratar o ex-argumentista da Archie Comics, Tom DeFalco. O qual introduziu diversas alterações ao conceito original desenvolvido por Shooter: em alternativa à capacidade de levar as pessoas a dizerem a verdade, DeFalco sugeriu que a personagem tivesse poderes baseados na luz. Aprovada a ideia, coube a John Romita, Jr. desenhar o visual de Dazzler (assim crismada pelo argumentista Roger Stern e que, em tradução literal, é sinónimo de "deslumbrante" ou "estonteante").
    Como modelo para a conceção da aparência da nova personagem, Romita, Jr. usou inicialmente Grace Jones, uma exótica manequim, cantora e atriz afro-americana muito em voga na época. Contudo, a Filmworks pretendia aproveitar o projeto para promover a também modelo e atriz Bo Derek. Nesse sentido, impôs alterações ao visual de Dazzler, plasmando as características fisionómicas da curvilínea protagonista de Bolero (1984).

Bo Derek, a beldade que serviu de modelo aos criadores de Cristal.
   
  A Casablanca Records, por seu turno, insistiu para que Dazzler fosse promovida através de participações especiais nos principais títulos da Marvel: The Fantastic Four, The Amazing Spider-Man e The Uncanny X-Men. Tratando-se de uma mutante, foi, aliás, neste último que a heroína debutou, em fevereiro de 1980.

A estreia de Cristal em The Uncanny X-Men #130 (1980), título talismã para a personagem.

  Os responsáveis da editora discográfica continuaram, não obstante, a exigir sucessivas alterações conceptuais, designadamente no que à aparência e personalidade da personagem dizia respeito. Facto que motivou os diversos cancelamentos temporários do projeto que precederam o abandono definitivo do mesmo por parte da Casablanca Records, alegadamente por razões financeiras. Perante este revés, à Casa das Ideias não restou outro remédio se não apostar numa série mensal estrelada pela sua nova coqueluche.
    Fazendo no fé no testemunho de Tom DeFalco, o lançamento de um título próprio de Dazzler foi adiado cinco ou seis vezes, antes da sua materialização em março de 1981.Isto porque, nesse ínterim, a Marvel (já depois de a Filmworks ter desertado do projeto) afadigou-se na busca de produtores cinematográficos dispostos a investirem num filme baseado na personagem. Mesmo sem lograrem êxito nessa sua demanda, Jim Shooter e Stan Lee resolveram avançar com o lançamento da série mensal intuindo o sucesso da mesma.
    Assim, Dazzler #1 foi editado no sentido de espelhar as transformações operadas no Universo Marvel e para se enquadrar no novo formato de publicações compostas por 22 páginas. Outra das alterações introduzidas no conteúdo do número inaugural da série consistiu na exclusão de Ciclope (então líder dos X-Men) como convidado especial e na inserção da benjamim dos pupilos do Professor X, Kitty Pryde (futura Lince Negra). Como bónus, o referido volume continha igualmente a origem de Dazzler, entretanto estrategicamente distanciada do universo disco sound, numa altura em que era já evidente a sua decadência.
   Numa aposta de alto risco, Jim Shooter deliberou que Dazzler #1 fosse colocado à venda somente em lojas de comics especializadas, contornando dessa forma o tradicional circuito de distribuição comercial. Resolução com tanto de inédita como de audaciosa, considerando que à data a indústria dos quadradinhos atravessava uma fase conturbada.
    Com mais de 400 mil exemplares vendidos (correspondendo a mais do dobro da média de vendas desse tipo de material), Dazzler #1 saldou-se num estrondoso sucesso. Facto a que não foram decerto alheias as participações, ao longo dos seus cinco primeiros números, de algumas personagens de charneira da Marvel: Homem-Aranha, X-Men, Hulk, Doutor Destino e até mesmo Galactus abrilhantaram com a sua presença as histórias da neófita heroína. Que, por sua vez, retribuiu a cortesia marcando ocasionalmente presença em títulos como The Avengers ou The Uncanny X-Men.

O primeiro número de Dazzler valeu um recorde de vendas à Marvel.

   Malgrado o seu sucesso comercial, Dazzler não escapou a críticas. Muitos eram os leitores que desaprovavam o enfoque dado nas histórias da personagem a aspetos da sua vida pessoal e familiar, em detrimento de sequências de ação mais consentâneas com o género super-heroico. Também o facto de a heroína usar o mesmo traje quando atuava em palco ou quando combatia malfeitores mereceu duras críticas por parte de alguns fãs.
     A esse propósito Tom DeFalco teceu, anos depois, as seguintes considerações: "Havia nessas críticas uma hipocrisia intrínseca por parte de alguns leitores: ao mesmo tempo que clamavam por conceitos inovadores, exigiam que Dazzler se conformasse aos esterótipos preexistentes no género".

Tom DeFalco.

   John Romita, Jr. abandonou o título ao fim de três edições, sendo substituído por Frank Springer. DeFalco, por sua vez, manteve-se como argumentista da série até ao seu sexto número. Continuou, porém, a supervisionar o trabalho desenvolvido pelo seu sucessor, Danny Fingeroth. Este e Springer formariam uma dupla criativa estável até Dazzler #27 -dois números depois de o título passar a bimestral em virtude da quebra de vendas registada. Esta nova periodicidade de publicação, aliada às muitas modificações sofridas pela personagem (Springer convertera-a numa aspirante a atriz em Los Angeles), tornaram-na ainda menos apelativa tanto para os seus atuais leitores como para os novos.


John Romita, Jr.
   Perante este quadro precário, a Marvel procurou revitalizar a série interligando-a com uma graphic novel ( Dazzler, The Movie, a quadrinização do guião do filme nunca realizado da personagem) e uma minissérie estreladas pela heroína. Se a primeira foi aclamada pela crítica e pelos leitores, a segunda redundou num fiasco.
     Com as vendas em queda livre, a Marvel apostou as fichas todas na dupla composta pelo argumentista Archie Goodwin e pelo desenhista Paul Chadwick , que assumiram a produção de Dazzler a partir do seu 38º número. Eliminado o subtexto que caracterizava anteriormente as suas histórias, Dazzler aproximou-se mais do conceito genérico de super-heroína, ganhando de passagem um novo uniforme. Nada disso foi, porém, suficiente para salvar a série, que acabaria cancelada em 1985.
     Depois de ter sido equacionada a hipótese de conceder a Dazzler o estatuto de fundadora do X-Factor (equipa inicialmente formada pelos cinco X-Men originais), a ideia seria descartada devido à decisão de ressuscitar Jean Grey. A alternativa passou por integrá-la nos X-Men, ao lado dos quais atuou até aos primeiros anos da década de 1990, altura em que se eclipsou. Seguiu-se uma longa travessia do deserto, interrompida apenas por esporádicas aparições em histórias alheias. Seria, pois, preciso esperar até ao dealbar do presente século para assistirmos ao regresso triunfal de Dazzler. Com o lançamento de The New Excalibur, a heroína mutante voltou a assegurar presença regular no Universo Marvel. Quando a série foi cancelada, Dazzler tornou-se coadjuvante no título onde se estreou: The Uncanny X-Men.
    Em fevereiro de 2010, chegou às bancas norte-americanas uma edição especial estrelada por Dazzler, escrita por Jim McCann e com arte a cargo de Kalman Andrasofszky. Um par de anos volvidos, a personagem reapareceu, (agora na qualidade de operacional da S.H.I.E.L.D) novamente nas páginas de The Uncanny X-Men. É caso para dizer que a boa filha a casa torna...
   
A graphic novel que retrata o filme nunca feito de Cristal.
     
