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segunda-feira, 27 de junho de 2016

GALERIA DE VILÃS: TALIA AL GHUL




   Assassina de gabarito mundial, nas veias corre-lhe o sangue de um dos arqui-inimigos do Batman. Herói a quem salvou a vida em diversas ocasiões e com quem concebeu o mais recente Menino Prodígio. Alcunhada de Filha do Demónio, tem-se esmerado em fazer jus à sua reputação.

Criadores: Dennis O'Neil (história) e Bob Brown (esboços)
Licenciadora: Detective Comics (DC)
Primeira aparição: Detective Comics nº411 (maio de 1971)
Identidade civil: Talia al Ghul
Local de nascimento: Desconhecido
Parentes conhecidos: Ra's al Ghul (pai), Melisande (mãe falecida), Dusan al Ghul (irmão), Nyssa Raatko (meia-irmã), Damian Wayne (filho) e Bruce Wayne (ex-marido)
Afiliação: Líder da Leviatã, ex-líder da Liga de Assassinos e membro reserva da Sociedade Secreta de Supervilões
Base de operações: Móvel
Armas, poderes e habilidades: Comummente descrita como uma atleta de nível olímpico, Talia al Ghul é também uma atiradora de elite. Extraordinariamente destra no manuseamento tanto de armas de fogo como brancas, não depende contudo delas para cultivar a letalidade que faz dela uma assassina de renome mundial.
Apesar de muitas vezes subestimada pelos seus adversários, a sua proficiência numa vasta gama de artes marciais tornam-na uma exímia lutadora mano a mano.
Detentora de um quociente de inteligência muito superior à média, a sua eclética formação académica inclui pós-graduações em Biologia, Engenharia e Gestão Financeira, sendo também poliglota.
Sedutora por natureza, é dona de uma beleza exótica à qual nem o próprio Batman consegue resistir. Essa é, aliás, outras das armas a que Talia não hesita em lançar mão para cumprir os seus desígnios.
Em adição a tudo isto, teve a sua longevidade incrementada pelo uso reiterado do Poço de Lázaro, pertença do seu pai.


Talia al Ghul deu todo um novo significado
 ao conceito de femme fatale.

Histórico de publicação: Saída da imaginação do escritor Dennis O'Neil e do artista Bob Brown, não é por acaso que Talia al Ghul faz lembrar uma Bond Girl. Tanto as aventuras cinematográficas de 007 como as do Doutor Fu Manchu* serviram de inspiração ao desenvolvimento da personagem.Que fez a sua estreia em maio de 1971, nas páginas de Detective Comics nº411. Ainda que nessa sua primeira aparição a filha de R'as al Ghul seja referenciada apenas como Talia, servindo de emissária do pai, o qual  revelaria a sua presença somente no mês seguinte, em Batman Vol.1 nº232.
De então para cá, a Filha do Demónio já soma mais de duas centenas de aparições individuais em diversos títulos da DC, com especial incidência naqueles que têm o Cavaleiro das Trevas como cabeça de cartaz. Sem contar com as suas múltiplas adaptações a outros meios audiovisuais (ver Noutros media).

A Filha do Demónio aparentava ser uma donzela indefesa
na sua primeira aparição em Detective Comics nº411 (1971).
Retratada tanto como vilã como anti-heroína, Talia parece sentir-se confortável na pele de ambas. Outro papel de que nunca desdenhou foi o de interesse romântico do Batman. Com quem, ao longo dos anos, já viveu tórridos - porém efémeros - romances. De um dos quais resultaria o nascimento do filho de ambos: Damian Wayne, o quinto (e, de longe, o mais petulante) Menino Prodígio.
Tudo porque o diabólico pai de Talia, Ra's al Ghul**, mesmo sendo inimigo jurado do Homem-Morcego vê nele o sucessor perfeito para assumir as rédeas do seu vasto império criminoso. No entanto, face ao total desinteresse do herói em assumir o cargo, compete a Talia administrar os negócios paternos, apesar de não ser a sua única herdeira. Nyssa Raatko é sua meia-irmã e principal rival, mesmo no que aos afetos de Batman diz respeito.
Este pôde contar com a ajuda de Talia al Ghul em variadíssimas ocasiões. Tantas como aquelas em que teve a vida salva pela filha do seu némesis. Com efeito, a maior parte dos atos criminosos cometidos por Talia foram motivados mais pela sua lealdade ao pai do que por ganância ou malícia. Ambiguidade moral por que sempre pautou a sua conduta mas que, em encarnações mais recentes, tem vindo a diluir-se. Afirmando-se agora Talia cada vez mais como vilã e adversária do Cavaleiro das Trevas, tanto na sua qualidade de líder da Liga de Assassinos como integrada na Sociedade Secreta de Supervilões. Ou ainda como cérebro da Leviatã, organização terrorista subsidiária da Liga de Assassinos fundada para travar uma guerra sem quartel com a Corporação Batman.

* Personagem ficcional criada em 1933 pelo escritor britânico Sax Rohmer, já adaptada ao cinema.
** Perfil disponível em http://bdmarveldc.blogspot.pt/2012/08/nemesis-ras-al-ghul.html

Talia al Ghul: bela e letal como uma Bond Girl.

Biografia: Na adolescência, Talia al Ghul viajou pelo mundo na companhia do pai, o temido terrorista internacional Ra's al Ghul. Nessa jornada aprendeu com a sabedoria do seu progenitor ao mesmo tempo que se inteirava dos seus inúmeros negócios. Apesar de Ra's al Ghul considerar as mulheres inferiores aos homens - e, por conseguinte, indignas de serem suas herdeiras - Talia provou estar muito mais preparada do que o irmão para assumir o controlo do vasto império familiar.
Demonstrando uma extraordinária habilidade para administrar quer os negócios legítimos quer as atividades clandestinas do pai, Talia afirmou-se como a principal candidata à sua sucessão. Complexa e meticulosa, o seu primeiro encontro com o Batman ocorreu quando este a resgatou das garras do Dr. Darkk, o autoproclamado líder da Liga de Assassinos. Organização que, na verdade, prestava vassalagem a Ra's al Ghul, sendo Darkk um simples lacaio insubordinado. No final dessa história, a Filha do Demónio saldou o seu débito para com o Homem-Morcego salvando-lhe a vida. Sendo essa a primeira de muitas vezes que o faria no decurso dos anos.
Após Robin (Dick Grayson) ter sido raptado, Ra's al Ghul invadiu a Batcaverna, revelando assim conhecer os segredos mais íntimos da Dupla Dinâmica, inclusive as suas identidades secretas. Confrontado pelo Batman, o vilão pediu-lhe auxílio para encontrar Talia, também ela em paradeiro incerto. Presumindo haver uma ligação entre ambos os casos, o herói acedeu ao pedido e partiu com Ra's em busca de Talia e de Robin. Apenas para logo descobrir que tudo não passara de uma artimanha engendrada por Ra's para testar as capacidades do seu inimigo por quem a sua filha se perdera de amores.

Talia cresceu na sombra do seu diabólico pai.
No entanto, apesar de Batman ter passado com distinção no teste a que foi submetido, recusou desposar Talia e dessa forma herdar o legado de Ra's al Ghul. Decisão que deixou a Filha do Demónio de coração partido e  R'as profundamente desapontado.
Nos anos que se seguiram, Talia viveu dividida entre a sua lealdade ao pai e o seu amor pelo seu maior inimigo. Sentimento que, gradualmente, foi sendo correspondido pelo Cavaleiro das Trevas. Culminando com o casamento de ambos em Batman: Son of the Demon (1987). Esta foi, porém, tecnicamente, a segunda vez que os dois deram o nó, visto que, numa história anterior - datada de 1978 - eles já o haviam feito. Aconteceu em DC Special Series nº15 e foi uma das inconsistências produzidas pela reestruturação da cronologia da DC operada em Crise nas Infinitas Terras.
Em qualquer caso, dessas segundas núpcias de Batman e Talia resultou uma gravidez. Pouco tempo depois, o herói sobreviveu por um triz a um atentado que tinha por alvo a sua cara-metade. Ganhando consciência de que os dois nunca poderiam levar uma vida normal juntos, Talia simulou um aborto antes de exigir a dissolução do matrimónio.

Batman e Talia desfrutam das delícias conjugais
em Batman: Son of The Demon (1987).
Meses depois, foi entregue num orfanato um bebé dado secretamente à luz por Talia. Adotado por um casal estrangeiro , o menino foi batizado de Ibn al Xu'ffasch (literalmente, "Filho do Morcego" em árabe). Outra pista quanto à verdadeira origem da criança consistia  num colar de joias preciosas com que Batman presenteara Talia, e que esta deixou com o filho quando o abandonou à porta do orfanato, embrulhado apenas num pequeno cobertor.
Ainda no campo dos segredos familiares, em Batman: Death and the Maidens (história saída da pena de Greg Rucka em 2003), foi revelada a existência de uma meia-irmã de Talia al Ghul. Durante uma jornada pelo Império Russo no século XVIII, Ra's al Ghul envolvera-se com uma mulher de quem tivera uma filha a quem deu o nome de Nyssa. E que fora abandonada por Ra's num momento crucial: em pleno Holocausto, a rapariga foi torturada e teve toda a sua família exterminada num campo de concentração nazi. Deixada estéril depois de ter o útero queimado com ácido por um médico do campo, Nyssa jurou vingança em relação ao seu desnaturado pai.
Empregando a sua considerável fortuna e recursos, Nyssa conseguiu conquistar a confiança de Talia, apenas com o intuito de usá-la como arma contra Ra's al Ghul.

Nyssa Raatko, a cruel meia-irmã de Talia al Ghul.
Capturada por Nyssa, Talia foi atrozmente torturada pela irmã. Que, não satisfeita, a matou repetidas vezes para, em seguida, a ressuscitar mergulhando o seu corpo sem vida no Poço de Lázaro. Traumatizada por esse horror indizível, Talia percebeu, ainda assim, que tudo fazia parte de mais um dos maquiavélicos planos de Ra's al Ghul, entretanto assassinado por Nyssa.
Na sequência da aparente morte do seu progenitor, as duas irmãs aceitaram finalmente a sua herança, dando continuidade aos planos genocidas de Ra's. Entronizada como a nova Cabeça do Demónio, Talia renegou o seu amor pelo Batman e, tal como Nyssa, passou a considerá-lo seu inimigo figadal.
Os destinos de Talia e do Cavaleiro das Trevas continuariam, porém, entrelaçados. Vários anos mais tarde, um segredo antigo voltaria para assombrar a Filha do Demónio e de caminho virar do avesso a vida do herói. Pese embora com muitas liberdades poéticas (e algum ultraje à mistura), em 2006 o escritor britânico Grant Morrison reinterpretou os acontecimentos narrados quase duas décadas antes em Batman: Son of the Demon. Nessa espécie de desdobramento tardio da história original a que foi atribuído o título Batman and Son, foi apresentada a biografia secreta de Damian Wayne, filho de Bruce Wayne e Talia al Ghul.

