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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

HEROÍNAS EM AÇÃO: X-23




  Arma viva clonada de Wolverine, habituou-se a vê-lo como o pai que nunca teve antes de assumir o legado do malogrado herói canadiano. Após anos de cativeiro, sevícias e manipulações, encontrou uma família nos X-Men. Mas nem por isso a sua fera interior foi domesticada.
 Conheçam o sangrenta epopeia desta carismática mutante de nova geração que, depois da TV e da BD, muito promete dar que falar no cinema ao surgir em grande plano no filme Logan, com estreia marcada já para a próxima semana.

Denominação original: X-23 (atualmente Wolverine)
Licenciador: Marvel Comics
Criadores: Craig Kyle (história) e Chris Yost (arte conceitual) 
Primeira aparição (TV): Episódio 11 da 3ª temporada de X-Men Evolution (2003)
Primeira aparição (BD): NYX nº3 (fevereiro de 2004)
Primeira aparição como Wolverine: All-New Wolverine nº1 (janeiro de 2016)
Identidade civil: Laura Kinney
Local de nascimento: A Fábrica (instalação ultrassecreta localizada algures na ilha-Estado de Madripoor, no sudeste asiático)
Parentes conhecidos: Sarah Kinney (criadora e "mãe"); Wolverine (matriz genética e "pai", falecido); Daken (meio-irmão), Amiko Kobayashi (irmã adotiva), Bellona e Gabrielle Zelda Kinney (clones e "irmãs").
Ocupação: Estudante e aventureira (anteriormente, assassina profissional, prostituta e empregada de mesa)
Afiliações: Ex-operacional da Fábrica e da X-Force; membro atual dos X-Men
Base de operações: Móvel (continua, não obstante, a privilegiar a Nova Escola para Mutantes Charles Xavier, sediada na província canadiana de Alberta)
Armas, poderes e habilidades: Fac-símile genético de Wolverine, X-23 tem nos poderes do herói canadiano um índice para os seus. Existem, contudo, algumas diferenças fundamentais entre as respetivas fisiologias mutantes. As quais são justificadas tanto pela utilização de uma amostra defeituosa do genoma de Logan no processo de clonagem como pela quase total ausência de adamantium no organismo de Laura.
Comecemos pelos pontos em comum: tal como Wolverine, X-23 tem no fator de cura a sua habilidade primária (e, por certo, a mais extraordinária). Graças a ele, ambos conseguem regenerar em tempo recorde tecidos danificado ou destruídos. Cortes, fraturas, ferimentos de bala e até amputações de membros são, assim, curados em questão de segundos.
Tanto Wolverine como X-23 são virtualmente imunes a doenças e infeções de diversa ordem. Verificando-se o mesmo em relação a um amplo espectro de drogas e toxinas. Podendo, todavia, ser afetados por qualquer uma destas substâncias se a elas expostos em doses massivas ou por períodos prolongados.
Devido à capacidade autorregenerativa das células dos seus organismos, Wolverine e X-23 têm o seu processo de envelhecimento consideravelmente retardado, prolongando dessa forma a sua longevidade. No entendimento de alguns, isso faz deles seres imortais. Pese embora não o sejam, de facto.
Ambos possuem ainda sentidos aguçados e outras capacidades físicas (força, velocidade, resistência, etc.) amplificadas a níveis sobre-humanos.
No capítulo das diferenças, há a registar, em primeiro lugar, o facto de X-23 não ter o seu esqueleto revestido de adamantium. Antes que fosse concluído o processo de recriação da Arma X, Laura evadiu-se das instalações da Fábrica. Logo, o seu esqueleto não é inquebrável como o de Wolverine. Apenas o são as garras retráteis que possui nas mãos e nos pés, as únicas partes do seu corpo recobertas pelo metal indestrutível.
Esta constitui, aliás, uma das discrepâncias mais notórias entre Laura e Logan. Ao passo que este possui três garras metálicas em cada mão, X-23 possui apenas duas. Dispondo, em contrapartida, de mais uma garra de adamantium em cada pé, o que, em situações de mano a mano, lhe aumenta consideravelmente a letalidade.
A este extenso catálogo de habilidades inatas acrescem aquelas que decorrem do seu treino com vista a transformá-la numa arma viva. X-23 é especialista em camuflagem, técnicas furtivas, explosivos e em diversos tipos de armamento. O seu apuradíssimo olfato faz dela uma exímia rastreadora, conseguindo inclusivamente memorizar dezenas de diferentes odores.
Proficiente em diversas artes marciais, X-23 é formidável no combate corpo a corpo. Contudo, apesar da ferocidade que evidencia nas batalhas que trava, é dona de um QI elevado que lhe permite processar rapidamente grandes quantidades de informação. É também uma hábil estratega, conseguindo ajustar eficazmente as suas táticas aos mais diversificados cenários.
Poliglota, sabe-se que é fluente em inglês, francês e japonês, podendo, porém, dominar outros idiomas.
Tudo somado, percebe-se porque é X-23 considerada, tanto por aliados como por adversários, uma das mais perigosas mutantes à face da terra.

X-23, uma máquina de matar com rosto de menina.
Fraquezas: O programa de condicionamento mental a que X-23 foi submetida na Fábrica incluiu um "odor gatilho". Trata-se de uma feromona específica suscetível de lhe induzir uma fúria cega que a leva a matar indiscriminadamente sem qualquer controlo das suas ações.
Uma sondagem telepática efetuada em tempos por Emma Frost com vista à supressão desse mecanismo de controlo, resultou inconclusiva. Persistindo, por isso, a dúvida se o mesmo poderá alguma vez ser desabilitado.
Sendo o "odor gatilho" a sua principal fraqueza, importa ainda registar a vulnerabilidade de X-23 a determinados tipos de rajadas energéticas. Exemplo disso foram aquelas com que, certa vez, Nimrod (robô aparentado com as Sentinelas e velho inimigo dos X-Men) a atingiu, provocando-lhe um envelhecimento acelerado. Incapaz de regenerar as feridas daí resultantes, a jovem heroína mutante quase sucumbiu ao ataque.

Fera acuada pela própria raiva.
Perfil psicológico e relacionamentos: Insular é decerto o adjetivo que melhor define a personalidade de Laura Kinney. Dotada de escassas competências sociais, sente habitualmente grandes dificuldades no relacionamento interpessoal. Facto atribuível tanto ao processo de desumanização a que foi sujeita ao longo do seu período de cativeiro como à sua perceção do perigo que representa para aqueles que a rodeiam. Sobretudo depois de, sob o efeito do "odor gatilho", ter tirado a vida ao seu sensei, em quem projetava um arremedo de amor filial.
Na sequência desse trágico incidente, ocorrido ainda na sua infância, a pequena Laura adotou comportamentos autolesivos. Passando a fazer uso reiterado das próprias garras para se mutilar. Um comportamento antissocial profundamente enraizado que ninguém sabe ao certo se terá entretanto abandonado, porquanto  o seu fator de cura sara quase instantaneamente as feridas autoinfligidas.

O sensei de X-23 foi
uma das primeiras vítimas da sua fúria assassina.
Além da violência, outra constante na vida de Laura foi a desafeição. Apesar de a Drª. Kinney ter feito o melhor que podia para lhe incutir alguns resquícios de humanidade, a jovem só muito raramente manifestou interesse na "mãe" por quem fora rejeitada em pequena. Rejeição que, note-se, nada teve de voluntária.
Obedecendo às draconianas diretivas dos seus superiores, a Drª. Kinney evitou a todo o custo estabelecer qualquer vínculo emocional com a "filha", de modo a não comprometer os objetivos do programa - que, recorde-se, pretendia criar um novo Wolverine.
Treinada para ser uma assassina de sangue-frio, X-23 exibiu em diversos momentos sentimentos de compaixão. Quando, numa das suas primeiras missões, foi designada para eliminar o Dr. Martin Sutter - um dos mentores do projeto Arma X original - e a respetiva família, a jovem matou sem hesitar o cientista e a mulher, mas poupou a vida ao rebento do casal.
Em Wolverine, Laura encontrou o que de mais próximo teve de um pai. Com efeito, a relação de ambos, caracterizada por fortes sentimentos de proteção mútua, pouco difere de uma típica relação entre pai e filha.
Logan, no entanto, considerava Laura uma irmã mais nova, sendo, aliás, dessa forma que a costumava apresentar a terceiros. Apesar disso, o antigo X-Man chegou a planear a adoção da jovem. Mesmo não se tendo concretizado essa intenção, os dois agiram sempre como uma família, não faltando, aqui e ali, os inevitáveis arrufos. Escusado será dizer, à luz do quadro descrito, que a morte de Logan provocou efeitos devastadores em Laura.
Quando os dois se conheceram, Logan ofereceu-se para ajudar Laura a começar uma nova vida no Instituto Xavier, dizendo-lhe que ele, melhor do que ninguém, sabia o que ela estava a passar.
Desde que se uniu aos X-Men, Laura tem vindo a limar algumas arestas da sua personalidade. Da sua passagem pelo instituto resultaram as primeiras amizades (com Jubileu e Psylocke) e até uma paixoneta por Satânico (outro dos pupilos mutantes). Em tempos mais recentes, foi com o seu colega de equipa Anjo que Laura se aventurou a voar nas asas do amor. Romance que acabou numa aterragem forçada devido à insegurança emocional da rapariga.
Fazer parte de um grupo ajudou Laura a sentir-se menos socialmente desajustada após largos anos de isolamento. Persistem, contudo, os seus problemas de comunicação que a impedem, entre outras coisas, de compreender e expressar a multiplicidade de emoções que vivencia pela primeira vez.
Padecendo de uma timidez superlativa, quase patológica, Laura raramente pronuncia mais do que uma ou duas frases de cada vez. Isto apesar de, por ter crescido num ambiente controlado, se expressar num inglês impecável, praticamente isento de calão.

