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quarta-feira, 19 de agosto de 2015

EM CARTAZ: « QUARTETO FANTÁSTICO» (2005)





  Reunindo no elenco astros de primeira grandeza, como Jessica Alba e Chris Evans, esta produção milionária da Fox teria à partida tudo para encher as medidas aos fãs. No entanto, a maioria deles saiu do cinema com um amargo de boca e o filme foi sentenciado ao Purgatório. Volvida uma década, o recém-estreado reboot  da franquia teve o condão de o resgatar de lá.

Título original: Fantastic Four
Ano: 2005
Género: Ação/Aventura/Ficção Científica
Duração: 106 minutos (123 minutos na versão em DVD)
País: EUA/Alemanha
Realização: Tim Story
Distribuição: 20th Century Fox
Argumento: Michael France e Mark Frost
Elenco: Ioan Gruffudd (Reed Richards/Sr. Fantástico), Jessica Alba (Sue Storm/Mulher Invisível), Chris Evans (Johnny Storm/Tocha Humana), Michael Chiklis (Ben Grimm/Coisa), Julian MacMahon (Victor Von Doom/Dr. Destino) e Kerry Washington (Alicia Masters)
Orçamento: 110 milhões de dólares
Receitas: 330,6 milhões de dólares

Os 4 Fantásticos (da esq. para a dir.): Ioan Gruffudd, Michael Chiklis, Jessica Alba e Chis Evans.

Produção e desenvolvimento: Corria o ano de 1983 quando o produtor germânico Bernd Eichinger se reuniu com Stan Lee na residência deste, em Los Angeles. O encontro tinha como objetivo avaliar as possibilidades de vir a ser produzido um filme baseado no Quarteto Fantástico. À época atravessando grandes dificuldades de tesouraria, a Marvel Comics necessitava urgentemente de um encaixe financeiro, pelo que a proposta de Eichinger foi acolhida com particular interesse.
  Seriam, no entanto, precisos mais três anos para Eichinger obter luz verde para o seu projeto. O que só aconteceria depois de a sua Constantin Film ter adquirido à Marvel os direitos de adaptação das personagens criadas em 1961 por Stan Lee e Jack Kirby. Em contrapartida, a produtora de Eichinger ficou contratualmente obrigada a desenvolver um filme do Quarteto Fantástico num prazo de seis anos. Se tal não se verificasse, os direitos das personagens reverteriam novamente para a Casa das Ideias.
 Apesar de os valores da transação nunca terem sido oficialmente confirmados, estima-se que terá rondado os 250 mil dólares. Preço que Eichinger terá decerto considerado uma pechincha. Para mais considerando o interesse logo demonstrado pela Warner Bros. e pela Columbia Pictures em  associarem-se ao projeto. Interesse entretanto esfumado face ao orçamento de 40 a 45 milhões de dólares apresentado pelo produtor alemão.
 Devido à falta de financiamento, o cronograma da produção foi sofrendo sucessivos adiamentos. Aproximando-se a passos largos do prazo para a expiração dos direitos adquiridos (31 de dezembro de 1992), numa manobra desesperada, Eichinger requereu uma moratória à Marvel. Indeferido o pedido, ele decidiu avançar, em último recurso, com a produção de uma película de baixo orçamento por forma a evitar um cenário de perda do investimento efetuado.

Bernd Eichinger, o produtor germânico que teve a ideia de levar o Quarteto Fantástico ao grande ecrã.

  Na esteira dessa decisão, em finais de 1992 Eichinger encetou contactos exploratórios com Roger Corman, cineasta veterano especialista em filmes de série B. Corman concordou em dirigir a fita baseada no Quarteto Fantástico, cujo orçamento inicial de 5 milhões de dólares seria entretanto encolhido para um quinto desse valor. Embora essa circunstância nada augurasse de bom para o resultado final, a produção acabaria mesmo por avançar.
  Em 1994, o trailer de Fantastic Four começou a circular nos cinemas estadunidenses ao mesmo tempo que o seu realizador e elenco iniciavam uma digressão promocional. Ignorando todos eles que nunca fora suposto o filme ter honras de estreia. Tratando-se, ao invés, de um mero expediente para Eichinger conservar os direitos de adaptação das personagens. Em consequência disso, a película tornar-se-ia uma enorme fonte de embaraço para a Marvel, que se viu forçada a comprar os respetivos negativos. Com o tempo, porém, Fantastic Four foi sendo descoberto pelos fãs, tornando-se mesmo objeto de culto para alguns deles.

Quarteto Fantástico (1994), o filme-fantasma.

 Correndo atrás do prejuízo, no ano seguinte a Marvel apressou-se a encetar negociações com a 20th Century Fox com vista à produção de uma película "oficial" e de grande orçamento do Quarteto. No pacote negocial foi também incluído um  possível spin-off do Surfista Prateado com estreia prevista para o verão de 1998. Projeto que, no entanto, nunca sairia da gaveta de uma qualquer secretária instalada num obscuro gabinete dos estúdios Fox.
  Quando finalmente arrancou, a produção do reboot do Quarteto Fantástico fê-lo ao solavancos. Depois de, em meados de 1995, ter sido contratado pela Fox para escrever e dirigir a película, Chris Columbus abandonou essas funções, optando por produzi-la através da 1492 Pictures, empresa de que era proprietário. Peter Segal foi o senhor que seguiu em abril de 1997. Mas mal teve tempo de aquecer o lugar, dado que foi substituído por Sam Weisman ainda antes do final desse ano.
 Quanto ao enredo, este passaria para as competentes mãos de Sam Hamm (coargumentista de Batman) em abril de 1998. Com esta opção a Fox pretendia diminuir uma produção orçada em 165 milhões de dólares. Valor exorbitante que fizera entretanto soar as campainhas de alarme na cúpula da empresa.
  Com o desenvolvimento do projeto a demorar mais do que o previsto, em fevereiro de 1999 Eichinger e a Fox chegaram a acordo com a Marvel para prorrogarem por mais dois anos a validade dos direitos sobre aquela que é a mais antiga família de super-heróis na história da 9ª arte. A estreia do filme ficou assim agendada para o verão de 2001, já depois de ter havido nova troca na cadeira de realizador: Sam Weisman deu lugar a Raja Gosnell. Este, no entanto, preferiu dirigir a primeira aventura de Scooby-Doo no grande ecrã, desertando do projeto em outubro de 2000. Seguiu-se Peyton Reed em abril do ano seguinte, que trouxe com ele o argumentista Mark Frost, a quem foi incumbida a missão de reescrever, uma vez mais, o guião.
 Dando seguimento ao vaivém de realizadores, Peyton Reed arrepiaria caminho em julho de 2003. Já este ano, em vésperas da estreia mundial do segundo reboot da franquia, o cineasta revelou que na origem desta sua decisão teriam estado insanáveis divergências criativas com a Fox. Segundo Reed, o estúdio teria em mente um filme completamente diferente daquele que ele tencionava rodar. À guisa de exemplo, o realizador relembrou que, durante os cerca de dois anos em que esteve à frente do projeto, o enredo terá sido reescrito em três ocasiões por igual número de equipas de argumentistas.
 Desesperadamente tentado afugentar o espectro do fracasso que assombrava o projeto, a escolha final para a realização recairia sobre Tim Story, cooptado em abril de 2004. Impressionados com o seu trabalho em Taxi (remake americano de um filme de ação francês de 1998), os mandachuvas do estúdio resolveram avançar para a sua contratação. Após nova revisão do enredo efetuada por Simon Kinberg (cujo trabalho não seria, porém, creditado), Fantastic Four chegaria finalmente a bom porto, estreando-se nas salas de cinema de todo o mundo a 8 de junho de 2005.

Tim Story, o homem por trás das câmaras.