Sobrepujada em combate pelo próprio filho,
 o insolente Damian Wayne.
Gerado num útero artificial, o menino fora treinado pela Liga de Assassinos praticamente desde que deixara de gatinhar. Tendo também o seu caráter moldado pelo seu pérfido avô materno, que viu nele o tão almejado herdeiro para o seu império velho de séculos.
Apresentado pela mãe a um atónito Batman que, de um dia para o outro, se viu chamado a assumir responsabilidades parentais em relação a um filho cuja existência sequer conhecia, Damian assumiria pouco tempo depois o manto de Robin. Passando dessa forma a acolitar o pai na sua interminável cruzada contra o crime. Apesar de a relação entre ambos nem sempre ser pacífica por conta da petulância e da falta de compaixão evidenciadas pelo pequeno Damian.
Assumindo conservar memórias pouco vivídas da história original, Grant Morrison admitiu ter cometido algumas incongruências na sua revisitação da mesma. Começando pelo pormenor de, nesta nova versão da trama, Talia ter drogado Batman antes de abusar sexualmente dele. Circunstância que acrescentou ao já de si pouco recomendável currículo da Filha do Demónio o  anátema de predadora sexual.

Talia al Ghul entronizada como a nova Cabeça do Demónio.
Apontamentos:

* Malgrado a introdução de Talia al Ghul nos cânones da DC reportar ao período pré-Crise nas Infinitas Terras, a sua existência manteve-se intacta na sequência desses eventos. Alguns elementos da sua história pregressa poderão, contudo, ter sido modificados ou suprimidos na nova continuidade da Editoras das Lendas. Devendo, por conseguinte, ser considerados apócrifos;
*Desconhecem-se os contornos precisos da origem de Talia al Ghul revista no período pós-Crise. Na graphic novel Batman: Birth of the Demon (1992) é explicitado que a sua mãe seria uma beldade mestiça - descendente de árabes e chineses - , cujo caminho cruzara o de Ra's al Ghul durante o festival musical de Woodstock (1969). E que teria morrido em consequência de uma overdose pouco tempo depois de trazer Talia ao mundo. Narrativa que colide de frente com aquela que fora apresentada, cinco anos antes, em Batman: Son of the Demon. Nesta versão, a mãe de Talia é identificada como Melisande, tendo sido assassinada por um serviçal de Ra's. Em comum, o facto de ambas as histórias serem narradas na perspetiva de um adulto que se autodenomina Ibn al Xu'ffasch. Expressão árabe para Filho do Morcego, sugerindo, assim, que se trataria de um presumível descendente de Batman e Talia. Trata-se, todavia, de uma personagem não canónica que serviria de base à conceção de Damian Wayne e sua ulterior inserção na continuidade da DC.

Muito permanece ainda por esclarecer
 sobre o passado de Talia al Ghul.
Noutros media: Surgindo num meritório 42º lugar na lista dos 100 Maiores Vilões de Todos os Tempos organizada pelo site IGN, Talia al Ghul tem perfumado com o seu charme assassino muitas produções audiovisuais com a chancela da DC.
A sua estreia fora da banda desenhada verificou-se em 1992, num episódio da temporada inaugural de Batman: The Animated Series, intitulado Off Balance, e no qual contou com a voz emprestada de Helen Slater (atriz que interpretou  Supergirl no filme homónimo de 1984). Esta foi, contudo, a primeira de muitas participações suas em produções similares, tanto para o pequeno como para o grande ecrã. Assumindo papel preponderante no recente filme de animação estrelado pelo Homem-Morcego, Batman: Bad Blood. Lançada já este ano no circuito DVD, a película mostra-nos uma Talia totalmente amoral e mais perigosa do que nunca.
A mesma amoralidade e perigosidade que, em 2012, haviam caracterizado a sua versão cinematográfica em The Dark Knight Rises (O Cavaleiro das Trevas Renasce). Neste terceiro e último capítulo da trilogia de Batman dirigida por Chris Nolan, coube à atriz Marion Cotillard emprestar corpo à insidiosa filha de Ra's al Ghul que quase consegue varrer Gotham City do mapa. Ainda no campo da ação real, já este ano, a vilã fez um cameo na primeira temporada da série DC's Legends of Tomorrow, surgindo retratada ainda como uma criança.

Marion Cotillard , uma sedutora Talia al Ghul
em Cavaleiro das Trevas Renasce (2012).

sexta-feira, 17 de junho de 2016

EM CARTAZ: «HOMEM DE AÇO»




   Fazendo um corte radical com o passado, Zack Snyder apresentou ao mundo a sua arrojada visão do Super-Homem, num filme, onde, pela primeira vez em muito tempo, a principal ameaça não era Lex Luthor nem os cristais de kryptonita. Polarizador de opiniões, o novo conceito continua a ser tão amado quanto odiado. Serviu, ainda assim, o duplo propósito de transpor para o cinema a versão moderna do herói, lançando de caminho as bases para o Universo Estendido DC.

Título original: Man of Steel
Ano: 2013
País: Estados Unidos da América/Reino Unido
Género: Ação/Aventura/Fantasia
Duração: 143 minutos
Realização: Zack Snyder
Argumento: David S. Goyer
Elenco: Henry Cavill (Kal-El/Clark Kent/Super-Homem); Amy Adams (Lois Lane); Michael Shannon (General Zod); Antje Traue (Faora); Russell Crowe (Jor-El); Ayelet Zurer (Lara Lor-Van);Kevin Costner (Jonathan Kent); Diane Lane (Martha Kent) e Laurence Fishburne (Perry White)
Companhias produtoras: Legendary Pictures, Syncopy Films e DC Entertainment
Orçamento: 225 milhões de dólares
Receitas: 668 milhões de dólares
Distribuição: Warner Bros.

Tal como o filme de 1978,
 Man of Steel fez-nos crer que um homem pode voar.

Produção e desenvolvimento: Tomada a decisão de reiniciar a franquia cinematográfica do Super-Homem, em junho de 2008 a Warner Bros. começou a receber propostas de realizadores, argumentistas e de escritores de banda desenhada. Dentre estes últimos, Grant Morrison, Mark Waid e Geoff Jonhs foram os nomes mais sonantes a manifestar vontade de colaborar  no projeto.
Na origem dessa decisão por parte da Warner estivera a fraca prestação de Superman Returns dois anos antes. No entanto, à parte alguns contactos exploratórios com realizadores, o projeto pouco ou nada evoluiu ao longo do ano seguinte.
Até que, em agosto de 2009, uma decisão judicial restituiu 50% dos direitos da origem do Super-Homem à família de Jerry Siegel (que, com Joe Shuster, criara o herói em 1938). Esta deliberação não se revestiu, porém, de efeitos retroativos. Por conseguinte, o tribunal decretou que a Warner Bros. não devia royalties aos familiares de Siegel referentes às películas anteriormente produzidas. Em contrapartida, caso não fosse iniciada até 2011 a rodagem de um filme baseado no Homem de Aço, o clã Siegel poderia processar a Warner pela perda de receitas financeiras decorrente dessa não produção. Cláusula que teve o condão de acelerar o cronograma de um projeto que até aí não atava nem desatava.
Assim, em outubro de 2010, Zack Snyder (Watchmen) foi anunciado como o realizador de uma película que pretendia demarcar-se da franquia iniciada em 1978 com Superman, The Movie e que chegara ao fim em 2006 com Superman Returns. Snyder não foi, contudo, o único cineasta a ser sondado pela Warner, tampouco foi a primeira escolha dos produtores. Antes dele, Darren Aronofsky (Cisne Negro), Matt Reeves (Projeto Cloverfield) e até Ben Affleck (que nesse mesmo ano dirigira The Town) foram outras das hipóteses em cima da mesa.

Zack Snyder, o controverso realizador de Man of Steel.

Já a escolha do argumentista foi mais consensual. Recomendado por Chris Nolan pelo seu estupendo trabalho na trilogia do Cavaleiro das Trevas (2005-12), David S. Goyer assumiu as despesas do enredo. Privilegiando uma narrativa não linear, a história idealizada por Goyer está igualmente impregnada de elementos religiosos que remetem para a mitologia cristã. Muitos críticos viram nela uma alegoria para a Paixão de Cristo. O Super-Homem assume-se, de facto, com um salvador vindo dos céus disposto ao sacrifício supremo em prol da Humanidade. Ademais, no seu diálogo com o Professor Hamilton, o herói revela estar na Terra há 33 anos. Idade que Jesus Cristo teria aquando da sua crucificação.
Escolhido o realizador e a restante equipa, as filmagens arrancaram em agosto de 2011 em Chicago, transferindo-se depois para a Califórnia e, por fim, para Vancouver, no Canadá. Com uma duração inicialmente prevista de dois meses, a rodagem do filme só terminaria, contudo, em fevereiro do ano seguinte. Facto para o qual terá contribuído a recusa de Zack Snyder em filmar em 3D ( por conta das limitações técnicas desse formato), obrigando a uma posterior reconversão do filme.
Numa entrevista concedida à Entertainment Weekly em abril de 2013 (dois meses antes da estreia de Man of Steel), o presidente executivo da Warner, Jeff Robinov, levantou um pouco do véu acerca do filme e da sua importância para o futuro do Universo Estendido DC: "Haverá referências a outros super-heróis que não o Super-Homem porque o filme servirá de precursor de uma franquia mais abrangente. O seu tom obscuro servirá de bitola a futuras produções". Com efeito, quando Zod destrói um satélite em órbita geossincrónica, é possível ler a inscrição Wayne Enterprises, indicando a presença do Batman naquele contexto (ver Sequela).

Duas das referências a Batman em Man of Steel.

Figurino: Man of Steel apresenta um traje do Super-Homem redesenhado por James Acheson e Michael Wilkinson. Notoriamente inspirada no visual contemporâneo do herói, saído de Os Novos 52 (mas também com óbvias influências de Kingdom Come), a vestimenta preserva o esquema cromático e a icónica insígnia peitoral com um S estilizado. Adotando, no entanto, tons menos garridos  do que os tradicionalmente usados na banda desenhada e em anteriores adaptações ao pequeno e ao grande ecrã. Estética moderna que dispensa igualmente o clássico calção encarnado sobre as calças que, até 2011, fora uma das imagens de marca do herói, dentro e fora dos quadradinhos.
Por outro lado, devido ao peso excessivo que um traje real acarretaria, a armadura de combate kryptoniana envergada pelo General Zod no filme foi totalmente gerada com recurso a tecnologia digital. Garantindo dessa forma que a prestação de Michael Shannon não seria prejudicada pela  sua reduzida liberdade de movimentos.