Biografia: Filha única do casal Carter e Katherine Blaire, Alison nasceu em Long Island, um subúrbio de Gardendale, Nova Iorque. Os seus progenitores tinham uma relação tensa, uma vez que o seu pai era um austero estudante de Direito, ao passo que a sua mãe se considerava um espírito livre tendo na música a sua grande paixão. Em consequência dessas diferenças de personalidade, Katherine acabou por abandonar o companheiro quando Alison ainda mal gatinhava. Foi, pois, com a ajuda da avó paterna de Alison que o seu pai a conseguiu criar e educar.
   O abandono de Katherine deixou profundas marcas emocionais em Carter, que optou durante muitos anos por guardar segredo do episódio junto da filha. Quando, já adolescente, ela começou a sonhar com uma carreira ligada à música, o pai - agora um respeitado juiz - opôs-se veementemente e tentou direcioná-la para uma trajetória de vida similar à sua. Alison interiorizou então a ideia de que, um dia, conseguiria conciliar ambas as carreiras. Para essa decisão contribuiu o encorajamento recebido por parte da sua avó paterna, mais benevolente relativamente às suas veleidades artísticas.
   Alison frequentava o liceu quando as suas habilidades mutantes se manifestaram pela primeira vez. Aspirante a cantora, tinha-se voluntariado para atuar num espetáculo musical organizado na sua escola, durante o qual descobriu que, a partir de sons, conseguia gerar variados efeitos luminosos. No entanto, a sua plateia em delírio julgou tratarem-se de efeitos especiais. Uma assunção comum antes de Alison, alguns anos volvidos, revelar a sua natureza mutante. Esse foi, de resto, um dos segredos mais bem guardados da sua vida: mesmo os que lhe eram mais próximos - incluindo o próprio pai -ignoravam que Alison era, na verdade, uma homo superior.
    Em vésperas de entrar para a universidade - e para desespero do pai- , Alison começou a explorar mais ativamente os seus poderes luminosos e os seus dotes musicais, relegando para plano secundário os estudos. Com efeito, em plena cerimónia de entrega dos diplomas do liceu, a jovem comunicou ao seu progenitor que não pretendia ingressar na faculdade de Direito que ele escolhera para ela. Mesmo sem a bênção e o apoio monetário paternos, Alison estava determinada em tentar a sua sorte no mundo da música.

Os poderes luminosos de Cristal proporcionavam experiências extáticas aos seus fãs que, contudo, desconheciam que a  diva do disco sound era uma mutante.

   Alison sabia que a sua habilidade mutante de converter som em luz seria uma mais-valia para as suas performances artísticas. De facto, os estonteantes efeitos visuais que abrilhantavam os seus espetáculos logo atraíram a atenção de diversas discotecas e clubes noturnos nova-iorquinos. Adotando o pseudónimo Cristal e confecionando o seu próprio guarda-roupa (que incluía um colar com um pendente em forma de bola de espelhos herdado da sua mãe), Alison tornou-se uma das cantoras mais badaladas da cidade. Contudo, quer o seu público quer os proprietários dos estabelecimentos onde atuava, desconheciam em absoluto a verdadeira origem dos seus poderes. Apesar de alguma especulação em torno do assunto, Alison conseguiu convencer todos que se tratava de uma sofisticada tecnologia de efeitos especiais.
     Foi precisamente num dos seus espetáculos que se cruzou pela primeira vez com os X-Men, sob ataque de elementos ligados ao Clube do Inferno. Furiosa com a inusitada interrupção da sua atuação, Cristal usou as suas habilidades para neutralizar os atacantes, deixando acidentalmente um deles em estado catatónico. De seguida ajudou os heróis mutantes a encontrarem a benjamim da equipa, Kitty Pryde.
    Apesar de ter considerado excitante essa experiência ao lado dos X-Men, Cristal declinou o convite dos pupilos do Professor Xavier para se juntar à equipa, receando que o preconceito em relação aos mutantes prejudicasse a sua fulgurante carreira musical ( o que viria efetivamente a acontecer anos mais tarde).

Ao lado dos X-Men, Cristal ganharia um novo visual e um maior controlo dos seus poderes.

    Nada que a impedisse, ainda assim, de desenvolver paralelamente uma carreira de combatente do crime, ao mesmo tempo que ia travando conhecimento (mais ou menos amistoso) com outros super-heróis. Numa época em que muitos ainda questionavam o seu posicionamento moral, Cristal manteve uma fugaz parceria com Escudo Azul e um ainda mais fugaz romance com o Anjo. Enfrentou também vários pesos pesados vilanescos: Doutor Destino, Encantor e Terrax (o brutal arauto de Galactus). Pelo meio foi coagida a juntar-se ao Clube do Inferno, cuja Rainha Branca (Emma Frost) cedo percebeu o potencial dos poderes da jovem.
    Num golpe do destino, Alison descobriu por acaso que a sua treinadora vocal era, afinal, a mãe que a abandonara ainda bebé. Com essa descoberta veio um conjunto de revelações bombásticas: depois de abandonar a filha e o companheiro, Katherine mudara-se para a Costa Oeste, assumira a identidade de Barbara London e constituíra nova família. Alison ficou também ao corrente do passado de toxicodependência da mãe, dos abusos por ela sofridos às mãos do seu novo companheiro e da existência de uma meia-irmã de seu nome Lois London. Ela e Alison logo se tornaram inseparáveis.
    Outro ponto de viragem na vida pessoal e profissional de Alison ocorreu quando ela revelou publicamente a sua condição de mutante. Contrariando as suas expectativas, a reação por parte dos fãs e da imprensa foi bastante adversa. Em consequência disso, Alison viu sucessivas portas fecharem-se-lhe, em Nova Iorque levando-a a migrar para Los Angeles na esperança de aí poder encetar uma carreira como atriz. Acabaria, no entanto, por se juntar durante a sua estada na Cidade dos Anjos aos Gladiadores, um grupo de combatentes mutantes que lutavam entre si até à morte num teatro subterrâneo para diversão de humanos endinheirados. Uma experiência que também não terminou da melhor maneira: depois de ter sido drogada e obrigada a combater com o Fera, Alison abandonou os Gladiadores. Sob diversos nomes falsos, passou então a trabalhar como empregada de mesa em restaurantes da cidade.
    Algum tempo depois, Alison regressou a Nova Iorque e procurou a ajuda do Professor Xavier. Este forneceu-lhe um novo uniforme que lhe permitia não só armazenar sons como também amplificava as suas habilidades mutantes. Recebeu também de Wolverine treino intensivo em técnicas de sobrevivência e combate corpo a corpo.Findo o qual, uma revigorada Cristal se tornou membro de pleno direito dos X-Men.
    Ao lado dos pupilos de Xavier, Cristal conheceu Longshot, um herói mutante oriundo de um mundo extradimensional e seu futuro marido. Para ficar junto dele, a jovem abandonou a Terra e os X-Men durante alguns anos.

Cristal na sua segunda passagem pelos X-Men.

   Regressaria, no entanto, ao nosso planeta e aos X-Men após uma sucessão de contrariedades (incluindo uma gravidez interrompida) que haviam ditado o fim do seu casamento com Longshot. Apenas para ser arrastada para o épico conflito que opôs os seus companheiros de equipa aos Vingadores. Na sequência do cisma mutante daí resultante, Cristal foi recrutada pela S.H.I.E.L.D. com a missão de localizar e descobrir os desígnios da fação extremista liderada por Ciclope.
     
Alison Blaire, agente da S.H.I.E.L.D.
Noutros media: Na lista das 100 Mulheres Mais Sexys dos Quadradinhos divulgada pelo Comics Buyer's Guide, Cristal quedou-se pela 83ª posição. Embora, como vimos, tenha sido produto de uma fracassada iniciativa multimédia, a heroína mutante poucas oportunidades tem tido noutros meios de comunicação que não os quadradinhos. No seu currículo constam apenas algumas participações em séries de animação estreladas pelos Filhos do Átomo: X-Men: Pryde of The X-Men (1989), X-Men: The Animated Series (1992-1997) e Wolverine and the X-Men (2009). Exceto pelo episódio-piloto da primeira (no qual surgia integrada na equipa), nas restantes duas foi apenas coadjuvante.

Um estrela musical literalmente dotada de luz própria.

segunda-feira, 20 de Outubro de 2014

GALERIA DE VILÕES: BIZARRO



   Conhecido também como Super-Homem Bizarro ou Bizarro nº1, trata-se, a todos os níveis, de uma duplicata imperfeita do Homem de Aço. Descrito originalmente como um monstro ingénuo e desajeitado que se regia por uma lógica invertida, com o tempo tornou-se mais sinistro e ameaçador.

