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quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

HERÓIS EM AÇÃO: O SOMBRA



  Por mais opaco que seja o coração humano, o Sombra sabe sempre o mal que nele se acoita e que o crime não compensa.
  O que começou por ser apenas uma misteriosa voz radiofónica evoluiu para um dos maiores expoentes da literatura pulp que influenciaria sobremaneira o arquétipo super-heroico, em especial um certo Cavaleiro das Trevas.

Denominação original: The Shadow 
Licenciadoras: Street & Smith (1930-1949), Archie Comics (1964-65), DC Comics (1973-1992), Dark Horse Comics (1993-95) e Dynamite Entertainment (desde 2011)
Criador: Walter B. Gibson 
Estreia radiofónica: Detective Story Hour  (julho de 1930)
Estreia literária: The Living Shadow (abril de 1931)
Estreia na BD: Shadow Comics nº1 (março de 1940)
Identidade civil: Kent Allard (literatura e BD) e Lamont Cranston (rádio e cinema)
Local de nascimento: Nova Iorque
Parentes conhecidos: Nenhum
Ocupação: Ex-espião, ex-piloto-aviador, playboy e vigilante urbano
Base operacional: Nova Iorque
Afiliações: Agentes do Sombra
Armas, poderes e habilidades: Graças ao perfeito controlo que possui sobre as suas cordas vocais, o Sombra consegue projetar a sua voz sob a forma de uma tenebrosa risada suscetível de paralisar de medo os seus oponentes. Esse talento permite-lhe, de igual modo, mimetizar vozes alheias com elevado grau de precisão.
Mestre do disfarce e da espionagem, o Sombra é dotado de uma inteligência superior à média, bem como de uma memória fotográfica. Consistindo, no entanto, a sua habilidade mais impressionante em agir de modo furtivo sem ser detetado à vista desarmada, como se de um fantasma ou de uma sombra viva se tratasse.
Por conta dessa sua extraordinária proficiência em técnicas de camuflagem - e da proverbial superstição dos malfeitores - ao longo dos anos têm sido alimentados rumores de que o Sombra deteria o poder de "nublar" as mentes humanas.
Ainda que não se trate verdadeiramente de um talento sobrenatural, existe, porém, um fundo de verdade nesses rumores.
Durante o período em que, nos alvores do século XX, Kent Allard foi um agente secreto ao serviço de Nicolau II, recebeu das mãos do último Czar da Rússia o misterioso Girassol, um rutilante rubi com poderes hipnóticos que, incrustado num anel, o Sombra usa para alterar a perceção dos seus adversários. Assim se explicando, por exemplo, que mesmo aqueles que tiveram um vislumbre da verdadeira face do herói tenham sido incapazes de memorizá-la. Ou que, não raro, os delinquentes se sintam estranhamente compelidos a revelar-lhe os seus segredos mais inconfessos.

O Sombra usa o Girassol para hipnotizar os seus oponentes.
Em meados dos anos 1920, a prolongada estadia de Kent Allard na cidade secreta de Shambalah (localizada algures no Extremo Oriente) permitiu-lhe, por outro lado, aprender diversas disciplinas orientais e artes marciais. Além dos riquíssimos ensinamentos filosóficos e espirituais que lhe foram transmitidos pelos gurus ancestrais de Shambalah, Allard adquiriu também um domínio absoluto sobre as funções vitais do seu organismo. Técnicas graças às quais consegue, aparentemente, retardar o processo natural de envelhecimento e incrementar a sua longevidade.
Note-se que, por contraponto a outras personagens suas contemporâneas, como o Fantasma ou o Batman, o Sombra não teve o cenário das suas aventuras atualizado. Apesar de as suas histórias continuarem a ser ambientadas nos anos 30 e 40 do último século, o herói foi, no entanto, pontualmente transportado para os tempos modernos.
Aconteceu, por exemplo, no seu encontro com Ghost, durante o período em que ambos eram publicados sob a égide da Dark Horse Comics (ver Justiça aos quadradinhos). Apesar da história se desenrolar na década de 1990, o Sombra conservava a mesma aparência de sempre, como se não tivesse envelhecido um só dia.
Nas suas primeiras histórias, além de pequenos tubos de ácido e de pólvora, a parafernália do Sombra incluía ventosas que ele usava nas mãos e nos joelhos para escalar paredes e fachadas de prédios. Numa referência ao seu passado como piloto-aviador durante a I Guerra Mundial(ver Origem), também era frequente ele cruzar os céus noturnos de Nova Iorque aos comandos do seu "autogyro", espécie de protótipo arcaico do helicóptero.
Atirador exímio, o Sombra é inseparável da sua parelha de pistolas semiautomáticas, tendo na Colt M1911 e na LAR Grizzly (ambas de calibre .45 e fabrico norte-americano) os seus modelos favoritos. Liberto das restrições morais que caracterizam a generalidade dos super-heróis modernos, o Sombra não tem pejo em executar sumariamente os seus oponentes sempre que as circunstâncias assim o justificam.
O mais valioso recurso do Sombra é, no entanto, a sua vasta rede de agentes infiltrados no submundo nova-iorquino (ver Agentes do Sombra) que lhe providenciam informação privilegiada sobre as operações do crime organizado. Estes seus escudeiros que, com maior ou menor grau de devoção, o coadjuvam na sua implacável cruzada contra o crime são a verdadeira razão que leva o Sombra a conhecer como ninguém o mal que se esconde nos corações dos homens - e que, como mais adiante se perceberá, ele também possui.

Justiça a ferro e fogo.

Conceção e caracterização

Lançado em outubro de 1915, o Detective Story Magazine foi uma das primeira publicações periódicas da chamada literatura pulp (palavra inglesa para papel de celulose) dedicada exclusivamente à ficção policial. Ao longo dos anos seguintes, o seu enorme sucesso junto do público fez deste o título de charneira da Street & Smith, a autoproclamada maior e mais antiga editora desse tipo de material em terras do Tio Sam.
Visando contrariar o progressivo declínio das vendas do seu magazine de referência, em 1930 a Street & Smith decidiu transformar as suas histórias detetivescas num folhetim radiofónico. Tendo, para esse efeito, contratado, em meados desse mesmo ano, uma parelha de criativos - William Sweets e David Chrisman - da agência publicitária Ruthrauff & Ryan.
Após estudarem o projeto, Sweets e Chrisman propuseram que, por forma a aumentar o suspense entre os ouvintes, o futuro programa de rádio fosse narrado por uma misteriosa figura com voz sinistra.
Aprovada a ideia, houve que encontrar um nome adequado para a personagem. Entre as várias sugestões aventadas, O Detetive e O Inspetor (The Sleuth e The Inspector, no original) foram aquelas que mais força ganharam antes de alguém propor um nome que soaria perfeito para crismar o narrador-fantasma: O Sombra.
A 31 de julho de 1931, quando o The Detective Story Hour foi para o ar pela primeira vez, coube a James LaCurto emprestar a sua voz ao enigmático Sombra. Seria, no entanto, Frank Readick Jr., um radialista veterano, a fazê-lo por mais tempo, tendo sido também quem mais concorreu para o êxito da série.
No imaginário coletivo ficaram gravadas as frases de efeito que abriam e encerravam cada episódio: "Quem sabe o mal que se esconde no coração dos homens? O Sombra sabe!" ou "As sementes do mal geram frutos amargos. O crime não compensa!". A acompanhá-las, trechos de Le Rouet d'Omphale, partitura clássica da autoria de Camille Saint-Saens.

Frank Readick Jr. vestido a preceito
numa ação promocional de The Detective Story Hour.
Mas nem tudo correu como previsto. Em vez de contribuir para o incremento das vendas do magazine em que era baseado, o folhetim radiofónico teve o condão de espicaçar a curiosidade dos ouvintes relativamente ao seu misterioso narrador, cuja tenebrosa gargalhada ecoava através das ondas hertzianas, fazendo-os arquejar de ansiedade pelo próximo capítulo.
De todos os lados chegavam, entretanto, relatos de revendedores dando conta do considerável número de pessoas que lhes tentavam adquirir as (inexistentes) histórias impressas do Sombra.
Face a esta inesperada procura, a Street & Smith foi lesta a reagir. Por intermédio do seu diretor comercial, incumbiu Walter B. Gibson, autor veterano de policiais e mágico profissional, de começar a escrever as histórias do Sombra em The Shadow Magazine. Intitulada, The Living Shadow, a primeira foi dada à estampa em  abril de 1931 e assinalou a estreia literária do Sombra.
Sob o pseudónimo Maxwell Grant, e alegando que as narrativas do Sombra reproduziam fielmente os relatos do próprio, Gibson assinou 292 das 325 novelas do herói lançadas ao longo das duas décadas seguintes.

Walter B Gibson

Walter B. Gibson (cima)
 e a estreia literária do Sombra
escrita sob o pseudónimo Maxwell Grant.

A caracterização do Sombra levada a cabo por Gibson lançaria, de resto, as bases do paradigma super-heróico (ver Influência sombria). O seu figurino estilizado incluía um grande chapéu negro, um manto com forro escarlate e um cachecol da mesma cor que lhe cobria a parte inferior do rosto, salvaguardando o seu anonimato ao mesmo tempo que fazia sobressair o seu nariz aquilino, outras das imagens de marca do herói. Salvo pelo curto hiato em que foi publicado pela Archie Comics (vide texto seguinte), o visual do Sombra manteve-se praticamente inalterado nos diversos segmentos culturais onde marcou presença.
Agindo quase sempre a coberto da noite, o Sombra, conforme reconheceria o seu autor, teve no Drácula de Bram Stoker a sua principal referência literária. Outra possível inspiração para a sua conceção visual terá sido Judex, um justiceiro francês cujo folhetim cinematográfico estreara alguns anos antes nos EUA sob o título The Mysterious Shadow (A Sombra Misteriosa). Comparando os respetivos figurinos e modus operandi, saltam à vista as muitas semelhanças.
Mesmo após o cancelamento do The Shadow Magazine, no verão de 1949, continuaram a ser lançadas de forma avulsa novas aventuras literárias do Sombra. Em algumas delas foram atribuídos poderes psíquicos ao herói, que também começou a assemelhar-se mais a um espião do que a  um combatente do crime. Alterações que não impediram a gradual perda de interesse por parte de um público que aprendera entretanto a idolatrar heróis de têmpera diferente.

judex4.jpg

Judex e Sombra:
vingadores separados à nascença?

