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sábado, 30 de abril de 2016

EM CARTAZ: «O CORVO»



   Poucos acreditariam que uma produção de baixo orçamento e ensombrada pela morte do seu protagonista se tornaria um filme de culto. Menos ainda imaginariam que, volvidas mais de duas décadas, continuaria a ser considerada uma das melhores adaptações de uma BD ao cinema, sobre ela pairando até hoje uma densa aura de mistério.

Título original: The Crow
País: EUA
Ano: 1994
Género: Ação/Fantasia/Terror
Duração: 102 minutos
Produção: Dimension Films
Realização: Alex Proyas
Argumento: David J. Schow e John Shirley (com base na BD homónima da autoria de James O'Barr)
Distribuição: Miramax Films
Orçamento: 23 milhões de dólares
Receitas: 50,7 milhões de dólares
Elenco: Brandon Lee (Eric Draven/O Corvo), Michael Wincott (Top Dollar), Ernie Hudson (Sargento Albrecht), Rochelle Davis (Sarah), Bai Ling (Myca), Michael Massee (Funboy) David Patrick Kelly (T-Bird)

Vingança trazida nas asas de um anjo negro.

Enredo: Numa tétrica Noite das Bruxas em Detroit, o sargento-detetive Albrecht investiga a cena de um crime macabro. Horas antes, um jovem casal fora atacado no próprio apartamento por um bando de meliantes. Shelly Webster, a mulher, fora selvaticamente espancada antes de ser violada. Eric Draven, o seu noivo, sucumbira aos graves ferimentos que lhe haviam sido infligidos pelos atacantes quando tentava defendê-la. Os dois amantes, agora apartados pela tragédia, tencionavam casar-se no dia seguinte.
  Quando se prepara para acompanhar Shelly ao hospital, Albrecht é abordado por Sarah, uma menina que diz ser amiga do casal e que este tomava conta dela. De coração pesado, o detetive informa-a de que Shelly tem a vida presa por um fio.
   Um ano depois, na véspera de mais um Halloween, um corvo poisa no túmulo de Eric Draven e toca ao de leve com o bico na sua lápide. Regressado do Além, o defunto ergue-se da sua tumba e abandona o cemitério sob o olhar penetrante da ave.
   Longe dali, um bando de rufias chefiado por T-Bird ateia incêndios em vários pontos da cidade. De visita ao seu antigo lar, Eric fica melancólico ao deparar-se com o vazio do lugar. Fustigado por flashbacks, o jovem relembra o violento crime de que ele e a sua noiva foram vítimas na véspera do casamento de ambos. Vêm-lhe também à memória os nomes e os rostos dos seus algozes: T-Bird, Tin Tin, Funboy e Skank.
   Depois de descobrir que a sua amada está morta e que qualquer ferida sua cicatriza quase de imediato, Eric, guiado pelo corvo, parte em busca de vingança. Para dissimular a sua identidade, aplica uma sinistra maquilhagem no rosto.
   Tin Tin é o primeiro a ser caçado pelo Corvo que, depois de matá-lo, lhe fica com o casaco. Em seguida, o herói dirige-se à loja de penhores onde o patife havia vendido o anel de noivado de Shelly. Após reaver a joia, o Corvo faz explodir o estabelecimento, deixando contudo o seu proprietário vivo, para que possa avisar os restantes membros da quadrilha de que os seus dias estão contados.
  De seguida, o Corvo encontra Funboy num pardieiro imundo, enrolado com Darla, a mãe toxicómana da pequena Sarah. Depois de liquidar o rufia, o herói conversa com a mulher, fazendo-a compreender que, mais do que nunca, a filha precisa dela.

Mensagem escrita a fogo para os pecadores.
 
  Na próxima paragem do seu roteiro de vingança, o Corvo visita Albrecht, a quem revela a sua verdadeira identidade e a quem dá a conhecer a sua missão. O detetive conta-lhe o que sabe sobre a morte de Shelly, relatando com pesar as 30 horas de sofrimento excruciante a que a rapariga foi sujeita antes de finar-se. Ao tocar no seu interlocutor, o Corvo recebe dele a agonia que a sua amada experimentou durante o tempo que antecedeu a sua partida para o outro mundo. A transbordar de ódio, o herói retoma a sua caçada sangrenta.
  Graças à intervenção do Corvo, Sarah e a mãe, há muito desavindas, reaproximam-se uma da outra. No antigo apartamento de Eric e Shelly, a garota conversa com o herói, confessando-lhe a enorme saudade que sente de ambos. Comovido, o Corvo explica-lhe que, mesmo os dois não podendo continuar a ser amigos, ele será sempre o seu anjo da guarda.
  Mais tarde, no momento em que T-Bird e Skank param numa loja de conveniência para comprar alguns mantimentos, o primeiro é levado pelo Corvo. Atarantado pela súbita aparição daquela sinistra figura, Skank testemunha, transido de medo, a morte do comparsa às mãos do desconhecido. Correndo de seguida a avisar Top Dollar, um senhor do crime que controla todos os bandos de rua de Detroit. No entanto, ele e Myca (sua concubina e meia-irmã) já estão ao corrente das ações do Corvo devido aos diversos relatos que vêm chegando por parte de testemunhas oculares.

Top Dollar e Myca: irmanados no pecado.

  Na altura em que Top Dollar se encontra reunido com alguns dos seus associados para discutirem a planificação das suas atividades ilícitas, o Corvo irrompe na sala à procura de Skank. Do intenso tiroteio que se segue resulta a morte de quase todos os presentes. Enquanto Skank é executado a sangue-frio pelo herói, Myca, Top Dollar e Grange (seu lugar-tenente) conseguem escapar.
  Dando por terminada a sua cruzada no mundo dos vivos, Eric prepara-se para regressar ao túmulo. Sarah aparece no cemitério para se despedir dele, recebendo das mãos do herói o anel de noivado que em tempos fora de Shelly.
  Contudo, à saída do cemitério, Sarah é capturada por Grange, que a leva à força para a igreja onde Top Dollar e Myca os esperam. Através do corvo que o acompanha, Eric toma consciência do perigo que corre a sua pequena amiga e parte em auxílio dela.
   Chegados à igreja onde os malfeitores se acoitam, Eric e o corvo são por eles emboscados, acabando a ave abatida em pleno voo por um tiro certeiro de Grange. Facto de que resulta o enfraquecimento do herói. Myca, entretanto, procura reclamar para si o poder místico da ave moribunda. Alertado pelo intenso ruído no interior do templo, Albrecht adentra nele no preciso instante em que o Corvo é alvejado pelos marginais.

Olho por olho, dente por dente.
   Mesmo a esvair-se em sangue, o Corvo consegue matar Skank. Mas não consegue impedir que Top Dollar arraste Sarah para o campanário da igreja, ambos seguidos de perto por Myca. Que tem entretanto os seus olhos arrancados pelo corvo antes de despencar do alto da torre. Escapando por um triz a um disparo fatal, também Albrecht é ferido no fogo cruzado.
   Frente a frente com Top Dollar no campanário, o Corvo ouve-o confessar os seus crimes e admitir a sua responsabilidade pelo assassínio de Eric e Shelly. Na refrega que se segue, o Corvo repassa ao seu adversário as trinta horas de agonia experimentadas por Shelly antes de morrer. Incapaz de suportá-la, Top Dollar lança-se numa queda desamparada para a morte.
   À medida que a noite se aproxima do fim, Sarah e Albrecht recebem assistência hospitalar enquanto Eric e Shelly se reencontram no túmulo de ambos. Finalmente reunidos, os dois malogrados amantes poderão assim passar a eternidade juntos. Momento emocionante emoldurado pelas sentidas palavras de Sarah: "Se as pessoas que amamos nos são tiradas, a única maneira de as mantermos vivas é nunca parar de amá-las. Casas ardem, pessoas morrem, mas o amor verdadeiro é eterno."