Nome original da personagem: Bizarro 
Primeira aparição (versão clássica): Superboy #68 (outubro de 1958)
Criadores (versão clássica)*: Alvin Schwartz / Otto Binder (história) e George Papp (arte)
Primeira aparição (versão moderna)**: Superman vol.2 #160 (setembro de 2000)
Criadores (versão moderna): Jeph Loeb (história) e Ed McGuinness (arte)
Licenciadora: DC Comics
Identidade civil: Bizarro
Local de nascimento: Terra
Base de operações: Mundo Bizarro
Parentes conhecidos: Lois Lane Bizarra (esposa), Bizarro Jr. (filho, na realidade pré-Crise)
Afiliação: Liga da Injustiça, Sociedade Secreta de Supervilões, Liga da Anarquia do Joker
Armas, poderes e habilidades: Originalmente, Bizarro dispunha de poderes e habilidades similares às do Super-Homem. Em algumas versões, todavia, esses poderes e habilidades foram, em harmonia com a lógica pela qual a criatura se pauta, invertidos. Assim, em vez de visão de calor e de supersopro congelante, Bizarro passou a ser dotado, respetivamente, de visão congelante e supersopro incandescente. Acresce a isto o insólito facto de a sua visão de raios X apenas lhe permitir ver através do chumbo. Por outro lado, também a sua visão microscópica tem a particularidade de tornar qualquer objeto mais pequeno aos olhos de todas as pessoas, ao invés de permitir ampliá-lo apenas aos olhos do seu usuário. À parte estas diferenças relativamente à sua matriz, Bizarro possui superforça equivalente (ou, em algumas versões, superior) à do Homem de Aço, invulnerabilidade, poder de voo e supervelocidade.
Fraquezas: À imagem e semelhança do Super-Homem, Bizarro tem na kryptonita a sua maior fraqueza. Na sua variante azul (por oposição à verde), o mineral drena-lhe os poderes e, em caso de exposição prolongada, poderá ser-lhe fatal. Outra das suas vulnerabilidades advém do seu intelecto limitado. Apesar do seu elevado nível de poder, a criatura possui um QI equivalente ao de uma criança de cinco anos.

*/**: baseado no conceito original desenvolvido por Jerry Siegel e Joe Shuster

Bizarro não é mais do que um reflexo invertido do Homem de Aço.

Histórico de publicação: Bizarro debutou em Superboy #68 (com data de outubro de 1958, mas colocado à venda nos EUA em agosto desse ano). Através da introdução da nova personagem, o escritor Otto Binder rendeu um tributo ao monstro de Frankenstein, atribuindo-lhe poderes idênticos aos do Rapaz de Aço. Rejeitada pela sua aparência grotesca, a versão juvenil de Bizarro não mais voltaria a aparecer nas aventuras de Superboy. Reaparecendo, contudo, pouco tempo depois, já adulto, numa tira diária estrelada pelo Super-Homem e escrita por Alvin Schwartz. Este sempre reclamou a paternidade da personagem, afirmando ter desenvolvido o conceito antes da primeira aparição de Bizarro nas páginas de Superboy. Diga-se, em bom rigor, que o discurso invertido e na terceira pessoa do singular adotado por Bizarro na referida tira serviria daí em diante de padrão à forma de expressão da criatura. Com efeito, para decifrar os comentários de Bizarro, é necessário ter em conta os antónimos de tudo o que ele diz: "mau" significa "bom", "salvar" é sinónimo de "matar", e por aí fora. É, aliás, essa sua imperfeição que faz dele um vilão, visto que, em grande parte das vezes, a criatura apenas tenta imitar o Super-Homem, acabando por causar problemas ao agir de maneira diametralmente oposta à do herói. De referir ainda que, como marca distintiva, na tira ele usava um "B" e não o célebre "S" invertido.

A estreia de Bizarro em Superboy #68 (1958).

   Em discurso direto, Alvin Schwartz explicou assim o processo criativo de que resultou tão burlesca personagem: "Pode dizer-se que eu me andava a debater com a ideia de reflexos invertidos. As imagens que o espelho nos mostra são sempre reversas, uma espécie de negativos das originais.  Esse conceito entusiasmou-me, numa época em que as principais personagens dos comics, de tão unidimensionais, eram demasiado simplistas, logo fastidiosas. Procurei, por isso, adicionar uma nova dimensão ao Super-Homem, por via de uma sua réplica defeituosa. Bizarro correspondeu, em certa medida, ao arquétipo de "sombra" introduzido por Carl Jung, e no qual me inspirei quando me propus a criar a personagem."


Bizarro e Super-Homem: a cópia imperfeita e o original.

   Otto Binder, por seu turno, apresentou a versão adulta de Bizarro (ostentando já o característico "S" reverso como insígnia) em Action Comics #254 (julho de 1959). Contrariamente ao que se verificara com a sua variante juvenil, desta feita Bizarro teve uma receção positiva por parte dos leitores das histórias do Homem de Aço. Mercê da sua inesperada popularidade, Bizarro protagonizou de seguida um arco de histórias publicado ao longo de 15 números de Adventure Comics, no período compreendido entre junho de 1961 e agosto de 1962. Estrelou ainda uma edição especial com 80 páginas de Superman #202 (dezembro de 1967/janeiro de 1968). Acrescente-se que grande parte das suas aventuras passaram a ser ambientadas no Mundo Bizarro, cópia imperfeita da Terra (começando pela sua forma cúbica) onde vigoravam uma lógica e uma moral assimétricas às aplicadas no nosso planeta.
    Desde a sua primeira aparição, em 1958, até à reestruturação da cronologia da DC no âmbito de Crise nas Infinitas Terras (1985), Bizarro marcou presença em 40 ocasiões nos títulos que compunham o cardápio de publicações do Super-Homem: Action Comics, Superman, Superman's Pal Jimmy Olsen, Superman's Girlfriend Lois Lane, Adventure Comics, Secret Society of Super Villains e DC Comics Presents.


Otto Binder.
Alvin Schwartz.

   Com uma aparência semelhante à original, Bizarro foi reintroduzido no Universo DC pós-Crise numa história publicada em Man of Steel #5 (dezembro de 1986), no final da qual terá aparentemente morrido. Seria, porém, revivido no âmbito da saga Bizarro's World narrada no universo de títulos do Último Filho de Krypton, entre março e abril de 1994, e em Action Comics Annual #8 (1996). Sem qualquer relação com esse arco de histórias, foi também lançada, em 1999, uma minissérie mensal em quatro volumes sob o título A. Bizarro.
    Outra versão da personagem foi apresentada na saga Emperor Joker (que entre, setembro e outubro de 2000, preencheu o leque de títulos do Super-Homem nos EUA). De então para cá, Bizarro conservou, essencialmente por via de participações especiais em aventuras alheias, o seu lugar na continuidade da DC e na mitologia do Homem de Aço. Como se perceberá mais adiante neste artigo, a criatura voltou recentemente à ribalta através da sua participação na minissérie Forever Evil (Vilania Eterna, a ser atualmente publicada no Brasil sob a égide da Panini Comics). Nesta sua versão de Os Novos 52!, a criatura é um clone disforme do Super-Homem, produzido por Lex Luthor a partir de uma única célula extraída do herói kryptoniano.
    Comum a todas as versões de Bizarro, o óbvio paralelo que é possível traçar com a fábula do monstro de Frankenstein. Uma criatura grotesca e desprovida de alma, cuja natureza dramática a torna merecedora de compaixão visto que, em última análise, apenas procura ser humano.