Figurino de Man of Steel versus uniforme de Os Novos 52:
descubram as diferenças.

Enredo: Com o seu núcleo planetário altamente instável em consequência de décadas de mineração intensiva motivada pelo exaurimento dos seus recursos naturais, Krypton enfrenta um cenário de destruição iminente. Indiferente aos dramáticos avisos de Jor-El, um dos maiores cientistas kryptonianos, o Conselho Regente menospreza a ameaça e prima pela inércia.
Quando a situação se torna insustentável, Jor-El sugere uma evacuação em larga escala, a fim de salvar o maior número possível de vidas. Antes, porém, que o plano possa ser posto em marcha, o General Zod, chefe supremo da guilda militar e velho amigo de Jor-El, lidera um golpe de Estado para depor o Conselho antes que seja tarde de mais.
Pressentindo o fatídico destino de Krypton, Jor-El rouba o Códice (dispositivo que armazena o genoma kryptoniano) e infunde-o nas células do seu filho recém-nascido. Kal-El é, de resto, o primeiro bebé em séculos a ser concebido através do método tradicional de procriação, uma vez que os kryptonianos há muito se vinham reproduzindo artificialmente com recurso a câmaras de gestação que também pré-programavam a função social de cada ser nelas gerado.
Após celebrarem brevemente o nascimento do seu único filho, Jor-El e a sua esposa, Lara Lor-Van, concordam em enviá-lo para a Terra a bordo do protótipo da nave espacial projetada em segredo pelo cientista.


Jor-El e Lara: os pais biológicos do Super-Homem.
Ao descobrir o plano de Jor-El, Zod mata o seu velho amigo mas não consegue reaver o Códice. Ordena então a destruição da pequena nave que se eleva nos céus de Krypton, mas as suas forças são entretanto subjugadas pelos militares fiéis ao Conselho.
Levados a tribunal marcial, Zod e o seus subordinados são condenados por sedição e sentenciados ao exílio perpétuo na Zona Fantasma. Para estarrecimento de Lara, Zod tem ainda tempo de jurar que encontrará o filho dela, aonde quer que Jor-El o tenha enviado.
Horas depois, o núcleo de Krypton entra em convulsão, provocando a implosão do planeta. Com as gigantescas ondas de choque a libertarem acidentalmente os prisioneiros da Zona Fantasma que, assim, se convertem nos últimos sobreviventes de uma civilização extinta.
Seguindo as coordenadas programadas por Jor-El, a nave transportando Kal-El aterra nas redondezas de Smallville, uma pequena e pachorrenta cidade do Kansas. Encontrado por Jonathan e Martha Kent, um casal de modestos agricultores sem filhos, o bebé é perfilhado por eles e batizado como Clark Kent.

Jonathan e Martha Kent adotam
 o pequeno órfão vindo das estrelas.
À medida que vai crescendo e as suas extraordinárias habilidades se vão desenvolvendo, Clark é visto como uma aberração pelos seus colegas de escola. Quando a situação ameaça ficar fora de controlo, Jonathan Kent revela ao filho as suas verdadeiras origens, mostrando-lhe em seguida o local onde escondera durante todos aqueles anos o foguete espacial que o trouxera ao nosso mundo.
A pedido de Jonathan, Clark promete manter em segredo a sua origem e poderes. Promessa que cumpre mesmo quando, anos depois, vê o pai ser estraçalhado por um tornado diante dos seus olhos. Consumido pela culpa, Clark embarca numa solitária jornada que o leva a vários pontos do globo. Sempre em busca de um propósito para a sua existência, ele usa identidades falsas para conservar o anonimato mas as suas ações não passam totalmente despercebidas.
Lois Lane, uma veterana jornalista do Daily Planet, é escalada pelo seu editor, Perry White, para investigar a descoberta de uma pretensa nave extraterrestre no Ártico. Fazendo-se passar por um dos operários destacados para o local das escavações, Clark infiltra-se na nave e aciona o computador de bordo, utilizando uma chave deixada por Jor-El no seu foguete. Isso permite-lhe interagir com o holograma que serve de avatar à consciência preservada do seu pai biológico. É, pois, pela voz dele que Clark fica a saber que o seu nome verdadeiro é Kal-El e que é o Último Filho de Krypton, enviado para a Terra para servir de farol à Humanidade e evitar que o nosso planeta sofra destino idêntico ao do seu mundo natal. Sendo, para isso, presenteado com um traje cerimonial kryptoniano ostentando no peito o brasão familiar da Casa de El. Um símbolo de esperança em Krypton.

O reencontro (virtual) de pai e filho na Fortaleza da Solidão.

De repente, porém, o sistema de segurança automatizado da nave é acidentalmente acionado por Lois Lane que seguira furtivamente Clark até ao seu interior. Atingida pelos lasers de uma das sentinelas robóticas, a repórter é salva pelo filho adotivo dos Kents que usa a sua visão de calor para lhe cauterizar o ferimento. Após a partida da jovem, Clark veste pela primeira vez o uniforme de Super-Homem, ensaiando de seguida os primeiros voos no exterior da Fortaleza da Solidão.
Regressada a Metrópolis, Lois procura convencer Perry White a autorizar a publicação do seu artigo expondo a presença na Terra de um alienígena com poderes semidivinos. Em virtude da inconsistência das provas apresentadas, Perry recusa, porém, fazê-lo. Obstinada, Lois decide então rastrear os movimentos do seu misterioso salvador, acabando por localizá-lo em Smallville.
Após um breve encontro junto ao túmulo de Jonathan Kent, durante o qual Clark lhe relata a sua história, Lois compromete-se a guardar segredo sobre a sua existência.

Lois Lane, a intrépida repórter foi
 a primeira a descobrir o segredo de Clark Kent.

À deriva no espaço sideral, Zod e a sua tripulação buscam antigas colónias kryptonianas. Mas depressa concluem que nenhuma delas terá sobrevivido. Depois de terem intercetado uma transmissão de emergência feita a partir da nave encontrada por Clark no Ártico, eles deduzem que o filho de Jor-El deverá estar perto dela e traçam rota para o nosso planeta.
Chegados à órbita terrestre, os renegados kryptonianos emitem uma comunicação à escala global exigindo que Kal-El se renda, sob a ameaça de uma guerra sem quartel contra o mundo que o acolheu.
Determinado em evitar a morte de milhares de vidas inocentes, o Super-Homem resolve entregar-se ao Exército estadunidense que, por sua vez, o entrega a Faora, a lugar-tenente de Zod. Inesperadamente, Lois é também levada para bordo da espaçonave kryptoniana.
Cara a cara com o filho de Jor-El, Zod revela enfim o seu tenebroso plano: transformar a Terra num novo Krypton. Perante a recusa de Kal-El em juntar-se a ele, Zod ordena a Jax-Ur, seu consultor científico, que lhe extraia o Códice. Com o qual o vilão pretende produzir uma nova gesta de colonizadores geneticamente modificados para repovoar a Terra após o extermínio dos humanos.
No último momento, porém, o Super-Homem e Lois Lane conseguem escapar da nave graças à ajuda do holograma de Jor-El. Sem perder tempo, os dois regressam à Terra para avisar o Exército americano das reais  intenções de Zod. Este envia Faora e outro dos seus soldados para recapturar Kal-El. Seguindo-se uma violenta refrega entre o trio de kryptonianos que transformam Smallville num campo de batalha. Com a ajuda dos militares, o Super-Homem consegue levar a melhor, embora saiba estar iminente uma ameaça muito pior.
Furioso, Zod ordena o processo de terraformação. Acionados os gigantesco engenhos estrategicamente posicionados sobre Metrópolis e ao sul do Oceano Índico, a destruição assume proporções bíblicas.
Zod e seus comparsas.

Disposto a imolar-se para salvar o seu mundo adotivo, o Super-Homem consegue, a muito custo, destruir um dos engenhos, sendo o outro devolvido à Zona Fantasma por Lois Lane, graças à chave e às instruções de Jor-El.
Agora o único sobrevivente da armada kryptoniana, Zod jura vingar a morte da sua tripulação, matando o maior número possível de terráqueos. Tentando desesperadamente aplacar a fúria destruidora do seu compatriota, o Super-Homem trava com ele um combate épico nos céus de Metrópolis.
Encurralado numa estação de comboios, Zod recusa render-se e usa a sua visão de calor para tentar incinerar um pequeno grupo de passageiros. Indiferente às súplicas do Super-Homem para que poupe a vida daquelas pessoas, o vilão continua a tentar atingi-las com os seus lasers oculares, obrigando o herói a matá-lo, partindo-lhe o pescoço. Enquanto o cadáver de Zod jaz no chão, o Homem de Aço solta um lancinante grito de angústia que gela a alma de Lois Lane.
Assumindo-se publicamente como o defensor da Humanidade, o Super-Homem inutiliza um satélite usado pelos militares para monitorizá-lo e convence-os a deixarem-no operar de forma independente. Para ter acesso a informação privilegiada, Clark Kent começa, paralelamente, a trabalhar como repórter no Daily Planet. Contando com a cumplicidade de Lois Lane para manter a sua identidade secreta.


Trailer:




Curiosidades:
* Henry Cavill - o primeiro ator não americano a encarnar o Homem de Aço -  recusou recorrer ao consumo de esteroides anabolizantes ou a qualquer tipo de manipulação digital por forma a aumentar artificialmente a sua massa muscular para o papel. Optou, ao invés, por um exigente programa de preparação física nos meses que antecederam o arranque das filmagens. Programa esse que, além de um intenso trabalho de ginásio, incluiu também um rigoroso regime alimentar. Em poucas semanas, Cavill  obteve um teor de gordura corporal de apenas 7%, equivalente ao dos fisiculturistas profissionais durante as competições. O ator britânico recusou igualmente depilar o peito para as cenas em que exibia o seu tronco nu. Justificando essa recusa com a aparência viril dada por John Byrne ao Super-Homem em Man of Steel, arco de histórias que revisitou a origem do herói após Crise nas Infinitas Terras, e que serviu de inspiração ao título e a importantes segmentos da película;

O invejável porte físico
 de Henry Cavill em Man of Steel.

