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terça-feira, 10 de abril de 2018

ETERNOS: ROY THOMAS (1940 - ...)


  Stan Lee confiou-lhe a chave da Casa das Ideias e ele, não mais despindo a pele de guardião do templo, salvou-a da ruína iminente. Da sua incansável pena saíram histórias e personagens emblemáticas, pelas quais nem sempre foi reconhecido. Fascinado pela mitologia da Idade do Ouro, na DC - onde deu os primeiros passos e que quis rebatizar - cumpriu o sonho de trabalhar com os seus ídolos de infância.

De seu nome completo Roy William Thomas, Jr., aquele que, aos ombros de um gigante da 9ª Arte, entraria para os anais da Marvel Comics como seu segundo editor-chefe veio ao mundo a 22 de novembro de 1940 em Jackson, pitoresca cidade impregnada do charme sulista do Missouri.
Leitor voraz de banda desenhada desde que aprendera a juntar as primeiras letras, era ainda pessoa de palmo e meio quando começou a produzir as suas próprias historietas aos quadradinhos. Entre esses projetos editoriais dos seus verdes anos, recorda com especial carinho All-Giant Comics, título totalmente da sua autoria que tinha Elephant Giant (Elefante Gigante) como cabeça de cartaz.
Coincidindo com a (re)fundação da Marvel Comics, em 1961 Roy Thomas diplomou-se em Ciências Educativas (com dupla especialização em História e Literatura Americana) através da Southeast Missouri University, instituição pública com extensos pergaminhos na área da formação pedagógica.
Nesses idos de 60 era ainda intenso o fulgor da Idade da Prata, período em que se assistiu ao recrudescimento do género super-heroico após o declínio registado no pós-guerra. Fiel à sua paixão de sempre, Roy Thomas, recém-chegado à idade adulta, era, por aqueles dias, um dos mais dinâmicos membros da comunidade de fãs. Que tinha em Jerry Bails o seu fundador e mais venerado guru.
Doutorada em Física, Bails foi pioneiro no estudo do impacto cultural dos super-heróis, tendo sido também o primeiro a reconhecer-lhes valor académico. Instado pelo à época editor-chefe da DC, Julius Schwartz, em 1961 o bom doutor lançaria  Alter Ego, um fanzine que, malgrado o seu grafismo tosco, depressa se converteria no evangelho dos seus cada vez mais numerosos apóstolos.

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O primeiro número de Alter Ego foi lançado em 1961.
Entre aqueles que, com fervor religioso, alimentavam essa borbulhante subcultura ia sobressaindo um jovem professor de Inglês do Missouri chamado Roy Thomas. Em comum, ele e Bails possuíam ainda um profundo fascínio pela Idade do Ouro, mormente pelo respetivo panteão heroico.
Por meio de doutas análises e dissertações, Roy Thomas colaborou em Alter Ego desde o primeiro número, tornando-se dessa forma o braço-direito de Jerry Bails. Isto ao mesmo tempo que via serem publicadas várias cartas da sua lavra nas secções de correspondência da Marvel e da DC, onde granjeara o estatuto de habitué. Afirmando-se, sem embargo, como uma das vozes mais respeitadas no fandom norte-americano.
Quando, em 1964, Jerry Bails abandonou o fanzine para se dedicar a outros projetos, foi com naturalidade que passou o testemunho a Roy Thomas. Facto que poderá por alguns ser percecionado como um curioso prenúncio do seu percurso ascendente na Casa das Ideias ao longo da segunda metade desse decénio.
A despeito da sua determinação em não deixar Alter Ego definhar, privando desse modo os fãs de uma inestimável fonte de informação numa época em que a Internet pertencia ao domínio da mais delirante ficção científica, em 1965 Roy Thomas recebeu uma proposta irrecusável. A convite de Mort Weisinger, o temperamental editor das séries periódicas do Superman, Thomas abalou para Nova Iorque, para trabalhar como seu assistente.
Segundo contaria o próprio Roy Thomas, em entrevista datada de 2005, o surpreendente convite de Weisinger (com quem trocara apenas uma ou duas cartas) surgiu poucos dias depois de lhe ter sido concedida uma bolsa académica para financiar os seus estudos em Relações Internacionais na George Washington University, na capital federal dos EUA.
A esta escolha não deverá, contudo, ter sido alheia a circunstância de, poucos meses antes, Roy Thomas ter assinado uma história de Jimmy Olsen. Tal como Lois Lane, o fotógrafo do Daily Planet amigo do Homem de Aço dispunha na altura de série mensal em nome próprio.

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A história de Roy Thomas
 publicada neste número da Superman's Pal Jimmy Olsen
rendeu-lhe um convite para trabalhar na DC.
Radiante com o se lhe prefigurava um emprego de sonho, Roy Thomas não pensou duas vezes antes de aceitar o convite de Weisinger. Este não era, no entanto, conhecido pelo seu trato fácil e logo despontaram as primeiras fricções entre ambos.
Ao fim de um dia de trabalho particularmente tenso, Roy Thomas, prestes a desmoronar emocionalmente, sentiu uma premente necessidade de extravasar as suas frustrações. Ocorreu-lhe fazê-lo através da escrita. A partir do seu minúsculo quarto de hotel em Manhattan, redigiu uma carta endereçada a ninguém menos do que Stan Lee. Essas singelas linhas mudariam para sempre a sua vida.
Thomas era um profundo admirador do trabalho que Lee vinha desenvolvendo no posto de editor-chefe da Marvel, e disso mesmo lhe deu conta na missiva que lhe enviou. Na esperança de que o mestre-de-cerimónias da Casa das Ideias se lembrasse dele do tempo em que colaborara no fanzine Alter Ego, Thomas convidou o seu ilustre interlocutor para uma bebida e dois dedos de prosa.
Tratou-se, todavia, de um gesto de simples cortesia. Conforme Roy Thomas reiterou em diversas ocasiões, apesar da sua insatisfação laboral, não tinha em mente candidatar-se a um emprego na concorrente que mordia os calcanhares à companhia para a qual trabalhava na altura.
A resposta de Stan Lee surgiu logo no dia seguinte sob a forma de um telefonema. O Papa da Marvel lembrava-se bem de Roy Thomas e desafiou-o a realizar o teste de escrita a que a editora submetia os aspirantes a roteiristas.
Embora constrangido, Roy Thomas resolveu de todo o modo juntar o útil ao agradável. Com o referido teste a consistir, tão-somente, na inserção de diálogos em quatro páginas a preto e branco de Fantastic Four Annual nº2 desenhadas por Jack Kirby. Seria, de resto, uma das últimas vezes em que esse método de seleção de candidatos foi aplicado na Casa das Ideias.
No dia seguinte, quando trabalhava no seu cubículo no quartel-general da DC, Roy Thomas recebeu o telefonema de um funcionário da Marvel que lhe transmitiu o convite de Stan Lee para que almoçassem juntos naquele mesmo dia.
Durante o repasto partilhado num modesto restaurante na baixa de Manhattan, Stan Lee propôs a Thomas que trocasse a DC pela Marvel. Proposta que o segundo, embora aturdido, aceitou de bom grado.
Regressado à Editora das Lendas, Roy Thomas logo cuidou de informar Mort Weisinger da sua decisão de ir trabalhar em breve para a arquirrival. Com a rispidez que o caracterizava, Weisinger ordenou-lhe, porém, que limpasse de pronto a sua secretária.
Apenas oito dias após ter sido contratado pela DC - e menos de uma hora depois de ter aceitado o convite de Stan Lee -, Roy Thomas mudou-se de armas e bagagens para a Casa das Ideias. Onde tinha já à sua espera a sua primeira empreitada literária: uma história para Modeling With Millie (decana das séries humorísticas da Marvel) que, em virtude do prazo apertado, escreveu contrarrelógio. E pela qual, devido a um alegado lapso editorial, não chegaria a ser creditado.

