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sexta-feira, 15 de maio de 2015

DO FUNDO DO BAÚ: "O CONTRATO DE JUDAS"




   Caçados um a um por um novo e implacável inimigo, os Titãs perdem a inocência depois de provarem o fruto amargo da insídia. Coincidindo com fase áurea da equipa de jovens heróis, a saga, tectónica e polémica, continua a ser considerada uma das melhores de sempre.

Título original: The New Teen Titans: The Judas Contract
Ano: 1984
Licenciadora: DC Comics
Argumento: Marv Wolfman e George Pérez
Arte: George Pérez, Dick Giordano, Romeo Thangal, Mike DeCarlo e Adrienne Roy
Personagens principais: Titãs (Estelar, Ravena, Asa Noturna, Mutano, Cyborg e Moça-Maravilha); Exterminador, Terra, Jericó e C.O.L.M.E.I.A.
Coadjuvantes: Adeline Kane; Sarah Simms; Terry Long; W.R. Wintergreen; Renegados (Batman, Raio Negro, Halo, Metamorfo, Katana e Geoforça) 
Títulos abrangidos nos EUA: Tales of the Teen Titans nº42 a 44 (maio a julho de 1984) e Tales of the Teen Titans Annual nº3 (julho do mesmo ano)

Os quatro capítulos da saga.

VERSÃO EM PORTUGUÊS

Editora: Abril 
Títulos abrangidos no Brasil: Os Novos Titãs nº 18 a 20 (outubro a novembro de 1987) e Clássicos DC (reedição da saga lançada em 1992 pela mesma editora)
Na minha coleção desde: 1988


Reedição da saga com a chancela da Abril em 1992.

Histórico: Saga composta por quatro partes, O Contrato de Judas foi originalmente publicada nos EUA nos números 42 a 44 da série regular dos Titãs - Tales of the New Teen Titans -, de maio a julho de 1984. Com o respetivo epílogo a ser narrado, nesse mesmo mês, nas páginas de Tales of the Teen Titans Annual nº3.
  Escrita e editada por Marv Wolfman e George Pérez (ver texto anterior), foi também este último a presidir à equipa de ilustradores responsáveis pela arte da saga. Nesse naipe de desenhadores de primeira grandeza, pontificavam, além de Pérez, Dick Giordano, Romeo Thangal, Mike DeCarlo e Adrienne Roy.

 Pérez & Wolfman:  Duo Dinâmico.

   Quatro anos decorridos, em 1988, a saga seria compilada no volume encadernado New Teen Titans: The Judas Contract. Entre os leitores, este arco de histórias é quase unanimamente citado como o clímax do trabalho desenvolvido por Wolfman e Pérez com os Titãs. O Contrato de Judas é, com efeito, o corolário de uma complexa filigrana narrativa que começou a ser trabalhada com a precisão de um ourives, logo no segundo número da primeira série de New Teen Titans. Nessa edição, datada de dezembro de 1980, foram introduzidas duas das personagens-chave da trama: o mercenário conhecido como Exterminador e a organização terrorista com projetos de dominação mundial autodenominada C.O.L.M.E.I.A.

New Teen Titans nº2 (1980), marcou a estreia do Exterminador e plantou as sementes para O Contrato de Judas.

   Esta narrativa é significativa por várias razões. Em primeiro lugar, porque dá a conhecer a origem secreta do Exterminador, muito provavelmente o mais notório némesis dos Titãs. Depois, porque explana os termos do contrato que vincula o mercenário à C.O.L.M.E.I.A. Com a destruição desta última a ser revelada pouco tempo após o desfecho da saga, em Tales of the Teen Titans nº45 a 47.
   Terra, a comparsa do Exterminador na ignomínia que visa subjugar os Titãs, fora, por sua vez, introduzida em New Teen Titans nº26. Depois de se ter tornado assídua nas aventuras da equipa, a irmã caçula de Geoforça acabaria por ser admitida nas suas fileiras.Apenas para se revelar um cavalo de Troia  plantado por Slade Wilson, com quem mantinha um relacionamento íntimo. Residindo, aliás, neste elemento transgressor um dos aspetos mais controversos da história: o envolvimento sexual entre um homem de meia-idade e uma adolescente de apenas 16 anos. Inevitavelmente, algumas mentes mais puritanas (ou poluídas) viram aqui um despudorado incentivo à pedofilia.

Terra Markov, a maçã podre.


  Adeline Kane (ex-mulher de Slade Wilson) e Joey Wilson (o segundo filho do casal) são outras duas adições importantes na trama e na própria continuidade dos Titãs. Na sequência dos eventos narrados na saga, Joey assume a identidade de Jericó e torna-se membro de pleno direito da equipa. À sua mãe ficaria, por outro lado, reservado o papel de coadjuvante regular nas histórias vindouras dos Titãs.
  Outro marco histórico apresentado no decurso da saga consiste na primeira aparição de Dick Grayson como Asa Noturna (vide prontuário da personagem já publicado neste blogue).
  Com tão suculentos ingredientes, estava, assim, encontrada a receita para um épico dos tempos modernos. Nada voltaria a ser como antes na vida dos Titãs após a conclusão desta tectónica saga, com a assinatura daquela que foi, sem sombra de dúvida, uma das mais formidáveis duplas criativas da história da nona arte: Marv Wolfman e George Pérez.

Asa Noturna, Exterminador e Jericó: três personagens nucleares da trama.
    
Enredo: A história começa pouco tempo depois de Dick Grayson (Robin) e Wally West (Kid Flash) abandonarem as respetivas identidades heroicas com que se haviam notabilizado ao lado dos seus precetores, afastando-se também ambos da equipa de que haviam sido cofundadores. Entretanto, a mais recente aliada dos Titãs, Terra Markov, não tendo ainda obtido o estatuto de membro de pleno direito do grupo, conquistara já o coração e a mente de Mutano. Nenhum dos seus colegas suspeitava, porém, que ela os estivesse a espiar a mando do Exterminador, seu comparsa e amante. Entre a diversificada informação que a jovem vinha transmitindo ao vilão, incluíam-se as identidades secretas dos Titãs.
  O primeiro sinal de alerta em relação a Terra surgiu durante a realização de um treino de campo da equipa. Após ter sido alvo de várias brincadeiras de Mutano, a jovem lançou sobre ele um violento ataque que só por milagre não o deixou incapacitado para o resto da vida. Semelhante demonstração de instabilidade emocional deixa os restantes membros inquietos. É, no entanto, Ravena quem, graças aos seus poderes empáticos, diagnostica o real grau de perigosidade da rapariga.

O fim da inocência dos Titãs chegou com a traição de um dos seus.
  Uma vez recolhida toda a informação de que necessitava, Terra transmite-a ao Exterminador, que logo empreende uma meticulosa caçada aos Titãs. Na mira do mercenário começa por estar a cobertura onde residem Donna Troy (Moça-Maravilha) e Koriander (Estelar). A primeira é deixada inconsciente devido à exposição a uma mistura de gases tóxicos, ao passo que a segunda é neutralizada pela deflagração de uma bomba disruptora.
  Na lista de alvos a abater segue-se Cyborg. Victor Stone é deixado fora de combate depois de receber uma descarga elétrica de alta voltagem ao sentar-se numa cadeira no seu apartamento, previamente armadilhada pelo Exterminador. Mesmo sem causar danos de monta no herói cibernético, o ataque desativa-lhe os circuitos por tempo suficiente para o Exterminador o capturar.
  Único Titã sem superpoderes, Dick Grayson revela-se uma verdadeira dor de cabeça para o Exterminador. Surpreendido pela astúcia da sua presa, o mercenário não consegue evitar que ele escape.
  Frustrado, o Exterminador atravessa a cidade no encalço de Mutano. E nem precisa mexer um dedo para capturar o benjamim dos Titãs. Depois de lamber um selo embebido em veneno, o jovem ficara inconsciente e pronto a ser recolhido pelo vilão.

Fazendo uso dos ensinamentos de Batman, Dick Grayson logra escapar ao Exterminador.