*No decorrer das audições para o protagonista, a equipa de produção pediu a Henry Cavill que vestisse o uniforme usado em tempos por Christopher Reeve. Apesar das cores mais vistosas e do calção vermelho por fora das calças, ninguém se riu ao vê-lo assim vestido. Segundo Zack Snyder, esse foi o momento em que teve a certeza de que Cavill era perfeito para o papel. Importa recordar que, anos antes, ele fora preterido em relação a Brandon Routh em Superman Returns (2006);
*Para enfatizar o virar de página que Man of Steel pretendeu representar na filmografia do Último Filho de Krypton, o icónico tema de abertura de John Williams foi substituído por uma partitura musical composta por Hans Zimmer. Foi a primeira vez, desde 1978, que isso aconteceu;
*Quando Jor-El escapa da sede do Conselho, é visível uma lua semidestruída no céu.Trata-se de Wegthor, um satélite natural de Krypton que, na BD original, foi destruído por uma detonação nuclear operada por Jax-Ur. Cientista renegado condenado à Zona Fantasma que, no filme, é interpretado por Mackenzie Gray (ator que, anos antes, encarnara um clone adulto de Lex Luthor num episódio de Smallville). Conforme também é explicado por Jor-El,a destruição parcial de Wegthor motivou o início da exploração espacial kryptoniana;
* Em Man of Steel, a Fortaleza da Solidão é uma astronave kryptoniana enterrada sob o  gelo do Ártico. Conceito que mistura elementos retirados de várias versões do refúgio do herói nos comics: se, por um lado, a sua localização remete para a Idade da Prata, a ideia de que se trataria de um artefacto abandonado séculos antes por exploradores kryptonianos baseia-se tanto em Adventures of Superman (1989) como em The New 52! (2011);
* O monólogo de Jonathan Kent que serve de pano de fundo ao teaser trailer do filme, é uma reprodução textual das palavras do pai adotivo de Kal-El em Superman: Secret Origin, história escrita em 2010 por Geoff Johns, sendo considerada a origem definitiva do Homem de Aço;
*Na banda desenhada World of Krypton, Zero Negro era o nome da organização terrorista responsável pela destruição de Kandor (antiga capital de Krypton) durante uma revolução pelos direitos dos clones escravizados. No filme, era esse o nome da nave do General Zod;
* Faora Ul, a lugar-tenente de Zod, fora rebatizada de Ursa em Superman (1978) e Superman II (1980), recuperando em Man of Steel o seu nome original. Ironicamente, devido ao sucesso de Ursa, a personagem seria posteriormente incorporada no Universo DC, desprovida de qualquer ligação com Faora. Papel  para o qual foi cogitada Gal Gadot, a atriz que emprestou o corpo à Mulher-Maravilha em Batman versus Superman: Dawn of  Justice (vide texto seguinte). Gadot seria, no entanto, descartada por causa da sua gravidez, recaindo a escolha sobre a germânica Antje Traue;

Ursa e Faora: separadas à nascença.
* Na versão primitiva do argumento, Zod era devolvido pelo Super-Homem à Zona Fantasma. Por insistência de Zack Snyder, a cena final entre ambos foi alterada, culminando com a morte do vilão, que teve o pescoço partido por Kal-El. Ao fazer tábua rasa do solene (e raras vezes violado) juramento do herói de nunca tirar vidas, o cineasta pretendia dessa forma que o episódio fosse um lembrete perpétuo para as ações vindouras do Homem de Aço. O resultado prático desta decisão foi, contudo, uma monumental controvérsia que reverbera até hoje nos recantos do ciberespaço, e que ameaça prologar-se até ao fim dos tempos. Com um sem número de fãs a acusarem Snyder de ter subvertido por completo a essência da personagem que é também um símbolo do que de melhor a Humanidade tem para oferecer;
* A data escolhida para a estreia de Man of Steel (junho de 2013) não foi fruto do acaso: foi nesse mês que, 75 anos antes, o Super-Homem debutara nas páginas de Action Comics nº1.
Super-Homem prestes a matar Zod
 na cena mais polémica de todo o filme.

Prémios e nomeações: Nomeado para diversos prémios nas mais variadas categorias, Man of Steel acabaria, no entanto, por arrebatar apenas três deles: um Golden Trailer Award (Melhor Póster Promocional), um MTV Award (Melhor Herói) e um New Now Next Award (Melhor Filme de Verão 2013).
Sequela: Mercê do estrepitoso sucesso de bilheteira de Homem de Aço, logo nas semanas seguintes à sua estreia mundial, Zack Snyder e David S. Goyer anunciaram os seus planos para a produção de uma sequência direta do filme, bem como de uma longa-metragem baseada na Liga da Justiça. Na edição de 2014 da Comic-Con de San Diego, Snyder confirmou que a sequela traria a inédita reunião de Batman e Super-Homem no grande ecrã.
Já depois de, em agosto de 2013, Ben Affleck  ter sido o escolhido para assumir o duplo papel de Bruce Wayne/Batman, em várias entrevistas Snyder avançou que parte substancial do enredo seria inspirada em The Dark Knight Returns (Batman, O Cavaleiro das Trevas), a aclamada saga saída da pena de Frank Miller em 1986. 
Devido ao compromisso de Goyer com outros projetos, em dezembro de 2013 Chris Terrio foi contratado para reescrever o guião do filme. Quase em simultâneo, foi oficializada a escolha da atriz e ex-Miss Israel Gal Gadot para interpretar a Mulher-Maravilha.
O título oficial da película, por outro lado, só seria revelado em maio de 2014: Batman versus Superman: Dawn of Justice (Batman versus Superman: A Origem da Justiça). Depois de várias alterações na data de estreia, esta foi confirmada para 25 de março de 2016 (EUA), em 2D, 3D e IMAX 3D.


Batman versus Superman: Dawn of Justice chegou este ano aos cinemas de todo o mundo.

Prequela: Após muitos rumores e especulações, em dezembro de 2014 foi confirmada a produção de uma série televisiva cuja trama terá lugar aproximadamente 200 anos antes dos eventos mostrados em Man of Steel. Escrita e coproduzida por David S. Goyer, Krypton deverá ir para o ar ainda este ano no canal SyFy.

Cartaz promocional de Krypton,
a série televisiva que servirá de prequela a Man of Steel.


Veredito: 73%


Precedo este meu parecer a Man of Steel com uma breve declaração de interesses (cuja obrigatoriedade deveria ser imposta aos críticos encartados): conforme certifica o título deste blogue, praticamente desde que deixei de gatinhar que elegi o Super-Homem como minha personagem favorita, cresci com os filmes do herói estrelados pelo insuperável Christopher Reeve, emocionei-me com Superman Returns e não perco uma produção dos Estúdios Marvel. Feita esta importante ressalva prévia, permitam-me então dizer de minha justiça.
Sei bem o que a crítica dita especializada (e de língua afiada) escreveu acerca deste magnífico filme: que é demasiado obscuro e violento, que lhe falta romance, que lhe falta humor e por aí fora. Curiosamente, ao seu predecessor - Superman Returns-  parecia faltar o contrário: cenas de ação e dinâmica narrativa.Sem mencionar o fastio que o romance meloso entre o herói e Lois Lane suscitou na generalidade do público. Circunstancialismos de uma película que, como é sabido, tentou fazer reviver no nosso século a versão clássica do Super-Homem saída diretamente da Idade da Prata dos comics. E que, à conta disso, se tornou num dos mais mal-amados filmes de super-heróis da história da 7ª Arte. Ou seja, muitos dos espíritos refinados que desdenham até hoje do registo realista de Man of Steel também não tinham morrido de amores pela versão romantizada do herói apresentada por Bryan Singer há precisamente uma década. Donde se conclui que, muito provavelmente, a sua implicância passará menos pelos filmes do que pelo herói em si. Fator que explica muito do que se tem dito e escrito sobre as mais recentes aventuras cinematográficas do Homem de Aço.
Quem conhece os meandros do chamado fandom super-heroístico, sabe bem quão menosprezado é o Super-Homem hoje em dia. Personagem à qual costumam ser colados adjetivos como "anacrónico", "chato" e "inútil" (citando apenas os mais lisonjeiros).
Obviamente que não foi a pensar na claque anti-Super-Homem (tampouco nos críticos que, não raro, ignoram os cânones dos super-heróis adaptados a outros meios de comunicação) que Zack Snyder pensou enquanto dirigia Man of Steel. Era nos verdadeiros fãs que ele pensava. Reforçando dessa forma o seu estatuto de filmador de histórias aos quadradinhos, granjeado com os igualmente fabulosos 300 e Watchmen.
Enquanto fã de super-heróis - e do Homem de Aço em particular - estou-lhe deveras grato por isso, visto que o resultado final me encheu as medidas. Desde logo porque se demarcou da estafada receita humorística usada pela concorrência em produções do género. Mas já lá irei.

Man of Steel representa uma nova alvorada
na história cinemática do Super-Homem.
Um dos pontos mais fortes de Man of Steel são, sem sombra de dúvida, as sequências de ação. Primorosamente coreografada e com efeitos visuais simplesmente espetaculares, a batalha final entre o Super-Homem e o General Zod fez vibrar qualquer um. Exceto, claro, os críticos e espectadores de sensibilidade delicada que viram nela um monumento à violência sem sentido. E, possivelmente, uma apologia subliminar da xenofobia, já que temos uma cidade norte-americana semidestruída pela ação de dois alienígenas.
Eu, por outro lado, além de me estar a marimbar para as patetices dos críticos, considero que, nesse quesito específico, Man of Steel bate aos pontos muitas das recentes produções da concorrência. Mas não apenas nesse. Também no que a referências ao material original concerne, este filme é muito mais rico do que algumas das mediocridades saídas dos Estúdios Marvel. Que, como fica mais evidente a cada filme lançado, se limitam a reciclar a mesma fórmula humorística, para gáudio de quem perspetiva os filmes de super-heróis como um subgénero cómico a ser consumido entre mãos-cheias de pipocas em salas de cinema a abarrotar de adolescentes.
Dito de outro modo, se não dispensam graçolas num filme de super-heróis, escusam de ver Man of Steel. Em vez de servir mais do mesmo, a DC tem-se esforçado em criar um estilo próprio, demarcando-se assim do da concorrência. O que não significa que para gostar de um terá de odiar-se o outro. Deixem isso para os pobres de espírito e para os haters (que, no fundo, são a mesmíssima coisa).
Claro que o filme não é perfeito. Nem seria de esperar que o fosse. Afinal, trata-se do primeiro capítulo de uma franquia totalmente nova. Assim, entre as principais falhas a assinalar, destaco o por vezes vertiginoso carrossel de flashbacks que, a espaços, deixam o espectador com a cabeça a andar à roda. Ligeiramente confusa e pouco inovadora, a trama de Man of Steel corresponde, bem vistas as coisas, à mescla dos enredos de Superman e Superman II, devidamente filtrada de dois clichés: Lex Luthor e kryptonita. É pois preciso recuar até 1951 (ano em que estreou Superman and the Mole Men) para encontrarmos um longa-metragem do Homem de Aço que não contasse com a presença de, pelo menos, um desses habitués nas aventuras cinematográficas do herói.
Outro aspeto negativo a salientar é a partitura musical composta por Hans Zimmer. Que, nem por sombras, possui o carisma do icónico tema de abertura que John Williams produziu para os filmes com Christopher Reeve (de quem considero Henry Cavill um digno sucessor). Aqueles que levaram toda uma geração a acreditar que um homem podia voar.Algo em que eu próprio também voltei a acreditar com Man of Steel. Prevendo, por isso, altos voos para o Universo Estendido DC.