Modeling with Millie #52
A primeira história de Roy Thomas para a Marvel
 foi publicada nesta série humorística.
Roy Thomas recorda assim esses seus frenéticos primeiros dias na Casa das Ideias: «A minha primeira categoria profissional na Marvel Comics foi "escritor de apoio". O meu trabalho consistia em datilografar manuscritos 40 horas por semana com o gerente de produção Sol Brodsky e a sua secretária. Toda a gente que aparecia no escritório passava por mim e os telefones não paravam de tocar. Como se isso não perturbasse suficientemente a minha concentração, Stan Lee, seguindo uma prática consagrada, verificava pessoalmente cada uma das histórias finalizadas, trocando impressões com Brodsky a pouco passos da minha secretária. Era também comum Stan pedir-me para fazer outras coisas, ou perguntar-me em que edição tivera lugar determinada história, dado o meu sólido conhecimento da continuidade da Marvel naquela altura. Depressa, porém, ficou claro para todos que aquilo não estava a funcionar e Stan promoveu-me a redator assistente.»
Naqueles dias de glória em que das suas paredes a imaginação escorria em cascata, a Casa das Ideias tinha em Stan Lee e no seu irmão, Larry Lieber, os seus principais escribas. Recolhendo, numa primeira fase, as sobras das tramas planeadas por Lee, Roy Thomas, para despeito de alguns escritores veteranos ao serviço da editora,  logrou tornar-se presença assídua.

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Da esq. para a dir.: Stan Lee, Jack Kirby e Larry Lieber,
os Três Mosqueteiros da Casa das Ideias.  

Roy Thomas seria o seu D'Artagnan. 

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Em janeiro de 1966, uma história do Homem de Ferro saída da pena de Roy Thomas foi publicada em Tales of Suspense nº73, marcando assim a sua estreia com aqueles que eram os maiores astros da companhia: os super-heróis.
Nesse mesmo mês, duas outras histórias da sua lavra foram também dadas à estampa pela Charlton Comics*, editora com a qual colaborara brevemente como autor freelancer. Apesar de não ter ficado particularmente impressionado com esses trabalhos de Thomas para a rival, em abril de 1966 Stan Lee confiou-lhe o seu primeiro título.
Durante exatamente um ano, Sgt. Fury and his Howling Commandos teve as suas histórias ambientadas na II Guerra Mundial escritas por Roy Thomas. Que, logo depois, assumiria Uncanny X-Men e The Avengers, duas das séries mais emblemáticas da Marvel.
A uma forte noção de continuidade, Roy Thomas aliava uma notável versatilidade narrativa que lhe permitia abordar com idêntico à-vontade histórias de caráter intimista ou epopeias cósmicas, como a guerra Kree-Skrull.
A este propósito declarou Thomas numa entrevista dada em 1981: «Uma das razões pelas quais Stan Lee apreciava o meu trabalho era porque sentia que podia confiar em mim ao ponto de não ter que ler nada do que eu escrevia. Quanto muito, leria uma ou duas páginas apenas para garantir que eu permanecia no caminho certo.»

Sgt Fury Vol 1 30


Avengers Vol 1 58

X-Men Vol 1 39
Três dos títulos Marvel em que Roy Thomas imprimiu o seu cunho.
Cada vez mais requisitado, em julho de 1968 Roy Thomas escapuliu-se durante alguns dias para casar com Jean Maxey, a sua primeira mulher. Mas nem durante a lua-de-mel do casal Thomas deu descanso à pena. Durante as suas férias caribenhas escreveu o casamento de Hank Pym e Janet Van Dyne ( o Homem-Formiga e a Vespa), aquele que se tornaria um dos capítulos mais memoráveis da história dos Vingadores.
O ano de 1969 teve um travo agridoce para Roy Thomas. Investido da espinhosa missão de contrariar a morte anunciada de Uncanny X-Men - título que se havia transformado num cemitério de roteiristas - Roy Thomas mais não conseguiu do que adiar o inevitável. Meses depois seria, porém, agraciado com o primeiro prémio de relevo da sua carreira pejada deles: o Alley Award para melhor escritor.
No que alguns consideram ter sido uma jogada de alto risco, em 1970 Roy Thomas introduziu o género Espada e Feitiçaria no Universo Marvel. Fê-lo através de Conan the Barbarian, título baseado na personagem homónima idealizada por Robert E. Howard em 1932, e que fora um dos maiores expoentes da literatura pulp.
Combinando o texto ágil de Thomas com as belíssimas ilustrações de Barry Windsor-Smith, a série do errático gigante cimério redundou num estrepitoso sucesso, abrindo caminho para a sua transposição ao cinema. A meias com Gerry Conway**, em 1984 Roy Thomas assinou o enredo de Conan the Destroyer, sequela de Conan the Barbarian. Filme que, recorde-se, um par de anos antes, apresentara ao mundo o ex-Mister Olímpia Arnold Schwarzenegger.

Conan the Barbarian 1


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Primeiro na BD e depois no cinema,
Conan foi um sucesso com o dedo de Roy Thomas.
Mesmo depois de, em 1972, Stan Lee lhe ter confiado as chaves do reino dourado, Roy Thomas, assim alcandorado a editor-chefe da Marvel, continuou a produzir histórias a uma cadência estonteante. Dedicando-se de alma e coração à sua nova missão, lançaria também séries inéditas que se revelariam apostas ganhas. Casos, por exemplo, de The Defenders e What If?, esta última introduzindo o conceito de realidades alternativas.
Ao mesmo tempo que, animado pelo seu imorredouro fascínio pela Idade do Ouro, criava os Invasores (coletivo que agrupava alguns dos ícones dessa era, como Capitão América e o Príncipe Submarino), a sua prodigiosa imaginação gerou uma nova safra de personagens icónicas. Punho de Ferro, Motoqueiro Fantasma e Miss Marvel seriam adições de peso ao panteão da Casa das Ideias.
Ainda hoje um acérrimo defensor dos direitos autorais, Roy Thomas teve um amargo de boca ao não ser creditado como cocriador de Wolverine. Nome que, na sua qualidade de editor-chefe, havia sugerido a Len Wein e John Romita, em alternativa a The Badger. Curiosamente, anos depois, seria essa a alcunha dada por Mike Baron ao seu anti-herói celebrizado pela First Comics***.
Levando em conta esses e outros precedentes, Roy Thomas preferiu amiúde a reciclagem de conceitos preexistentes à criação de personagens inéditas. Entre os que por ele foram resgatados das brumas da memória destacam-se Adam Warlock, Visão e Cavaleiro Negro, cujas versões modernas se tornaram casos sérios de popularidade.

Foto de Ricardo Cardoso.


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Miss Marvel, Punho de Ferro e Motoqueiro Fantasma:
três criações icónicas de Roy Thomas para a Casa das Ideias.
Apesar de ter abandonado as funções de editor-chefe da Marvel em 1974, Roy Thomas não mais despiu a pele de guardião do templo. Tendo a sua intervenção sido providencial para, volvidos três anos, salvar a editora da bancarrota iminente.
Graças à sua perseverança e capacidade negocial, a adaptação oficial do primeiro filme da saga Star Wars foi lançada sob a chancela da Marvel. Projeto que antecedeu uma lucrativa série mensal baseada no universo imaginado por George Lucas, e cujas histórias ficaram inicialmente a cargo do próprio Roy Thomas.