Justiça aos quadradinhos 

Depois do rádio, da literatura e do cinema, em 1940 o Sombra logrou o pleno mediático ao ter as suas histórias adaptadas à banda desenhada. Em março desse ano, já em plena Idade do Ouro, a Street & Smith lançou Shadow Comics, revista mensal que, além de aventuras inéditas do Sombra, compilava as tiras diárias protagonizadas por outros heróis da editora. A série seria cancelada em setembro de 1949 contabilizando à data 101 volumes publicados.
Seguiu-se um interregno editorial que se prolongou até meados da década de 1960. Aproveitando o novo elã do género super-heroico trazido pela Idade da Prata, a Archie Comics adquiriu os direitos de publicação do Sombra. Em virtude disso, entre 1964 e 1965, o herói voltou a dispor de um título em nome próprio.
Embora o número inaugural de The Shadow apresentasse um Sombra decalcado da sua versão radiofónica, nos restantes números da série seria contemplado com um novo uniforme e superpoderes, vendo-se dessa forma transformado num típico super-herói.
Esta breve passagem do Sombra pela Archie Comics teve ainda a particularidade de o herói ter tido parte das suas histórias escritas por Jerry Siegel, cocriador do Superman.

Shadow Comics Vol 1 1

A estreia bedéfila do Sombra
 em Shadow Comics nº1 (cima)
e a sua versão super-heroica da Archie Comics.
Após novo hiato na publicação das suas aventuras, o Sombra foi resgatado do ostracismo pela DC Comics, em meados da década de 1970. Até 1992, a Editora das Lendas lançou vários títulos periódicos estrelados pela antiga coqueluche da Street & Smith. Um dos pontos altos desta nova vida do Sombra foi a minissérie The Shadow: Blood and Judgment, da autoria de Howard Chaykin. Nela, o herói foi transportado pela primeira vez para o presente.
Quando a Condé Naste, detentora dos direitos do Sombra, aumentou a taxa de licenciamento, a DC interrompeu a publicação da personagem quando estava prestes a igualar o recorde de longevidade editorial da Street & Smith.
Agora sob os auspícios da Dark Horse Comics, no biénio 1993-95 o Sombra protagonizou um conjunto de minisséries e volumes especiais. Destaque, nesta última categoria, para a adaptação oficial do filme entretanto lançado (ver Noutros media) e para o crossover com Ghost, uma das figuras de proa da Dark Horse. Além de transplantar novamente o herói para os dias atuais, a história marcou também o fim da sua passagem pela editora.
Já neste século, seria a vez da Dynamite Entertainment adicionar o Sombra ao seu panteão de heróis clássicos e/ou caídos no domínio público. Desde agosto de 2011 que a editora vem publicando diverso material inédito do Sombra, no qual se incluem títulos mensais, minisséries e crossovers com outras reminiscências da cultura pulp, como o Besouro Verde ou Doc Savage.

Cover



De cima para baixo:
a estreia do Sombra sob o selo da DC,
o seu encontro com Ghost na Dark Horse
e a sua atual série mensal da Dynamite Entertainment.

Origem

Para efeitos de simplificação, na novela radiofónica do Sombra foi-lhe atribuído Lamont Cranston como seu único alter ego. Já na sua versão impressa - que inclui obras literárias, tiras diárias publicadas em tabloides e bandas desenhadas - Kent Allard é a verdadeira identidade do implacável vingador mascarado, e Lamont Cranston apenas um dos seus múltiplos disfarces.
Ex-agente secreto ao serviço do Czar Nicolau II da Rússia, durante a I Guerra Mundial Allard notabilizou-se como espião e piloto-aviador a soldo da França.
Findo o conflito, Allard viajou para a América do Sul à procura de um novo propósito para a sua vida. Numa das suas excursões aéreas pelo continente, despenhou-se numa selva onde descobriu uma antiga cidadela construída em ouro maciço. Apesar de ter saído praticamente ileso do acidente, Allard resolveu forjar a própria morte antes de regressar à sua Nova Iorque natal sob nova identidade e dono de uma apreciável fortuna.
Tirando proveito das suas assombrosas parecenças fisionómicas com Lamont Cranston - um abastado homem de negócios que passava longas temporadas no estrangeiro - Allard passou a usá-lo como fachada enquanto empreendia secretamente uma feroz campanha contra o crime e a corrupção que minavam a decadente sociedade nova-iorquina dos anos 1930. Efeito imediato, os meliantes aprenderam a temer o Sombra, que muitos acreditavam não ser humano.

Kent Allard, o verdadeiro rosto do Sombra.
Inicialmente perseguido pelas autoridades, com o tempo o Sombra granjearia valiosos aliados no seio da Polícia, tendo no Comissário Ralph Weston a sua principal fonte de informação acerca das atividades do crime organizado.
Quando Allard e Cranston finalmente se encontraram, o primeiro ameaçou arruinar a vida do segundo se este denunciasse o embuste orquestrado durante a sua ausência. Confrontado com vários documentos comprometedores onde constava a sua assinatura - primorosamente falsificada por Allard - Cranston concordou em guardar sigilo e em continuar a permitir que a sua identidade fosse usurpada pelo seu sósia enquanto estava ausente do país, o que passou a acontecer ainda com maior regularidade.
O verdadeiro Lamont Cranston tornar-se-ia posteriormente um reputado criminologista a quem foi confiada a missão de coordenar a rede de agentes do Sombra (vide texto seguinte) quando Allard estava ausente de Nova Iorque ou a recuperar de ferimentos infligidos. Ignorando em absoluto a troca de identidades, os demais agentes do Sombra tomam Cranston por outro dos subalternos do mestre.

Agentes do Sombra

Recrutados nos mais variados contextos, os agentes do Sombra desempenham um papel fundamental na sua guerra contra o crime. Alguns fazem-no por convicção, outros por obrigação. Casos, por exemplo, daqueles cujas vidas foram de algum modo salvas pelo herói, tendo para com ele um eterno débito de gratidão.
Dada a considerável extensão da rede de discípulos do Sombra, darei apenas a conhecer os principais elementos que a compõem.

*Margo Lane: uma sedutora socialite criada para o folhetim radiofónico do Sombra e posteriormente introduzida nas suas aventuras literárias, que é também o interesse romântico do herói;
*Clyde Burke: um jornalista que, a troco de contrapartidas pecuniárias, colige informação diversificada para o Sombra;
*Moses "Moe" Shrevnitz: também conhecido por Shrevvy, é um taxista que, sempre que requisitado pelo Sombra, lhe serve de motorista;
*Myra Reldon: operacional feminina que trabalha infiltrada em Chinatown sob o disfarce de Ming Dwan;
*Burbank: um operador de rádio responsável por assegurar as comunicações entre o Sombra e os seus agentes espalhados por Nova Iorque;
*Clifford "Cliff" Marsland: um ex-presidiário que cumpriu uma pesada pena por um crime que não cometeu e que aproveita a sua reputação de fora-da-lei para se infiltrar nas quadrilhas que operam a partir do submundo nova-iorquino.

Amante e agente do Sombra,
 Margo Lane tem sido uma constante
na complexa equação que é a vida do herói
.
Do outro lado da barricada encontra-se uma chusma de vilões e supervilões onde pontificam barões do crime, cientistas insanos, femmes fatales e espiões internacionais. Como qualquer herói que se preze, o Sombra possui ainda vários arqui-inimigos, com destaque para um ignóbil quarteto composto por Shiwan Khan (o antagonista escolhido para o filme de 1994), Doutor Rodil Moquino, o Mestre do Vudu, A Vespa (não confundir com a personagem homónima da Marvel) e Bernard Stark, o Príncipe do Mal.

Shiwan Khan (Archie Comics)
Suposto descendente direto de Ghengis Khan,
Shiwan Khan tem no Sombra o seu némesis.

Influência sombria

Identidades secretas, supervilões e sidekicks. Eis alguns dos conceitos inovadores introduzidos nas histórias do Sombra que se tornariam posteriormente elementos definidores do género super-heroico.
Embora tenha servido de matriz a diversos expoentes da primeira leva de vigilantes fantasiados surgidos durante a Idade de Ouro dos comics, é no Batman que a influência do Sombra mais se faz notar.
Quando, no início de 1939, Bob Kane e Bill Finger começaram a desenvolver o seu Homem-Morcego, o segundo sugeriu que a personagem emulasse o visual e modus operandi dos justiceiros mascarados da literatura pulp, em especial o Sombra.
Em linha com essa opção criativa, Finger inspirou-se em Partners of Peril, uma novela do Sombra editada em 1936, para, ao melhor estilo pulp, escrever a primeira história do Batman, intitulada The Case of the Chemical Syndicate.
A influência do Sombra na mitologia do Batman tornar-se-ia ainda mais evidente nas aventuras subsequentes do Cavaleiro das Trevas.Tal como a personagem que lhe servira de modelo, nos seus primórdios o guardião de Gotham City recorria frequentemente ao uso de armas de fogo e não demonstrava remorsos por tirar ocasionalmente a vida aos bandidos que enfrentava. Sem mencionar que um playboy milionário lhe servia de alter ego.
Aquando da sua passagem pela DC Comics, o Sombra encontrou-se com o Homem-Morcego em duas ocasiões. Na primeira,  em Batman nº253 (novembro de 1973), o Cavaleiro das Trevas reconhece ter sido o Sombra a sua principal inspiração.
Também Alan Moore creditou o Sombra como principal referencial para a conceção visual de V, o protagonista da aclamada minissérie V for Vendetta (V de Vingança) adaptada ao cinema em 2005.

O Sombra influenciou decisivamente
a criação do Batman,
 bem como a de V (em baixo).
Vforvendetta

Apontamentos

*Águia Negra era o nome de código usado por Kent Allard quando era um espião ao serviço de Nicolau II;
*Kent Allard e Lamont Cranston já trabalharam em conjunto. Numa dessas raras ocasiões, o segundo alvejou um membro da Hidra (organização criminal em tempos desmantelada pelo Sombra) com uma espingarda para caçar elefantes;
*Médico pessoal do Sombra, o Dr. Rupert Sayre está ciente da existência de dois Lamont Cranstons. Apesar de não integrar a rede de agentes ao serviço do herói, mantém com ele uma relação de amizade;
*Então um jovem ator de 22 anos, Orson Welles - o homem que, aos microfones da rádio, levou milhares de americanos a acreditarem que a Terra tinha sido invadida por marcianos - também emprestou a sua voz ao Sombra, de setembro de 1937 a outubro de 1938;
*Em 1996, já depois de a DC Comics ter prescindido dos direitos da personagem, o Sombra fez uma pequena aparição no segundo volume da minissérie Kingdom Come (Reino do Amanhã). O herói surge em fundo na cena ambientada num clube noturno ladeado por Rorschach e Questão, outras duas personagens a que serviu de modelo;

Orson Welles também deu voz ao Sombra
 no seu lendário programa radiofónico.