    



    
    

sábado, 4 de junho de 2016

CLÁSSICOS REVISITADOS: «A QUEDA DE MURDOCK"



   O que move um homem que perdeu tudo? O que o faz levantar-se do fundo do poço? Caído em desgraça devido à traição de um antigo amor, o Demolidor embarca numa épica jornada de redenção. Uma admirável fábula de ruína e renascimento impregnada da genialidade de Frank Miller e que sinaliza um momento definidor na trajetória do herói cego.

Título original: Born Again
Licenciadora: Marvel Comics
Autores: Frank Miller* (trama) e David Mazzucchelli (arte)
Data de lançamento: Fevereiro a junho de 1986
Títulos abrangidos: Daredevil nº227 a 231
Personagens principais: Matt Murdock/Daredevil (Demolidor) e Wilson Fisk/Kingpin (Rei do Crime)
Coadjuvantes: Karen Page, Foggy Nelson, Ben Urich, Captain America (Capitão América) e Nuke (Bazuca)
Cenário: Cozinha do Inferno e outros pontos da cidade de Nova Iorque

* Perfil disponível em http://bdmarveldc.blogspot.pt/2012/11/eternos-frank-miller-1957.html


Capa da edição encadernada da saga original.

Edições em Português

Pouco mais de um ano transcorrido sobre o lançamento da saga nos EUA, Born Again (traduzido no Brasil como A Queda de Murdock) chegou às páginas de Superaventuras Marvel (SAM), almanaque mensal editado pela Abril. Dividida em sete capítulos, a história foi apresentada pela primeira vez aos leitores lusófonos entre agosto de 1987 e fevereiro de 1988, nos números 62 a 68 de SAM.
Ainda sob os auspícios da Abril, em 1999 chegaria às bancas a minissérie A Queda de Murdock, composta por quatro fascículos publicados quinzenalmente entre agosto e setembro desse ano.
Já este século, a saga teve direito a duas republicações por outras tantas editoras, em ambos os casos sob o formato de volumes únicos. A primeira, com a chancela da Panini Comics, remonta a julho de 2010. Inserida na  Coleção Oficial das Graphic Novels Marvel da Salvat, três anos depois A Queda de Murdock  foi uma vez mais revisitada na língua de Camões (ainda que na sua variante tropical).





O início da saga em SAM nº 62 (acima)
 e a sua última revisitação pela Salvat.

Antecedentes: Há precisamente 30 anos, a série mensal do Demolidor tentava ainda recuperar da perda de Frank Miller, que a abandonara em 1982. Denny O'Neil, o senhor que se seguiu, mesmo contando com a arrojada arte de um talentoso novato chamado David Mazzucchelli, revelava-se incapaz de manter a dinâmica narrativa incutida pelo seu antecessor.
Daredevil foi, de facto, o primeiro título regular da Marvel Comics assumido por Mazzucchelli após desenhar histórias avulsas em Indiana Jones, Star Wars e Master of Kung Fu. Impressionado com o trabalho do jovem ilustrador de ascendência italiana, Bud Budinsky, o então editor da série, convidou-o a desenhar o Homem Sem Medo. Coincidindo, no entanto, a estreia de Mazzucchelli na série com o período de férias de Denny O'Neil. Assim, a primeira história do Diabo da Guarda a que emprestou o seu traço era da autoria de Harlan Ellison, consagrado escritor de ficção científica e confesso apaixonado por super-heróis. Algo que desde logo foi considerado como um bom prenúncio.
Com efeito, a cada edição de Daredevil, evidenciava-se o crescimento artístico de Mazzucchelli que aos poucos foi seduzindo os leitores com o seu design  impressionista e arrojadamente simplista.

À data do lançamento de Born Again,
David Mazzucchelli era um talentoso novato.

Frank Miller, por seu turno, vinha traçando uma trajetória meteórica na indústria dos quadradinhos que, por esses dias, se pautava por profundas transformações. Tendo recebido carta branca da DC Comics, lançou Ronin (uma minissérie experimental que lhe valeu rasgados elogios) antes de ser colocado num pedestal devido à ovacionada saga Batman: The Dark Knight (Batman, o Cavaleiro das Trevas, Abril, 1987). No entanto, embora ausente do título do Homem Sem Medo, Miller não se afastara por completo do herói. Nesse período, produziu, numa bem-sucedida parceria criativa com Bill Sienkiewicz, a igualmente aclamada graphic novel Daredevil:Love and War (Demolidor: Amor e Guerra, Abril, 1988)).
O Demolidor, propriamente dito, chapinhava em águas pantanosas. Malgrado a competência narrativa  do veterano Denny O'Neil, os seus enredos não empolgavam os leitores, porventura mal habituados pela genialidade com que Miller infundira a série. O venerável escriba dera, entretanto, mais um sinal da sua intenção de reassumir uma personagem que tão bem conhecia.Presentando os seus saudosos fãs com uma pequena história ilustrada pelo lendário John Buscema e publicada em Daredevil nº219.
Quando O'Neil abandonou a série no final de 1985, Miller assumiu interinamente as histórias do Homem Sem Medo, exigindo que David Mazzucchelli, por cuja arte se dizia fascinado, continuasse a desenhá-las. O seu retorno efetivo só se verificaria, porém, alguns meses depois, começando de imediato a preparar o terreno para Born Again.

Frank Miller marcou uma era
nas histórias do Homem Sem Medo.

Em Daredevil nº227, edição onde foi dado a conhecer o primeiro dos sete capítulos que compunham a saga, a dupla Miller/Mazzucchelli, trabalhando numa harmoniosa simbiose criativa, tratou logo de estabelecer quem seriam os protagonistas. Além de Matt Murdock, estariam em evidência as seguintes personagens:

- Ben Urich, astuto e temerário repórter do Clarim Diário e um dos poucos conhecedores da verdadeira identidade do Demolidor;
Foggy Nelson, sócio e melhor amigo de Matt que, na esteira de importantes reveses, procurava relançar a sua carreira jurídica;
- Glorianna O'Breen, fotógrafa e atual namorada de Matt;
- Wilson Fisk, o Rei do Crime e arqui-inimigo do Homem Sem Medo;
- Karen Page, ex-secretária da firma de advogados Nelson & Murdock e antiga amante de Matt, desaparecida há vários anos após largar o emprego para rumar a Hollywood em busca de fama e fortuna como atriz. É ela, de resto, a personagem-chave da trama ao expor o maior segredo do Demolidor. Colocando dessa forma em movimento uma sinistra engrenagem que mudará para sempre a vida do herói.

Escrava do vício, Karen Page está disposta
 a tudo pela próxima dose de heroína.

Desde o início, Miller e Mazzucchelli tinham uma ideia muito clara do que pretendiam com Born Again. Era para ser uma fábula de ruína e redenção. Nesse sentido, eles testariam os limites do herói, levando-o à miséria, à loucura e, por fim, à beira da morte. Para, então, trazê-lo de volta purificado, praticamente renascido. Daí o título original da saga (Born Again = Renascido). Já o título adotado no Brasil - A Queda de Murdock - enfatiza somente a primeira etapa dessa longa e árdua provação.
Além da oportunidade de explorar novas possibilidades para os coadjuvantes já conhecidos, Born Again permitiu a Miller e Mazzucchelli elaborar uma gama de conceitos que os interessavam naquela época.
Assim se explica, por exemplo, o acréscimo tardio à obra de Basuca (Nuke, no original), personagem que não figurava do esboço original. Desde a sua primeira passagem por Daredevil - e, sobretudo, após Batman, The Dark Knight - Miller vinha demonstrando um nítido interesse pela dimensão mítica do herói e pelo seu lugar no mundo moderno.
Basuca, o perturbado supersoldado dos anos 1980, serve portanto o duplo propósito de levar o leitor a questionar-se sobre esses temas, servindo ao mesmo tempo de mote para a entrada em cena do Capitão América. A polarização que se estabelece entre ambos chega a ser tão intensa e impactante como o confronto entre Batman e o Super-Homem em The Dark Knight.
Born Again tem ainda o condão de desvendar parcialmente um dos principais mistérios propostos por Miller aquando da sua primeira passagem pelas histórias do Homem Sem Medo: o verdadeiro destino da mãe de Matt Murdock. Rezam as crónicas que, meses antes, Denny O'Neil chegara a discutir com David Mazzucchelli o desenvolvimento de uma saga para abordar o assunto. Projeto que, devido à saída extemporânea do escritor, seria posto na gaveta antes mesmo de poder ser definida a respetiva tónica. Deixando assim via aberta para a inusitada revelação feita por Miller sobre uma das mais enigmáticas personagens do passado do Demolidor.
Resta apenas acrescentar que o fim de Born Again não encerrou a parceria entre Miller e Mazzucchelli. Dupla de sucesso que se reuniria logo em 1987 para, agora ao serviço da DC, produzir o magistral arco de histórias Batman: Year One (Batman: Ano Um, Abril, 1987).

Basuca, o reflexo distorcido do Capitão América.

Enredo: Karen Page, antiga secretária da Nelson & Murdock e ex-namorada de Matt, partira anos atrás para Hollywood no encalço do sonho de construir uma carreira ligada ao cinema. Após algumas experiências positivas como atriz, tornou-se uma heroinómana, vendo-se obrigada a participar em filmes pornográficos rodados no México para sustentar o vício. Tolhida pela ressaca, ela aceita vender um segredo que guardava há largos anos a troco de uma dose de droga: o de que Matt Murdock é o Demolidor. Informação que não tardaria a ser repassada ao Rei do Crime.
Nos meses seguintes, o poderoso chefe do submundo do crime nova-iorquino usa a sua influência junto de diversas entidades para arruinar a vida ao seu ódio de estimação. Para começar, Matt tem as suas contas bancárias congeladas pelo Fisco. Segue-se uma ordem de despejo do seu apartamento interposta pelo banco com o qual ficara em incumprimento. A estocada final é desferida sob a forma de um falso depoimento prestado em tribunal por um agente policial corrupto que, a mando de Fisk, acusa Matt Murdock de ter subornado uma testemunha para cometer perjúrio.
Como se tudo isso não fosse suficiente para desmoralizar qualquer um, Glorianna O'Breen, a atual namorada de Matt, anuncia a sua intenção de pôr um ponto final à relação de ambos. Reatando de seguida o seu romance com Foggy Nelson, sócio e melhor amigo de Murdock.
Acossado, o Homem Sem Medo pressente que está a ser alvo de uma cabala para o destruir e resolve descobrir quem está por detrás dela. As suas investigações iniciais levam-no até um sujeito chamado Nick Manolis. A troco de tratamento médico para o seu filho gravemente doente, Manolis tem ajudado a tramar Matt Murdock. No entanto, malgrado os seus esforços, o Homem Sem Medo não consegue descobrir quem está por detrás do complô, tampouco consegue provar a sua inocência.
Graças ao brilhante trabalho jurídico de Foggy Nelson, Matt escapa a uma pena de prisão efetiva, mas tem cassada a sua licença de advogado. Frustrado o seu plano original, o Rei do Crime ordena um ataque à bomba ao apartamento de Matt. Ordena também que o traje do Demolidor seja deixado entre os destroços fumegantes, para que o herói tome consciência de que a sua identidade deixou de ser secreta para o seu maior inimigo. E que é ele o responsável pelo seu tormento.