Prémios e nomeações: Malgrado a pouco calorosa receção por parte da generalidade da crítica e do público, Fantastic Four foi nomeado em diferentes categorias de importantes prémios ligados à 7ª arte. Nos Saturn Awards, por exemplo, foi um dos finalistas vencidos na eleição de Melhor Filme de Ficção Científica. Já na edição de 2006 dos MTV Movie Awards foi indicado nos segmentos de Melhor Heroína (Jessica Alba) e de Melhor Grupo (Ioan Gruffudd, Chris Evans, Jessica Alba e Michael Chiklis). Menos prestigiante foi a nomeação de Jessica Alba para o Razzie Award de Pior Atriz, tanto pela sua prestação em Fantastic Four como em Deep Blue.

Jessica Alba esteve em destaque pelos melhores e pelos piores motivos.

Enredo: Reed Richards, uma das mais fulgurantes mentes científicas da Terra, está convicto de que a evolução das espécies terá sido desencadeada milhões de anos atrás pela ação de nuvens de energia cósmica localizadas no espaço. De acordo com os seus cálculos, uma dessas nuvens passaria em breve perto do nosso planeta.
 Em conjunto com o seu velho amigo, o astronauta Ben Grimm, Reed persuade o Dr. Victor Von Doom, seu ex-colega no MIT e atual diretor-executivo das Indústrias Von Doom, a permitir-lhe o acesso à sua estação espacial privada de modo a poder testar em amostras biológicas os efeitos da nuvem cósmica. Von Doom concorda mediante duas condições: controlo total sobre a experiência e a maior percentagem dos lucros que dela possam advir.
 Determinado em levar por diante o seu projeto, Reed convida a sua ex-namorada e atual chefe de pesquisas genéticas das Indústrias Von Doom, Sue Storm, e  o seu irmão mais novo, Johnny (também ele um antigo astronauta) a juntarem-se às operações.
  A bordo de um sofisticado vaivém, o quinteto voa até à estação espacial de Von Doom com o objetivo de observar de perto a nuvem cósmica. Deitando por terra os cálculos de Reed, esta materializa-se antes do previsto, apanhando todos de surpresa.
 Com Ben no exterior da estação para plantar as amostras biológicas, Reed e Sue preparam-se para o resgatar quando a nuvem passa por eles. Totalmente exposto, Ben recebe uma dose de radiação cósmica superior à que atinge os seus amigos, protegidos pela fuselagem da estação espacial. Apesar desse incidente, todos sobrevivem, aparentemente, incólumes.
 Pouco tempo depois de voltarem à Terra, os quatro sofrem transformações físicas que lhes conferem incríveis habilidades. Reed torna-se uma espécie de elástico humano, Sue possui agora a capacidade de ficar invisível e de gerar campos de força, Johnny consegue voar quando o seu corpo fica envolto em labaredas e Ben assume a forma de uma criatura rochosa dotada de força e resistência sobre-humanas.
 Enquanto isso, Victor Von Doom, cujo rosto ficara desfigurado em consequência da explosão de uma consola a bordo da estação espacial, sofre um colossal revés financeiro, quando as ações da sua empresa caem a pique na bolsa devido à publicidade negativa em torno do fiasco da missão orbital.
  Já Ben Grimm tem o seu coração despedaçado quando a sua noiva, incapaz de lidar com a sua aparência disforme, põe fim ao relacionamento entre ambos. Perturbado, Ben perambula até à ponte sobre o rio Hudson onde provoca um gigantesco engarrafamento de trânsito enquanto evita o suicídio de um pedestre.
  A sua intervenção acaba, contudo, por dar origem a um choque em cadeia que lança o caos e a destruição no tabuleiro da ponte. Chegados ao local em busca do amigo, Reed e os manos Storm empregam as suas recém-adquiridas habilidades para conter os danos e salvar vidas. Televisionadas em direto, as façanhas do grupo deixam os nova-iorquinos boquiabertos e levam a imprensa a batizá-los de Quarteto Fantástico.
  Ainda mal refeitos da vertigem mediática, os quatro amigos regressam rapidamente ao Edifício Baxter para que Reed estude os seus respetivos superpoderes e procure uma forma de reverter Ben à sua forma humana.
  Ele próprio vítima de uma mutação genética, Victor Von Doom oferece auxílio a Reed, apesar de o culpar pelo fracasso da experiência no espaço que lhe custou a sua empresa e uma parte substancial da sua fortuna.

Victor Von Doom, o Doutor Destino.

  Consumido pelos remorsos, Reed anuncia aos seus companheiros que irá construir uma máquina que lhe permitirá recriar a nuvem cósmica para assim tentar reverter os efeitos por ela causados nas suas fisiologias. Alertando-nos, no entanto, para a possibilidade de, ao invés, o processo potenciar ainda mais esses efeitos.
 Longe dali, Von Doom, cujos braços se transformaram em metal orgânico permitindo-lhe dessa forma emitir rajadas bioelétricas, começa a engendrar um plano de vingança. Conhecendo os sentimentos que, no passado, ambos nutriram por Sue, Victor usa a atual condição de Ben para reacender o seu despeito relativamente a Reed, por este ter levado a melhor nessa antiga disputa amorosa.
 Seduzido pelas promessas de cura feitas por Von Doom, Ben aceita servir de cobaia na experiência de Reed. Que num primeiro momento parece ser bem-sucedida, na medida em que Ben tem a sua aparência humana restaurada. Surge, no entanto, um efeito colateral inesperado: Victor Von Doom tem a maior parte da sua superfície corporal recoberta por metal.
 Inebriado pelo poder que sente fluir-lhe nas veias, Von Doom captura Reed e deixa Ben inconsciente. Agora autodenominando-se Doutor Destino, oculta o rosto desfigurado com uma máscara metálica, tortura Reed e lança um míssil teleguiado com a mira fixada no Edifício Baxter, onde se encontram os restantes membros do Quarteto. Johnny usa o seu poder incandescente para despistar o míssil e Sue confronta sozinha o Dr. Destino. Apesar da sua valentia, acaba, porém, sobrepujada pelo vilão. Quando este se prepara para lhe desferir um golpe fatal, Ben ressurge em cena - novamente transformado em Coisa após ter voltado a usar a máquina de Reed, - e salva a amiga tombada.
  Transferida para as ruas de Nova Iorque, a batalha prossegue com os manos Storm a combinarem os seus poderes para gerarem um inferno pirocinético que sobreaquece a pele metálica do Dr. Destino. De seguida, Reed e Ben encharcam-no com água gelada, causando assim um violento choque térmico que transforma o vilão numa estátua de metal fundido.
  No epílogo, Ben informa Reed de que conseguiu por fim aceitar a sua nova condição graças à afeição de Alicia Masters, uma artista que, embora cega, consegue ver o homem por trás do monstro. Reunidos, os quatro membros do grupo concordam em usar os seus poderes ao serviço da comunidade, passando a operar como Quarteto Fantástico. Logo após, Reed pede Sue em casamento. Pedido que ela prontamente aceita, para alegria de todos.
  Entretanto, no porto de Nova Iorque, o corpo inerte do Dr. Destino é embarcado num cargueiro com destino à Latvéria, seu país natal. Uma pequena interferência eletromagnética manifesta-se no equipamento eletrónico usado no transporte do contentor onde repousa o vilão, sugerindo dessa forma que ele ainda viveria.