Noutros media

O impressionante lastro mediático do Sombra inclui diversas passagens pelo grande ecrã, a última das quais remonta a 1994. Com Alec Baldwin como protagonista, The Shadow combinava elementos das aventuras literárias do herói com outros retirados do seu programa de rádio. Apesar da sua fidelidade ao conceito original, o filme redundou num monumental fracasso de bilheteira, inviabilizando dessa forma qualquer sequela.
Além desta produção do estúdio Bregman/Baer, a filmografia oficial da personagem é composta por curtas e longas-metragens, bem como por uma série.
Entre 1931 e 1932, a Universal Pictures produziu seis curtas-metragens baseadas no Sombra. Seguiram-se várias películas de mediano sucesso: The Shadow Strikes (1937), International Crime (1938), The Shadow Returns (1946) e Bourbon Street Shadows (1962).

The Shadow on the bridge - fog behind him.
Em 1994, Alec Baldwin foi
 o último ator a encarnar o Sombra.
Pelo meio, em 1940, chegou ainda aos cinemas norte-americanos The Shadow, um folhetim em 15 capítulos com a chancela da Columbia Pictures. A mesma companhia que, em 2006, terá sondado Sam Raimi, o realizador da trilogia cinematográfica do Homem-Aranha, para dirigir e coproduzir um novo filme do Sombra. Para grande desapontamento dos fãs, transcorrida uma dúzia de anos o projeto permanece em banho-maria.
Na década de 1950 foram ainda feitas duas tentativas falhadas de adaptar o Sombra à televisão. A primeira, datada de 1954, foi titulada The Shadow e deveria ter servido de episódio-piloto a uma série que acabaria por nunca ser produzida. A mesma sorte teve The Invisible Avenger, de 1958. Os dois episódios gravados seriam, contudo, recuperados em 1962 sob a forma da longa-metragem que encerra a lista acima.

Uma risada que gela a alma dos culpados.
O Sombra nunca falha!








sábado, 27 de janeiro de 2018

RETROSPETIVA: « O FANTASMA»


  Entre as misteriosas florestas de Bengalla e os desfiladeiros de betão nova-iorquinos, defrontando novos e velhos inimigos, o Fantasma procura resgatar poderosos artefactos místicos e uma paixão do passado.
  No ano em que cumpriu o seu 60º aniversário, aquele que foi um dos primeiros heróis mascarados da BD regressou ao grande ecrã num filme para toda a família. Que, apesar do apocalipse nas bilheteiras, se tornaria objeto de culto e uma relíquia da cultura pulp.

Título original: The Phantom
Ano: 1996
País: EUA / Austrália
Duração: 100 minutos 
Género: Ação/Aventura/Fantasia
Produção: The Ladd Company e Village Roadshow Pictures
Realização: Simon Wincer
Argumento: Jeffrey Boam
Distribuição: Paramount Pictures
Elenco: Billy Zane (Kit Walker/Fantasma), Treat Williams (Xander Drax), Kristy Swanson (Diana Palmer), Catherine Zeta-Jones (Sala), James Remar (Quill), Patrick McGoohan (pai do Fantasma), Radmar Agana Jao (Guran), Robert Coleby (Capitão Philip Horton) e Cary-Hiroyuki Tagawa (o Grande Kabai Sengh)
Orçamento: 45 milhões de dólares
Receitas domésticas: 17,3 milhões de dólares

Quem é o Espírito-Que-Anda?



Assumindo que, entre os que me leem, existirá quem pouco ou nada conheça acerca do Fantasma, entendi por bem começar por resumir a fulgurante trajetória daquele que é um dos mais antigos super-heróis ainda no ativo.
Afinal,  nunca é demais lembrar, este blogue destina-se tanto a eruditos como a leigos em "Heroilogia". Se ao útil conseguir juntar o agradável, tanto melhor. Espero, por isso, que apreciem a pequena lição gratuita que se segue.
A reboque do assinalável êxito de Mandrake, o Mágico - publicado pela primeira vez em 1934, no formato de uma tira diária a preto e branco - os editores do King Features Syndicate instaram Lee Falk a criar uma segunda personagem.
Fascinado desde criança por mitos e lendas, bem como pelas figuras romanescas emanadas da literatura do início do século XX, Falk incluiu elementos de El Cid, Tarzan, Zorro e Robin Hood na conceção de um justiceiro mascarado a que deu o nome de Fantasma (The Phantom, em inglês).

O Fantasma
 foi a segunda criação bem-sucedida de Lee Falk.
Num primeiro momento, o Fantasma foi apresentado como um vigilante urbano de hábitos notívagos a que Jimmy Wells, um playboy milionário, servia de identidade civil (ver Curiosidades). Qualquer semelhança com um certo Homem-Morcego, surgido anos mais tarde, não será decerto mera coincidência...
Considerando existirem já demasiadas personagens com The Phantom no nome (The Phantom Detective, The Phantom of the Opera, etc.), Lee Falk ponderou crismar a sua mais recente criação de The Gray Ghost (O Fantasma Cinzento). Voltaria, no entanto, atrás nessa sua decisão, optando pela manutenção da nomenclatura original.
A 17 de fevereiro de 1936, o Fantasma faria a sua estreia oficial no mesmo formato em que, dois anos antes, Mandrake se dera a conhecer ao público estadunidense. Superando todas as expectativas, o sucesso da nova coqueluche do King Features Syndicate rapidamente extravasaria fronteiras, tornando-se um epifenómeno de popularidade à escala planetária.
No seu auge, em 1966, as tiras do Fantasma (que Lee Falk escreveu até 1999, ano da sua partida do mundo terreno) eram publicadas em quase 600 jornais de todo o mundo, atingindo dessa forma uma audiência diária estimada em 100 milhões de leitores.
Por razões de ordem diversa - que iam desde preferências cromáticas a (im)possibilidades gráficas - as cores do uniforme do Fantasma sofreram modificações nalguns países. Se, no Brasil e na Itália, o roxo original deu lugar ao encarnado, nas nações escandinavas foi o azul a prevalecer.

Durante muitos anos,
 o Fantasma vestiu de vermelho no Brasil.
Esse retumbante sucesso sobreveio, em larga medida, da reformulação da personagem realizada por Lee Falk escassos meses após o seu surgimento. Passando então o Fantasma a ser retratado, já não como um simples vigilante urbano, mas como o 21º representante de uma dinastia de combatentes do crime fundada 400 anos antes pelo único sobrevivente de um ataque de piratas ao largo da costa africana. Sobre a caveira do assassino do seu pai, o jovem náufrago jurou solenemente devotar a sua vida e a dos seus descendentes a combater a pirataria, a opressão e o Mal em todas as suas formas.
Assim nasceu o Fantasma, cuja lenda ecoaria ao longo do séculos pelas profundezas  das misteriosas florestas de Bangalla. Originalmente localizada algures no litoral africano, esta nação imaginária que serve de lar ao Espírito-Que-Anda seria posteriormente renomeada de Bengalla e transferida para o Extremo Oriente, reforçando dessa forma o exotismo dos cenários em que se desenrolavam as aventuras do herói.

First Phantom Sunday strip.jpg
Em 1939, a origem do Fantasma foi revisitada
 na sua primeira tira dominical com arte de Ray Moore.
A despeito de constituir um exemplo pioneiro dentro do género super-heroico, muitos são os estudiosos da Nona Arte que preferem classificar o Fantasma como uma personagem de transição. Isto porque, ao mesmo tempo que incorporava aspetos típicos dos heróis da literatura pulp (como o Sombra), antecipou também várias características definidoras de conceitos como o Superman ou o Batman. Sendo, aliás, por demais evidentes as influências do Fantasma na mitologia do Homem-Morcego.
Por muitos considerado o "avô" dos super-heróis modernos (a sua aparição precedeu num par de anos a do Superman), o Fantasma foi, com efeito, o primeiro a adotar o tipo de traje colorido de inspiração circense que se tornaria a principal imagem de marca dessa categoria de personagens. Por influência da estatuária helénica, foi, ademais, o primeiro a usar uma máscara sem pupilas visíveis, estabelecendo assim outro dos padrões estéticos do género super-heroico.
Contudo, ao contrário da generalidade dos super-heróis seus contemporâneos e do que o próprio nome sugere, o Fantasma não possui quaisquer talentos sobrenaturais. Apesar de trazer sempre um par de pistolas à ilharga, o seu draconiano código de conduta proíbe-o de empregar força letal. Dependendo, portanto, da sua capacidade atlética, da sua astúcia e da sua reputação de imortal (donde a cognominação Espírito-Que-Anda e O Homem-Que-Nunca-Morre) para levar a melhor sobre os seus adversários. Contando ainda com a preciosa ajuda dos seus escudeiros quadrúpedes: Hero (um alazão branco) e Devil (um lobo negro), conhecidos entre o público lusófono como Herói e Capeto.
Nas suas histórias clássicas (três das quais, como mais adiante se perceberá, serviram de inspiração ao enredo da sua primeira longa-metragem), Kit Walker, o 21º Fantasma, é casado com Diana Palmer. O casal conheceu-se quando ambos estudavam numa universidade dos EUA e vive com os seus dois filhos gémeos - Kit e Heloise - na Caverna da Caveira. De acordo com os preceitos da tradição familiar, caberá ao filho varão do Fantasma suceder ao pai quando este morrer ou ficar demasiado velho para continuar a encarnar o Espírito-Que-Anda.
Marcado pela itinerância editorial, o longo percurso do Fantasma na banda desenhada tem sido feito sob múltiplas chancelas. Originalmente publicado pelo King Features Syndicate, passou, entre outras, pela Charlton Comics e pela DC Comics, sendo os respetivos direitos detidos presentemente pela Dynamite Entertainment, que chamou a si missão de reapresentar este herói clássico a uma nova leva de leitores.
As novas aventuras do Espírito-Que-Anda
 têm agora o selo da Dynamite Entertainment.

Pré-produção e desenvolvimento

Os primeiros rumores acerca de uma possível adaptação do Fantasma ao cinema surgiram no seguimento de uma entrevista de Sergio Leone, na qual o realizador italiano expressou o seu interesse em dirigir um projeto dessa natureza.
Ao mesmo tempo que escrevia o argumento do filme, Leone começou também a fazer um levantamento de locais que poderiam servir de cenários à história que vinha alinhavando. Segundo consta, Leone pretenderia homenagear as duas criações de Lee Falk e, por isso, à longa-metragem  do Fantasma seguir-se-ia uma do Mandrake.
Ainda no início dos anos 1990, seria contudo Joe Dante (Gremlins) o realizador escolhido pela Paramount Pictures para dirigir aquela que seria a segunda aventura cinematográfica do Fantasma, depois da série por ele protagonizada em 1943. Em articulação com o argumentista Jeffrey Boam (Indiana Jones e a Grande Cruzada), Dante desenvolveu um enredo que parodiava as histórias do Espírito-Que-Anda.
Quando a Paramount adiou em vários meses o arranque da produção, Dante abandonou o projeto para assumir outros compromissos profissionais. Apesar disso, seria creditado como um dos produtores executivos de The Phantom.
Dante revelaria mais tarde que recebera a notícia do adiamento quando ele e a sua equipa estavam já de malas aviadas para a Austrália, um dos locais escolhidos para as filmagens. Se essa decisão o apanhou de surpresa, mais perplexo ficou ao perceber que, apesar do registo humorístico do enredo que escrevera a meias com Jeffrey Boam, The Phantom pretendia ser um filme sério.
Após o afastamento de Joe Dante, Joe Schumacher (Batman Para Sempre) chegou a ser considerado para assumir a direção do projeto. A escolha definitiva da Paramount Pictures recairia, porém, sobre o realizador australiano Simon Wincer (Libertem Willy), um confesso admirador do Fantasma desde os seus tempos de menino.