Uma mensagem do Rei do Crime deixada
entre as ruínas fumegantes do lar de Matt Murdock.
Tentando tirar o maior proveito possível dessa vantagem tática, o Rei do Crime ordena a morte de toda e qualquer pessoa que conheça a verdadeira identidade do Demolidor. Karen Page consegue, porém, iludir os seus carrascos e planeia retornar a Nova Iorque na esperança de conseguir chegar até Matt.
Agora um sem-abrigo, Matt desenvolve uma personalidade paranoide e assume comportamentos extremamente agressivos. A sua paranoia é, todavia, real visto que ele é constantemente vigiado por esbirros do Rei do Crime, que lhe fornecem relatórios detalhados do estado de saúde de Matt.
Impelido por um fortíssimo desejo de vingança, Matt Murdock confronta Wilson Fisk no seu próprio escritório. Física e mentalmente diminuído, o herói acaba, porém, brutalmente espancado às mãos do seu arqui-inimigo. De seguida, visando prevenir uma eventual investigação policial à morte de Murdock, o seu corpo manietado é regado com uísque antes de ser enfiado no interior de um táxi roubado, que é, depois, empurrado para o East River. A água gelada faz no entanto com que Matt recupere os sentidos e consiga libertar-se da armadilha fatal, nadando depois até à superfície.
Ferido com gravidade, Matt cambaleia pelas ruas da Cozinha do Inferno até conseguir chegar ao bafiento ginásio onde o seu pai outrora treinara como pugilista. Local onde é encontrado pela sua mãe, cujo paradeiro era incerto desde o seu nascimento. Mas que tinha, afinal, abraçado uma carreira religiosa como freira numa igreja das redondezas. É ela quem cuida dos ferimentos do filho, velando e orando por ele enquanto o seu corpo se cura.

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Matt Murdock derrotado às mãos do seu arqui-inimigo.
Entrementes, Ben Urich, repórter do Clarim Diário e confidente de Matt, inicia uma investigação por contra própria aos recentes acontecimentos na vida do amigo. Investigação essa  que o conduz ao hospital onde o filho de Nick Manolis luta pela vida. Quando o menino exala o seu último suspiro, o pai confidencia a Ben o seu envolvimento numa cabala para arruinar Matt Murdock. Dando-lhe igualmente conta  das suas suspeitas de que por detrás dela estará ninguém menos do que o Rei do Crime. A conversa é, contudo, abruptamente interrompida por Lois,  uma espadaúda enfermeira a soldo de Fisk.  Depois de partir os dedos de uma mão a Urich, ela espanca Manolis quase até à morte.
Dias depois, Manolis telefona a Urich a partir da sua cama de hospital com o objetivo de retomar a sua confissão. Antes que o possa fazer é novamente atacado pela enfermeira Lois que, desta vez, não tenciona deixar o serviço a meio. Manolis é assim lentamente esganado por ela enquanto do outro lado da linha Urich escuta, impotente, a sua agonia. Contudo, em vez de ficar intimidado, o repórter ganha novo alento para prosseguir com a sua investigação, alertando o seu jornal e as autoridades para o sucedido.
Karen Page chega entretanto a Nova Iorque após uma viagem de pesadelo.Que só foi possível graças à  boleia de um pervertido chamado Paul Scorcese que, a troco de favores sexuais, lhe fornece heroína. Sem demora, ela entra em contacto com Foggy Nelson a fim de se inteirar da condição de Matt Murdock. Ao detetar os sinais de agressão no corpo da jovem, Foggy insiste em levá-la para sua casa.
Cada vez mais obstinado em liquidar o Demolidor, o Rei do Crime recorre aos seus contactos nas altas esferas do Exército americano para assegurar os serviços de Bazuca, um supersoldado gerado pelo mesmo programa militar que criara o Capitão América. Para atrair o Homem Sem Medo para fora do seu esconderijo, Fisk envia um maníaco homicida - cuja fuga do hospício engendrara entretanto - para assassinar Foggy Nelson usando um uniforme idêntico ao do herói.
Depois de ter salvo Ben Urich de nova tentativa de homicídio perpetrada pela enfermeira Lois, Matt toma conhecimento da conspiração em curso para tirar a vida ao seu amigo e decide tomar providências para impedir que isso aconteça. Lois, por seu turno, fica sob custódia policial.
Longe dali, Karen Page surpreende Paul Scorcese a rondar o prédio onde Foggy Nelson reside. Receando que ele tencione matar o seu amigo, a jovem vai ao encontro de Scorcese na rua. Sendo ambos prontamente alvejados por atiradores furtivos a quem o Rei do Crime ordenara que abatessem qualquer pessoa que saísse do edifício. Instantes depois, é a vez do falso Demolidor chegar ao local, ansioso por executar a sua macabra missão. Deparando-se, porém, com Matt Murdock que facilmente neutraliza o impostor e salva Karen que fora apenas atingida de raspão pelo disparo do sniper.
Consumida pela culpa, a rapariga confessa-lhe ter sido ela a revelar o seu segredo. Mas Matt tranquiliza-a dizendo-lhe que já superara a perda dos seus bens materiais. Os dois refugiam-se em seguida num apartamento devoluto onde Matt ajuda Karen a suportar os efeitos da ressaca.

Karen Page expia os seus pecados
 nos braços de Matt Murdock.

Enquanto isso, a enfermeira Lois dispõe-se a testemunhar contra Wilson Fisk a troco de uma pena mais leve. Antes que possa fazê-lo, é assassinada a sangue-frio por um falso jornalista do Clarim Diário a quem concordara conceder uma entrevista. Falhado o seu plano para descobrir o paradeiro do Demolidor, o Rei do Crime ordena a Basuca um ataque generalizado à Cozinha do Inferno.
Basuca mata dezenas de civis inocentes e destrói o restaurante onde Matt Murdock vem trabalhando anonimamente. Ressurgindo em público pela primeira vez desde a destruição do seu lar, o Demolidor não tem outra alternativa se não provocar a queda do helicóptero em que o vilão se faz transportar. Embora ferido com gravidade, Basuca sobrevive e fica sob a custódia dos Vingadores que haviam entretanto acorrido ao local.
Perturbado pelo facto de Basuca ter uma bandeira dos EUA tatuada na face, o Capitão América resolve investigar o seu passado. Perante as respostas evasivas que obtém por parte das chefias militares, o Sentinela da Liberdade infiltra-se na base do Exército para onde Basuca fora entretanto transferido e vasculha arquivos confidenciais. A descoberta de que Basuca é um produto do mesmo programa militar que, durante a II Guerra Mundial, o transformou num formidável supersoldado, deixa o herói mortificado.

Diabo da Guarda renascido.
Basuca consegue entretanto evadir-se, sendo prontamente detido pelo Capitão América. Contudo, o Rei do Crime ordenara que Basuca fosse morto, acabando assim alvejado pelos militares. Chegado entretanto ao local, o Demolidor arranca o moribundo vilão das mãos do Sentinela da Liberdade e apressa-se a levá-lo à redação do Clarim Diário, na esperança de que ele possa testemunhar contra Fisk. Não é, porém, lesto o suficiente e Basuca morre antes de poder incriminar o seu ex-empregador.
Numa tentativa para resgatar Basuca, o Capitão América tropeça acidentalmente nos franco-atiradores  enviados para matá-lo. Um deles denuncia Wilson Fisk como tendo sido o mandante do ataque à Cozinha do Inferno que se saldou na perda de dezenas de vidas humanas. Rebenta o escândalo na comunicação social e chovem processos judiciais sobre Fisk. Este, apesar de conseguir ser ilibado de todas as acusações tem a sua imagem pública de respeitável homem de negócios destruída. Facto que motiva a deserção dos seus lugares-tenentes.
Mais obcecado do que nunca, o Rei do Crime logo começa a congeminar os seus planos de vingança contra Matt Murdock. Este, por sua vez, reencontra a felicidade na Cozinha do Inferno e ao lado de Karen Page, agora livre do vício. Mesmo sabendo no seu íntimo que, apesar de ter saído vencedor de mais esta batalha contra o seu némesis, a guerra entre ambos está longe de terminar...
     
Matt Murdock e Karen Page
 reencontram a esperança um no outro.

Simbolismo: Pejada de elementos religiosos relacionados com a mitologia cristã, a saga assume-se na sua essência como uma parábola bíblica. O próprio título original invoca uma frase que, segundo o Evangelho de João, terá sido proferida por Jesus Cristo para expressar a necessidade de preceder o início de uma nova vida com o fim da antiga.
Note-se, à guisa de curiosidade, que apesar de a história se desenrolar em plena quadra natalícia, a temática nela aflorada remete quase exclusivamente para a Páscoa (celebração da morte e ressurreição de Cristo). Senão vejamos: as páginas de abertura dos quatro primeiros capítulos mostram sempre Matt Murdock prostrado. Com a particularidade de, no segundo e terceiro capítulos, ele surgir enroscado em posição fetal. Ainda no terceiro capítulo, o herói - agora convertido num pária - arrasta-se ensanguentado pelas ruas da Cozinha do Inferno, numa óbvia alegoria da Via Sacra calcorreada pelo Messias até ao local da sua crucificação. Não faltando sequer as três quedas que terão marcado esse tortuoso percurso levado a cabo pelo Filho de Deus enquanto carregava uma pesada cruz de madeira.
Já a imagem que encerra esse capítulo (e que serve de ilustração principal deste artigo) invoca claramente a icónica Pietá de Michelangelo. Nela, um agonizante Matt Murdock jaz inerte no regaço da Irmã Maggie, que assim faz as vezes da Virgem Maria. Há ainda a ressaltar o pormenor de na referida imagem ser visível uma pomba branca pousada acima de ambos. Ave que, como é sabido, é tradicionalmente usada na iconografia cristã para simbolizar o Espírito Santo. Finalmente, a página de abertura do quinto capítulo da saga mostra Matt de pé, numa representação metafórica da ascensão de Cristo.
No que concerne ao simbolismo religioso subjacente à obra, importa ainda observar que todos os títulos dados aos capítulos que a compõem advêm de conceitos do Cristianismo (Apocalipse, Purgatório, etc.). Tudo elementos que refletem as raízes profundamente católicas de Frank Miller.

