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quarta-feira, 21 de setembro de 2016

HEROÍNAS EM AÇÃO: BATGIRL



  Em resposta às especulações sobre a sexualidade da Dupla Dinâmica, a primeira Batgirl foi introduzida nas suas histórias para servir de interesse romântico ao Menino Prodígio. Seria, no entanto, a sua sucessora a tornar-se um ícone da cultura pop e um símbolo involuntário da emancipação feminina. Vendo-se assim no epicentro de algumas polémicas suscitadas pelo tratamento violento aplicado às mulheres nos comics.

Denominação original: Batgirl (no Brasil, a personagem começou por ser chamada de Batmoça pela EBAL, nomenclatura mantida pela Abril até ao princípio deste século)
Licenciadora: Detective Comics (DC)
Primeira aparição: Detective Comics nº357 (janeiro de 1967)
Criadores: Gardner Fox* (história) e Carmine Infantino** (arte conceitual)
Identidade civil: Barbara Gordon
Parentes conhecidos: Roger e Thelma Gordon (pais falecidos), James e Barbara Eileen Gordon (tios e pais adotivos), James Gordon, Jr. (primo e irmão adotivo)
Afiliação: Corporação Batman (Batman Incorporated), Bat-Família (Batman Family) e Aves de Rapina (Birds of  Prey). Ex-membro do Esquadrão Suicida (Suicide Squad) e da Liga da Justiça da América (Justice League of America)
Base de operações: Gotham City
Armas, poderes e habilidades: Intelectualmente sobredotada, Barbara Gordon teve Batman como seu professor de ciências forenses e técnicas de investigação. Conjugadas com a sua extraordinária proficiência no campo da computação (desenvolvida sobretudo desde que assumiu a identidade de Oráculo), estas valências fazem dela uma detetive de gabarito mundial.
Nas ruas, Batgirl, atleta de topo, vale-se de várias artes marciais e de uma parafernália de utensílios para se defender tantos de reles malfeitores como de criminosos meta-humanos. Além do cinto de utilidades - que incluem os icónicos batarangues, arpéus e cápsulas de gás e fumo - , na sua encarnação moderna a heroína usa um capuz especial apetrechado com lentes de amplo espectro. Que, entre outras funcionalidades, lhe providenciam visão noturna e microscópica. Perita em camuflagem, a heroína tem nas operações furtivas outra das suas especialidades.
Desde os primórdios da sua carreira de vigilante mascarada que a Batgirl se faz habitualmente transportar numa mota de alta cilindrada. Embora mais modesto do que o Batmóvel, o veículo de duas rodas customizado acomoda um laboratório forense portátil que ela usa para examinar as cenas de crime.

* Perfil disponível em http://bdmarveldc.blogspot.pt/2012/04/eternos-gardner-fox-1911-1986.html
** Idem em http://bdmarveldc.blogspot.pt/2013/06/eternos-carmine-infantino-1925-2013.html

Heroísmo de alta rotação.

Histórico de publicação: Em 1954, as suspeições lançadas pelo psiquiatra germânico Fredric Wertham no seu livro Sedução dos Inocentes sobre a existência de um subtexto homoerótico nas histórias da Dupla Dinâmica caíram como uma bomba na conservadora sociedade norte-americana da época. Perante o crescendo de especulações e comentários maliciosos, a DC responderia dois anos depois com a introdução de uma nova personagem feminina destinada a servir de interesse romântico ao Batman.
Foi pois nessa conjuntura homofóbica que surgiu a Batwoman*, persona heroica de Kathy Kane. A mesma que, naquilo que alguns certamente considerarão um ato de justiça poética, meio século depois se tornaria a primeira super-heroína assumidamente lésbica. Mas isso são contas de outro rosário. Se quiserem saber mais sobre o assunto, sigam o asterisco lá em baixo e leiam o prontuário da personagem disponível neste blogue. 
Em qualquer dos casos, se o affair entre Batman e a Batwoman certificava de algum modo a virilidade do herói, já a orientação sexual do Menino Prodígio continuava a ser questionada. Motivando dessa forma a inclusão de uma segunda personagem feminina nas aventuras do Cavaleiro das Trevas, destinada a ser a parceira amorosa do seu jovem escudeiro e a calar de uma vez por todas as más-línguas.
Apresentada como a sobrinha adolescente de Kathy Kane, Betty Kane debutaria em 1961 nas páginas de Batman nº139. Assumindo desde logo a identidade de Bat-Girl (era esta a grafia original), Betty passaria a combater o crime em Gotham City ao lado da tia. Juntamente com Batman e Robin, esta Dupla Dinâmica no feminino formaria a infame Bat-Família. Clã que só  ficava completo com as mascotes Bat-Mite (um pequeno diabrete de outra dimensão) e Ace, o Batcão. 

Betty Kane, a primeira Bat-Girl.

Nem tudo correu, porém, exatamente como planeado. À medida que o tempo passava sem que o namorico do Robin e da Bat-Girl atasse nem desatasse, muitos leitores começaram a torcer o nariz às historietas pueris da Bat-Família, o que fez soar os alarmes no quartel-general da DC.
Recém-nomeado editor do Batman, Julius Schwartz teve uma intervenção providencial. Sem pensar duas vezes, tratou de descartar o lote de personagens que constituía a Bat-Família por as considerar ridículas. Corria o ano de 1964 e, na sua abalizada opinião, eram elas as principais responsáveis pelo acentuado declínio de vendas na linha de títulos encabeçados pelo Cruzado Encapuzado. 
Colocada numa prateleira juntamente com os restantes apêndices burlescos das histórias da Dupla Dinâmica, a Bat-Girl por lá ficaria a apanhar pó e teias de aranha ao longo das duas décadas seguintes. Altura em que, durante Crise nas Infinitas Terras, a sua existência, à semelhança de tantas outras personagens que integram o acervo museológico da Editora das Lendas, seria sumariamente apagada da nova continuidade.Pequena contrariedade que não a impediria de ressurgir alguns anos depois como membro-fundador dos Titãs da Costa Oeste. 
Perante a incredulidade dos fãs mais avisados, a Bat-Girl foi novamente retirada de circulação antes que o Diabo conseguisse esfregar um olho. Tempo igual ao que ela demorou a fazer novo regresso triunfal. Com novas roupagens mas com a mesma galhardia de sempre, Mary Elizabeth "Bette" Kane reapresentou-se ao mundo como Flamebird (traduzida como Labareda e Pássaro Flamejante, no Brasil). Assim permanecendo até aos dias de hoje, embora com cada vez menor relevância nos cânones da DC.

A fogosa Labareda.

Agora que sabemos que fim levou a primeira Batgirl, retrocedamos no tempo para conhecer a origem da sua sucessora. Mais concretamente a 1967, quando a segunda temporada da popular série televisiva da Dupla Dinâmica estrelada por Adam West e Burt Ward divertia miúdos e graúdos. 
Empenhados em captar o público feminino -  em especial as adolescentes - os produtores de Batman desafiaram a DC a criar uma nova super-heroína que servisse esse intuito, ajudando de caminho a promover a terceira temporada da série. Por sugestão de William Dozler, um dos seus produtores-executivos, a nova personagem seria filha do Comissário James Gordon e coadjuvaria a Dupla Dinâmica como Batgirl. 
Com estas diretrizes em mente, Gardner Fox e Carmine Infantino arregaçaram as mangas e deitaram mãos à obra, Por contraponto à sua antecessora, cujo visual se assemelhava a uma variante desenxabida da indumentária do Menino Prodígio, a nova Batgirl tinha tudo a ver com morcegos. Ruiva, esbelta, perspicaz e de sorriso aberto, Barbara Gordon fazia lembrar a rapariga da porta ao lado. De tão adorável, era quase impossível não simpatizar com ela.

Barbara Gordon, a segunda (e mais icónica) Batgirl.

Barbara e o seu alter ego heroico estrear-se-iam poucas semanas depois em Detective Comics nº359, numa história intitulada The Million Dollar Debut of Batgirl. Simplória, a origem da heroína conta-se em poucas palavras: a caminho de um baile de máscaras vestindo uma fantasia inspirada na do Batman, a filha do Comissário Gordon presencia uma tentativa de rapto do milionário Bruce Wayne executada pelo Mariposa Assassina (Killer Moth, em inglês). 
Agindo sem pensar, a jovem conseguiu distrair o vilão permitindo a Bruce escapar. Essa pequena aventura deixou-a tão empolgada que, apesar do desencorajamento do Homem-Morcego, Barbara adotou o pseudónimo de Batgirl fazendo-se anunciar como a mais recente vigilante de Gotham City. 
Note-se que o simples facto de ela fazer ouvidos de mercador ao paternalismo do Batman, sinaliza uma importante diferença relativamente à sua antecessora e à generalidade das coadjuvantes femininas, tradicionalmente retratadas como submissas. Senhora do seu nariz, a Batgirl tornar-se-ia assim um símbolo da emancipação feminina numa época em que as mulheres travavam ainda uma árdua luta de afirmação social.

A sensacional estreia da nova Batgirl em destaque
na capa de Detective Comics nº359 (1967).
Porém, não era só quando vestia o traje de Batgirl que Barbara Gordon servia de modelo às suas congéneres que, não se resignando ao papel de esposas e mães, almejavam construir uma carreira profissional. 
Doutorada em Ciências Bibliotecárias,  Barbara Gordon dirigia a biblioteca pública de Gotham City, descrita como uma das maiores dos EUA. Representando dessa forma todas as mulheres independentes que, na vida real, provavam (e continuam a provar) o seu valor num mundo que, à época, mais parecia um clube de cavalheiros, onde as damas e  donzelas ficavam à porta. 
Cada vez mais popular entre os leitores (muito por conta, também, da prestação de Yvonne Craig em Batman), a Batgirl continuou a figurar nos títulos do Homem-Morcego até meados dos anos 1970. Altura em que passou a estrelar o redivivo Bat-Family em parceria com Robin. Estendendo ainda a sua participação a outras séries emblemáticas da DC, como Justice League of America, The Brave and the Bold ou Adventure Comics. Notoriedade que lhe permitiu continuar a arregimentar fãs e a reforçar o seu estatuto de coqueluche da Editora das Lendas. 
Os anos 1980 trouxeram consigo Crise nas Infinitas Terras e, com ela, a revolução que mudaria para sempre o Universo DC. No final da saga - em que teve um papel insignificante -, a Batgirl não ficou imune às profundas transformações em curso. Na sua qualidade de figura de proa da editora, teve a sua origem retocada. De filha do Comissário Gordon, passou a sobrinha por ele perfilhada após a morte dos seus pais biológicos. Outra diferença assinalável foi o facto de, nesta nova versão da sua história, o primeiro encontro de Barbara Gordon com o Batman ter acontecido quando ela era ainda uma menina.
Seria, no entanto, efémera a sua carreira heroica como Batgirl no período pós-Crise. Conforme vimos no artigo anterior, Barbara Gordon foi atirada para uma cadeira de rodas devido ao ataque de que foi alvo por parte do Joker em A Piada Mortal. Na sequência desses dramáticos eventos, ela adotaria o codinome de Oráculo passando a agir nos bastidores como uma hacker de classe mundial. 