Foi sob a batuta de Simon Wincer
 que o filme do Fantasma ganhou forma.
Com a cadeira de realizador finalmente ocupada, seguiu-se a escolha do protagonista. Bruce Campbell (A Noite dos Mortos-Vivos) e Kevin Tod Smith (ator neozelandês com vários telefilmes no currículo) partiram como favoritos na corrida ao papel principal. Por indicação de Wincer, seria, contudo, Billy Zane a arrebatá-lo.
Zane tinha ganho notoriedade por via da sua interpretação de um psicopata em Dead Calm (1989). Tendo sido precisamente durante a  rodagem desse filme que o ator tivera o seu primeiro contacto com as histórias do Fantasma, pelas quais logo se deixou fascinar.
Além da intensa preparação física a que se submeteu durante mais de um ano, Billy Zane estudou minuciosamente a linguagem corporal do Fantasma na banda desenhada como parte do processo de construção da sua personagem.
De acordo com o calendário predefinido, as filmagens decorreram entre outubro e dezembro de 1995 com passagens por Los Angeles, Austrália e Tailândia. Entre os cenários utilizados, o destaque vai para a lendária mansão de Hugh Hefner, o finado fundador da revista Playboy que era também um fã de longa data do Fantasma.

Lee Falk posou ao lado de Billy Zane no set de filmagens.
Chegado às salas de cinema norte-americanas a 7 de junho de 1996, The Phantom combinava elementos sobrenaturais com outros retirados de três histórias clássicas do Espírito-Que-Anda (todas saídas da pena do seu criador): The Singh Brotherhood, Sky Band e The Belt.
Apesar da atuação de Zane ter sido louvada, os críticos dividiram-se na hora de avaliar um filme que, no fim de semana de estreia - e mesmo sem ter de lidar com concorrentes de peso - se quedou por um modesto sexto lugar no ranking das receitas de bilheteira. Sofrendo assim o mesmo destino de The Shadow que, dois anos antes, transpusera para o grande ecrã as aventuras do Sombra, outro herói clássico saído das páginas da literatura pulp.
Inviabilizada a franquia (estavam previstas duas sequências),  The Phantom registaria, no entanto, um bom desempenho no mercado VHS e DVD. Como tantos outros filmes mal-amados, com o tempo tornar-se-ia objeto de culto por parte de certas franjas da comunidade cinéfila. As mesmas que, enquanto não se materializa o anunciado reboot, terão de contentar-se com esta relíquia da Sétima Arte.

Sinopse

À laia de preâmbulo, a voz cava do 20º Fantasma (progenitor do atual) narra a dramática história de um menino que, 400 anos atrás, testemunhou, impotente, a morte do seu pai durante um ataque perpetrado pela infame Irmandade Sengh ao navio onde viajavam.
Enquanto os piratas chacinavam a restante tripulação, o menino lançou-se ao mar e conseguiu nadar até uma praia na misteriosa ilha de Bengalla. Lá foi encontrado por uma tribo indígena que o acolheu no seu seio e o tratou como igual.
Depois de receber das mãos do xamã da tribo o Anel do Caveira, o menino jurou devotar a sua vida a lutar contra todas as formas de injustiça. Chegado à idade adulta, adotou a identidade de O Fantasma, um vingador mascarado. Título que, ao longo dos séculos,  foi sendo transmitido de pai para filho, levando aqueles que com ele se cruzaram a acreditar piamente na imortalidade do chamado Espírito-Que-Anda.
A lenda do Fantasma
 é velha de quatro séculos.
Em 1938, no coração da luxuriante selva de Bengalla, um grupo de mercenários chefiado por um homem chamado Quill procuram uma das Caveiras de Touganda. Quando reunidos, esses artefactos místicos conferem grande poder destrutivo aos seus detentores.
A expedição liderada por Quill é, contudo, interrompida devido à interferência do Fantasma. O Espírito-Que-Anda (que é na realidade Kit Walker, o 21º portador do Anel da Caveira), salva o menino nativo que havia sido sequestrado pelos mercenários para lhes servir de guia. À exceção de Quill, todos os bandidos são capturados pelo Fantasma que, em seguida, os deixa sob a custódia da Patrulha da Selva.
Antes de escapulir-se levando consigo uma das Caveiras de Touganda, um estranho símbolo tatuado no antebraço de Quill denuncia a sua pertença à Irmandade Sengh, o que deixa o Fantasma intrigado.
Longe dali, em Nova Iorque, Diana Palmer, sobrinha do proprietário do World Tribune e ex-namorada de Kit Walker nos tempos de faculdade, voluntaria-se para viajar até Bengalla a fim de investigar os indícios encontrados pelo jornal do tio de que Xander Drax, um empresário sedento de poder, estaria envolvido em atividades ilícitas.

Diana Palmer,
uma donzela de espírito aventureiro.
Próximo à costa de Bengalla, o avião que transporta Diana Palmer é tomado de assalto em pleno voo pela Sky Band, uma quadrilha de piratas do ar composta exclusivamente por mulheres e liderada por uma femme fatale chamada Sala. Diana é sequestrada e levada para o esconderijo secreto da Sky Band em Bengalla.
Ao ser informado do sucedido pelo Capitão Horton, da Patrulha da Selva, o Fantasma parte imediatamente em missão de resgate. Com a colaboração de Herói, Capeto e da Tribo da Corda, o Espírito-Que-Anda consegue libertar Diana do seu cativeiro. Depois de deixá-la em segurança na base da Patrulha da Selva, o herói parte para Nova Iorque com a intenção de recuperar a caveira e de descobrir o paradeiro das restantes.
Agindo sob a sua identidade civil de Kit Walker, o Fantasma reencontra Diana Palmer durante uma reunião com o tio desta no edifício-sede do World Tribune. Surpreendida pela inesperada presença de Kit, Diana manifesta sentimentos ambíguos relativamente ao ex-amante que desaparecera  da sua vida há vários anos.

Kit e Diana reencontram-se após vários anos.
Graças a uma dica fortuita fornecida por Jimmy Wells, o pretendente de Diana, Kit descobre que a segunda Caveira de Touganda se encontra exposta no Museu de História Natural. Quando ele e Diana procuram recuperar o artefacto, são surpreendidos por Drax e pelos seus asseclas.
Ao reparar que Quill usa um cinturão com o símbolo da caveira, Kit deduz estar na presença do assassino do seu pai. Entretanto, o poder combinado das duas caveiras revela a Drax a localização da terceira: uma ilha não cartografada no Vórtice do Diabo, algures no Mar Amarelo.
Drax toma Diana como refém a fim de se precaver contra o Fantasma e ordena a Quill que se desenvencilhe de Kit. No entanto, é Kit quem consegue desenvencilhar-se dos capangas de Drax.
Já como Fantasma, o herói empreende uma audaciosa fuga à polícia (tanto o Comissário como o mayor estão mancomunados com Drax) pelas ruas e avenidas nova-iorquinas.

Xander Drax com uma das Caveiras de Touganda.
Pilotado por Sala, um hidroavião prepara-se para levantar voo com destino a Bengalla. A bordo seguem também Drax, Quill e Diana. Segundos antes de a aeronave descolar, o Fantasma consegue apanhar boleia escondido num dos seus flutuadores.
Na ilha desconhecida, Drax fica frente a frente com o Grande Kabai Sengh, descendente direto do fundador da Irmandade Sengh, que tem em sua posse a terceira Caveira de Touganda. Drax propõe-lhe uma aliança, mas Sengh alerta-o para a existência de uma quarta caveira capaz de controlar as outras três.
O Fantasma entra em cena e, após um acirrado duelo com Kabai Sengh, vê o vilão ser devorado vivo pelos tubarões que mantinha numa piscina de água salgada no interior da gruta que servia de quartel-general à Irmandade.

Sala e a sua Sky Band.
Ao juntar finalmente as três Caveiras de Touganda, Drax ativa o imenso poder destrutivo dos artefactos. Quando procura alvejar o Fantasma com o raio desintegrador emitido pelas caveiras, Drax acaba acidentalmente por pulverizar Quill.
O Fantasma usa então o seu anel - que tem incrustada a quarta Caveira de Touganda - para neutralizar o poder das caveiras. Colhido pela explosão consequente, Drax é  instantaneamente vaporizado.
Com a ilha prestes a implodir, o Fantasma consegue evacuar Diana e Sala. De volta a Bengalla, Diana confidencia ao herói ter reconhecido Kit Walker sob a máscara.
De rosto exposto, Kit informa Diana de como está autorizado a confiar os seus segredos apenas à mulher com quem pretende casar. Apesar de se sentir lisonjeada, Diana decide regressar a Nova Iorque com Sala.
No epílogo, o pai do Fantasma lamenta o fracasso amoroso do filho mas diz-se confiante de que, um dia, Diana regressará a Bengalla para cumprir o seu destino: ser a consorte do Espírito-Que-Anda.

Trailer: 


A primeira aventura cinematográfica do Fantasma

Mais de meio século separa o filme do Fantasma da sua primeira incursão pelo grande ecrã. Em dezembro de 1943, chegava aos cinemas norte-americanos The Phantom, um folhetim de 15 capítulos a preto e branco.
Produzida pela Columbia Pictures, a série tinha em Tom Tyler (ator que, apenas dois anos antes, havia interpretado o Capitão Marvel num formato idêntico) o seu astro principal. Como quase todas as produções do género naquela época, The Phantom dispôs de orçamento exíguo e, por isso, as cenas ambientadas na selva de Bengalla foram integralmente rodadas num estúdio em Hollywood.
Uma vez que, na altura, não era ainda conhecido o verdadeiro nome do Fantasma, na série foi-lhe atribuído o alter ego Geoffrey Prescott. Num dos episódios, porém, o herói pede para ser chamado de Walker, numa óbvia referência a Kit Walker, a sua persona civil na BD.