Apocalipse, Purgatório e Pária:
conceitos bíblicos titulam 3 primeiros capítulos da saga.

Sequela: Embora produzido por um conjunto de autores totalmente diverso do da saga original, o arco de histórias Last Rites, publicado nos números 297 a 300 de Daredevil, corresponde a um desdobramento de Born Again. Com a respetiva trama centrada na forma como o Homem Sem Medo destrói metodicamente a reputação pública de Wilson Fisk, ao mesmo tempo que o desapossa do seu vasto património espalhado pelo globo. Retribuindo assim as agruras que o Rei do Crime lhe infligira. Paralelismo que fica bem explícito quando, no desfecho da saga, o vilão, num momento de devaneio, balbucia "born again".
A história mostra também como Matt Murdock consegue recuperar a sua licença para exercer advocacia, a qual fora cassada em consequência da campanha difamatória orquestrada por Fisk na saga original.

Capa do capítulo final de Last Rites
(em Português traduzida como A Queda do Rei do Crime).

Notas finais:

Anos atrás, o realizador Mark Steven Johnson deu conta do seu interesse em dirigir uma sequela de Daredevil (longa-metragem de 2003 protagonizada por Ben Affleck), baseada em Born Again. Projeto que seria oficialmente descartado pela Fox em agosto de 2012, escassos meses antes de os direitos do filme reverterem para os Estúdios Marvel;
* Sob a égide da IDW Publishing, em 2012 foi dada à estampa David Mazzucchelli's Daredevil: Born Again - Artist's Editon. Trata-se de uma coletânea de 200 páginas impressas nas dimensões da  arte original de Mazzucchelli. Entre outros extras que fizeram as delícias dos fãs, o volume incluía notas editoriais e correções feitas ao trabalho da dupla de autores.

David Mazzucchelli autografa um exemplar
 da Artist´s Edition na Midtown Comics de NY em 2012.

Vale a pena ler?

Em 2001, o explosivo capítulo inaugural de Born Again foi votado pelos leitores como a 11ª melhor história da Marvel de todos os tempos.
É, no entanto, difícil explicar porque é tão fantástica a saga. É algo que o leitor terá de descobrir por si próprio. Pode até nem ser o tipo de  história que, pela sua intensidade psicológica e nível de violência, agradará a todos. Mas será certamente um bom entretenimento.
Na minha modesta opinião, Born Again poderá mesmo ser a melhor história alguma vez produzida pela Marvel. Mostrando-nos como um homem íntegro que perdeu tudo consegue reerguer-se mais forte do que nunca. Porque, mais do que o Demolidor, é Matt Murdock quem sobrevive a tão grande provação. É, pois, ele o verdadeiro herói da saga. Dispensando poderes espalhafatosos e pondo em evidência os seus maiores predicados: coragem e perseverança.
Uma palavra ainda para o magnífico trabalho desenvolvido por Frank Miller que  a par de Batman, The Dark Knight, tem em Born Again as suas obras-primas. Muitos foram os escritores que, ao longo das décadas, assumiram - com maior ou menor brilhantismo - as histórias do Homem Sem Medo. Mas nenhum deles sequer chegou perto da genialidade de Miller. Cuja visão marcou uma era no género super-heroístico, pavimentando caminho para a adultização que o caracteriza nos dias de hoje.




terça-feira, 24 de maio de 2016

ETERNOS: BILL EVERETT (1917-1973)




   Com uma carreira profissional que se confunde com a história da Marvel Comics, foi um visionário e um iconoclasta da Idade do Ouro dos Quadradinhos que teve no Príncipe Submarino o seu alfa e o seu ómega. Menos óbvio foi o seu papel na conceção de um certo Homem Sem Medo.

Biografia e carreira: Com berço numa família influente e endinheirada, William "Bill" Everett veio ao mundo no já longínquo dia 18 de maio de 1917, em Cambridge (no estado norte-americano do Massachusetts). Mitómano, fabricou ao longo dos anos uma série de ficções acerca da sua juventude. Entre as patranhas que gostava de impingir a quem com ele privava, contava que havia concluído o liceu no Arizona. Narrativa que colidia com uma outra em que jurava a pés juntos ter-se alistado na Marinha Mercante dos EUA com apenas 15 anos de idade.
   Em boa verdade, Bill nascera no Hospital de Cambridge, tendo crescido nos arrabaldes de Watertown,  um pequeno e pacato município encravado na área metropolitana de Boston. Fê-lo na companhia dos pais (Robert e Elaine Everett) e de uma irmã dois anos mais velha chamada Elizabeth.
  Com raízes em Nova Inglaterra (território geográfico localizado no nordeste dos EUA, junto à fronteira com o Canadá) e uma genealogia velha de três séculos, o clã Everett tivera até aí em Edward Everett e em William Blake os seus membros mais ilustres. Após desempenhar os prestigiosos cargos de reitor da Universidade de Harvard e de Governador do Massachusetts, o primeiro fora nomeado Secretário de Estado do Governo dos EUA em 1852. Ao passo que o segundo, nascido em terras de Sua Majestade, foi um dos maiores expoentes da poesia romântica europeia nos séculos XVIII e XIX.
  Proprietário de um bem-sucedido negócio de transporte rodoviário de mercadorias, em meados dos anos 20 do século passado, Robert Everett resolveu mudar-se com a família para um palacete de verão no litoral do Maine. Seria nesse ambiente burguês que, encorajado pelos seus progenitores, o pequeno Bill daria os primeiros passos na ilustração, refinando paulatinamente o seu inato talento artístico.
   Leitor voraz, o catraio preferia no entanto os clássicos da literatura aos romances de cordel ou às histórias aos quadradinhos que faziam as delícias de muitas crianças da sua idade. Seriam ainda assim os trabalhos de diversos ilustradores e cartunistas (com o famigerado Floyd MacMillan Davis à cabeça) a influenciarem o estilo de Bill Everett. 
   Em 1929, então com 12 anos de idade e a frequentar o sexto ano de escolaridade, Bill contraiu tuberculose. Moléstia que motivou a sua saída abrupta da escola para, na companhia da mãe e da irmã, viajar para o Arizona, onde passou quatro meses em convalescença.
   Contudo, pouco tempo decorrido sobre o seu regresso a casa, Bill teve uma recaída que o obrigou a nova estada forçada na Costa Oeste. Período em que o jovem teve o seu primeiro contacto com bebidas alcoólicas, naquilo que seria uma espécie de rito iniciático para uma adolescência ensombrada pelo alcoolismo.
  Quando, após quatro turbulentos anos, Bill regressou por fim ao seu Massachusetts natal, levou a desarmonia à nova mansão familiar que o seu pai, incólume aos devastadores efeitos da Grande Depressão na economia estadunidense, adquirira entretanto num subúrbio de Boston. Exasperados com a insolência e o diletantismo do filho, os Everetts tomaram a difícil decisão de retirá-lo do liceu onde vadiava para, em 1934, inscrevê-lo - quase à força - na Vesper George School of Arts, uma conceituada academia de artes sediada no coração de Boston.
 Incapaz de se manter concentrado nos estudos, Bill abandonaria a instituição cerca de ano e meio depois, para profundo desgosto dos seus progenitores, mormente do seu pai. Que, vítima de uma apendicite aguda, faleceria pouco tempo depois sem ver concretizado o seu sonho de ver o filho tornar-se um cartunista de sucesso.

Bill Everett fotografado em 1939 no estúdio da Centaur Publications,
a sua porta de entrada para o lucrativo negócio dos comics.
   Mesmo dispondo de recursos financeiros que lhe continuavam a assegurar uma vida desafogada, a mãe de Bill entendeu por bem mudar-se com a prole para um apartamento localizado no centro de Cambridge.
  Obrigado pelas circunstâncias a assumir as suas responsabilidades enquanto novo patriarca do clã Everett, Bill depressa abandonaria a sua vida boémia, encetando uma carreira como ilustrador profissional que, sem que ele o imaginasse,  lhe garantiria lugar de destaque na memorabilia da Casa das Ideias.
   A troco de um cheque semanal de 12 dólares, em meados de 1936 Bill Everett começou a trabalhar como ilustrador no departamento publicitário do The Herald-Traveler, um dos tabloides mais antigos de Boston. Não teve, porém, sequer tempo de aquecer o lugar. Ao cabo de escassos meses, estava de malas aviadas para a periferia depois de aceitar uma proposta de emprego apresentada por uma empresa de engenharia civil, onde, durante um curto período, desempenhou as funções de desenhador projetista.
  Seguir-se-ia uma aventura (logo transformada em desventura) profissional na Costa Oeste que, entre outras paragens, o levou a Los Angeles. Uma vez mais, as coisas não correram de feição a Bill que não tardaria a regressar à Costa Leste. Assentando então arraiais em Nova Iorque, cidade onde esperava encontrar novas oportunidades para mostrar o seu valor.
  Na Grande Maçã, começou por trabalhar novamente como ilustrador no departamento publicitário de um jornal (o New York Herald-Tribune). Incapaz de manter um emprego por muito tempo, nos meses seguintes Bill Everett desempenharia as funções de editor artístico da revista Radio News antes de rumar a Chicago para assumir o cargo de subdiretor artístico de uma publicação não especificada. Certo é que acabaria demitido por, segundo o próprio, ser "demasiado presunçoso".
   De volta a Nova Iorque, Bill começou a procurar novo emprego no campo da ilustração. A sorte, porém, parecia andar arredada da sua vida. À medida que o tempo passava e as portas se lhe fechavam na cara, o desalento começou a apoderar-se dele. Em desespero de causa, entrou em contacto com Walter Holze, um antigo colega de escola que, por esses dias, trabalhava na efervescente indústria dos comics.
   Vários anos depois, Bill recordaria assim aquele que seria um ponto de viragem na sua vida: "Walter perguntou-me se eu podia desenhar histórias aos quadradinhos. É claro que eu respondi que sim. Estava falido e sem emprego. Aceitaria qualquer coisa. Não estava, portanto, interessado no negócio dos comics; fui empurrado pelas circunstâncias para dentro dele."
    Como ilustrador freelance ao serviço da Centaur Publications, Bill Everett começou por receber 2 dólares por cada página produzida. No entanto, por conta do seu virtuosismo, rapidamente passaria a ganhar sete vezes mais pelo mesmo trabalho. Uma respeitável maquia à luz dos padrões da época. Convém ter presente que estávamos no final dos anos 1930, numa altura em que os EUA eram ainda assolados pela Grande Depressão. Simetricamente, vivia-se o ápice da chamada Idade do Ouro dos Quadradinhos.
   Numa época em que brotavam super-heróis como cogumelos e as suas histórias vendiam como pãezinhos quentes, Bill Everett esteve diretamente envolvido na conceção de Amazing-Man, personagem da Centaur Publications desenvolvida a meias com Lloyd Jacquet, seu diretor artístico. Quando este fundou a sua própria editora, a Funnies, Inc., Bill aceitou de bom grado o convite para participar no projeto.