Marvel Special Edition Featuring Star Wars Vol 1 1
A adaptação aos quadradinhos de Star Wars
 foi o deus ex machina da crise financeira que afetava a Marvel.
Após um longo braço-de-ferro com Jim Shooter (o novo editor-chefe da Marvel), motivado por disputas criativas, em 1981 Roy Thomas assinou um contrato de exclusividade com a DC válido por três anos. Nesse mesmo ano casou, em segundas núpcias, com Danette Couto, que se tornaria sua parceira criativa nessa nova fase seminal da sua carreira. Pela mão do marido, Danette (celebrizada como Dan Thomas) seria, aliás, a primeira mulher a escrever as histórias da Princesa Amazona.
Numa altura em que a Editora das Lendas fora já destronada pela Marvel na preferência dos leitores, Roy Thomas conseguiu dar novo impulso a vários dos seus títulos de charneira. Graças ao seu toque de Midas, Wonder Woman, DC Comics Presents e Legion of the Super-Heroes recuperaram a vitalidade de outrora.
Embalado por estes sucessos - e tendo em mente projetar uma imagem de maior dinamismo -, Roy Thomas propôs rebatizar a DC. Iniciais que, no seu entendimento, deveriam doravante corresponder a Dynamic Comics.
Apesar desta sua ideia ter sido liminarmente rejeitada pela direção da empresa, Roy Thomas cumpriria entretanto um sonho de infância: escrever as histórias da Sociedade da Justiça da América.  Grupo que reunia alguns dos maiores heróis da Idade do Ouro e que, graças à sua mestria e dedicação, foi devolvido à ribalta nas páginas de All-Star Squadron.
Já com mais de uma dúzia de comendas a adornar-lhe o currículo, em 1985 Roy Thomas foi uma das 50 personalidades homenageadas pela DC, no âmbito das comemorações do 50º aniversário da editora. Outras honrarias se seguiriam, invariavelmente recebidas com a humildade que sempre caracterizou aquele que é, sombra de dúvidas, um dos maiores vultos da 9ª Arte.

Sociedade da Justiça da América em All-Star Squadron:
o regresso de um clássico com a assinatura de Roy Thomas.
 A partir da década seguinte, começaram no entanto a rarear as colaborações de Roy Thomas com as grandes editoras, preteridas em relação às companhias independentes. 
Numa espécie de regresso às origens, em 1999 relançou Alter Ego, agora como uma revista formal editada pela TwoMorrows Publishing.A residir desde 2006 na Carolina do Sul, em anos mais recentes Roy Thomas tem-se desdobrado entre a atividade literária e as suas funções de dirigente da Hero Initiative. Organização solidária sem fins lucrativos que presta assistência aos deserdados da indústria dos quadradinhos. Pelo meio, em 2014, escreveu 75 Years of Marvel: From  the Golden Agen to the Silver Screen, um imponente volume de 700 páginas que compila a história da Casa das Ideias desde a sua fundação até à atualidade.
Ontem como hoje, Roy Thomas possui o condão de ser o homem certo no lugar certo e no tempo certo. Ter crescido à sombra de titãs da  9ª Arte, serviu apenas para o transformar num deles.

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A rediviva Alter Ego.

Roy Thomas com Stan Lee na apresentação de
 75 Years of Marvel: from the Golden Age to the Silver Screen.
Uma obra para a eternidade.


*http://bdmarveldc.blogspot.pt/2018/03/fabricas-de-mitos-charlton-comics.html
**http://bdmarveldc.blogspot.pt/2016/03/eternos-gerry-conway-1952.html
***http://bdmarveldc.blogspot.pt/2017/03/fabrica-de-mitos-first-comics.html



















































quarta-feira, 21 de março de 2018

GALERIA DE VILÃS: RAINHA BRANCA


  Como Rainha Branca do Clube do Inferno ou ao lado dos X-Men, à sua maneira lutou sempre em prol da revolução mutante. Telepata poderosa de passado trágico e nebuloso, a sua personalidade dúbia faz dela uma incógnita indecifrável. 

Denominação original: White Queen
Licenciadora: Marvel Comics
Criadores: Chris Claremont (história) e John Byrne (história e arte conceitual)
Estreia: X-Men nº129 (janeiro de 1980)
Identidade civil: Emma Grace Frost
Local de nascimento: Boston, Massachusetts
Espécie: Homo superior (designação científica para indivíduos portadores do gene X)
Parentes conhecidos: Winston e Hazel Frost (pais), Christian Frost (irmão), Adrienne Frost (irmã, falecida), Cordelia Frost (irmã) e Irmãs Stepford (também conhecidas como Irmãs Cuckoos, as trigémeas têm em Emma Frost uma figura maternal embora sejam na verdade seus clones).
Ocupação: Ex-dançarina exótica, ex-Rainha Branca do Clube do Inferno, ex-presidente do Conselho de Administração da Frost Internacional, ex-vice-reitora do Instituto Xavier para Jovens Sobredotados, ex-diretora da Academia de Massachusetts, é atualmente professora da Nova Escola Xavier para Mutantes, terapeuta sexual encartada e aventureira.
Base operacional: No seu mapa de localizações temporárias pontuam geografias tão díspares como Nova Iorque. São Francisco, Canadá ou Genosha.
Afiliações: Clube do Inferno, Frost Internacional, Cabala, Satânicos, Geração X, Quinteto Fénix e X-Men
Armas, poderes e habilidades: Telepata de Classe Ómega (o máximo na escala utilizada para classificar os detentores de poderes psíquicos), a Rainha Branca já demonstrou reiteradas vezes ser capaz de proezas extraordinárias ao ponto de rivalizar com o próprio Professor Xavier.
No seu extenso índice de habilidades telepáticas avultam, por exemplo, a leitura de mentes, a telecinesia, a projeção astral, de rajadas e escudos psiónicos, a cura de traumas, a camuflagem psíquica, bem como a alteração de memórias e perceções alheias.
Efeito da sua mutação secundária, a Rainha Branca adquiriu num passado recente a capacidade de transmutar os seus tecidos orgânicos numa substância com características similares às do diamante. Quando assume essa forma, o seu corpo torna-se translúcido e virtualmente indestrutível conservando, porém, total flexibilidade acrescida de força sobre-humana.

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Um coração de gelo num corpo de diamante.
Exímia no combate astral, a Rainha Branca está longe de ficar indefesa se privada dos seus poderes no plano terreno. Ou não fosse ela uma atleta treinada que domina várias técnicas de autodefesa.
Aliando a sua exuberante sensualidade a um quociente de inteligência acima da média, a Rainha Branca é extremamente persuasiva, circunstância que faz dela uma hábil manipuladora mesmo quando não recorre aos seus talentos mutantes.
No que a competências técnicas concerne, a sua reconhecida vocação pedagógica constitui uma mais-valia para o corpo docente de qualquer instituição de ensino. É também altamente qualificada no campo da Eletrónica, tendo já projetado diversos aparatos para, entre outros fins, amplificar os seus poderes mentais.
Levando em consideração estes e outros recursos que a Rainha Branca tem à sua disposição, não é pois de espantar que quase todos prefiram tê-la como aliada em vez de inimiga.
Fraquezas: Quando assume a sua forma diamantina, Emma Frost tem os seus poderes psiónicos desabilitados, apesar de permanecer imune a ataques telepáticos. Desenvolveu também problemas de alcoolismo após ter assassinado a sua irmã Adrienne (ver Geração X, o elo perdido), adição de que parece nunca ter-se curado por completo.

A Rainha Branca é uma das cinco telepatas
 mais poderosas do mundo.

Conceção e histórico de publicação

Outro produto de sucesso com a assinatura da dupla-maravilha composta por Chris Claremont e John Byrne, na sua estreia em X-Men nº129 (edição datada de janeiro de 1980 que correspondia a um dos capítulos iniciais da ovacionada Saga da Fénix Negra), Emma Frost havia já sido entronizada como Rainha Branca do Clube do Inferno, título através do qual se notabilizaria no imaginário coletivo.
Facto menos consabido, foi a um antigo episódio da popular série de espionagem britânica Os Vingadores (no ar entre 1961 e 1969) que Claremont foi beber inspiração para criar o Clube do Inferno (Hellfire Club) e as suas voluptuosas Rainha Negra e Rainha Branca.
Investida, no referido episódio, da missão de se infiltrar numa poderosa sociedade secreta que cultivava o hedonismo ao mesmo tempo que urdia planos de dominação mundial, a escultural Emma Peel - que, com John Steed, coprotagonizava a série - criou a sensual persona Rainha do Pecado. Envergando um corpete negro, uma coleira e botas de cano alto a condizer, a sua insinuante indumentária serviu de modelo àquelas que fariam da Rainha Negra e da Rainha Branca (que mais não é que uma declinação da primeira) dois dos maiores símbolos sexuais da banda desenhada.

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X-Men nº129 (1980) apresentou
 a Rainha Branca aos fãs dos Filhos do Átomo.
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O insinuante figurino da Rainha do Pecado (cima)
 inspirou os paramentos
 das Rainhas do Clube do Inferno.
Sempre como vilã, após o epílogo da Saga da Fénix Negra, a Rainha Branca continuou a ser presença assídua nas histórias dos X-Men e, paralelamente, nas dos Novos Mutantes, onde surgia acolitada pelos seus Satânicos (vide respetivo prontuário infra).
Em busca de redenção após a chacina dos seus pupilos, a Rainha Branca desempenhou papel capital em Phalanx Covenant (Aliança Falange), saga em que ajudou a salvar a próxima geração de mutantes de um tenebroso destino. Em virtude disso, tornar-se-ia personagem central em Generation X, spin-off dos X-Men que serviu também para revisitar o passado de Emma Frost anterior à sua filiação no Clube do Inferno. Nesta fase seriam ainda apresentadas as suas duas irmãs, Adrienne e Cordelia, a primeira das quais ficaria inextricavelmente associada a um dos momentos definidores da carreira da Rainha Branca.
Ao cancelamento de Generation X seguiu-se, na viragem do século, uma revitalização dos títulos estrelados pelos Filhos do Átomo. Em 2001, Emma Frost reapareceu em New X-Men como professora da população Homo superior de Genosha, nação imaginária conhecida em tempos por escravizar mutantes e que, depois de libertada, era agora governada por Magneto.
Na sequência de um ataque dos Sentinelas a Genosha, os X-Men resgataram Emma Frost dos escombros fumegantes da capital e perceberam que ela tinha sofrido uma mutação secundária que conferia à sua pele a densidade e aparência de um diamante.
A ideia de Emma Frost se unir aos X-Men foi sugerida por um fã a Grant Morrison. Até aí, o escriba britânico de New X-Men não tinha qualquer intenção de incluí-la na série. A recente morte de Colossus deixara, contudo, uma vaga por preencher na equipa, o que motivou Morrison a acolher a sugestão, criando para esse efeito a mutação secundária de Emma Frost.
Integrada nos X-Men, Emma envolver-se-ia romanticamente com Ciclope quando o casamento deste com Jean Grey atravessava uma profunda crise. A série revelaria também mais alguns segredos do passado de Frost, designadamente a turbulenta relação que ela mantivera na puberdade com o seu austero progenitor, assim como a sua cumplicidade com Christian, o seu irmão homossexual. Elementos que seriam posteriormente desenvolvidos em Emma Frost, série em nome próprio que, ao longo de 18 edições, revisitou capítulos até então desconhecidos da história familiar da ex-Rainha Branca do Clube do Inferno.

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Quando o impensável acontece: Emma Frost nos X-Men.
Personagem central no terceiro volume de Uncanny X-Men, Emma Frost viu a sua lealdade aos X-Men ser testada uma e outra vez, ao mesmo tempo que participava como convidada especial noutros títulos estrelados pelos Filhos do Átomo.
Após as mortes de Jean Grey e do Professor Xavier, nos últimos anos Emma Frost, agora uma das mais poderosas telepatas à face da terra, tem vindo a reforçar a sua influência na nova revolução mutante conduzida por Ciclope. Independentemente do que o futuro lhe vier a reservar, ela será a eterna Rainha Branca que, mesmo destronada, conserva intacta a sua majestade.

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Ciclope e Rainha Branca 
personificam a nova revolução mutante.
Origem

Nascida em berço de prata, no seio de uma das mais abonadas e conservadoras famílias de Boston, com raízes na Velha Albion, contrariamente ao que seria expectável Emma Frost não teve uma infância de sonho. Muito pelo contrário.
A segunda de três irmãs (todas portadoras do gene X), Emma tinha no seu irmão mais velho, Christian, o seu confidente e único amigo. Em virtude da sua recém-assumida homossexualidade, Christian era no entanto o alvo preferido das judiarias de Winston, o abusivo patriarca do clã Frost.
Se em casa a atmosfera era praticamente irrespirável, a escola era território ainda mais hostil para a pequena Emma. Aluna medíocre e desajeitada, era sistematicamente humilhada pelas suas colegas no seleto colégio feminino que frequentava. Assim transformada numa pária social, já adolescente, encontraria consolo num jovem e compassivo professor chamado Ian Kendall, por quem se perderia de amores.
Foi também durante essa atribulada fase da vida de Emma que os seus poderes telepáticos despontaram. Quando aprendeu a controlá-los, usou-os para ler as mentes das pessoas que a rodeavam, o que lhe permitiu obter excelentes notas.

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A jovem Emma Frost e o seu irmão Christian.
Entretanto, após anos de tensões acumuladas, a família Frost começou finalmente a desmoronar. Às constantes retaliações do pai, inconformado com a homossexualidade do primogénito, Christian respondia com o consumo de drogas e várias tentativas de suicídio. Perante a passividade da mãe, entupida com calmantes e cada vez mais alheada da dolorosa realidade circundante, Adrienne, a filha mais velha, começou a evidenciar uma personalidade psicopática, ao passo que Cordelia, a problemática benjamim, tudo fazia para chamar a atenção.

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Como muitas adolescentes, Emma
 teve uma paixoneta por um professor.
Incapaz de continuar a suportar semelhante calvário, Emma fugiu de casa, numa altura em que ignorava ainda a real origem e extensão dos seus poderes. Após algumas semanas a viver na rua, conheceu Troy, um jovem simpático pelo qual ela se apaixonou e que a convidou a morar com ele. O casal, no entanto, não viveu feliz para sempre.
Troy tinha uma avultada dívida para com um agiota, que prometia matá-lo caso não a saldasse. Temendo pela vida do namorado, Emma simulou o próprio rapto para extorquir dinheiro ao pai. Porém, as coisas não correram como planeado e Troy acabou mesmo executado pelos comparsas do agiota. Enfurecida, Emma usou os seus poderes mentais para projetar ilusões, levando dessa forma os bandidos a matarem-se uns aos outros.
Outra vez entregue à sua sorte, Emma resolveu dar nova guinada na sua vida. Depois de ter tingido o cabelo de loiro (uma das suas marcas registadas), usou o dinheiro do seu resgate para se mudar para Nova Iorque. Matriculada na Universidade Empire State, revelou-se uma aluna brilhante obtendo dois graus académicos: um mestrado em Sexologia e um bacharelato em Gestão Empresarial.
Numa altura em que os mutantes começaram a vir a público, Emma descobriu por fim a origem das suas habilidades. Mas também o doloroso estigma do preconceito. Depois de ter usado os seus poderes para ilibar o namorado de um crime que ele não cometera, foi rejeitada por ele devido ao facto de ser portadora do gene X.
Convidada a trabalhar como dançarina exótica no Clube do Inferno, grémio elitista que tinha por membros alguns dos indivíduos mais ricos e poderosos do planeta, Emma Frost foi abordada pelo Professor Xavier, que pretendia recrutá-la para os seus X-Men. Face à recusa de Emma, Xavier apagou da mente da jovem a memória do encontro.
Pouco tempo depois, Emma tornou-se aliada e amante de Sebastian Shaw, também ele um Homo superior e proeminente membro do Conselho dos Escolhidos. Aquele que era o núcleo duro do Clube do Inferno conspirava secretamente para impor uma nova ordem mundial livre de mutantes.
Com a ajuda de Frost e de outros mutantes infiltrados na organização, Shaw levou a cabo um golpe palaciano que culminou na execução dos membros do Conselho dos Escolhidos.
Entronizada Rainha Branca do Clube do Inferno, Emma Frost usou o seu cargo de presidente-executiva da Frost Internacional (conglomerado por ela fundado pouco tempo antes) para financiar as atividades subversivas do Rei Negro e restantes Lordes Cardinais.


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De stripper a Rainha Branca do Clube do Inferno.
O primeiro de muitos confrontos da Rainha Branca com os X-Men ocorreu quando ela tentou recrutar Kitty Pryde para a sua Academia de Massachusetts, instituição rival da Escola Xavier. Durante o processo, ela e os agentes do Clube do Inferno capturaram e torturaram vários pupilos do Professor X, nomeadamente Tempestade, Colossus, Wolverine e Fénix (codinome pelo qual atendia então Jean Grey).
Começava assim a lendária rivalidade entre o Clube do Inferno e os X-Men, e a ainda mais lendária rivalidade entre Emma Frost e Jean Grey.