 Com cinco dos seis Titãs capturados, o Exterminador viaja até à base secreta da C.O.L.M.E.I.A., localizada nas Montanhas Rochosas. Satisfeito por ter cumprido o contrato que fora celebrado pelo seu filho mais velho, Grant, o mercenário não evita ser repreendido pelos seus empregadores, agastados com a fuga do líder do grupo.
  Entretanto, após descobrir que todos os seus companheiro foram sequestrados, Dick Grayson regressa à Torre Titã. À sua espera tem Adeline Kane, a ex-esposa de Slade Wilson. Esta apresenta-o então ao filho mais novo do casal, Joey. De seguida, a mulher faz uma revelação bombástica: Terra é uma espia infiltrada nos Titãs pelo Exterminador.
  Incrédulo num primeiro instante, Dick acaba por acreditar nas palavras de Adeline, depois de esta lhe relatar as circunstâncias que estiveram por trás da transformação do ex-marido no Exterminador. Surdo-mudo de nascença, Joey é também um mutante com a habilidade de possuir outras pessoas. Ressentido com o  pai, o jovem está ansioso por ajudar Dick a derrotá-lo.
  Consciencializando-se de que não lhe será possível abandonar a sua carreira heroica a título definitivo, Dick assume uma nova identidade: Asa Noturna. Joey, por seu turno, está pronto para entrar em ação sob o codinome Jericó. Ambos partem para o resgate dos Titãs assim que recebem de Adeline as coordenadas do quartel-general da C.O.L.M.E.I.A.

Mutano apaixonou-se pela rapariga errada.
   Asa Noturna e Jericó infiltram-se na base secreta da organização e logo descobrem que os Titãs estão ligados a uma estranha máquina que lhes drena lentamente a energia vital. Confrontados por uma horda de agentes da C.O.L.M.E.I.A., os dois heróis acabam também capturados.
   Atónito por ver o seu filho aliado aos Titãs, o Exterminador procura negociar a sua libertação com a C.O.L.M.E.I.A. Perante a recusa desta e a hesitação do mercenário, Jericó aproveita o ensejo para possuir o próprio pai.
   Usando o corpo e o arsenal do Exterminador, Jericó consegue libertar os Titãs, liquidando de caminho diversos operacionais da C.O.L.M.E.I.A. Terra tem um acesso de fúria ao presenciar a cena, por considerar que a afeição de Slade ao filho o enfraquece. Completamente descontrolada, a jovem lança um ataque massivo com o objetivo de matar todos à sua volta. Apesar disso, Mutano, ainda enamorado dela, recusa-se a acreditar na malícia de Terra, sugerindo que o Exterminador lhe terá feito uma lavagem ao cérebro.
  Num crescendo de loucura e raiva, Terra provoca o desabamento do teto das instalações, ficando soterrada pelos destroços. Com os Titãs escaparem por um triz de idêntico destino.
   De volta a Nova Iorque, os Titãs realizam o funeral de Terra. À cerimónia fúnebre, além deles, apenas comparecem os Renegados. Geoforça, irmão mais velho da malograda jovem, é levado a acreditar que ela perdeu a vida de forma heroica.


Fúria telúrica.

Vale a pena ler?
   
   Atendendo ao facto de que estamos em presença de uma das melhores sagas da história da DC e da nona arte, a resposta à pergunta acima só poderá ser um rotundo "sim.". Devendo, portanto, ser considerada leitura obrigatória para qualquer fã dos Titãs e/ou do trabalho conjunto de Marv Wolfman e George Pérez.
  Dos variadíssimos pontos de interesse da narrativa, começo por destacar um em particular: a clareza desde o início das perversas intenções de Terra. Contrariamente ao que seria expectável, o leitor nunca duvida que ela irá trair os seus companheiros de equipa. Tornando-se, assim, uma testemunha ocular das maquinações em curso nos bastidores da intriga. Quem lê a história pela primeira vez é, ainda assim, induzido a acreditar num possível volte-face da personagem, abrindo desse modo caminho para um desfecho redentor. Esperanças, contudo, infundadas, pois a má índole da pequena Judas prevalece até ao fim.
  Outro ponto interessante, também relacionado com Terra, é a sua idade. Mesmo não sendo surpreendente que uma saga estrelada por heróis juvenis conte com uma personagem de apenas 16 anos, não deixa ser assinalável a sua erotização. Se à luz dos padrões morais da atualidade um romance entre uma adolescente e um homem com idade para ser seu avô é suscetível de reprovação social, imagine-se o impacto do mesmo três décadas atrás. Espanta-me, aliás, como terá esse e outros elementos da história (como o facto de Terra surgir várias vezes a fumar e a beber) passado no crivo da Comics Code Authority. 


Terra e Exterminador: farinha do mesmo saco.
  
  Creio que, ao invés do que fizeram com o Exterminador - apetrechando-o com um código de honra e um peculiar sentido de humor - Wolfman e Pérez nunca quiseram suavizar os traços do (mau) caráter de Terra, por forma a torná-la um pouco mais simpática aos olhos dos leitores.
  Fluida e dinâmica, a escrita de Marv Wolfman é igualmente competente na formulação dos diálogos e na caracterização das personagens. Conquanto se trate de uma história de super-heróis e supervilões, a cada um deles é atribuída uma personalidade consistente com a de pessoas de carne e osso. Wolfman tem ainda o mérito de evitar sucessivas recapitulações da história, quase inevitáveis quando a mesma é contada em capítulos interpolados por um mês.
  Focando-me agora na arte da saga, sou suspeito na minha apreciação da mesma, na medida em que George Pérez é um dos meus desenhadores preferidos. Dito isto, apenas posso classificar de esplêndido mais este seu trabalho. Realço particularmente o seu esmero em retratar de forma distinta a fisionomia e a personalidade de cada um dos protagonistas. Embora subtis, são percetíveis as diferenças nas suas expressões faciais e maneirismos. Notável também a capacidade de Pérez de acumular vários painéis numa só página sem, contudo, a deixar confusa. Sendo essa, de facto, uma das suas marcas registadas, como ficou comprovado em Crise nas Infinitas Terras.
  Um dos aspetos mais memoráveis da passagem de Wolfman e Pérez pelos Titãs, foi o sentimento e humanismo infundidos nas histórias do grupo. O Contrato de Judas pode muito bem ter sido o melhor exemplo disso, robustecendo por essa via o seu valor literário. Mesmo se perspetivada como uma clássica narrativa com super-heróis, a saga distingue-se pela sua profundidade e dramatismo.
  Motivos mais do que suficientes para me orgulhar de ter esta magnífica pérola da nona arte na minha coleção e para recomendar a sua leitura aos iniciados neste saudável vício de ler banda desenhada de qualidade.

Os Titãs sobreviveram à traição de Terra, mas nada voltaria a ser como dantes.
   


terça-feira, 5 de maio de 2015

ETERNOS: GEORGE PÉREZ (1954 - ...)



    Um dos mais talentosos e idolatrados artistas ainda no ativo, atingiu o apogeu ao serviço da DC, ficando o seu nome associado à mãe de todas as sagas produzidas pela Editora das Lendas. No entanto, os primeiros passos na indústria dos quadradinhos foram dados na eterna rival.

Biografia e carreira: Primogénito de um modesto casal de imigrantes porto-riquenhos que se conheceu em terras do Tio Sam, George Pérez nasceu a 9 de junho de 1954 no Bronx, Nova Iorque. Menos de um ano depois, nasceria David, o seu irmão mais novo. Aspirando ambos a uma carreira artística, foi contudo George a revelar um talento precoce para a ilustração. Com apenas cinco anos, começou a desenhar, para assombro dos pais (ele operário numa fábrica de embalamento de carne; ela dona de casa a tempo inteiro).
   Corria o ano de 1973 quando George Pérez teve o seu primeiro contacto com a indústria dos comics, na qualidade de assistente do artista Rich Buckler (celebrizado pelo seu trabalho com o Pantera Negra). Em agosto do ano seguinte, George estreou-se como profissional ao serviço da Marvel Comics, para a qual desenhou uma sátira de duas páginas de Deathlok (personagem  cuja paternidade pertencia justamente a Buckler), publicada em Astonishing Tales nº25.
   O talento do jovem artista não passou despercebido aos mandachuvas da Casa das Ideias. Em pouco tempo, George assumiria a arte de Sons of the Tiger, série de artes marciais escrita por Bill Mantlo e há muito publicada no magazine pulp Deadly Hands of Kung Fu, inserido na linha de títulos a preto e branco da Marvel.
   Aproveitando a enorme popularidade nessa época das histórias envolvendo artes marciais, George e Bill criaram em conjunto o Tigre Branco. Embora se tenha estreado nas páginas de Deadly Hands of Kung Fu, aquele que foi o primeiro super-herói porto-riquenho logo migraria para os títulos coloridos da editora, fazendo várias aparições nas histórias do Homem-Aranha.