Conversas em família para mais tarde recordar.
Histórico de publicação: Seguindo as pisadas de Arlequina (DC) em contramão com a história, foi no pequeno ecrã que X-23 principiou a sua fulgurante carreira. Com a sua estreia a ocorrer em meados de 2003, no episódio 11 da 3ª temporada de X-Men: Evolution, série de animação de mediano sucesso.
Produto da imaginação de Craig Kyle, a personagem correspondia à intenção de tornar Wolverine um conceito mais simpático aos olhos do público infantil. Em harmonia, de resto, com o tom geral da série, onde os X-Men foram reinventados como um grupo de heróis adolescentes. A ideia era, portanto, introduzir uma versão juvenil e amenizada de Logan, considerado demasiado velho e agressivo para gerar empatia com os espectadores mais novos.
Em determinada ocasião, Craig Kyle referiu-se mesmo à sua criação como o "Pinóquio da Marvel". Alcunha que cai bem a X-23 se tivermos em conta que, no fundo, ela é uma arma viva que quer ser tratada como uma pessoa.
Apesar de Chris Yost ter ajudado a escrever o par de episódios de X-Men: Evolution que deram a conhecer X-23, ele reconhece que Kyle já tinha estruturado toda a história da personagem quando os dois se conheceram.
Com os fãs da série rendidos à mais recente anti-heroína mutante, os mandachuvas da Marvel entenderam por bem explorar também as suas potencialidades nos comics. E foi assim que, no início de 2004, X-23 debutou em NYX, uma nova aposta editorial da Casa das Ideias envolvendo a raça Homo superior. Embora o seu passado continuasse envolto numa aura de mistério - ou talvez por isso mesmo - Laura cedo caiu nas boas graças dos leitores, numa altura em que parecia impossível eles cansarem-se dos X-Men e seus derivados. Qualquer personagem com o fator X parecia fadada ao sucesso e X-23 não fugiu à regra.

NYX Vol 1 3
Em fevereiro de 2004, NYX nº3
assinalou a dramática estreia de X-23 na BD.
Ao sucesso quase instantâneo de X-23 não terá sido alheia, também, a sua mudança de visual quando migrou da TV para a BD. Importa recordar que, em X-Men: Evolution, ela possuía cabelo castanho e um tom de pele mais bronzeado do que o da sua versão consagrada nos quadradinhos. Traços fisionómicos, ao que consta, tirados a papel químico da adolescente que Craig Kyle indicara como modelo a Chris Yost na hora de desenvolver a respetiva arte conceitual.

O visual original de X-23 em X-Men: Evolution.
Rapidamente transformada numa das coqueluches da Marvel, X-23 passaria logo depois a coadjuvar os Filhos do Átomo nas  aventuras do grupo publicadas em Uncanny X-Men. Estatuto secundário que manteve até 2010, ano em que foi presenteada com um título próprio, cuja trajetória intermitente ditaria o seu cancelamento ao fim de 21 números. Pelo meio, os segredos do seu passado (ver texto seguinte) seriam finalmente desvelados em X-23: Innocence Lost, minissérie de 2005 com a assinatura dos seus criadores.
Seguir-se-ia uma curta passagem por Avengers Academy e Avengers Arena antes de, vestindo a pele da filha pródiga, regressar, em finais de 2012, à Mansão X. Lá permanecendo mesmo após a morte de Wolverine, de quem assumiria orgulhosamente o legado por entre os ecos de Secret Wars III.
Enterrada a persona de X-23 (se definitiva ou temporariamente, o tempo o dirá), Laura Kinney é, desde janeiro de 2016, a cabeça de cartaz de All-New Wolverine. Título que ela tudo tem feito para honrar.

Justiça de garras afiadas em All-New Wolverine Nº1 (novembro de 2015).

Origem: Um programa ultrassecreto chamado A Fábrica pretende reproduzir o experimento militar que, décadas antes, revestira de adamantium o esqueleto de Wolverine. Quando o Dr. Martin Sutter - um dos mentores do primeiro Arma X - resolve contratar a reputada geneticista Sarah Kinney para desenvolver um clone do mutante canadiano, o projeto toma uma nova direção. Dele também faz parte o Dr. Zander Rice, perfilhado por Sutter depois de o seu pai ter sido assassinado por um Wolverine em modo animalesco.
Dado que a única amostra disponível do ADN de Logan se encontra danificada, a Drª. Kinney falha reiteradamente em replicar o cromossoma Y. Para tentar contornar o problema, propõe aos seus superiores a criação de um espécime feminino. Ideia prontamente rejeitada, em particular por Zander Rice.
Apesar da interdição, Kinney prossegue as suas tentativas de criar um clone viável de Wolverine usando o cromossoma X e apela ao Dr. Sutter que reconsidere. O que ele acaba por fazer, concedendo-lhe autorização para prosseguir as suas experiências.
Após 22 tentativas fracassadas para reconstituir o ADN de Wolverine, a 23ª amostra genética revela-se viável para ser combinada com um embrião. Furioso com a insubordinação de Kinney, Rice obriga-a a servir de barriga de aluguer ao espécime.
Durante o período de gestação Kinney tem cada passo seu monitorizado. Quando, por fim, dá à luz o espécime, este é batizado simplesmente de X-23.
Sete anos depois, X-23 continua a ser mantida em cativeiro na Fábrica e a ser treinada para ser uma arma viva. Para acelerar a ativação do gene mutante da menina, Rice submete-a a doses massivas de radiação. Uma vez ativado o fator de cura de X-23, Rice ordena a extração das garras que ela tem nos pés e nas  mãos, para que sejam recobertas de adamantium antes de lhe serem reinseridas no corpo. Processo executado, do princípio ao fim, sem recurso a qualquer tipo de anestesia.

Laura e a "mãe" num dos raros momentos
 de proximidade entre ambas.
Ao aperceber-se da brandura com que o sensei de X-23 a trata, Rice desenvolve um composto químico a que chama "odor gatilho". Quando detetado pela jovem, o "odor gatilho" traz à tona o seu lado animalesco, libertando os seus instintos mais primários. Logo da primeira vez que isso se verifica, X-23 estraçalha o seu tutor em quem ela tinha o seu único amigo.
Mais três anos se passam antes de X-23, agora uma assassina de elite pronta para tirar a vida a qualquer um a troco da quantia certa, receber a sua primeira missão no terreno. Muitas outras se seguiriam, transportando-a a diversos pontos do globo. Numa delas foi traída e abandonada por Rice, acabando à mercê da organização terrorista IMA. Conseguiu, no entanto, sobreviver e regressar à Fábrica, para enorme frustração de Rice, que desejava ardentemente vê-la morta e enterrada.
Quando Megan, uma sobrinha da Drª. Kinney, é raptada por um serial killer, a cientista, tomada pelo desespero, leva X-23 para fora das instalações da Fábrica. Não para libertá-la mas para usar as suas capacidades de rastreadora para encontrar a menina. Resgatada Megan e morto o seu captor, Kinney devolve X-23 à Fábrica.
É então que a cientista fica a par do plano de Rice para assumir o controlo do programa. Este, por sua vez, descobre a escapadela que Kinney proporcionara a X-23 e resolve expulsá-la. Não sem antes a conduzir a uma câmara secreta para lhe mostrar dezenas de incubadoras contendo outros clones femininos de Wolverine que deveriam servir à concretização de propósitos escusos.
Antes de ajudar X-23 a escapar novamente das instalações, Kinney investe-a de uma última missão: destruir as incubadoras e matar Rice. O que ela não sabia é que Rice a expusera antes ao "odor gatilho".
Quando X-23 completa a sua missão e vai ao encontro de Kinney, sucumbe à sua fúria assassina e acaba por tirar a vida à "mãe".
Esvaindo-se em sangue, Kinney diz à jovem que a ama e que o seu nome verdadeiro é Laura. Antes de exalar o seu último suspiro, passa-lhe para as mãos uma carta e fotografias de Wolverine, do Professor X e da Escola Xavier. Pistas que conduziriam X-23 ao seu "pai".
Foi, porém, tudo menos pacífico o primeiro encontro de ambos. Laura derrotou Logan em combate mas poupou-lhe a vida. Logan, por seu turno, revelou ter sido informado do calvário da rapariga através de uma missiva que lhe fora endereçada tempos atrás pela Drª. Kinney e prontificou-se a ajudá-la. Os dois tornar-se-iam a partir daí inseparáveis até à morte de Wolverine.


Draª Kinney e Wolverine:
 as mortes dos "pais" de X-23.

Trivialidades:

*A escolha do nome Laura foi influenciada pela sua proximidade fonética com Logan;
*Lançada em 2005 em terras do Tio Sam, a minissérie X-23: Inoccence Lost, deu a conhecer em maior detalhe o traumático passado de Laura Kinney. Na história, o temporizador usado por X-23 nas suas missões de extermínio estava sempre programado para 22 minutos, numa clara alusão ao número de clones malsucedidos de Wolverine que antecederam a sua conceção. Já as datas apresentadas para cada missão correspondiam aos aniversários de amigos de Craig Kyle;
Começou aqui a ser desvendado
o traumático passado de Laura Kinney.
*Aquando do seu recrutamento para os X-Men, a X-23 foi atribuído o codinome Talon que, apesar do seu cariz oficial, raramente foi utilizado por ela ou pelos seus colegas de equipa;
*Grande apreciadora de comida condimentada, Laura justifica essa sua preferência gastronómica com a insipidez que caracterizava a dieta que lhe foi imposta durante o seu cativeiro na Fábrica;
*Na apresentação sumária que dela fez aos restantes alunos da Escola Xavier, Wolverine deixou claro que X-23 poderia rasgá-los a todos em pedaços num abrir e fechar de olhos. Aconselhou-os, por isso, a que não lhe dessem motivos para o fazer;
*Devido à quase total ausência de adamantium no seu organismo, o fator de cura de X-23 consegue atuar com maior rapidez do que o de Wolverine. Sendo, todavia, mais instável do que o dele (presumivelmente, por causa da sua juventude);
*Certa vez, uma contraparte de Deadpool originária de uma dimensão paralela afirmou existir nesse mundo uma X-29 muito mais divertida do que Laura. Revelação que muito intrigou a jovem e que, naturalmente, deu azo a especulações por parte dos fãs. Tratar-se-ia a personagem em questão de uma versão alternativa de X-23 ou de outro clone viável de Wolverine? Esta segunda hipótese ganhou força quando, pouco tempo depois, foi apresentada uma história descrevendo as tentativas empreendidas pelos cientistas da Fábrica objetivando a produção de uma nova cópia genética de Logan. É bem possível que tudo  não tenha passado, no entanto, de uma brincadeira do Mercenário Tagarela com o intuito de azucrinar a pobre Laura;
*No encerramento da série Wolverines, Laura teve o seu fator de cura drenado por Sifão (Siphon, no original). Sem que, até ao momento, tenha sido aventada qualquer explicação para tal, essa situação foi revertida quando ela passou a estrelar All-New Wolverine.