Trailer: 



Curiosidades:

Jessica Alba padecia de uma infeção renal durante as filmagens e quase desfaleceu enquanto gravava a sua cena na estação espacial com Julian MacMahon;
* Único dos quatro protagonistas familiarizado com a mitologia do Quarteto Fantástico, Michael Chiklis fora um devoto fã do Coisa na sua infância. Motivo que o levou a bater-se pela inclusão no filme de uma versão real da personagem em vez de um avatar digital. O preço a pagar pelo ator pela satisfação desta sua reivindicação foi ter de usar um traje feito com 28 kg de látex e que demorava 3 horas a vestir;
* De origem galesa, Ioan Gruffudd teve de disfarçar o seu sotaque característico que não se coadunava com o papel de Reed Richards. Tarefa dificultada pelas sucessivas revisões do argumento. Empolgado pela sua participação numa megaprodução hollywoodesca, o ator convidou os pais a visitarem o set. Desafortunadamente, no dia em que isso se propiciou, Ioan rodava apenas uma sequência dentro de um elevador;
* Durante a conversa de Reed e Sue no cais, não só os atores não estavam a contracenar um com o outro (circunstância comum no cinema) como não estavam sequer no mesmo país. Jessica Alba foi filmada em Nova Iorque, ao passo que Ioan Gruffudd o foi na cidade canadiana de Vancouver;
* Foram precisos 4 meses para conceber a cena em que o Tocha Humana se converte numa bola de fogo e alça voo no céu nova iorquino. Ainda assim, um mês a menos do que aqueles que foram necessários para filmar a cena na ponte sobre o rio Hudson;
* Vários elementos  do filme foram inspirados na arte de Jack Kirby (cocriador do Quarteto Fantástico em 1961) na BD original. Exemplos: os raios cósmicos que atingem o vaivém que transporta ao espaço Reed e companhia têm a forma de balas e a face do Coisa é granulosa como era nas suas primeiras aparições, antes de adquirir o aspeto pedregoso que se tornaria a sua imagem de marca;
* Em sentido inverso, a origem do Doutor Destino tem cambiantes muito distintas daquela que foi mostrada nos quadradinhos. No filme, Victor Von Doom integra a expedição orbital de Reed Richards, ganhando, portanto, as suas habilidades em consequência da exposição à radiação cósmica. Na BD, isso aconteceu na sequência de um acidente de laboratório, que também o desfigurou para sempre;
* Na derradeira cena do filme, o corpo congelado do Dr. Destino é embarcado num cargueiro com a palavra "Latvéria" inscrita no casco. Trata-se da nação fictícia que, nos quadradinhos, tem como soberano absoluto, precisamente,Victor Von Doom;




Veredito: 41%

  Alinhavo esta minha singela crítica ao filme de 2005 do Quarteto Fantástico sem nunca me ter dado à maçada de assistir à inenarrável produção série Z de 1994 e de ter poupado tempo e dinheiro a ir ver ao cinema o recém-estreado reboot da franquia. Em bom rigor, nunca vi no grande ecrã qualquer uma das quatro películas que compõem a filmografia do Quarteto. 
  Tanto no caso deste Quarteto Fantástico como da sua atroz sequela de 2007 (sobre a qual já me pronunciei nesta rubrica), o bom senso aconselhou-me a aguardar pelo respetivo lançamento em DVD ou pela sua transmissão televisiva (de preferência, em canal aberto). Opção de que nada me arrependo.
   Apesar de, há dez anos, ter sido arrasada pela crítica e pelos fãs, a fita dirigida por Tim Story, comparada com o que estava para trás e com o que viria a seguir, é muito provavelmente a menos má dentro da filmografia do Quarteto. Mesmo levando na devida conta as suas inumeráveis fragilidades. Dentre elas, destaco desde logo a falta de solidez do argumento. Existem demasiados hiatos fastidiosos entre as escassas sequências de ação, convidando o espectador a fazer uma soneca. 
  Por outro lado, o vilão é uma autêntica nulidade. Quem minimamente conhece o Doutor Destino da BD sabe que se trata de um sujeito genialmente perverso, megalómano e prepotente. Esta sua versão cinemática seria incapaz de assustar uma criancinha. Mas, como é sabido, sobretudo desde a sua aquisição pela Disney, os estúdios Marvel esmeram-se em produzir filmes para toda a família. Opção que, no caso do Quarteto Fantástico, até nem é totalmente descabida. Escusavam era de tornar a película asséptica ao ponto de a tornar desinteressante. Esperava-se mais de uma produção multimilionária como esta. Que não sendo fantástica também não é intragável. 
   
Passeio em família.
    
   

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

DO FUNDO DO BAÚ: «O RETORNO DO SUPER-HOMEM»




  Após a aparente morte do Homem de Aço no ápice da batalha contra Apocalypse, Metrópolis testemunha o surgimento de quatro pretendentes ao legado do seu malogrado defensor. Mas o reinado desses falsos Super-Homens logo é interrompido pelo surpreendente regresso do verdadeiro. Que segredos e mistérios estarão por trás dessa ressurreição? E quais as reais motivações do quarteto de impostores?

Título original da saga: Reign of the Supermen! (oficialmente renomeada The Return of Superman aquando do lançamento da respetiva compilação)
Licenciadora: DC Comics
Data original de publicação: Junho a outubro de 1993
Equipa criativa: Jerry Ordway, Gerard Jones, Dan Jurgens, Karl Kesel, Louise Simonson, Roger Stern, Tom Grummet e Jon Bogdanov
Títulos abrangidos: Action Comics nº687 a 691; Superman: Man of Steel nº22 a 26; Superman (Volume 2) nº78 a 82;  The Adventures of Superman nº501 a 505; Green Lantern (Volume.3) nº46

Capa do trade paperback da saga.


EDIÇÃO BRASILEIRA

Título: O Retorno do Super-Homem
Data: Setembro a novembro de 1994
Editora: Abril Jovem
Categoria: Minissérie mensal em três volumes
Número de páginas por edição: 164
Formato: Formatinho económico (13 x 19,5 cm), colorido e com lombada quadrada
Na minha coleção desde: 1995

Os tês volumes da minissérie editada pela Abril.


Alvorada do Reinado dos Super-Homens

   Ao fim de um trimestre suspensos, na sequência da morte do herói às mãos da monstruosidade chamada Apocalypse, os quatro títulos do Super-Homem foram relançados em junho de 1993. Cada um deles albergando agora um novo herói que reivindicava para si o legado do malogrado defensor de Metrópolis.
  Meses antes, devastado pela perda do seu filho adotivo, Jonathan Kent sofrera um ataque cardíaco que o deixara às portas da morte. Uma história publicada em The Adventures of Superman nº500 mostrara-o a vaguear num limbo que ele julgava ser o Além. Numa possível alucinação, Jonathan encontrou a alma de Clark e persuadiu-o a regressar consigo ao mundo dos vivos.


Capas variantes de The Adventures of Superman nº500.

  Coincidentemente, pouco tempo depois de Jonathan despertar do seu coma, surgiu em Metrópolis um quarteto de indivíduos clamando, cada um à sua maneira, ser o Super-Homem. Era o dealbar do Reinado dos Super-Homens. Mas quem eram essas misteriosas personagens? Quais as suas motivações? Poderia o povo da Cidade do Amanhã confiar neles? Ou deveria temê-los?
  Concebidos com base nos arquétipos através dos quais o herói kryptoniano se celebrizou ao longo da sua septuagenária carreira, os quatro Super-Homens, finda a saga, afirmar-se-iam na mitologia da Editora das Lendas. Eram eles:

* Homem de Aço (Man of Steel): Metalúrgico e ex-designer bélico ao serviço dos militares, John Henry Irons tivera em tempos a sua vida salva pelo Super-Homem. Apresentou-se em público envergando uma armadura e um martelo feitos de puro aço. Apesar de ostentar no peito a insígnia do Super-Homem, Irons, um afrodescendente, não clamou ser o herói. Pretendia, ao invés, preservar o seu espírito e legado. Debutou nas páginas de Superman: The Man of Steel nº22. Mais tarde, abreviaria o seu codinome para Aço. Mantém-se no ativo até hoje;
*O Último Filho de Krypton (The Last Son of Krypton): Aplicando métodos ultraviolentos no combate ao crime, tratava-se da encarnação do poderosíssimo e antiquíssimo artefacto kryptoniano conhecido como Erradicador. Aparentava possuir as memórias de Kal-El, mas o seu distanciamento emocional não convenceu Lois Lane. Seria posteriormente revelado que o Erradicador usara a sua própria energia para criar um corpo idêntico ao do Super-Homem. Apareceu pela primeira vez em Action Comics nº687(título onde, 55 anos antes, se estreara a criação de Jerry Siegel e Joe Shuster) e foi a chave para a restauração dos poderes do verdadeiro Homem de Aço. Atualmente em parte incerta;
*A Maravilha de Metrópolis (The Metropolis Kid): Suposto clone do Super-Homem que fora libertado dos seus criadores antes de atingir a maturidade, este adolescente temperamental odiava ser chamado de Superboy. Tratava-se, na verdade, do produto da engenharia genética desenvolvida em segredo pelo Projeto Cadmus, tendo como matriz o ADN do seu diretor, Paul Westfield. Estreou-se em The Adventures of Superman nº501. Após os eventos narrados na saga, encetou no Havaí uma carreira heroica autónoma justamente como Superboy. Embora com origem e figurino reformulados, o jovem herói continua a ter papel de destaque no atual Universo DC;
* O Homem do Amanhã (Man of Tomorrow): Prontamente crismado de Supercyborg pela imprensa, entrou em cena apetrechado de avançadíssima tecnologia alienígena. Submetido a testes genéticos, ficou comprovado que o seu genoma correspondia ao do Super-Homem. Alegava, contudo, amnésia causada pelo trauma sofrido durante o embate com Apocalypse para justificar as próteses mecânicas que substituíam as partes mutiladas do seu corpo. Dadas as circunstâncias, obteve reconhecimento oficial por parte da Casa Branca e foi aclamado como herói pela opinião pública. Introduzido originalmente em Superman nº78, logo daria a conhecer a sua pérfida natureza. Opera ainda hoje como um dos principais adversários do Super-Homem.