A nova vida de Barbara Gordon como Oráculo.
Com o reboot  do Universo DC trazido por Os Novos 52 em 2011, Barbara recuperou a sua mobilidade e o manto da Batgirl. Ao lado da Canário Negro, da Caçadora e da Lady Falcão Negro, é uma das Aves de Rapina em voo picado sobre o crime e a injustiça.
A história, porém, não acaba aqui. Durante a prolongada ausência de Barbara Gordon (uns módicos 23 anos), o legado da Batgirl foi mantido vivo por três outras mulheres. Em 1999, num dos capítulos de No Man's Land publicado em Batman: Shadow of the Bat nº83, surgiu uma nova versão da heroína. Cuja verdadeira identidade esteve, inicialmente, envolta em mistério.
Seria pois preciso esperar algumas semanas pela revelação de que, sob o capuz, se escondia Helena Bertinelli, mais conhecida como Caçadora (Huntress). Forçada a abandonar o manto da Batgirl antes ainda do desfecho da saga, Bertinelli passou o testemunho a Cassandra Cain. 
Retratada como uma jovem de origem birracial (filha de pai branco e mãe asiática), Cassandra era também um prodígio das artes marciais. A maior peculiaridade da  personagem era, no entanto, o seu mutismo. Deficiência resultante do facto da parte do seu cérebro normalmente usada para a vocalização ter sido, ao invés, treinada para interpretar a linguagem corporal dos seus interlocutores. Habilidade sui generis que, em situações de combate corpo a corpo, lhe permitia antecipar, com elevado grau de precisão, os movimentos dos seus oponentes.
Ao contrário da sua predecessora, as ações da terceira Batgirl (Helena Bartinelli foi somente uma pretendente ao título) tiveram o aval tanto do Homem-Morcego como da Oráculo. Assim, entre 2000 e 2006, a justiceira silenciosa viveu incontáveis aventuras e desventuras em Batgirl, série a solo que a fez cair nas boas graças de um considerável número de fãs. Os mesmos que, na sua maioria, reagiram mal à corrupção moral da personagem. No seguimento dos eventos narrados em Infinite Crisis (2007), Cassandra Cain foi reapresentada como líder da Liga de Assassinos, a secular organização terrorista fundada por Ra's al Ghul**.

Cassandra Cain, uma Batgirl para o século XXI.
Para aplacar os fãs em pé de guerra, a DC voltou atrás na sua decisão de transformar Cassandra Cain numa vilã. Contudo, após o desaparecimento do Batman no final do referido arco de histórias, Cassandra passaria o manto a Stephanie Brown. 
Anteriormente conhecida como Salteadora (Spoiler, na versão original) e filha do Mestre das Pistas (Cluemaster, inimigo clássico do Batman), Stephanie fora a primeira Menina Prodígio a acolitar durante algum tempo o Cavaleiro das Trevas. 
A sua escolha para quarta Bargirl  mereceu desde logo a aprovação de Barbara Gordon. Que não só foi sua mentora como lhe ofertou o uniforme que ela própria envergara em tempos. Importa ainda acrescentar que, depois de Cassandra Cain, Stephanie Brown foi a segunda Batgirl a ter direito a série em nome próprio.

Salteadora, Robin e Batgirl: a trajetória heroica de Stephanie Brown.

*/** Prontuários disponíveis  em http://bdmarveldc.blogspot.pt/2013/07/heroinas-em-acao-batwoman.html  e http://bdmarveldc.blogspot.pt/2012/08/nemesis-ras-al-ghul.html


Impacto cultural: Nos alvores da década de 1960, antes da revolução sexual que se desenrolaria ao longo dela, contavam-se pelos dedos de uma mão as mulheres que, dentro do Universo DC, dispunham de uma carreira profissional que lhes conferia independência financeira e estatuto social. Lois Lane (jornalista que dispensa apresentações) e Jean Loring (advogada e interesse romântico do Átomo) eram, em conjunto com Carol Ferris (presidente da Ferris Aeronáutica, que tinha em Hal Jordan o seu mais ilustre assalariado) algumas dessas honrosas exceções. 
Ao ser retratada como uma pacata bibliotecária, Barbara Gordon foi inicialmente ao encontro de certos estereótipos sociais instituídos. Contudo, a sua transformação em Batgirl pode, em retrospeto, ser encarada como um símbolo da emancipação feminina que começava naquela altura a fazer o seu árduo caminho. 
Conforme faz notar Mike Madrid no seu livro  The Supergirls: Fashion, Feminism, Fantasy and the History of Comic Book Heroines (em tradução livre, As Super-Raparigas: Moda, Feminismo, Fantasia e a História das Heroínas da Banda Desenhada), aquilo que verdadeiramente distingue a Batgirl das suas congéneres surgidas em idêntico contexto é a sua real motivação para combater o crime. Diferente da Batwoman e da primeira Bat-Girl, Barbara porta o símbolo do morcego mas não é amante, tampouco subalterna do Batman. Ao extrapolar o estatuto de parceira amorosa e/ou de adjunta juvenil do herói principal, a Batgirl afirma-se,ao invés, como uma espécie de sua versão simétrica. Tornando-se, por inerência, uma valiosa aliada cuja ação não depende contudo de qualquer figura tutelar masculina. 
Reivindicando tratamento igualitário ao dos seus homólogos masculinos, a Batgirl foi pioneira na defesa da paridade de géneros, pondo dessa forma em xeque os ditames sociais da época. Se isso resultou de uma estratégia premeditada ou do mais puro acaso, é discutível.

Batgirl em pé de igualdade com o Duo Dinâmico. 
Certo é que, embora acolhida pela generalidade dos especialistas, esta tese não é consensual. Alguns dos seus contestatários apontam que, em bom rigor, a Batgirl era uma declinação desinspirada do Batman. Opondo-se desse modo à Mulher-Maravilha, cuja conceção não derivou de um conceito masculino preexistente, e que desde o primeiro momento se afirmou como uma líder. 
À boleia desta análise dos estereótipos de género, Jackie Marsh, renomada historiadora da 9ª Arte, sustenta que enquanto as personagens masculinas tendem a ser descritas como antissociais e agressivas, as femininas, por outro lado, surgem quase sempre infantilizadas por conta dos seus codinomes. Configurando Batman e Batgirl dois casos paradigmáticos dessa circunstância que marcou toda uma época no género super-heroico.
Ainda a propósito de estereótipos (neste caso, raciais), a Batgirl de Cassandra Cain ajudou a deitar por terra alguns dos que surgem ainda hoje associados a personagens femininas de traços orientais. Ora representadas como lutadoras de artes marciais ora como exóticos sex symbols (ora, ainda, como uma mescla de ambos), às mulheres asiáticas sempre foi negada proeminência nos comics. Exceto quando desempenhavam o papel de vilãs. Algo que, convenhamos, acontecia com considerável frequência. Assim se explicando, aliás, o sururu causado pela transformação de Cassandra Cain numa terrorista internacional. Não faltou quem visse nisso uma forma de perpetuar os estereótipos sedimentados ao longo de décadas.
Apesar disso, graças a Cassandra Cain (em cujas veias corre sangue chinês), as mulheres asiáticas passaram finalmente a ser vistas de outra forma na banda desenhada. Ainda que a etnicidade de Cassandra tenha sido abordada de forma implícita, ela  escapou à objetificação sexual que costumava estar reservada a personagens similares. E conseguiu-o tanto por conta do recato da sua indumentária como pela sua orientação sexual indeterminada. 
Mas isso, no fundo, só foi possível devido à mudança de mentalidades. Processo para o qual a indústria cultural tem dado um importante contributo nos últimos anos. Muito embora lançando frequentemente mão a estratégias questionáveis. Que, não raro, resultam na profanação de iconografia consagrada que serviu de referência a sucessivas gerações. Tudo, é claro, em prol desse falso deus chamado "diversidade".

O feminismo  tem na Batgirl um dos seus símbolos.
Apontamentos:

* Paralisada da cintura para baixo em consequência dos eventos narrados em A Piada Mortal, ao longo dos anos foram levadas a cabo diversas tentativas de devolver a capacidade de andar a Barbara Gordon. Todas fracassaram devido ao facto de parte da sua coluna vertebral ter sido destruída e de os danos neurológicos serem demasiado extensos. Precisamente os motivos que a impedem de ter filhos;
* Em Batgirl nº45 (dezembro de 2003), Barbara Gordon declarou que tinha apenas 18 anos de idade quando começou a agir como Batgirl;

De volta às origens em Os Novos 52.

Noutros media: Ocupando um meritório 17º lugar no Top 100 dos super-heróis da banda desenhada elaborado pelo site IGN, a enorme popularidade e influência mediática da Batgirl há muito fazem dela um ícone da cultura pop. Estatuto obtido, em grande medida, por via da sua participação na terceira e última temporada de Batman. Série televisiva de grande audiência entre 1966 e 1968 onde a jovem heroína foi interpretada pela saudosa Yvonne Craig (falecida em agosto de 2015 quando contava 78 primaveras).
Bonita e carismática como a personagem que ajudou a imortalizar junto do grande público, Yvonne Craig foi o chamariz perfeito para adolescentes idealistas que encontraram na Batgirl um modelo a seguir. Muitas dessas jovens tomaram, pela primeira vez, consciência de que as mulheres podiam, afinal, fazer o mesmo que os homens. Ou até melhor.
À semelhança, no entanto, de outras super-heroínas que lhe sucederam no pequeno ecrã (casos da Mulher-Maravilha e da Bionic Woman), a prestação da Batgirl na série seria prejudicada pelo facto de não poder envolver-se em lutas corpo a corpo. Em vez disso, por razões tanto estéticas como de decoro, as cenas que incluíam contacto físico eram cuidadosamente coreografadas por forma a imitar os elegantes movimentos de uma dançarina da Broadway. 
Alegadamente escolhida para o papel por causa da sua voz de desenho animado, mesmo após o cancelamento de Batman, Yvonne Craig voltaria a emprestar corpo à Batgirl numa publicidade institucional a favor da igualdade salarial para trabalhadores de ambos os sexos.