Uma nova Wolverine, o mesmo instinto animal.
Noutros segmentos culturais: Boa parte da enorme expectativa à volta de Logan (com estreia nacional a 2 de março, e mundial no dia seguinte), prende-se com a participação de X-23. Interpretada por Dafne Keen, atriz anglo-espanhola de apenas 11 anos conhecida apenas pelo seu papel na série televisiva The Refugees (2014), a personagem estará em evidência na película que marcará a despedida de Hugh Jackman como Wolverine. Especula-se, por isso, se, a exemplo do que ocorreu na banda desenhada, ela poderá vir a ser a herdeira do herói canadiano no cinema. Tanto mais que, em entrevista concedida ao site Comic Book Movie, o realizador James Mangold assumiu o seu interesse em dirigir um filme de X-23.
Mesmo que esse projeto nunca se venha a concretizar, X-23 já logrou fazer o pleno dos ecrãs. Desde a sua estreia televisiva em X-Men: Evolution, a jovem mutante marcou presença em várias outras séries animadas, nomeadamente em Wolverine and the X-Men (2009), e foi personagem jogável em diversos jogos de vídeo baseados no Universo Marvel, no último dos quais, Marvel Contest of Champions (2014), surgiu envergando o seu uniforme de Wolverine.

Laura e Logan numa jornada que ninguém sabe aonde os levará.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

CLÁSSICOS REVISITADOS: «WOLVERINE - O VELHO LOGAN»

 
  Agora um simples homem de família assombrado por um terrível segredo do seu passado, Logan luta pela sobrevivência num Amanhã inquinado pela violência e pela desesperança. Mas conseguirá fazê-lo sem libertar a fera assassina que jurou manter cativa até ao último dia da sua vida? 
   Dos mesmos autores de Guerra Civil, esta é a saga que serviu de mote ao novo filme do Wolverine, que marcará também a despedida de Hugh Jackman do papel que lhe garantiu um lugar na iconografia popular deste século. 

Título original: Wolverine - Old Man Logan
Data de publicação: Julho de 2008 a setembro de 2009
Títulos abrangidos: Wolverine  vol. 3 nº66 a 72 (inclusive) e Wolverine Giant Size Old Man Logan nº1
Licenciador: Marvel Comics
Autores: Mark Millar (história) e Steve McNiven (arte)
Protagonistas: Logan/Wolverine e  Clint Barton/Gavião Arqueiro (Hawkeye)
Vilões: Caveira Vermelha (Red Skull), Doutor Destino (Doctor Doom), Hulk, Gangue do Hulk (Hulk Gang), Ashley Barton/Spider-Girl, Venom, SHIELD e Moloides (Moloids)
Coadjuvantes: Clã Logan (Maureen, Scotty e Jade), Ultron 8, Tonya Parker, Emma Frost e Raio Negro (Black Bolt)
Cenários: Diferentes pontos da Amerika, território geográfico que, na realidade paralela onde se desenrola a trama, equivale, grosso modo, aos EUA pré-colapso.

Cemitério de heróis a céu aberto
em Wolverine nº67.
Edições em Português: Já dada à estampa dos dois lados do Atlântico, a saga foi primeiramente publicada no Brasil pela Panini, entre agosto de 2009 e março de 2010, nos números 57 a 64 de Wolverine, o título a solo do herói mutante. Quatro anos volvidos, em setembro de 2014, seria a vez de a Salvat a reeditar, no âmbito da sua Coleção Oficial de Graphic Novels Marvel. Ainda por Terras de Vera Cruz, e novamente com a chancela da Panini, em agosto do ano passado chegou às bancas brasileiras uma série periódica epónima, da qual já foram lançados até ao momento meia dúzia de números.
Em Portugal, O Velho Logan integrou a segunda série da coleção Heróis Marvel da Levoir, numa edição única que remonta a finais de 2012.




De cima para baixo: a edição portuguesa da Levoir,
a reedição brasileira da Salvat e
o 1º número da série mensal epónima da Panini.
Enredo: Em 2059, os EUA foram conquistados por um conluio de supervilões encabeçado por Magneto, Doutor Destino, Abominação e Caveira Vermelha. Na curta guerra que antecedeu a queda do país, os heróis foram sumariamente derrotados e praticamente varridos do mapa. Aos poucos sobreviventes não restou outra alternativa senão a clandestinidade, a partir da qual assistem, impotentes, ao reinado de terror imposto pelos vencedores
Rebatizado de Amerika, o território geográfico dos antigos EUA foi retalhado ao sabor da ganância dos seus novos governantes, dando lugar a um mosaico de feudos nos quais cada suserano dita a sua lei sem prestar contas a ninguém.
Não demoraram no entanto a eclodir violentas disputas territoriais entre os antigos aliados. Na sequência delas, Abominação foi assassinado pelo Hulk, que assim lhe arrebatou os seus domínios. Destino idêntico sofreu Magneto às mãos de um novo e implacável Rei do Crime. Já o Caveira Vermelha, instalado na Casa Branca, autoproclamou-se Presidente da Amerika e fundou um regime decalcado do III Reich.
À margem dessas insanas guerras pelo poder, Logan e a sua família lutam diariamente pela sobrevivência numa fímbria de terra ressequida localizada em Sacramento, a antiga capital da Califórnia agora uma coutada do Hulk.
Sem dinheiro para pagar o tributo mensal aos seus senhorios da Gangue do Hulk (os obtusos netos do Gigante Verde, fruto da sua relação incestuosa com a Mulher-Hulk, sua prima), o antigo X-Man aceita de bom grado o trabalho que lhe é oferecido por Clint Barton. Outrora o Vingador conhecido como Gavião Arqueiro, Barton é agora um ancião cego que precisa da ajuda de Logan para atravessar o país até à capital da Nova Babilónia. O objetivo é entregar uma encomenda secreta e ilícita que Logan presume serem drogas.

Logan e Clint Barton: dois homens e um destino.
Ao longo da sua extenuante jornada rumo à Costa Leste, a parelha de antigos heróis depara-se com numerosos perigosos e distrações. Num primeiro momento, resgatam Ashley Barton, filha de Clint e neta de Peter Parker (o Homem-Aranha), das manápulas do novo Rei do Crime. Embora aparente aspirar a uma carreira heroica como Spider-Girl, os planos da jovem são na verdade pouco nobres. Após tirar a vida ao seu algoz, Ashley anuncia a sua intenção de reclamar para si o território do Rei do Crime, o qual abrange a antiga área metropolitana de Las Vegas.
Retomando a sua viagem, Logan e Clint sobrevivem por uma unha negra à vaga de destruição levada a cabo por um enxame de Moloides. Esta raça humanoide praticamente destituída de inteligência que durante largos anos serviu o Toupeira (velho inimigo do Quarteto Fantástico), vem afundando cidades inteiras abaixo da superfície por meio de ataques subterrâneos para destruir as respetivas fundações.
Ainda mal recompostos do susto, Logan e Clint veem-se logo depois perseguidos por um enorme e faminto dinossauro importado da Terra Selvagem e infundido pelo simbionte Venom. Segundos antes de o monstro os abocanhar, os dois são, contudo, teleportados para a Zona Proibida por Emma Frost e Raio Negro (respetivamente, a ex-Rainha Branca do Clube do Inferno e o ex-monarca dos Inumanos).
Logan e Clint fogem do apetite do  T-Rex Venom.
À medida que a aventura prossegue e as peripécias se sucedem, é enfatizada a ideia de que a persona Wolverine está morta e enterrada desde a noite em que os vilões lançaram o seu devastador blitzkrieg. Consequência direta desses infaustos acontecimentos, Logan jurou não mais desembainhar as suas garras de adamantium.
Através de flashbacks, é revelado que nessa noite fatídica um grupo composto por aproximadamente 40 supervilões sitiou a Mansão X, lar dos X-Men. Incapaz de localizar os seus companheiros de equipa e temendo pelas vidas dos jovens pupilos lá alojados, Wolverine chacinou os intrusos sem dó nem piedade.
Quando cessou por fim o seu frenesim homicida, o herói percebeu, horrorizado, que tudo não passara de uma ilusão gerada por Mystério, mestre da manipulação sensorial e arqui-inimigo do Homem-Aranha. Os atacantes eram, afinal, os restantes X-Men, que agora jaziam mortos num lago de sangue.
Psicológica e emocionalmente devastado por esse trágico incidente, Logan abandonou a mansão e cambaleou até uma linha de caminho de ferro com o propósito de cometer suicídio. Apesar de atropelado por um comboio a alta velocidade, Logan sobreviveu porque o seu fator de cura mutante conseguiu rapidamente regenerar os ossos e tecidos danificados do seu corpo. Impedido de pôr termo à própria vida, o amargurado herói decretou o fim de Wolverine, o seu lado animalesco a quem culpava pela morte dos amigos.
Chegados finalmente ao seu destino, Logan e o seu companheiro de viagem entregam o misterioso pacote a um presumível grupo da resistência clandestina que se opõe à tirania do Caveira Vermelha. O pacote não contém, afinal, narcóticos mas sim um suprimento do Soro do Supersoldado suficiente para criar um exército. Trata-se do composto químico que deu origem ao Capitão América e que deveria agora servir para formar uma nova geração de Vingadores.
A entrega revela-se, contudo, uma cilada. Os supostos membros da resistência são na verdade operacionais da SHIELD, a antiga agência federal de contraterrorismo, reconvertida na polícia secreta do Caveira Vermelha. Sem hesitar, os agentes crivam Logan e Clint de balas, matando ambos e levando consigo o suprimento de Soro do Supersoldado.
Salvo uma vez mais pelo seu poder regenerativo, Logan sobrevive e desperta em plena sala de troféus do Caveira Vermelha, entre os trajes e acessórios de vários dos super-heróis tombados em combate. Mesmo sem fazer uso das suas garras metálicas, Logan desbarata num ápice os sequazes do vilão antes de o decapitar com o escudo do Capitão América.