Em cima (da esq. para a dir.): Erradicador e Supercyborg; em baixo (pela mesma ordem): Superboy e Homem de Aço.

Enredo: Na primeira metade da saga o azimute narrativo é fixado nas motivações invocadas por cada um dos quatro Super-Homens para obterem a aceitação do público. Com os leitores a depressa deduzirem que nem o Superboy nem o Homem de Aço poderiam ser o herói redivivo. Já o Supercyborg e o Erradicador foram perspetivados como candidatos credíveis a serem o verdadeiro Super-Homem. Tanto mais que, ao serem sujeitos ao rigoroso escrutínio de Lois Lane, ambos provaram possuir memórias pertencentes a Clark Kent. O primeiro chegou mesmo a ser examinado pelo Professor Hamilton (velho amigo do Super-Homem), que atestou a sua autenticidade genética.
  Perante tão sólida testificação parecia, assim, desvendado o mistério. Mas, como é sabido, muitas vezes as aparências iludem. E o que se seguiu veio demonstrá-lo de forma pungente.
  Com efeito, aproveitando a comoção em redor do surgimento dos Super-Homens, o Erradicador remove o corpo de Kal-El do mausoléu que lhe servia de última morada. Depositando-o de seguida numa câmara de regeneração kryptoniana na Fortaleza da Solidão. Anteriormente, o Erradicador usara o aparato para se energizar a si mesmo. Sofrendo, contudo, um efeito colateral inesperado: a sua visão ficou seriamente afetada pela intensa luminosidade libertada durante o processo. Ficando assim patente que o visor por ele usado era mais do que um simples adereço.
 Enquanto isso, num dos momentos da trama com maior carga dramática, o Supercyborg invade as instalações do Projeto Cadmus. Local onde é mantido o corpo inerte de Apocalypse desde a batalha que culminou com a morte do Homem de Aço. Após um tenso frente a frente com o seu presumível verdugo, o Supercyborg transporta a criatura para o espaço. Amarrando-a de seguida a um asteroide cuja trajetória será monitorizada por um dispositivo eletrónico por forma a garantir que nunca intercete outro planeta. Porém, mal o Supercyborg se afasta, Apocalypse solta uma ferina gargalhada abafada pelo vácuo espacial.

A consagração de um impostor em Superman (vol.2) nº79 (1993).

  À medida que as suas ações denunciam a sua má índole, a verdadeira origem do Supercyborg é finalmente desvelada. Ele era, na realidade, o recetáculo tecno-orgânico para a consciência de Hank Henshaw, um antigo astronauta da LexCorp que culpava o Super-Homem pelo acidente que, anos antes, o vitimara a ele e à esposa. Hank precisava odiar alguém pelo sucedido e escolheu o herói kryptoniano como alvo do seu rancor.
 Movido por um demencial desejo de vingança, Hank usara a câmara matriz (versão sofisticada das incubadoras terrestres) guardada na Fortaleza da Solidão para obter uma duplicata quase perfeita do corpo do Super-Homem.
 Tendo Mongul (ver perfil já publicado neste blogue) como aliado de circunstância, o Supercyborg põe entretanto em marcha um diabólico plano. Que consistia na construção de dois gigantescos motores capazes de propulsionar a Terra para fora da sua órbita, causando assim a destruição do planeta. Coast City e Metrópolis teriam, por isso, de ser arrasadas. Sobre os seus escombros fumegantes seriam depois erigidas as máquinas infernais que serviriam os insanos desígnios do vilão cibernético.
 Usando como engodo uma pretensa missão de salvamento, o Supercyborg convence o Superboy a acompanhá-lo a Coast City. Suspeitando das verdadeiras intenções do vilão, o Erradicador resolve segui-los em segredo.
  A milhares de quilómetros de distância, na vastidão gelada do Ártico, o silêncio fúnebre da Fortaleza da Solidão é subitamente quebrado por um estranho zumbido. Som que anuncia a abertura da câmara de regeneração kryptoniana onde fora colocado o corpo sem vida do Super-Homem. E de onde agora emerge o herói. Combalido e com o cabelo comprido, mas aparentemente regressado do além-túmulo.
 Coast City e os seus 7 milhões de habitantes são entretanto vaporizados pela detonação de um míssil termonuclear disparado do bojo da colossal espaçonave de Mongul estrategicamente posicionada sobre a cidade. Colhido pela terrível explosão, o Erradicador é dado como morto pelo Supercyborg. De seguida, o vilão aprisiona o Superboy no interior do enorme motor construído graças à nanotecnologia de Mongul. No entanto, o jovem consegue escapar e voa a grande velocidade rumo a Metrópolis em busca do auxílio do Homem de Aço.
  Quando o Superboy e o Homem de Aço estão reunidos no porto da Cidade do Amanhã, uma enorme armadura de combate kryptoniana emerge das águas do rio. Julgando tratar-se de uma arma operada remotamente pelo Supercyborg, os dois heróis atacam-na com violência. Fortemente danificada, a couraça abre-se, revelando um muito debilitado Super-Homem aos seus comandos. Perante a estupefação dos seus interlocutores, o herói explica que, devido à perda dos seus superpoderes, usara o aparato para viajar do Ártico até Metrópolis.

O regresso do verdadeiro Super-Homem foi recebido com ceticismo.

  Uma vez mais, Lois Lane é chamada a confirmar a autenticidade deste quinto aspirante a Super-Homem. Ao questioná-lo sobre o que o tornava diferente dos restantes, a repórter obtém como resposta o título do filme preferido de Clark Kent. Informação que ele partilharia somente com os que lhe eram íntimos. Embora hesitante, Lois intui no seu âmago não estar em presença de mais um impostor. O seu coração diz-lhe que aquele será mesmo o homem que ela ama. Só não encontrando explicação para a sua ressurreição.
  Sem tempo a perder, Super-Homem, Superboy e Homem de Aço rumam a Coast City  na esperança de conseguirem deter os planos do Supercyborg. No decurso da épica batalha que se segue, o vilão ordena o lançamento de um míssil balístico em direção a Metrópolis. Cavalgando-o durante a sua alucinante trajetória, o Superboy consegue, no último momento, desviar o projétil do seu alvo. Graças a este ato heroico, a cidade e os seus habitantes são poupados a um destino idêntico ao de Coast City.
  Recém-regressado do espaço sideral,  o Lanterna Verde Hal Jordan depara-se com a destruição da sua cidade natal. Cego pela raiva, o Gladiador Esmeralda agride selvaticamente Mongul. Privando assim o Supercyborg do seu principal aliado e da sofisticada tecnologia bélica que este lhe fornecia.
  Depois de se ter recomposto na Fortaleza da Solidão, o Erradicador junta-se à batalha em Coast City. Mesmo a tempo de evitar que o Super-Homem seja atingido por uma dose letal de gás de kryptonita lançada sobre ele pelo Supercyborg. De alguma forma o gás interage com a assinatura energética do Erradicador, causando uma reação bioquímica que permite a transferência das suas habilidades para Kal-El.
  Apanhado desprevenido pela restauração dos poderes do Super-Homem, o Supercyborg é rapidamente neutralizado pelo herói. Apesar de ter tido o seu corpo físico destruído, a mente do vilão sobreviveu. A ameaça que ele representava é, porém, debelada. O mundo pode respirar de alívio.
  Regressado a Metrópolis, o Super-Homem é vitoriado pelo povo da cidade, exultante com o retorno do seu adorado campeão. Contudo, as circunstâncias em torno da sua morte e subsequente ressurreição permaneceriam por mais algum tempo envoltas num denso mistério.