Tom Tyler foi o primeiro ator
 a encarnar o Espírito-Que-Anda.
Cartaz promocional de um dos capítulos
 do folhetim cinemático do Fantasma.
Muito por conta da fidelidade às histórias originais e das extraordinárias semelhanças físicas de Tom Tyler com o herói criado por Lee Falk, The Phantom conseguiu uma notável prestação nas bilheteiras. Justificando desse modo uma sequência que, apesar de ter sido produzida em 1955 (já sem Tom Tyler, falecido no ano anterior), acabaria, contudo, por nunca ser exibida.
Na origem dessa contingência esteve a súbita descoberta por parte dos responsáveis da Columbia Pictures de que os seus direitos sobre a personagem haviam caducado, aliada à recusa do King Features Syndicate em renová-los. Foi assim que The Return of the Phantom se transformou em The Adventures of Captain Africa. Apesar das alterações introduzidas, o novo herói era um flagrante pastiche do Fantasma.

Curiosidades

*Um traje com músculos falsos semelhante àqueles que Michael Keaton vestiu nos dois filmes do Batman dirigidos por Tim Burton chegou a ser confecionado. Acabaria, no entanto, por não ser utilizado devido à excelente forma física alcançada por Billy Zane após um ano de treino intensivo;
*Para que o capuz do traje do Fantasma lhe assentasse o melhor possível, Zane rapou a cabeça, obrigando desse modo a que todas as cenas em que a sua personagem surgia à paisana fossem gravadas logo no arranque da produção;
*Imagem de marca na BD, os calções listrados que o Fantasma usa por cima das calças foram testados num dos protótipos do traje mas seriam igualmente descartados por serem considerados demasiado ridículos;
*Nos intervalos das filmagens, Billy Zane tinha por hábito ir comer sushi a um restaurante nas redondezas do set levando vestido figurino da sua personagem; 
*Falkmoore, o nome do mordomo dos Palmer, é na verdade uma amálgama dos apelidos do criador e do primeiro artista do Fantasma (Lee Falk e Ray Moore, respetivamente);
*Para não melindrar os indivíduos com esse apelido (muito comum entre os sikhs indianos), o Grande Kabai Singh e a sua Irmandade tiveram o nome alterado para Sengh;

Nem o Grande Kabai Sengh
 escapou aos ditames do politicamente correto.
*Jimmy Wells, o frívolo pretendente de Diana Palmer, marcou presença nas primeiras histórias do Fantasma, quando a identidade e motivações do herói eram ainda incógnitas por resolver. Lee Falk pretendia estabelecer Wells como o alter ego do Espírito-Que-Anda, chegando mesmo a plantar diversas pistas para esse efeito antes de definir a sua criação como o último representante de uma longa linhagem de combatentes do crime;
*Além das que serviriam para desenvolver o romance entre o Fantasma e Diana Palmer, foram igualmente cortadas duas cenas em que o herói enfrentava, respetivamente, um leão e uma jiboia; 
*Minnie Driver foi a primeira atriz escolhida para interpretar Sala, a deslumbrante líder da Sky Band. Conflitos de agenda ditariam, contudo, o seu afastamento do projeto. Também Jenny McCarthy e Jennifer Lopez participaram em audições para o papel que, por indicação de Simon Wincer, seria entregue a Catherine Zeta-Jones. Determinante para essa escolha foi o facto de o cineasta ter apreciado sobremaneira trabalhar com a atriz galesa em Indiana Jones: Crónicas da Juventude, série televisiva estreada em 1993;
*A caveira é o símbolo dominante no folclore associado ao Fantasma. A Caverna da Caveira serve-lhe de lar e de base de operações, o herói usa um Anel da Caveira e, na película, procura resgatar um tríptico de caveiras imbuídas de poderes místicos. Uma observação atenta dos seus paramentos cinematográficos permitirá ainda detetar várias caveiras estampadas no tecido;
*Em meados dos anos 70 do último século, um filme de baixo orçamento do Fantasma entrou em pré-produção no México. O papel principal seria assumido por ninguém menos do que Adam West, o Batman televisivo da década anterior. Problemas relacionados com os direitos da personagem inviabilizaram, contudo, o projeto;
*Escrita por Rob MacGregor - autor das adaptações literárias de Indiana Jones - a novela epónima baseada em The Phantom apresentava os antecedentes de várias personagens e explorava mais pormenorizadamente a origem do Fantasma. Várias sequências eliminadas do filme foram também incluídas no livro.

The Phantom
teve direito a adaptação literária.

Veredito: 62%

Divertido e despretensioso, O Fantasma é outro filme de super-heróis menosprezado a que urge fazer alguma justiça. Tão despropositada como uma indicação aos Óscares seria a atribuição de uma Framboesa de Ouro a esta deliciosa extravagância com laivos de um romantismo antiquado.
Visualmente fantástico, O Fantasma, como quase todas as adaptações do género feitas naquela época, prima pela fidelidade ao conceito original (ou não tivesse Lee Falk feito questão de supervisionar a produção), e apresenta boas sequências de ação ao melhor estilo de Indiana Jones. Também a ideia de ambientar a trama na Idade de Ouro dos comics foi uma opção acertada.
Num flagrante contraste com o sorumbático realismo que tem caracterizado algumas das mais recentes transposições de super-heróis ao grande ecrã, O Fantasma é alegre e colorido, contagiando o espectador com o seu otimismo. Personagens caricaturais e estereotipadas, como Xander Drax e Sala, mais não são do que reminiscências da cultura pulp, a que a película - seguindo as pisadas de O Sombra e Rocketeer, também eles mal-amados - presta tributo.
No que ao herói diz respeito, não se torna menos misterioso do que a sua contraparte da BD, apesar das revelações feitas sobre o seu passado. Billy Zane deu muito boa conta do recado, recusando-me, por isso, a alinhar na teoria conspiratória segundo a qual a película teria sido prejudicada devido à orientação sexual do ator, que é declaradamente gay.
Se é verdade que, à época, era menor a tolerância em relação à homossexualidade, também o era a apetência do público pelas aventuras cinematográficas de super-heróis. Prova disso mesmo é o confrangedor rol de fracassos que marcaram os anos 90: Barb Wire, Judge Dredd, Spawn, Steel e Tank Girl são apenas alguns exemplos de adaptações de personagens saídas dos quadradinhos que se saldaram por flopes de bilheteira. A perceção do género era, pois, muito diferente da atual.
Além de ter precedido em vários anos a avalanche de filmes com super-heróis em  curso desde o início deste século, O Fantasma, em virtude da sua reduzida expressão fora dos quadradinhos, era - e, lamentavelmente, continua a ser - um ilustre desconhecido para as gerações mais novas. Precisamente aquelas que alimentam a profusão de franquias lançadas entretanto pela Marvel e pela DC.
À luz da atual tendência - mais pronunciada nas megaproduções dos Estúdios Marvel - de reduzir os filmes com super-heróis a intermináveis sucessões de piadas forçadas, é bem provável que, se tivesse sido lançado nos dias que correm, O Fantasma, por conta do seu registo ligeiro, teria sido um blockbuster.
Não falta por aí quem rotule O Fantasma de kitsch ou exemplo acabado de trash movie. Eu prefiro chamar-lhe entretenimento em estado puro e um oásis de inocência, ideal para preencher matinés domingueiras ou serões em família.

A mãe de todas as ironias é
 quando um justiceiro é vítima de injustiça. 











sábado, 13 de janeiro de 2018

CLÁSSICOS REVISITADOS: «O HOMEM DE AÇO»


  Nesta aclamada reinterpretação da sua origem com o cunho de John Byrne, o Último Filho de Krypton surgiu mais humanizado do que nunca. Uma visão dessacralizadora  de um mito intemporal que aliciou toda uma nova safra de leitores. Mas que, mesmo expurgada das propostas mais arrojadas do seu autor, não escapou à controvérsia.

Título original: The Man of Steel
Licenciadora: Detective Comics (DC)
País: EUA
Data de publicação: Outubro a dezembro de 1986
Argumento e arte: John Byrne
Categoria: Minissérie em 6 edições quinzenais
Protagonistas: Clark Kent/Superman, Lana Lang, Lois Lane e Lex Luthor 
Coadjuvantes: Jor-El, Lara Lor-Van, Jonathan Kent, Martha Kent, Batman, Bizarro, Perry White, Jimmy Olsen, Lucy Lane, Magpie, Kelex e Kelor
Cenários: Krypton, Smallville, Metrópolis, Gotham City e Hong Kong


Nos EUA, The Man of Steel nº1 foi lançado
 com duas capas variantes com rácios de distribuição equivalentes.

Edições em Português

A primeira versão traduzida para a língua de Camões (embora com sotaque tropical) de The Man of Steel foi lançada pela brasileira Abril. Entre agosto de 1987 e janeiro de 1988, as seis partes da minissérie foram publicadas mensalmente nos números 38 a 43 da primeira série de Super-Homem. Volvidos quatro anos, em maio de 1992, a mesma editora republicaria a saga num único volume em Clássicos DC nº1, usando pela primeira vez uma das capas variantes de Man of Steel nº1.
Ainda por terras de Vera Cruz, desde o início deste século, contabilizam-se já quatro reedições da saga sob os auspícios de três editoras diferentes. A saber: Super-Homem - O Homem de Aço (Mythos, dezembro de 2006); Coleção DC 70 Anos nº1 e Coleção DC 75 Anos nº4 (ambas editadas pela Panini Comics em 2008 e 2011, respetivamente); por fim, em dezembro de 2015, seria a vez da Eaglemoss republicar a versão integral de The Man of Steel no oitavo volume de DC Comics - Coleção de Graphic Novels .
Deste lado do Atlântico, The Man of Steel foi compilada pela primeira vez no início de 2013, inserta na segunda série de Super-Heróis DC lançada nesse ano pela Levoir. Com a originalidade de a capa escolhida ter sido desenhada não por John Byrne, mas por Jerry Ordway.




De cima para baixo:
dois dos volumes antológicos editados no Brasil
 com os selos da Abril e da Mythos
e a antologia lançada pela Levoir portuguesa (com capa de Jerry Ordway).

Antecedentes e contexto

Produto da imaginação de dois jovens estudantes do secundário residentes em Cleveland - Jerry Siegel e Joe Shuster - o Superman foi criado em meados de 1933 para ser o protagonista de uma tira de banda desenhada a ser publicada diariamente num jornal. Em vez disso, porém, o herói só seria apresentado ao mundo cinco anos depois, em junho de 1938, nas páginas de Action Comics nº1.
Nessa edição histórica com a chancela da National Allied Publications - antepassada da DC -, os leitores ficaram a conhecer de forma pouco detalhada a origem do Último Filho de Krypton, resumida numa só página.
Apesar dessa abordagem de raspão às suas raízes kryptonianas, o Homem de Aço (assim alcunhado devido à sua invulnerabilidade) granjeou de imediato enorme popularidade. No verão de 1939 tornar-se-ia mesmo a primeira personagem a sustentar dois títulos em simultâneo - a Action Comics somou-se entretanto Superman.
Ao longo das décadas seguintes, a história do Superman foi sendo expandida de molde a acomodar novas tramas e personagens. Após a saída dos seus criadores, outros autores foram adicionando sucessivamente novos elementos à mitologia daquele que é considerado o primeiro dos super-heróis, e cujo debute sinalizou o dealbar da chamada Idade de Ouro da banda desenhada (1938-1950).