Reflexos de um mundo distópico: símbolos nazis na Casa Branca
 e o sinistro empório de troféus do Caveira Vermelha.
Sem tempo a perder, Logan usa algumas peças da armadura do Homem de Ferro para voar de volta a casa, carregando consigo uma mala a abarrotar de notas, que deveria ter servido de pagamento da encomenda trazida por ele e por Clint, e que ele tenciona agora usar para saldar o seu débito à Gangue do Hulk.
No entanto, ao chegar a casa Logan encontra os corpos em decomposição da sua mulher e filhos, massacrados pelos descendentes do Gigante Verde durante a sua ausência. Consumido pela dor e pela sede de vingança, ele quebra finalmente a sua promessa, permitindo que a fera sanguinária que nele habita venha novamente à tona.
Depois de estraçalhar a Gangue do Hulk, Wolverine fica cara a cara com o próprio Banner. Que, mesmo envelhecido e na sua forma humana, exibe uma força descomunal. Enquanto os dois se digladiam animados pelo mais puro ódio mútuo, Banner revela que a morte da família de Logan serviu um duplo propósito: instilar medo aos seus servos e despertar a fúria assassina de Wolverine. Tudo porque o Hulk se sentia entediado devido ao seu estatuto de regente absoluto e à ausência de rivais capazes de lhe proporcionarem uma luta condigna. Desejo que o antigo X-Man não se faz rogado em conceder-lhe.


Logan acerta contas com a Gangue do Hulk
 antes de servir de repasto ao monstro.
Assumindo a sua forma monstruosa, o Hulk é agora maior do que alguma vez foi, derrotando por isso sem dificuldade Wolverine e devorando-o de seguida. Nas entranhas do gigante, Logan regenera-se rapidamente e, numa sórdida reinterpretação da alegoria bíblica protagonizada por Jonas, usa as suas garras para esventrar o seu verdugo a partir de dentro. O Golias Esmeralda tomba sem vida e, ao preparar-se, para abandonar o covil do brutamontes, Wolverine encontra Bruce Banner Jr., o seu filho bebé.
Um mês depois, com a ajuda dos vizinhos, Logan constrói um pequeno memorial para a sua família desaparecida. Sem nada que o prenda àquele causticado pedaço de deserto californiano, ele decide partir com a missão de colocar um ponto final no regime opressivo imposto pelos malfeitores após o ocaso dos heróis. Como novo parceiro  de aventuras, tem agora Bruce Banner Jr., cuja fisiologia mutante continua em crescimento acelerado. E assim caminham os dois, lado a lado, em direção ao pôr do sol...

Apontamentos:

* Além de fisicamente deformados devido à consanguinidade radioativa dos seus antepassados, os membros da Gangue do Hulk são descritos como praticantes de canibalismo;
* Edição datada de setembro de 2008, Wolverine nº67 foi dedicada à memória de Michael Turner, artista notabilizado pelo seu trabalho tanto ao serviço da Marvel como da DC, falecido três meses antes após perder a batalha que vinha travando contra um cancro particularmente agressivo. Tinha 37 anos;
* Problemas de agenda por parte de Mark Millar e Steve McNiven ditaram o atraso no lançamento de Wolverine nº72, edição que incluía o penúltimo capítulo da saga e que só chegaria às bancas depois do nº73. Já a sua capa é uma homenagem a Red Skull's Deadly Revenge, história clássica publicada originalmente em julho de 1942, nas páginas de Captain America Comics nº16. Nela, o Caveira Vermelha também enverga o uniforme do Sentinela da Liberdade numa grotesca paródia aos ideais por ele representados;

A perturbadora capa de Wolverine nº72.
* O Velho Logan é, basicamente, um western. Entre paisagens inóspitas e territórios sem lei, são vários os elementos a remeter para esse género outrora muito popular e que, de há uns anos a esta parte, tem vindo a ganhar novo alento em Hollywood;
* Apesar de Wolverine ser virtualmente imortal e  de ter o seu processo de envelhecimento consideravelmente retardado pelo seu fator de cura mutante, esta não é a primeira vez que ele surge retratado como um ancião. Em Wolverine: The End, outro exercício de imaginação ambientado numa linha temporal divergente apresentado aos leitores em 2004, Logan tem 210 anos de idade e os movimentos tolhidos pela artrite;
* Habituado a escrever para um público adulto, Mark Millar não tem pudor em empregar linguagem obscena nas histórias da sua lavra. Estilo no entanto não compaginável com o código de ética da Marvel. Numa solução de compromisso entre o autor e a editora, os palavrões e restantes expressões decorrentes do baixo calão foram camuflados por asteriscos e outros símbolos gráficos. O Velho Logan ensinou, não obstante, os leitores a praguejar em alemão. Exemplo disso é arschkrieher, imprecação dirigida pelo Caveira Vermelha ao herói e que, numa tradução higienizada para português, equivale a "lambe-botas"(embora o termo original remeta para uma certa parte da anatomia onde a luz do Sol não chega);

Um Logan grisalho e tolhido pela artrite
 em Wolverine: The End (2004).

Sequelas: Conforme deixava antever o final em aberto da saga, aquela não seria decerto a última vez que veríamos o Velho Logan em ação. De facto, ele e Bruce Banner Jr. ressurgiriam pouco tempo depois em Fantastic Four, numa história com a assinatura de Millar e que, apesar de escrita antes dos eventos narrados em Old Man Logan, lhes sucedia cronologicamente.
Agora integrados nos Novos Defensores, Logan e Banner Jr. viajam no tempo numa tentativa desesperada de alterar a cadeia de eventos que conduzirá a um futuro ainda mais tenebroso do que aquele que fora apresentado na saga original.
Em 2015, o mundo selvagem do Velho Logan seria um dos principais campos de batalha de Secret Wars. No decurso desse arco de histórias que revolucionou o Universo Marvel, ele chegou mesmo a reunir-se com os colegas de equipa que havia massacrado. Ponto de partida para o seu regresso em grande estilo em All New, All Different Marvel. Na novíssima continuidade da Editora das Lendas, Logan ganhou um título próprio e, aparentemente, o gosto pelas viagens no tempo.
Transportado aos anos que precederam a queda dos heróis e a consequente ascensão dos vilões em O Velho Logan, o antigo X-Man não olha a meios para tentar impedir que a hecatombe se repita.

Novas aventuras para um velho herói.

Logan será uma adaptação fiel?

Logan chegará às salas de cinema portuguesas a 2 de março,
na véspera da sua estreia em terras do Tio Sam.
Salvo raras e honrosas exceções (sendo os Watchmen de Zack Snyder uma delas), Hollywood não costuma primar pela fidelidade na hora de transpor ao grande ecrã sagas emblemáticas com super-heróis. E, a avaliar pela informação posta a circular no ciberespaço e pelos trailers entretanto divulgados, Logan não deverá fugir à regra. Quanto muito será, como é da praxe, vagamente inspirado no material original.
Sem querer vestir a pele sebosa de um spoiler, é ainda assim possível antever três diferenças fundamentais entre o filme e a saga em que se baseia.
Para começar, a maior parte das personagens que abrilhantam Old Man Logan não irão figurar na película. Como é do conhecimento geral, a Marvel partilha com a Fox os direitos de licenciamento do seu Universo Estendido. Motivo pelo qual, no lugar do Gavião Arqueiro (propriedade dos Estúdios Marvel) veremos o Professor Xavier (parte integrante da franquia dos X-Men explorada pela Fox) a acompanhar Logan na sua jornada, cujo destino e propósito se desconhecem.
À semelhança de Captain America: Civil War, Logan terá, portanto, seguramente um rol de personagens bem mais modesto do que o da história que lhe serve de mote. Também alguns dos seus elementos mais icónicos -  com o T-Rex Venom à cabeça - deverão ficar de fora.
Mas nem tudo são contas de subtrair nesta equação. Em contrapartida, iremos ter oportunidade de ver a estreia de X-23 no grande ecrã. Embora ainda como pessoa de palmo e meio, será interessante ver que tipo de papel lhe estará reservado na película, uma vez que, na banda desenhada, é ela a nova Wolverine. Existe, de resto, a expectativa de que essa passagem de testemunho seja mostrada em Logan. Tanto mais que Hugh Jackman já anunciou a sua indisponibilidade para repetir o papel que vem desempenhando desde 2000, e que lhe garantiu já um lugar na iconografia pop deste século. Ingredientes mais do que suficientes para fazer de Logan um dos filmes mais aguardados do ano.
Onde a X-23 irá estar em destaque é neste blogue. Muito em breve, e no seguimento desta resenha, irei publicar um prontuário detalhado daquela que é uma das novas coqueluches da Marvel. Fiquem sintonizados!

X-23 (dir.) e a sua versão mini em Logan.

Vale a pena ler?

Precedo a minha análise com uma breve declaração de interesses: Wolverine, personagem que considero absurdamente sobre-estimada nos dias que correm, não tem lugar no meu pódio, tampouco no meu Top 10 de super-heróis das diversas editoras. Sou, por outro lado, fã incondicional de realidades alternativas, esses refrescantes exercícios de imaginação que visam subverter o contexto normal dos nossos heróis de sempre, transplantando-os para outras épocas e/ou lugares.
Para resultar, uma história desse cariz depende de uma série de fatores. Um dos principais é saber usar a personagem certa na ideia certa. E, nesse quesito, Mark Millar é exemplar em O Velho Logan.
Wolverine é o tipo de personagem que combina muito bem com uma narrativa com elementos de road trip. Para mais quando essa jornada tem como cenário um futuro pós-apocalíptico onde impera a lei do mais forte, com um herói que procura manter-se fiel ao seu juramento de não violência. Dilema que, per si, instiga a volúpia literária ao mesmo tempo que convida à reflexão filosófica.
A parceria de Logan com Clint Barton foi igualmente uma escolha acertada. Millar trabalha com ambos de uma maneira tão fenomenal que ora temos Logan como protagonista e Clint como coadjuvante, ora se invertem os papéis de ambos.
Mas a mais-valia desta história reside, a meu ver, menos na fantástica dinâmica dos seus protagonistas do que no contexto que os emoldura. Contornando os lugares-comuns narrativos, Milllar surpreende o leitor ao apresentar-lhe, não o habitual mundo distópico onde surge um qualquer ungido para salvar a humanidade, mas antes uma realidade completamente dominada pela desesperança. Mesmo aqueles que parecem bem intencionados revelam ser na verdade pessoas mesquinhas, impelidas pela ganância ou por quaisquer outros interesses egoístas. Millar pretende com isso sublinhar a ideia de que o heroísmo morreu com os heróis na noite fatídica em que os vilões levaram a melhor.
Bem elaborada, a trama absorve por completo o leitor, habilmente espicaçado na sua curiosidade através do mistério em redor do passado de Logan. Segredo que constitui, de resto, uma das traves-mestras da narrativa, e cuja revelação é passível de deixar qualquer um de queixo caído.
Aplausos também para a arte de Steve McNiven. O seu traço realista, com expressões e semblantes mais duros, casa muito melhor com esta história do que com Guerra Civil (já aqui esmiuçada). Saga a que, aqui e ali, são feitas algumas subtis referências, designadamente nas bem coreografadas cenas de luta. Exceção feita ao derradeiro duelo que opõe Logan a um, a vários títulos, monstruoso Hulk.
O que poderia - e deveria- ter sido o ponto alto da trama, desde logo pela revisitação ao primeiro confronto de ambos aquando da estreia de Wolverine nos quadradinhos, parece, no entanto, ter sido feito em cima do joelho. Não sendo dececionante, o combate final fica muito aquém do desejável tom épico. Nada que retire brilhantismo a uma obra que me surpreendeu pela positiva, pois estava reticente quanto ao seu valor.
Com um enredo denso e emocionante, infundido de toda a crueza que a arte de McNiven consegue transmitir, O Velho Logan é, em suma, uma parábola sobre escolhas e como, além de moldarem o caráter de quem as toma, elas definem o nosso destino. Justificando-se assim o seu desfecho aberto a várias interpretações...