Amazing-Man foi o primeiro super-herói
concebido por Bill Everett.

   Numa sua biografia publicada postumamente, Bill Everett relatava: "Deixei a Centaur Publications com o Lloyd Jacquet e outro colega do qual não me recordo do nome. Fui aliciado pela ideia de Lloyd de criar uma pequena empresa que providenciasse mão-de-obra e matéria-prima às editoras já implantadas no mercado. Além de mim, ele também convidou o Carl Burgos (futuro criador do Tocha Humana original). Embora fôssemos o núcleo duro do projeto, continuávamos a trabalhar como freelancers. Não sei bem explicar o motivo. Mas era esse o acordo que tínhamos feito. E que ninguém contestou."
   Seria precisamente durante a sua passagem pela Funnies, Inc. que Bill Everett criaria a personagem que o imortalizaria na História da 9ª Arte. No âmbito de uma iniciativa editorial que visava a produção de uma banda desenhada a ser distribuída gratuitamente em algumas salas de cinema, Bill teve a ideia para um herói anfíbio que crismou de Namor, o Príncipe Submarino (vide texto anterior).                                                            Quando o projeto foi por água abaixo, Bill resolveu mostrar a sua criação a Martin Goodman, um influente editor de quadradinhos detentor de uma importante quota de mercado. Agradado com o trabalho de Bill, Goodman propôs-lhe que aumentasse o número de páginas da história original (de 8 passaria para 12), com vista à sua publicação no volume inaugural de Marvel Comics, a primeira série regular lançada pela Timely Comics (antepassada da Marvel).
   Muito por conta do seu perfil de anti-herói (conceito pouco explorado à época), Namor revelou-se um sucesso instantâneo, depressa se tornando, em paralelo com o Tocha Humana e o Capitão América, uma das figuras de proa da recém-fundada editora.
  Face à crescente popularidade das historietas do Príncipe Submarino, Bill (que as escrevia e desenhava) logo introduziria nelas um lote de coadjuvantes, entre os quais avultavam Namora e Betty Dean. Enquanto a primeira era prima do soberano das profundezas oceânicas com poderes similares aos seus, a segunda era uma agente policial que era simultaneamente interesse romântico e parceira do herói no combate ao crime.

Um dos primeiros super-heróis da História,
o Príncipe Submarino foi a obra-prima de Bill Everett
   Quando a carreira profissional de Bill Everett parecia ir de vento em popa, foi subitamente interrompida em 1942, ano em que ele foi cooptado pelo Exército norte-americano em consequência da entrada dos EUA na II Guerra Mundial. Dois anos mais tarde, após regressar do teatro operações europeu, Bill casaria com Gwen Randall, também ela a cumprir serviço militar.
    Em vésperas de embarcar para nova comissão numa frente de guerra - desta feita nas Filipinas-, Bill foi pai de uma menina. Que, até ao início de 1946 (altura em que Bill regressou a casa no pós-guerra), seria criada apenas pela mãe.      
   De volta aos EUA, Bill aproveitou a  herança de um tio-avô entretanto falecido,para tirar umas férias prolongadas e fazer várias viagens dentro e fora dos EUA antes de assentar na cidade natal da mulher, no Nebraska.
   Foi por essa altura que ele reatou a sua ligação com Martin Goodman e a Timely Comics. Enviando os seus trabalhos por correio, Bill retomou as histórias do Príncipe Submarino no ponto onde as deixara quatro anos antes. Acrescentando-lhes a sua colaboração com outras séries regulares da editora, como The Human Torch, Marvel Mistery Comics e Namora. Durante esta fase prolífica da sua carreira, Bill adotou diversos pseudónimos, entre os quais Bill Roman e Willie Bee.

Namora, outra das criações de Bill Everett,
fez furor na Idade do Ouro dos Quadradinhos.

   Tudo mudaria, porém, com a chegada da nova década. No início dos anos 1950, a Timely Comics deu lugar à Atlas Comics. A mudança de nome foi contudo insuficiente para contrariar o declínio que afetava o género super-heroístico. E Namor, apesar de aclamado pouco tempo antes, não fugiu à regra. Com a sua popularidade em queda livre junto dos leitores, o Príncipe Submarino tivera o seu título cancelado em 1949, precisamente uma década depois da sua estreia oficial.
   Após um interregno de 4 anos, em 1953, o herói atlante, juntamente com o Capitão América, o Tocha Humana e Namora, foram reabilitados pela Atlas. Nesse contexto, Bill Everett foi uma vez mais chamado a assumir a arte (mas já não a escrita) das histórias da personagem que idealizara, na vã esperança de lhe restaurar a glória do passado.
 Paralelamente ao trabalho artístico desenvolvido em Sub-Mariner Comics durante esse período,  Bill Everett desenharia também outros títulos de charneira da companhia, como Venus, Marvel Boy e Menace. Este último era uma antologia de contos de terror, muitos dos quais eram da autoria do então editor-chefe da Atlas: um jovem promissor chamado Stan Lee que muito admirava o traço de Bill. Tanto que, em 1964, lhe confiou a tarefa de desenhar os primeiros esboços da sua mais recente criação: Daredevil (Demolidor). Ou, pelo menos, uns dos primeiros esboços da personagem, considerando que Jack Kirby  afirmou em diversas ocasiões ter sido ele o primeiro a desenhar o Homem Sem Medo.
   Procurando deslindar um mistério com mais de meio século, Mark Evanier, historiador da Nona Arte, entrevistou certa vez Kirby e Everett. A sua investigação resultaria, contudo, inconclusiva.
  De acordo com Evanier, Kirby fora de facto o primeiro a trabalhar no visual do Homem Sem Medo. Era também dele o traço que surgia na primeira página da história que dava a conhecer a origem do herói. Dados confirmados por Bill Everett na citada entrevista. No entanto, a partir deste ponto, as coisas ficam algo nebulosas. Nenhum dos envolvidos parecia recordar com precisão como tudo se processou. Embora tenham ambos concordado que o mais provável é que, por causa de algum atraso por parte de Kirby na finalização do seu trabalho, Stan Lee tenha resolvido procurar alguém que o fizesse. Tudo indicando que terá sido Bill Everett a voluntariar-se para o efeito. Recebendo dessa forma os créditos pela coautoria do Demolidor.

A origem do Demolidor contou com o traço de Bill Everett.
Mas terá sido ele o primeiro a desenhar o herói cego?

  Versão desmentida, no entanto, pelo ex-editor-chefe da Marvel, Joe Quesada. Segundo ele, terá sido Bill Everett quem se atrasou na entrega das ilustrações da primeira história do Homem Sem Medo, cabendo a Steve Ditko* terminar o trabalho, tendo como base os esboços feitos algum tempo antes por Jack Kirby.
  Esta tese ganha alguma força quando analisamos as palavras do próprio Bill Everett numa entrevista concedida em 1969 ao ex-editor da Marvel, Roy Thomas. Questionado sobre a polémica em torno do seu papel na conceção do Demolidor, Bill respondeu: "Devo ter telefonado ao Stan Lee ou mantido algum tipo de contacto com ele. Não sei o que me terá levado a fazê-lo. Sei apenas que tentámos articular as nossas ideias por telefone. Como as coisas não atavam nem desatavam à distância, julgo que terei sugerido deslocar-me a Nova Iorque para uma reunião com ele. Devo ter pedido uma folga no emprego (como diretor artístico na Eton Paper Corporation, no Massachusetts) e arrepiado caminho. Eu tinha desenhado a história que Stan me pedira, mas não podia continuar a fazê-lo por causa do meu emprego. É importante que se perceba que eu trabalhava diariamente 14 ou 15 horas na fábrica e que, madrugada adentro, tentava desenhar histórias aos quadradinhos. Era areia de mais para a minha camioneta. Era por isso que me recusava a trabalhar com prazos, pois sabia que dificilmente os cumpriria. Foi esse o motivo pelo qual, depois de ter desenhado a primeira história do Demolidor, disse a Stan que não poderia contar mais comigo."
   Não obstante, em meados de 1966, Bill Everett recomeçaria a trabalhar para a Marvel. Primeiro arte-finalizando os esboços de Jack Kirby nas histórias do Hulk publicadas em Tales to Astonish, e mais tarde emprestando o seu traço às aventuras do Doutor Estranho em Strange Tales. Graças a The Great Comics Book Heroes (obra antológica da autoria de Jules Feiffer, dada à estampa em 1965), a nova safra de leitores de quadradinhos pôde conhecer também o trabalho desenvolvido por Bill nas décadas anteriores.

*Perfil disponível em http://bdmarveldc.blogspot.pt/2012/03/eternos-steve-ditko.html

A última capa de Sub-Mariner desenhada por Bill Everett.
 
  A viver uma das mais prósperas fases da sua carreira, consta que, em finais de 1971, Bill Everett terá sido a primeira escolha de Stan Lee para assumir a arte de Tomb of Dracula, antologia de histórias de terror cujo número inaugural chegaria às bancas no ano seguinte.
  Certo é que por essa altura já Bill havia retomado a sua ligação ao Príncipe Submarino, cujas histórias produzia ora sozinho ora assessorado por terceiros. Seria, no entanto, traído pela sua saúde que, ao degradar-se de forma galopante, o impediria de dar continuidade ao magnífico trabalho que vinha desenvolvendo nas páginas de Sub-Mariner.
  Num derradeiro esforço, o criador de Namor tentaria ainda, no início de 1973, finalizar um crossover do monarca atlante com o Homem-Aranha a ser publicado num número de Marvel Team-Up. Acabaria, contudo, por se finar antes de o conseguir fazer. Tinha então 55 anos e sobreviveram-lhe a mulher e a filha.
  Num capricho do Destino, Bill Everett teve pois no Príncipe Submarino o seu alfa e o seu ómega, despedindo-se do mundo a trabalhar na personagem que o alcandorou ao Olimpo dos iconoclastas do século XX.

Bill Everett numa convenção de quadradinhos
 em abril de 1970, 3 anos antes da sua morte.