Deadly hands of kung fu 1975.jpg

Primeira cocriação de Pérez, o Tigre Branco debutou nas páginas de Deadly Hands of Kung-Fu (em cima).

   Na segunda metade da década de 70, George Pérez ganhou maior projeção por via do seu trabalho em The Avengers (série mensal que desenharia entre 1975 e 1980). Durante esse período emprestou o seu traço a várias outros títulos regulares da Marvel, designadamente The Inhumans, Creatures on the Loose (revista dedicada ao sobrenatural, na qual pontificava o Homem-Lobo) e Fantastic Four. Foi, de resto, numa edição anual do Quarteto que George colaboraria pela primeira vez com o escritor Marv Wolfman (ver biografia já publicada neste blogue). Anos depois, a dupla, conforme veremos adiante, seria responsável por algumas das mais bem-sucedidas sagas da DC.
Os Vingadores pelo traço de George Pérez.
   Em 1980, enquanto continuava a desenhar as histórias dos Vingadores - e já depois de ter cocriado com David Michelinie o vilão conhecido como Treinador (Taskmaster em inglês) - George Pérez começou a trabalhar simultaneamente para a DC. Sondado para assumir a arte de The New Teen Titans - a mais recente aposta da editora para recuperar algum do terreno perdido para a concorrência -, aquilo que verdadeiramente o aliciou foi a perspetiva de poder vir a desenhar a Liga da Justiça, algo que ele considerava ser uma extensão natural do seu duradouro trabalho com os Vingadores.
   Num golpe de asa do Destino, o veterano artista de JLA, Dick Dillin, faleceu pouco depois da mudança de Pérez para a DC.Chamado a substituir o malogrado colega, Pérez logo encantou os fãs com o seu traço límpido e dinâmico.

Depois dos Vingadores, a Liga da Justiça. Poucos artistas tiveram o privilégio de desenhar duas das mais emblemáticas equipas de super-heróis da 9ª arte..

  Naquilo que pretendia ser a resposta da DC ao estrondoso sucesso dos X-Men à época, em 1980 foi lançada uma nova encarnação dos Titãs. Projeto que marcaria o auspicioso reencontro de George Pérez com Marv Wolfman. Em agosto de 1984, o surpreendente êxito de The New Teen Titans abriu caminho para uma segunda série, também ela produzida pela dupla-maravilha.
  Com o tempo, Pérez foi aprimorando a sua arte, evidenciando uma crescente facilidade em desenhar cenários, rostos e outros detalhes que faziam as delícias dos leitores, e que o elevaram ao estrelato. Ao longo da sua longa e próspera carreira, Pérez revelou, com efeito, uma especial predileção por desenhar coletivos super-heroicos. Com alguns desses trabalhos a serem premiados e a servirem de referência a outros artistas.

A icónica capa de The New Teen Titans nº1(1980) com arte de Pérez.
  Em finais de 1984, Pérez abandonou as histórias dos Titãs para se juntar a Marv Wolfman no ambicioso projeto editorial que a  DC tinha na calha para assinalar o seu cinquentenário: a monumental saga Crise Nas Infinitas Terras. Trabalho que, na opinião de muitos, foi a obra-prima do artista de ascendência porto-riquenha.
  No período pós-Crise, George Pérez voltaria a formar equipa com Marv Wolfman para, em novembro de 1986, produzir The History of the DC Universe, compêndio ilustrado que sumariava a nova continuidade da Editora das Lendas.
Crise nas Infinitas Terras deixou a indústria e os fãs de comics definitivamente rendidos ao  talento de George Pérez.
   Escolhido em 1987 para assumir a arte do novo título da Mulher-Maravilha, George Pérez inspirou-se nos trabalhos de John Byrne e Frank Miller - em Superman e Batman, respetivamente -, para dar um novo alento às histórias da Princesa Amazona Numa fase inicial, teve como parceiros criativos os escritores Greg Potter e Len Wein, acabando no entanto Pérez por assumir também o argumento. Sob a sua batuta, foram reforçados os laços da Mulher-Maravilha com os deuses gregos, com as histórias da heroína a serem igualmente depuradas de corpos estranhos introduzidos no pré-Crise.
  Ainda que não tão impactante como The New Teen Titans ou Crisis on Infinite Earths, a nova série da Mulher-Maravilha foi bem-sucedida no seu propósito de revitalizar aquela que, a par do Super-Homem e do Batman, é uma das figuras de proa da DC. A ligação de Pérez a Wonder Woman prolongar-se-ia por cinco anos (1987-1992), embora em metade desse tempo apenas na qualidade de argumentista.

Wonder Woman foi o segundo trabalho produzido por Pérez na ressaca da Crise.

   Em dezembro de 1988 - e já depois da série ter sido renomeada The New Titans -George Pérez voltou às histórias dos Titãs, na dupla qualidade de desenhador e coargumentista. Esta sua segunda passagem pelo título ficaria marcada pela nova origem da Moça-Maravilha (atando assim uma das pontas soltas de Crise nas Infinitas Terras) e pela introdução de Tim Drake como o terceiro Menino-Prodígio.
   Seguir-se-ia, em meados de 1989, uma meteórica passagem de Pérez por Action Comics e Adventures of Superman (aqui como argumentista). Não tendo, porém, sido este o seu primeiro contacto com as histórias do Homem de Aço. A ligação de Pérez ao herói kryptoniano começara, com efeito, meia dúzia de anos antes, em junho de 1983, quando concebeu a icónica armadura de combate de Lex Luthor em Action Comics nº544.

O traje blindado de Luthor ( idealizado por George Pérez e, nesta imagem, com arte de Gil Kane e Dick Giordano) permitia ao vilão equilibrar um pouco as coisas com o Homem de  Aço.

  Devido à sobrecarga de trabalho decorrente da sua colaboração simultânea com Wonder Woman e Action Comics, Pérez viu-se forçado a abandonar este último em abril de 1990. No ano seguinte, a relação do artista com a DC conheceu uma fase delicada. Na origem desse frisson estiveram essencialmente dois fatores: por um lado, Pérez considerava que a editora não estava tão empenhada como deveria em assinalar os 50 anos da Mulher-Maravilha; por outro, a decisão da DC em distribuir a saga War of the Gods (escrita por Pérez) usando apenas o circuito de lojas especializadas desagradou ao artista.
  As tensões foram-se acumulando e, quando os editores da DC resolveram substituir Pérez por William Messner-Loebs como argumentista de War of the Gods, foi a gota de água que fez transbordar o copo. Inconformado com a decisão, Pérez desistiu do projeto e divorciou-se da Editora das Lendas por vários anos. Na base desse ressentimento do artista, esteve também o facto de ter sido atribuída ao seu sucessor a missão de escrever a cena final da saga apresentando o casamento das personagens Steve Trevor e Etta Candy (ideia cujos créditos pertenciam a Pérez).
  Ainda em 1991, Pérez foi contratado pela Marvel para desenhar os seis capítulos da saga Infinity Gaunlet (Desafio Infinito, minissérie editada pela Abril em 1995) da autoria de Jim Starlin. As coisas não correram, porém, como esperado. Em consequência da turbulência ocorrida em War of the Gods, e coincidindo com um período atribulado da vida pessoal de Pérez, este apenas conseguiu finalizar quatro dos seis volumes previstos da saga. Cabendo, assim, a Ron Lim desenhar os outros dois. Apesar de Pérez se ter disponibilizado para assessorar o seu substituto, os editores da Casa das Ideias acharam por bem afastá-lo do projeto.
   Em virtude destes dois episódios, George Pérez ganhou a fama de ser um artista virtuoso, porém incapaz de levar os seus projetos até ao fim. Colocado na prateleira pelas duas principais licenciadoras, Pérez virou-se então para as editoras independentes.
   Na Malibu Comics desenhou Break-Thru e Ultraforce (títulos que integravam o chamado Ultraverso). Ao passo que na Tekno Comix foi responsável pelas ilustrações de I-Bots. Embora principescamente pago, Pérez não se sentia empolgado com as personagens que tinha em mãos e logo perderia o interesse em colaborar com os respetivos títulos.