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Tempestade torturada às mãos da Rainha Branca.

Caracterização e evolução

Emma Frost evoluiu de uma das mais perigosas antagonistas dos X-Men para uma das mais devotas defensoras da causa mutante. Pela qual, de resto, à sua maneira muito peculiar, sempre se bateu.
Contudo, mesmo depois de tantos anos ao lado dos X-Men, prevalecem ainda dúvidas sobre o que terá realmente motivado a ex-Rainha Branca do Clube do Inferno a unir-se aos seus velhos inimigos. Terá sido essa a forma por ela encontrada para expiar os seus pecados (alguns deles certamente imprescritíveis)? Ou apenas um meio para atingir um fim maior - e, quiçá, maligno - ainda por desvelar?
Emma Frost detém, com efeito, uma das personalidades mais dúbias do Universo Marvel. Devido aos seus dons telepáticos, as suas verdadeiras intenções permanecem imperscrutáveis para qualquer um. Até mesmo para aqueles que, como Ciclope, com ela mantiveram um relacionamento íntimo.
Epítome de frieza e calculismo, Emma Frost consegue como ninguém dissimular as suas emoções mesmo nas situações mais críticas. Recorrendo para esse efeito a um desarmante sarcasmo, ou até mesmo ao humor negro.

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Que segredos se escondem
 no coração de Emma Frost?
Por tudo isto, foi naturalmente com desconfiança que Emma Frost foi acolhida por alguns dos seus novos companheiros de equipa. Consciente de que o lastro de suspeição é difícil de enxaguar, ela não se tem, porém, poupado a esforços para provar a sua lealdade aos X-Men.
A par da ambiguidade moral que a caracteriza, Emma Frost teve desde sempre na sua ousada indumentária outra das suas imagens de marca. Curiosamente, aos olhos dos detratores da excessiva sexualização das personagens femininas da BD, configura, contudo, uma exceção.
Embora erotizado, o visual da Rainha Branca é consentâneo com a sua índole. Sendo mesmo apontada por certos setores feministas como modelo de mulher emancipada que, em vez de rejeitá-las, usa a seu favor as convenções sociais que oprimem a sexualidade das descendentes de Eva. Figura bíblica que ela tão bem imitou ao fazer Ciclope cair em tentação...

Satânicos: anjos ou demónios?

Versão simétrica dos Novos Mutantes arregimentados por Charles Xavier, os Satânicos (Hellions, no original) eram um grupo de mutantes adolescentes recrutados e treinados pela Rainha Branca na sua Academia de Massachusetts. Patrocinados pelo Clube do Inferno, da sua formação primordial faziam parte Apache (irmão mais novo de Pássaro Trovejante,o primeiro X-Man morto em combate), Roleta, Empata, Tarot, Jato e Olhos-de-Gato.
Apesar de os pupilos de Emma Frost terem antagonizado os Novos Mutantes em diversas ocasiões, na maior parte do tempo a relação entre as duas equipas invocava mais uma rivalidade entre escolas. Chegando mesmo alguns dos Satânicos a namoriscarem com os seus adversários.
Privados de uma vida normal devido aos seu talentos especiais, ao longo dos vários anos em que permaneceram juntos os Satânicos estabeleceram entre si fortes vínculos afetivos. Uma família de proscritos que seria desfeita numa noite fatídica.
Num gesto de desagravo que objetivava apaziguar a tensão entre o Clube do Inferno e os Filhos do Átomo, Emma Frost organizou uma festa na sua escola para a qual convidou a equipa dourada dos X-Men, à época liderada por Tempestade.

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A primeira turma de Satânicos.
O evento seria contudo violentamente interrompido pelo ataque de robôs Sentinelas às ordens de Trevor Fitzroy, também ele um mutante filho de um membro do Círculo Interno do Clube do Inferno.
Do banho de sangue que se seguiu resultaram as mortes de praticamente todos os Satânicos. Apache e Empata foram os únicos sobreviventes.
Também ela gravemente ferida por Fitzroy, a Rainha Branca ficou em estado comatoso, do qual emergiria apenas ao cabo de vários meses.
Em consequência deste trágico incidente, a Academia de Massachusetts foi encerrada e os Satânicos tornaram-se mártires improváveis da causa mutante. Culpando-se pelo sucedido, Emma Frost juntar-se-ia anos mais tarde aos X-Men. Como mentora da Geração X (vide texto seguinte) procurou redimir-se das suas falhas e conquistar a confiança do restante corpo docente do Instituto Xavier.
Criados por Chris Claremont e Sal Buscema na esteira do sucesso obtido pelos Novos Mutantes, os Satânicos (atualmente extintos), fizeram a sua primeira aparição em junho de 1984, nas páginas de New Mutants nº16.

Geração X,  o elo perdido

Coincidindo com o enorme apelo popular suscitado à época pelos títulos estrelados por mutantes, em finais de 1994 a Marvel Comics lançou novo spin-off dos X-Men.
Sucessora dos Novos Mutantes, a Geração X (Generation X) recuperava a fórmula de um coletivo de heróis adolescentes portadores do gene X, que pretendia refletir a complexidade das relações entre a comunidade Homo superior e a maioria humana. No entanto, esgotavam-se aí as semelhanças entre as duas equipas.
Diferente dos Novos Mutantes, a Geração X não era tutelada pelo Professor Xavier, tampouco fora formada no seu Instituto para Jovens Sobredotados. Em vez disso, o grupo operava sob a liderança bicéfala (e nem sempre harmoniosa) do X-Man Banshee e da - aparentemente - regenerada Rainha Branca. Como quartel-general tinha a Academia de Massachusetts entretanto reabilitada.

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Uma nova geração de mutantes
 para o 3º milénio.
Por causa destas inovações (ou apesar delas), a Geração X afirmou-se prontamente junto dos fãs e não tardou a ter direito a uma bem-sucedida série mensal em nome próprio, marcada por uma boa dose de humor e irreverência.
Reflexo desse sucesso quase instantâneo, em 1996 foi produzido um obscuro telefilme epónimo, que assinalou igualmente a estreia da Rainha Branca em ação real (ver Noutros media).
Conceito desenvolvido por Scott Lobdell e Chris Bachalo, a Geração X estreou-se em X-Men nº317 (outubro de 1994), quando estava em marcha o diabólico plano da Falange (uma raça de conquistadores alienígenas dotada de uma mente coletiva) para assimilar todos os mutantes, começando pela próxima safra de Homo superior.
Originalmente, a Geração X era composta por Derme, Câmara. Jubileu (a benjamim dos X-Men), Suplício, Escalpo, M e Sincro. Esta última sucumbiria às mão de Adrienne Frost, o que, por sua vez, levou a Rainha Branca a assassinar a própria irmã. 
Após o fim trágico dos Satânicos, Emma Frost viu-se novamente impotente para impedir a morte de uma das suas discípulas, aumentando assim o sentimento de culpa que a atormenta desde então.
Embora se propusesse formar a próxima leva de X-Men,  a Geração X seria desmantelada pouco tempo depois, tendo apenas Câmara transitado para a equipa sénior. 