Trailer:




Segredos e mistérios da produção:

   Registou-se uma invulgar série de incidentes ao longo da rodagem de O Corvo, projeto que, desde o primeiro dia, pareceu enguiçado. Em qualquer caso, e ainda que de uma forma enviesada, esses aspetos insólitos concorreram para o sucesso do filme, envolvendo-o numa aura de mistério e misticismo que perdura até aos dias de hoje.
  Aqui ficam algumas dessas notas curiosas, na expectativa de que as mesmas sirvam para verter alguma luz sobre os segredos desta produção indelevelmente marcada pela tragédia:

* Autor, em 1989, da BD homónima que esteve na base do filme, James O'Barr revelaria, anos depois, nos comentários da respetiva edição em DVD, que a ideia original dos produtores seria lançar um musical estrelado por Michael Jackson. Julgando tratar-se de uma brincadeira, o escritor desatou a rir às gargalhadas antes de perceber que os seus interlocutores falavam a sério. A reação de O'Barr é tanto mais compreensível atendendo ao facto que a história original fora escrita na sequência da morte da sua noiva causada por um condutor embriagado. Dado que reforça ainda mais a morbidez da narrativa;
*Apesar das escolhas de Alex Proyas para a direção e de Brandon Lee para o papel principal terem trazido idoneidade ao projeto, James O'Barr nunca escondeu a sua preferência por Johnny Depp para interpretar o Corvo. River Phoenix e Christian Slater também foram sondados para assumir a personagem mas declinaram;


Eric Draven
Criador e criação: James O'Barr (cima) e a BD The Crow (1989).

* De entre as várias alterações introduzidas pelos argumentistas à trama original, releva, desde logo, a omissão da toxicodependência de Eric e a sua mudança de ofício (de mecânico na BD passou a músico no cinema). Outra diferença significativa entre as duas histórias reside no facto de, no filme, o corvo ser uma ave real, em vez de uma simples projeção da psique do herói. Acrescendo a isto o facto de, por oposição à narrativa original, o animal ser retratado no filme como a fonte de poder do Corvo;
* A versão inicial do enredo não incluía a fatídica cena em que Funboy dispara sobre Eric quando este surpreende os malfeitores no seu apartamento. Tratou-se, com efeito, de uma alteração imposta à última hora pelo realizador sob a forma de um flashback. A cena em causa requeria a utilização de um revólver Magnum .44 carregado com munição real, embora sem pólvora. Isto porque a referida arma seria disparada em direção à câmara a uma curta distância. Aparentemente, alguém se esqueceu entretanto de substituir as balas por fulminantes e o pior aconteceu. Brandon Lee, que à data contava 28 anos de idade, foi mortalmente ferido pelo seu colega Michael Massee, servindo as filmagens como elemento de prova na investigação que se seguiu àquilo que ainda hoje muitos se questionam se terá sido um acidente ou um homicídio;

O Corvo marcou a estreia
 do australiano Alex Proyas atrás das câmaras.

*Antes da ocorrência dessa fatalidade, registou-se uma sucessão de incidentes que muitos encaram como maus presságios para o que estava por vir. Logo no primeiro de dia de filmagens, um carpinteiro sofreu queimaduras graves após a sua grua tocar em cabos elétricos. Nos dias seguintes, um camião de apoio pegou fogo sem razão aparente, um escultor frustrado espatifou o seu carro contra a oficina onde produzia adereços em gesso e um membro do staff perfurou acidentalmente uma mão com uma chave de parafusos. Episódios insólitos a que poderá não ter sido alheio o consumo desenfreado de cocaína no set. Mas que, até hoje, muitos veem como sinais de que o filme estaria amaldiçoado;
*Traumatizado pelo facto de ter sido ele a disparar a pistola que tirou a vida a Brandon Lee, Michael Massee sentiu necessidade de tirar um ano sabático para se recompor. Apesar disso, em 2005 (doze anos decorridos sobre o incidente) admitiu, em entrevista, ter ainda pesadelos com o sucedido;
*Segundo a biografia de Bruce Lee, o lendário ator e mestre de artes marciais previra a morte do filho depois de despertar do seu coma, muitos anos antes de Brandon sequer pensar em seguir uma carreira ligada ao cinema. Este, por seu turno, desenvolvera um bizarro fascínio pela morte pouco tempo antes do arranque das filmagens. Que o levou, entre outras coisas, a visitar túmulos de celebridades;

Tal como o pai 20 anos antes,
 a morte de Brandon Lee tornou-o uma lenda.
*Em virtude dos constrangimentos orçamentais, foram impostos muitos cortes à produção. Alguns elementos do staff afirmaram mesmo que a ideia era produzir um filme de 30 milhões de dólares usando apenas 18 milhões. Com esse objetivo em vista, a rodagem do filme teve lugar numa pequena cidade da Carolina do Norte, escapando dessa forma às reivindicações salariais e de outra ordem que previsivelmente seriam feitas pela mão-de-obra sindicalizada de Hollywood. Igualmente devido à falta de verba para filmar uma perseguição de carros em ação real, a produção recorreu a miniaturas;
*Embora sem qualquer relação com as supramencionadas restrições orçamentais, importa referir que nenhuma das aves usadas nas filmagens era um corvo, mas sim gralhas-pretas. Apesar de aparentadas, as duas espécies corvídeas diferem em algumas características: além do seu menor porte comparativamente com os corvos, as gralhas-pretas são animais diurnos. Circunstância que obrigou o respetivo tratador a treiná-las para se adaptarem às filmagens noturnas;
*Na sequência da morte de Brandon Lee, a Paramount Pictures, responsável pelo financiamento do projeto, criou a Entertainment Media Investment Corporation, empresa de fachada que serviu exclusivamente para adquirir os direitos do filme e completá-lo com recurso a efeitos digitais e a duplos para rodar as cenas do malogrado ator;
* É voz corrente em Hollywood que o incidente que vitimou o filho de Bruce Lee terá servido de móbil à revisão do protocolo de segurança aplicável ao emprego de armas em filmagens. Mais que não seja, o infortúnio do ator terá servido para prevenir a repetição de situações idênticas.

Morreu o homem, ficou o mito.

Sequelas: 

  Sob o título The Crow: City of Angels, em 1996 chegou às salas de cinema internacionais uma sequela dirigida por Tim Pope e com Vicente Pérez como cabeça de cartaz. Arrasada pela crítica e pelo público, as suas receitas de  bilheteira ficaram muito aquém do desejado. Facto que motivou a resolução tomada pelos produtores de futuros capítulos da franquia serem lançados diretamente no circuito de vídeo.
  Série de ação real produzida por um canal televisivo canadiano, The Crow: Stairway to Heaven foi para o ar em 1998, com o ator Mark Dacascos a fazer as vezes de Brandon Lee. Dois anos depois, estrearia The Crow: Salvation. O elenco desta terceira longa-metragem (e a primeira a não ter direito a passagem pelo grande ecrã) era encabeçado por Eric Mabius, nele pontificando também Kirsten Dunst. Vagamente inspirada na novela The Lazarus Heart (escrita por Poppy Z Brite em 1998), a película recebeu avaliações díspares.
   Agora com Edward Furlong como protagonista, em 2005 foi produzido um quarto filme de saga. Ao contrário do seu antecessor, The Crow: Whicked Prayer mereceu antestreia cinematográfica antes de ser lançado no mercado de vídeo. Mas, como as demais sequências do filme original, não convenceu os espectadores, sendo mesmo considerado o pior capítulo da série.
  Provisoriamente intitulado The Crow: 2037, um pretenso reboot dirigido por Rob Zombie chegou a ser planeado nos finais da década de 1990, mas o projeto nunca chegaria a ver a luz do dia.

Cartaz promocional de uma
 das sequelas fracassadas de O Corvo.

Veredito: 72%

  Amor e vingança são ingredientes essenciais para uma fórmula de sucesso. Proposição aplicável a qualquer produto cultural, seja ele literário, musical ou cinematográfico. Sendo O Corvo uma magnífica síntese destes três géneros, à qual estes dois pungentes sentimentos humanos servem de força motriz.
  Mais romântico do que morrer por amor, só mesmo voltar da morte para vingar a morte da pessoa amada. É, pois, essa a pedra de toque da trama de um filme que, contra todas as expectativas, se tornou um fenómeno de culto.
  Evocando a extravagância neogótica das duas longas-metragens do Batman dirigidas por Tim Burton, a estética de O Corvo submerge o espectador numa atmosfera deliciosamente opressiva onde, para prevalecer, o herói tem de ser mais desapiedado do que os maus da fita.
  Por conta dessa ambiência e da banda sonora que a emoldura, tem-se a espaços a sensação de se estar a assistir a um teledisco de uma qualquer banda de death metal. Também o registo violento que infunde o enredo serve para disfarçar alguns dos pontos fracos da película, especificamente a caracterização superficial que é feita das personagens. Ficando, por isso, a dúvida se, caso o enfoque tivesse recaído sobre as suas idiossincrasias, o êxito desta produção teria sido igual.
   Êxito para qual, de forma macabra, muito contribuiu o mistério em redor da morte de Brandon Lee. Apesar da cena em que o filho de Bruce Lee perdeu a vida não ter sido incluída na versão final da película, é inevitável detetar o melancólico subtexto intrínseco à sua representação. Sobretudo no que às suas prédicas sobre morte e vingança diz respeito.
  Ironia assinalável é, pois, o facto de o derradeiro trabalho do ator ter sido não só aquele que inscreveu o seu nome nos anais da História de 7ª arte, mas também o melhor da sua medíocre filmografia. Circunstância que leva muita gente a perspetivar O Corvo não como a soberba homenagem ao cinema noir que é, mas tão-só como o filme em que Brandon Lee foi desta para melhor. Abordagem que, de tão redutora, se torna ultrajante a uma película que desafiou convenções e que ainda hoje serve de referência a outras produções do género, tanto no quesito visual como narrativo.
  Mesmo a esta distância, O Corvo continua a ser um filme à frente do seu tempo, fazendo dele um precursor do hiper-realismo que atualmente caracteriza a generalidade das adaptações de bandas desenhadas ao grande ecrã.
   
Certos papéis são passaportes para a Eternidade...
        
 


sexta-feira, 22 de abril de 2016

GALERIA DE VILÕES: FLASH REVERSO



  Num Universo composto por forças de sinal contrário, a cada ação corresponde uma reação simétrica. É por isso que em qualquer tempo ou lugar onde exista - ou venha a existir - um Flash, existirá sempre um Flash Reverso a correr em rota de colisão. E quando os dois chocam de frente, o resultado só pode ser catastrófico.

Nome original da personagem: Reverse-Flash (atualmente conhecido como Professor Zoom)
Criadores: John Broome (história) e Carmine Infantino (arte conceitual)
Licenciadora: Detective Comics (DC)
Primeira aparição: Flash nº139 (setembro de 1963)
Identidade civil: Eobard Thawne (apelido que, ao longo dos anos, também já surgiu grafado como Thawnye, Thayne e Thine)
Parentes conhecidos: Robert Thawne (irmão), Nora Allen (mãe de Barry Allen e antepassada distante de Eobard), Presidente Thawne, Meloni Thawne, Bart Allen e Owen Mercer (descendentes)
Afiliação: Ex-membro da Sociedade Secreta de Supervilões, da Tropa dos Lanternas Negros e da Tropa dos Lanternas Brancos
Base de operações: Central Cityplex (megalópole do século 25)
Armas, poderes e habilidades: Graças ao seu intelecto superior, Eobard Thawne foi bem-sucedido na sua empreitada de replicar o fenómeno eletroquímico que transformou Barry Allen no Flash. Empregando a sua energia cinética, o vilão conseguiu gerar um campo de Força de Aceleração Negativa, do qual extrai a sua supervelocidade. Assim como os demais velocistas estão conectados com a Força de Aceleração, o Flash Reverso está vinculado a esta sua variante simétrica. No entanto, contrariamente à maioria dos seus congéneres, ele consegue viajar no tempo e alterá-lo a seu bel-prazer.
   Além da sua velocidade supersónica (que, entre outras coisas, lhe permite correr sobre superfícies líquidas, gerar ciclones ou vibrar as suas moléculas através de objetos sólidos), o Flash Reverso dispõe de uma formidável parafernália tecnológica proveniente do século 25, que lhe confere uma vantagem estratégica sobre os seus adversários.
Fraqueza: Barry Allen personifica, sem sombra de dúvida, a maior fraqueza do Flash Reverso. Obstinado em eliminar a sua contraparte heroica, o vilão não olha a meios para conseguir esse fim, ao ponto de agir imprudentemente. Como se verificou, de resto, na ocasião em que viajou no tempo com o intuito de impedir que Barry fosse atingido pelo relâmpago que o dotaria de supervelocidade. Apenas para descobrir que isso resultaria no apagamento da sua própria existência no espaço-tempo. Na esteira desse episódio, ambos tomaram definitivamente consciência de que os seus destinos estão entrelaçados.

Némesis numa corrida contra o Destino.

Notas prévias: 

1) Apesar de o Flash Reverso ter sido introduzido na cronologia da DC no período que precedeu Crise nas Infinitas Terras (1985-86), a sua existência permaneceu intocada na realidade unificada surgida no desdobramento da saga. Alguns elementos relacionados com a sua história poderão, contudo, ter sido removidos ou modificados no quadro desse novo universo, devendo, portanto, ser considerados não-canónicos;

2) No decurso dos anos, Flash Reverso converteu-se numa designação genérica para identificar as antíteses dos beneficiários da Força de Aceleração de diferentes épocas e lugares. Categoria de que faziam parte, além de Eobard Thawne, Edward Clariss (vulgo O Rival, antagonista do Flash da Idade do Ouro, Jay Garrick*), Hunter Zolomon (notabilizado como Zoom, sempre em rota de colisão com Wally West*, o terceiro Flash ), Thaddeus Thawne (que, sob o codinome Inércia, retardou Impulso*) e, por fim, Daniel West (irmão de Iris West que, em Os Novos 52!, barrou o  caminho a Barry Allen);



O Rival (imagem de cima) e Inércia personificam
 em diferentes épocas o arquétipo do  Flash Reverso.
*Prontuário das quatro encarnações do Velocista Escarlate em http://bdmarveldc.blogspot.pt/2012/01/herois-em-acao-flash.html



Velocidade furiosa.

Biografia e histórico de publicação: Predestinado a assumir-se como o arqui-inimigo do Flash, o Flash Reverso foi um produto da imaginação de John Broome e Carmine Infantino*, cuja estreia ocorreu em setembro de 1963, nas páginas de The Flash nº139.
   Nessa sua primeira aparição oficial, Eobard Thawne era descrito como um criminoso proveniente do século 25 que encontrara uma cápsula do tempo contendo um uniforme do Flash da Idade da Prata. Com recurso a uma máquina produzida na sua época, o vilão conseguira amplificar a energia cinética acumulada no traje, adquirindo dessa forma uma velocidade superior à de Barry Allen. Desse processo resultara, também, a inversão das cores da vestimenta, cuja cor predominante passou de vermelho a amarelo, e vice-versa nas botas e placa peitoral.
  Fazendo uso das suas habilidades e tecnologia futurista para perpetrar uma série de crimes, o Flash Reverso causou muitas dores de cabeça à sua contraparte heroica. Depois de descobrir que a cápsula do tempo descoberta por Thawne continha também um relógio atómico que, em consequência das ações do vilão, se converteria numa bomba nuclear, o Flash embarcou numa jornada temporal até ao século 25.
   Desabilitando a aura que protegia o Flash Reverso da fricção causada pela sua supervelocidade, o Flash conseguiu derrotar o seu rival, desativando, em seguida, a bomba. Antes de regressar ao passado, o Velocista Escarlate teve ainda o cuidado de destruir o traje de que Thawne se apossara. No entanto, o conhecimento privilegiado que este possuía da biografia do herói, designadamente a sua identidade civil, possibilitou novos ataques, os quais culminariam, anos depois, com a morte da esposa de Barry Allen.
   Pelo meio, o Flash Reverso teve uma passagem meteórica pelas fileiras da primeira Sociedade Secreta de Supervilões. Ao serviço da qual defrontou a Liga da Justiça e, com ajuda do seu companheiro de equipa Wizard, trocou de corpo com o Lanterna Verde. Graças ao seu conhecimento futuro, o Flash Reverso depressa aprendeu a usar o anel energético do Gladiador Esmeralda.

Capa da edição onde o Flash Reverso, em 1963, fez
 a sua fulminante estreia.

   À luz da reestruturação da continuidade do Universo DC operada após Crise nas Infinitas Terras, o Flash Reverso fez parte do mosaico de personagens objeto de reformulação. Nesta nova declinação da sua origem, apresentada no arco de histórias The Return of Barry Allen (publicado nos números 74 a 79 da segunda série de The Flash), no ano de 2466, Eobard Thawne era o herdeiro de uma avultada fortuna familiar. Património que planeava usar para financiar o seu velho sonho de vir a ser um Flash, herói do passado que ele idolatrava desde criança.
  Certo dia, ao passar diante da montra de um antiquário, Eobard vislumbrou a Esteira Cósmica. Reconhecendo de imediato o aparato usado no passado pelo Flash para viajar através do fluxo temporal, nem hesitou em comprá-lo. De seguida, tentou duplicar o acidente que, cerca de quinhentos anos antes, havia transformado Barry Allen no homem mais rápido do mundo. O plano, contudo, não correu conforme previsto, resultando na desfiguração física e mental do futuro Flash Reverso/Professor Zoom.
   Desbaratando o que sobrara da sua fortuna numa cirurgia plástica que lhe deu um rosto idêntico ao de Barry Allen, Eobard Thawne usou a Esteira Cósmica para recuar no tempo até à época em que o seu ídolo vivia. Inativa há muito tempo, a máquina ressentiu-se do enorme esforço a que foi sujeita. Em consequência disso, Eobard materializou-se num período cronológico vários anos posterior à morte do Flash durante a Crise nas Infinitas Terras.
  Desorientado e desapontado pelo fracasso da sua missão, Eobard deparou-se com vários cartazes que mostravam o Flash a matar um homem chamado Professor Zoom. Num deles estava escrito que o verdadeiro nome dessa misteriosa personagem era Eobard Thawne.
   Da descoberta que estaria predestinado a transformar-se num vilão morto às mãos do seu herói de infância, sobreveio pois a psicose de Eobard e a sua subsequente corrupção moral.
   Importa, contudo, ressaltar a este propósito que o nome de Zoom fora omitido da História para prevenir que Eoabard Thawne tomasse conhecimento do seu destino. O mesmo a que ele tentou escapar a todo o custo, convencendo-se a si próprio de que era o verdadeiro Flash, sendo o seu sósia um impostor que era imperativo liquidar. Valendo-se para esse efeito do seu minucioso conhecimento das vulnerabilidades do seu oponente. O que ele não imaginava, porém, é que não era Barry Allen, mas sim Wally West (em tempos conhecido como Kid Flash) quem agora envergava as cores do Velocista Escarlate.

Flash versus Flash Reverso: quando os opostos colidem.
   Fazendo-se passar por Flash, Thawne reclamou para si o estatuto de protetor de Central City. A sua instabilidade mental e a sua natureza violenta logo viriam, porém, à superfície, levando-o a atacar a cidade. Movido por um desejo de vingança devido ao esquecimento a que supostamente teria sido votado pelos seus concidadãos, o falso Flash acabaria detido por Wally West. Ludibriado pelo antigo adjunto juvenil de Barry Allen, o vilão seria entretanto restituído à sua época.
  Mesmo não conservando quaisquer memórias dessa sua incursão ao passado, Eobard Thawne sentia-se traído por Barry Allen, a quem passou a odiar visceralmente. Impelido por esse sentimento, o vilão passou a viajar com frequência no tempo objetivando vingar-se do seu némesis.
   Após uma longa ausência, o Flash Reverso regressou à ribalta em Flash: Rebirth. Nesse arco de histórias que, no biénio 2009-2010, assinalou o renascimento de Barry Allen, o vilão vangloriou-se de não só ter viajado no tempo como de ser ele o responsável por esse "milagre".
  Em 2011, seria também ele o responsável pelos catastróficos eventos narrados em Flashpoint (saga que serviu de prelúdio a Os Novos 52!, traduzida no Brasil como Ponto de Ignição e que, num horizonte próximo, será aqui esmiuçada). Transformado num paradoxo vivo após ter assegurado que a sua existência não mais dependeria da de Barry Allen, o Flash Reverso optou, ainda assim, por manter vivo o seu rival, apenas pelo prazer de torturá-lo.
   Em choque, Barry Allen descobriu que, naquela linha de tempo divergente, a sua mãe continuava viva e de boa saúde. No entanto, o que parecia ser uma bênção, logo se transformou num pesadelo quando o Flash Reverso lhe explicou que, ao viajar no tempo para impedir o assassínio da sua progenitora, o herói havia desencadeado uma série de eventos que alteraram dramaticamente o curso da História.
   Com Barry à sua mercê, o Flash Reverso seria contudo trespassado por uma versão alternativa do Batman (Thomas Wayne), circunstância de que resultou a sua aparente morte. Em consequência desses acontecimentos, a linha cronológica original seria restaurada, embora com substantivas diferenças. Formando, assim, a realidade de Os Novos 52.
   Pouco tempo depois, seria revelado que o Flash Reverso sobrevivera ao ataque de que fora alvo por parte do Batman, encontrando-se presentemente ilhado no campo da Força de Aceleração. Marinando o seu ódio por Barry Allen e certamente magicando o seu próximo ato de vingança.

O aparente último suspiro do Flash Reverso
 em "Ponto de Ignição".
*Perfil disponível em http://bdmarveldc.blogspot.pt/2013/06/eternos-carmine-infantino-1925-2013.html
   
Noutros media: Antes de alcançar notoriedade junto do grande público por via do seu estatuto de antagonista principal na primeira temporada de The Flash (em exibição desde outubro de 2014), o Flash Reverso era praticamente um ilustre desconhecido fora dos quadradinhos.
  Com efeito, a sua participação na referida série televisiva (na qual foi interpretado por Tom Cavanagh e Matt Letscher) foi apenas precedida por umas quantas aparições dispersas em produções animadas da DC. De entre estas, aquela em que o vilão desempenhou papel de maior relevo foi em
 Justice League: The Flashpoint Paradox, película de 2013 baseada na saga homónima da autoria de Geoff Johns e Andy Kubert.

Tom Cavanagh como Flash Reverso
num cartaz promocional de The Flash.

Adaptação ao grande ecrã de uma saga
cujo epicentro foi a versão simétrica do Flash.

   
     
  

sábado, 9 de abril de 2016

CLÁSSICOS REVISITADOS: «A MORTE DE GWEN STACY»





   Fustigado pelo Destino, Peter Parker perdeu para sempre o amor da sua vida numa malsinada noite em que batalhava o seu némesis. Desenlace trágico de um épico que mudaria para sempre a vida do herói, e que já foi transposto ao cinema.


Título original: The Night Gwen Stacy Died
Data: Junho-julho de 1973
Autores: Gerry Conway (história), Gil Kane (esboços) e John Romita, Sr. (arte-final)
Licenciadora: Marvel Comics
Publicado em: The Amazing Spider-Man nº121-122
Protagonistas: Peter Parker/Spider-Man (Homem-Aranha), Norman Osborn/Green Goblin (Duende Verde) e Gwen Stacy
Coadjuvantes: May Parker, Mary Jane Watson, Harry Osborn e J. Jonah Jameson
Cenários: Diferentes pontos da cidade de Nova Iorque, designadamente a ponte George Washington




Capas de The Amazing Spider-Man nº121 (acima) e 122.