O século XXI trouxe um Bizarro mais caricatural, mas também mais sinistro.
Biografia: Na sua versão primitiva, a origem de Bizarro remetia para um passado distante de Krypton: com o fito de se tornar regente absoluto do planeta, o General Zod recorreu em tempos à engenharia genética para produzir centenas de sósias seus. Ainda que desprovidos de superpoderes (devido à ausência de um sol amarelo idêntico ao da Terra), os clones (que mercê do seu aspeto defeituoso foram alcunhados de Bizarros) revelaram-se contudo soldados obedientes, dispostos a matar ou morrer sem hesitação. Foi, de resto, este episódio que motivou o banimento de Zod para a Zona Fantasma.
   Desconhecendo estes eventos, anos depois um cientista terrestre convidou o Superboy para assistir a uma demonstração do seu chamado raio de duplicação. Quando o jovem herói foi acidentalmente atingido pelo raio, logo surgiu uma réplica sua. Devido à sua pele cor de giz, ao seu semblante desfigurado e ao seu comportamento errático, a criatura foi batizada de Bizarro.
  Repudiado pelo povo de Smallville, Bizarro encontrou numa jovem invisual um pouco de afeto e empatia. Perdeu, porém, toda a esperança de ser aceite como um ser humano ao tomar consciência que apenas pela sua cegueira a rapariga não se assustara com a sua grotesca aparência.
  Face ao crescente descontrolo de Bizarro, Superboy viu-se forçado a tomar medidas drásticas, usando fragmentos de kryptonita azul extraídos dos destroços da máquina que emitira o raio de duplicação. Hesitando em tirar a vida ao seu sósia, o Rapaz de Aço foi surpreendido pelo impulso suicidário de Bizarro, que deliberadamente se empalou na lasca afiada de kryptonita azul. Da explosão que se seguiu resultou a cura milagrosa da cegueira da jovem por quem a criatura se enamorara.
    Vários anos volvidos sobre este episódio, Lex Luthor, o arqui-inimigo do Super-Homem, reproduziu o raio de duplicação que estivera na origem do primeiro Bizarro e resolveu usá-lo no Homem de Aço, confiante de que conseguiria controlar o seu clone. Este, contudo, revelou-se ainda mais volátil do que seu antecessor, não demorando a virar-se contra o seu criador. Entretanto, tentando emular o comportamento do Super-Homem, a criatura perambulou por Metrópolis, deixando um rasto de caos e destruição à sua passagem, e quase expondo a identidade secreta do herói kryptoniano como Clark Kent.
    Quando Bizarro se apaixonou por Lois Lane, a jornalista usou em si mesma o raio de duplicação, dando vida a uma cópia sua dotada de idênticas características mentais e fisionómicas às do monstro. Imediatamente atraídas uma pela outra, as criaturas resolvem deixar a Terra para partir em busca de um lar onde pudessem viver juntas e em paz.
   Algum tempo depois, o Super-Homem reencontrou o casal , descobrindo que o seu sósia usara uma versão defeituosa do raio de duplicação para criar o Mundo Bizarro, um planeta em forma de cubo habitado por caricaturas de amigos e adversários do Homem de Aço. Para se diferenciar dos restantes clones, Bizarro ostentava agora ao peito um tosco medalhão de pedra com a inscrição "Bizarro nº1".

Mundo Bizarro.

     Fruto do seu casamento com a Lois Bizarra nasceu uma criança que, apesar de dotada de superpoderes, possuía a aparência de um ser humano normal. À luz, porém, dos padrões daquele mundo insano, Bizarro Jr. (assim foi crismado o bebé) foi considerado uma aberração, servindo de catalisador para um breve conflito com a Terra. Tempo ainda assim suficiente para serem inventadas a kryptonita azul e uma Supergirl Bizarra.
     A influência de Bizarro estendeu-se também ao nosso planeta: Jimmy Olsen, fotógrafo do Planeta Diário e amigo tanto do Super-Homem como do seu alter ego Clark Kent, foi temporariamente transformado num Bizarro. Também uma versão juvenil do próprio Bizarro viajou no tempo até ao século XXX na esperança de poder ser admitido nas fileiras da Legião dos Super-Heróis. Ao ser recusada pela equipa, a criatura criou a sua própria versão da Legião. A qual acabaria por desmantelar, a pedido do Superboy.
     No encontro seguinte de Bizarro com o Homem de Aço, os poderes do primeiro sofreram mutações tão profundas que agora correspondiam à antítese dos do segundo. Por contraponto à visão de calor e ao sopro congelante do herói kryptoniano, o seu émulo passou a dispor de visão congelante e sopro incandescente. Antes de se juntar temporariamente à Sociedade Secreta de Supervilões para combater a Liga da Justiça e o Capitão Cometa, Bizarro foi malsucedido na sua tentativa de raptar a verdadeira Lois Lane.
    Na sua penúltima aparição no período que antecedeu Crise nas Infinitas Terras (ver texto anterior), um Bizarro mais irracional e violento, após obliterar o seu próprio planeta, viaja até Metrópolis onde semeia a destruição antes de abruptamente se suicidar. Eventos narrados na história What Happened to the Man of Tomorrow? (setembro de 1986), da autoria do celebrado escritor Alan Moore.
   Nesse mesmo mês, DC Comics Presents #97 assinala, simultaneamente, a derradeira aparição de Bizarro no Universo DC pré-Crise e o fim da própria série. Com as suas habilidades místicas amplificadas por um sinistro feiticeiro aprisionado na Zona Fantasma, o vilão interdimensional Mzyzlptlk provoca a implosão do Mundo Bizarro exterminando todos os seus habitantes, incluindo o próprio Bizarro nº1, cuja cabeça decapitada aterra na secretária de Clark Kent no Planeta Diário instantes antes de a sua última centelha de vida se exaurir. Derivando deste facto a não participação de Bizarro na saga que revolucionou para sempre a cronologia da Editora das Lendas.
    No entanto, os eventos supramencionados contradizem uma história posterior na qual é revelado que, algures no futuro, o Mundo Bizarro não só continuaria a existir como teria assumido uma forma mais convencional (assemelhando-se agora a um ovo) devido à radiação libertada pela explosão de um misterioso corpo celeste. Ainda em consequência disso, os habitantes do planeta haviam adquirido uma aparência humana, conquanto subsistissem alguns vestígios da lógica invertida que durante muito tempo regeu os destinos do Mundo Bizarro.
    No pós-Crise, Lex Luthor, depois de ver o Super-Homem recusar o seu convite para que trabalhasse para ele, ordena aos seus cientistas que produzam um clone do Homem de Aço. A experiência, porém, fracassa, na medida em que Luthor desconhecia ainda a origem alienígena do herói, julgando equivocadamente tratar-se de um humano geneticamente modificado. Do processo resulta, assim, uma réplica disforme do Super-Homem, prontamente descartada por Luthor.

No pós-Crise Bizarro ressurgiu mais sombrio do que o original.

   O monstro, no entanto, sobrevive. Embora mudo e possuindo apenas uma inteligência rudimentar, o bizarro ser, impulsionado por vagas memórias herdadas da sua matriz, procura mimetizar as ações heroicas do Homem de Aço. Depois de causar grande perturbação em Metrópolis, impede a irmã mais nova de Lois Lane, Lucy, de cometer suicídio. Cega, a jovem julga ter sido o Super-Homem o seu salvador. No entanto, quando Bizarro tenta raptar Lois, o Homem de Aço entra em ação para detê-lo. No clímax do titânico duelo aéreo que se segue, Bizarro é destruído pelo herói. Lucy é coberta pelas partículas resultantes da explosão da criatura, recuperando milagrosamente a visão. Pairando no ar a ideia de que Bizarro terá provocado a própria morte para curar a rapariga.
   Um segundo Bizarro, capaz de falar e de articular pensamentos toscos, resultou, uma vez mais, da tentativa de Luthor de clonar o Homem de Aço. O vilão, a braços com uma doença degenerativa, planeava transferir a sua mente para o corpo do clone. Este, porém, rebelou-se contra os seus criadores, evadiu-se do complexo da LexCorp e, ao mesmo tempo que definhava em ritmo acelerado, construiu um grotesco arremedo de Metrópolis num armazém abandonado. Numa paródia distorcida do heroísmo do Super-Homem, Bizarro, depois de sequestrar Lois Lane, expô-la deliberadamente a situações de enorme perigo com o intuito de a "salvar". Perseguido pelo herói kryptoniano, Bizarro voou até Smallville para raptar Lana Lang (o primeiro amor do jovem Clark), mas acabou derrotado pelo Super-Homem. Devolvido à LexCorp, o monstro usou a sua última réstia de poder para incendiar o laboratório onde estava aprisionado, morrendo no processo.