Trivialidades

*Princesa do Gelo era o pseudónimo usado por Emma Frost quando trabalhava como stripper no Clube do Inferno;
*Emma adotou o branco como imagem de marca depois de o seu irmão Christian ter comentado ser essa a cor que mais a favorecia enquanto ela experimentava um vestido para o baile de finalistas do liceu;
*Durante o longo período em que controlou o corpo do Homem de Gelo, Emma Frost usou as habilidades mutantes do seu colega de equipa de formas que ele nunca imaginara sequer serem possíveis;
*Singular a vários níveis, Emma Frost é também um dos raros casos de portadores do gene X a terem desenvolvido uma mutação secundária. Especula-se que o primeiro a fazê-lo terá sido o Fera, quando teve o seu corpo recoberto por uma espessa pelagem azulada;

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As sucessivas metamorfoses do Fera,
um dos X-Men fundadores.
*Num flashback narrado pela própria, Emma Frost descreveu de forma pormenorizada a temporada que teria, alegadamente, passado numa instituição psiquiátrica para onde fora enviada pelos pais. Relato inconsistente, no entanto, com a sua biografia oficial, onde não existe qualquer registo que o comprove. Ao que parece, Emma ter-se-á inspirado na provação do seu irmão Christian para fabricar essa história, por forma a obter a compaixão dos seus jovens pupilos;
*Do currículo amoroso de Emma Frost fazem parte celebridades como Namor, o Príncipe Submarino, Tony Stark (o Homem de Ferro),  Sebastian Shaw (o ex-Rei Negro do Clube do Inferno) e Ciclope. De momento encontra-se, no entanto, solteira após o fracasso da sua relação com o ex-líder dos X-Men;
*Na lista das cem mulheres mais sensuais da banda desenhada organizada pelo Comic Buyer's Guide, Emma Frost encerra o respetivo Top 5, logo atrás, ironicamente, da sua arquirrival Jean Grey. Ciente da importância da sua beleza como arma de sedução e instrumento de poder, Emma admitiu ter já realizado várias cirurgias plásticas e não dispensa o uso de saltos altos em qualquer circunstância.


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Jean Grey e Emma Frost:
rivais em poder e sensualidade.

Noutros media

Por conta da apreciável popularidade de que gozava há vários anos na banda desenhada, foi sem surpresa que, em 1989, a Rainha Branca integrou o elenco de X-Men: Pryde of the X-Men, série animada que marcou a sua estreia no segmento audiovisual. Nesta versão, ela fazia parte da Irmandade de Mutantes e, entre outras originalidades, era capaz de voar.
Quase sempre com papel de relevo, a Rainha Branca participaria nos anos seguintes em várias séries animadas dos X-Men, como Wolverine and the X-Men (2009) e X-Men Anime (2011). Ao passo que, na primeira, surgia como membro de pleno direito dos X-Men, na segunda teve a sua personalidade suavizada, revelando uma faceta mais empática que contrastava com a sua proverbial frieza.
Ainda pelo pequeno ecrã, mas agora em ação real, em 1996 Finola Hughes foi a primeira atriz a emprestar corpo à Rainha Branca, no telefilme Generation X, que deveria ter servido de episódio-piloto para uma série nunca produzida da Geração X.

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Finola Hughes foi a primeira atriz
a encarnar a Rainha Branca.
Não tivesse sido pelo abandono de Bryan Singer da cadeira de realizador de X-Men 3, e logo em 2006 a Rainha Branca teria feito a sua estreia cinematográfica - ao que consta, interpretada por Sigourney Weaver. Papel que cinco anos mais tarde seria assumido em X-Men: First Class por January Jones.
Misturando elementos clássicos e modernos da personagem, nesta sua nova encarnação a Rainha Branca, além dos seus talentos telepáticos, possuía a capacidade de transformar o seu corpo em diamante e era consorte de Sebastian Shaw, o Rei Negro do Clube do Inferno.
Embora fisicamente ausente de X-Men: Dias de um Futuro Esquecido (2014), a Rainha Branca é citada por Magneto como sendo uma das mutantes que haviam perecido na sequência dos experimentos científicos realizados pelas Indústrias Trask. Vicissitude que, pelo menos em teoria, inviabiliza a participação da vilã em vindouros capítulos da franquia dos Filhos do Átomo.

January Jones como Rainha Branca
 em X-Men: First Class.






sábado, 3 de março de 2018

FÁBRICAS DE MITOS: CHARLTON COMICS


 Fundada atrás das grades, foi uma incubadora de talentos ímpar na sua autossuficiência. Alcançou glória efémera na Idade da Prata graças ao seus "heróis de ação"que inspirariam os Watchmen, de Alan Moore.

Reis da Sucata

Menos glamorosa e com contornos mais invulgares do que as de outras editoras surgidas em plena Idade do Ouro, a história da Charlton Comics começou a escrever-se em 1923. Nesse ano, seguindo as pisadas de tantos outros dos seus conterrâneos, um jovem italiano chamado John Santangelo cruzou o Atlântico à conquista do Sonho Americano.
Desembarcado em Nova Iorque com a sua mala de cartão, Santangelo começou por garantir o sustento a trabalhar como pedreiro antes de se estabelecer como empresário da construção. Estávamos em 1931 e, por esses dias, o rádio era ainda uma vibrante novidade. Mercê desse facto, em muitos lares continuava a ouvir-se música através de gira-discos, grafonolas e outros aparelhos similares. Cuja deficiente acústica nem sempre permitia aos ouvintes acompanharem as letras das suas melodias favoritas.

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Apesar do apregoado
 em anúncios publicitários como este,
 o som das grafonolas e afins 

deixava muito a desejar.
Ocorreu então ao ladino Santangelo, dono de um apurado faro para o negócio, que não faltariam porventura interessados em comprar as letras impressas das canções mais populares. E, se bem o pensou, melhor o fez: pouco tempo depois do seu momento eureca, Santangelo arrecadava já bom dinheiro com a venda de brochuras contendo esse tipo de material.
Havia apenas um pequeno senão: Santangelo não pagava direitos de autor pelas letras que disponibilizava ao público. Processado pela Sociedade Americana de Compositores, Autores e Produtores, de nada lhe valeram em tribunal as suas alegações de que ignorava em absoluto ter cometido uma infração.
Apesar dessas proclamações de inocência, em 1934 Santangelo seria mesmo sentenciado a um ano de prisão efetiva. Pena que cumpriria integralmente na Penitenciária Estadual de New Haven, no estado vizinho do Connecticut; não muito longe de Derby, a pequena cidade para onde ele e a sua cara-metade se haviam mudado tempos atrás, e que viria a acolher a sede da Charlton Publications.
Durante essa sua curta estadia atrás das grades, Santangelo travou amizade com Edward Levy, um ex-advogado a cumprir pena ligeira por crimes de colarinho branco, e que sabia reconhecer uma boa ideia quando lha apresentavam.
Visto que ambos seriam em breve restituídos à liberdade, Santangelo e Levy tornaram-se sócios no que viria a ser um negócio legal de divulgação de letras de canções e das novas tendências musicais. Ambos tinham filhos chamados Charles e, por isso, concordaram em batizar a futura editora de T.W.O. Charles Company.
Numa opção estratégica que se revelaria decisiva para o êxito do empreendimento, Santangelo e Levy adquiriram uma gráfica industrial e uma robusta frota de camiões. A primeira asseguraria a impressão das publicações, a segunda a sua distribuição um pouco por todo o país. Fazendo assim da T.W.O. Charles Company um caso único de autossuficiência no panorama editorial norte-americano.
Da edição à distribuição passando pela impressão, a empresa controlava toda a cadeia de produção a partir do seu quartel-general em Derby. Se por um lado isso lhe conferia uma importante vantagem sobre a concorrência, por outro encorajava uma menor exigência no que à qualidade do material produzido dizia respeito, já que a T.W.O. Charles Company não tinha de prestar contas a quem quer que fosse.

Panorâmica aérea da antiga sede da Charlton Publications, em Derby.
Demolida em 1999, no seu lugar existe hoje um centro comercial.
Quando tudo ficou finalmente a postos, no início de 1942 a T.W.O. Charles Company lançou Hit Pareder, um dos primeiros e mais duradouros magazines musicais publicado ininterruptamente ao longo de meio século. Embora especializada nesse tipo de material, o catálogo da nova editora incluía originalmente livros e revistas de palavras cruzadas.