A estreia de Superman em Action Comics nº1 sinalizou também
 o início da chamada Idade de Ouro da banda desenhada.
No início de 1945, por exemplo, foram introduzidas as aventuras de Superboy em Smallville, apresentando assim uma versão adolescente do  Homem de Aço com as suas capacidades totalmente desenvolvidas. Com o surgimento da Supergirl, em 1959, o Superman deixou, objetivamente, de ser o último dos kryptonianos.
Inevitavelmente, estes elementos inovadores não tardaram a tornar-se conflituantes com outros que haviam sido explorados em histórias anteriores, sobretudo naquelas que coincidiram com a transição da Idade do Ouro para a Idade da Prata.
Nessa fase surgiram novos heróis e versões modernizadas de outros preexistentes (casos, por exemplo, de Jay Garrick e Barry Allen, os dois homens a adotar a persona do Flash no período citado), aos quais o Homem de Aço se associou para fundar a Liga da Justiça da América.
Sucede que, a par do Batman e da Mulher-Maravilha, o Superman era uma das três personagens da DC cuja publicação permanecia ininterrupta desde a Idade do Ouro. Por conseguinte, a sua participação nas histórias da Sociedade da Justiça da América ambientadas nessa época expunham uma série de incoerências. Para as quais os editores da DC encontrariam uma solução engenhosa mas que, a médio prazo, se revelaria um autêntico quebra-cabeças.
Em setembro de 1961, o número 123 de The Flash incluía no seu alinhamento uma história que, além de emblemática nos anais da 9ª Arte, mudaria para sempre a continuidade da Editora das Lendas. Sugestivamente intitulada Flash of Two Worlds (Flash de Dois Mundos), mostrava o primeiro encontro entre o Flash da Idade do Ouro e a sua contraparte da Idade da Prata.
A narrativa protagonizada pelos Velocistas Escarlates de duas eras distintas mais não era, no fundo, do que a representação ficcional do postulado da mecânica quântica que propõe a existência de universos paralelos. Com base nessa premissa, estabeleceu-se que as personagens surgidas durante a Idade do Ouro habitariam, de ora em diante, uma segunda Terra em tudo idêntica àquela que servia de lar às suas versões modernas.

A história protagonizada pelos Velocistas Escarlates de duas eras
 que esteve na origem do intrincado Multiverso DC.
Estavam assim lançadas as bases do Multiverso DC que, além de ilimitados exercícios de imaginação, possibilitaria a coexistência editorial e cronológica de personagens de épocas diferentes. Era, no entanto, imperativo esclarecer quais as histórias que pertenciam ao cânone estabelecido para cada uma delas. A título exemplificativo, em 1969 os leitores ficaram a saber que o Superman surgido em Action Comics nº1 era na verdade Kal-L, uma personagem distinta do Kal-El da Terra 1.
Embora inicialmente bem recebido pelos leitores, com o tempo o Multiverso tornar-se-ia demasiado confuso, a ponto de afastá-los das publicações da Editora das Lendas.
Perante este impacto negativo nas suas tiragens, a DC entendeu por bem tomar medidas drásticas para reverter a situação. Medidas que, grosso modo, se resumiram à concentração de todos os seus títulos e conceitos num único universo coeso e compartilhado. Para que isso fosse possível, seria no entanto necessário encerrar tudo o que vinha sendo publicado e voltar ao ponto de partida.
No encalço desse objetivo, em 1985 - ano em que a DC comemorava meio século de existência - foi lançada Crisis on Infinite Earths (Crise nas Infinitas Terras)*, evento de amplas e duradouras repercussões que culminou com a obliteração do Multiverso, abrindo assim espaço para a emergência de uma nova continuidade.

Um dos dramáticos  capítulos da saga que revolucionou
 a continuidade da Editora das Lendas.
Em vez de múltiplas Terras paralelas habitadas, não raro, por declinações do mesmo conceito, passaria doravante a existir somente uma Nova Terra e uma versão unívoca de cada personagem.
Na esteira dessa ambiciosa iniciativa, as figuras de proa da Editora das Lendas tiveram as suas origens recontadas à luz dos tempos modernos. Foi, pois, nesse contexto de revitalização que, em concomitância com outras obras análogas como Batman: Year One ou Green Lantern: Emerald Dawn, foi lançado The Man of Steel. Projeto igualmente ambicioso que vinha, contudo, sendo cogitado há vários anos, e cuja produção encerra até hoje alguns segredos sobre os quais procurarei derramar alguma luz no texto seguinte.

*http://bdmarveldc.blogspot.pt/2014/10/do-fundo-do-bau-crise-nas-infinitas.html

Produção

A acentuar-se, de mês para mês, a curva descendente no gráfico de vendas dos títulos estrelados pelo Homem de Aço, nos anos que precederam Crise nas Infinitas Terras os editores da DC começaram a discutir entre si a possibilidade de levar a cabo uma profunda reformulação da personagem. Convidando, para esse efeito, vários escritores consagrados a apresentarem as suas propostas com vista à revitalização daquele que era o maior ativo da companhia. Alan Moore, Frank Miller e Marv Wolfman* foram alguns dos pesos-pesados que aceitaram o repto.

Evolução das vendas da revista Superman entre 1965 e 1987.

A despeito dos diferentes ângulos de abordagem, todos eles concordavam na necessidade de uma reestruturação da continuidade do Superman. A única voz dissonante era a de Cary Bates. Aquele que era na altura o principal argumentista do Último Filho de Krypton preconizava, ao invés, uma evolução na continuidade.
A revolução de veludo sugerida por Bates colidia, no entanto, com as teses radicais perfilhadas por Marv Wolfman. Habituado a sacudir o status quo, o arquiteto de Crise nas Infinitas Terras considerava premente eliminar Superboy, reclicar Lex Luthor, diminuir os poderes do Superman e fazer dele o último dos kryptonianos.
Ao inteirar-se da saída iminente de John Byrne** da arquirrival Marvel Comics, Marv Wolfman tê-lo-á incentivado a apresentar a sua visão do Superman. Contudo, o envolvimento do versátil autor britânico naturalizado canadiano no projeto não é totalmente claro.
Anos mais tarde - já depois de se ter incompatibilizado com Wolfman - Byrne afirmou ter partido de Dick Giordano - um dos editores da DC e arte-finalista de The Man of Steel - o convite para a sua participação no processo de revitalização do Homem de Aço.
Certo é que, num primeiro momento, a sintonia de ideias e objetivos entre Byrne e Wolfman era quase total. Divergindo ambos apenas na redefinição de Lex Luthor, com a visão do primeiro a prevalecer sobre a do segundo (ver Mitologia Retocada).

Recém-saído da Marvel,
 John Byrne foi o eleito para reformular o maior ícone da DC.
Com a irreverência que sempre o caracterizou, Byrne apresentou à DC aquilo a que chamou "Lista de Exigências Indispensáveis", espécie de caderno de encargos onde elencava quais as idiossincrasias do Superman que ele entendia carecerem de revisão. A saber: desconsiderar a existência de outros sobreviventes de Krypton - Supergirl, Krypto, etc. - e de elementos excessivamente fantásticos, como a Fortaleza da Solidão ou a cidade engarrafada de Kandor.
Apesar de arrojadas, as propostas de Byrne foram quase integralmente avalizadas pela cúpula da Editora das Lendas. Segundo consta, apenas uma delas terá sido deixada de fora.
Numa entrevista realizada em 2002, o autor de The Man of Steel revelou qual foi a única exceção: «Um dos problemas que percebi que a minha versão do "único sobrevivente de Krypton" suscitaria era como ficaríamos a saber que a kryptonita poderia matar o Superman? Quero dizer, claro que todos nós sabemos que  a kryptonita pode matá-lo, mas como tornar isso uma evidência naquele contexto específico? A minha solução passaria por colocar Lara, grávida de Kal-El, na nave em direção à Terra. Ao chegar, ela daria à luz e o seu bebé ganharia gradualmente os seus poderes. Então, Lara encontraria o único pedaço de kryptonita que chegou ao nosso planeta e, em consequência da sua exposição a ele, morreria vítima de envenenamento radioativo.»
Jenette Khan, à época presidente-executiva da DC, vetaria essa ideia por considerá-la excessivamente afastada do conceito primordial. Em alternativa, Khan propôs que a kryptonita fosse descrita como sendo um elemento radioativo responsável pela morte de kryptonianos antes mesmo da explosão do planeta. Byrne acabaria por reconhecer que essa sugestão era melhor do que sua ideia original e implementá-la-ia na minissérie.
A acreditar no relato de Jim Shooter, antigo editor da Marvel e uma das primeiras pessoas a quem Byrne deu a conhecer as linhas-mestras do seu plano de revitalização do Superman, esta não terá sido, porém, a única proposta controversa rejeitada pela DC. Segundo Shooter, Byrne pretendia igualmente retratar Lois Lane como a concubina de Lex Luthor a quem trocaria pelo Homem de Aço.
Ademais, a caracterização de Krypton como um planeta frio e estéril fora sugerida por Dick Giordano (muito provavelmente influenciado pela estética de Superman, The Movie), por forma  a que os leitores percebessem desde a primeira página que tudo seria diferente.

Em The Man of Steel, Krypton surge como um mundo inóspito
 onde pontifica uma sociedade intelectualizada e estéril.

Muito longe, portanto, do local aprazível descrito no passado.
Inicialmente, Byrne não pretendia reconfigurar tanto a morfologia de Krypton e a têmpera dos pais biológicos do Superman; apenas retratá-los de forma mais futurista. Mas, ao questionar-se acerca dos elementos kryptonianos que mais o incomodavam, percebeu que aquilo que lhe parecia mais prejudicial à história era o carinho (se não mesmo um exacerbado patriotismo) com o que o Superman se referia ao seu planeta natal. Razão pela qual Byrne se empenhou em retratar Krypton como um local pouco acolhedor. Nas suas palavras, "um sítio que, no final das contas, o Superman ficaria feliz em deixar."
O estatuto de imigrante de Byrne e a sua identificação com a cultura do respetivo país de acolhimento foi determinante para a sua reinterpretação da origem do Superman. O escritor defendia que esta deveria ser contada como uma típica história americana de sucesso; a do imigrante que triunfou numa terra que não era a sua, contribuindo dessa forma para o seu engrandecimento.
Em linha com esta abordagem, Byrne percebeu que teria de rever também a relação de Clark Kent com Smallville. O que implicaria uma nova dinâmica com Lana Lang, a primeira namorada do herói. Byrne tinha a intenção de manter Lana como interesse romântico do Homem de Aço, mesmo após o seu estabelecimento em Metrópolis. Porém, o "triângulo amoroso" entre Clark, Lois e o Superman era tido como inviolável pela DC.
Assim, para justificar a posição de maior destaque que Lana assumia na vida e na mitologia do herói, Byrne tornou-a conhecedora dos superpoderes de Clark antes da sua transformação em Superman (vide texto seguinte).