 Gwen Stacy: de donzela a mártir





    Quem foi o grande amor de Peter Parker? Gwen Stacy ou Mary Jane Watson? Este é um tópico que ainda hoje motiva acaloradas discussões entre os fãs do Escalador de Paredes, sem que seja, contudo, possível chegar a um consenso.
   Controvérsias à parte, é inegável o papel fundamental que Gwen Stacy teve (e, em certa medida, continua a ter) na vida de Peter Parker. Mas o que, exatamente, sabemos sobre ela?
   De sua graça Gwendolyn Maxine "Gwen" Stacy, a loira delicodoce que arrebatou o coração de Peter começou a espalhar o seu encanto em dezembro de 1965, nas páginas de The Amazing Spider-Man nº31. Fruto da imaginação de Stan Lee* e Steve Ditko**, foi apresentada aos leitores como uma colega de Peter na Universidade Empire State. Perante a aparente indiferença do jovem aos seus subtis avanços, Gwen namorou brevemente com Flash Thompson e Harry Osborn.
   Peter, por sua vez, julgando Gwen fora do seu  alcance, viveu um romance de combustão rápida com a extrovertida Mary Jane. Conforme Peter depressa descobriu, as duas raparigas eram diferentes como a noite do dia: enquanto Gwen - uma brilhante aluna de Ciências - lhe admirava principalmente o intelecto, MJ pôs a nu a sua frivolidade e egocentrismo.
   Pouco tempo depois de Peter e Gwen deixarem os respetivos pares para começarem a namorar um com o outro, o capitão George Stacy (pai da jovem, entretanto introduzido nas histórias do Homem-Aranha, de quem era aliado) morreria atingido por destroços resultantes de uma rixa entre o herói e o Doutor Octopus.
   Recriminando o Escalador de Paredes pelo sucedido, Gwen anunciou a sua intenção de viajar para a Europa em busca de paz de espírito. Intimamente, porém, ela desejava que Peter a pedisse em casamento e a convencesse a ficar junto dele. Acabrunhado pelos remorsos, o jovem assistiu impávido à partida da sua amada para o Velho Continente.
   A separação foi, contudo, temporária. Impelida pelos fortes sentimentos que ainda nutria por Peter, Gwen regressou poucos meses depois a Nova Iorque, com o casal a logo reatar o namoro.
   De acordo com Stan Lee -  que até então escrevera todas as histórias envolvendo Gwen Stacy -, ele e os seus colaboradores sempre tiveram em mente fazer da personagem o principal interesse romântico de Peter Parker. Mas, fizessem o que fizessem, Mary Jane parecia sempre mais interessante...
    Importa ainda acrescentar que, até ao momento, foram duas as atrizes a encarnar Gwen Stacy no cinema: Bryce Dallas (Spider-Man 3) e Emma Stone (The Amazing Spider-Man 1 e 2). Contudo, apenas a segunda  protagonizou uma adaptação da história original (vide segmento Repercussões).

*/**Perfis disponíveis em http://bdmarveldc.blogspot.pt/2011/09/eternos-stan-lee.html http://bdmarveldc.blogspot.pt/2012/03/eternos-steve-ditko.html

A morte de um anjo deixa sempre o mundo mais sombrio.
 
Conceção e desenvolvimento: Antes de selarem o destino de Gwen Stacy, Gerry Conway (ver texto anterior), Roy Thomas e John Romita, Sr. consultaram Stan Lee. Em entrevista concedida em 2011, o criador da namorada de Peter Parker recordou como tudo se passou: "Lembro-me que estava a preparar-me para uma viagem de negócios à Europa. Olhando para trás, julgo que não estaria a raciocinar com clareza porque quando os três estarolas me comunicaram a sua intenção de matar Gwen Stacy, eu não vi motivos para contrariá-los. Tudo o que eu queria naquele momento era enxotá-los para fora do meu escritório, para poder continuar a arrumar em paz a minha bagagem. Quando regressei a Nova Iorque e tomei conhecimento da morte de Gwen Stacy, interroguei-me por que raio é que eles o teriam feito? Nem queria acreditar que Gerry Conway tinha escrito algo assim. Tive de ser lembrado do aval que lhe dera durante a conversa no meu escritório antes de viajar."
   Dez anos antes destas declarações do desmemoriado Papa da Marvel, Gerry Conway apresentara a sua versão dos factos em The 100 Greatest Marvels of All Time: " Peter e Gwen  formavam o casal perfeito. Mas levar o relacionamento de ambos ao próximo nível (casamento ou, pelo menos, a revelação da vida dupla de Peter) seria trair tudo o que  o Homem-Aranha representa: tragédia pessoal e uma vida cheia de angústia. Eliminar Gwen Stacy permitiu, por assim dizer, matar dois coelhos com uma cajadada: pôr fim ao conto de fadas dos pombinhos e reforçar o elemento trágico que, na minha opinião, é a força motriz do Homem-Aranha".


Peter Parker: uma vida ensombrada pela tragédia.

   Embora o enredo escrito por Gerry Conway localizasse a tragédia na ponte George Washington, a que surge desenhada em The Amazing Spider-Man nº121 é a ponte de Brooklyn. Inconsistência que deu azo a conjeturas, mas que foi assim explicada por Stan Lee: "Fiz asneira. O artista desenhou a ponte do Brooklyn e eu, como editor, identifiquei-a como sendo a George Washington. Mas o erro seria emendado em futuras republicações da história."
  Na narrativa original, a sequência da morte de Gwen Stacy incluía a onomatopeia "snap" estrategicamente colocada  junto à cabeça da rapariga no painel em que o Homem-Aranha a apanhava com a sua teia. Em republicações vindouras, esse efeito sonoro seria, contudo, removido. Sobrevindo daí as dúvidas de muitos leitores quanto às reais causas da morte de Gwen. Com o intuito de as dissipar, Roy Thomas publicou a seguinte nota na secção de cartas de The Amazing Spider-Man nº125 (outubro de 1973): "É com enorme pesar que confirmamos que Gwen Stacy morreu em resultado do efeito de chicote provocado pela teia do Homem-Aranha. Era impossível ele tê-la salvado. Nunca a alcançaria a tempo se tivesse optado por saltar para apanhá-la no ar, a ação que tomou resultou na morte da rapariga e, mesmo que não tivesse feito nada, ela acabaria por não resistir a uma queda de tão grande altura. Não havia nada a fazer."
   Tese ratificada pelo professor de Física (e colecionador de comics) James Kakalios, no seu livro The Physichs of Superheroes (A Física dos Super-Heróis): "No mundo real, o efeito de chicote causado pela teia do Homem-Aranha quebraria o pescoço de Gwen como se de um galho seco se tratasse."


A sequência original da morte de Gwen Stacy.
     

Enredo: Amnésico, Norman Osborn esquece o seu alter ego de Duende Verde e também o facto de Peter Parker e o Homem-Aranha serem a mesma pessoa. Transtornado com a descoberta de que o seu filho, Harry, é um viciado em drogas, o empresário sequestra-o na mansão familiar para o submeter a uma desintoxicação radical.
   Aliada às severas pressões financeiras, a mágoa decorrente da condição do filho desencadeia o colapso emocional de Norman. Donde resulta a reemergência da sua persona maligna e de todas as memórias reprimidas. Voltando, assim, Peter Parker e os seus entes queridos a ficarem na mira do Duende Verde.
   Gwen Stacy, namorada de Peter e amiga de Harry, é raptada pelo Duende Verde. O vilão usa a rapariga como isco para atrair o Homem-Aranha até um dos pilares da ponte George Washington.
  Segue-se uma violenta refrega entre os dois inimigos jurados, que culmina com o Duende Verde a atirar Gwen do alto da estrutura. Agindo instintivamente, o Homem-Aranha dispara uma das suas teias para tentar suster a queda desamparada da jovem para as águas turvas do rio Hudson. A teia adere ao tornozelo de Gwen, deixando-a a baloiçar no ar. Convencido de que tinha salvado a vida da sua amada, o herói fica em choque quando, ao içá-la, percebe que ela está morta.
   Mesmo sem saber ao certo se fora o efeito de chicote causado pela sua teia a quebrar o pescoço da rapariga, ou se ela já estaria morta quando o Duende Verde a deixou cair, o Homem-Aranha recrimina-se pela tragédia.
   Tolhido por uma dor indizível, o herói chora sobre o corpo inerte de Gwen, enquanto o Duende Verde voa para longe dali. Mesmo à distância, porém, o vilão consegue ouvir as juras de vingança proferidas pelo Escalador de Paredes.

Angústia e desejo de vingança toldaram o espírito do herói.

  Na segunda parte da história, o Homem-Aranha persegue o Duende Verde até a um armazém devoluto e espanca-o com violência. Impede-se, contudo, de tirar a vida ao seu adversário. Aproveitando a hesitação do herói, o Duende Verde aciona remotamente o seu planador com a intenção de usá-lo para trespassar o herói pelas costas. Alertado pelo seu sentido de aranha, o Escalador de Paredes consegue esquivar-se do ataque, acabando o vilão empalado pelo próprio aparato.
   Com a aparente morte do Duende Verde, Peter Parker procura retomar a sua vida, apesar do enorme vazio que a preenche. No regresso a casa após mais um dia de aulas, tem à sua espera Mary Jane Watson, igualmente destroçada pela perda da sua melhor amiga. Unidos no luto, os dois procuram consolar-se mutuamente. Mas ambos sentem nos ossos que nada voltará a ser como dantes.

O feitiço virou-se contra o feiticeiro e o Duende Verde pagou pelos seus crimes.


Peter e Mary Jane (re)unidos pela tragédia.

Repercussões:

* A morte de Gwen Stacy deixou a comunidade de fãs do Escalador de Paredes em choque. Até pouco tempo antes da sua publicação, seria impensável que algo tão trágico pudesse suceder com uma personagem de tamanha relevância. Importa ressaltar que, por norma, os heróis não costumavam falhar tão miseravelmente, a menos que isso fizesse parte da sua origem. Razão que leva muitos especialistas a referenciarem esta história como aquela que assinalou o fim da chamada Idade da Prata, e o consequente advento da Idade do Bronze (trazendo consigo um registo mais sombrio aos comics);
*Gwen Stacy deu o nome a uma síndrome patenteada pelo Comics Buyer's Guide, e que serve ainda hoje para designar a tendência recorrente de dar fins trágicos aos interesses românticos dos super-heróis. Alguns exemplos célebres: Elektra Natchios (ex-namorada de Matt Murdock/Demolidor), Betty Ross (ex-esposa de Bruce Banner/Hulk) e Jean Grey (ex-esposa de Scott Summers/Ciclope);
* Numa votação promovida em 2001 pela Marvel, a fim de elaborar a lista das cem melhores histórias da editora, Spider-Man nº121 e nº122, quedaram-se, respetivamente, nos 6º e 19º lugares;
* Em julho de 2013, a escritora norte-americana Sarah Bruni deu à estampa o seu romance de estreia, intitulado precisamente The Night Gwen Stacy Died. A narrativa tem como protagonistas um casal que  se refere a si mesmo como Peter Parker e Gwen Stacy;

O romance homónimo de Sarah Bruni.

* Durante a Guerra Civil, tanto o Capitão América como o Homem de Ferro citaram a morte de Gwen Stacy como argumento para as suas posições díspares relativamente à Lei do Registo de Superseres (LRS). Enquanto o primeiro sustentava que tal só acontecera em virtude do Duende Verde conhecer a verdadeira identidade do Homem-Aranha (a LRS requeria que todos os heróis revelassem as suas identidades civis), o segundo contrapunha que, na origem da tragédia, estivera a falta de treino do Escalador de Paredes (o qual seria doravante ministrado a todos os heróis registados);
* Repleta de liberdades poéticas, a primeira adaptação de The Night Gwen Stacy Died ao grande ecrã foi feita em 2002. Em Spider-Man, Mary Jane Watson fez as vezes de Gwen Stacy. No entanto, ao contrário da sua malograda antecessora no coração de Peter Parker, a fogosa ruiva acabaria salva pelo herói aracnídeo de uma queda fatal no rio Hudson. Já a subsequente morte do Duende Verde foi coreografada no filme de uma forma muito similar à da história original;
* Igualmente com diversas nuances, a imolação de Gwen Stacy foi retratada em The Amazing Spider-Man 2 (2014). Com a principal diferença a residir no cenário escolhido: nesta versão, o Duende Verde preferiu a torre de um relógio à icónica ponte George Washington para lançar a jovem para a morte. Numa sequência muito semelhante à da banda desenhada, ao tentar salvar a sua amada, o Homem-Aranha acaba acidentalmente por matá-la;

Emma Stone como Gwen Stacy em The Amazing Spider-Man 2 (2014).

Realidade alternativa: Numa história não-canónica publicada em What If nº24 (dezembro de 1980), o Homem-Aranha consegue salvar Gwen Stacy do seu destino fatídico, saltando e amparando com o corpo a queda da rapariga do alto da ponte George Washington, em vez de tentar sustê-la em pleno ar
com a sua teia. Estratégia idêntica àquela que o herói utilizaria para salvar Mary Jane no filme Spider-Man (2002).
   No seguimento desse resgate bem-sucedido, Peter Parker pede Gwen em casamento, depois de lhe revelar a sua identidade secreta. Paralelamente, Norman Osborn sucumbe uma vez mais ao seu lado insano após o seu filho, Harry, ter saído de casa receando pela própria vida.
   Apesar do amor incondicional que nutrem um pelo outro, o destino de Peter e Gwen é tudo menos risonho. Para garantir a sua vitória final, o Duende Verde envia a J. Jonah Jamenson provas relacionadas com a verdadeira identidade do Homem-Aranha. Sem pensar duas vezes, o diretor do Clarim Diário publica o material. Usando-o, de seguida, para obter um mandado de captura para Peter Parker. Circunstância que obriga o jovem a fugir à polícia meros instantes depois de ter trocado alianças com Gwen.
  Com Peter em paradeiro incerto, a história termina com uma desolada Gwen a acolher a promessa feita por Joe Robertson (editor do Clarim Diário) de tudo fazer para ajudá-la a encontrar o marido.

Capa de What If? nº24 (história publicada no Brasil em Homem-Aranha nº10, da Abril).


Edições em Português

   No Brasil, o arco de histórias apresentando a morte de Gwen Stacy teve, no decorrer dos anos, direito a várias republicações sob os auspícios de diferentes editoras. Aqui fica uma retrospetiva das mesmas:

* O Homem-Aranha nº54 (Ebal, setembro de 1973);
* Homem-Aranha nº18 (RGE, junho de 1980);
* Marvel Especial nº2 (Abril, dezembro de 1986);
* A Teia do Aranha nº61 (agosto de 1991);
* Os Maiores Clássicos do Homem-Aranha nº3 (Panini, novembro de 2004);
* Homem-Aranha: Grandes Desafios (Panini, junho de 2007);
* Coleção Histórica Marvel: Homem-Aranha nº1 (Panini, setembro de 2013)


Homem-Aranha nº18 (RGE, junho de 1980).


A Teia do Aranha nº23 (Abril, agosto de 1991).
Coleção Histórica Marvel: O Homem-Aranha nº1 (Panini, setembro de 2013).

Vale a pena ler?