Duas máculas no currículo de Pérez.
   Afastado dos holofotes ao longo dos primeiros anos da década de 1990 - ainda que tenha participado em diversos projetos nesse período - Pérez regressaria à Casa das Ideias em finais de 1992 para desenhar o arco de histórias Hulk: Future Imperfect (Hulk: Futuro Imperfeito) escrito por Peter David. Com este a eleger Pérez como seu ilustrador favorito, e um dos três cuja arte conseguia materializar na perfeição as suas ideias e conceitos.
   Feitas finalmente as pazes com a DC, Pérez regressou à Editora das Lendas, em outubro de 1996, para assumir a arte-final de Dan Jurgens nos primeiros 15 números de Teen Titans vol.2 (série que seria cancelada em setembro de 1998, ao cabo de 24 edições).
   A exemplo de muitos dos seus colegas de ofício nos anos 1990, Pérez também se aventurou na criação de material próprio. Com os resultados a ficarem, porém, aquém das expectativas. Publicada originalmente em 1997 pela defunta Event Comics, Crimson Plague era uma inacabada novela gráfica de ficção científica protagonizada por uma alienígena com sangue tóxico. Três anos volvidos, e já sob a égide da Gorilla Comics, o primeiro número da série seria reeditado sendo-lhe adicionadas algumas páginas inéditas.

Outro dos projetos inacabados de Pérez.
  Seria ainda lançado um segundo número de Crimson Plague antes de os elevados custos da autoedição levaram Pérez a desistir do projeto, desconhecendo-se até hoje se tencionaria fazer algo mais com esse material.
  No início deste século, a sua passagem pela CrossGen também não correu de feição, visto que a editora faliu poucos meses depois de Pérez ter sido contratado para desenhar o seu título de charneira, Solus.
  Encerrado esse parêntesis na sua carreira profissional, o regresso de Pérez à ribalta ocorreu na viragem do século ao serviço da Marvel. Em 1999, juntou-se ao escritor Kurt Busiek na muito ovacionada terceira série de The Avengers. Como nos bons velhos tempos, a arte de Pérez deixou os fãs extasiados, ao ponto de eles o absolverem dos seus pecadilhos passados.
  Quando, três anos depois, Pérez deixou o título, teve ainda tempo e energia para, em conjunto com Busiek, produzir o há muito aguardado crossover entre a Liga da Justiça e os Vingadores. Dado à estampa em 2003, as origens deste projeto comum da Marvel e da DC remontam ao princípio dos anos 1980. Cancelado devido a divergências entre as duas editoras, a sua versão original contava com 21 páginas desenhadas por Pérez, as quais seriam inclusas, em 2004, na edição encadernada da saga.

Pérez sentiu-se como peixe na água a desenhar o épico JLA/Avengers. 
   Em 2011, cinco anos após o seu mais recente regresso à DC (em efervescência devido aos Novos 52!), Pérez tornou-se argumentista de Superman, assegurando também a arte das capas. Paralelamente, num projeto que reuniu a equipa criativa responsável pelo êxito dos Novos Titãs em meados da década de 1980, ele e Marv Wolfman produziram a aclamada graphic novel New Teen Titans: Games.
  Pérez justificou, em julho de 2012, a sua saída extemporânea do título do Homem de Aço (do qual escreveu somente 6 números) com a enorme pressão editorial a que foi submetido. Uma das suas principais razões de queixa assentava na incapacidade dos seus editores em explicarem-lhe alguns aspetos básicos da nova continuidade do herói (como o facto de os seus pais adotivos estarem ainda vivos). Incoerências a que se somavam as dificuldades de articulação com o outro título do herói, Action Comics (escrito à época por Grant Morrison), ambientado cinco anos antes dos eventos narrados em Superman.


George Pérez foi um dos obreiros da reformulação do Super-Homem em Os Novos 52.

   Casado há mais de 30 anos com a ex-bailarina e atual professora de dança, Carol Flynn, George Pérez é diabético, tendo já sido submetido a uma operação à retina. Acumula as funções de diretor-adjunto da The Hero Initiative (projeto filantrópico patrocinado pela indústria dos comics) com o seu trabalho artístico. Aos 60 anos e com um currículo invejável, não pensa na reforma. Diz também não ter qualquer personagem favorita. Conhecida a sua preferência por desenhar magotes de heróis, talvez o bom e velho George acredite que, por vezes, quantidade é realmente sinónimo de qualidade.
  Independentemente do que o futuro lhe reserva, pelo seu extraordinário talento e pelo seu inestimável contributo à 9ª arte, George Pérez já garantiu há muito o seu lugar no Olimpo dos deuses da banda desenhada.

Autorretrato do Mestre.
Prémios e distinções: Sem surpresa, ao longo da sua prolífica carreira, George Pérez viu vários dos seus trabalhos distinguidos tanto pelos seus pares como pelos fãs. O primeiro prémio por ele arrebatado data de 1979: um Eagle Award para o melhor arco de histórias (The Avengers nº167, 168 e 170 a 177). Feito reeditado no ano seguinte e em 1986, nas categorias de, respetivamente, melhor arte de capa (ainda com Avengers) e artista favorito do público. Pelo meio, em 1983, recebeu um Inkpot Award para melhor ilustrador.
  Verdadeiro ano de ouro para Pérez, 1985 marcou a sua consagração definitiva: ao mesmo tempo que o seu nome era incluído na lista das 50 personalidades homenageadas pela DC no seu cinquentenário, Crise nas Infinitas Terras conquistava o Jack Kirby Award para melhor saga (galardão dividido com Marv Wolfman e reconquistado em 1986).
  Por três anos consecutivos (1985, 1986 e 1987), Pérez foi eleito pelo Comics Buyer's Guide (espécie de boletim periódico que dá a conhecer as preferências dos fãs) como o melhor ilustrador de capas. Ainda a enriquecer o seu impressionante portfólio, outros três prémios para melhor artista atribuídos pelo mesmo CBG nos anos de 1983, 1985 e 1987. Aos quais se somam muitos outros que - a título individual ou coletivo - distinguem o seu trabalho artístico. Indiferente a esta glorificação, Pérez conserva a sua humildade,sendo conhecido pela sua simpatia militante. Virtudes que fazem dele um artista de tarimba e um homem de caráter.



   

sexta-feira, 17 de abril de 2015

GALERIA DE VILÕES: DUAS-CARAS




  Bem ou mal? Vida ou morte? Cara ou coroa? Para este velho inimigo do Batman, personificação fascinante da dualidade da natureza humana, o destino é ditado pelo lançamento de uma moeda ar. Sentem-se com sorte?

Nome original da personagem: Two-Face
Criadores: Bob Kane (conceito) e Bill Finger (desenvolvimento)
Primeira aparição: Detective Comics nº66 (agosto de 1942)
Licenciadora: Detective Comics (DC)
Identidade civil: Harvey Dent
Local de nascimento e base de operações: Gotham City
Parentes conhecidos: Gilda Dent (ex-esposa) e Duela Dent (filha)
Afiliação: Liga da Injustiça e Sociedade do Submundo
Armas, poderes e habilidades: Antes da sua transformação em Duas-Caras, Harvey Dent era reputado como um dos mais brilhantes e honestos promotores de Gotham City, especializado em intrincados casos de investigação criminal. Apesar da insanidade que derivou da sua desfiguração, o seu intelecto manteve-se intacto. Conservando, portanto, as suas excecionais capacidades analíticas e dedutivas, que fazem dele um génio criminoso.
   Em tempos treinado pelo Exterminador e pelo próprio Batman, o Duas-Caras é cinturão negro de Kung Fu e um exímio atirador (é, de resto, comum ele usar armas de fogo de diferentes calibres). Aptidões que fazem dele um dos mais temidos e influentes patrões do crime organizado de Gotham, tendo como principal concorrente o Pinguim.
Fraquezas: Estas consistem essencialmente na personalidade bipolar do Duas Caras e na total dependência do vilão em relação à sua moeda riscada para a tomada de decisões.

As duas faces da mesma moeda.
Conceção e desenvolvimento: Na sua autobiografia, Bob Kane (a par de Bill Finger, cocriador de Batman e Duas-Caras), assume ter-se inspirado no clássico literário The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde (vulgo O Médico e o Monstro), escrito por Robert Louis Stevenson em 1886, para a conceção daquele que viria a ser um dos antagonistas clássicos do Cruzado Encapuzado. Mais especificamente, no filme homónimo de 1931 que Kane assistira na infância. Outra das influências no desenvolvimento da personagem remete para a cultura pulp dos anos 1930, designadamente para Black Bat. Tratando-se este de um herói muito popular entre os fãs desse tipo de publicações que, tal como Harvey Dent, teve o seu rosto desfigurado por ácido.

Bob Kane, cocriador de Batman e também do Duas Caras.

  Mercê de sucessivas modernizações do conceito primordial, nos anos mais recentes o Duas-Caras tem sido retratado como um indivíduo atormentado pela esquizofrenia, bipolaridade  e por um severo transtorno de personalidade. Patologias psíquicas indissociáveis da sua obsessão com a dualidade e com o Destino. Na sua versão contemporânea convencionou-se ainda que Harvey Dent fora, outrora, amigo e aliado tanto do Batman como do Comissário James Gordon.


As duas principais influências na conceção do Duas-Caras.

Personalidade e aparência: Não sendo intrinsecamente maligno, sempre que congemina um plano criminoso, o Duas-Caras faz depender a execução do mesmo da sorte ditada pela sua moeda. Ou seja, ele apenas infringe a lei quando, depois de lançar a moeda ao ar, esta cai com a face riscada virada para cima. E, em circunstância alguma, o vilão questiona o resultado do lançamento. Este ritual expressa uma espécie de compromisso entre Harvey Dent e a sua persona vilanesca, obrigados ambos a coabitar no mesmo corpo.
   Uma vez que a sua face esquerda está horrivelmente desfigurada, o Duas-Caras opta por usar um padrão de tecido diferente na sua roupa desse lado, de molde a enfatizar essa faceta distorcida da sua personalidade. No entanto, a sua aparência sofreu diversas modificações ao longo do tempo: na sua primeira aparição, a face deformada do vilão era verde clara, ao passo que nas suas versões mais recentes (porventura influenciadas pelo visual da personagem no filme Batman Para Sempre) esta passou a ser púrpura.
  Fora da banda desenhada, há ainda a registar o azul celeste da face desfigurada do Duas-Caras em Batman: The Animated Series e a aparência grotesca do vilão na película O Cavaleiro das Trevas (ver texto anterior). Neste último caso, além da ausência de cabelo do lado esquerdo do crânio, são visíveis músculos, tendões e a estrutura óssea sob a pele queimada dessa metade do rosto de Harvey Dent.
  Outra das obsessões do Duas-Caras reside no número 2, símbolo da sua própria dualidade e do mundo em geral. Daí derivando uma compulsão para arquitetar todos os seus planos com base nesse algarismo. O que acaba amiúde por comprometer o êxito dos mesmos.
  Embora, ao longo dos anos, o Duas-Caras tenha sido submetido a várias cirurgias plásticas com vista à reparação das suas pavorosas cicatrizes faciais, esse facto foi insuficiente para curar a sua demência. Numa ocasião, depois de a personalidade de Harvey Dent ter aparentemente subjugado a do Duas-Caras, o antigo promotor automutilou a sua face esquerda, permitindo dessa forma o regresso do seu alter ego maligno.

Um vilão com a face e a mente deformadas.
Outras versões: Aquando da sua terceira aparição nas histórias do Batman, ainda nos anos 1940, o Duas-Caras teve a sua face e a sua sanidade mental restauradas. Apesar de muitos leitores reivindicarem o regresso do malfeitor, os argumentistas preferiram conceber outras personagens para assumir o papel. Wilkins, o assistente do cirurgião que reconstruiu o rosto de Harvey Dent, foi o primeiro desse rol de impostores. Recorrendo a maquilhagem para se fazer passar pelo Duas-Caras, Wilkins perpetrou vários crimes.
  Paul Sloane, um ator escolhido para protagonizar um filme biográfico de Harvey Dent, foi, todavia, o mais notório e duradouro dos émulos do Duas-Caras. Desfigurado devido a um acidente registado no set, Sloane teve a sua mente estilhaçada e assumiu como sua a personalidade da personagem que encarnava. Mesmo depois de ter recuperado a sua sanidade mental, Sloane continuou a cometer crimes como Duas-Caras. Reintroduzido na cronologia da DC pós-Crise nas Infinitas Terras, este falso Duas-Caras logo voltaria a ser votado ao esquecimento. Sendo posteriormente repescado para a continuidade da editora saída de Zero Hora, agora operando sob o codinome Charlatão (The Charlatan, em inglês).
  Duas-Caras II (alter ego criminoso de Terry McGinnis) foi o mais recente impostor. Ao contrário do Duas-Caras original, esta sua versão genérica nasceu com metade do rosto deformada e usava não uma, mas duas moedas para determinar as suas ações. Foi dado como morto depois de ter sido esmagado por uma máquina.Não sem antes assegurar o seu lugar nos cânones da Editora das Lendas.
  Da lista de imitadores do Duas-Caras fazem também parte George Blake, Harvey Apollo, Harvey Kent e o próprio Batman (que, numa história publicada em 1968, assumiu temporariamente a identidade do seu velho inimigo após ter ingerido uma poção mágica).

Batman versus Duas-Caras: ontem aliados, hoje inimigos figadais.

Histórico de publicação: Remonta a agosto de 1942 a primeira aparição do Duas-Caras, nas páginas de Detective Comics nº66, com a identidade civil de Harvey "Apolo" Kent. A sua alcunha ficou a dever-se à sua aparência aprumada e à sua conduta galante. Já o seu apelido seria rapidamente substituído por Dent, por forma a evitar associações com o alter ego do Super-Homem.
  A personagem fez apenas três aparições durante a década de 1940, a que se somaram outras duas na década seguinte (sem contar com os impostores mencionados na lista acima). Por essa altura, o Duas-Caras foi preterido em prol de vilões menos suscetíveis de assustar o público infantil. Ressurgindo, contudo, em 1968 em World's Finest Comics nº173, edição em que o Batman assumia ser o Duas-Caras o criminoso que mais temia.
  Apesar dessa declaração do próprio Cavaleiro das Trevas, só três anos depois, em 1971, é que o escritor Dennis O'Neil concedeu ao Duas-Caras o estatuto de arqui-inimigo do sombrio guardião de Gotham City.
  A exemplo de muitas outras personagens da DC, após Crise Nas Infinitas Terras, o Duas-Caras teve a sua origem revisitada. Em linha com Batman: Year One, coube a Andrew Helfer reescrever a história do vilão em Batman Annual (vol. 1) nº14, vincando o cunho trágico da mesma. Entre os vários elementos inéditos introduzidos na biografia de Harvey Dent destacavam-se os abusos sofridos em criança às mãos do pai alcoólico e as primeiras manifestações da sua personalidade bipolar e paranoide. Foi também nesse âmbito que ficou convencionada a estreita ligação entre Harvey Dent, o Comissário Gordon e Batman, no período que precedeu a  transformação do ex-promotor em Duas-Caras.

A estreia do Duas-Caras em Detective Comics nº66 (1942).
Biografia: Após uma infância traumática, marcada pelas sevícias que lhe foram infligidas pelo pai alcoólico, Harvey Dent desenvolveu uma personalidade perturbada. Graças ao seu empenho e determinação, logrou ainda assim tornar-se, aos 26 anos de idade, o mais jovem promotor público na história de Gotham City. Com a sua eleição a preceder em seis meses o início da cruzada contra o crime empreendida pelo Batman.
   Dent, o então capitão do DPGC James Gordon e Batman forjaram uma aliança para libertar a cidade da influência nefasta de Sal Maroni e Carmine Falcone, os dois principais chefes mafiosos. Gordon chegou a conjeturar que Dent e Batman pudessem ser a mesma pessoa, mas logo percebeu que essa sua dedução estava errada.
  O triunvirato justiceiro desfez-se de forma trágica quando Sal Moroni, acreditando ter sido Dent o responsável pela morte do seu pai, lhe atirou ácido sulfúrico à cara durante um julgamento. Apesar de ter sobrevivido ao ataque, o promotor teve a sua face esquerda horrivelmente desfigurada.
  Dias depois do incidente, Dent fugiu do hospital onde estava internado e mergulhou numa espiral de loucura. Desenvolvendo uma obsessão com a dualidade, criou uma segunda persona diametralmente oposta à primeira.
  Nesse dia nasceu o Duas-Caras. Adotando entretanto como imagem de marca uma moeda de prata riscada numa das faces, que lança ao ar para determinar as suas ações. Assim, sempre que a face mutilada da moeda cai virada para cima, daí resulta um crime. Se, pelo contrário, for a face intacta a ficar virada para cima, Dent tem a oportunidade de agir corretamente.
   Este ritual trata-se, na verdade, de uma sórdida reminiscência do passado de maus tratos sofridos às mãos do pai, que também usava idêntico método para decidir se espancava ou não o pequeno Harvey. Essa espécie de jogo sádico do seu progenitor, instilou em Harvey o seu permanente dilema entre o livre arbítrio e a sua manifesta incapacidade para tomar as suas próprias decisões.

Moeda ao ar para decidir a vida ou a morte do Homem-Morcego. 
   Depois dos seus primeiros confrontos com o Batman, o Duas-Caras procurou cortar todos os laços com a sua vida passada, incluindo com a sua esposa Gilda. Facto que se revelou, todavia, demasiado doloroso para a sua faceta de Harvey Dent. Arrependido, o vilão tentou reaproximar-se da mulher, convencendo-a de que restaurara a sua aparência por via de cirurgias plásticas. Quando Gilda descobriu o logro, afastou-se dele, deixando-o ainda mais perturbado.
  Capturado pelo Duo Dinâmico, o Duas-Caras teve o seu rosto reconstruído pelo bisturi do Dr. Eckhart. Daí resultando uma cura parcial da sua mente fraturada. Durante um par de anos, Harvey Dent levou uma vida relativamente normal. Período durante o qual vários impostores se fizeram passar por ele.
  Alguns anos depois, Dent voltaria, porém, a ter metade do rosto deformado, após ter sido colhido por uma explosão. Novamente ensandecido, reviveu o Duas-Caras e retomou a sua carreira criminosa.
  Na cronologia saída de Os Novos 52, o Duas-Caras teve a sua origem profundamente retocada. Na sua encarnação moderna, Harvey Dent começou por ser um bem-sucedido advogado, cuja carteira de clientes incluía as gémeas Shannon e Erin, do clã mafioso McKillen. Coagido a assinar um contrato vitalício de assistência jurídica às duas irmãs, Dent assiste impotente aos planos delas para assassinar James Gordon e toda a sua família.
   No entanto, os planos das manas McKillen fracassam, os Gordons sobrevivem e Bruce Wayne decide financiar a campanha de Dent para se fazer eleger promotor público de Gotham. Num dos seus primeiros atos oficiais nessa qualidade, Dent processa as suas antigas clientes, que acabam sentenciadas a prisão perpétua.
   Na cadeia, Shannon comete suicídio e Erin consegue escapar, trocando de lugar com o cadáver da irmã. Culpando Dent pelo sucedido, Erin invade a casa do casal Dent, mata Gilda à frente do marido e desfigura parte do rosto de Harvey com ácido. Entrando, uma vez mais, em cena o Duas-Caras.

Visual clássico do Duas-Caras no período pré-Crise.

Noutros media: Ocupando uma notável 12ª posição na lista dos 100 melhores vilões de sempre dos quadradinhos elaborada pelo site IGN, o Duas-Caras tem sido presença assídua em filmes, séries e jogos de vídeo estrelados pelo Batman.
  A primeira vez que o vilão esteve prestes a dar o salto das páginas da BD para o pequeno ecrã foi em meados dos anos 1960. Clint Eastwood chegou a ser cogitado para emprestar corpo ao Duas-Caras na série televisiva Batman. Reimaginado como um pivô de noticiário desfigurado numa das faces em consequência da explosão de um projetor no estúdio, a inclusão do vilão na série acabaria por nunca se verificar. Aos olhos dos produtores, a aparência medonha e a personalidade violenta do Duas-Caras não se coadunavam com o registo cómico de uma programa televisivo que se queria para toda a família.
  Frustada essa primeira tentativa de transpor o Duas-Caras para a TV, a sua estreia fora dos quadradinhos aconteceria apenas quase três décadas depois, em Batman: The Animated Series (1994-95).
  Com maior ou menor protagonismo, o vilão participou em diversas outras produções do género: The New Batman Adventures, Batman: The Brave and the Bold, Beware the Batman, etc. Além de em vários filmes de animação da DC, como Batman: Year One, Batman: The Dark Knight Returns ou Batman: Assault on Arkham. 
  Embora sem assumir o seu alter ego maligno, Harvey Dent (interpretado por Billy Dee Williams) surge no filme Batman (1989). Afastado entretanto da franquia, o ator negro veria o seu lugar ser ocupado em Batman Para Sempre (1995) por Tommy Lee Jones, a quem coube pela primeira vez dar vida ao Duas- Caras no cinema. Papel que, de resto, lhe valeria uma nomeação para os MTV Awards, na categoria de Melhor Vilão. Ainda no grande ecrã, em 2008 seria a vez de Aaron Eckhart encarnar o Duas-Caras em O Cavaleiro das Trevas, segundo capítulo da trilogia dirigida por Christopher Nolan.

Tommy Lee Jones foi um exuberante Duas-Caras em Batman Para Sempre, contrastando com a abordagem mais sombria feita por Aaron Eckhart à personagem em O Cavaleiro das Trevas (em baixo).

   De volta ao pequeno ecrã, Nicholas D'Agosto é Harvey Dent na série Gotham (atualmente em exibição). Retratado como um jovem e aparentemente incorruptível promotor público, Dent, numa clara alusão ao seu percurso antes de se transformar no Duas Caras em Batman: Ano Um, alia-se ao detetive James Gordon com o objetivo de investigar o homicídio de Thomas e Martha Wayne e de expor os esquemas ilícitos do Comissário Loeb do DPGC.

Cara ou coroa? A moeda decide.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

EM CARTAZ: «O CAVALEIRO DAS TREVAS»



  Com Gotham City submersa no caos por um sinistro Palhaço do Crime, Batman procura desesperadamente evitar a corrupção do maior símbolo de justiça e esperança da sua cidade. Imune à síndrome do filho do meio de que costumam padecer os segundos capítulos das trilogias, "O Cavaleiro das Trevas" assume-se como uma epopeia moderna e um dos melhores filmes do género.