Primeiro amor de Clark Kent, em The Man of Steel Lana Lang
 foi também uma das poucas pessoas conhecedoras do seu segredo.
*http://bdmarveldc.blogspot.pt/2014/09/eternos-marv-wolfman-1946.html
**http://bdmarveldc.blogspot.pt/2015/01/eternos-john-byrne-1950.html

Enredo

A milhares de anos-luz da Terra, Krypton - um planeta tecnologicamente evoluído mas emocionalmente estéril onde a reprodução por métodos naturais faz parte de um passado remoto -enfrenta uma ameaça existencial. Jor-El, um dos seus mais proeminentes cientistas, descobriu enfim a origem de uma misteriosa moléstia que dizimara já milhares dos seus compatriotas.
Devido à enorme pressão exercida sobre o núcleo do planeta, vários elementos químicos preexistentes tinham-se fundido num novo metal altamente radioativo. A exposição à kryptonita era, pois,  potencialmente fatal para os kryptonianos.
Havia, contudo, uma maior fonte de angústia para Jor-El: o aumento exponencial da pressão tornara o núcleo de Krypton instável ao ponto de poder a qualquer momento desencadear uma reação geológica em cadeia que resultaria na implosão do planeta.
Os desesperados alertas de Jor-El junto do Conselho Científico haviam sido no entanto acolhidos com ceticismo e desdém.
Ciente de que a contagem decrescente para o desastre era imparável, Jor-El pesquisara durante meses um planeta que pudesse abrigar o seu filho ainda em gestação. De entre as várias opções estudadas, a Terra prefigurava-se como a mais viável. Opinião que não era partilhada pela sua esposa, Lara Lor-Van, para quem a Terra era um mundo primitivo e hostil.
No entanto, seria mesmo para o nosso mundo que, minutos após a destruição de Krypton, Kal-El foi enviado a bordo de uma pequena espaçonave que o seu pai construíra em segredo.

Jor-El e Lara, os pais biológicos de Kal-El.
Dezoito anos mais tarde, em Smallville, pequena comunidade rural do Kansas, o jovem Clark Kent é o astro da equipa de futebol americano da sua escola. No final de mais um jogo ganho graças à sua extraordinária prestação dentro de campo, Clark é levado pelo seu pai de volta à quinta da família.
Lá chegados, Jonathan Kent revela ao filho o foguete espacial onde ele e a sua esposa, Martha, o haviam encontrado ainda bebé, e que permanecera escondido durante todo aquele tempo no celeiro da quinta.
Perante a incredulidade do filho, Jonathan explica também como, graças a um feliz acaso, naquele mesmo dia toda a região fora fustigada por uma violenta nevasca que isolou os três na quinta durante meses. Contingência que, uma vez dissipada a intempérie, permitiu que Clark fosse anunciado como o filho recém-nascido do casal.

Jonathan e Martha Kent, o casal de agricultores do Kansas
 que perfilharam um bebé vindo das estrelas.
À medida que, com o passar dos anos, Clark vai desenvolvendo poderes e habilidades sobre-humanos, a revelação da sua verdadeira origem fá-lo questionar o seu papel num mundo que, afinal, não é o dele.
Clark decide então abandonar Smallville para viajar ao redor do globo ao longo de sete anos. Período durante o qual interfere discretamente para prevenir vários crimes e catástrofes. Apesar dos relatos que começam a circular dando conta dos avistamentos de uma misteriosa figura voadora, Clark consegue preservar  o seu anonimato.
Tudo muda quando, durante as comemorações do 250º aniversário de Metrópolis, o vaivém espacial Constitution é abalroado em pleno voo por um pequeno avião. Perante a iminência do desastre, Clark  - misturado com a multidão que assistia ao pouso do vaivém - vê-se obrigado a alçar voo e a fazer uso da sua superforça para evitar o pior.
Assustado com a reação emotiva da multidão, Clark apressa-se a regressar à quinta da sua família. Onde, com a ajuda da mãe, elabora um vistoso traje que lhe servirá de disfarce sempre que precisar ajudar alguém. Escolhendo para pseudónimo a alcunha que lhe havia sido dada pela imprensa após a sua primeira aparição pública: Superman.

A confeção do traje e a escolha do símbolo do Superman.

Nas semanas seguintes o Superman realiza diversas intervenções espetaculares em Metrópolis, deixando os seus habitantes boquiabertos com as suas proezas.
Após "conseguir" a primeira entrevista exclusiva com o herói, Clark Kent é contratado como jornalista do Daily Planet. Aquela que é considerada a notícia do século rende-lhe a admiração dos colegas de redação e a rivalidade de Lois Lane, uma das mais respeitadas repórteres a nível nacional.
De visita a Gotham com a intenção de capturar o vigilante mascarado conhecido como Batman, o Superman acaba, todavia, surpreendido pela astúcia do Homem-Morcego. Após um tenso frente a frente, os dois concordam em deixar temporariamente de lado as suas divergências para deter Magpie, uma ladra excêntrica cujas ações haviam colocado dezenas de inocentes em perigo. Debelada a ameaça, o Homem de Aço e o Cavaleiro das Trevas seguem rumos diferentes.
Certa noite, Clark e Lois comparecem a uma festa a bordo do iate de Lex Luthor, o empresário mais poderoso de Metrópolis e um dos três homens mais ricos do mundo. Durante o evento um grupo de terroristas toma de assalto a embarcação fazendo reféns todos os convivas.
Apesar do conhecimento prévio que tinha do ataque, Luthor, interessado em aferir as capacidades do Superman, ordenara à sua equipa de segurança que nada fizesse, a menos que o herói não aparecesse.
Como Luthor previra, o Superman surge no local e neutraliza rapidamente os terroristas. Quando o magnata, impressionado pela eficiência do herói, faz menção de entregar-lhe um cheque de 25 mil dólares, revela perante todos os presentes que sabia do ataque mas que nada fizera para impedi-lo por forma a poder testemunhar a ação da nova maravilha de Metrópolis.
Indignado com tamanha prepotência, o mayor da cidade - um dos convidados de honra da festa - nomeia o Superman "agente especial da Polícia" e ordena-lhe que prenda Luthor.
Libertado da prisão poucas horas volvidas, Luthor, humilhado e ressentido, confronta o Homem de Aço declarando-lhe a sua inimizade e jurando tudo fazer para o desacreditar e destruir. Promessa que quase consegue materializar quando, a seu pedido, um dos seus cientistas logra produzir um clone aparentemente perfeito do Superman a parti de uma amostra do ADN do herói.

Luthor jura vingança pela humilhação
 sofrida às mãos do Homem de Aço.
O plano só fracassa porque o processo de clonagem não levou em consideração a biologia extraterrestre do Superman. Em consequência dessa falha, a sua cópia genética é vítima de degeneração celular acelerada, convertendo-se numa monstruosidade irracional com um nível de poder equivalente ao do original.
Segue-se uma acirrada peleja entre o Superman e o seu bizarro oponente, que termina com este último reduzido a uma nuvem de partículas. Miraculosamente, essa chuva de partículas cura a cegueira de Lucy Lane, a irmã mais nova de Lois por quem o monstro se enamorara.

Superman surpreendido pela força de Bizarro.
Clark regressa uma vez mais a Smallville após uma longa temporada em Metrópolis. Certa noite, é assombrado pelo "fantasma" de Jor-El (na verdade, um sofisticado holograma) que com ele tenta comunicar num idioma desconhecido. É através dessa perturbadora experiência que Clark toma finalmente consciência da sua origem kryptoniana. Revelação que deixa igualmente aturdidos os seus pais adotivos.
Esse não é, porém, o único choque a marcar o regresso de Clark à cidade onde cresceu. Lana Lang, a sua namorada dos tempos do liceu a quem revelara os seus poderes na véspera de partir para Metrópolis, exprime-lhe a sua mágoa por esse abandono e pelo fardo que carrega desde então.
Ambos os episódios levam Clark a abraçar ainda mais a sua humanidade sem, contudo, desvalorizar o seu legado kryptoniano. Carregando desse modo o peso de dois mundos sem que sinta verdadeiramente pertencer a qualquer um deles.

Filho de dois mundos,
 o Superman procura honrar ambos os legados que carrega.

.Mitologia retocada

O Homem de Aço não foi o único a ter a sua origem e personalidade retocadas por Byrne. O mesmo sucedeu com algumas das personagens clássicas das suas histórias. Esses novos elementos seriam, por sua vez, objeto de sucessivos revisionismos até perderem o seu estatuto canónico.
Recordemos, por isso, aquelas que foram as principais alterações inicialmente introduzidas à mitologia do Superman.

Clark Kent: No início da história é apresentado como um estudante do secundário totalmente alheado da sua origem extraterrestre e cuja popularidade resulta das suas proezas desportivas, em especial no futebol americano. Byrne inverteu desse modo a caracterização da personagem, fazendo com que Clark deixasse de ser o disfarce adotado pelo Superman aquando da sua mudança para Metrópolis. Significando isto que é agora o Superman quem serve de disfarce a Clark Kent para que este possa usar os seus poderes em público sem ser reconhecido. Poderes esses que foram consideravelmente diminuídos por Byrne, em especial a sua invulnerabilidade agora explicada pelo campo bioelétrico que envolve o corpo do herói. Byrne detalhou também a forma como o Sol amarelo da Terra lhe proporcionava superpoderes e como Clark recorria a um espelho e à sua visão de calor para se barbear;

Graças à minúcia de Byrne, ficámos pela primeira vez a conhecer
 o método usado pelo Superman para escanhoar o rosto.

Jonathan e Martha Kent: Por contraponto ao antigo cânone do herói, nesta nova versão os seus pais adotivos permanecem vivos quando ele atinge a idade adulta e principia a sua carreira como Superman, cujo uniforme é aliás costurado pela própria mãe;

Smallville: Byrne estabeleceu que a pequena cidade rural onde Clark passou a infância e juventude ficaria no estado do Kansas, e que Lana Lang - a sua primeira namorada - tinha conhecimento de que ele e o Superman eram a mesma pessoa;

Superboy: Em virtude de os poderes de Clark se terem desenvolvido por completo apenas no final da puberdade, a versão juvenil do Homem de Aço foi apagada da existência. Originando assim um paradoxo, uma vez que a formação da Legião dos Super-Heróis do século 30 fora inspirada pelas façanhas do Superboy (ver Impacto cultural);

Lois Lane: Definitivamente afastada do arquétipo de "donzela em apuros" (do qual se vinha, aliás, demarcando ainda durante o período pré-Crise nas Infinitas Terras), Lois é caracterizada como uma jornalista experiente e uma mulher independente dotada de grande carisma e inteligência;

Lois Lane,
uma mulher emancipada dos tempos modernos.

Lex Luthor: Despindo as roupagens de cientista louco que vinha usando há meio século, o eterno némesis do Homem de Aço foi redefinido como um poderoso e inescrupuloso magnata. Cujo enorme ascendente sobre o povo de Metrópolis é eclipsado pelo surgimento do Superman. Justificando-se desse modo a sua visceral animosidade em relação ao herói. Nas palavras de Byrne, este novo Luthor - cujo visual parece decalcado da sua contraparte cinematográfica interpretada, à época, por Gene Hackman - "é uma mistura de Ted Turner, Donald Trump e talvez até Satanás". Muito longe, portanto do vilão inconsequente da Idade da Prata e do Bronze que Byrne desprezava;

Batman: Uma das alterações mais significativas decorrentes de The Man of Steel consiste precisamente no relacionamento entre o guardião de Gotham e a maravilha de Metrópolis. Até então retratados como amigos, desde a Idade do Ouro que os dois heróis partilhavam uma revista mensal - World's Finest. No entanto, por conta dos seus métodos de trabalho distintos, passaram a encarar-se quase como adversários que se respeitavam mutuamente mas que se olhavam com desconfiança.

Impacto cultural

De 1986 a 2003 (ano em que foi lançado o arco Superman: Birthright), The Man of Steel foi a origem canónica do Homem de Aço. A reboque do seu apreciável sucesso, Byrne produziu três minisséries especiais que exploravam de forma mais aprofundada a nova mitologia do herói: The World of Krypton, The World of Smallville e The World of Metropolis foram originalmente publicadas entre dezembro de 1987 e novembro de 1988, assumindo-se como apêndices da narrativa original.
Paralelamente, a DC apostou em três títulos mensais protagonizadas pelo novo Homem de Aço: Superman, Action Comics e Adventures of Superman (este último com Marv Wolfman como argumentista). Neles, Byrne e Wolfman explanaram as alterações ao cânone do Superman decorrentes de The Man of Steel. As mais importantes das quais consistiam, nunca é demais recordar, no restabelecimento de Kal-El como único sobrevivente de Krypton e a supressão da sua carreira como Superboy.
Estas alterações tiveram, contudo, um forte impacto na Legião dos Super-Heróis, na medida em que fora o Superboy a inspirar a formação da equipa no século 30. Acrescia a isto o facto de, no período pré-Crise, a Supergirl ter sido também uma legionária. A eliminação das duas personagens tinha, por isso, originado um paradoxo que Byrne, de forma algo inábil, tentou corrigir.

No período pré-Crise, Superboy - e também Supergirl - eram
 membros de pleno direito da Legião dos Super-Heróis.
Para explicar o presumível desaparecimento do Superboy, Byrne escreveu uma história na qual introduziu o conceito de "universo compacto" (pocket universe, em inglês). Os leitores ficaram assim a saber que era, afinal, para essa espécie de realidade alternativa criada pelo Senhor do Tempo (um dos inimigos jurados da Legião dos Super-Heróis) que o grupo viajava sempre que regressava ao passado. O mesmo acontecendo quando o Superboy visitava o futuro. Servindo a existência desse "universo compacto" para explicar também a existência de uma variante da Supergirl. Que, em vez da prima kryptoniana do Superman, ressurgiu como uma criatura de protoplasma capaz de assumir diferentes formas.
Com a confusão instalada, em 1999, altura em que Eddie Berganza assumiu as funções de editor responsável pelas histórias do Superman, diversas personagens e conceitos que haviam sido suprimidos em The Man of Steel foram reincorporados na continuidade do herói, sem que contudo a obra de Byrne fosse desconsiderada. Entre as personagens resgatadas, incluía-se a verdadeira Supergirl.
Apesar destes imbróglios e controvérsias, o impacto de The Man of Steel fez-se sentir também noutros segmentos culturais. Em 1988, dois anos após a sua publicação, o estúdio Ruby-Spears produziu a série animada Superman aproveitando vários dos conceitos estabelecidos pela história de Byrne.
Também a série televisiva Lois and Clark: The New Adventures of Superman, estreada em 1993, incorporou no enredo muitos elementos emanados de The Man of Steel. A localização de Smallville no Kansas e o facto de os pais adotivos de Clark continuarem presentes na vida adulta do filho são alguns dos exemplos mais evidentes.

A série televisiva do Homem de Aço
 que fez furor nos anos 90
 foi fortemente influenciada por The Man of Steel.
Quase 30 anos após o seu lançamento, em 2013 os ecos de The Man of Steel também chegaram ao cinema. No filme epónimo dirigido por Zack Snyder, são detetáveis diversas influências da obra de Byrne, sobretudo no que ao legado kryptoniano do herói diz respeito.
Apesar da forte aclamação com que foi recebida, The Man of Steel arregimentou ferozes detratores. Os quais acusavam Byrne de não compreender a quinta-essência do Superman, desvirtuando-o ao ponto de deixá-lo irreconhecível.
Críticas que em nada beliscaram o valor de uma obra, cujo primeiro número vendeu meio milhão de exemplares (cifras que o Homem de Aço não alcançava desde a Idade do Ouro) e que, em 2012, os usuários da plataforma digital Comic Book Resources elegeram como uma das 25 melhores histórias do Superman de todos os tempos.

Apontamentos

*A mascote de Clark Kent na adolescência era um Cocker Spaniel chamado Rusty;
*Na equipa de futebol americano do liceu de Smallville, Clark alinhava com a camisola nº15;
*Apesar de ter sido concebido em Krypton através de métodos naturais, o nascimento de Kal-El coincidiu com a sua chegada à Terra. Este elemento, per si, constitui uma rutura com o cânone da personagem. Em todas as suas versões pregressas, o herói fora sempre enviado em bebé para o nosso planeta;
A chegada do bebé Kal-El à Terra
no interior de uma câmara de gestação kryptoniana.
*A data da destruição de Krypton pretendia coincidir com a da estreia do Superman em Action Comics nº1 (junho de 1938). Pormenor que só seria oficialmente estabelecido em Action Comics nº600 (maio de 1988);
*Em The Man of Steel nº1, Metrópolis celebra o seu 250º aniversário. Esta efeméride é, contudo, inconsistente com a informação providenciada por outras fontes. Algumas das quais apontam 1634 como o ano do estabelecimento dos primeiros colonos europeus no território indígena onde seriam lançados os alicerces da Cidade do Amanhã. Sugerindo, assim, que a sua fundação teria ocorrido um século antes da data indicada por Byrne;
*Antes do seu lançamento oficial, a minissérie recebera The Legend of Superman (A Lenda do Superman) como título provisório;
*O encontro do Homem de Aço com o Batman no terceiro volume da minissérie sugere um Cavaleiro das Trevas ainda em início de carreia e a operar à margem da Lei. O Homem-Morcego também não dispunha ainda do seu icónico Batmobile, conduzindo em vez dele um potente e sofisticado bólide desportivo equipado com um laboratório forense portátil. Ainda na mesma edição, Magpie mata um dos seus comparsas colocando-lhe uma barra de dinamite acesa na boca. A rábula Happy Birthday, dos Looney Tunes, serviu de inspiração a esta sequência;
*A capa de The Man of Steel nº 5 é a única a não apresentar uma personagem que parece fitar diretamente o leitor. Com efeito, Bizarro - que em momento algum é referenciado dessa forma na história - caminha de costas voltadas para quem tem a revista em mãos. Byrne recorreu a esse subterfúgio visual para metaforizar a natureza invertida da criatura, desde sempre descrita como uma duplicata assimétrica do Superman. A história em questão é, aliás, vagamente inspirada naquela que em Superboy nº68 (novembro de 1958) introduziu o vilão na mitologia do Homem de Aço. Com a diferença de que, na história original, o objeto da afeição de Bizarro não era Lucy Lane (a irmã mais nova de Lois Lane) mas uma mulher chamada apenas Melissa;
*Somente na ponta final da história os pais adotivos de Clark descobrem a origem alienígena do filho que, até esse momento, tinham assumido tratar-se de um humano aprimorado a fim de participar no programa espacial  secreto de uma qualquer potência estrangeira.

As seis capas originais da minissérie
 seguiam um padrão visual quebrado apenas pela do nº5.
Vale a pena ler?

Analisando The Man of Steel com a perspetiva concedida por mais de três décadas, é inegável o caráter datado de alguns dos elementos presentes na obra. Porém, como qualquer clássico, ela conserva intocado o seu apelo atemporal.
O grande mérito da história reside, a meu ver, na intenção dessacralizadora que lhe subjaz.  Quem leu algumas histórias do Superman dadas à estampa durante a Idade da Prata sabe quão próximo ele estava da omnipotência divina. Apesar de menos poderoso, este novo Superman nem por isso é menos heroico. Muito pelo contrário.
Ao vincar a humanidade do Último Filho de Krypton, Byrne colocou em evidência as suas fraquezas mas também a sua força moral. Aquela que possui alguém que, agraciado com poderes semidivinos, os coloca abnegadamente ao serviço da comunidade, devolvendo, de caminho, a esperança a um mundo que não é o seu. Isto ao mesmo tempo que aprende a lidar com o peso do legado que carrega enquanto último representante de uma civilização condenada. Sem mencionar o impacto negativo que o seu segredo causa em alguns dos seus entes mais queridos.
Diga-se o que se disser acerca desta reformulação do Homem de Aço, nunca antes a sua origem fora contada com tanta minúcia. Circunstância que, só por si, me leva a considerar The Man of Steel a versão definitiva de uma história tantas vezes revisitada. Atrevo-me mesmo a dizer que será a pièce de résitance de Byrne. Sobre a qual, malgrado a natureza testamentária da presente análise, muito mais haveria ainda para dizer.
A minha singela evocação desta obra incontornável na memorabilia do Homem de Aço configura, de resto, o primeiro de vários tributos que tenciono render ao herói dos heróis, no ano em que se comemora o seu 80º aniversário.
Mantenham-se sintonizados porque não vão certamente querer perder pitada do que está na calha...

A vitalidade de um octogenário
que continua a ser o ídolo de multidões.