O renascer de uma lenda em The Adventures of Superman  nº505

    
Vale a pena ler?

  Mais de 20 anos depois, esta é uma daquelas sagas que continua a polarizar opiniões. Entre os fãs do Super-Homem há tantos a adorá-la como a odiá-la. Ninguém lhe ficou, porém, indiferente.
  E como poderiam ficar? Não é todos os dias que aparecem do nada quatro Super-Homens e que vemos um herói voltar da morte. Pensando melhor, esqueçam esta parte.
  Na BD, tão certo como a noite suceder ao dia é a morte ser apenas uma condição temporária. Pelo menos no que diz respeito a personagens emblemáticas. Quando uma delas  aparenta expirar, é certo e sabido que, mais cedo ou mais tarde, irá ressuscitar. Sendo o Homem de Aço o maior de todos os heróis, alguém acreditaria que ele seria a exceção à regra? Como poderia a DC matar a sua galinha dos ovos de ouro?
  Visto por esse prisma, O Retorno do Super-Homem nada trouxe de novo. O título da saga não deixa, aliás, grande margem para dúvidas. Era óbvio que o herói regressaria do além-túmulo. Só não se sabia como nem quando.
  Convém, no entanto, lembrar que nos EUA o arco de histórias foi originalmente titulado de Reign of the Supermen!. Sugerindo assim que o reinado dos Super-Homens poderia ser duradouro. Ou que pelo menos um deles prevaleceria no final da saga.
  Imaginem, por isso, o desapontamento de muitos leitores ao constatarem que tudo não passara de um embuste. Pior: o Super-Homem que muitos deles acreditaram poder ser o verdadeiro era, afinal, um facínora com pulsões genocidas.
  Embora muitos o possam negar hoje em dia, não faltou quem acreditasse que o Supercyborg poderia realmente ser o produto genuíno. Não foi o meu caso. Sentia um arrepio na espinha sempre que poisava os olhos naquela sinistra combinação de Super-Homem com Exterminador Implacável. Mesmo quando tudo apontava em sentido contrário, recusei-me a acreditar que a DC embarcara na moda dos heróis cibernéticos que marcava os primeiros anos da década de 90. Tal transformação seria uma heresia!
  Mas para quê introduzir quatro possíveis substitutos se nenhum deles poderia ocupar a vaga do original? Na minha opinião, a resposta resume-se numa palavra: marketing. Já Balzac dizia que "por trás de uma grande fortuna há um crime". Efetivamente, na origem da decisão de "assassinar" o Super-Homem haviam estado as fracas vendas dos seus títulos. Nada melhor, portanto, do que sangue novo para revitalizá-los.
  Para esse efeito, criou-se para cada um deles uma nova versão do Super-Homem. Devido à interligação entre eles, impunha-se aos fãs a compra dos quatro títulos. Sendo assim coroada de êxito a segunda parte de um genial golpe de marketing (que só ficaria completo com Super-Homem versus Apocalypse: A Vingança). Quase consigo imaginar os mandachuvas da DC a dançarem à volta da sua árvore das patacas...
  Voltemos, porém, à história propriamente dita. Dois dos seus pontos negativos residem, a meu ver, nas motivações do Supercyborg, por um lado, e no figurino do Super-Homem quando regressa do Além, por outro. Ambos deixaram muito a desejar.
  No primeiro caso, houve preguiça por parte dos argumentistas em encontrarem algo menos cliché do que um vilão que culpa um herói por uma coisa que ele não fez. Já quanto ao visual do Super-Homem, o problema era este ser demasiado anos 90. E não me refiro apenas à extravagância capilar tão ao gosto dos padrões estéticos da época. Refiro-me, sim, ao subterfúgio da perda temporária de poderes para travestirem o Último Filho de Krypton num vigilante armado até aos dentes e com pose belicosa. Indo desta forma ao encontro do paradigma dos anti-heróis violentos que a Image Comics vinha então impondo na indústria dos quadradinhos.

Os que se queixaram da violência excessiva em Homem de Aço nunca deverão ter visto estas imagens.

    Dignas de registo pela negativa são também algumas inconsistências narrativas. Desde logo o facto de ninguém ter dado pela falta do pobre Clark Kent durante o período em que o Super-Homem esteve desaparecido. Ou o absurdo contrassenso de este, uma vez regressado ao mundo dos vivos, não parar um minuto sequer para refletir sobre o sucedido.
   À parte estes e outros pormenores de somenos importância, a saga cumpre com distinção a sua missão de tornar o Super-Homem apelativo para uma nova safra de leitores enformada por referências menos heroicas. Objetivo conseguido através, também, de pequenas doses de humor mórbido. Como na passagem em que o Superboy joga descontraidamente um jogo de vídeo baseado na morte do Super-Homem. Ou quando Lex Luthor expressa a sua felicidade pela ressurreição do herói, pois assim poderá matá-lo ele mesmo.
  Em última análise, O Retorno do Super-Homem foi uma saga ambiciosa. Pela sua envergadura, pelo seu escopo mas, essencialmente, pelo considerável grau de risco envolvido, quando seria expectável que a DC jogasse pelo seguro. Recorde-se a este propósito que os seus autores chegaram a ensaiar um cenário em que surgiriam quatro Super-Homens de diferentes etnias.Embora fosse óbvia a intenção de incensar o multiculturalismo, mais óbvia se tornou a rejeição do conceito por parte da maioria dos fãs da personagem. Afinal, estamos a falar de um ícone da cultura popular cuja essência é imperativo preservar num mundo onde já nada é sagrado.
   Afortunadamente, a DC percebeu isso e os deuses da 9ª arte conspiraram a seu favor.
 

Quatro valetes que não chegam aos calcanhares do rei.
     

sexta-feira, 24 de julho de 2015

HERÓIS EM AÇÃO: MANTO & ADAGA




  Dois jovens proscritos usados como cobaias para drogas experimentais adquiriram talentos extraordinários e tiveram os seus destinos para sempre entrelaçados. Num frágil equilíbrio entre redenção e vingança, Manto e Adaga levam luz aos inocentes e trevas aos culpados. Subsistindo, contudo, a dúvida: serão eles mutantes ou não?