A glamorosa Batgirl de Yvonne Craig.
Apesar da sua prolífica participação em séries de animação estreladas pelo Cavaleiro das Trevas ao longo das décadas seguintes, só em 1997 a Batgirl teria direito a uma versão cinematográfica. Cabendo as honras de estreia a Alicia Silverstone em Batman & Robin. A personagem surgiu, no entanto, retratada no filme com algumas licenças poéticas. Em vez de Gordon, Barbara tinha Wilson como apelido e Alfred Pennyworth como tio. 
Ainda no campo da ação real, Dina Meyer deu vida a Barbara Gordon em Birds of Prey, série televisiva baseada nas Aves de Rapina cuja única temporada foi para o ar em 2002. Embora a trama se centrasse sobretudo no seu papel como Oráculo, foram feitas referências, sob a forma de flashbacks, à sua carreira pregressa como Batgirl. 
Tempos atrás, o realizador dinamarquês Nicolas Winding Refn (Drive) manifestou numa entrevista o seu interesse em dirigir um filme da Batgirl. Atendendo ao atual sucesso comercial desse tipo de produções cinematográficas, o sonho poderá muito bem vir a tornar-se realidade num futuro próximo. 

Alicia Silverstone como Batgirl
em Batman & Robin (1997).




quarta-feira, 7 de setembro de 2016

CLÁSSICOS REVISITADOS: «A PIADA MORTAL»



   Um dia mau será tudo o que separa uma pessoa normal do abismo da loucura? Serão Batman e Joker as duas faces da mesma moeda, reflexos distorcidos um do outro? Questões perturbadoras a que Alan Moore procurou dar resposta naquela que muitos consideram ser a origem definitiva do Palhaço do Crime. Obra tão genial e controversa quanto o seu autor, e cujos ecos reverberam até hoje.

Título original: Batman: The Killing Joke
Data: Maio de 1988
Licenciadora: Detective Comics (DC)
Autores: Alan Moore (trama) e Brian Bolland (ilustrações)
Protagonistas: Batman, Joker, Comissário Gordon e Barbara Gordon
Coadjuvantes: Alfred Pennyworth e Harvey Bullock
Cenários: Vários pontos de Gotham City, incluindo o Asilo Arkham, a Batcaverna e a Mansão Wayne
Edições em português: No período compreendido entre 1988 e 2015, foram 7 as publicações e republicações de A Piada Mortal lançadas no Brasil sob a égide de 3 editoras distintas. A saber: Abril, Opera Graphica e Panini (por esta ordem cronológica). Sobressaindo dentre esses volumes aquele que foi dado à estampa pela Opera Graphica em fevereiro de 2005. Além do formato livro de bolso, o cariz ímpar desse álbum de luxo com capa dura advém igualmente da circunstância de ser o único a preto e branco.
Importa ainda observar, no que às republicações a cargo da Panini diz respeito, que uma delas, datada de outubro de 2006, foi inclusa numa antologia de histórias clássicas da DC saídas da pena de Alan Moore.
A 1ª edição em português de A Piada Mortal
 em Graphic Novel nº5 (1988), cuja capa reproduzia a original.
A singular reedição da história lançada em 2005 pela Opera Grapica.
A coletânea da Panini onde foi inclusa
 uma das reedições de A Piada Mortal.
Desenvolvimento e alcance: Vagamente inspirada em The Man Behind the Red Hood (historieta clássica do Batman originalmente publicada em 1951), A Piada Mortal verte uma nova luz sobre o obscuro passado do Joker. Personagem cuja natureza trágica é, pela primeira vez, colocada em evidência, ao ser retratado como um simples homem de família que, devido a um rosário de dramas e más decisões, embarca numa viagem sem retorno pelas veredas da insanidade.
À semelhança da supracitada história da Idade do Ouro, A Piada Mortal sugere que antes de se tornar no inimigo figadal do Batman, o Joker (cujo verdadeiro nome em momento algum é revelado), teria sido um reles gatuno fantasiado que se apresentou ao mundo como Capuz Vermelho.
Uma vez metamorfoseado no aterrador Palhaço do Crime, são habilmente exploradas as suas semelhanças e contrastes com o estoico Cavaleiro das Trevas. Perspetivados como a antítese perfeita um do outro, lê-se nas entrelinhas que os dois estarão predestinados à coexistência, porquanto a razão de ser de cada um deles se justifica apenas em função da do outro.
Psicodrama por excelência, A Piada Mortal tem na lógica pervertida do Joker o seu fio condutor. Para ratificar o seu postulado de que basta uma conjuntura particularmente adversa para fazer qualquer pessoa normal despencar no abismo da loucura, o vilão não olha a meios. Agindo por isso com os requintes de extrema malvadez que o definem desde a ponta final da Idade do Bronze dos Quadradinhos (1970-1985).

 Detective Comics nº168 (1951) trouxe
 a história matricial de A Piada Mortal.
Mas como é que tudo começou? De quem partiu a ideia de produzir uma história desta natureza? Previam os seus autores o impacto que ela teria? O que a tornou tão polémica? Questões pertinentes a que procurarei dar resposta ao longo da presente resenha. Vamos, então, por partes.
Quando, em meados de 1984, endereçou um convite aos britânicos Alan Moore* (Watchmen) e Brian Bolland (Camelot 3000) para recontarem a origem do Joker, Dick Giordano, à data editor-chefe da DC, estava longe de imaginar quão moroso e impactante esse projeto seria.
Ambos conhecidos pela meticulosidade do respetivo trabalho, a aquiescência de Moore e Bolland só foi conseguida em troca da total ausência de prazos. Sendo pois essa a justificativa para os quase quatro anos que a obra demorou a ser produzida, sob a supervisão de três editores diferentes: a Dick Giordano sucederia Len Wein e a este Dennis O'Neil. Com o qual Bolland se recorda de ter tido apenas uma curta conversa sobre o trabalho em curso. Motivada, segundo ele, pelo seu desagrado em relação à colorização das sequências em flashback. Que, em vez das tonalidades sóbrias requeridas pelo artista, contavam com uma palete de cores garridas. Situação que só seria retificada pelo próprio Bolland em 2008, na reedição que assinalou o 20ª aniversário d' A Piada Mortal.
Bolland reivindica ainda como sua a ideia da trama ser focada no Joker, relegando o Batman para plano secundário. Desse modo arvorado num narrador inconfiável, o vilão diverte-se com a sinuosa evocação do seu passado. De tão labiríntico que é o seu relato, é impossível comprovar a sua autenticidade. Restando, portanto, ao leitor escolher, dentre as múltiplas opções servidas pelo Palhaço do Crime, aquela que se lhe prefigura menos implausível ou, pura simplesmente, aquela que mais o fascina.
Um dos principais méritos que fizeram d'A Piada Mortal uma obra de charneira na memorabilia da DC consistiu na drástica alteração da perceção do público em relação às histórias do Batman. Cuja essência taciturna, suprimida ao longo de quase toda a Idade da Prata, tinha vindo progressivamente a ser restaurada a expensas de projetos como The Dark Knight Returns (1986) e Batman: Year One (1987). A exemplo destas, também na fábula de Moore o Homem-Morcego surge retratado como um indivíduo tão ou mais perturbado do que o próprio Joker. Facto que robusteceu a noção de simetria das duas personagens e as devolveu às suas raízes.
Não obstante, os seus autores sublinharam sempre que A Piada Mortal constituiu tão-somente uma proposta para a origem do Palhaço do Crime. O que não impediu que a narrativa fosse quase unanimemente considerada como a sua versão decantada e definitiva. A prová-lo, o facto de a generalidade dos elementos nela presentes terem sido incorporados na continuidade oficial da Editora das Lendas, passando a coexistir com os cânones da personagem estabelecidos desde a Idade da Prata.

Brian Bolland (esq,) e Alan Moore foram os artífices
 de uma das melhores histórias do Batman de todos os tempos.
Devolvendo a palavra aos autores, Brian Bolland assumiu que a sua visão do Joker foi parcialmente influenciada pelo seu recente visionamento de The Man Who Laughs (filme mudo de 1928 cujo tétrico coprotagonista terá servido de matriz à criação do Palhaço do Crime). Vilão clássico das histórias de Judge Dredd, Judge Death foi outra das referências usadas pelo artista para definir a estética do eterno némesis do Homem-Morcego numa história psicologicamente intrincada que só poderia ter saído da imaginação retorcida de Alan Moore.
Este, no entanto, em diversas ocasiões desvalorizou a importância da obra. Parecendo mesmo não desperdiçar um ensejo para depreciá-la. Numa entrevista concedida em 2000, o polémico escritor inglês surpreendeu meio mundo ao dizer: "Não acho que seja uma grande história, já que não diz nada de particularmente interessante. Não me orgulho dela, tampouco a considero um dos meus melhores trabalhos."
Decorridos três anos, em nova entrevista, Moore foi ainda mais longe: "A Piada Mortal é um exercício de ficção envolvendo o Batman e o Joker, duas propriedades intelectuais da DC. Não trata de nada com que algum de nós se possa confrontar na vida real, porque nenhum deles pode sequer ser comparado com qualquer pessoa de carne e osso. Além de canhestra, a narrativa é completamente despojada de valor humanista. E foi claramente mal interpretada pelos leitores e pela crítica." 
Mal interpretada ou não, certo é que a história, salvo raríssimas exceções, deixou os críticos enlevados. Enlevo esse que fez correr rios de tinta nos meses imediatos à sua publicação.Com a consagração definitiva a chegar em 1989 sob a forma de dois Eisner Awards (equivalente bedéfilo aos Óscares cinematográficos) nas categorias de melhor álbum e de melhor escritor.
Nada mau para uma obra literária que ainda hoje suscita acesos debates e quase abjurada pelo próprio autor. Mas cuja influência, volvidos quase trinta anos, se continua a fazer sentir de forma inequívoca no Universo DC e na história da 9ª Arte.

* Perfil disponível em http://bdmarveldc.blogspot.pt/2013/04/eternos-alan-moore-1953.html

Desenhada pelo brasileiro Rafael Albuquerque,
esta capa de Batgirl fez implodir a internet pouco tempo atrás.
Saibam porquê no texto abaixo.
Controvérsia feminista: Devido às sevícias físicas de que Barbara Gordon é vítima nela, A Piada Mortal tem estado na mira do movimento feminista, que acusa Alan Moore de misoginia e de fazer a apologia descarada da violência contra as mulheres. Opinião, de resto, partilhada por um significativo número de leitores escandalizados pelos requintes de sadismo presentes na sequência em que a filha do Comissário Gordon é estropiada (e presumivelmente violada) pelo Palhaço do Crime.
Algumas das críticas mais abrasivas partiram mesmo de colegas de profissão de Alan Moore. Foi o caso, por exemplo, de Gail Simone (escritora notabilizada sobretudo pelo seu trabalho com a Mulher-Maravilha e a Batgirl), que denunciou a crueldade extrema de que recorrentemente são alvo as personagens femininas na banda desenhada. Aquilo que ela designa como a Síndrome das Mulheres no Frigorífico, numa alusão a uma história homónima do Lanterna Verde Kyle Rainer datada de 1994, na qual o herói descobre o corpo mutilado da namorada no interior de um frigorífico.

Gail Simone, uma das vozes mais críticas da crueldade
 a que são sujeitas muitas personagens femininas nos comics.
Análise secundada pelo historiador da 9ª Arte Jeffrey A. Brown, segundo o qual o nível de violência a que são expostas as personagens femininas nos comics é incomparavelmente superior àquele que é reservado às suas contrapartes masculinas. Mesmo quando severamente mutiladas ou mortas, estas têm maiores probabilidades de lhes ser restituído o seu estado original do que as primeiras. Sendo paradigmático - ainda seguindo a linha de raciocínio de Brown - o caso de Barbara Gordon. Cuja paralisia causada pelo disparo à queima-roupa do Joker se manteve irreversível ao longo de quase um quarto de século (na realidade de Os Novos 52, Barbara Gordon recuperou enfim a sua mobilidade).
Exasperado com a celeuma em redor da sua obra, Alan Moore apenas numa ocasião se pronunciou sobre ela. Igual a si próprio, em 2006 o escritor britânico foi incisivo na sua resposta dada durante uma entrevista à revista Wizard: "Lembro-me de ter perguntado ao nosso editor da altura, Len Wein, se podia aleijar a Barbara Gordon. Apesar de ela ser a Batigrl, ele não teve problemas com isso. Talvez alguém devesse ter-me impedido de fazê-lo, mas ninguém o  fez. E eu não tenho por hábito chorar sobre o leite derramado." 
Reavivada por estas pouco diplomáticas declarações de Moore, a controvérsia conheceria novo capítulo no início de 2015. Tudo por causa de uma polémica capa alternativa da revista Batgirl desenhada pelo brasileiro Rafael Albuquerque. Na qual não faltou quem divisasse uma tentativa de conferir glamour à violência sexual exercida sobre as mulheres. De nada adiantando à DC vir a terreiro esclarecer que a imagem pretendia apenas render um singelo tributo à Piada Mortal.
Com o debate ao rubro no ciberespaço, Rafael Albuquerque recebeu várias ameaças de morte através das redes sociais. A fim de serenar os ânimos, o artista recorreu à sua conta no Twitter para apresentar um pedido de desculpas, já depois de ter solicitado à editora a retirada de circulação da capa que tanto brado provocou.
Ficando desse modo patente a fortíssima carga emocional acomodada numa história imune à passagem do tempo, mas não das mentalidades. A verdade é que, nos dias que correm, A Piada Mortal dificilmente passaria no crivo do politicamente correto, essa espécie de versão moderna dos tribunais do Santo Ofício a cujos arbitrários julgamentos nada nem ninguém parece escapar.
Foi assim que Barbara Gordon acabou numa cadeira de rodas.

Enredo: Pela calada da noite, Batman visita o Joker na sua cela no Asilo Arkham. Enquanto observa o seu arqui-inimigo a jogar tranquilamente às cartas sozinho, o Cavaleiro das Trevas diz-lhe que a incessante loucura na vida de ambos tem de parar, sob pena de um deles acabar por morrer às mãos do outro.
Imperturbável, o Palhaço do Crime continua a deitar as cartas na mesa até ser violentamente puxado por um enfurecido Homem-Morcego. Que nesse instante se apercebe estar em presença de um impostor. Não é o Joker que o herói tem diante de si, mas apenas um homem vestido e maquilhado como ele.
Longe dali, o verdadeiro Palhaço do Crime estás prestes a fechar negócio com o proprietário de um parque de diversões abandonado.  Depois de uma visita guiada ao espaço, o Joker mata o pobre diabo e dá por concluído o processo de aquisição. Em seguida, embrenhado em pensamentos, o vilão começa a recordar algumas passagens da sua vida anterior.
Nessa revisitação, o homem que viria a ser o Joker era um engenheiro anónimo que, para tentar a sua sorte como comediante, largou o  emprego numa fábrica de químicos. Os planos, no entanto. saíram-lhe furados. Desesperado por sustentar a esposa grávida, concordou em participar num assalto às instalações da fábrica onde trabalhara.
Durante a reunião em que ele participava numa esconsa taberna com os dois criminosos que o haviam recrutado para o assalto, a Polícia notificou-o da morte da sua esposa. Ao que tudo indica, em consequência de um acidente doméstico envolvendo um aquecedor elétrico de biberões. Transtornado, o homem procurou desistir do plano mas foi coagido pelos seus cúmplices a cumprir o acordado.
Na fábrica, os dois malfeitores obrigaram o antigo engenheiro a usar um capacete opaco de cor encarnada, transformando-o assim no Capuz Vermelho. Na verdade, tratava-se de um subterfúgio para o incriminar como sendo o chefe da quadrilha caso fossem apanhados pela Polícia.
Mal adentrou nas instalações, o trio de assaltantes esbarrou com os seguranças que as vigiavam. Seguindo-se uma violenta troca de tiros e uma desenfreada perseguição pelos corredores e plataformas da fábrica.
Já depois de os seus cúmplices terem sido abatidos pelos guardas, o Capuz Vermelho viu-se encurralado pelo Batman que acorrera ao local para averiguar o que se passava.
Em pânico, o Capuz Vermelho saltou para dentro de uma enorme tina contendo resíduos tóxicos, nadando de seguida através de uma conduta até ao exterior da fábrica. Ao remover o capacete, descobriu, horrorizado, que os ingredientes químicos em que ficara submerso lhe tinham alterado permanentemente a pigmentação da pele, lábios e cabelo. Agora transformado num sinistro palhaço, o homem sucumbiu à insanidade e nessa noite malsinada nasceu o Joker.

A noite em que o Joker nasceu para atormentar o mundo.
Quanto de verdade terá o seu relato?
De volta ao presente, alguém bate à porta do apartamento de Barbara Gordon quando ela está acompanhada do pai. Ao abri-la, a jovem dá de caras com o Joker vestido como um turista e com um revólver apontado na sua direção. Sem lhe dar tempo de reagir, o Palhaço do Crime prime o gatilho, atingindo Barbara à queima-roupa no baixo ventre.
Enquanto a filha jaz ensanguentada no chão, o Comissário James Gordon é agredido e subjugado pelos capangas do Joker. Que, indiferente ao que se passa à sua volta, começa a despir Barbara ao mesmo tempo que a vai fotografando.
Horas depois, Barbara é transportada para o hospital, e um médico informa o detetive Harvey Bullock de que a lesão causada pelo projétil na coluna vertebral da jovem a deixará paraplégica para o resto da vida.
Nessa mesma noite, a rapariga recebe a visita do Batman, a quem implora que salve o pai do que quer que o Joker tenha planeado fazer-lhe.
No parque de diversões agora ocupado pela trupe do Palhaço do Crime, o Comissário Gordon é desnudado e aprisionado numa jaula por um grupo de anões deformados. Acorrentado e enfiado à força num carrossel, o chefe do Departamento de Polícia de Gotham City (DPGC) é obrigado a assistir repetidas vezes a um aterrador caleidoscópio de imagens da sua filha ferida e em trajes menores.
Quando a alucinante viagem termina finalmente, o Joker ridiculariza Gordon, apontando-o como exemplo do homem comum que se julga imune à loucura, mas a quem bastará um dia mau para perder irreparavelmente a razão.

Para provar o seu ponto de vista,
o Joker testa os limites do Comissário Gordon.
Enquanto isso, Batman esquadrinha a cidade à procura de pistas que o ajudem a descobrir o paradeiro do Joker e do Comissário Gordon. Ao avistar o Bat-sinal projetado no céu noturno, o herói dirige-se ao telhado da sede do DPGC onde é esperado pelo detetive Bullock. Este entrega-lhe dois bilhetes para o parque de diversões abandonado, que lhe haviam sido enviados anonimamente.
Quando o Cavaleiro das Trevas chega ao recinto que serve de covil ao Joker, este consegue escapulir-se para a casa dos espelhos. Salvo pelo herói, o Comissário Gordon mantém intacta a sua sanidade mental, apesar do suplício a que foi sujeito. Tanto assim que pede ao Batman que capture o Joker com vida, para lhe provar que lei e justiça são mais do que meras abstrações.
Dentro da casa dos espelhos, o Homem-Morcego vai-se esquivando das armadilhas montadas pelo Joker, enquanto este tenta persuadi-lo de que a Humanidade é intrinsecamente insana, sendo portanto inútil lutar por ela.
Quando, por fim, Batman alcança e subjuga o seu velho inimigo, procura chamá-lo à razão, incitando-o a pôr um ponto final à sua carreira criminosa que tanto sofrimento já causou. Embora recuse o apelo do herói, o Joker fica momentaneamente melancólico, deixando escapar, num murmúrio amargurado, que é tarde demais para isso.
Rapidamente recomposto, o Palhaço do Crime conta uma piada sobre dois lunáticos em fuga de um hospício. Enquanto as risadas maníacas do vilão se sobrepõem ao som da chuva que cai copiosamente, Batman não consegue conter-se e faz-lhe coro com  as suas gargalhadas.
Durante breves instantes, os dois inimigos jurados riem-se a bandeiras despregadas como se fossem velhos compinchas. Até que se ouvem ao longe as sirenes da polícia, e ambos ficam subitamente silenciosos enquanto a chuva continua a cair aos seus pés.

Rir é o melhor remédio. Mesmo quando a piada é mortal.

Ramificações:

*Aquando da primeira publicação d'A Piada Mortal, em maio de 1988, Barbara Gordon já abandonara a sua identidade heroica de Batgirl. Aconteceu em Batgirl Special nº1, volume lançado escassos dias antes da chegada às bancas da história de Alan Moore. A despeito dessa circunstância, ela costuma ser citada como a derradeira aparição da heroína. Durante algum tempo circulou mesmo a tese de que, originalmente, A Piada Mortal não teria sido concebida para ser canónica, remetendo para uma realidade alternativa. Barbara Kesel confirmou, no entanto, que foi contratada especificamente para encaixar a trama do volume especial de Batgirl  nos eventos narrados em A Piada Mortal;
*Em consequência da sua paralisia, Barbara Gordon adotaria pouco tempo depois o codinome Oráculo (Oracle, no original) passando a usar tecnologia vanguardista e os seus vastos conhecimentos informáticos para assessorar outros vigilantes. Com especial destaque para as Aves de Rapina, equipa constituída exclusivamente por super-heroínas e sediada em Gotham City de que ela viria a fazer parte;
*No decurso de Zero Hour*, surgiu uma Batgirl proveniente de uma linha temporal divergente. Nessa realidade alternativa, fora o Comissário Gordon e não a sua filha a ser  vitimado pelo Joker;
* Em Booster Gold (volume 2) nº5,  o Gladiador Dourado é enviado ao passado por Rip Hunter investido da missão de tentar impedir o ataque do Joker a Barbara Gordon. Tudo não passou, porém, de um estratagema de Hunter para consciencializar o herói de que, salvo raras exceções, os eventos históricos são imutáveis. Resultando, portanto, infrutíferas quaisquer tentativas de manipulá-los;

Soando como um mau agoiro, no canto inferior esquerdo da edição
 que marcou a despedida da Batgirl podia ler-se:
«As estórias da DC não são apenas para crianças.»
* Christopher Nolan -  o realizador britânico da trilogia cinematográfica The Dark Knight - revelou que A Piada Mortal foi uma das principais influências no desenvolvimento do Joker interpretado pelo malogrado Heath Ledger no segundo capítulo da saga;
* Também Tim Burton (Batman e Batman Returns) assumiu que essa foi a primeira banda desenhada que leu em toda a sua vida e que é ainda hoje a sua preferida. A prová-lo, o facto de a origem do Joker mostrada no primeiro filme por ele dirigido possuir vários pontos de contacto com aquela que é narrada em A Piada Mortal;
* Ainda no campo cinematográfico, no mês passado foi lançada em DVD e Blu Ray, Batman: The Killing Joke. Película de animação que adapta a história homónima, recebeu críticas mistas. Se, por um lado, foi louvada pela fidelidade ao material original, a abordagem feita à Batgirl suscitou reações adversas por parte de muitos fãs. E mais não digo para não ser acusado de spoiler.


Batman visita Barbara no hospital após o ataque do Joker
 no filme de animação baseado em A Piada Mortal.

* Saga já aqui esmiuçada em http://bdmarveldc.blogspot.pt/2016/01/classicos-revisitados-zero-hora-crise.html

Vale a pena ler?

Por conta da sua heterodoxia subversiva, Alan Moore nunca será um escritor consensual. Entre os que endeusam a sua obra e aqueles que a vilipendiam, quedo-me algures a meio do caminho.
Se a fábula desencantada de Watchmen é uma obra-prima da Nona Arte, V for Vendetta não passa de um manifesto anarquista que parece saído diretamente das páginas do clássico 1984, de George Orwell.
Apesar de todas as controvérsias que têm marcado a sua já extensa carreira literária, há que reconhecer a enorme coragem que Alan Moore - provocador nato -  tem evidenciado ao longo dela. A mesma que, seguramente ciente de que apenas escritores corajosos conquistam a imortalidade, voltou a demonstrar através de A Piada Mortal.
Claro que alguns dos que me leem poderão argumentar que esse impacto terá sido, em larga medida, negativo. Ao que eu contraponho com o velho chavão: "Se aquilo que escreves não incomoda ninguém, talvez devas considerar mudar de ofício."
De facto, o que não faltou foi gente incomodada pelo teor violento de uma história que, a despeito de apresentar a origem definitiva do Joker, continua a ser mais conhecida como aquela em que o vilão aleijou a Batgirl. Personagem que, convenhamos, muito antes desse seu infortúnio se tornara  já irrelevante no Universo DC. E que, bem vistas as coisas, saiu beneficiada ao ganhar uma proeminência muito maior como Oráculo. É, pois, caso para dizer que certos males vêm por bem.
Mas não me interpretem mal. Não sou totalmente insensível aos argumentos dos detratores d' A Piada Mortal.
Entendo perfeitamente o agastamento e repulsa perante os laivos de sadismo presentes na traumática sequência em que Barbara Gordon é violentada pelo Joker. Estranhando, porém, a ausência das mesmas reações exacerbadas no que à tortura e humilhação infligidas ao Comissário Gordon diz respeito. Indiferença a que talvez não seja alheia a circunstância de se tratar de uma personagem que corresponde ao protótipo do homem branco e heterossexual, logo conotado com a opressão supostamente exercida sobre determinados segmentos da sociedade (onde se incluem minorias de todo o tipo)  afeitos a crónicos vitimismos. E que cada vez mais dominam o espaço público com o seu aparentemente inesgotável reportório de ofensas e reivindicações. Como ficou, aliás, bem patente na tempestade num copo de água feita a propósito da capa de Rafael Albuquerque. Mero exemplo da histeria e das pulsões censórias que por estes dias coartam a liberdade de expressão e a liberdade artística mesmo em sociedades ditas democráticas. Sintomas de uma funesta pandemia a que, eufemisticamente, se convencionou chamar de "politicamente correto".


O tormento de James Gordon.
Ao ousar desafiar com A Piada Mortal os ditames do politicamente correto, Alan Moore tornou-se um escritor maldito aos olhos de muitos dos acólitos dessa espécie de nova igreja do século XXI. Motivo mais do que suficiente para merecer o meu respeito e admiração, e para me juntar com prazer àqueles que elegem esta como uma das melhores histórias do Batman de todos os tempos.
Se ainda não a leram, tratem de fazê-lo e tirem as vossas próprias conclusões. Em circunstância alguma se deixem sugestionar por avaliações de terceiros (inclusive pela minha). Sobretudo quando esses opinadores falam de cátedra. Ou se limitam a servir de caixa ressonância às lamúrias de espíritos ingénuos que acreditam ser possível esconjurar a violência do mundo real censurando-a na ficção.
Lembrem-se que mais importante do que ter opinião é ter opinião livre e própria. E não pedir desculpa por ela.

Batman e Joker: duas cartas fora do baralho.





quinta-feira, 25 de agosto de 2016

GALERIA DE VILÕES: PISTOLEIRO



   Quando uma bala perdida lhe mudou as agulhas do destino, Floyd Lawton jurou não mais falhar um alvo. Depois de anos por conta própria a puxar o gatilho pelo preço certo, juntou-se ao Esquadrão Suicida. Se para desafiar a morte ou expiar os seus pecados, só ele o saberá.

Denominação original: Deadshot
Licenciadora: Detective Comics (DC)
Criadores: David Vern Reed (história) e Lee Sayre Schwarz (arte conceitual)
Primeira aparição: Batman nº59 (julho de 1950)
Identidade civil: Floyd Lawton
Parentes conhecidos: George Lawton (pai), Genevieve Pitt (mãe), Edward Robert Lawton (irmão falecido), Susan Lawton (ex-esposa), Zoe Lawton (filha) e Edward Lawton (filho falecido)
Afiliação: Sexteto Secreto (Secret Six), Esquadrão Suicida (Suicide Squad) e Killer Elite
Base de operações: Gotham City
Armas, poderes e habilidades: Embora desprovido de dons sobre-humanos, o Pistoleiro possui recursos suficientes para fazerem dele um adversário temível, mesmo quando tem pela frente pesos-pesados do Universo DC. Além da pontaria virtualmente infalível que lhe valeu o título de Melhor Assassino do Mundo, é proficiente no combate corpo a corpo, tendo já lutado de igual para igual com o Batman e o Arqueiro Verde.
Exímio no manuseamento tanto de armas brancas como de fogo, o Pistoleiro tem acesso a um impressionante arsenal. Além das suas icónicas metralhadoras de pulso, tem uma predileção especial por uma espingarda de precisão com mira telescópica. Arma que, nas suas mãos, se torna uma certidão de óbito para qualquer alvo que respire.
Fluente em russo - idioma que terá aprendido durante a juventude por supostas motivações políticas -, Floyd Lawton tem no bilinguismo outra importante ferramenta de trabalho.

Estático ou em movimento,
alvo algum escapa à pontaria do Pistoleiro.
Personalidade: Múltiplas avaliações psicológicas efetuadas ao longo dos anos coincidem na conclusão de que Floyd Lawton despreza o valor da vida humana (incluindo da sua), entregando-se frequentemente a exercícios autodestrutivos. Alguns especialistas que o examinaram (avultando entre eles Marnie Herrs, psicanalista residente da penitenciária de Belle Reeve) sustentam mesmo a tese de que ele terá aceitado fazer parte do Esquadrão Suicida apenas porque o encara como um instrumento para acelerar o próprio fim.
Este seu desejo de morrer torna o Pistoleiro um adversário extremamente imprevisível, ao ponto de se automutilar para atingir determinado objetivo. Foi o que aconteceu, por exemplo, durante a refrega que o pôs frente a frente com o Lanterna Verde Kyle Rainer na saga Crise de Identidade (Identity Crisis). Pressentindo a derrota iminente, o Melhor Assassino do Mundo não hesitou em disparar sobre si mesmo, antecipando o impulso do herói em salvar-lhe a vida. Conseguindo dessa forma que o seu oponente baixasse momentaneamente a guarda, o que quase custou a vida ao incauto Lanterna. Mesmo a esvair-se em sangue, o Pistoleiro conseguiu mirar nele, ferindo-o com gravidade. Nessa como em outras missões suicidárias, Lawton não escondeu o seu desapontamento por ter sobrevivido.
A concordância de Lawton em colaborar com a força-tarefa de criminosos descartáveis usados pelo Governo americano em missões sigilosas de alto risco é, porém, passível de outra leitura. Alguns psicanalistas que elaboraram o seu perfil psicológico creem ter sido essa a forma por ele encontrada para se redimir dos inúmeros pecados cometidos no passado.

Floyd Lawton: nascido para matar, marcado para morrer.
Já a afinidade do Pistoleiro com Rick Flag (comandante operacional do Esquadrão Suicida) é explicada pelos trágicos antecedentes familiares do vilão, especificamente pela morte do irmão que ele idolatrava (ver Origem). Havendo, de resto, fortes indícios de que Edward Lawton terá sido, se não a única, pelo menos uma das pouquíssimas pessoas com quem Floyd alguma vez se importou verdadeiramente.
Outra das exceções terá sido, porventura, o seu filho Edward. Após a morte do rapaz, Lawton não descansou enquanto não tirou a vida ao seu assassino. Justificando, no entanto, essa conduta como uma ação necessária à salvaguarda da sua reputação profissional. Segundo as suas próprias palavras, o Mal é real e a única forma de curar certas pessoas é metendo-lhes uma bala na cabeça. Importa ressaltar, a este propósito, que o filho de Lawton foi raptado e violado por um pedófilo antes de por ele ser barbaramente assassinado.
Novamente os pareceres dos especialistas em relação a mais este dramático episódio na vida de Floyd Lawton não foram unânimes. Com alguns deles a sugerirem que tudo não passaria de uma estratégia para camuflar as emoções, mercê da sua inabilidade em lidar com a própria dor e de fazer o luto pelo filho.
Dono de uma personalidades profundamente antissocial - temperada por um certo enviesamento moral -, o Pistoleiro tem na misoginia outro dos seus traços de caráter mais vincados. Questionado sobre as suas relações com o sexo oposto, assume sem pudor a sua preferência por prostitutas e acompanhantes. Justificando essa opção pela sua incapacidade inata em entender o que pretendem as mulheres num relacionamento convencional. Sentindo-se, por isso, muito mais confortável em perspetivar o sexo como uma simples transação comercial destituída de vínculos afetivos.
Regendo-se por um código ético draconiano, o Pistoleiro corresponde ao epítome do profissionalismo. Uma vez remunerado, ele nunca deixa inacabado o serviço para o qual foi contratado. Qualquer alvo seu está, portanto, marcado para morrer.

O Melhor Assassino do Mundo.
Origem e evolução da personagem: Conceito primordialmente desenvolvido por David Vern Reed e Lew Sayre Schwartz, o Pistoleiro fez a sua estreia oficial ainda na Idade do Ouro, nas páginas de Batman nº59 (edição datada de junho de 1950). Poucos pormenores foram, contudo, revelados sobre a respetiva origem e motivações nas suas escassas aparições durante esse período.
De facto, apenas em meados dos ano 80 do século passado - coincidindo com a fase seminal do Esquadrão Suicida - é que os antecedentes e a personalidade do vilão seriam devidamente aprofundados. Cortesia da dupla criativa composta pelo escritor John Ostrander e pelo artista Luke McDonnell. A esta r(e)evolução da personagem, seguir-se-ia uma outra, já este século, à luz de Os Novos 52. Mas vamos por partes. Comecemos, então, pela sua origem clássica.
Floyd Lawton nasceu literalmente em berço de ouro, no seio de uma família particularmente abastada. George Lawton, o patriarca, acumulara fortuna graças à especulação imobiliária, ao passo que a sua esposa, Genevieve Pitt, descendia de uma poderosa linhagem de banqueiros. Descrito como a antítese de Floyd, Edward, o seu irmão mais velho, era tratado como um pequeno príncipe pelos pais. Por conta dessa circunstância, Floyd cresceu à sombra do irmão, o que não o impediu de idolatrá-lo.
Fazendo eco do velho adágio que diz que o dinheiro não compra a felicidade, o clã Lawton vivia em constante desarmonia. Adúltero e abusivo, George maltratava a esposa, o que a levou a pedir aos filhos que pusessem fim ao seu ordálio, matando o pai. No entanto, apenas Edward acedeu de pronto à súplica materna. Floyd, por sua vez, tentou avisar o pai da conspiração em curso, acabando trancafiado pelo irmão numa pequena arrecadação instalada na propriedade da família.
Quando Floyd conseguiu finalmente evadir-se, levou consigo uma espingarda de caça, resoluto em impedir que o irmão manchasse as mãos com o sangue paterno.
Entretanto, no interior da mansão, já o pai jazia agonizante no chão da biblioteca, atingido por um disparo do filho mais velho. Que agora se preparava para lhe dar um tiro de misericórdia.
Perante este macabro cenário, Floyd trepou rapidamente a uma árvore e mirou de forma a apenas desarmar Edward. Contudo, no exato momento em que premia o gatilho, o ramo em que se encontrava empoleirado cedeu ao seu peso e ele acabou por atingir mortalmente o irmão. Já o pai, esse, sobreviveu ao atentado, mas ficaria paralisado até ao último dia da sua vida.
Foi assim que, numa cruel ironia do destino que lhe definiria para sempre o caráter, uma bala perdida disparada por Floyd matou a pessoa que ele mais amava salvando a vida àquela que ele mais odiava.

A estreia do Pistoleiro
não mereceu destaque na capa de Batman nº59 (1950) .
Apesar do incidente ter sido abafado para evitar um escândalo que desonraria a família Lawton, nada voltaria a ser como antes. Mais amargo do que nunca, George negou conceder o divórcio a Genevieve, obrigando-a a viver sozinha com uma pequena mesada. Quanto a Floyd, sairia de casa pouco tempo depois, para empreender o seu treino com um reputado assassino profissional chamado David Cain.
Alguns anos depois, Floyd mudou-se para Gotham City, onde se instalou com o seu mordomo numa faustosa mansão a partir da qual levava uma vida de playboy. Aproveitando a ausência temporária da Dupla Dinâmica, criou a persona do Pistoleiro e, com o beneplácito do Comissário Gordon, começou a agir como o novo guardião da cidade. Usando, para esse efeito, uma fatiota que, à parte a mascarilha que lhe assegurava o anonimato, em tudo o mais fazia lembrar a que é até hoje trajada por Mandrake. Sendo o figurino completado por um par de revólveres que, quando disparados, nunca erravam o alvo.
Cada vez mais popular junto da Polícia e dos habitantes de Gotham City, o Pistoleiro chegou mesmo a dispor de um sinal luminoso próprio (em forma de alvo), destronando dessa forma o lendário Bat-sinal.
Retornados a Gotham, Batman e Robin investigaram o misterioso rival e logo o expuseram como a fraude que ele realmente era. O Pistoleiro estava afinal mancomunado com várias organizações criminosas, servindo as suas ações vigilantistas como cortinas de fumo para distrair as autoridades. Após ter deduzido a verdadeira identidade do vilão, o Cruzado Encapuzado mandou-o para trás das grades.
Na sua versão da Idade do Ouro,
o figurino do Pistoleiro fazia lembrar Mandrake.
A par da morte do irmão, essa primeira passagem de Floyd Lawton pelo cárcere, seria outro dos momentos definidores da sua trajetória de vida. Que só continuaria a ser traçada no período subsequente a Crise nas Infinitas Terras (saga em que o Pistoleiro teve uma participação residual).
Ainda com uma longa pena por cumprir, Floyd conseguiu escapar da prisão graças a um monóculo laser que roubara ao Pinguim. Embrutecido pelas agruras do confinamento, deixou de ter qualquer vestígio de preocupação com civis apanhados no fogo cruzado. Culpava igualmente o Batman pela sua desgraça e, envergando agora o uniforme vermelho que se tornaria sua imagem de marca a partir de meados da década de 1980, tentou matar o herói. Fracassou e foi novamente por ele recambiado para a prisão.
Depois de anos a passar pelas portas giratórias do sistema penal americano, o Pistoleiro foi recrutado para a Força-Tarefa X (mais tarde renomeada de Esquadrão Suicida*). Ao lado de outros supercriminosos condenados dispostos a jogarem as próprias vidas em troca de uma redução das respetivas penas, Floyd Lawton passou a usar os seus talentos para, ainda que de uma forma enviesada, tornar o mundo mais seguro. Aos poucos, o supervilão foi assim dando lugar ao anti-herói. Estatuto consolidado na nova continuidade da DC saída de Os Novos 52.
Entre os vários retoques dados à história do Pistoleiro em 2011, releva o facto de o seu filho ter sido inapelavelmente apagado da existência. No processo Floyd Lawton perdeu também o aristocrático bigode que, até então, fora outra das suas imagens de marca. Apresentado nesta sua versão contemporânea como um velho némesis do Batman, é igualmente descrito como um caçador de recompensas.
Condenado a prisão perpétua na sequência de uma tentativa de assassinato de um senador americano, o Pistoleiro foi recrutado para as fileiras do Esquadrão Suicida, recebendo uma redução de pena como contrapartida. Sempre de mira certeira e moral questionável, assumiu-se, pela primeira vez, como líder do grupo.

*Prontuário do Esquadrão Suicida em http://bdmarveldc.blogspot.pt/2014/08/galeria-de-viloes-esquadrao-suicida.html

O homem que nunca falha um tiro
surge mais letal do que nunca em Os Novos 52.
Apontamentos:

* Malgrado a sua incorporação nos cânones da DC reporte ao período que precedeu Crise Nas Infinitas Terras, o Pistoleiro conservou praticamente intocada a sua origem na nova continuidade emanada da saga. Alguns elementos da sua história poderão, contudo, ter sido objeto de revisionismo, devendo, portanto, ser considerados apócrifos;
* Conhecido pelos seus hábitos pouco salutares, Floyd Lawton é fumador, intolerante à lactose e amigo de infância de William Heller (vulgo Dragão Branco, vilão engajado com ideais de extrema-direita). Lawton alega igualmente ser militante comunista, apesar das suas raízes burguesas;
* As armas que o Pistoleiro usa acopladas nos pulsos foram inspiradas em protótipos idênticos desenvolvidos durante a II Guerra Mundial pelos laboratórios militares do Exército britânico;

Poucos saberão que as icónicas armas de pulso
 do Pistoleiro tiveram um modelo real.
Noutros media: Sem escapar ao cada vez mais frequente revisionismo étnico que vem pautando sucessivas adaptações ao panorama audiovisual de personagens de banda desenhada originalmente caucasianas, o Pistoleiro viu recentemente ser alavancada a sua popularidade graças a Suicide Squad. Filme em que é interpretado pelo ator afro-americano Will Smith, e cuja versão retratada coincide largamente com a de Os Novos 52.

Will Smith dá vida ao Pistoleiro em  Suicide Squad (2016).
Esta não foi, porém, a primeira vez que Floyd Lawton participou numa produção de ação real com a chancela da DC. Tomando emprestado o corpo de Bradley Stryker, o Pistoleiro marcou presença em dois episódios da temporada final de Smallville. Seguindo-se participação mais relevante na segunda temporada de Arrow, agora interpretado por Michael Rowe. Ator que repetiu o papel num episódio da segunda temporada de The Flash ambientado na Terra 2.

 Michael Rowe vestiu a pele de Floyd Lawton em Arrow e The Flash.

No campo da animação, desde o início deste século que o  Pistoleiro vem sendo presença regular tanto em filmes como em séries baseadas no Universo DC. Com a sua estreia televisiva a acontecer na série Justice League (2001-04), onde contou com a voz de Michael Rosenbaum (o Lex Luthor de Smallville). Já a sua última aparição num filme animado remonta a 2014, ano de estreia de Batman: Assault on Arkham, no qual assume o comando do Esquadrão Suicida, arranjando ainda tempo para namoriscar com a Arlequina.

O Pistoleiro
 estreou-se na TV em  Justice League.


segunda-feira, 15 de agosto de 2016

EM CARTAZ: «O JUSTICEIRO»




  Exército de um homem só, o primeiro Justiceiro do século 21 sobreviveu ao confronto com um sanguinário senhor do crime, mas não à metralha de críticas negativas. De pouco lhe valendo o colete à prova de bala ou o facto de esta sua nova aventura cinematográfica ter sido baseada num par de obras antológicas que o consagraram nos quadradinhos.

Título original: The Punisher (subtitulado O Vingador, em Portugal)
Ano: 2004
País: EUA
Género: Ação/Aventura/Fantasia
Duração: 123 minutos (menos 17 do que na versão estendida lançada em formato DVD)
Produção: Marvel Enterprises, Valhalla Motion Pictures e Artisan Entertainment
Realização: Jonathan Hensleigh
Distribuição: Lions Gate Entertainment (EUA) e Columbia Pictures (resto do mundo)
Argumento: Jonathan Hensleigh e Michael France
Elenco: Thomas Jane (Frank Castle/Justiceiro); John Travolta (Howard Saint); Will Patton (Quentin Glass); Roy Scheider (Frank Castle, Sr.); Laura Harring (Livia Saint); Ben Foster (Spacker Dave), Rebecca Romijn (Joan) e Kevin Nash (O Russo)
Orçamento: 33 milhões de dólares
Receitas: 54,7 milhões de dólares

Crime e castigo: as duas faces da justiça.

Desenvolvimento: A ideia de levar novamente o Justiceiro ao grande ecrã começou a ganhar forma no princípio de 1997. Três anos depois, a Marvel celebrou um contrato de longa duração com a Artisan Entertainment (que já produzira em 1989 o primeiro The Punisher) com vista à adaptação de quinze das suas personagens ao cinema e à televisão. Lista que incluía aquele que era há muito um dos mais carismáticos anti-heróis dos quadradinhos. Estatuto que, à partida, fazia do Justiceiro um ativo em que valia a pena tornar a apostar.
Assim, em abril de 2002, foi oficializada a contratação de Jonathan Hensleigh para escrever e dirigir a nova aventura cinematográfica de Frank Castle. Argumentista traquejado, Hensleigh não possuía, contudo, qualquer experiência de realização. Mas nem por isso pensou duas vezes em aceitar o desafio.
Como principais referências para o seu enredo, Hensleigh selecionou duas histórias antológicas do Justiceiro: Welcome Back, Frank (ovacionada série mensal da autoria de Garth Ennis e Steve Dillon, originalmente publicada entre abril de 2000 e março de 2001) e The Punisher: Year One (minissérie composta por quatro volumes lançada nos EUA entre dezembro de 1994 e março de 1995).


Capas de Welcome Back, Frank nº1 (cima)
e de The Punisher: Year One nº1.
Hensleigh não se limitou, porém, a fazer uma colagem de elementos das sagas em questão. Empenhando-se, ao invés, na reinterpretação das motivações de Frank Castle. Sobre as quais teceu em tempos as seguinte considerações: "Tive de me questionar intensivamente sobre que tipo de crime hediondo cometido contra um indivíduo poderia levar mesmo quem repudia o vigilantismo a resolver fazer justiça pelas próprias mãos. Era essa a principal incógnita na minha equação. Foi por isso dei conta aos mandachuvas da Marvel que não era minha intenção filmar apenas uma história de vingança; queria apresentar a mãe de todas as histórias de vingança. Aprovada a minha ideia, tratei de reinventar vários dos aspetos da origem do Justiceiro, tornando-a ainda mais soturna e violenta. Exercício que muito me empolgou fazer."

Jonathan Hensleigh (esq.) e Thomas Jane.
A empolgação do cineasta esmoreceu consideravelmente quando, em vésperas do arranque das filmagens, lhe foi transmitido que o orçamento do projeto se quedaria pelos 33 milhões de dólares, dos quais somente 15,5 milhões se destinariam à produção propriamente dita. Ciente de que a maioria das fitas de ação dispunham de uma verba global a rondar os 64 milhões de dólares, Hensleigh não pôde deixar de sentir uma pontada de angústia. Pontada que se tornaria ainda mais aguda quando lhe foi apresentado o cronograma para as filmagens e pós-produção: 52 dias. Prazo que correspondia, sensivelmente, a metade do tempo alocado à maior parte das produções análogas.
Conforme é revelado nos comentários da edição em DVD de The Punisher, em consequência das restrições orçamentais e do apertado calendário, um significativo número de cenas inclusas na versão primitiva do enredo foram alteradas ou simplesmente eliminadas.
Por insistência do coargumentista Michael France, Tampa (cidade situada na costa oeste da Flórida) foi o local escolhido para acolher as filmagens. Para convencer os produtores das vantagens dessa localização, France fez-lhes notar que, além de sair mais barato filmar lá do que em Chicago ou Nova Iorque, Tampa providenciaria cenários ensolarados. Ora sucede que a cidade é extremamente propensa à ocorrência de repentinas e violentas intempéries. A despeito de as filmagens terem decorrido em meados de julho, desde 1890 que não havia registo de um verão tão chuvoso. Quadro meteorológico que, em larga medida, prejudicou a rodagem da película.
Além das já citadas sagas do Justiceiro, um sortido de filmes e de séries de ação dos anos 60 e 70 do último século serviram de inspiração a Jonathan Hensleigh: de Dirty Harry a The Godfather passando por Bonnie & Clyde, foram várias as influências que impregnaram o seu trabalho de realização. Numa entrevista concedida logo após a estreia de The Punisher, Hensleigh revelou ainda ter ido beber inspiração a Othello, tragédia literária que se conjetura ter sido escrita por William Shakespeare no ano de 1603. Surgindo no entanto as personagens em papéis revertidos, com Frank Castle a ser o catalisador do ciúme doentio que, no filme, leva Howard Saint a assassinar a sua esposa e o seu melhor amigo.
Com as filmagens em velocidade de cruzeiro, a Lions Gate interpôs um processo judicial à Artisan. Em consequência desse diferendo, não obstante a película ter sido distribuída sob a égide da Lions Gate, a verdade é que ela nada teve a ver com o projeto. Ao qual, aliás, nunca dera luz verde. Significando isto que, na prática, a "paternidade" deste The Punisher - tal como da película homónima de 1989 - pertence exclusivamente à Artisan.

Os criminosos podem rir da Lei,
mas não riem do Justiceiro.

Enredo: Quando Bobby Saint e Mickey Duka se encontram com o traficante de armas europeu Otto Krieg nas docas do porto de Tampa, o FBI intervém, daí resultando a morte do primeiro e a detenção do segundo. Também aparentemente morto no tiroteio, Krieg é na verdade um agente federal disfarçado chamado Frank Castle.
Pouco tempo depois desta operação, Castle demite-se do FBI e viaja com a sua esposa e filhos para a ilha de Porto Rico para participar numa reunião familiar em casa do seu pai, Frank Castle Sr.
A transbordar de ódio e rancor devido à perda do filho, o senhor do crime Howard Saint e o seu braço-direito Quentin Glass subornam agentes do FBI que lhes revelam a verdadeira identidade de Otto Krieg. De imediato Saint ordena o assassínio de Frank Castle, mas a sua esposa, Lívia, exige que toda a família Castle seja executada a sangue-frio, pois só assim as contas serão acertadas.
Em Porto Rico, a reunião do clã Castle é violentamente interrompida por um grupo de sicários a soldo de Howard Saint, no qual se inclui John Saint, o outro filho do mafioso, também ele ansioso por vingar a morte do seu irmão gémeo. Frank e o pai ainda conseguem abater alguns dos atiradores, antes de este último ser mortalmente atingido. 
Ao tentarem escapar do fogo cruzado, a mulher e os filhos de Frank são atropelados por um camião conduzido por John Saint. Alvejado no peito e atingido pelos estilhaços de uma explosão deflagrada por Glass, Frank é dado como morto após o seu corpo afundar nas águas da baía. 

O que move um homem a quem foi tirado aquilo que mais amava?
No entanto, Frank sobrevive milagrosamente, sendo resgatado por um pescador local que lhe providencia abrigo e faz o melhor que pode para lhe curar os ferimentos. Uma vez recuperado, o antigo agente federal e ex-operacional da Força Delta, regressa a Tampa, refugiando-se num edifício decrépito onde trava amizade com um trio de jovens inadaptados: Dave, Bumpo e Joan.
Naquele que será o primeiro capítulo da sua vingança, Castle rapta Mickey Duka, que de bom grado lhe fornece informações sobre a vida familiar e os obscuros negócios do clã liderado com mão de ferro por Howard Saint.
Entretanto, Frank caça, um por um, os agentes policiais e antigos colegas do FBI que, por fazerem parte da folha de pagamentos de Howard Saint, haviam dado por encerrada a investigação ao massacre da sua família. 
De seguida, é o próspero negócio de lavagem de dinheiro operado por Howard Saint a ficar na mira de Frank, que consegue mesmo sabotar a sua parceria com os irmãos Toro, dois mafiosos cubanos. Ao investigar Livia Saint e Quentin Glass, Frank descobre que este guarda segredo da sua homossexualidade.
À medida que os seus prejuízos se avolumam, Howard Saint deduz que Frank Castle permanece vivo e que é ele o responsável pela sabotagem dos seus negócios. Determinado em resolver o problema de uma vez por todas, Saint contrata dois assassinos profissionais para liquidar o seu obstinado inimigo.

O reinado criminoso de Howard Saint tem os dias contados.
Harry Heck, um falso guitarrista, é o primeiro a entrar em cena. Durante uma violenta refrega com Frank, acaba morto por ele com uma faca balística cravada no pescoço.
Segue-se o Russo, uma montanha de músculos com força e resistência descomunais, mas que acaba igualmente liquidado por Frank quando este lhe derrama óleo a ferver no rosto. Aproveitando a cegueira do seu adversário, Frank empurra-o por um lanço de escadas abaixo, partindo-lhe o pescoço.
Instantes depois, os homens de Saint acorrem ao local, liderados por Quentin Glass e John Saint. Dave, Joan e Bumpo escondem Frank, recusando-se a entregá-lo mesmo quando Glass tortura sadicamente o primeiro, arrancando-lhe vários dos seus piercings faciais com um alicate. 
Frustrados pela ausência de respostas, os malfeitores resolvem arrepiar caminho, deixando um dos seus companheiros para trás com ordens para matar Frank caso ele reapareça. Contudo, assim que Glass e os restantes abandonam o edifício, Frank mata o capanga e avança para a próxima fase do seu plano de retribuição.
Com a ajuda de Mickey Duka, Frank induz Howard Saint a acreditar que a sua mulher tem um caso com Quentin Glass. Ignorando a homossexualidade do seu lugar-tenente e descrente da fidelidade de Livia, Howard resolve matar ambos pessoalmente, sem que qualquer um deles compreenda o motivo.
Pouco tempo depois, Frank ataca o quartel-general de Howard Saint, um badalado clube noturno na baixa de Tampa. Do ataque resulta a morte de muitos dos asseclas de Howard, incluindo do seu filho John. 
Segue-se uma intensa troca de tiros no parque de estacionamento do clube, durante a qual Frank fere Howard Saint, amarrando-o de seguida pelos tornozelos ao para-choques de um automóvel. Antes de pôr o veículo em movimento, Frank conta-lhe que Livia e Glass nunca o haviam traído, e que tudo não passara de uma farsa por ele orquestrada. 
Enquanto o carro rodopia como um pião infernal pelo parque de estacionamento, arrastando consigo o corpo ensanguentado do vilão, Frank aciona vários engenhos explosivos que tinha plantado previamente. Processo que culmina com a morte de Saint e com o desenho flamejante da icónica caveira que serve de símbolo ao Justiceiro.