   Sim, mil vezes sim! Vale a pena ler e reler esta que é uma das mais notáveis histórias do Escalador de Paredes e, convenhamos, da Marvel.
    A par do assassinato do tio Ben, a morte de Gwen Stacy foi o episódio mais marcante na vida de Peter Parker. Tragédias que esculpiram o caráter do herói e que influenciaram para sempre o seu destino. Num caso como no outro, nunca saberemos em que tipo de homem Peter se teria transformado se qualquer um desses seus entes queridos tivesse sobrevivido.
    Aqui entre nós, a relação de Peter com Gwen Stacy sempre foi uma das minhas favoritas. Como devem imaginar, emocionei-me com a morte prematura daquela que considero ter sido o grande amor da vida de Peter Parker. Que me perdoem, pois, os fãs de Mary Jane Watson mas, da forma como vejo as coisas, esse monumento vivo à lascívia e à frivolidade jamais poderia dar uma boa esposa. Mais: não tivesse sido Gwen tirada de cena, e a MJ restaria assistir de camarote à felicidade amorosa do casal.
  Inteligente, generosa e - perdoem-me a expressão - linda de morrer, Gwen era um anjo de graciosidade e uma namorada modelar que sempre demonstrou ser uma influência positiva na vida de Peter. Ela tê-lo-ia certamente inspirado a cometer proezas ainda maiores do que aquelas que ele logrou alcançar. Tanto mais que, em variadíssimas ocasiões, ficou bem patente a profunda devoção que a rapariga tinha por Peter. Com uma mulher dessas ao lado, o céu é o limite para qualquer homem.
   Não fosse, pois, pelos cruéis desígnios editoriais, o casal estaria fadado a viver um daqueles amores capazes de fazer suspirar as almas românticas. Haverá, portanto, tragédia maior do que ver a pessoa com quem imaginávamos passar o resto da vida ser-nos arrancada num abrir e fechar de olhos?
    Essa é, de resto, a grande lição a tirar da morte de Gwen Stacy: estimem as pessoas que amam, expressem-lhes o vosso afeto e apreço antes que seja tarde demais. Lembrem-se que a vida é uma vela acesa ao vento...

   
Não há amor como o primeiro...


quinta-feira, 31 de março de 2016

ETERNOS: GERRY CONWAY (1952 - ...)




   Com apenas 19 anos foi investido da espinhosa missão de suceder a ninguém menos do que Stan Lee em The Amazing Spider-Man. Apesar da sua juventude e do peso desse legado, logrou afirmar-se ao escrever algumas das mais memoráveis histórias do Escalador de Paredes. Dele são também os créditos pela criação de personagens icónicas, como Justiceiro e Nuclear.


Biografia: De ascendência irlandesa, Gerard F. "Gerry" Conway nasceu há 63 anos no Brooklyn (Nova Iorque). Criado no seio de uma modesta família de imigrantes de segunda geração, o pequeno Gerry lia historietas de super-heróis com devoção religiosa. A mesma que lhe falta hoje em dia, apesar de ter recebido uma educação baseada nos preceitos do Catolicismo.
   No seu blogue pessoal, Gerry Conway descreve nestes termos os seus antecedentes familiares: "Os meus avós maternos nasceram na Irlanda. Como muitos outros,antes e depois deles, vieram à procura do sonho americano. Viveram no entanto uma vida em tudo parecida com aquela que a minha empregada de limpeza latina vive hoje em dia. O meu avô trabalhava de sol a sol como estivador nas docas. A minha avó lavava escadas na Hunter College (subsidiária da Universidade de Nova Iorque, sediada em Manhattan). Por força do seu baixo estatuto social, eram os hispânicos daquela época. Ou seja, eram tolerados mas não respeitados pelos estratos sociais mais elevados. Até o meu pai, nascido nos EUA, sentiu na pele esse preconceito em relação aos irlandeses. Raramente falava contudo do assunto. Mas, quando o fazia, era evidente o seu amargor."
  Naquilo que alguns poderão interpretar como um sinal da sua predestinação de vir a ser um expoente da 9ª arte, aos 14 anos Gerry Conway teve uma carta da sua lavra publicada em Fantastic Four nº50 (vide texto anterior). Destino que começou a desenhar-se três anos depois, em setembro de 1969, quando viu ser dado à estampa o seu primeiro trabalho profissional. Consistindo este num conto de terror, composto por seis páginas e meia, publicado em House of Secrets nº81 (título da DC Comics).

Edição de The House of Secrets que marcou
 a estreia profissional de Gerry Conway.

   Por conta desta estreia auspiciosa, da pena de Gerry Conway continuou a sair um manancial de histórias de cariz sobrenatural, publicadas nos meses subsequentes tanto em títulos da Marvel como da DC. Apesar de cada vez mais requisitado, Gerry suspirava por uma oportunidade para trabalhar com a sua verdadeira paixão: super-heróis. Graças à ajuda de amigos bem colocados, em finais de 1970, Gerry entrou em contacto com Roy Thomas    ( à época, editor da Marvel e braço-direito de Stan Lee), que concordou em testar as capacidades do jovem aspirante a escriba, dando-lhe um argumento para desenvolver.
   Oportunidade de ouro que nem passaria pela cabeça de Gerry desperdiçar. Ciente de que tinha na mão a chave para abrir de par em par as portas do seu emprego de sonho, arregaçou as mangas e trabalhou com afinco. Impressionado com a prestação do jovem,. Roy Thomas logo lhe atribuiu outras histórias, inclusive uma de Ka-Zar, publicada em Astonishing Tales nº3 (dezembro de 1970).

O primeiro trabalho de Conway para a Marvel
 foi publicado  neste volume de Astonishing Tales
  Conquistada a admiração dos seus pares, num piscar de olhos Gerry Conway tornou-se parte da mobília da Casa das Ideias. Sendo-lhe confiadas personagens cada vez mais proeminentes: a Ka-Zar seguir-se-iam Demolidor, Viúva Negra, Homem de Ferro, Inumanos e o Incrível Hulk. Sobejando-lhe, ainda assim, tempo e criatividade para escrever a história inaugural da série The Tomb of Dracula, e para participar na conceção de personagens como Lobisomem e Homem-Coisa (Werewolf e Man-Thing, nos respetivos originais).
  O batismo de fogo de Gerry Conway chegaria, contudo, em meados de 1972. Ano em que foi o escolhido para suceder a ninguém menos do que Stan Lee à frente de The Amazing Spider-Man. Ironia do destino, já que, ao contrário de Roy Thomas, o Papa da Marvel não ficara impressionado com a amostra do trabalho de Gerry Conway,  Este, do alto dos seus 19 anos, não se fez rogado na hora de aceitar aquilo que bem poderia ter sido um presente envenenado: assumir o legado de uma lenda viva num título de charneira da Casa das Ideias.
   Malgrado a sua juventude e o natural ceticismo de alguns leitores, Gerry Conway não demorou a afirmar-se, dando um novo elã ao microcosmos do Homem-Aranha. Ao longo do triénio (1972-75) que durou o seu consulado em The Amazing Spider-Man, o escritor revitalizou as histórias do Escalador de Paredes. Algumas das quais, pelo seu escopo na vida do herói, se tornariam antológicas. Foi o caso, desde logo, de The Night Gwen Stacy Died (A Noite em que Gwen Stacy Morreu), que chegou às bancas norte-americanas em junho de 1973.

A morte de Gwen Stacy continua a ser uma das histórias
 mais impactantes na vida do Escalador de Paredes.

  Oito meses depois, em parceria com Ross Andru, Gerry Conway introduziria dois novos e carismáticos antagonistas do herói aracnídeo: o Chacal (The Jackal) e o Justiceiro (The Punisher). Enquanto o primeiro estaria na origem da controversa Saga do Clone (já aqui esmiuçada), o segundo teria uma ascensão fulgurante no Universo Marvel, depressa trocando as roupagens de vilão pelas de um anti-herói cujos métodos radicais no combate à criminalidade o tornaram numa das mais populares personagens dos quadradinhos (e fora deles).

O Justiceiro (aqui pelo traço de Ross Andru, seu cocriador)
rapidamente passou de coadjuvante a protagonista.

  Paralelamente ao trabalho desenvolvido em The Amazing Spider-Man, Gerry Conway escreveu também, durante cerca de ano meio, outro dos títulos mais emblemáticos da Casa das Ideias: The Fantastic Four. 
    Factos que, em 2009, lhe motivariam as seguintes reflexões: "Qualquer pessoa com uma atividade criativa está ciente de que a precocidade é uma maldição. No meu caso, a maior parte da pressão que senti quando era um jovem escritor de super-heróis foi autoinfligida. Aquilo que eu mais queria era ser aceite como igual pelos meus colegas mais velhos. Circunstância que me levou muitas vezes a projetar uma maturidade emocional e profissional superior à que tinha na altura. 
   Posso dizer, no entanto, que era bastante convincente nesse papel. Dele decorrendo vantagens mas, obviamente, também algumas desvantagens. Olhando para trás, julgo que as pessoas se esqueciam frequentemente de quão novo eu era, esperando desse modo que eu atingisse um nível que claramente não estava ao meu alcance. 
  A principal consequência foi eu ter passado os primeiros anos da minha carreira profissional esmagado por uma gigantesca pressão, sem saber muito bem o que fazer. Escrevia muitas vezes por instinto. Quando essa forma de escrever se adequava ao material que tinha em mãos, o resultado final era estupendo. Mesmo passados todos estes anos, continuo a orgulhar-me do trabalho que fiz em The Amazing Spider-Man. Outras situações houve em que fui notoriamente prejudicado pela minha inexperiência."



Houve um antes e um depois de Gerry Conway nas histórias do Homem-Aranha.
   Regressado à DC em meados de 1975, Gerry Conway assumiu de uma assentada três edições, todas datadas de novembro desse ano: Hercules Unbound nº1, Kong, The Untamed nº3 e Swamp Thing nº19. Carga de trabalho complementada pela revitalização por ele operada em All Star Comics. Foi, aliás, neste título histórico com origens na Idade do Ouro que Gerry deu a conhecer a Poderosa (Power Girl), uma das suas mais bem-sucedidas criações.
  Tal versatilidade valeu-lhe, pouco tempo depois, o convite para escrever Superman versus The Amazing Spider-Man, o primeiro crossover oficial Marvel/DC. Iniciativa editorial que associaria para sempre o nome de Gerry Conway à história das duas gigantes dos quadradinhos estadunidenses.
  Depois de mais alguns meses a trabalhar na Editora das Lendas, em março de 1976 Gerry Conway aceitou novo desafio de monta ao assumir o cargo de editor-chefe da Marvel. Funções que exerceria apenas durante pouco mais de um mês, logo renunciando a elas por motivos que permanecem até hoje obscuros.

Nos créditos da batalha do século XX figurava o nome de Gerry Conway.

  Novamente ao serviço da DC (agora em regime de exclusividade), na década seguinte Gerry Conway deixaria a sua marca em praticamente toda a linha de títulos da editora. De Superman a Detective Comics (onde Batman era cabeça de cartaz), passando por Justice League of America, poucas foram as personagens que não tiveram histórias escritas pela sua incansável pena. Fase seminal em que Gerry Ordway foi também cocriador de um lote de personagens emblemáticas. Citando apenas as mais afamadas: Nuclear (Firestorm), Vixen, Vibro (Vibe), Cigana (Gipsy) e Gládio (Steel, the Indestructible Man). Importa referir que, excetuando o herói atómico, os restantes formaram o contingente de neófitos da Liga da Justiça de Detroit.
   Durante esta sua segunda passagem pela DC, Gerry Conway reencontrou Roy Thomas, com quem teve ocasião de colaborar em diversos projetos. Dentre estes, o mais ambicioso - e, em certa medida, o mais frustrante - seria,muito provavelmente, JLA/Avengers, crossover cujo cancelamento foi ditado pelas disputas editoriais entre as duas licenciadoras.
   Constantemente em busca de novos desafios, em finais dos anos 80, Gerry Conway trocou uma vez mais a DC pela Marvel. Entre 1988 e 1990 escreveu em simultâneo The Spectacular Spider-Man e Web of Spider-Man, os dois títulos estrelados pelo Homem-Aranha. Sobre esta sua segunda experiência com o Escalador de Paredes, Conway declararia certa vez: "Entendia a personagem muito melhor nessa altura do que quando tinha 19 anos. Uma das vantagens deste trabalho é que podemos sempre refrescar conceitos consagrados por via de alterações subtis. Algo que me continua a dar gozo fazer."
   Convidado a produzir os guiões da série policial Father Dowling Mysteries, Gerry Conway trocaria entretanto a BD pela TV. Não tendo sido esta, contudo, a sua primeira incursão no panorama audiovisual. Em 1983, ele e Roy Thomas haviam sido os autores do enredo de Fire & Ice, película de animação baseada em personagens idealizadas por Ralph Bakshi e Frank Frazetta. No ano seguinte, a mesma dupla assinaria a trama do filme Conan. The Destroyer (sequela de Conan, The Barbarian ,ambos protagonizados por Arnold Schwarzenegger).

A série televisiva que levou Gerry Conway
a abandonar a indústria dos comics.

   No plano literário, Gerry Conway deu à estampa duas novelas de ficção científica: The Midnight Dancers (1971) e Mindship (1974). Nenhuma delas obteve, todavia, o estatuto de best-seller.
   Circunscrevendo atualmente a sua relação com os comics  a ocasionais colaborações com a Marvel e a DC, Gerry Conway continua, ainda assim, a expressar o seu afeto por esses produtos culturais através das múltiplas referências que lhes faz nas séries televisivas que escreve e produz. Num episódio de Law & Order, por exemplo, deu o nome de John Byrne a uma das personagens.Rendendo dessa forma tributo a outro grande vulto da 9ª arte, cujo perfil já aqui foi publicado.
  Casado em segundas núpcias com Karen Bitten - uma psicóloga especializada em autismo infantil -, Gerry Conway é pai de duas filhas. Sendo a mais velha fruto do seu matrimónio com Carla Conway. Além da parentalidade, o ex-casal divide os créditos pela criação de Miss Marvel.
    A residir desde 2009 em San Fernand Valley - subúrbio da buliçosa Los Angeles - Gerry Conway leva uma pacata vida familiar longe dos holofotes. Nada que impeça a sua legião de fãs de continuar a acalentar a esperança de o ver regressar em grande estilo à indústria dos quadradinhos, atravessando presentemente uma das mais amorfas fases da sua História.
   Mesmo que tal nunca venha a acontecer, pelo seu importante contributo para o prestígio da 9ª arte, o nome de Gerry Conway ficará para sempre entalhado com letras douradas no panteão dos seus mais preclaros autores.


Gerry Conway entrevistado durante a Comic Con de Seattle de 2013.

 Obras de referência:

* The Amazing Spider-Man (Marvel, 1972-75);
* Superman versus The Amazing Spider-Man (Marvel/DC, 1976);
* Superman versus Wonder Woman (DC, 1978);
* Superman versus Shazam (idem, ibidem)
.*The Spectacular Spider-Man (Marvel, 1988-90);
* Web of Spider-Man (idem, ibidem);
* DC Retroactive: Justice League- The '80s (DC, 2011);

Outro tesouro de papel com a assinatura de Gerry Conway.

Principais criações e cocriações:

* Justiceiro/Punisher (Marvel);
* Chacal/Jackal (Marvel);
* Poderosa/Power Girl (DC);
*Vibro/Vibe (DC);
*Cigana/Gipsy (DC);
*Gládio/Steel, The Indestructible Man (DC);
* Miss Marvel (Marvel);
*Homem-Coisa/Man-Thing (Marvel);
* Lobisomem/Werewolf (Marvel);
* Jason Todd*(DC);
* Nevasca/Killer Frost (DC);
* Nuclear/Firestorm (DC);
* Crocodilo/Killer Croc (DC);
*Ben Rilley** (Marvel);
* Halloween/Jack O'Lantern (Marvel)
*Drácula/Dracula (Marvel);
*Esquadrão Atari/Atari Force (DC)

* Identidade civil do segundo Robin (atual Capuz Vermelho);
** Identidade civil do Aranha Escarlate

Nuclear: umas das mais célebres criações de Gerry Conway.