Nomes originais das personagens: Cloak & Dagger
Criadores: Bill Mantlo (história) e Ed Hannigan (arte)
Licenciadora: Marvel Comics 
Primeira aparição: Peter Parker, the Spectacular Spider-Man nº64 (março de 1982)
Identidades civis: Tyrone "Ty" Johnson (Manto) e Tandy Bowen (Adaga)
Locais de nascimento: Respetivamente, Boston (Massachusetts) e Cleveland (Ohio)
Afiliação: Ao longo da sua carreira, Manto e Adaga tiveram passagens fugazes por vários coletivos heroicos, entre os quais Vingadores Secretos, X-Men, X-Men Sombrios e Fugitivos. A título individual, Adaga esteve ainda temporariamente engajada com os Novos Guerreiros e com os Marvel Knights.
Base de operações: Nova Iorque
Armas, poderes e habilidades: Inicialmente classificados como mutantes cujo gene X latente fora ativado por via da ação das drogas experimentais que neles foram inoculadas, nos tempos mais recentes Manto e Adaga foram recategorizados como humanos transformados. Significando isto que os seus talentos especiais derivam de uma fonte mutagénica exógena.
  Utilizada pela primeira vez no decurso da saga Civil War, esta designação não colhe, porém, consenso, na medida em que genuínos homo superior, como os antigos X-Men Solaris e Pássaro Trovejante, também necessitaram de um estímulo exterior para que as suas habilidades se manifestassem.
 No entanto, o estatuto de mutantes já foi sonegado a Manto e Adaga por Matt Fraction, um dos argumentistas de Uncanny X-Men. Que foi taxativo nas suas declarações motivadas por esta controvérsia: "Não, Manto e Adaga não são mutantes nem se veem como membros dessa comunidade. Facto que não deixa de ser significativo num contexto em que os homo superior quase foram extintos. Afinal, como poderiam eles não ter conhecimento dessa família ou não desejarem pertencer-lhe?". 
 O postulado de Fraction já foi entretanto  parcialmente corroborado na banda desenhada. No arco de histórias Utopia, após o casal ter sido recrutado por Norman Osborn para os seus X-Men Sombrios, Manto e Adaga fizeram notar ao seu mentor que não são mutantes. Diagnóstico ulteriormente ratificado pelo Doutor Némesis que, depois de submeter Adaga a vários exames genéticos, concluiu que as suas habilidades derivam exclusivamente da droga que lhe foi injetada na adolescência.
  Depreendendo-se, portanto, que o mesmo princípio seria aplicável a Manto. Sem que isso tivesse, porém, sido empiricamente comprovado. Somando a isto o facto de o jovem ter adquirido a Forma Sombria do demónio Desespero, a dúvida quanto à verdadeira origem dos seus poderes não foi totalmente dissipada.
  Mutantes ou não, certo é que Manto e Adaga foram agraciados com poderes fascinantes. No caso dele, além da intangibilidade, avulta a sua capacidade de teleportar-se a si mesmo ou a outrem para uma dimensão de trevas. Já ela é  capaz de gerar e direcionar psionicamente adagas de luz, que tanto podem drenar a energia vital dos seus alvos como curá-los de adições.
  Entre os dois existe uma relação de interdependência - quase simbiótica- , visto que Manto sente uma "fome" constante, apenas aplacada pela luz nele projetada pela sua parceira ou pela energia vital dos indivíduos que envia para a dimensão escura. Adaga, por sua vez, encontra proteção e refúgio nas sombras de Manto, sendo-lhe extremamente leal.
  Ambos possuem ainda uma razoável experiência em combate corpo a corpo adquirida no período em que (sobre)viveram nas ruas.

Luz que alimenta a escuridão; escuridão que protege a luz.

Conceção e desenvolvimento: Segundo rezam as crónicas, a inspiração para criar Manto e Adaga acometeu Bill Mantlo na sequência de uma sua visita a Ellis Island (ilha situada na baía de Nova Iorque que, desde o século XIX, serve de porta de entrada a imigrantes à conquista do sonho americano).
 Em discurso direto,  Mantlo evoca esse momento singular: "As duas personagens surgiram-me noite adentro, quando tudo à minha volta estava silencioso e a minha mente estava em branco. Materializaram-se diante de mim, trazendo consigo a sua origem, atributos e motivações perfeitamente definidos. No fundo, eles corporizavam todo o medo, sofrimento e miséria que me tinham assombrado na minha visita a Ellis Island. Eram apenas mais dois proscritos que tinham se manter unidos para sobreviver."

Bill Mantlo teve a ideia de criar Manto e Adaga após uma visita a Ellis Island.

 Por seu turno, Ed Hannigan, o desenhador que colaborava com Mantlo em Peter Parker, The Spectacular Spider-Man, lembra-se bem de como os dois conceberam em conjunto o figurino das novas personagens: "Bill mostrou-me a sinopse da história, escrita numa página ou duas. Li-a e, de seguida, trocámos algumas impressões sobre qual a aparência mais adequada para cada uma das personagens. Apesar do grande espaço de manobra que me foi dado por Bill, ficou claro desde o primeiro momento que Manto seria afro-americano e que usaria um manto negro "animado", como se de uma extensão natural do seu corpo se tratasse. Adaga, por outro lado, seria caucasiana e vestiria uma espécie de body colante. Posso estar enganado, mas acho que partiu de mim a ideia de ela ser uma bailarina. Circunstância que serviria para realçar a sua elegância e graciosidade. Olhando a esta distância, admito que o figurino de Adaga era bastante audacioso para os padrões da época."

Ed Hannigan divide com Mantlo a paternidade de Manto e Adaga.

Histórico de publicação: Após a sua estreia em Peter Parker, the Spectacular Spider-Man nº64 (março de 1982), Manto e Adaga foram durante algum tempo coadjuvantes nas histórias do Escalador de Paredes. Em outubro de 1983 ganhariam, porém, uma minissérie própria composta por quatro volumes, com argumento de Bill Mantlo e arte de Rick Leonardi. Devido ao inesperado sucesso da iniciativa, dois anos depois a Marvel resolveu arriscar numa série bimestral estrelada pelo heterodoxo casal, e cuja produção ficaria a cargo da mesma equipa criativa.
  Supervilões fantasiados raramente surgiam nas histórias de Manto e Adaga, mais focados que estavam num combate sem tréguas ao narcotráfico. Traficantes de drogas, proxenetas e outros malfeitores comuns eram, pois, os seus alvos privilegiados.

A estreia de Manto e Adaga mereceu destaque na capa de Peter Parker, the Spectacular Spider-Man nº64 (1982).
 

  A partir do 11º número de Cloak & Dagger (e já depois da saída de Leonardi), os editores da Marvel decidiram fundir o título com Doctor Strange, dando assim origem à nova série mensal Strange Tales.  
  Agora com enredos de Terry Austin e arte de Bret Blevins, as aventuras de Manto e Adaga continuaram na senda do sucesso por mais algum tempo, antes de as vendas entrarem em declínio. Numa tentativa de o contrariar, Austin introduziu o primeiro némesis do casal: Mister Jip, um feiticeiro perverso com uma aparência disforme.
 Em 1988, Manto e Adaga protagonizaram Marvel Graphic Novel nº34, edição que assinalou a despedida de Bill Mantlo da série. Quanto a Strange Tales, seriam publicados 19 fascículos antes da Marvel deliberar o seu cancelamento. Em consequência disso, Manto & Adaga e o Dr. Estranho retomaram as suas séries independentes com periodicidade bimestral.
 Agora sob o título The Mutant Misadventures of Cloak and Dagger, a série estrelada por Manto e Adaga continuava a ter enredos da autoria de Terry Austin, mas recebeu um novo desenhador, Mike Vosburg. Com Adaga a perder a visão logo no primeiro número, a forma como ela aprendeu a lidar com essa circunstância foi a pedra angular desta nova fase da dupla. Com o tempo a série foi, porém, perdendo o seu fulgor inicial, facto que acabaria por ditar o seu cancelamento ao fim de 19 edições.

Há precisamente 30 anos, Manto e Adaga ganhavam a sua série própria.

  Nos anos subsequentes, Manto e Adaga continuaram a fazer participações especiais nos títulos de outras personagens da Casa das Ideias, como Runaways ou na saga Maximum Carnage, na qual foram aliados do Homem-Aranha. Manto faria também uma aparição a solo na minissérie dos X-Men House of M (2005), na qualidade de membro do movimento subterrâneo de resistência humana. Já a existência de Adaga nessa realidade alternativa permanece uma incógnita, uma vez que não lhe foi feita qualquer referência no decurso da saga.
  Depois de terem ensaiado um regresso à ribalta por via de uma minissérie própria lançada pela Marvel em 2008, Manto e Adaga desempenhariam, no ano seguinte, um papel de relevo na saga Utopia. Incorporado nos X-Men Sombrios de Norman Osborn, o casal recuperou alguma da notoriedade de outrora. Que poderá consolidar-se já este ano com a sua anunciada participação no redivivo título Runaways.

O grotesco Mister Jip foi o primeiro arqui-inimigo de Manto e Adaga.

Origem: Os caminhos de Tyrone "Ty" Johnson e Tandy Bowen cruzaram-se casualmente pela primeira vez nas ruas de Nova Iorque. Ambos adolescentes fugitivos, depressa estabeleceram uma forte cumplicidade. Tinha sido, contudo, longo o caminho que cada um deles trilhara até chegar à cidade que nunca dorme.
  Com 17 anos de idade e de raízes modestas, Ty fora em tempos um promissor jogador de basquetebol no liceu onde estudava, em Boston. Cidade de onde fugiu na sequência do trágico atropelamento do seu melhor amigo que, devido à sua gaguez incapacitante, ele não conseguira evitar.
 Nascida num subúrbio abastado de Cleveland, Tandy, de apenas 16 anos, era filha de uma supermodelo e sonhava vir a ser bailarina. Depois de o seu pai partir para a Índia em busca de um renascimento espiritual, a jovem sentiu-se traída e magoada. Sentimentos exacerbados pelo desafeto da sua egocêntrica mãe, sempre demasiado focada na sua carreira profissional e vida social para dar atenção à filha. Cansada da indiferença materna, Tandy resolveu deixar para trás a sua vida confortável, porém infeliz.
 Partindo de pontos tão distintos, nada faria prever que as trajetórias de Tyrone e Tandy seriam convergentes. No entanto, foram essas as malhas que o Destino (ou o Desespero) teceu.
  Quando perambulava sozinha pelas ruas nova-iorquinas, Tandy viu a carteira ser-lhe roubada por um
meliante. A fuga deste seria, porém, corajosamente travada por um jovem sem-abrigo que, de seguida, devolveu a carteira a Tandy. Para o recompensar pelo seu heroico ato, ela comprou comida ao rapaz. Ficando também a saber o seu nome: Tyrone (Ty para os amigos).
 Nascia assim uma amizade para a vida entre dois jovens oriundos de mundos tão diferentes e, aparentemente, sem nada em comum. Os opostos parecem, porém, sentir uma irresistível atração entre eles.
  Enquanto o casal vivia nas ruas, um grupo de homens desconhecidos ofereceu-lhes abrigo. Oferta que Tandy ingenuamente aceitou. Desconfiado, Ty acompanhou-a para a proteger das eventuais más intenções dos seus presumíveis benfeitores.
 Confirmando-se os piores receios de Ty, os dois adolescentes foram levados à presença de Simon Marshall, um químico sem escrúpulos e com ligações ao submundo do crime. A pedido da organização terrorista Maggia, Marshall estava a desenvolver uma nova droga sintética que serviria de sucedâneo da heroína. Necessitava, porém, de testar os efeitos do narcótico em cobaias humanas. Dois sem-abrigo jovens e saudáveis seriam, pois, os candidatos perfeitos.
  Com a droga a correr-lhes nas veias, Tandy e Ty sofreram violentas convulsões, mas sobreviveram à experiência com resultados inesperados. Após conseguirem escapulir-se do seu cativeiro, os dois descobriram que haviam ganho habilidades sobre-humanas.
 
Manto e Adaga sobreviveram a várias provações e tiveram os seus destinos entrelaçados.  

  Ty viu-se subitamente engolfado pelas trevas e fustigado por uma estranha fome, aplacada apenas pela luz irradiada pela sua companheira. Tentando disfarçar a sua sinistra aparência, Ty embrulhou-se num enorme manto negro. Sempre faminto, absorveu para o seu interior de tenebrosa escuridão alguns dos asseclas de Marshall. Ao mesmo tempo que Tandy derrubava os restantes com as suas adagas de luz.
 Adotando os codinomes Manto e Adaga, o casal adolescente declarou uma guerra sem quartel ao narcotráfico, passando a atuar como vigilantes e a prestar auxílio a outros jovens fugitivos como eles.
  Vários anos depois seria, contudo, revelado que toda esta série de eventos fora secretamente manipulada pelo demónio Desespero, com quem Manto mantém uma ainda não totalmente explicada conexão.
  Certo é que, conforme foi referenciado na saga Ilha das Aranhas (Spider-Island), foi a interferência de Desespero que ditou a reversão dos dons que estavam destinados a Manto e Adaga. Ou seja, os poderes luminosos de Tandy pertenciam originalmente a Ty, e vice-versa.
  Inversão de papéis que, de resto, se verificou no decurso do aludido arco de histórias graças à ação do vilão conhecido como Senhor Negativo, e que persiste até hoje.
  Ignora-se, no entanto, até que ponto essas circunstâncias influenciaram as personalidades de Tandy e Tyrone.

Desespero, o demónio que tem manipulado as vidas de Manto e Adaga.

Noutros media: Com diminuta expressão fora dos quadradinhos, Manto e Adaga poderão nos próximos anos notabilizar-se junto do grande público caso se concretizem os planos dos Estúdios Marvel e da Paramount Pictures para uma adaptação cinematográfica.
  Outros projetos audiovisuais envolvendo as personagens, como uma série televisiva a ser produzida para o canal ABC Family e anunciada em plena San Diego Comic Con 2011, nunca saíram do papel. Por conseguinte, a única saída da sua zona de conforto mediática ocorreu quando Manto e Adaga fizeram uma participação especial na terceira temporada da série de animação Ultimate Spider-Man (em exibição desde 2012).

Manto e Adaga continuam à espera de uma oportunidade fora da BD.


quinta-feira, 9 de julho de 2015

ETERNOS: LEN WEIN (1948 - ...)




  Monstro do Pântano, Wolverine e Noturno são apenas parte da memorabilia criativa deste veterano escritor e editor, que desde muito cedo percebeu ser um predestinado da 9ª arte. A sua influência exorbitou, contudo, o universo dos quadradinhos, estendendo-se a outros meios de comunicação, designadamente à televisão.

Biografia: Leonard Norman Wein nasceu a 12 de junho de 1948, na cidade de Nova Iorque. Numa entrevista concedida em 2003, recordava: "Em criança tive diversos problemas de saúde. Passei, por isso, largas temporadas no hospital. Durante uma dessas ocasiões, quando tinha sete anos, o meu pai comprou-me uma pilha de bandas desenhadas para eu matar o tempo. Foi assim que fiquei viciado nesse tipo de material. Anos depois, quando andava no liceu, um dos meus professores de Arte disse-me que eu tinha um talento artístico inato que deveria explorar. A partir daí, resolvi não me poupar a esforços para realizar o meu sonho de vir, um dia, a trabalhar na indústria dos comics".
  Ainda na puberdade, Len e o seu inseparável amigo Marv Wolfman (vide biografia já publicada neste blogue) participavam, pelo menos uma vez por mês, nas visitas guiadas aos escritórios da DC Comics. Wolfman era um já um elemento ativo na subcultura dos fanzines. Len, que por esses dias estava mais interessado em tornar-se desenhador do que escritor, ajudou o amigo a produzir algumas histórias com super-heróis. Com ambos a submetê-las, de seguida, à apreciação dos editores da DC.
   A perseverança de Len e Marv acabaria por dar frutos: os dois foram convidados por Joe Orlando (à época editor-chefe da DC) para se tornarem escritores freelancers. Len estreou-se nessa qualidade com Eye of the Beholder, história dada à estampa em dezembro de 1968 no 18º número de Teen Titans. Mantendo a parceria criativa com Wolfman, os dois criaram em conjunto, especificamente para essa aventura dos Titãs, o Estrela Vermelha. Sendo este o primeiro super-herói soviético a ser incorporado na mitologia da Editora das Lendas.

A estreia de Len Wein como escritor profissional verificou-se em Teen Titans nº18 (1968).