O Justiceiro é sinónimo de pena capital para os culpados.
Mais tarde naquela noite, Frank regressa ao seu modesto apartamento com a intenção de se suicidar. Mudando de ideias após ter uma fugaz visão da sua falecida esposa, que o encoraja a dar seguimento à sua campanha de punição a todos quantos se julgam acima da Lei. 
Antes de partir para a sua próxima missão, Frank deixa um saco de dinheiro que trouxera consigo do covil de Saint como um presente de agradecimento a Dave, Joan e Bumpo.
No cimo de uma ponte, banhado pela luz do crepúsculo, Frank faz o seu juramento solene: "Aqueles que fazem mal aos outros - assassinos, violadores, traficantes, psicopatas  - irão conhecer-me bem. Frank Castle está morto. Chamem-me Justiceiro!".

Trailer:




Prémios e nomeações: Nomeado em diversas categorias dos Taurus World Stunt Awards (galardão anual que, desde 2001, distingue as performances dos duplos de cinema), The Punisher saiu apenas vencedor na de Melhor Duplo de Fogo, prémio atribuído a Mark Chadwick.

Curiosidades:

* Apesar de ter sido a primeira escolha do realizador Jonathan Heinsleigh e do produtor Avi Arad para assumir o papel principal, Thomas Jane relutou em aceitá-lo. Após ter recusado um primeiro convite nesse sentido por não se considerar talhado para interpretar super-heróis, mudou de ideias graças à arte conceitual do Justiceiro desenvolvida por Timothy Bradstreet. Ilustrador cujo fabuloso trabalho em Blade II (2002) lhe valera reconhecimento internacional;
* Para corresponder aos exigentes requisitos físicos da personagem a quem, literalmente, aceitou dar corpo, durante sete meses Thomas Jane recebeu treino intensivo dos Navy Seals norte-americanos. Programa que, além da vertente atlética, incluiu também uma formação no manuseamento de vários tipos de armas. Em paralelo, o ator seguiu uma rigorosa dieta proteica que o ajudou a adquirir nove quilos de massa muscular em tempo recorde;
* Devido à deficiente divulgação feita pelas autoridades municipais de Tampa, as linhas de emergência foram entupidas com centenas de chamadas de moradores em pânico durante a rodagem de uma cena que incluía uma explosão junto à sucursal local do Bank of America;
* Ainda no campo dos incidentes, Thomas Jane esfaqueou acidentalmente Kevin Nash quando com ele contracenava - felizmente sem consequências graves. Tendo sido depois a vez de o próprio Thomas Jane sentir na pele o excesso de zelo de uma colega de representação. Numa cena em que deveria fingir suturar uma ferida a Frank Castle, Rebecca Romijn espetou-lhe, sem querer, a agulha no corpo;
* Foram propositadamente construídos para o filme cinco Pontiac GTO, dois dos quais acabariam totalmente destruídos. A opção por este modelo de automóvel foi justificada pela necessidade de marcar diferença em relação ao meio de transporte utilizado pelo Justiceiro na película de 1989. Recorde-se que Dolph Lundgren conduzia uma imponente Harley Davidson;
*No primeiro rascunho do enredo, o Justiceiro dispunha de um escudeiro na sua cruzada vindicativa. Ninguém menos do que David Lieberman, vulgo Microchip. Personagem que, na banda desenhada original, recolhe informações e presta assistência técnica e logística a Frank Castle (coadjuvando-o, esporadicamente, no teatro de operações). Microchip acabaria contudo riscado da história por ordem de Jonathan Heinsleigh, que com ele antipatizava particularmente;

Na BD, David Lieberman adjuva o Justiceiro
 sob o codinome Microchip.
* Estava igualmente previsto que a sequência de abertura do filme mostrasse uma encarniçada batalha ambientada no Koweit durante a primeira Guerra do Golfo. A ideia seria atualizar o cadastro militar de Frank Castle, um veterano do Vietname na história original. Essa seria, porém, uma das muitas cenas cortadas em consequência do austero orçamento da produção;
* A declaração que Frank Castle redige na ponta final da história, elencando os preceitos básicos da sua filosofia vigilantista, corresponde à primeira entrada do seu Diário de Guerra. É nele que, na BD, o Justiceiro regista o deve e o haver da sua campanha contra o crime organizado. E que serviu de base a The Punisher War Journal, outra das suas aclamadas séries mensais encerrada em janeiro de 2009;
* Na versão estendida da película, inclusa na edição em DVD, é apresentada uma trama secundária, na qual é revelado que Jimmy Weeks (antigo colega de Frank no FBI) fornecera, em troca do perdão de uma avultada dívida de jogo, informações sobre a família de Castle a Howard Saint. Após tomar conhecimento da traição de Weeks, Frank compele-o a cometer suicídio. Não foi, contudo, o registo macabro da cena a ditar a sua exclusão da versão cinemática, mas antes a necessidade de encurtar a duração do filme.

Outra das séries do Justiceiro
 que serviram de inspiração ao filme.
Legado: Antes de The Punisher ser trespassado pelo ricochete de críticas contundentes e deixado para morrer em lenta agonia, a Lions Entertainment planeara a produção de uma sequela. Avi Arad, presidente-executivo dos Estúdios Marvel, chegara mesmo a vangloriar-se de que essa seria a quinta franquia cinematográfica baseada na mitologia da Casa das Ideias. Também Jonathan Hensleigh sinalizou o seu interesse em dirigir o segundo capítulo da saga do Justiceiro. Personagem que Thomas Jane se mostrara entretanto disponível para voltar a encarnar. Numa entrevista concedida a uma publicação especializada, o ator chegou mesmo a confidenciar que The Punisher 2 teria o Retalho (Jigsaw) como mau da fita.
Devido à desapontante prestação do primeiro filme, o projeto para a realização de uma sequência direta seria, contudo, deixado em banho-maria nos três anos seguintes. Período durante o qual Jonathan Hensleigh escreveu um primeiro rascunho do guião, que deixou para trás quando resolveu bater com a porta, em meados de 2006.
Nesse mesmo ano, John Dahl foi sondado para ocupar a vaga deixada por Hensleigh, mas as negociações não chegaram a bom porto. Ao que consta, o realizador terá ficado desagradado com a fraca qualidade do enredo, e mais ainda com a recusa dos produtores em abrirem os cordões à bolsa.
Meses depois, em maio de 2007, Thomas Jane seguiria as pisadas de Dahl, invocando os mesmíssimos motivos. Com efeito, após ler o novo guião, da autoria de Kurt Sutter, o ator teve o seguinte desabafo no decorrer de uma entrevista radiofónica: "Aquilo que eu nunca farei é desperdiçar meses da minha vida a dar o litro por um filme em que não acredito. Adoro os tipos da Marvel e desejo-lhes as maiores felicidades. Entretanto, continuarei à procura de projetos que não me venham a causar embaraços no futuro." 
Sem demora, os Estúdios Marvel anunciaram, poucas semanas depois, os nomes do novo realizador e do novo ator principal: respetivamente, Lexi Alexander (um inexperiente cineasta germânico) e Ray Stevenson (ator nascido na Irlanda do Norte que, até aí, apenas numa ocasião fora cabeça de cartaz). De caminho foi ainda anunciado que o filme não seria afinal uma sequela, mas sim um relançamento da franquia do Justiceiro. Assim se explicando a escolha do título - Punisher: War Zone. Esta seria, de facto, a segunda tentativa nesse sentido, na medida em que The Punisher fora, também ele, um reboot da longa-metragem homónima de 1989, protagonizada por Dolph Lundgren.
Perante uma plateia extasiada, na edição de 2012 da San Diego Comic-Con International foi exibida uma curta-metragem do Justiceiro produzida por um fã e estrelada por ninguém menos do que Thomas Jane. Dirty Laundry contava ainda no seu elenco com outro astro de Hollywood habituado a dar vida a personagens saídas dos quadradinhos: Ron Perlman (Hellboy e Hellboy II - The Golden Army).Embora não-canónica, a película tornou-se objeto de culto, especialmente no ciberespaço.

Os três filmes do Justiceiro realizados até ao momento.

Veredito: 53%

Prometia muito esta segunda passagem do Justiceiro pelo grande ecrã. Talvez até demasiado à boleia de uma trama baseada em algumas das suas sagas mais emblemáticas, da presença de um astro de primeira grandeza (John Travolta) no elenco e, principalmente, pelo comprometimento da Marvel na sua produção. Dado que poderia ter feito toda a diferença, tendo em conta a relutância da Casa das Ideias em reconhecer oficialmente a película de 1989.
Ainda que, na minha modesta opinião, o primeiro The Punisher, apesar do seu caráter tosco - recebendo em Portugal um título a condizer (Fúria Silenciosa) - fique alguns furos acima desta nova aventura cinematográfica de Frank Castle. Que, por sua vez, também não é tão sofrível como a pintam. E que só não correspondeu às altas expectativas porque, a exemplo de tantos outros projetos artísticos, foi vítima da avareza de produtores de olhos postos apenas no lucro.
Claro que o filme tem as suas pechas. Apesar de o realizador ter ido beber diretamente à fonte e da sua vontade manifesta em inovar no que às motivações do protagonista dizia respeito, a verdade é que a história é basicamente a mesma. Salvo por algumas licenças poéticas tomadas por Jonathan Hensleigh, como o facto de este ser o primeiro filme em que o Justiceiro é colocado frente a frente com os carrascos da sua família.
No capítulo das representações, Travolta - que se imagina ter recebido um robusto cachê - parece ter ligado o piloto automático durante as gravações, servindo-nos um vilão com o carisma de um pepino. Contrastando, portanto, com um Thomas Jane que deu boa conta do recado no papel de Frank Castle. Cuja faceta mais violenta não foi, todavia, devidamente explorada neste filme.
Quem conhece minimamente as histórias do Justiceiro sabe que ele não hesita em aplicar métodos radicais capazes de deixarem qualquer defensor dos direitos humanos de cabelos em pé. Sendo essa, aliás,uma parte fundamental da sua estratégia para infundir terror nos malfeitores que ele jurou punir após a matança que vitimou a sua família.
Em The Punisher, a maior brutalidade fica, no entanto, por conta dos maus da fita. Facto a que não terá sido alheia a decisão de eliminar algumas cenas mais violentas em que o Justiceiro dava largas à sua veia sádica (ver Curiosidades).
Resumindo, não sendo uma pérola reluzente da 7ª Arte - tampouco uma referência dentro do género super-heroico - julgo que ninguém terá tido verdadeiramente motivos para exigir o reembolso no final da sessão. Ainda que talvez tivesse sido preferível guardar esses trocados para um filme que justificasse mais uma ida ao cinema. Se foi o vosso caso, que vos sirva de consolo que não falta por aí quem tenha pago para ver o mais recente reboot do Quarteto Fantástico. Essa, sim, uma razão mais do que suficiente para reclamar uma choruda indemnização. Que, no caso dos verdadeiros fãs grupo, reverteria em grande parte para sessões de psicoterapia, tal foi o trauma.