Um dos muitos confrontos do Homem de Aço com a sua cópia bizarra.
    Houve ainda um terceiro Bizarro criado pelo Joker, depois do arqui-inimigo do Batman ter roubado os poderes de Mxyzptlk, um criminoso da 5ª Dimensão. Com eles, o Palhaço do Crime concebeu uma versão distorcida da Terra e autoproclamou-se seu Imperador. Para o lugar de maior herói do planeta, o vilão criou a sua versão insana do Super-Homem. Cabendo-lhe igualmente liderar a Liga da Anarquia do Joker (uma perversão da Liga da Justiça).
    Durante Crise Infinita este terceiro Bizarro foi induzido pelo Professor Zoom (inimigo jurado do Flash) a juntar-se à renovada Sociedade Secreta de Supervilões acabando, inadvertidamente, por assassinar o Bomba-Humana, membro dos Combatentes da Liberdade.
    Quando, algum tempo depois, criminosos kryptonianos comandados pelo General Zod chegaram à Terra, Bizarro partiu para o espaço sideral em busca de um novo lar. Num sistema planetário dominado por um sol azul, ele gerou um mundo em forma de cubo que preencheu com reproduções abstratas de cenários terrestres. Graças, por outro lado, à radiação do referido sol azul, a criatura adquiriu um novo poder: a visão Bizarro. Com ela, o monstro conseguia criar outros Bizarros. A sua primeira criação foi uma Lois Bizarra que, contudo, o rejeitou. Sentindo-se só e angustiado, Bizarro voou até Smallville para raptar Jonathan Kent. O que obrigou o Homem de Aço a visitar o Mundo Bizarro a fim de resgatar o seu pai adotivo. Sensibilizado pelo drama do seu clone, Super-Homem ajuda-o a tornar-se um campeão da justiça e a conquistar o amor da Lois Bizarra.
    Na renovada cronologia do Universo DC saída de Os Novos 52!, Bizarro surge pela primeira vez durante os eventos narrados na saga Vilania Eterna. Cinco anos antes, Luthor havia-se proposto a criar o seu próprio exército de meta-humanos. Com esse desígnio em mente, combinou o ADN kryptoniano do Homem de Aço com o de um adolescente humano. Sendo o resultado da experiência desastroso: em vez de uma réplica do Super-Homem, tudo o que Luthor obtém é um monstro disforme, imune aos efeitos da kryptoninta e detentor de poderes opostos aos do herói que lhe serviu de matriz. Deduzindo a fraqueza da criatura, Luthor expõe-a a uma dose maciça de energia solar, que sobrecarrega as suas células, matando-a.
    Apesar do falhanço, Luthor não desiste dos seus intentos. Recolhendo amostras do clone defeituoso, o magnata, apostado em recriar um kryptoniano perfeito, retoma as suas experiências de bioengenharia. Vendo os seus esforços coroados de sucesso cinco anos depois. Esse novo Bizarro será usado para libertar a Terra do jugo do Sindicato do Crime (tema para um próximo artigo).

A mais recente versão de Bizarro em Os Novos 52!.
Noutros media: Símbolo da cultura pop, Bizarro quedou-se num honroso 25º lugar no ranking dos 100 Melhores Supervilões dos Quadradinhos organizado pelo site IGN. A sua estreia fora das páginas da banda desenhada data de 1978, num episódio da série de animação Challenge of the Super Friends, onde surge inserido na Legion of Doom. Além de ulteriores participações em produções similares, o clone defeituoso do Super-Homem marcou igualmente presença em episódios avulsos das séries televisivas Superboy (1989-1992), Lois & Clark: New Adventures of Superman (1993-1997) e na 6ª temporada de Smallville (2006-07).


Bizarro em Superboy.

      No cinema, Bizarro integra o elenco do filme de animação (ainda inédito em Portugal) JLA Adventures: Trapped in Time (2014). Não sendo, por outro lado, consensual se a contraparte maligna do Homem de Aço originada pela exposição à kryptonita vermelha em Superman III (1983) corresponderia a uma personificação de Bizarro ou a uma simples projeção do subconsciente do herói. Certo é que circulam neste momento rumores na internet acerca de estar a ser equacionada a produção de um filme a solo da criatura. O tempo dirá se há algum fundamento neles...



quarta-feira, 8 de Outubro de 2014

DO FUNDO DO BAÚ: «CRISE NAS INFINITAS TERRAS»



   No ano em que comemorou meio século de existência, a DC resolveu reunificar a sua cronologia. Sentenciando, assim, à morte um intrincado Multiverso em constante expansão. Nesse novo começo, algumas personagens emblemáticas tiveram a sua mitologia revista, ao passo que outras, pura e simplesmente, deixaram de existir. Nada, porém, voltaria a ser como dantes.

Título original da saga: Crisis on Infinite Earths
Licenciadora: DC Comics
Publicada originalmente em: Crisis on Infinite Earths #1 a 12 (abril de 1985 a março de 1986)*
Argumento: Marv Wolfman
Arte: George Pérez
País: EUA

* Mercê da envergadura e alcance da saga, a mesma teve ramificações em praticamente toda a linha de títulos, à data, publicados pela DC.


Edição brasileira:



Título: Crise nas Infinitas Terras
Data: Maio a julho de 1989 (1ª série)*
Editora: Abril Jovem
Categoria: Série especial em três edições mensais**
Formato: Formatinho económico (13,5 x 19 cm), colorido e com lombada quadrada
Número de páginas: 132 por cada edição
Na minha coleção desde: 2009

* Em 1996 a Abril lançaria uma 2ª série da saga. Em 2003 seria a vez de a Panini Comics publicar uma edição encadernada composta por dois volumes em formato americano.
** A exemplo do que se verificou aquando da publicação do material original nos EUA, também no Brasil as ondas de choque da saga propagaram-se pelos títulos regulares da DC publicados, à data, pela editora Abril: Os Novos Titãs, Superamigos, Super-Homem e Super Powers.


A mãe de todas as crises.

Antecedentes: No período que antecedeu Crisis on Infinite Earths, as publicações da DC enfermavam de incoerências decorrentes de problemas de continuidade. Nenhuma das mais proeminentes personagens da editora dispunha de uma origem consistente. Nem o Super-Homem, o mais antigo dos heróis, era exceção. Retratado como o derradeiro sobrevivente do planeta Krypton, aquando da sua estreia não conseguia voar, sendo as suas habilidades sobre-humanas explicadas pelo facto de ter crescido num mundo com uma gravidade mais fraca. Não tardou, porém, a que o Homem de Aço fosse agraciado com o poder de voo, e que o nosso sol amarelo fosse referenciado como a fonte das suas formidáveis habilidades. Concomitantemente, a sua origem tornou-se mais complexa. Entre as várias alterações introduzidas, ressaltava o facto de o Último Filho de Krypton ter desenvolvido as suas capacidades ainda durante a infância, encetando a sua carreira heroica no início da puberdade como Superboy. Outros sobreviventes da destruição de Krypton foram posteriormente integrados na sua mitologia: Supergirl, Krypto, o Supercão e os habitantes de Kandor, entre outros. Adulterando irremediavelmente o conceito primordial de que Kal-El seria o único kryptoniano em todo o  Universo.
     Também a idade de algumas personagens deu azo a problemas. Sendo Batman um caso paradigmático. Como podia um simples humano, desprovido de quaisquer superpoderes ou habilidades especiais, conservar a sua vitalidade nos anos 1980, estando ativo desde a 2ª Guerra Mundial? Mais paradoxal só mesmo o facto de Dick Grayson (o primeiro Robin) ter demorado o tempo correspondente a 30 anos(!) na vida real para concluir o liceu. Um caso extremo de insucesso escolar...
    Contrassensos como estes estendiam-se a outras personagens, nomeadamente a Flash, Lanterna Verde ou Átomo, cujos poderes e origens amiúde diferiam ao sabor dos caprichos de argumentistas e editores.
    Porém, durante décadas pouco ou nada foi feito por parte dos responsáveis da DC para atar estas pontas soltas. Quis o Destino que a solução para um problema que ganhava proporções preocupantes surgisse sob a forma de uma história do Flash, publicada em 1961. Em setembro desse ano, nas páginas de The Flash #123, numa história intitulada Flash of Two Worlds, o Velocista Escarlate da Idade da Prata (Barry Allen) deu de caras com o seu predecessor da Idade do Ouro (Jay Garrick, popularizado no Brasil como Joel Ciclone). Coexistindo no mesmo espaço e no mesmo tempo, os mundos paralelos eram separados apenas por vibrações moleculares diferentes. Graças à sua supervelocidade (que lhe permitia também atravessar objetos sólidos), Flash conseguia sintonizar-se com as ditas vibrações moleculares, rompendo dessa forma a membrana invisível que apartava ambas as realidades.
     Estava assim dado o primeiro passo para a criação de um Multiverso constituído por uma multitude de Terras paralelas habitadas por heróis diferentes ou por versões alternativas das principais personagens da Editora das Lendas. Uma criação que, todavia, não tardaria a escapar ao controlo dos seus criadores...