O Velho Logan: crónica de um mundo sem esperança.







sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

HERÓIS EM AÇÃO: LANTERNA VERDE




   Primeiro de uma linhagem de gladiadores esmeralda, a sua luz brilhou intensamente antes de ser ofuscada pela do seu sucessor da Idade da Prata. Resgatado vezes sem conta à obscuridade, passou por diversas transformações, chegando aos nossos dias como um dos campeões da Terra 2, avatar da Mãe-Natureza e ícone gay.

Denominação original: Green Lantern
Licenciador: Detective Comics (DC)
Primeira aparição: All-American Comics nº16 (julho de 1940)
Criador: Martin Nodell (com a colaboração de Bill Finger)
Identidade civil: Alan Wellington Scott
Local de nascimento: Metrópolis
Parentes conhecidos: Rose Canton (primeira esposa, falecida), Molly Mayne (segunda esposa), Todd Rice (filho) e Jennie-Lynn Hayden (filha)
Profissão: Engenheiro ferroviário e executivo televisivo (em Os Novos 52)
Afiliação: Membro fundador e vice-líder da Sociedade da Justiça da América (Justice Society of America); ex-membro do Comando Invencível (All-Star Squadron), Xeque-Mate (Checkmate) e dos Sentinelas da Magia (Sentinels of Magic)
Base de operações: Originalmente, as aventuras do herói eram ambientadas em Capitol City, metrópole fictícia localizada no Centro-Oeste dos EUA. De onde, logo depois, se transferiria para Nova Iorque, e daí para Gotham City, passando assim a partilhar com Batman o estatuto de seu guardião.
Armas, poderes e habilidades: Um simples mortal, Alan Scott extrai todo o seu poder do Coração Estelar (Star Heart, no original). Assim se chama o seu anel energético que é na verdade um artefacto místico concebido milénios atrás pelos Guardiões do Universo para encapsular boa parte da magia aleatória do Cosmos. Residindo neste ponto a principal diferença entre o Lanterna Verde da Idade do Ouro e os seus sucessores das épocas subsequentes: enquanto o poder destes é, essencialmente, tecnológico, o de Alan Scott é de matriz sobrenatural.
Ainda que permaneça por apurar a real extensão do poderio do Coração Estelar, sabe-se que confere ao seu usuário uma vasta gama de habilidades. Citando apenas as mais impressionantes: capacidade de voo, teleporte, desmaterialização,  projeção de energia e de campos de força e, claro, a criação de construtos de luz sólida. Imagem de marca de qualquer Lanterna Verde, estes últimos podem adquirir as mais variadas formas e dimensões: desde uma espada para cortar uma corda a um punho cerrado para esmurrar um adversário, passando por uma pá gigante para recolher detritos em tempo recorde. Enfim, tudo aquilo que possa sair da imaginação do herói.
Nas suas primeiras aparições, sempre que fazia uso do seu poder, o Lanterna Verde tinha o seu corpo envolto por um halo esmeralda. No entanto, isso raramente acontecia, À boa maneiras das personagens que, nessa época, povoavam os magazines pulp, ele preferia usar os punhos nas suas escaramuças com os malfeitores. Opção justificada pelo facto de, salvo honrosas exceções, os adversários do herói serem homens e mulheres de carne e osso, e não monstros alienígenas como aqueles que os seus sucessores enfrentam num normal dia de trabalho ao serviço da Tropa dos Lanternas Verdes*. Esta proficiência de Alan Scott no combate corpo a corpo resulta do seu domínio de várias artes marciais, nas quais foi treinado pelo Pantera (Wild Cat), seu colega da Sociedade da Justiça da América.
Era também comum, no início das suas histórias da Idade do Ouro, o Gladiador Esmeralda ser mostrado a recarregar o seu anel na icónica lanterna verde que lhe serve de bateria portátil. Durante 24 horas, e independentemente do dispêndio de energia realizado durante esse período, o Coração Estelar manter-se-ia funcional.

Alan Scott faz o seu juramento solene
enquanto recarrega o Coração Estelar.
Quando, em meados da década de 1980, após o fim do Multiverso DC  ditado pela Crise Nas Infinitas Terras, os Lanternas Verdes Alan Scott e Hal Jordan passaram a coabitar no mesmo universo, houve a necessidade de diferenciá-los aos olhos dos leitores mais recentes. O que foi conseguido, em primeiro lugar, alterando os poderes do Gladiador Esmeralda da Idade do Ouro. Cujos construtos passaram, então, a surgir envoltos numa chama mística, acentuando assim a respetiva natureza esotérica .
Mais tarde, Alan Scott fundir-se-ia com a sua lanterna, deixando de precisar de recarregar o seu anel a cada 24 horas. As transformações não se ficaram por aqui e, em 1995, o Lanterna Verde foi expropriado do seu anel, aprendendo rapidamente a conjurar o seu poder através das mãos que irradiavam agora um fantasmagórico brilho esverdeado. Pelo meio, foi rebatizado de Sentinela (Sentinel, em inglês), como forma de demarcá-lo dos restantes Lanternas Verdes terráqueos entretanto cooptados pelos Guardiões do Universo.
Mais recentemente, em Os Novos 52, a personagem recuperou o seu vínculo com o Verde (uma das forças primordiais da Natureza), com o qual já tinha uma vaga relação nos seus primórdios. E que serve também de fonte de poder a outras personagens do Universo DC, como o Monstro do Pântano.

Alan Scott e Hal Jordan:
 duas gerações de Gladiadores Esmeralda.

* Prontuário da Tropa dos Lanternas Verdes em http://bdmarveldc.blogspot.pt/2013/09/herois-em-acao-tropa-dos-lanternas.html

Fraquezas: Às naturais vulnerabilidades decorrentes da condição humana de Alan Scott, acresce, neste capítulo, a ineficácia do seu anel contra a madeira. Quaisquer objetos fabricados com este material, ou cuja composição o inclua, não podem ser levantados, tampouco destruídos pela energia do Coração Estelar. Podendo estes, ao invés, atravessar facilmente qualquer campo de força projetado pelo Lanterna Verde.
Constrangimentos aplicáveis, também, a plantas, flores e outras espécies do reino vegetal. Sendo quase certo que os mesmos derivam do facto de o Coração Estelar ser simultaneamente energizado pelo Verde, a essência da Terra. Estando assim interdito o seu uso contra as manifestações vivas da Mãe-Natureza.
Em casos extremos, a inobservância desta regra poderá induzir uma disrupção no anel, cujo refluxo energético será suscetível de causar a morte ao seu usuário. Assim se explica, também, a elevada resistência de Solomon Grundy, arqui-inimigo do Lanterna Verde, aos poderes do herói. É que Grundy é na verdade um zombie superpoderoso composto, em parte, pela flora do pântano onde foi gerado.


Ontem como hoje, o primeiro Lanterna Verde
 tem em Solomon Grundy o seu mais formidável inimigo.

Desenvolvimento e histórico de publicação: O que têm em comum uma antiga lanterna dos caminhos de ferro e uma ópera de Richard Wagner? À primeira vista, nada. Martin Nodell, o artista de ascendência judaica "pai" do Lanterna Verde Alan Scott, conseguiu, no entanto, descortinar uma relação entre essas duas coisas. Foi nelas que ele se inspirou para imaginar a personagem que o imortalizaria na história da 9ª Arte.
Admirador confesso da obra do prodigioso compositor germânico do século XIX, foi depois de assistir ao ciclo de óperas épicas intitulado O Anel do Nibelungo que Nodell teve a ideia de criar um super-herói detentor de enorme poder fornecido por um anel mágico. Para recarregá-lo, teria à sua disposição uma bateria portátil com a forma de uma lanterna outrora usada pelos funcionários ferroviários para dar ordem de partida ou de paragem aos comboios. Meio de transporte que Nodell usava habitualmente nas suas deslocações do dia a dia e que sobre ele exercia grande fascínio desde tenra idade.
Igualmente fascinado pela mitologia helénica, Nodell logo estabeleceu que a sua personagem envergaria um traje colorido e com elementos dela retirados. Figurino ao qual não poderia faltar a inevitável capa, acessório quase obrigatório tanto nos super-heróis como nos supervilões da época.
Em 2000, numa das últimas entrevistas que concedeu em vida (faleceria seis anos depois), Nodell recordou os dias que antecederam a estreia do primeiro Gladiador Esmeralda. Aqui fica o seu relato na primeira pessoa, transcrito da revista Alter Ego nº5: "Depois de enviar os esboços da minha personagem para a All-American Comics (uma das predecessoras da DC Comics), tive de esperar duas longas semanas por uma resposta. Por fim, fui convocado para uma reunião com o próprio Max Gaines, o proprietário da editora. Que, após passar os olhos distraidamente pelo meu trabalho, me anunciou que estava contratado. Apesar de não caber em mim de contente, tratei logo de deitar mãos à obra. Escrevi cinco das oito páginas daquela que seria a história de estreia do Lanterna Verde. Foi então que me sugeriram que ficasse responsável apenas pelos desenhos, deixando as tramas a cargo de Bill Finger. Devo confessar que, mesmo tendo sido ele um dos autores do Batman, quase nada conhecia do seu trabalho. E, a bem dizer, pouco sabia na altura acerca do funcionamento da indústria dos quadradinhos. Aceitei a sugestão sem levantar ondas porque pensei que estavam apenas a querer ajudar-me. Tanto mais que me foi dito que Finger tinhas muitas ideias para aperfeiçoar a minha personagem."