  Pouco tempo depois, Neal Adams (outro Eterno já dado a conhecer neste blogue) foi encarregue de reescrever e de redesenhar uma outra história dos Titãs escrita por Len Wein e Marv Wolfman. Intitulada Titans Fit the Battle of Jericho!, caso não tivesse sido vetada, a história em questão introduziria no Universo DC o seu primeiro super-herói africano. Carmine Infantino ( então editor de Teen Titans, e cujo perfil já foi igualmente traçado neste blogue) foi o responsável por essa decisão.
  Em meados de 1969, Len Wein trabalhava simultaneamente para a Marvel e para a DC. Escrevendo contos de mistério e suspense para, respetivamente, Tower of Shadows e The House of Secrets. Ainda antes do final desse ano, Len tornou-se argumentista de Secret Hearts, título da DC com um forte cunho romântico, muito popular entre o público feminino. 
  Escriba incansável e versátil, Len passou por várias outras séries regulares da Editora das Lendas abarcando géneros tão diversos como terror sobrenatural, westerns e ficção científica. Dentro desta última categoria, há a destacar o trabalho por ele desenvolvido nos títulos Star Trek e The Twilight Zone,  baseados nas cultuadas séries televisivas homónimas .
  Mesmo sem nunca ter conseguido realizar a sua ambição de ganhar a vida a desenhar, numa outra entrevista, datada de 2008, Len declarou: "O meu estudo no sentido de me tornar um artista dotou-me da capacidade de descrever detalhadamente aos ilustradores com quem trabalhei as ideias e as imagens que trazia na cabeça. Especialmente durante a minha primeira passagem pela DC, era comum alguns artistas pedirem ao editor-chefe (Julius Schwartz) para desenharem as minhas histórias. Segundo eles, os meus guiões eram muito gráficos, o que lhes facilitava imenso o trabalho".
  Corria o ano de 1971 quando, em colaboração com o artista Bernie Wrightson, Len Wein concebeu o Monstro do Pântano (Swamp Thing). Personagem que debutaria em julho desse ano, nas páginas de The House of Secrets nº91. E que, no decurso das décadas seguintes, protagonizaria um amplo cardápio de títulos e minisséries com a chancela da DC, além de dois filmes e uma série televisiva. Curiosamente, mais ou menos por esta altura, Wein escreveu também a segunda história do Homem-Coisa (Man-Thing), personagem da Marvel que emulava diversos aspetos do Monstro do Pântano (ou vice-versa, dependendo do ponto de vista).
   Já na qualidade de editor de Saga of the Swamp Thing, em meados dos anos 80 Wein supervisionou o trabalho nela desenvolvido pelo escritor britânico Alan Moore (vide biografia já publicada neste blogue).

Monstro do Pântano, a desconcertante personagem que notabilizou Len Wein.


  Em 1972, após uma memorável passagem por Justice League of America, Wein foi, com Carmine Infantino, o cocriador da segunda encarnação do Alvo Humano (Human Target). Um audaz detetive privado e guarda-costas que assumia a identidade dos seus clientes marcados para morrer às mãos de assassinos contratados. O enorme êxito da personagem abriu caminho para a sua transposição ao pequeno ecrã por via de duas séries televisivas datadas de 1992 e 2010.

Alvo Humano, outra das cocriações bem-sucedidas de Len Wein.

  Nos anos seguintes, Wein escreveu vários títulos icónicos da Marvel. A saber, The Amazing Spider-Man, Thor, Fantastic Four, Marvel Team-Up e The Incredible Hulk. Foi, aliás, aquando da sua passagem por este último que participou ativamente na conceção daquela que se viria a tornar numa das personagens de charneira da Casa das Ideias: Wolverine.
  O carismático mutante canadiano seria, de resto, uma das coqueluches da nova encarnação dos X-Men, introduzida em maio de 1975 por Len Wein e Dave Cockrum. Entre as personagens criadas pela dupla nesse contexto sobressaíram Tempestade (Storm), Noturno (Nightcrawler), Colossus e Pássaro Trovejante (Thunderbird). Exceção feita a este último, os restantes tornar-se-iam peças-chave nas sagas vindouras dos Filhos do Átomo.
  A este propósito, em 2009 Chris Claremont (com John Byrne, um dos artífices daquela que é quase unanimamente considerada a melhor fase da história dos X-Men), teceu as seguintes considerações: "A história moderna dos quadradinhos seria muito diferente sem o contributo de Len Wein. É, portanto, lastimável que ele nem sempre seja reconhecido como devia ser. Particularmente os fãs dos X-Men têm um enorme débito de gratidão para com Len Wein e Dave Cockrum, cujo trabalho desenvolvido com a equipa foi, visto sob qualquer prisma, extraordinário".


O visual  primitivo de Wolverine desenhado por Dave Cockrum.


 Algures a meio da década de 70, Len Wein assumiu, durante aproximadamente um ano, o cargo de editor-chefe da Marvel, sucedendo assim ao lendário Roy Thomas e sendo depois sucedido pelo seu velho amigo Marv Wolfman.
  Quando nada o fazia prever, o casamento de Len Wein com a Marvel chegou ao fim. Ainda por cima, de forma litigiosa e envolvido em polémica. Facto que ditou o seu regresso à DC, na dupla qualidade escritor e editor. Além de assumir as histórias do Cavaleiro das Trevas em Batman, Wein colaborou igualmente em Green Lantern. Já depois de ter cocriado a terceira versão do vilão Cara-de-Barro (Clayface), escreveu, em 1980, a primeira minissérie do Homem-Morcego, The Untold Legend of the Batman.
  Como editor, Len Wein trabalhou numa mão cheia de séries bem-sucedidas: Camelot 3000, New Teen Titans, Batman and the Outsiders, além da aclamada saga Watchmen.
  No período pós-Crise, Len Wein foi incumbido de revitalizar o Besouro Azul (Blue Beetle) e trabalhou em estreita articulação com George Pérez em Wonder Woman.
  No início dos anos 90, Len Wein mudou-se para a Costa Oeste dos EUA. Assumindo então o cargo de editor-chefe da Disney Comics. Terminada essa experiência, dedicou-se a produzir e a editar guiões para séries de animação, como Batman, X-Men, Godzilla ou War Planets: Shadow Riders.
  Seria preciso esperar até 2012 para Len Wein fazer o seu regresso à 9ª arte. E fê-lo pela porta grande. No âmbito do projeto Before Watchmen, escreveu a minissérie Ozymandias, cuja coletânea figurou durante várias semanas na lista de best-sellers do New York Times.

O primeiro volume de Ozymandias, prequela de Watchmen que trouxe Len Wein de volta à ribalta.

 De ascendência judaica, Len Wein é atualmente casado em segundas núpcias com Christine Valada, advogada e fotógrafa. A residir na Califórnia há cerca de duas décadas, o casal viu a sua casa ser consumida pelas chamas em abril de 2009. Episódio de consequências trágicas, já que no incêndio morreu o cão da família e foram destruídos os Shazam Awards de Wein.
  Meses depois, porém, Christine amealhou 60 mil dólares na sua participação num concurso televisivo. Pecúlio que ela se comprometeu a investir na recuperação e/ou substituição dos livros e outros bens culturais que o casal perdeu no referido sinistro.
 Já este ano, Len Wein foi submetido a uma cirurgia cardíaca para a colocação de um bypass triplo, depois de sentir fortes dores no peito. Completou 68 anos no mês passado e tem ainda muito para dar à 9ª arte. E nós, leitores agradecidos, cá estaremos para fazer uma respeitosa vénia ao seu admirável legado que perdurará nos anais da história da BD.
 
Um grande senhor da 9ª arte.

Prémios e distinções: Sem surpresa, ao longo da sua longeva e prolífica carreira, Len Wein foi contemplado com diversos galardões. A abrilhantar o seu currículo, os dois Shazam Awards conquistados em 1972, nas categorias de Melhor Escritor Dramático (Swamp Thing) e de Melhor História Individual (Dark Genesis em Swamp Thing nº1). No ano seguinte, dividiria com Bernie Wrightson um terceiro Shazam Award, desta feita para Melhor Série Regular (novamente com Swamp Thing).
  Ainda na década de 70, mais precisamente em 1977, Wein foi distinguido com um Inkpot Award para Melhor Escritor. Cinco anos depois, em 1982, foi a vez de o Comics Buyer's Guide lhe atribuir o seu prémio para Melhor Editor.
  Pela sua história The Dreaming: Trial and Error, publicada na linha Vertigo da DC Comics, em 1998 Len Wein foi nomeado para o Bram Stoker Award, atribuído pela Associação Americana de Escritores de Terror. Já este século, em 2008, foi nomeado para o prestigiadíssimo Will Eisner Comics Book Hall of Fame.
   Um palmarés impressionante, condizente com toda uma vida dedicada à sua paixão pelos quadradinhos.