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Fenómeno de longevidade, o magazine musical Hit Parader
 seria publicado pela Charlton até 1991.
Renomeada Charlton Publications em 1945, no ano seguinte a editora decidiu lançar a sua própria linha de histórias aos quadradinhos. Contrariamente a outras fábricas de mitos que continuavam a laborar a toda a brida, fê-lo no entanto com o exclusivo propósito de manter as suas gigantescas rotativas a funcionarem em contínuo, dado que qualquer pausa acarretaria custos proibitivos.
Assim nasceu a Charlton Comics, com a mediocridade inscrita no seu código genético. Salvo por uma outra pequena pepita, ao longo da sua história notabilizar-se-ia por vender pechisbeque e outras bugigangas de reduzido valor. Dito de outro modo, a Charlton Comics nunca foi uma editora de topo porque nunca aspirou a tal.
Preferindo seguir tendências a criá-las, a Charlton Comics navegou sempre ao sabor das caprichosas correntes do mercado: quando, na viragem da década de 50, os contos de terror estiveram na berlinda, a editora prosperou por conta deles; quando, a meio da década seguinte, as histórias de guerra perderam o seu apelo devido à impopularidade do conflito no Vietname, as suas vendas ressentiram-se.
Há, ainda assim, que lhe reconhecer o mérito de, por contraponto a muitas das suas concorrentes, ter conseguido manter-se à tona entre as cíclicas borrascas que fustigaram a indústria dos comics. Chegando mesmo a crescer em contraciclo. Quando, no final da II Guerra Mundial, as histórias aos quadradinhos entraram em declínio levando à falência de muitas editoras, a Charlton, escorada na sua autossuficiência e no ecletismo das suas publicações, não só resistiu à crise como aumentou a sua lucratividade.
Importa por outro lado ressalvar que, apesar do ecletismo do catálogo da Charlton Comics (no qual cabia uma impressionante variedade de géneros abrangendo desde romance adolescente a façanhas do Velho Oeste passando pela ficção científica), os super-heróis estiveram durante muito tempo subrepresentados nele. Sobrevindo este facto de a editora os ter encarado sempre como um subproduto, logo ainda mais descartável do que os restantes.


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Quatro dos títulos mais emblemáticos
 da Charlton Publications.
Apesar desse seu diminuto apreço pelo género super-heroico, a Charlton já antes se aventurara na publicação de material dessa natureza. Em setembro de 1944, tinha chegado às bancas Yellowjacket, uma antologia de historietas de terror e de super-heróis com o selo da Frank Comunale Publishing Company.
Era comum nos primórdios da indústria dos quadradinhos as editoras mudarem frequentemente de nome, por forma a contornarem o racionamento de papel imposto pelo esforço de guerra e/ou para ludibriarem o Fisco. Escusado será dizer que a Charlton Comics não fugiu à regra tendo criado, além da já mencionada Frank Comunale Publishing Company, várias outras subsidiárias. Casos da Children Comics Publishing (vocacionada para o público infantil, publicou Zoo Funnies, um dos títulos de charneira da editora), da Charles Company Publishing ou ainda da Frank Publications.

Yellowjacket nº1 (1944) incluía as primeiras histórias
 de super-heróis publicadas pela Charlton.
Mantendo-se fiel ao seu perfil low cost - e sempre sob a liderança bicéfala de Levy (diretor executivo) e Santangelo (diretor financeiro) - ao longo dos anos seguintes a Charlton Comics compraria ao desbarato personagens detidas por editoras moribundas ou a braços com graves problemas de tesouraria. Entre as vítimas da sua necrofagia contam-se a Superior Comics e a Mainline Publications (fundada em tempos por Joe Simon e Jack Kirby, criadores do Capitão América), tendo ainda reclamado para si parte dos despojos mortais da Fawcett Comics*. A sua aquisição de maior monta seria, contudo, o Besouro Azul, antigo porta-estandarte do Fox Features Syndicate.
Outra das práticas pelas quais a Charlton Comics se tornou tristemente notória foi a dos baixos salários pagos aos seus colaboradores. O que não a impediu de conseguir arregimentar, na primeira metade da década de 50,  talentosos artistas e escritores aliciados pelo maior controlo criativo que a editora lhes proporcionava. Entre eles pontificavam algumas futuras lendas da Nona Arte, como Steve Ditko (cocriador do Homem-Aranha). Joe Gill (escriba prolífico) e Dick Giordano (ilustrador virtuoso e futuro editor-chefe da DC Comics). Vindo este último, como mais adiante se perceberá, a ficar inextricavelmente ligado ao curto apogeu da Charlton Comics.
Sinalizando o despontar do que se convencionou designar como a Idade de Prata da banda desenhada, em 1956 a DC Comics reformulou alguns dos seus ícones clássicos, como o Flash e o Lanterna Verde. Influenciada pelo renovado vigor assim infundido ao género super-heroico, logo em 1960 (antecipando-se à revolução trazida pela Marvel Comics a partir do ano imediato) a Charlton criou de raiz o seu primeiro super-herói: o Capitão Átomo.

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O visual original do Capitão Átomo.
Já com Dick Giordano a ocupar o posto de seu editor-chefe, entre 1965 e 1968 a Charlton Comics viveu aquele que a generalidade dos fãs e dos historiadores da Nona Arte consideram ter sido o ponto mais alto da sua carreira. Muito por conta, note-se, dos seus "heróis de ação" (action heroes, no original), designação atribuída por Giordano à nova safra de justiceiros fantasiados da editora. Além do Capitão Átomo e de uma versão recauchetada do Besouro Azul, dele faziam parte também Pacificador, Questão, Thunderbolt e Mestre Judoca, citando apenas os mais populares.
Reflexo dessa inédita aposta num género que até então sempre menosprezara, a Charlton Comics adquiriu, em paralelo, os direitos de licenciamento de Flash Gordon e do Fantasma ao King Features Syndicate. Duas personagens consagradas que, naquela época, eram sinónimo de boas vendas.
Pela mão de Dick Giordano, chegaram ainda à Charlton Comics Jim Aparo**, Dennis O'Neill (que escrevia sob o pseudónimo Sergius O’Shaughnessy) e todo um contingente de novos talentos dos quadradinhos que tiveram na editora a rampa de lançamento para as suas meteóricas carreiras. Transformada num alfobre de estrelas em ascensão, por lá passariam anos mais tarde os "galácticos" John Byrne e Jim Starlin.

Dick Giordano (1932-2010) capitaneou
 uma revolução de veludo na Charlton Comics.
Qual fogo-fátuo, o sucesso dos "heróis de ação" da Charlton Comics esfumou-se num abrir e fechar de olhos. Antes ainda da saída de Giordano para a DC no ano seguinte, em 1967 viram os seus títulos mensais serem cancelados sem apelo nem agravo. Chegava assim ao fim o curto estado de graça de uma editora que nunca foi provida dela.
Naquele que seria o seu derradeiro esforço para reviver o seu panteão super-heroico, em 1973 a Charlton Comics lançou E-Man, cujo tom humorístico das histórias captou inicialmente a atenção dos fãs. No entanto, o seu débil desempenho comercial ditaria o cancelamento da sua série ao fim de uma dezena de números publicados.
Em consequência desse revés, ao longo do resto da década de 1970 a Charlton Comics limitou-se a publicar histórias de terror (das quais os leitores pareciam não se cansar) e a reeditar material antigo do seu inventário. Especializou-se igualmente nas adaptações de séries televisivas que por aqueles dias faziam furor. Casos, por exemplo, de Bionic Woman e The Six Million Dollar Man. Prodigalizando sempre a costumeira mediocridade que, à parte o pequeno parêntesis acima descrito, foi sempre a imagem de marca da editora.

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Da TV para a BD. 
Quando se adivinhava já o seu canto do cisne, em 1983 a Charlton Comics aceitou vender à DC, por uns módicos 30 mil dólares acrescidos de royalties, os seus "heróis de ação" que vinham acumulando poeira numa qualquer gaveta. Segundo consta, ter-se-á tratado de um presente oferecido pelo então Vice-Presidente Executivo da DC, Paul Levitz, a Dick Giordano em reconhecimento pelo excelente trabalho que ele vinha desenvolvendo na Editora das Lendas.
Certamente mais do que uma infeliz coincidência, o cerrar definitivo de portas da Charlton ocorreria pouco tempo depois, em 1985. No ano seguinte,  Alan Moore expressou o seu desejo de usar os antigos "heróis de ação" da Charlton em Watchmen, aquela que seria a magnum opus do controverso escritor britânico, e uma das sagas mais memoráveis da história da Nona Arte. Intenção que esbarrou contudo na renitência dos mandachuvas da DC em alienarem a título definitivo ativos recém-adquiridos, e aos quais reconheciam potencialidades. 
Assim, não restou a Moore outro remédio senão criar pastiches descartáveis para a sua história. O Capitão Átomo transformou-se no Doutor Manhattan, o Besouro Azul no Coruja e por aí afora.

Duas faces da mesma moeda:
 os "heróis de ação" da Charlton e os Watchmen, de Alan Moore.
Quanto aos verdadeiros "heróis de ação" da Charlton, tiveram sortes diferentes. Ao passo que Capitão Átomo, Besouro Azul e Questão obtiveram lugar de destaque na mitologia da DC, de Mestre Judoca ou Pacificador restam apenas ténues reminiscências (vide texto seguinte).
Numa deliciosa ironia, seriam pois os mesmos super-heróis de que a Charlton Comics tanto desdenhou a salvá-la do ostracismo a que parecia irremediavelmente condenada.
Epitáfio inglório para uma editora cuja história é um compêndio de oportunidades desperdiçadas, mas cuja "mística" sobrevive ainda na memória afetiva de muitos fãs. E também de antigos colaboradores. Como Dick Giordano que, certa vez, resumiu de forma lapidar o legado da Charlton Comics: "Se assim o tivesse desejado, a Charlton poderia ter ombreado com a DC. Poderia ter produzido material de melhor qualidade por metade do preço. Poderia ter virado o jogo a seu favor e revolucionado a indústria dos quadradinhos. Mas os seus donos preferiram ser os reis da sucata."

*http://bdmarveldc.blogspot.pt/2017/09/fabrica-de-mitos-fawcett-comics.html
**http://bdmarveldc.blogspot.pt/2015/10/eternos-jim-aparo-1932-2005.html

Heróis de Ação

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Falar em panteão super-heroico da Charlton Comics poderá soar um tudo-nada exagerado. Quanto muito,  a editora dispôs brevemente de um lote de justiceiros fantasiados que, se não tivessem sido adquiridos pela DC, estariam muito provavelmente fadados ao oblívio. Sorte a que nem todos lograram, ainda assim, escapar.
Foi, no entanto, por intermédio dos seus "heróis de ação" que a Charlton conseguiu ser mais do que uma mera nota de rodapé na história da Nona Arte. Sendo por isso da mais elementar justiça corrigir alguns equívocos no que à propriedade original dessas personagens concerne. Isto porque, sendo verdade que nem todos correspondem a conceitos originais da editora, também não é menos verdade que alguns continuam a ser erroneamente creditados à DC, como se sempre tivessem sido sua pertença.
Importa por isso dar a conhecer um pouco melhor alguns dos lendários "heróis de ação" da Charlton Comics, mormente aqueles que serviram de modelo aos Watchmen, de Alan Moore.

Besouro Azul (Blue Beetle): Sem dúvida o mais acarinhado dos "heróis de ação" da Charlton, pertenceu originalmente à Fox Comics. Apesar da assinalável popularidade de que gozou durante a Idade do Ouro, não conseguiu reeditá-la sob o selo da nova editora. Joe Jill e Steve Ditko foram por isso incumbidos de desenvolver uma sua nova versão que debutou em Captain Atom nº83 (novembro de 1966). A nova velha personagem depressa conquistaria a simpatia dos fãs. Em Watchmen (saga e filmes já aqui esmiuçados) teve como contraparte o Coruja. Prontuário detalhado em http://bdmarveldc.blogspot.pt/2015/09/herois-em-acao-besouro-azul.html ;

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Ted Kord,
o segundo Besouro Azul.

Capitão Átomo: O primeiro super-herói original da Charlton Comics e um dos poucos com superpoderes. Também ele saído da imaginação da dupla Joe Gill/Steve Ditko, na sua estreia em Space Adventures nº33 (março de 1960) surgia com um uniforme azul na capa e um dourado no interior da revista. Um erro de impressão que atesta bem o descaso com que este ramo da Charlton Publications tratava os seus produtos. Na DC, o Capitão Átomo teve a sua identidade civil e visual alterados.  Foi nele que Moore se inspirou para criar o Doutor Manhattan. Podem saber mais sobre este herói em http://bdmarveldc.blogspot.pt/2013/05/herois-em-acao-capitao-atomo.html ;

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Os três uniformes do Capitão Átomo na Charlton.

Mestre Judoca (Judo Master): Mestre das artes marciais e ex-veterano da II Guerra Mundial, foi uma criação de Joe Jill e Frank McLaughlin. Estreou-se em Special War Series nº4 (novembro de 1965), ganhando pouco tempo depois um parceiro juvenil chamado Tigre. Após diversas modificações impostas pela DC, na sua versão mais recente é uma mulher chamada Sonia Sato;

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Lutador invencível.

Pacificador (Peacemaker): Dividia o seu tempo entre o trabalho diplomático como emissário dos EUA na Conferência de Genebra e o combate ao crime como um implacável vigilante urbano. Conceito desenvolvido por Joe Jill e Pat Boyette, fez a sua primeira aparição em Fightin'5 nº40 (novembro de 1966) antes de ganhar um título próprio que duraria apenas 5 números. Serviu de modelo ao cínico Comediante dos Watchmen;

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Paz armada.

Questão (Question): Mesmo sem nunca ter tido direito a uma série em nome próprio, esta criação de Steve Ditko (vista pela primeira vez em junho de 1967, nas páginas de Blue Beetle nº1) foi um dos mais bem-sucedidos "heróis de ação" da Charlton. Popularidade reforçada aquando da sua passagem para a DC, onde ganhou finalmente um título só para si. Teve o seu figurino e modus operandi replicados por Rorschach;

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Justiça sem rosto.

Sombra da Noite (Nightshade): Único elemento feminino do contingente original de "heróis de ação", conseguiu na DC (onde começou por ser integrada no Esquadrão Suicida) a notoriedade que lhe faltou na Charlton. Criação de David Kaler e Steve Ditko, esta teleportadora capaz de gerar sombras vivas estreou-se em Captain Atom nº82 (setembro de 1966). Foi uma das três heroínas clássicas que estiveram na origem da Espectral dos Watchmen (as outras duas foram Lady Fantasma e Canário Negro);

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Sombra viva.

Thunderbolt: Após atingir o ápice físico e mental, este órfão americano criado por monges tibetanos enveredou por uma carreira como combatente do crime. Tendo feito a sua primeira aparição em Peter Cannon, Thunderbolt nº1 (agosto de 1966), os créditos da sua criação pertencem a Peter Morisi. Ozymandias foi diretamente baseado nele, porém nunca conseguiu vingar na DC. É atualmente propriedade da Dynamite Entertainment;

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Ás de ação.

E-Man: Uma entidade alienígena composta por pura energia que podia assumir forma humana. Criado por Nicola Cuti e Joe Staton foi introduzido em E-Man nº1 (outubro de 1973). O registo humorístico das suas aventuras contribuiu em larga medida para o seu efémero sucesso. Apesar de não ser sido incluído no lote de personagens vendidas à DC, a First Comics tentaria revivê-lo nos anos 80;

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A ciência do humor.

Filho de Vulcano (Son of Vulcan): A resposta da Charlton Comics ao Poderoso Thor, da Marvel. Sempre que gritava "Vulcano, ajuda-me!", o repórter de guerra Johnny Mann transformava-se no formidável campeão dos Deuses Romanos. Estreou-se em Mysteries of Unexplored Worlds nº46 (maio de 1965) e teve em Pat Masulli e Bill Fraccio os seus autores. Adquirido pela DC, esteve em grande plano na saga Guerra dos Deuses (War of the Gods, 1991) antes de passar o manto a um Vulcano adolescente.

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Gladiador dos tempos modernos.

Um grande bem-haja ao meu bom e talentoso amigo Emerson Andrade. É da sua autoria a magnífica montagem que abre este artigo.