Martin Nodell deu ao mundo o seu primeiro Gladiador Esmeralda.
Esta anuência de Nodell suscitaria, contudo, uma celeuma que perdura até aos dias de hoje. Não só porque dela resultou um conjunto de importantes modificações ao conceito por ele originalmente desenvolvido, como valeria a Bill Finger os créditos pela coautoria de uma personagem que, em bom rigor, se limitou a retocar. Não obstante, os dois trabalhariam juntos durante sete anos, entre 1940 e 1947. Sem que haja registo de qualquer fricção entre ambos.
Mas puxemos um pouco atrás o filme dos acontecimentos. Segundo o próprio confessou, Martin Nodell passou a lista telefónica a pente fino até encontrar dois nomes que lhe soassem bem ao ouvido para assim definir a identidade civil da sua personagem. Alan Scott correspondeu a esse critério fonético e, em julho de 1940, debutaria nas páginas de All-American Comics nº16, combatendo o crime como Lanterna Verde.

All-American Comis nº16 (1940) apadrinhou a estreia do Lanterna Verde.
Logo no inverno desse ano, o neófito herói começaria também a marcar presença nas aventuras da Sociedade da Justiça da América (SJA), publicadas em All-Star Comics, outro dos títulos de charneira da editora capitaneada por Max Gaines. A passagem do Lanterna Verde pelas fileiras da equipa seria, contudo, meteórica. Mesmo tendo sido designado seu vice-líder, abandoná-la-ia escassos meses depois, com regresso marcado apenas na década seguinte.
Alheio a esta sua saída prematura da SJA não terá sido o facto de, mercê da crescente popularidade de que gozava entre os leitores, o Lanterna Verde ter sido entretanto contemplado com um título a solo. Corria o ano de 1941 e, por esses dias, os adversários do Gladiador Esmeralda eram ainda, na sua larga maioria, delinquentes comuns. Havendo já, porém, a registar duas exceções de peso: o tirano imortal Vandal Savage, e o mais pujante dos mortos-vivos, Solomon Grundy. Com o tempo, ambos se tornariam vilões de referência no Universo DC.
Numa altura em que Nova Iorque servia amiúde de cenário às aventuras do herói, ainda no decurso de 1941 o Lanterna Verde, em linha com a tendência que faria escola nessa época, ganharia o seu adjunto da praxe. Doiby Dickles era um roliço e truculento taxista do Brooklyn que se tornaria presença assídua em Green Lantern até 1949, dando-lhe um toque humorístico.
Mais surpreendente fora o sucesso de Streak, a mascote canina do herói introduzida no ano anterior, e que logo caíra nas boas graças dos fãs. Tanto que teria direito a estrelar a sua própria série periódica. Prerrogativa de que o seu dono não mais voltaria a usufruir, após o cancelamento de Green Lantern em 1949. Naquele que seria um efeito colateral do declínio do género super-heroico instalado no pós-guerra, a que poucas personagens escapariam indemnes.



SJA (cima) e Doiby Dickles,
parceiros de aventuras do Lanterna Verde na Idade do Ouro.
A derradeira aparição do Lanterna Verde na Idade do Ouro ocorreria, no entanto, um par de anos volvidos, em 1951, nas páginas de All-Star Comics nº57. Seguir-se-ia uma longa travessia do deserto que só terminaria doze anos depois. Mas nada voltaria a ser como dantes para o primeiro - e, até aí, único - dos Lanternas Verdes.
Em 1959, já em plena Idade da Prata, o editor-chefe da DC, Julius Shwartz, reinventaria o Lanterna Verde como um herói de ficção científica. Renegando dessa forma a matriz sobrenatural do seu antecessor da Idade do Ouro. Embora com poderes idênticos aos do seu homónimo, o novo Gladiador Esmeralda incorporava uma força policial intergaláctica chamada Tropa dos Lanternas Verdes, passando, por isso, menos tempo na Terra do que nos confins do espaço sideral.
Ausentes das suas histórias estavam, também, quaisquer referências ao seu antecessor. Que, para todos os efeitos, nunca existira. Decisão que, somada à enorme popularidade de Hal Jordan, não bastou ainda assim para apagar Alan Scott da memória afetiva dos leitores da velha guarda. Estava, portanto, aberto o caminho para o regresso do Lanterna Verde original. O qual se verificaria em 1963 numa história do Flash em que participou como convidado especial.
Prevenindo as incoerências na continuidade do novo Lanterna Verde, as histórias do seu antepassado foram relegada para um universo paralelo. A partir do qual, ao longo das décadas de 60 e 70, ele desenvolveria a sua atividade heroica. Sem, contudo, deixar de usar a sua magia para visitar pontualmente o nosso mundo. Aparições que se tornariam mais regulares com a reabilitação da Sociedade da Justiça da América em 1976 e, depois, em 1981, com o lançamento do Comando Invencível (coletivo que agrupava a SJA, os 7 Soldados da Vitória e os Combatentes da Liberdade em histórias ambientadas na 2ª Guerra Mundial).
Na sequência da extinção do Multiverso DC, em 1986, estabeleceu-se que todas as personagens da Editora das Lendas que haviam sobrevivido à Crise nas Infinitas Terras passariam doravante a coexistir na nova realidade unificada. Alan Scott foi, no entanto, visto como uma ponta solta que era imperativo atar ou cortar de vez. Foi assim que, em Last Day of the Justice Society (volume especial dado à estampa logo nesse ano), ele e os membros remanescentes da SJA foram aprisionados para todo o sempre numa dimensão paralela. Degredo que, por exigências dos fãs, seria abreviado no princípio da década de 1990.

A edição que marcou o início do exílio da SJA.
Contrariamente ao que se verificara com alguns dos seus contemporâneos da Idade do Ouro, com Batman e Superman à cabeça, Alan Scott não foi, porém, objeto de rejuvenescimento, sendo antes retratado como um herói sénior cuja longevidade fora magicamente prolongada. Para assegurar a sua distinção da encarnação moderna do Lanterna Verde, a personagem passou a atender pelo nome de Sentinela. Alteração que vigoraria até 2003, ano em que Alan Scott recuperou o direito a ostentar o título de Lanterna Verde. Reavendo, de caminho, o seu anel energético do qual fora também espoliado. A ribalta, essa, seria conseguida por via da sua participação no título da SJA ao longo do resto da década.
Em 2011, no contexto de Os Novos 52 (penúltimo dos cíclicos reboots do Universo DC), Alan Scott ganharia nova vida, novo visual, nova fonte de poder e até uma nova orientação sexual. Devolvido à Terra 2, lá pontifica como o único Lanterna Verde, sendo apresentado como um jovem herói gay que, por conta do seu vínculo místico ao Verde, opera também como um avatar da Mãe-Natureza. Ao lado dos restantes campeões desse mundo (que não intitulam SJA), assume a defesa da Terra 2 após o perecimento da Trindade durante a brutal guerra travada contra Apokolips, o domínio infernal de Darkseid.
Com o regresso do Universo DC à continuidade pré-Novos 52 ditada no ano passo por Rebirth, o mais recente (e, certamente, um dos mais ambiciosos) reboots da Editora das Lendas, subsistem ainda muitas dúvidas quanto ao status de Alan Scott nessa nova velha realidade. Sendo a reabilitação da SJA um dos pontos fortes de Rebirth, é provável que lhe esteva reservado um papel relevante nesse contexto, e que seja passada uma borracha sobre a sua versão anterior. Preceito, de resto aplicável, a tudo o que diz respeito aos Novos 52, fase controversa que, no geral, foi mal acolhida muita pelos fãs, procurando agora a DC emendar a mão.

O renascimento de uma lenda em Os Novos 52.
Origem: Milénios atrás, uma chama mística cor de jade caiu, sob a forma de um meteorito, numa aldeia remota da China. Uma voz no interior do corpo celeste profetizou que a chama se manifestaria três vezes: a primeira para trazer a morte, a segunda para trazer a vida e a terceira para trazer o poder.
Para que a primeira parte da profecia se cumprisse, um ferreiro da aldeia forjou o metal do meteorito com a forma de uma lanterna. Temendo serem castigados pelo que consideravam ser um sacrilégio, os restantes aldeões mataram o ferreiro. Apenas para, quase de imediato, serem eles próprios fulminados por uma violenta irrupção da chama esverdeada.
Já nos tempos modernos, a lanterna chegaria às mãos de um paciente internado numa instituição psiquiátrica. Depois de a ter moldado numa lanterna de caminhos de ferro, o homem teve a sua demência milagrosamente curada pela luz que dela emanava, ganhando assim uma nova vida.
A terceira e última parte da profecia seria cumprida em 1940, quando a lanterna escolheu para seu portador Alan Scott, um jovem engenheiro ferroviário. A quem começaria por salvar a vida na sequência do colapso de uma ponte na qual Alan trabalhava. De seguida, a lanterna instruiu-o a criar um anel a partir do metal que a compunha. Alan obedeceu, adquirindo dessa forma uma panóplia de poderes mágicos. Os quais, sob a identidade heroica de Lanterna Verde, passaria a empregar no combate ao crime, à injustiça e à opressão que ensombram o coração da humanidade. Missão que executava a solo ou ao lado dos seus companheiros da Sociedade da Justiça da América.

Tributo artístico de Alex Ross ao Lanterna Verde da Idade do Ouro.
Seria posteriormente revelado que o meteorito a partir do qual foram forjados o anel e a lanterna do Gladiador Esmeralda era, afinal. um fragmento do Coração Estelar, aglomerado senciente criado pelos Guardiões do Universo para reunir boa parta da magia aleatória do Cosmos. E que, outrora, fora pertença de Yalan Gur, um alienígena ao serviço da então desconhecida Tropa dos Lanternas Verdes,  e por esta designado protetor do setor espacial 2814 que inclui a Terra.
Muito diferente desta origem clássica do herói foi a releitura que dela foi feita em 2011, no âmbito de Os Novos 52. Agora um jovem e dinâmico executivo de uma estação televisiva da Terra 2, Alan Scott tencionava aproveitar uma viagem de negócios à China para pedir em casamento Sam, o seu namorado de longa data. Os seus planos seriam, todavia, frustrados devido ao descarrilamento do comboio magnético no qual ambos seguiam. Desse acidente resultaria a morte de Sam e de vários outros passageiros. Alan, por sua vez, seria protegido por um estranho halo verde.