Cover for Flash #123 (1961)
Flashes de dois mundos na história que, em 1961, lançou as bases para o Multiverso.

     Dentre as centenas de dimensões gémeas catalogadas, destacavam-se as Terras Um, Dois e Três. Sendo a primeira habitada pelas versões da Idade da Prata dos principais heróis e heroínas da DC (Flash Barry Allen, Lanterna Verde Hal Jordan, Gavião Negro Katar Hol, etc). Já a segunda servia de lar às suas respetivas contrapartes com origem na Idade do Ouro (Flash Jay Garrick, Lanterna Verde Alan Scott e os restantes membro da Sociedade da Justiça da América). Despojada de heróis, a terceira era uma espécie de reflexo invertido da primeira, nela pontificando as versões malignas de Super-Homem e companhia, reunidas no Sindicato do Crime da América. Avultavam, além destas, as Terras 4 (criada com o propósito de albergar as personagens adquiridas à Charlton Comics); S (introduzida com idêntica finalidade, mas referente à Família Marvel e demais personagens outrora propriedade da Fawcett Comics); X (onde os Combatentes da Liberdade, oriundos da extinta Quality Comics,combatiam a Alemanha nazi, vencedora da 2ª Guerra Mundial nessa realidade alternativa); Prime (mundo natal da Legião dos Super-Heróis no período pré-Crise e do pérfido Superboy Primordial); Universo de Antimatéria (também designado de Universo do Mal, o único composto por energia negativa e  lar do omnipotente Anti-Monitor).

Universo DC pré-Crise: um somatório de paradoxos.
 
    Citando Bocage, "foi pior a emenda do que o soneto". Para resolver um problema de continuidade, a DC, ao introduzir o conceito de Multiverso, criou um problema cem vezes maior. A uma já de si intrincada tapeçaria, foram, pois, acrescentadas mais pontas soltas e mais nós cegos. À medida que os anos iam passando e as Terras paralelas se iam reproduzindo em progressão aritmética, os leitores ficavam mais e mais confusos. Daí ao seu êxodo foi um pequeno passo.
    Para pôr termo a uma situação que ameaçava tornar-se insustentável, em 1985 (ano em que a Editora das Lendas comemorava o seu 50º aniversário) os mandachuvas da DC resolveram tomar medidas drásticas. A principal das quais consistiu na  reunificação da cronologia da editora, depurando-a de todos os paradoxos e inconsistências que a vinham fazendo perder terreno para a concorrência (leia-se Marvel Comics). A solução estaria encapsulada numa saga épica que assinalaria um novo começo para o Universo DC. E que, se tudo corresse conforme planeado, de caminho serviria para atrair uma nova leva de leitores.
    Marv Wolfman (vide texto anterior) e George Pérez - dupla criativa responsável, um par de anos antes, pelo enorme êxito da série The New Teen Titans -  foram os eleitos para dar forma a esse ambicioso projeto. A eles juntaram-se ainda os ilustradores Jerry Ordway, Mike DeCarlo e Dick Giordano.

 George Pérez (esq.) e Marv Wolfman abraçaram novo desafio.

    Uma das mais grandiosas e impactantes sagas da DC, Crisis on Infinite Earths foi um título inspirado em histórias anteriores envolvendo o contacto entre Terras paralelas incorporadas no chamado Multiverso, como foi o caso de Crisis on Earth-Two e de Crisis on Earth Three. Com efeito, ontem como hoje, a palavra "crise" ocupava lugar de grande destaque no léxico da Editora das Lendas, subjacendo-lhe a ideia de um conflito interdimensional, como aquele que, anos atrás, envolvera a Liga da Justiça da América e a Sociedade de Justiça da América em Crisis on Earth One.

Universo DC pré-Crise: (quase) nada voltaria a ser como  dantes.
 
    De acordo com o plano editorial inicialmente delineado, foi elaborada uma listagem que claramente definia quais eram as personagens que continuariam a fazer parte do Universo DC, e aquelas que seriam eliminadas. Numa reunião ocorrida fora da sede da editora - e na qual participaram a sua presidente (Jenette Khan), os seus vice-presidentes/editores executivos (Paul Levitz e Dick Giordano) bem como os restantes editores-, foram estabelecidas as linhas-mestras do projeto.
   O caminho para a anunciada revolução começou a ser pavimentado um ano antes do lançamento de Crisis on Infinite Earths. Período ao longo do qual o misterioso Monitor foi sendo gradualmente introduzido nas páginas de vários títulos da DC, invariavelmente dissimulado nas sombras, sugerindo tratar-se de um vilão.
   Incapaz de conciliar o seu trabalho de arte-finalista da saga com as funções de vice-presidente e editor executivo, Dick Giordano, malgrado as suas objeções, foi afastado do projeto, sendo substituído por Jerry Ordway.
  Contrariamente ao que o seu escopo e magnitude fariam prever, a promoção de Crisis on Infinite Earths foi virtualmente nula. Não obstante, a saga viria a revelar-se um estrondoso sucesso a vários níveis, incluindo o do marketing. Ao ser bem sucedida no seu desiderato de produzir um interesse renovado no Universo DC, Crisis on Infinite Earths teve, pois, o mérito de angariar um número considerável de novos leitores. Contrariando dessa forma a posição dominante detida pela Marvel no mercado editorial de comics. Outro dos seus méritos consistiu em desbravar caminho para a revitalização da Editora das Lendas, por intermédio de outras sagas igualmente arrojadas, como Watchmen (de Alan Moore) ou Batman: The Dark Knight Returns (de Frank Miller).
  Crisis on Infinite Earths popularizou ainda o conceito de crossover em larga escala, já antes experimentado pela Marvel através de Contest of Champions (1983) e de Secret Wars (1984). Foi assim inaugurada a tendência de, a cada ano, as duas arquirrivais lançarem uma maxissérie, cujos eventos e consequências são transversais ao respetivo cardápio de títulos regulares.
  No entanto, apesar de todas as suas virtualidades, Crisis on Infinite Earths revelou-se (como se perceberá mais abaixo) uma espécie de paliativo para a doença crónica de que, volvidos todos estes anos, a DC continua a padecer. Significando isto que, aos poucos, o Multiverso seria ressuscitado e, com ele, os velhos problemas de continuidade. Havendo, portanto, a necessidade de, uma e outra vez, repetir a terapêutica, sob a forma de sagas similares.Sempre  com o objetivo último de  atualizar uma cronologia a que é estranho o conceito de linearidade. Exemplos: Zero Hour (1994), Infinite Crisis (2005-06) e Final Crisis (2008-09). Com estas duas últimas a serem apresentadas pela DC como o segundo e terceiro capítulos de uma trilogia inaugurada por Crisis on Infinite Earths. E que, em última análise, serviram de preâmbulo para o projeto The New 52! (2011). Matérias para um próximo post...

Nas suas primeiras aparições, o Monitor foi tomado por uma ameaça.