Título original: The Dark Knight
Ano: 2008
País: EUA/Reino Unido
Género: Ação/Aventura/Fantasia
Duração: 152 minutos
Realização: Christopher Nolan
Argumento: Christopher Nolan, Jonathan Nolan e David S. Goyer
Distribuição: Warner Bros. Pictures
Elenco: Christian Bale (Bruce Wayne/Batman), Michael Caine (Alfred Pennyworth), Heath Ledger (Joker), Gary Oldman (tenente James Gordon), Aaron Eckhart (Harvey Dent/Duas Caras), Maggie Gyllenhaal (Rachel Dawes), Morgan Freeman (Lucius Fox) e Eric Roberts (Sal Moroni)
Orçamento: 185 milhões de dólares
Receitas: 1 bilião de dólares
Produção e desenvolvimento: Antes do lançamento de Batman Begins (2005), o argumentista David S. Goyer elaborou um roteiro para duas continuações, nas quais o Joker e Harvey Dent fariam as suas primeiras aparições públicas. Originalmente, a intenção era que, no terceiro filme, o Palhaço do Crime fosse o responsável pelo desfiguramento do promotor, transformando-o assim no Duas Caras.
    Goyer citou como sua principal referência a saga Batman: The Long Halloween (Batman: O Longo Dia das Bruxas). Neal Adams, o veterano desenhador que se notabilizou nas histórias do Cruzado Encapuzado ao longo da década de 70 do século passado, revelaria que ele e Goyer se reuniram em Los Angeles antes do arranque da produção do filme. Nessa reunião ficou assente que o argumento de Goyer teria vários pontos de contacto com The Joker Five-Way Revenge, história escrita por Denny O'Neil e publicada em 1971 nas páginas de Batman nº251.
   Mesmo não sendo um dado adquirido que Christopher Nolan assumiria a realização das sequelas, o cineasta britânico expressou repetidas vezes o seu desejo de reinterpretar o Joker no grande ecrã. Indefinições à parte, a 31 de julho de 2006, a Warner Bros.Pictures anunciou oficialmente a produção de uma sequela de Batman Begins, intitulada The Dark Knight.
  Após aturada pesquisa, Jonathan Nolan, irmão e coargumentista do realizador,sugeriu que as duas primeiras aparições do Joker servissem para a personagem cimentar a sua influência. Para que nada fosse deixado ao acaso, foi contratado como consultor Jerry Robinson, cocriador do Palhaço do Crime.
   Chris Nolan, por seu lado, citaria como suas principais referências o arco de histórias Batman: The Killing Joke (Batman: A Piada Mortal) e o filme Heat (em terras lusas pertinentemente subtitulado Cidade Sob Pressão). Parece, com efeito, decalcada da mencionada BD a fala do Joker em que ele sustenta que, sob as devidas circunstâncias, qualquer um pode tornar-se igual a ele. Já o blockbuster dos anos 1990, protagonizado por Al Pacino e Robert DeNiro, serviu de modelo para retratar a relação simbiótica entre uma grande metrópole e os seus habitantes.

Chris Nolan dando instruções a Batman. Ora aí está uma coisa que não se vê todos os dias...
    Ainda de acordo com Nolan, "escalada" é a palavra-chave para definir esta sequela. Gotham City é fraca e os seus habitantes culpam Batman pela violência e corrupção que corroem as fundações da cidade. Muitas coisas teriam, portanto, de piorarem antes de melhorarem.De permeio são explorados temas aflorados no primeiro capítulo da saga, como a dicotomia justiça versus vingança. Quanto ao título escolhido, o realizador fez notar que não se trata de uma simples referência a um dos cognomes do Batman, mas também a Harvey Dent, espécie de cavaleiro andante caído em desgraça.
   Com Chicago a fazer as vezes de Gotham, as filmagens de O Cavaleiro das Trevas arrancaram em abril de 2007. Já depois de terem sido transferidas para Inglaterra, ficaram ensombradas pela morte de um técnico em consequência de um aparatoso despiste com o Batmóvel. Um mau agoiro para o que viria a seguir: o intrigante falecimento de Heath Ledger escassos meses antes da estreia mundial do filme (18 de julho de 2008). Tragédia que levou os mandachuvas da Warner Bros. a darem maior ênfase ao Joker na campanha de marketing viral que vinham desenvolvendo para promover a película. A qual seria dedicada a Heath Ledger e ao malogrado técnico.

O Palhaço, o Morcego e o bipolar.

Enredo: Em Gotham City, um banco propriedade da Máfia é assaltado pelo Joker e seus comparsas, deixando para trás um sulco de cadáveres. Na sequência desse episódio, Batman e o tenente James Gordon concordam em incluir Harvey Dent, o novo promotor público da cidade, no seu plano para combater o crime organizado. Apesar de Dent ser também o novo interesse romântico da ex-namorada de Bruce Wayne, Rachel Dawes, o milionário, depois de verificar a sinceridade do promotor, compromete-se a organizar uma festa com vista à angariação de fundos para a sua campanha.


Maggie Gyllenhaal substituiu Katie Holmes no papel de Rachel Dawes.

  Sal Moroni, Gambol, Chechen e outras figuras gradas do submundo do crime reúnem-se a fim de debaterem os novos problemas que afetam os seus negócios. Lau, um contabilista ao serviço das tríades chinesas, conta, através de videoconferência, como transferiu o dinheiro de todos eles para Hong Kong. Território onde ele próprio se acoitou, para assim escapar às investigações policiais em curso.
   A reunião é subitamente interrompida pelo Joker que chama a atenção dos presentes para o facto de que as ações de Batman não são condicionadas por jurisdições ou fronteiras geográficas. Em troca de metade do dinheiro,o macabro intruso oferece-se para liquidar o guardião de Gotham. Oferta prontamente rejeitada pelos mafiosos. Gambol vai mesmo mais longe, oferecendo uma recompensa pela cabeça do Palhaço do Crime. Pouco tempo depois, Gambol é assassinado pelo Joker que, de caminho, recruta os seus homens.
   Em Hong Kong, Batman captura Lau e entrega-o à custódia da polícia gothamita. Na expectativa de obter uma redução da sua sentença, o contabilista aceita testemunhar em tribunal contra os seus antigos empregadores.
   Em retaliação, o Joker lança um ultimato aos habitantes de Gotham:  irá matar diariamente um inocente até o Homem-Morcego revelar a sua verdadeira identidade. Daí decorrendo as execuções do comissário do Departamento de Polícia de Gotham City (DPGC) e da juiza titular do processo da Máfia. Já a tentativa do Palhaço do Crime de eliminar fisicamente o mayor da cidade fracassa devido à intercessão do tenente Gordon, sacrificando aparentemente a própria vida.
  Perante este dramático cenário, Bruce Wayne prepara-se para se expor, mas é surpreendido pelo anúncio público de Harvey Dent assumindo ser ele o Batman. Enquanto é escoltado pela polícia para local seguro, Dent é perseguido pelo Joker. Tratava-se, contudo, de uma cilada orquestrada por Batman e por Gordon (que encenara, afinal, a própria morte), usando o promotor como isco.
  Graças ao auxílio do Cavaleiro das Trevas, Gordon prende o Joker e é promovido a comissário. Porém, nessa mesma noite, Dent e Rachel Dawes desaparecem. Interrogado pelo herói, o Palhaço do Crime acaba por revelar que os dois foram levados para prédios armadilhados com explosivos localizados em lados opostos da cidade, e que serão destruídos ao mesmo tempo.

Ele está mesmo atrás de mim, não está?

  Batman parte para salvar Rachel, cabendo aos homens de Gordon salvar Dent. No entanto, o herói apercebe-se de que foi trapaceado pelo Joker. Em vez da ex-namorada de Bruce Wayne, ele depara-se com Dent, instantes antes de ambos os prédios irem pelos ares. Rachel morre na explosão e Dent tem metade da cara desfigurada pelas chamas. Quase em simultâneo, o Joker deflagra uma bomba na sede do DPGC e escapa com Lau.
  Depois de matar Lau e Chechen, o Joker ameaça fazer explodir um hospital se Coleman Reese, um contabilista das Empresas Wayne que deduziu a verdadeira identidade do Batman, não for morto dentro de uma hora. Enquanto o Cavaleiro das Trevas salva Reese, o Palhaço do Crime visita Harvey Dent no hospital, convencendo-o a vingar a morte de Rachel Dawes, indo atrás dos verdadeiros culpados. De seguida o vilão destrói o hospital, levando consigo um autocarro apinhado de reféns.
   Já como Duas Caras, Harvey Dent caça os responsáveis pela morte de Rachel. Os quais julga lançando uma moeda ao ar. Sempre que a sua face riscada fica para cima, o réu é sentenciado à morte. É o que sucede com Maroni e com um polícia que ajudara a raptar Rachel. Sorte diferente teve o próprio Joker a quem calhou a face intacta da moeda do Duas Caras.

Cara ou coroa? Vida e morte ditadas pela moeda do Duas Caras.
 
   Entretanto, descobre-se que duas balsas cheias de gente foram armadilhadas com explosivos pelo Palhaço do Crime. Numa delas encontram-se civis inocentes, ao passo que a outra tem como passageiros reclusos e guardas prisionais. Aos dois grupos o Joker oferece uma hipótese de sobrevivência: tudo o que têm de fazer é afundar a outra balsa. Caso contrário, ambas as embarcações serão destruídas.
  No entanto, para enorme frustação do vilão, os ocupantes das balsas recusam matar-se uns aos outros. Capturado pelo Batman, o Palhaço do Crime explica a complexa relação entre ambos. Gaba-se também da sua vitória, pois provou que Harvey Dent - o maior símbolo de justiça em Gotham - não era, afinal, incorruptível. E isso fará com que o povo da cidade perca ainda mais a esperança.
   Nos escombros do prédio onde Rachel morreu, Batman encontra o Duas Caras mantendo refém a família do comissário Gordon. Transtornado, o antigo promotor decide os destinos de Batman, do filho de Gordon e o seu próprio. Em resultado dos dois primeiros lançamentos da moeda, o Homem-Morcego é baleado na barriga e o Duas Caras autoabsolve-se. Quando ele se preparava para julgar o menino, Batman investe contra Dent, provocando-lhe uma queda de vários andares.
  Consciente de que os cidadãos de Gotham perderão a sua esperança na justiça se tiverem conhecimento da corrupção de Dent, Batman convence Gordon a incriminá-lo pelas mortes causadas pelo ex-promotor. Após discursar no funeral de Dent, o consternado comissário ordena a caça ao herói caído em desgraça e destrói o batsinal.
  Longe dali, Alfred, o fidelíssimo mordomo de Bruce Wayne, queima uma carta de Rachel Dawes onde esta anunciava o seu noivado com Harvey Dent.

Trailer:



Curiosidades:

* Na sua preparação para o papel de Joker, Heath Ledger escondeu-se num quarto de motel durante aproximadamente seis semanas. Durante esse período de reclusão voluntária, o ator autraliano mergulhou profundamente na psique do Palhaço do Crime. Ao que consta teve no visual sinistro de Sid Vicious (malogrado vocalista dos Sex Pistols) e nos maneirismos psicóticos de Alex de Large (personagem do filme Laranja Mecânica) os seus principais referenciais no processo de construção da sua personagem;
* Usando maquilhagem de palhaço e cosméticos comprados numa drogaria, Heath Ledger (o mais jovem ator a interpretar o Joker) criou a sua própria caracterização. Depois de devidamente aprovado pela produção, o visual passou a ser reproduzido e aplicado pela equipa de caracterização;
*Trata-se do primeiro filme baseado numa banda desenhada a conquistar um Óscar. No caso, o de Melhor Ator Secundário, atribuído postumamente a Heath Ledger, cuja atuação foi, de resto, marcada pelos constantes improvisos;

"Quando eu morrer, os meus filmes perdurarão". Palavras proféticas de um ator que se tornou um mito.
*O novo traje de Batman - mais leve e confortável do que o anterior -  foi confecionado com 200 peças de borracha, fibra de vidro, nylon e liga metálica. Inspirado nos capacetes de motociclismo, o capuz foi separado da peça do pescoço, permitindo assim a Christian Bale mover a cabeça em todas as direções. Facto que agradou em tal medida ao ator galês que ele insistiu em ficar com o referido acessório após a conclusão das filmagens;
*O filme apresenta vários elementos que remetem para a primeira aparição do Joker em Batman nº1 (1940): tanto na película como na  banda desenhada, o vilão anuncia publicamente os crimes que se propõe cometer, remove a maquilhagem e disfarça-se de polícia para ter acesso ao indivíduo que ameaçou matar, usa uma bomba para escapar da prisão, rouba e mata movido apenas pelo desejo de disseminar o caos e desdenha dos criminosos tradicionais;
*Numa primeira versão do guião, uma vez sacada a informação sobre o paradeiro de Rachel, a dramática cena do interrogatório do Cavaleiro das Trevas ao Palhaço do Crime na sede do DPGC terminava com o herói a derrubar o vilão, pontapeando-lhe de seguida a cabeça. Esta cena foi, porém, cortada durante o processo de edição, porque Chris Nolan considerou essa ação demasiado petulante para os padrões éticos do Batman;
*Este é o único filme da trilogia em que não se assiste a uma surpreendente revelação sobre a verdadeira identidade do vilão. É também o único em que a Liga das Sombras não desempenha um papel ativo na trama;
* Apesar da ausência de Batman no título, O Cavaleiro das Trevas foi a primeira película baseada em super-heróis a atingir a  fasquia de um bilião de dólares de receitas;
* 39 veículos são espatifados, crivados de balas, mandados pelos ares ou tomam parte em qualquer tipo de violência ao longo do filme. As vítimas mortais, essas, cifram-se em 36. Ainda assim, o espectador só vê sangue em três momentos: na face de um refém agarrado pelo Joker, no braço de Batman depois de este ter sido mordido por um cão e na almofada de Harvey Dent no hospital;
* Chris Nolan e os seus coargumentistas cedo deliberaram que as origens do Joker não seriam exploradas na trama. Conferindo dessa forma à personagem uma natureza ainda mais obscura e desconcertante. Por contraponto às suas anteriores versões cinematográficas (encarnadas por Cesar Romero e Jack Nicholson), este Joker não teve a sua aparência alterada a título permanente após um banho químico. Ao invés, fazendo jus ao epíteto de Palhaço do Crime, é retratado como um indivíduo seriamente perturbado que se maquilha para compor um visual tétrico.


Guardião de Gotham.

Prémios e nomeações: Quebrando o antigo recorde detido por Dick Tracy (1990) para o filme baseado numa BD com maior número de indicações para os Óscares (7), O Cavaleiro das Trevas foi nomeado em 8 categorias. Foram elas: Melhor Ator Secundário, Melhor Edição de Som, Melhor Direção Artística, Melhor Fotografia, Melhor Sonoplastia, Melhor Caracterização, Melhores Efeitos Visuais e Melhor Edição. No final, arrebataria as estatuetas douradas referentes às duas primeiras categorias.
   Primeiro ator oscarizado a título póstumo, Heath Ledger conseguiu a proeza de conquistar uma vintena de outros prémios, entre os quais o Golden Globe Award e o BAFTA Award para Melhor Coadjuvante.
   Além das supramencionadas nomeações para os Óscares, O Cavaleiro das Trevas foi eleito um dos dez melhores filme de 2008 pelo American Film Institute.
 
Heath Ledger, um Joker inesquecivel.


Veredito: 90%

  O que se pode dizer sobre um filme que, tanto no plano narrativo como técnico, toca as raias da perfeição? 
  Eram tão colossais as expectativas criadas em seu redor que O Cavaleiro das Trevas poderia ter ficado soterrado por elas. Superado com distinção o desafio que inevitavelmente se coloca às sequelas de blockbusters, este segundo capítulo é, na minha ótica, o melhor de toda a saga. E, sem sombra de dúvida, um dos melhores filmes dentro do seu género.
 Dirigida com virtuosismo por Nolan e magistralmente interpretada por uma constelação de atores de primeira apanha (que acabam, ainda assim, ofuscados por um genial Heath Ledger), a película falha apenas no pouco tempo concedido à evolução psicológica de Harvey Dent. Uma personagem com o potencial filosófico do Duas Caras (personificação da ambivalência moral do ser humano) merecia abordagem mais aprofundada.
  À parte isso, tudo o mais é fascinante: tanto o enredo inteligente que faz refém a atenção do espectador do primeiro ao último minuto como as eletrizantes cenas de ação suscetíveis de fazerem disparar os níveis de adrenalina dos que vibram com tiros, bombas e murros nas trombas.
  A ver e a rever este O Cavaleiro das Trevas, pois fica melhor de cada vez que se assiste.