Foi controversa a decisão de transformar
Alan Scott no primeiro super-herói gay da DC.
Logo depois, uma voz descarnada anunciou-lhe que a tragédia que vitimou o amor da sua vida havia sido causada pela mesma força malévola que ameaçava todo o planeta. Tomado pela dor e pelo desejo de vingança, Alan aceitou de bom grado a missão de defender a Terra e de encontrar o responsável pela morte de Sam. Para isso, contará com uma armadura de luz sólida construída pela chama esmeralda e com um anel energético forjado a partir da aliança que pretendia enfiar no dedo do malogrado Sam.
De acordo com o que já aqui foi referido, esta encarnação moderna do Gladiador Esmeralda está associada ao Verde, entidade mística conectada com toda vida vegetal do nosso planeta. Fazendo do herói um dos avatares da Mãe-Natureza e infundindo dessa forma as suas histórias de um subtexto ecológico.

Heroísmo policromático.

Trivialidades:

* "E derramarei a minha luz sobre as trevas do Mal, porque as criaturas da escuridão não suportam a luz. A luz do Lanterna Verde!" é a tradução livre do juramento solene feito pelo primeiro Gladiador Esmeralda. Cuja versão original reza assim: "And I shall shed my light over dark evil, for dark things cannot stand the light. The light of the Green Lantern!";
* Alan Scott é canhoto, motivo pelo qual usa quase sempre o seu anel energético na mão esquerda. Já o seu nome do meio é uma homenagem a Arthur Wellesley, Primeiro Duque de Wellington e general do Exército britânico responsável por uma das maiores derrotas militares infligidas às forças napoleónicas no decurso da Guerra Peninsular (1807-1814);
* Apesar de ser a cidade-berço de Alan Scott, Metrópolis tem no Super-Homem o seu mais insigne habitante;
* São tantas as celebridades que a compõem, que a família de Alan Scott faz inveja ao clã Kardashian. Senão vejamos: Rose Canton, a sua primeira esposa, era Espinho (Thorn), uma esquizofrénica vilã do Flash da Idade do Ouro; Molly Mayne, com quem Alan casou em segundas núpcias, usou durante algum tempo a persona de Arlequim (Harlequin, não confundir com a Arlequina), uma destrambelhada vilã da mesma época; quantos aos seus filhos (ambos fruto do primeiro casamento), os gémeos Todd Rice e Jennie-Lynn Hayden, notabilizaram-se, respetivamente, como Manto Negro (Obsidian) e Jade ao serviço da Corporação Infinito (Infinity, Inc., coletivo heroico que reunia os filhos dos membros da SJA);

Jade e Manto Negro, os filhos de Alan Scott e Rose Canton.
* Na sua versão primitiva, o Coração Estelar provinha do Universo ao qual pertencia a Terra 1, embora Alan Scott habitasse, juntamente com outros heróis da Idade do Ouro, a Terra 2. Após a extinção do primeiro Multiverso, ocorrida no corolário de Crise nas Infinitas Terras (1985-86), o anel passou a ser originário do mesmo universo do seu usuário. Na continuidade emanada de Os Novos 52, ambos provêm, por isso, do Universo da Terra 2;
* Igualmente na senda do ocaso do Multiverso original, conquanto a existência do Lanterna Verde tenha prevalecido na cronologia pós-Crise, alguns dos elementos da sua história pregressa poderão ter sido suprimidos e/ou alterados, pelo que deverão ser desconsiderados para efeitos canónicos;
* Num aditamento retroativo à continuidade da personagem, uma história publicada nos idos de 1984, em All-Star Squadron Annual nº3, serviu, de uma penada, para explicar a aparência viçosa dos membros da Sociedade da Justiça da América - aparentemente imunes à passagem do tempo - e a prolongada ausência do Lanterna Verde das fileiras da equipa. Consequências diretas, conforme foi mostrado, do confronto dos veteranos heróis com um vilão chamado Ian Karkull, que os imbuiu, bem como às respetivas esposas, das energias responsáveis pelo retardamento do seu envelhecimento;

O encontro entre a Sociedade da Justiça da América
 e a Liga da Justiça em All-Star Squadron Annual nº3 (1984).
* De igual modo, também o rejuvenescimento de Alan Scott em Os Novos 52 não se ficou a dever a algum tipo de elixir milagroso ou a um peeling facial. O segredo para a juventude do Lanterna Verde - em harmonia, de resto, com as demais personagens dessa realidade - reside no facto de o seu corpo ser agora composto da energia mística irradiada pelo Coração Estelar. Certa vez, o herói foi gravemente ferido em combate, daí resultando a perda de um olho. Órgão que seria, no entanto, rapidamente regenerado devido à ação do anel, algo que nunca se verificara anteriormente;
* Aquando da criação da personagem que lhe valeria um lugar no panteão da 9ª Arte, Martin Nodell assinava os seus trabalhos artísticos com o pseudónimo Matt Dellon. Prática corrente e recorrente nos alvores da indústria dos comics, quando estes eram ainda encarados como um subproduto cultural destinado, fundamentalmente, ao público infantil. Circunstância que levava muitos autores a não se orgulharem da própria obra, acoitando-se, por isso, num cómodo anonimato.

Uma lanterna de esperança que alumia a penumbra
 e espanta os que dela se nutrem.
Noutros segmentos culturais: Como boa parte dos heróis da Idade do Ouro cobertos pela areia do tempo e do esquecimento, o Lanterna Verde original tem uma expressão quase nula fora da banda desenhada. As únicas exceções a esse ostracismo mediático consistiriam, até ao momento, em participações pontuais suas em séries animadas e de ação real baseadas no Universo DC, designadamente em Smallville e Batman: The Brave and The Bold.
Apesar dessa sua débil representação no panorama audiovisual, o herói recebeu, contudo, o merecido destaque no segundo tomo de Sleepers, trilogia literária da autoria de Christopher Priest e Mike Baron que dá a conhecer três gerações de Lanternas Verdes: Alan Scott (Idade do Ouro), Hal Jordan (Idade da Prata) e Kyle Rayner (Idade Moderna).

O primeiro dos Lanternas Verdes
 em evidência no segundo volume de Sleepers.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

ETERNOS: DICK SPRANG (1915-2000)



  Sempre na sombra de Bob Kane, de quem foi o "fantasma" favorito, influenciou decisivamente a estética das histórias do Batman. Da sua imaginação saiu também um dos mais icónicos modelos do Batmobile. O merecido reconhecimento só chegaria, contudo, após ter trocado a 9ª Arte pela exploração arqueológica, outra das suas paixões.

Biografia: No já longínquo verão de 1915, a pequena cidade de Fremont, no estado norte-americano do Ohio, viu nascer aquele que viria a ser o seu segundo filho mais ilustre. No campeonato local de notoriedade, Richard W. Sprang (Dick para os mais íntimos) perde apenas para Rutherford B. Hayes, o advogado da terra que, entre 1877 e 1881, ocupou a Sala Oval. O antigo Presidente dos EUA seria, de resto, uma das duas celebridades à sombra das quais Sprang se habituaria a viver. Sendo a outra Bob Kane, cocriador do Batman sobejamente conhecido por ser avesso a dividir os louros com quem quer que fosse.
Da infância e vida familiar de Dick Sprang quase nada se sabe. Ainda adolescente, desdobrava-se entre os bancos da escola e as agências publicitárias da sua cidade natal. Onde, a troco de um punhado de dólares, coloria cartazes e panfletos depois das aulas. Embora modesto, esse seu primeiro emprego dotou-o do arcaboiço necessário para fazer face às exigências do ofício de ilustrador que abraçaria já homem feito.
Segundo Jerry Bails, eminente historiador da Nona Arte, quando ainda frequentava o liceu, na viragem da década de 1930, Dick Sprang começou a colaborar com a Thrilling Publications, editora especializada em magazines pulp. Essa não foi, porém, a única incursão do jovem artista nesse tipo de publicações que, à época, gozavam de enorme popularidade sobretudo entre o público juvenil.
Sem nunca negligenciar os estudos, Sprang emprestava também o seu traço às historietas do mesmo género publicadas com os selos da Columbia Publications e da Street & Smith. Transpondo dessa forma as fronteiras do seu Ohio natal, visto que esta última estava sediada em Nova Iorque. Cidade para onde o jovem Sprang se mudaria anos depois.


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Em cima: Dick Sprang na juventude.
Em baixo: Capa da sua autoria para um dos magazines pulp com que colaborou.
Com o diploma do secundário na mão, por volta de 1934 Dick Sprang arranjou emprego como cartunista num tabloide da cidade vizinha de Toledo. Demonstrando uma admirável capacidade de trabalho que se tornaria seu cartão de visita, não cessou a sua colaboração com os vários magazines pulp onde dera os primeiros passos como ilustrador e, ocasionalmente, como editor.
Famoso pela sua inatacável ética profissional, numa entrevista dada em 1987 Sprang descreveu nos seguintes termos os primórdios da sua notável carreira: "Eu fazia parte do departamento de arte de um jornal, onde tínhamos diariamente de cumprir religiosamente cinco prazos de entrega. Tínhamos outras tantas edições na rua que incluíam anúncios publicitários dos mais variados negócios, desde lojas de móveis a joalharias. Significando isto que, além dos cartunes humorísticos e das ilustrações que acompanhavam algumas das notícias, tínhamos ainda de desenhar os produtos que cada uma dessas empresas se propunha vender. Aprendi a usar gravadores para o fazer e a dominar como poucos as técnicas de impressão. Mas o mais importante foi ter aprendido o valor de um prazo. Que, para mim, é sagrado. Habituei-me, por isso, desde muito cedo, a trabalhar contra o relógio. Sem, no entanto, retirar esmero ao meu serviço. Temos de saber respeitar o nosso ganha-pão, pois só assim poderemos conservá-lo."