Enredo: Desde a Aurora dos Tempos que Maltus era habitado por uma raça pacífica e altamente evoluída. Entre ela pontificava Krona, reputado cientista que almejava descobrir os segredos da criação do Universo. Para esse efeito concebeu uma sofisticadíssima máquina capaz de gerar um portal no espaço-tempo. Através dele, Krona pôde assistir com os seus próprios olhos ao momento que antecedeu a Criação. Contudo, algo correu mal e a máquina de Krona explodiu. Dessa explosão nasceu o Universo de Antimatéria. A sua simples existência originou uma onda de Mal, responsável pela corrupção de milhares de mundos. Simultaneamente, o nosso Universo foi desdobrado em infinitas dimensões paralelas, dando assim lugar ao Multiverso.
   Sentindo-se responsáveis pela catástrofe, os Maltusianos procuraram meios para erradicar o Mal libertado pela imprudência do seu compatriota. Alguns deles migraram então para o planeta Oa, passando a proteger o Cosmos como os Guardiões do Universo. Entre os vários instrumentos que utilizaram para esse fim, destacam-se os Caçadores Cósmicos e a Tropa dos Lanternas Verdes.
    Entretanto, numa das luas de Oa, nasceu um omnipotente ser que atendia pelo nome de Monitor. Ao mesmo tempo, numa das luas de Qward (um dos planetas do Universo de Antimatéria) ganhava vida a sua antítese: o Anti-Monitor. Pressentindo a presença um do outro, os dois seres empreenderam um titânica batalha que durou um milhão de anos. Até que, após um devastador ataque simultâneo, ambos ficaram em estado catatónico.

Monitor e Anti-Monitor: duas faces da mesma moeda.
 
    Incontáveis eras depois, numa das múltiplas Terras, outro brilhante cientista, Pária, permitiu que a sua obsessão acerca da génese do Universo se sobrepusesse ao mais elementar bom senso. À imagem e semelhança de Krona, desenvolveu uma câmara que lhe permitiria viajar através do continuum espaço-temporal até ao momento da Criação. Ao fazê-lo desencadeou uma imparável reação em cadeia que destruiu tudo à sua passagem. Pária tornou-se, assim, o único sobrevivente do seu malogrado Universo.

Pária, um homem amaldiçoado.

    Como se isso não bastasse, a explosão reverberou por toda a Existência, despertando o Monitor e, claro, o seu émulo malvado. O primeiro, intuindo os insanos planos do segundo, construiu um satélite onde catalogou os heróis e vilões das múltiplas Terras que, chegada a hora, o poderiam ajudar a deter o Anti-Monitor.
    Condenado a marcar presença nos locais onde a destruição está prestes a ocorrer, Pária é acompanhado nessas excursões pelo Monitor. Numa delas, o poderoso ser depara-se com uma jovem chamada Lyla, única sobrevivente de um naufrágio que vitimou toda a sua família. Sensibilizado pela tragédia da rapariga, o Monitor acolhe-a e treina-a para que ela seja a sua Precursora (Harbinger, no original).

Precursora, uma das personagens-chave da saga.

     A fim de aumentar o seu poder por forma a tornar-se o senhor absoluto da Existência, o Anti-Monitor liberta uma gigantesca onda de antimatéria que avança inexoravelmente através do Multiverso. Um dos primeiros mundos a ser aniquilado pela sua ação é a Terra 3. Nessa realidade singular, uma versão alternativa de Lex Luthor era o seu único benfeitor. Nos momentos que antecedem a destruição da Terra 3, os supervilões do Sindicato do Crime lutam, em desespero, pela salvação de um mundo que vezes conta tentaram subjugar.
   Numa sequência parecidíssima com o envio de Kal-El para a Terra ante a iminente destruição de Krypton, Luthor coloca o seu filho bebé numa nave que o levará para um mundo onde poderá crescer em segurança. Ao cruzar o espaço interdimensional, a nave é resgatada pela Precursora que, de seguida, a leva para o satélite do Monitor. Durante a passagem pela fenda vibracional que separa os universos paralelos, a criança torna-se um misto de matéria e de antimatéria, daí resultando uma profunda alteração na sua estrutura molecular. Em consequência disso, o pequeno Alex Luthor passa da infância à idade adulta em poucos dias.
    De uma ponta à outra do Multiverso, as múltiplas Terras têm as suas paisagens redesenhadas pela ação de terramotos, maremotos, furacões, erupções vulcânicas e falhas temporais. Milhares perecem sob os céus escarlates que servem de redoma aos mundos em agonia e que prenunciam o crepúsculo do Multiverso.
A equação do Multiverso.

   Seguindo as diretivas do seu mentor, Precursora reúne o primeiro lote de heróis e vilões de diferentes mundos e épocas. A sua missão: defender a qualquer custo os cinco dispositivos colocados pelo Monitor em outras tantas realidades com vista a impedir o avanço da onda de antimatéria lançada pela sua contraparte maligna.
    Vários elementos do contingente ao serviço do Monitor são feridos nas escaramuças que os opõem às forças do Anti-Monitor. Enquanto isso, heróis de vários mundos esforçam-se por tentar acudir às populações em pânico. Imparável, a Crise chega às Terras 1 e 2, disseminando-se por todas as épocas. Os seus efeitos fazem-se sentir até mesmo no século XXX, com a Legião dos Super-Heróis a combater as hordas invasoras do Anti-Monitor.
    Enquanto Flash (Barry Allen) corre freneticamente através das várias linhas temporais tentando alertar para a catástrofe iminente, Precursora, dominada pelo Anti-Monitor, assassina o Monitor. Este, contudo, previra a sua morte às mãos da sua protegida. Razão pela qual, ao perecer, a criatura liberta a energia necessária à ativação dos dispositivos por ele implantados em cinco realidades distintas.
    Contida a onda de antimatéria, o Universo volta ser único e indivisível como era nos alvores da Existência. Forma-se então um limbo, espécie de sub-universo onde as Terras 1 e 2 estão separadas somente por uma vibração que diminui a cada instante que passa. Ditando a iminente fusão e consequente aniquilação de ambas.
    Todos os heróis das Terras 1 e 2 são convocados para tentar salvar também as outras três Terras remanescentes (S,X  e 4). Enfrentam, contudo, enormes dificuldades, pois, manipulados pelo Pirata Psíquico, os heróis desses mundos tudo fazem para impedi-los de serem bem-sucedidos nesse desígnio. 


Pirata Psíquico.

     Longe dali, o Anti-Monitor ataca o satélite do seu falecido némesis. Num gesto de bravura, a Precursora faz-se explodir no interior da estrutura, sobrevivendo por um triz. Salvas da destruição, as Terras S, X e 4 juntam-se às Terras 1 e 2 no limbo.

Anti-Monitor, o artífice do ocaso do Multiverso.    
 
    Inspirados pela coragem da Precursora, diversos heróis de outras tantas realidades convergem, através de um túnel gerado por Alex Luthor, para o Universo de Antimatéria. Objetivo: tomar de assalto a fortaleza do Anti-Monitor e destruir as máquinas que estão a causar a desaceleração da vibração que separa as Terras. Um a um, porém, os heróis tombam. Apenas a Doutora Luz e o Super-Homem logram alcançar as máquinas. Quando este último se prepara para as destruir, o Anti-Monitor emerge das trevas e derruba-o. A Doutora Luz tenta em vão travar a criatura. Uma enfurecida Supergirl ataca então o Anti-Monitor. Mesmo sabendo que isso lhe custará a vida, ela abre brechas no traje de contenção do vilão, fazendo com que a sua energia se comece a dispersar.
   Num breve momento de desatenção em que ordena à Doutora Luz que leve o primo para um lugar seguro, a heroína kryptoniana é ceifada por uma rajada de antimatéria emitida pelo Anti-Monitor, que, de seguida, se põe em fuga. Num dos momentos mais emocionantes da saga, Supergirl morre nos braços  do Super-Homem. Não sem antes lhe pedir que não chore, pois foi ele quem lhe ensinou o valor da coragem.

A morte da Supergirl é um dos capítulos mais trágicos da saga.
   
    A fusão das Terras é travada, mas foi alto o preço a pagar. Aproveitando a comoção em torno da morte da Supergirl, o Anti-Monitor, já recuperado, inicia a construção de um canhão de antimatéria. Quando a arma está pronta a ser disparada, Flash (Barry Allen) usa a sua supervelocidade para desligar a sua fonte de energia, provocando dessa forma uma retroalimentação que destrói o canhão. No entanto, na sua corrida desenfreada o Velocista Escarlate começa a viajar no tempo e o seu corpo começa a desintegrar-se, até nada mais restar do que pó.

Flash fez o sacrifício supremo em prol da sobrevivência do que restava do Multiverso.

    Tudo parece encaminhar-se para um desfecho feliz. A fusão das Terras está controlada, mas subsistem ainda algumas ameaças. Sendo a maior aquela que é representada pelos supervilões. Kid Flash é convocado pela Precursora e pelo Flash original (Jay Garrick), porque a sua supervelocidade é necessária para ativar a Esteira Cósmica, dispositivo que permite o trânsito entre as várias dimensões paralelas. A ideia era cooptar heróis de diferentes mundos para enfrentarem as forças malignas.
   Chegados aos planetas sitiados pelos supervilões, os heróis combatem-nos em todas a frentes. O enigmático Espectro materializa-se nos campos de batalha e anuncia que o Anti-Monitor ainda vive.Segundo ele, está iminente a destruição do que resta do Multiverso. Para impedi-la, será necessário mudar o curso da História. O que só será possível através da cooperação entre heróis e vilões.

Vilões ao ataque.

    Selada essa aliança espúria, os primeiros são enviados para a Aurora dos Tempos, ao passo que os segundos seguem para o exato momento em que Krona ativa o seu equipamento para observar o nascimento do Universo. Os vilões, contudo, são malsucedidos na sua missão de impedir Krona. Já a força combinada dos heróis e do Espectro consegue derrotar o Anti-Monitor. É, no entanto, operada uma dramática mudança: o que outrora nasceu sob a forma de múltiplos universos, ressurge agora como um só Universo.Nele existindo uma única Terra.
    Nessa Terra renascida estão reunidos elementos das restantes cinco Terras que haviam sobrevivido à Crise. Ninguém se recorda da versão envelhecida do Super-Homem oriunda da Terra 2. Este Homem de Aço de uma realidade alternativa encontra-se com o Super-Homem da Terra 1, Flash (Jay Garrick) e Kid Flash e pede-lhes ajuda para ativar a Esteira Cósmica, na esperança de poder regressar a casa. Tudo o que encontram, porém, é o Nada absoluto. Para evitar que caia em mãos erradas, o dispositivo é destruído.
    Algum tempo depois, os heróis da nova Terra são convocados pela Precursora, que lhes explica os contornos da nova realidade: nela, só existiu uma versão de cada um deles (um só Batman, um só Super-Homem e por aí fora). Também o facto de apenas os heróis terem memória dos eventos ocorridos durante a Crise é esclarecido: só eles estiveram presentes na Aurora dos Tempos.

Anti-Monitor versus Espectro: choque de titãs.

      De repente, a Terra é envolvida por trevas. É o Anti-Monitor que leva o planeta para o seu Universo de Antimatéria. Convocados pela Precursora, os mais poderosos heróis são enviados para os domínios do vilão através de um portal gerado por Alex Luthor. A muito custo, eles conseguem levar de vencida a criatura. Cujo fim definitivo só é possível graças à intervenção de Darkseid, que usa Alex Luthor como um catalisador para os seus formidáveis raios ómega. Sem o poder do seu soberano, o Universo de Antimatéria começa a autodestruir-se. Antes, porém, que isso aconteça, Alex Luthor abre um portal para outra dimensão, partindo para parte incerta na companhia do Super-Homem da Terra 2 e do Superboy Primordial. Facto que só seria cabalmente esclarecido, duas década depois, nas páginas da sequela Infinite Crisis (Crise Infinita, maxissérie publicada no Brasil pela Panini Comics em 2006/07, e sobre qual a seu tempo escreverei).
    No epílogo da saga, Wally West abandona a identidade de Kid Flash para se tornar o novo Flash, sucedendo assim ao seu mentor Barry Allen. Numa cela acolchoada no Asilo Arkham, as palavras balbuciadas pelo Pirata Psíquico ecoam pela eternidade: "Sou o único a lembrar-me das Terras infinitas. Sou o único a conhecer a verdade e nunca a esquecerei. Mundos morreram; mundos nasceram. E nada será como dantes...".


       
Repercussões: Crisis on Infinite Earths dividiu a história da DC em pré-Crise e pós-Crise. Com o primeiro período a ser ignorado em favor do segundo. Exceção feita a um punhado de personagens (e aos leitores mais antigos, como eu) ninguém se recorda dos eventos ocorridos durante a saga. Todavia, as alterações por ela introduzidas não foram implementadas de forma consistente. Diversas personagens viram, com efeito, as suas origens tornarem-se incongruentes em resultado dessas alterações ou da revitalização de outras personagens. Um bom exemplo é a história da Poderosa (Power Girl, no original). Na cronologia pré-Crise, ela era prima do Super-Homem. Com a reformulação da mitologia do Homem de Aço a ter como pedra angular o facto de ele ser o Último Filho de Krypton, como explicar a existência da Poderosa que, ao contrário da Supergirl, sobrevivera à Crise? A solução encontrada foi retratá-la como uma descendente de um antigo mago atlante, que, pela similitude de poderes, acreditava ter um grau de parentesco com o herói kryptoniano. Outro caso bicudo foi o de Donna Troy (a primeira Moça-Maravilha). Originalmente, tratava-se de uma órfã que fora adotada pela Mulher-Maravilha. Porém, com a eliminação desta da nova cronologia da Editora das Lendas, a primeira só ressurgiria um ano depois do final da Crise. Com direito a uma nova e rebuscada origem. E estes são apenas alguns exemplos dos paradoxos que perduraram durante os anos subsequentes à Crise.
      Recapitulemos, pois, de forma resumida, o antes e o depois da Crise nas Infinitas Terras:

Pré-Crise

* Existência de múltiplas Terras paralelas, mundos que ocupavam o mesmo lugar na realidade, mas vibrando em diferentes frequências;
*Alguns destes mundos dispunham das suas próprias versões de heróis, como Super-Homem, Batman ou a Mulher-Maravilha;
* Super-Homem era extremamente poderoso quando comparado com as suas versões mais recentes. Não era o único sobrevivente de Krypton e os seus poderes atingiram a maturidade ainda na infância, empreendendo a sua carreira heroica como Superboy (cujos feitos inspiraram a fundação da Legião dos Super-Heróis, mil anos no futuro);

Deixou de haver lugar para o Superboy no Universo DC pós-Crise. Mas por pouco tempo...

* Entre os membros fundadores da Liga da Justiça estavam Super-Homem, Batman e Mulher-Maravilha;
* O Robin Jason Todd era menos impulsivo do que a sua versão posterior morta às mãos do Joker, tendo a sua origem muitos pontos em comum com a do seu antecessor (Dick Grayson);
* Na Terra S, a Família Marvel incluía também os Tenentes Marvel;
* O Capitão Átomo não possuía pele metálica;
*Existia uma grande diversidade de kryptonitas, a cada uma delas correspondendo um efeito diferente sobre os kryptonianos a elas expostos;
* Na Terra 2 a Mulher-Maravilha tinha uma filha chamada Fúria, ao passo que a Caçadora era fruto do amor entre Batman e a Mulher-Gato ( conceitos reciclados no âmbito de The New 52!).

Pós-Crise

*Passaram a existir somente dois universos: um positivo, outro negativo (este último um legado do Anti-Monitor);
* Foram eliminadas as versões alternativas das personagens;
* O Super-Homem, além de ter visto os seus poderes substancialmente reduzidos, nunca foi Superboy. Este é atualmente Conner Kent, um clone do Homem de Aço;
*Batman, Mulher-Maravilha e Super-Homem não fizeram parte da formação original da Liga da Justiça;
* A Caçadora é filha de um patrão da Máfia italiana;
* A Canário Negro dos nossos dias é filha da Canário Negro original;
* Batman, Robin, Caçadora, Mulher-Maravilha e Super-Homem foram apagados da cronologia da Sociedade da Justiça da América;
* Ultraman (contraparte maligna do Super-Homem na antiga Terra 3) é agora o tenente Clark Kent, do Universo Negativo (onde reina o Sindicato do Crime);

Poderosa (em 1º plano) e Caçadora tiveram as suas origens revistas.

     Não obstante todas as alterações e correções introduzidas pela saga, o conceito de universos paralelos continua, ainda hoje, a despertar um enorme fascínio nos argumentistas e editores da DC. Prova disso é o renascimento da Terra 2, já no âmbito de The New 52!. Não sendo,pois, de estranhar que, ciclicamente, a Editora das Lendas sinta  necessidade de reestruturar a sua cronologia. Com cada uma dessas atualizações a serem sucessivamente apresentadas como definitivas...