Retrato do Presidente Franklin D. Roosevelt desenhado por Dick Sprang.
E foi assim, com a mala a abarrotar de brio e esperança, que, nos primeiros meses de 1936, Dick Sprang trocaria a pacatez de Toledo pela azáfama da cidade insone. Em Nova Iorque trabalharia nos anos seguintes como ilustrador freelancer de diversos títulos pulp, sentindo-se como peixe na água. Tanto que, de quando em vez, se aventurava na escrita dessas historietas protagonizadas por cowboys, detetives particulares e toda a estirpe de heróis temerários que, com as suas aventuras mirabolantes, incendiavam a imaginação a miúdos e graúdos.
Facto pouco conhecido, em 1938 saíram da pena de Dick Sprang os guiões de uma mão-cheia de episódios de Lone Ranger, o lendário folhetim radiofónico que deu a conhecer o mais afamado dos justiceiros mascarados do Velho Oeste. Personagem com a qual Sprang já havia, aliás, trabalhado um par de anos antes, quando arte-finalizou algumas das suas histórias aos quadradinhos.

Dick Sprang escreveu alguns episódios de Lone Ranger (1933-54).
A década seguinte começaria com a entrada dos EUA na II Guerra Mundial e o inexorável declínio da literatura pulp. Quadro pouco auspicioso que levaria Dick Sprang a tentar a sua sorte na florescente indústria dos comics, a viver então os seus anos dourados.
De facto, as histórias com super-heróis estavam na moda e, por isso, vendiam como pãezinhos quentes no inverno. Raro era o dia em que não surgia mais uma dessas figuras espampanantes. Parecendo, no entanto, haver sempre lugar para mais uma, tal era a sofreguidão dos leitores. Princípio aplicável, também, às editoras que, por esses dias, se acotovelavam por um lugar ao Sol num mercado em convulsão e que prometia fama e fortuna a quem nele se conseguisse afirmar.
Cavalgando essa onda de euforia criativa, Dick Sprang propôs sociedade a dois colegas de ofício, Norman Fallon e Ed Kressey, assim nascendo logo depois o Estúdio Fallon-Sprang. Operando a partir de um minúsculo apartamento no coração de Manhattan, o trio providenciava material artístico a editoras de menor dimensão sem recursos para a contratação de ilustradores residentes.
Apesar desse seu projeto ir de vento em popa, Dick Sprang aspirava a voos mais altos. Na esperança de que isso desse asas ao seu sonho, ainda em 1941 apresentou parte do seu portefólio a Whitney Ellsworth, o todo-poderoso editor-chefe da DC Comics. Que, impressionado com o talento do jovem artista e precavendo a mais que provável mobilização de Bob Kane(1) para a guerra, nem hesitou em contratá-lo para desenhar as histórias do Batman.
No entanto, aquilo que poderia ter sido um passaporte para a ribalta, esbarrou na cláusula contratual, imposta por Kane, que impedia qualquer artista, que não ele, de ser creditado pelo seu trabalho com o Cavaleiro das Trevas.
Dick Sprang engrossaria, assim, a extensa lista de desenhadores-fantasmas do Batman que, até meados dos anos 1960 - quando a citada cláusula foi por fim revogada - foram obrigados a permanecer incógnitos de modo a que o obeso ego de Bob Kane não fosse sequer beliscado ao de leve.
Edição dada à estampa em setembro de 1943, Batman nº18 assinalou, sem pompa nem circunstância, a estreia de Dick Sprang como desenhador do Homem-Morcego. Era dele o traço da Dupla Dinâmica que surgia em destaque na respetiva capa. Menos modesta seria a sua contribuição para a edição seguinte ao assumir a arte da capa e de três das quatro histórias nela inclusas, tendo ainda feito os esboços da quarta. Um verdadeiro teste à sua capacidade de trabalho que Sprang superou com distinção.

O primeiro trabalho de Dick Sprang em Batman nº18 (1943).
Sempre à sombra de Bob Kane, ao longo das duas décadas seguintes Sprang foi um obreiro anónimo dedicando-se quase em exclusivo ao Cruzado da Capa. Sem nunca cortar o cordão umbilical que o ligava à personagem, entre 1955 e 1963 (ano em que se retirou dos quadradinhos), foi o "fantasma" de Curt Swan(2) em World's Finest Comics, série mensal que apresentava as aventuras conjuntas da Dupla Dinâmica e do Super-Homem. Caberia, aliás, a Sprang desenhar o primeiro protótipo da Supergirl, a fim de testar a recetividade dos leitores a uma contraparte feminina do Homem de Aço.

Uma das capas de World's Finest Comics ilustradas por Sprang.
Paralelamente a tudo isto, os títulos periódicos do Homem-Morcego continuavam a ser abrilhantados pela singular arte de Dick Sprang. Cuja influência, embora desconhecida dos fãs, seria decisiva para a evolução visual do herói, bem como para o enriquecimento da sua mitologia.
Juntamente com Bill Finger (a quem só muito tardiamente a DC reconheceu a "paternidade" do Batman), em 1948 Dick Sprang introduziu um novo e carismático vilão nas histórias da Dupla Dinâmica: o Charada (3).
Dando rédea solta à sua criatividade, nesse mesmo ano Sprang apresentou também um novo modelo do Batmobile. Com linhas modernas e equipado com tecnologia de ponta, tornar-se-ia uma referência na história do veículo que há quase 80 anos serve de meio de transporte ao Cavaleiro das Trevas e seus ocasionais escudeiros. Motivos de sobra para que Bob Kane tenha confidenciado mais do que uma vez ter em Dick Sprang o seu "fantasma" favorito.



Charada e um novo Batmobile:
 duas das criações mais emblemáticas de Sprang para a Bat-universo.
Sprang sobressaía, de facto, entre a chusma de desenhadores-fantasmas que acolitavam anonimamente Bob Kane. Les Daniels, outro renomado estudioso da Nona Arte, não hesita mesmo em qualificá-lo como o artista supremo do Batman na chamada Idade de Prata dos comics. Segundo ele, Sprang conhecia como ninguém a forma como os mais pequenos liam as bandas desenhadas. Para os manter suspensos do que aconteceria ao virar de cada página, ele trabalhava meticulosamente na transição de painéis, conferindo desse modo maior fluidez à narrativa. Para a qual muito concorria a limpidez e o dinamismo que caracterizavam o seu traço.
Outra explicação possível para o desenvolvimento desse estilo poderá ser atribuída aos constantes atrasos de Bill Finger na entrega dos seus roteiros. Uma vez que estes começavam frequentemente a ser desenhados com o final em aberto, isso requeria um enorme jogo de cintura da parte de Sprang.
Nada disso teria sido, porém, possível sem a valiosa ajuda de Lora Sprang, a polivalente cara-metade de Dick Sprang. A quem ele, logo após ter sido contratado pela DC, tratara de ensinar os segredos da balonagem. Sob o pseudónimo de Pat Gordon, Lora, que era também fotógrafa freelancer, seria a letrista de largas dezenas de histórias do Batman, Super-Homem e outros até 1961, ano em que cessou a sua colaboração com a Editora das Lendas.
Dick Sprang incutiu maior dinamismo às aventuras de Batman e Robin.
Em busca de geografias mais arejadas, em 1946 o casal Sprang tinha-se mudado de armas e bagagens para Sedona, cidadezinha do Arizona que tem nas suas imponentes formações de areia vermelha o seu ex libris. Foi lá que Dick Sprang descobriu outra das suas paixões: a exploração arqueológica. Atividade à qual se dedicou de corpo e alma depois de ter abandonado, corria o ano de 1963, a indústria dos comics. E que lhe valeu a notoriedade que esta durante tanto tempo lhe sonegou.
Dessas suas prospeções no terreno resultaria, em 1952, um importante achado arqueológico. Em conjunto com um casal amigo, Dick Sprang trouxe à luz do dia umas ruínas Anasazi (tribo indígena desaparecida antes do advento dos europeus à América), nunca antes vistas pelo homem branco.
Fascinado também pela fotografia, Sprang tornar-se-ia nos anos seguintes um perito no mapeamento de antigos trilhos usados pelos pioneiros que, nos alvores do século XIX, haviam partido à conquista do Oeste bravio. A sua voz pode ser, de resto, ouvida em diversos registos áudio do National Park Service, agência federal à qual compete administrar a rede de parques naturais e de monumentos nacionais dos EUA.
A despeito de ter tido a sua obra parcialmente republicada em 1961, apenas em meados da década seguinte Dick Sprang obteve o merecido reconhecimento por parte dos fãs. Para quem, até então, por força das circunstâncias acima descritas, não passava de um perfeito desconhecido.
Subitamente basculado ao estrelato, nos anos seguintes Dick Sprang tornar-se-ia um habitué das convenções de banda desenhada e outros certames ligados à cultura pop. Quando não estava a distribuir autógrafos aos fãs embevecidos, vendia as suas reproduções de capas da Idade do Ouro a colecionadores endinheirados. Conservando, no entanto, intacta a sua proverbial modéstia.
Após ter ensaiado o seu regresso aos quadradinhos em 1987, através de colaborações esporádicas com a DC, em 1995 Sprang lançaria aquela que seria a sua obra testamentária: duas edições limitadas contendo litografias da sua autoria mostrando os segredos da Bat-Caverna e a galeria de personagens do Batman.
Segredos da Bat-Caverna revelados numa das litografias de Sprang.
Três anos antes, em 1992, Sprang fora agraciado com um Inkpot Award, galardão que distingue anualmente a nata dos iconoclastas. Prémio mais do que merecido, porém insuficiente para reparar a indignidade a que ele, à semelhança de tantos outros artistas da sua geração, havia sido sujeito.
Com a mesma discrição com que vivera, Dick Sprang despediu-se do mundo dos vivos em 2000, escassos meses depois de ter sido indicado para o Will Eisner Comic Book Hall of Fame. Deixando para trás  um impressionante espólio que vale a pena (re)descobrir. Sendo, portanto, da mais elementar justiça que eu, na minha dupla condição de fã do Batman e diletante da Nona Arte, renda aqui a minha singela, porém sentida, homenagem a este grande vulto dos quadradinhos. A quem o tempo se encarregou de resgatar ao ostracismo a que parecia condenado devido ao exacerbado narcisismo de alguns dos seus pares.

"A imortalidade é uma espécie de vida que adquirimos na memória dos homens."
 (Denis Diderot, filósofo francês do século XVIII)

(1) Perfil de Bob Kane: http://bdmarveldc.blogspot.pt/2011/10/eternos-bob-kane-1915-1998.html
(2)  Idem de Curt Swan: http://bdmarveldc.blogspot.pt/2013/07/eternos-curt-swan-1920-1996.html
(3) Prontuário do Charada: http://bdmarveldc.blogspot.pt/2013/11/galeria-de-viloes-charada.html

Galeria de capas desenhadas por Sprang: