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sexta-feira, 17 de abril de 2015

GALERIA DE VILÕES: DUAS-CARAS




  Bem ou mal? Vida ou morte? Cara ou coroa? Para este velho inimigo do Batman, personificação fascinante da dualidade da natureza humana, o destino é ditado pelo lançamento de uma moeda ar. Sentem-se com sorte?

Nome original da personagem: Two-Face
Criadores: Bob Kane (conceito) e Bill Finger (desenvolvimento)
Primeira aparição: Detective Comics nº66 (agosto de 1942)
Licenciadora: Detective Comics (DC)
Identidade civil: Harvey Dent
Local de nascimento e base de operações: Gotham City
Parentes conhecidos: Gilda Dent (ex-esposa) e Duela Dent (filha)
Afiliação: Liga da Injustiça e Sociedade do Submundo
Armas, poderes e habilidades: Antes da sua transformação em Duas-Caras, Harvey Dent era reputado como um dos mais brilhantes e honestos promotores de Gotham City, especializado em intrincados casos de investigação criminal. Apesar da insanidade que derivou da sua desfiguração, o seu intelecto manteve-se intacto. Conservando, portanto, as suas excecionais capacidades analíticas e dedutivas, que fazem dele um génio criminoso.
   Em tempos treinado pelo Exterminador e pelo próprio Batman, o Duas-Caras é cinturão negro de Kung Fu e um exímio atirador (é, de resto, comum ele usar armas de fogo de diferentes calibres). Aptidões que fazem dele um dos mais temidos e influentes patrões do crime organizado de Gotham, tendo como principal concorrente o Pinguim.
Fraquezas: Estas consistem essencialmente na personalidade bipolar do Duas Caras e na total dependência do vilão em relação à sua moeda riscada para a tomada de decisões.

As duas faces da mesma moeda.
Conceção e desenvolvimento: Na sua autobiografia, Bob Kane (a par de Bill Finger, cocriador de Batman e Duas-Caras), assume ter-se inspirado no clássico literário The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde (vulgo O Médico e o Monstro), escrito por Robert Louis Stevenson em 1886, para a conceção daquele que viria a ser um dos antagonistas clássicos do Cruzado Encapuzado. Mais especificamente, no filme homónimo de 1931 que Kane assistira na infância. Outra das influências no desenvolvimento da personagem remete para a cultura pulp dos anos 1930, designadamente para Black Bat. Tratando-se este de um herói muito popular entre os fãs desse tipo de publicações que, tal como Harvey Dent, teve o seu rosto desfigurado por ácido.

Bob Kane, cocriador de Batman e também do Duas Caras.

  Mercê de sucessivas modernizações do conceito primordial, nos anos mais recentes o Duas-Caras tem sido retratado como um indivíduo atormentado pela esquizofrenia, bipolaridade  e por um severo transtorno de personalidade. Patologias psíquicas indissociáveis da sua obsessão com a dualidade e com o Destino. Na sua versão contemporânea convencionou-se ainda que Harvey Dent fora, outrora, amigo e aliado tanto do Batman como do Comissário James Gordon.


As duas principais influências na conceção do Duas-Caras.

Personalidade e aparência: Não sendo intrinsecamente maligno, sempre que congemina um plano criminoso, o Duas-Caras faz depender a execução do mesmo da sorte ditada pela sua moeda. Ou seja, ele apenas infringe a lei quando, depois de lançar a moeda ao ar, esta cai com a face riscada virada para cima. E, em circunstância alguma, o vilão questiona o resultado do lançamento. Este ritual expressa uma espécie de compromisso entre Harvey Dent e a sua persona vilanesca, obrigados ambos a coabitar no mesmo corpo.
   Uma vez que a sua face esquerda está horrivelmente desfigurada, o Duas-Caras opta por usar um padrão de tecido diferente na sua roupa desse lado, de molde a enfatizar essa faceta distorcida da sua personalidade. No entanto, a sua aparência sofreu diversas modificações ao longo do tempo: na sua primeira aparição, a face deformada do vilão era verde clara, ao passo que nas suas versões mais recentes (porventura influenciadas pelo visual da personagem no filme Batman Para Sempre) esta passou a ser púrpura.
  Fora da banda desenhada, há ainda a registar o azul celeste da face desfigurada do Duas-Caras em Batman: The Animated Series e a aparência grotesca do vilão na película O Cavaleiro das Trevas (ver texto anterior). Neste último caso, além da ausência de cabelo do lado esquerdo do crânio, são visíveis músculos, tendões e a estrutura óssea sob a pele queimada dessa metade do rosto de Harvey Dent.
  Outra das obsessões do Duas-Caras reside no número 2, símbolo da sua própria dualidade e do mundo em geral. Daí derivando uma compulsão para arquitetar todos os seus planos com base nesse algarismo. O que acaba amiúde por comprometer o êxito dos mesmos.
  Embora, ao longo dos anos, o Duas-Caras tenha sido submetido a várias cirurgias plásticas com vista à reparação das suas pavorosas cicatrizes faciais, esse facto foi insuficiente para curar a sua demência. Numa ocasião, depois de a personalidade de Harvey Dent ter aparentemente subjugado a do Duas-Caras, o antigo promotor automutilou a sua face esquerda, permitindo dessa forma o regresso do seu alter ego maligno.

Um vilão com a face e a mente deformadas.
Outras versões: Aquando da sua terceira aparição nas histórias do Batman, ainda nos anos 1940, o Duas-Caras teve a sua face e a sua sanidade mental restauradas. Apesar de muitos leitores reivindicarem o regresso do malfeitor, os argumentistas preferiram conceber outras personagens para assumir o papel. Wilkins, o assistente do cirurgião que reconstruiu o rosto de Harvey Dent, foi o primeiro desse rol de impostores. Recorrendo a maquilhagem para se fazer passar pelo Duas-Caras, Wilkins perpetrou vários crimes.
  Paul Sloane, um ator escolhido para protagonizar um filme biográfico de Harvey Dent, foi, todavia, o mais notório e duradouro dos émulos do Duas-Caras. Desfigurado devido a um acidente registado no set, Sloane teve a sua mente estilhaçada e assumiu como sua a personalidade da personagem que encarnava. Mesmo depois de ter recuperado a sua sanidade mental, Sloane continuou a cometer crimes como Duas-Caras. Reintroduzido na cronologia da DC pós-Crise nas Infinitas Terras, este falso Duas-Caras logo voltaria a ser votado ao esquecimento. Sendo posteriormente repescado para a continuidade da editora saída de Zero Hora, agora operando sob o codinome Charlatão (The Charlatan, em inglês).
  Duas-Caras II (alter ego criminoso de Terry McGinnis) foi o mais recente impostor. Ao contrário do Duas-Caras original, esta sua versão genérica nasceu com metade do rosto deformada e usava não uma, mas duas moedas para determinar as suas ações. Foi dado como morto depois de ter sido esmagado por uma máquina.Não sem antes assegurar o seu lugar nos cânones da Editora das Lendas.
  Da lista de imitadores do Duas-Caras fazem também parte George Blake, Harvey Apollo, Harvey Kent e o próprio Batman (que, numa história publicada em 1968, assumiu temporariamente a identidade do seu velho inimigo após ter ingerido uma poção mágica).

Batman versus Duas-Caras: ontem aliados, hoje inimigos figadais.

Histórico de publicação: Remonta a agosto de 1942 a primeira aparição do Duas-Caras, nas páginas de Detective Comics nº66, com a identidade civil de Harvey "Apolo" Kent. A sua alcunha ficou a dever-se à sua aparência aprumada e à sua conduta galante. Já o seu apelido seria rapidamente substituído por Dent, por forma a evitar associações com o alter ego do Super-Homem.
  A personagem fez apenas três aparições durante a década de 1940, a que se somaram outras duas na década seguinte (sem contar com os impostores mencionados na lista acima). Por essa altura, o Duas-Caras foi preterido em prol de vilões menos suscetíveis de assustar o público infantil. Ressurgindo, contudo, em 1968 em World's Finest Comics nº173, edição em que o Batman assumia ser o Duas-Caras o criminoso que mais temia.
  Apesar dessa declaração do próprio Cavaleiro das Trevas, só três anos depois, em 1971, é que o escritor Dennis O'Neil concedeu ao Duas-Caras o estatuto de arqui-inimigo do sombrio guardião de Gotham City.
  A exemplo de muitas outras personagens da DC, após Crise Nas Infinitas Terras, o Duas-Caras teve a sua origem revisitada. Em linha com Batman: Year One, coube a Andrew Helfer reescrever a história do vilão em Batman Annual (vol. 1) nº14, vincando o cunho trágico da mesma. Entre os vários elementos inéditos introduzidos na biografia de Harvey Dent destacavam-se os abusos sofridos em criança às mãos do pai alcoólico e as primeiras manifestações da sua personalidade bipolar e paranoide. Foi também nesse âmbito que ficou convencionada a estreita ligação entre Harvey Dent, o Comissário Gordon e Batman, no período que precedeu a  transformação do ex-promotor em Duas-Caras.

A estreia do Duas-Caras em Detective Comics nº66 (1942).
Biografia: Após uma infância traumática, marcada pelas sevícias que lhe foram infligidas pelo pai alcoólico, Harvey Dent desenvolveu uma personalidade perturbada. Graças ao seu empenho e determinação, logrou ainda assim tornar-se, aos 26 anos de idade, o mais jovem promotor público na história de Gotham City. Com a sua eleição a preceder em seis meses o início da cruzada contra o crime empreendida pelo Batman.
   Dent, o então capitão do DPGC James Gordon e Batman forjaram uma aliança para libertar a cidade da influência nefasta de Sal Maroni e Carmine Falcone, os dois principais chefes mafiosos. Gordon chegou a conjeturar que Dent e Batman pudessem ser a mesma pessoa, mas logo percebeu que essa sua dedução estava errada.
  O triunvirato justiceiro desfez-se de forma trágica quando Sal Moroni, acreditando ter sido Dent o responsável pela morte do seu pai, lhe atirou ácido sulfúrico à cara durante um julgamento. Apesar de ter sobrevivido ao ataque, o promotor teve a sua face esquerda horrivelmente desfigurada.
  Dias depois do incidente, Dent fugiu do hospital onde estava internado e mergulhou numa espiral de loucura. Desenvolvendo uma obsessão com a dualidade, criou uma segunda persona diametralmente oposta à primeira.
  Nesse dia nasceu o Duas-Caras. Adotando entretanto como imagem de marca uma moeda de prata riscada numa das faces, que lança ao ar para determinar as suas ações. Assim, sempre que a face mutilada da moeda cai virada para cima, daí resulta um crime. Se, pelo contrário, for a face intacta a ficar virada para cima, Dent tem a oportunidade de agir corretamente.
   Este ritual trata-se, na verdade, de uma sórdida reminiscência do passado de maus tratos sofridos às mãos do pai, que também usava idêntico método para decidir se espancava ou não o pequeno Harvey. Essa espécie de jogo sádico do seu progenitor, instilou em Harvey o seu permanente dilema entre o livre arbítrio e a sua manifesta incapacidade para tomar as suas próprias decisões.

Moeda ao ar para decidir a vida ou a morte do Homem-Morcego. 
   Depois dos seus primeiros confrontos com o Batman, o Duas-Caras procurou cortar todos os laços com a sua vida passada, incluindo com a sua esposa Gilda. Facto que se revelou, todavia, demasiado doloroso para a sua faceta de Harvey Dent. Arrependido, o vilão tentou reaproximar-se da mulher, convencendo-a de que restaurara a sua aparência por via de cirurgias plásticas. Quando Gilda descobriu o logro, afastou-se dele, deixando-o ainda mais perturbado.
  Capturado pelo Duo Dinâmico, o Duas-Caras teve o seu rosto reconstruído pelo bisturi do Dr. Eckhart. Daí resultando uma cura parcial da sua mente fraturada. Durante um par de anos, Harvey Dent levou uma vida relativamente normal. Período durante o qual vários impostores se fizeram passar por ele.
  Alguns anos depois, Dent voltaria, porém, a ter metade do rosto deformado, após ter sido colhido por uma explosão. Novamente ensandecido, reviveu o Duas-Caras e retomou a sua carreira criminosa.
  Na cronologia saída de Os Novos 52, o Duas-Caras teve a sua origem profundamente retocada. Na sua encarnação moderna, Harvey Dent começou por ser um bem-sucedido advogado, cuja carteira de clientes incluía as gémeas Shannon e Erin, do clã mafioso McKillen. Coagido a assinar um contrato vitalício de assistência jurídica às duas irmãs, Dent assiste impotente aos planos delas para assassinar James Gordon e toda a sua família.
   No entanto, os planos das manas McKillen fracassam, os Gordons sobrevivem e Bruce Wayne decide financiar a campanha de Dent para se fazer eleger promotor público de Gotham. Num dos seus primeiros atos oficiais nessa qualidade, Dent processa as suas antigas clientes, que acabam sentenciadas a prisão perpétua.
   Na cadeia, Shannon comete suicídio e Erin consegue escapar, trocando de lugar com o cadáver da irmã. Culpando Dent pelo sucedido, Erin invade a casa do casal Dent, mata Gilda à frente do marido e desfigura parte do rosto de Harvey com ácido. Entrando, uma vez mais, em cena o Duas-Caras.

Visual clássico do Duas-Caras no período pré-Crise.

Noutros media: Ocupando uma notável 12ª posição na lista dos 100 melhores vilões de sempre dos quadradinhos elaborada pelo site IGN, o Duas-Caras tem sido presença assídua em filmes, séries e jogos de vídeo estrelados pelo Batman.
  A primeira vez que o vilão esteve prestes a dar o salto das páginas da BD para o pequeno ecrã foi em meados dos anos 1960. Clint Eastwood chegou a ser cogitado para emprestar corpo ao Duas-Caras na série televisiva Batman. Reimaginado como um pivô de noticiário desfigurado numa das faces em consequência da explosão de um projetor no estúdio, a inclusão do vilão na série acabaria por nunca se verificar. Aos olhos dos produtores, a aparência medonha e a personalidade violenta do Duas-Caras não se coadunavam com o registo cómico de uma programa televisivo que se queria para toda a família.
  Frustada essa primeira tentativa de transpor o Duas-Caras para a TV, a sua estreia fora dos quadradinhos aconteceria apenas quase três décadas depois, em Batman: The Animated Series (1994-95).
  Com maior ou menor protagonismo, o vilão participou em diversas outras produções do género: The New Batman Adventures, Batman: The Brave and the Bold, Beware the Batman, etc. Além de em vários filmes de animação da DC, como Batman: Year One, Batman: The Dark Knight Returns ou Batman: Assault on Arkham. 
  Embora sem assumir o seu alter ego maligno, Harvey Dent (interpretado por Billy Dee Williams) surge no filme Batman (1989). Afastado entretanto da franquia, o ator negro veria o seu lugar ser ocupado em Batman Para Sempre (1995) por Tommy Lee Jones, a quem coube pela primeira vez dar vida ao Duas- Caras no cinema. Papel que, de resto, lhe valeria uma nomeação para os MTV Awards, na categoria de Melhor Vilão. Ainda no grande ecrã, em 2008 seria a vez de Aaron Eckhart encarnar o Duas-Caras em O Cavaleiro das Trevas, segundo capítulo da trilogia dirigida por Christopher Nolan.

Tommy Lee Jones foi um exuberante Duas-Caras em Batman Para Sempre, contrastando com a abordagem mais sombria feita por Aaron Eckhart à personagem em O Cavaleiro das Trevas (em baixo).

   De volta ao pequeno ecrã, Nicholas D'Agosto é Harvey Dent na série Gotham (atualmente em exibição). Retratado como um jovem e aparentemente incorruptível promotor público, Dent, numa clara alusão ao seu percurso antes de se transformar no Duas Caras em Batman: Ano Um, alia-se ao detetive James Gordon com o objetivo de investigar o homicídio de Thomas e Martha Wayne e de expor os esquemas ilícitos do Comissário Loeb do DPGC.

Cara ou coroa? A moeda decide.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

EM CARTAZ: «O CAVALEIRO DAS TREVAS»



  Com Gotham City submersa no caos por um sinistro Palhaço do Crime, Batman procura desesperadamente evitar a corrupção do maior símbolo de justiça e esperança da sua cidade. Imune à síndrome do filho do meio de que costumam padecer os segundos capítulos das trilogias, "O Cavaleiro das Trevas" assume-se como uma epopeia moderna e um dos melhores filmes do género.

Título original: The Dark Knight
Ano: 2008
País: EUA/Reino Unido
Género: Ação/Aventura/Fantasia
Duração: 152 minutos
Realização: Christopher Nolan
Argumento: Christopher Nolan, Jonathan Nolan e David S. Goyer
Distribuição: Warner Bros. Pictures
Elenco: Christian Bale (Bruce Wayne/Batman), Michael Caine (Alfred Pennyworth), Heath Ledger (Joker), Gary Oldman (tenente James Gordon), Aaron Eckhart (Harvey Dent/Duas Caras), Maggie Gyllenhaal (Rachel Dawes), Morgan Freeman (Lucius Fox) e Eric Roberts (Sal Moroni)
Orçamento: 185 milhões de dólares
Receitas: 1 bilião de dólares
Produção e desenvolvimento: Antes do lançamento de Batman Begins (2005), o argumentista David S. Goyer elaborou um roteiro para duas continuações, nas quais o Joker e Harvey Dent fariam as suas primeiras aparições públicas. Originalmente, a intenção era que, no terceiro filme, o Palhaço do Crime fosse o responsável pelo desfiguramento do promotor, transformando-o assim no Duas Caras.
    Goyer citou como sua principal referência a saga Batman: The Long Halloween (Batman: O Longo Dia das Bruxas). Neal Adams, o veterano desenhador que se notabilizou nas histórias do Cruzado Encapuzado ao longo da década de 70 do século passado, revelaria que ele e Goyer se reuniram em Los Angeles antes do arranque da produção do filme. Nessa reunião ficou assente que o argumento de Goyer teria vários pontos de contacto com The Joker Five-Way Revenge, história escrita por Denny O'Neil e publicada em 1971 nas páginas de Batman nº251.
   Mesmo não sendo um dado adquirido que Christopher Nolan assumiria a realização das sequelas, o cineasta britânico expressou repetidas vezes o seu desejo de reinterpretar o Joker no grande ecrã. Indefinições à parte, a 31 de julho de 2006, a Warner Bros.Pictures anunciou oficialmente a produção de uma sequela de Batman Begins, intitulada The Dark Knight.
  Após aturada pesquisa, Jonathan Nolan, irmão e coargumentista do realizador,sugeriu que as duas primeiras aparições do Joker servissem para a personagem cimentar a sua influência. Para que nada fosse deixado ao acaso, foi contratado como consultor Jerry Robinson, cocriador do Palhaço do Crime.
   Chris Nolan, por seu lado, citaria como suas principais referências o arco de histórias Batman: The Killing Joke (Batman: A Piada Mortal) e o filme Heat (em terras lusas pertinentemente subtitulado Cidade Sob Pressão). Parece, com efeito, decalcada da mencionada BD a fala do Joker em que ele sustenta que, sob as devidas circunstâncias, qualquer um pode tornar-se igual a ele. Já o blockbuster dos anos 1990, protagonizado por Al Pacino e Robert DeNiro, serviu de modelo para retratar a relação simbiótica entre uma grande metrópole e os seus habitantes.

Chris Nolan dando instruções a Batman. Ora aí está uma coisa que não se vê todos os dias...
    Ainda de acordo com Nolan, "escalada" é a palavra-chave para definir esta sequela. Gotham City é fraca e os seus habitantes culpam Batman pela violência e corrupção que corroem as fundações da cidade. Muitas coisas teriam, portanto, de piorarem antes de melhorarem.De permeio são explorados temas aflorados no primeiro capítulo da saga, como a dicotomia justiça versus vingança. Quanto ao título escolhido, o realizador fez notar que não se trata de uma simples referência a um dos cognomes do Batman, mas também a Harvey Dent, espécie de cavaleiro andante caído em desgraça.
   Com Chicago a fazer as vezes de Gotham, as filmagens de O Cavaleiro das Trevas arrancaram em abril de 2007. Já depois de terem sido transferidas para Inglaterra, ficaram ensombradas pela morte de um técnico em consequência de um aparatoso despiste com o Batmóvel. Um mau agoiro para o que viria a seguir: o intrigante falecimento de Heath Ledger escassos meses antes da estreia mundial do filme (18 de julho de 2008). Tragédia que levou os mandachuvas da Warner Bros. a darem maior ênfase ao Joker na campanha de marketing viral que vinham desenvolvendo para promover a película. A qual seria dedicada a Heath Ledger e ao malogrado técnico.

O Palhaço, o Morcego e o bipolar.

Enredo: Em Gotham City, um banco propriedade da Máfia é assaltado pelo Joker e seus comparsas, deixando para trás um sulco de cadáveres. Na sequência desse episódio, Batman e o tenente James Gordon concordam em incluir Harvey Dent, o novo promotor público da cidade, no seu plano para combater o crime organizado. Apesar de Dent ser também o novo interesse romântico da ex-namorada de Bruce Wayne, Rachel Dawes, o milionário, depois de verificar a sinceridade do promotor, compromete-se a organizar uma festa com vista à angariação de fundos para a sua campanha.


Maggie Gyllenhaal substituiu Katie Holmes no papel de Rachel Dawes.

  Sal Moroni, Gambol, Chechen e outras figuras gradas do submundo do crime reúnem-se a fim de debaterem os novos problemas que afetam os seus negócios. Lau, um contabilista ao serviço das tríades chinesas, conta, através de videoconferência, como transferiu o dinheiro de todos eles para Hong Kong. Território onde ele próprio se acoitou, para assim escapar às investigações policiais em curso.
   A reunião é subitamente interrompida pelo Joker que chama a atenção dos presentes para o facto de que as ações de Batman não são condicionadas por jurisdições ou fronteiras geográficas. Em troca de metade do dinheiro,o macabro intruso oferece-se para liquidar o guardião de Gotham. Oferta prontamente rejeitada pelos mafiosos. Gambol vai mesmo mais longe, oferecendo uma recompensa pela cabeça do Palhaço do Crime. Pouco tempo depois, Gambol é assassinado pelo Joker que, de caminho, recruta os seus homens.
   Em Hong Kong, Batman captura Lau e entrega-o à custódia da polícia gothamita. Na expectativa de obter uma redução da sua sentença, o contabilista aceita testemunhar em tribunal contra os seus antigos empregadores.
   Em retaliação, o Joker lança um ultimato aos habitantes de Gotham:  irá matar diariamente um inocente até o Homem-Morcego revelar a sua verdadeira identidade. Daí decorrendo as execuções do comissário do Departamento de Polícia de Gotham City (DPGC) e da juiza titular do processo da Máfia. Já a tentativa do Palhaço do Crime de eliminar fisicamente o mayor da cidade fracassa devido à intercessão do tenente Gordon, sacrificando aparentemente a própria vida.
  Perante este dramático cenário, Bruce Wayne prepara-se para se expor, mas é surpreendido pelo anúncio público de Harvey Dent assumindo ser ele o Batman. Enquanto é escoltado pela polícia para local seguro, Dent é perseguido pelo Joker. Tratava-se, contudo, de uma cilada orquestrada por Batman e por Gordon (que encenara, afinal, a própria morte), usando o promotor como isco.
  Graças ao auxílio do Cavaleiro das Trevas, Gordon prende o Joker e é promovido a comissário. Porém, nessa mesma noite, Dent e Rachel Dawes desaparecem. Interrogado pelo herói, o Palhaço do Crime acaba por revelar que os dois foram levados para prédios armadilhados com explosivos localizados em lados opostos da cidade, e que serão destruídos ao mesmo tempo.

Ele está mesmo atrás de mim, não está?

  Batman parte para salvar Rachel, cabendo aos homens de Gordon salvar Dent. No entanto, o herói apercebe-se de que foi trapaceado pelo Joker. Em vez da ex-namorada de Bruce Wayne, ele depara-se com Dent, instantes antes de ambos os prédios irem pelos ares. Rachel morre na explosão e Dent tem metade da cara desfigurada pelas chamas. Quase em simultâneo, o Joker deflagra uma bomba na sede do DPGC e escapa com Lau.
  Depois de matar Lau e Chechen, o Joker ameaça fazer explodir um hospital se Coleman Reese, um contabilista das Empresas Wayne que deduziu a verdadeira identidade do Batman, não for morto dentro de uma hora. Enquanto o Cavaleiro das Trevas salva Reese, o Palhaço do Crime visita Harvey Dent no hospital, convencendo-o a vingar a morte de Rachel Dawes, indo atrás dos verdadeiros culpados. De seguida o vilão destrói o hospital, levando consigo um autocarro apinhado de reféns.
   Já como Duas Caras, Harvey Dent caça os responsáveis pela morte de Rachel. Os quais julga lançando uma moeda ao ar. Sempre que a sua face riscada fica para cima, o réu é sentenciado à morte. É o que sucede com Maroni e com um polícia que ajudara a raptar Rachel. Sorte diferente teve o próprio Joker a quem calhou a face intacta da moeda do Duas Caras.

Cara ou coroa? Vida e morte ditadas pela moeda do Duas Caras.
 
   Entretanto, descobre-se que duas balsas cheias de gente foram armadilhadas com explosivos pelo Palhaço do Crime. Numa delas encontram-se civis inocentes, ao passo que a outra tem como passageiros reclusos e guardas prisionais. Aos dois grupos o Joker oferece uma hipótese de sobrevivência: tudo o que têm de fazer é afundar a outra balsa. Caso contrário, ambas as embarcações serão destruídas.
  No entanto, para enorme frustação do vilão, os ocupantes das balsas recusam matar-se uns aos outros. Capturado pelo Batman, o Palhaço do Crime explica a complexa relação entre ambos. Gaba-se também da sua vitória, pois provou que Harvey Dent - o maior símbolo de justiça em Gotham - não era, afinal, incorruptível. E isso fará com que o povo da cidade perca ainda mais a esperança.
   Nos escombros do prédio onde Rachel morreu, Batman encontra o Duas Caras mantendo refém a família do comissário Gordon. Transtornado, o antigo promotor decide os destinos de Batman, do filho de Gordon e o seu próprio. Em resultado dos dois primeiros lançamentos da moeda, o Homem-Morcego é baleado na barriga e o Duas Caras autoabsolve-se. Quando ele se preparava para julgar o menino, Batman investe contra Dent, provocando-lhe uma queda de vários andares.
  Consciente de que os cidadãos de Gotham perderão a sua esperança na justiça se tiverem conhecimento da corrupção de Dent, Batman convence Gordon a incriminá-lo pelas mortes causadas pelo ex-promotor. Após discursar no funeral de Dent, o consternado comissário ordena a caça ao herói caído em desgraça e destrói o batsinal.
  Longe dali, Alfred, o fidelíssimo mordomo de Bruce Wayne, queima uma carta de Rachel Dawes onde esta anunciava o seu noivado com Harvey Dent.

Trailer:



Curiosidades:

* Na sua preparação para o papel de Joker, Heath Ledger escondeu-se num quarto de motel durante aproximadamente seis semanas. Durante esse período de reclusão voluntária, o ator autraliano mergulhou profundamente na psique do Palhaço do Crime. Ao que consta teve no visual sinistro de Sid Vicious (malogrado vocalista dos Sex Pistols) e nos maneirismos psicóticos de Alex de Large (personagem do filme Laranja Mecânica) os seus principais referenciais no processo de construção da sua personagem;
* Usando maquilhagem de palhaço e cosméticos comprados numa drogaria, Heath Ledger (o mais jovem ator a interpretar o Joker) criou a sua própria caracterização. Depois de devidamente aprovado pela produção, o visual passou a ser reproduzido e aplicado pela equipa de caracterização;
*Trata-se do primeiro filme baseado numa banda desenhada a conquistar um Óscar. No caso, o de Melhor Ator Secundário, atribuído postumamente a Heath Ledger, cuja atuação foi, de resto, marcada pelos constantes improvisos;

"Quando eu morrer, os meus filmes perdurarão". Palavras proféticas de um ator que se tornou um mito.
*O novo traje de Batman - mais leve e confortável do que o anterior -  foi confecionado com 200 peças de borracha, fibra de vidro, nylon e liga metálica. Inspirado nos capacetes de motociclismo, o capuz foi separado da peça do pescoço, permitindo assim a Christian Bale mover a cabeça em todas as direções. Facto que agradou em tal medida ao ator galês que ele insistiu em ficar com o referido acessório após a conclusão das filmagens;
*O filme apresenta vários elementos que remetem para a primeira aparição do Joker em Batman nº1 (1940): tanto na película como na  banda desenhada, o vilão anuncia publicamente os crimes que se propõe cometer, remove a maquilhagem e disfarça-se de polícia para ter acesso ao indivíduo que ameaçou matar, usa uma bomba para escapar da prisão, rouba e mata movido apenas pelo desejo de disseminar o caos e desdenha dos criminosos tradicionais;
*Numa primeira versão do guião, uma vez sacada a informação sobre o paradeiro de Rachel, a dramática cena do interrogatório do Cavaleiro das Trevas ao Palhaço do Crime na sede do DPGC terminava com o herói a derrubar o vilão, pontapeando-lhe de seguida a cabeça. Esta cena foi, porém, cortada durante o processo de edição, porque Chris Nolan considerou essa ação demasiado petulante para os padrões éticos do Batman;
*Este é o único filme da trilogia em que não se assiste a uma surpreendente revelação sobre a verdadeira identidade do vilão. É também o único em que a Liga das Sombras não desempenha um papel ativo na trama;
* Apesar da ausência de Batman no título, O Cavaleiro das Trevas foi a primeira película baseada em super-heróis a atingir a  fasquia de um bilião de dólares de receitas;
* 39 veículos são espatifados, crivados de balas, mandados pelos ares ou tomam parte em qualquer tipo de violência ao longo do filme. As vítimas mortais, essas, cifram-se em 36. Ainda assim, o espectador só vê sangue em três momentos: na face de um refém agarrado pelo Joker, no braço de Batman depois de este ter sido mordido por um cão e na almofada de Harvey Dent no hospital;
* Chris Nolan e os seus coargumentistas cedo deliberaram que as origens do Joker não seriam exploradas na trama. Conferindo dessa forma à personagem uma natureza ainda mais obscura e desconcertante. Por contraponto às suas anteriores versões cinematográficas (encarnadas por Cesar Romero e Jack Nicholson), este Joker não teve a sua aparência alterada a título permanente após um banho químico. Ao invés, fazendo jus ao epíteto de Palhaço do Crime, é retratado como um indivíduo seriamente perturbado que se maquilha para compor um visual tétrico.


Guardião de Gotham.

Prémios e nomeações: Quebrando o antigo recorde detido por Dick Tracy (1990) para o filme baseado numa BD com maior número de indicações para os Óscares (7), O Cavaleiro das Trevas foi nomeado em 8 categorias. Foram elas: Melhor Ator Secundário, Melhor Edição de Som, Melhor Direção Artística, Melhor Fotografia, Melhor Sonoplastia, Melhor Caracterização, Melhores Efeitos Visuais e Melhor Edição. No final, arrebataria as estatuetas douradas referentes às duas primeiras categorias.
   Primeiro ator oscarizado a título póstumo, Heath Ledger conseguiu a proeza de conquistar uma vintena de outros prémios, entre os quais o Golden Globe Award e o BAFTA Award para Melhor Coadjuvante.
   Além das supramencionadas nomeações para os Óscares, O Cavaleiro das Trevas foi eleito um dos dez melhores filme de 2008 pelo American Film Institute.
 
Heath Ledger, um Joker inesquecivel.


Veredito: 90%

  O que se pode dizer sobre um filme que, tanto no plano narrativo como técnico, toca as raias da perfeição? 
  Eram tão colossais as expectativas criadas em seu redor que O Cavaleiro das Trevas poderia ter ficado soterrado por elas. Superado com distinção o desafio que inevitavelmente se coloca às sequelas de blockbusters, este segundo capítulo é, na minha ótica, o melhor de toda a saga. E, sem sombra de dúvida, um dos melhores filmes dentro do seu género.
 Dirigida com virtuosismo por Nolan e magistralmente interpretada por uma constelação de atores de primeira apanha (que acabam, ainda assim, ofuscados por um genial Heath Ledger), a película falha apenas no pouco tempo concedido à evolução psicológica de Harvey Dent. Uma personagem com o potencial filosófico do Duas Caras (personificação da ambivalência moral do ser humano) merecia abordagem mais aprofundada.
  À parte isso, tudo o mais é fascinante: tanto o enredo inteligente que faz refém a atenção do espectador do primeiro ao último minuto como as eletrizantes cenas de ação suscetíveis de fazerem disparar os níveis de adrenalina dos que vibram com tiros, bombas e murros nas trombas.
  A ver e a rever este O Cavaleiro das Trevas, pois fica melhor de cada vez que se assiste.
    

quarta-feira, 25 de março de 2015

HERÓIS EM AÇÃO: PANTERA NEGRA


  Personificação do Espírito da Pantera, T'Challa foi preparado desde o berço para ser o monarca de Wakanda. Primeiro herói negro na era moderna dos quadradinhos, notabilizou-se ao serviço dos Vingadores e será uma das próximas personagens da Casa das Ideias a ganhar vida no cinema. 

Nome original: Black Panther
Primeira aparição: Fantastic Four #52 (julho de 1966)
Criadores: Stan Lee (história) e Jack Kirby (arte)
Licenciadora: Marvel Comics
Identidade civil: T'Challa (convencionou-se que o T do seu nome é mudo)
Lugar de nascimento: Wakanda (minúsculo reino fictício localizado no coração da África)
Parentes conhecidos: Chanda e Nanali (avós paternos falecidos); T'Chaka e N'Yami (pais falecidos); Ramonda (madrasta); S'Yan (tio falecido); Hunter (irmão adotivo); Shuri e Jakarra (meios-irmãos); Ororo Munroe (ex-esposa)
Afiliação: Ex-membro dos Vingadores, do Quarteto Fantástico, dos Defensores e dos Vingadores Secretos (durante a saga  Guerra Civil). Atual integrante dos Illuminati, patrocina também os Mutantes Sem Fronteiras.
Base de operações: Necrópole, Wakanda (Nova Iorque durante a sua passagem pelos Vingadores e quando substituiu o Demolidor)

A estreia do Pantera Negra em Fantastic Four nº52 (1966).

Armas, poderes e habilidades: Na hierarquia do Clã Pantera que há séculos governa Wakanda, o título máximo a que algum dos seus membros poderá aspirar é o de Pantera Negra. Quando é encontrado um herdeiro condigno dessa nobre linhagem africana, ele tem de comer uma erva em forma de coração. A qual, além de um vínculo místico com o deus Pantera, lhe concederá capacidades sobre-humanas. T'Challa possui, portanto, força, velocidade, resistência, reflexos e agilidade muito superiores aos de um humano comum. À semelhança do felino que inspirou o seu nome, o Pantera Negra dispõe igualmente de sentidos apurados. Entre outras coisas, ele consegue farejar o cheiro de uma presa à distância e memorizar dezenas de outros.
   Enquanto monarca de Wakanda, o Pantera Negra tem acesso a uma panóplia de artefactos místicos, assim como à mais sofisticada tecnologia civil e militar. Ainda nessa qualidade, o herói enverga um uniforme confecionado à base de vibranium (metal fictício que representa a principal fonte de riqueza de Wakanda), que mais não é do que um traje cerimonial do Culto da Pantera. Entre as várias funcionalidades da indumentária (adornada por vezes com um manto) destaca-se a cota de micro-ondas capaz de travar em pleno ar qualquer projétil disparada no direção do seu usuário. Com o tempo, a tecnologia da veste foi sendo aprimorada. Hoje, além de um dispositivo de teletransporte incorporado, inclui também adagas energéticas, garras retráteis de vibranium e botas especiais que, entre outras coisas, permitem ao Pantera Negra escalar paredes, deslizar sobre a água e aterrar sempre de pé, como um gato.
   Treinado desde tenra idade para ser o guerreiro supremo do seu povo, T'Challa é um exímio caçador, rastreador, estratega, político e cientista. Senhor de uma das mais fulgurantes mentes do planeta, o soberano de Wakanda possui  um doutoramento em Física pela Universidade de Oxford. Sendo esse conhecimento académico complementado pela sabedoria ancestral que lhe foi transmitida pelos seus antepassados.
   Perito em diversas artes marciais, T'Challa é um atleta e acrobata de nível olímpico. Tempos atrás, ele perdeu o seu vínculo místico com o deus Pantera. Forjou então nova conexão com uma divindade felina desconhecida de quem se tornou seu avatar. Em resultado disso, viu os seus atributos físicos amplificados, assim como a sua resistência à magia.

Um herói com muitos recursos.

Conceção:  O nome Pantera Negra é anterior à fundação, em 1966, do partido político homónimo que, nas décadas de 60 e 70 do século XX, adotou métodos radicais na luta pelos direitos cívicos dos negros nos EUA. O mesmo não se verificando relativamente ao logotipo dos Panteras Negras, o lendário regimento militar composto exclusivamente por afro-americanos que, durante a II Guerra Mundial e numa época em que vigorava ainda o segregacionismo racial nas forças armadas estadunidenses, combateu corajosamente pela Liberdade.
  Historicamente, o Pantera Negra foi, de facto, o primeiro super-herói negro nos quadradinhos mainstream, e o primeiro a possuir superpoderes. Antes dele, as personagens de cor eram, invariavelmente, caricaturadas. As únicas exceções foram Waku, o Príncipe de Bantu e Lobo. O primeiro protagonizou, em 1947, uma edição especial intitulada All-Negro Comics na série Jungle Tales publicada pela Atlas Comics (uma das predecessoras da Marvel); o segundo foi o primeiro herói negro a estrelar um título próprio sob a égide da Dell Comics Western.
   Considerando estes factos, é notório o forte pendor político inerente à conceção do Pantera Negra, num contexto de afirmação social e cultural dos afro-americanos.


Símbolo africano.

Histórico de publicação: Após a sua estreia nas páginas de Fantastic Four #52-53 (julho e agosto de 1966), da subsequente participação especial em Fantastic Four Annual #5 (1967) e ao lado do Capitão América em Tales of Suspense #97-99 (janeiro a março de 1968), o Pantera Negra viajou do coração de África para Nova Iorque, para reforçar as fileiras dos Vingadores. Facto ocorrido em maio de 1968, em The Avengers #52, título onde marcaria presença nos anos que se seguiram.
   Durante a sua passagem pelos Vingadores, o Pantera Negra fez uma aparição a solo em três edições de Daredevil e enfrentou o Doutor Destino em Astonishing Tales #6-7 (julho e agosto de 1971). Saliente-se que este último título, de curta longevidade, tinha a particularidade de ser estrelado por vilões do Universo Marvel.

Em The Avengers nº52 (1968), o Pantera Negra viveu a sua primeira aventura ao lado dos Vingadores. Usava então uma máscara em forma de capuz que logo desapareceria.

  Em fevereiro de 1972, o herói africano regressaria fugazmente às páginas de Fantastic Four. Período durante o qual se autodenominou Leopardo Negro (Black Leopard, no original) a fim de evitar ser conotado com o já citado Partido dos Panteras Negras.
  No ano seguinte, o Pantera Negra teve direito a um arco de histórias próprio em  Jungle Action. Facto que se repetiria entre janeiro e novembro de 1976, nos números 19 a 24 do referido título. A inclusão do Ku Klux Klan no enredo foi controversa, criando sérias dificuldades à respetiva equipa criativa.
  Embora popular entre os estudantes universitários norte-americanos, as vendas de Jungle Action eram baixas. Receando estar a subaproveitar a personagem, os editores da Marvel acharam por bem conceder um título próprio ao Pantera Negra. E para que este fosse um sucesso, convocaram ninguém menos que o seu cocriador, Jack Kirby, para assumi-lo. Recém-regressado à Casa das Ideias após uma estada na Distinta Concorrência, o Rei estava, contudo, pouco interessado em trabalhar com uma personagem que nada tinha de novo para si. Tomando, portanto, a contragosto as rédeas do neófito Black Panther. Quando, depois de ter produzido somente uma dúzia de números, Kirby abandonou a série, ninguém ficou propriamente surpreendido. A saída do Rei sentenciaria, porém, à morte o primeiro título autónomo do Pantera Negra, que resistiu apenas mais um trimestre.
   Entre 1988 e 2009 sucederam-se as tentativas, mais ou menos bem-sucedidas, de relançamento de Black Panther. Pelas suas páginas desfilaram escritores e artistas consagrados, como Gene Colan ou John Romita, Jr. Ao longo desses 21 anos, o Pantera Negra foi sofrendo algumas alterações, ganhou novos coadjuvantes e deixou gradualmente de ter como público-alvo os leitores afro-americanos. O herói fez também parte de equipas como o Quarteto Fantástico, Defensores e Vingadores Sombrios.
  A convite de Matt Murdock (identidade civil do Demolidor), em 2011 o Pantera Negra concordou em tornar-se o novo protetor do problemático bairro nova-iorquino conhecido como Cozinha do Inferno. Daí resultando a renomeação da série Daredevil, que, a partir do seu 513º número, passou a chegar às bancas como Black Panther: The Man Without Fear. 


Antes de ganhar um título próprio, o Pantera Negra passou pelas páginas de Jungle Action.

Biografia: Num passado distante, um meteorito feito do estranho metal que, anos depois, se convencionou chamar vibranium, despenhou-se em Wakanda. Nunca desenterrado, o meteorito disseminou o vibranium pelo subsolo do pequeno reino africano. Temendo a ação depredatória exercida sobre os recursos naturais wakandianos por rapinadores estrangeiros, T'Chaka, à semelhança de todos os anteriores Panteras Negras, optou pelo isolacionismo.
  Anos depois, o soberano wakandano viu a sua esposa, N'Yami, morrer durante o parto do seu primogénito, T'Challa. Com este a ser culpado da tragédia pelo seu irmão adotivo, Hunter.
  Casado entretanto em segundas núpcias com Ramonda, T'Chaka viu-a abandonar a sua família para regressar à sua África do Sul natal. Com apenas oito anos de idade, o pequeno T'Challa viu-se, assim, privado pela segunda vez de uma figura materna. Tendo sido, portanto, educado quase em exclusivo pelo seu pai. Este seria, todavia, assassinado quando T'Challa mal atingira a puberdade. Por causa do vibranium, T'Chaka foi morto às mãos de Ulysses Klaw, filho de um criminoso nazi.
   Sedento de vingança e com o seu povo ainda em perigo, o jovem T'Challa usou contra Klaw a mesma arma sónica que este usara para tirar a vida ao seu progenitor. Com a mão direita decepada, o vilão e o seus asseclas bateram em retirada.
   Primeiro na linha de sucessão ao trono wakandiano e ao título de Pantera Negra, T'Challa não estava ainda preparado para assumir essas funções. Cabendo assim ao seu tio S'Yan (irmão mais novo do malogrado T'Chaka) fazê-lo. Não sem antes se submeter aos exigentes desafios para provar ser digno de se tornar o avatar do deus Pantera.
   Enquanto realizava uma longa jornada inserida nos seus ritos de passagem, T'Challa cruzou-se com Ororo Munroe, a órfã mutante que, anos depois, se tornaria a X-Man Tempestade. O casal apaixonou-se, mas o incipiente romance foi interrompido devido à obstinação de T'Challa em honrar a memória do seu pai. Antes de se separarem, os dois prometeram, contudo, tudo fazerem para manterem contacto. Ficava assim suspensa uma história de amor cujos capítulos finais só seriam escritos muitos anos depois, quando T'Challa desposou Ororo, fazendo dela sua rainha consorte.

T'Challa e Ororo: destinos entrelaçados.
   Após levar de vencida os campeões das diversas tribos wakandianas, T'Challa conquistou o direito a ser investido do poder do deus Pantera. Um dos seus primeiros atos oficiais consistiu em ordenar o desmantelamento da polícia política do reino (responsável por inúmeras arbitrariedades), e o exílio do seu sádico intendente: Hunter, o seu irmão adotivo.
   T'Challa decidiu também vender pequenas quantidades de vibranium a instituições científicas de vários pontos do globo, acumulando dessa forma uma fortuna que usou de seguida para adquirir tecnologia de ponta para o seu país. Para apaziguar as tensões entre as tribos rivais, o novo soberano recrutou alguns dos seus mais valorosos mancebos para a sua guarda pessoal, e algumas das suas mais formosas raparigas para o seu harém. Do qual, de acordo com a tradição, deveria sair a sua futura esposa.
  Ansioso por descobrir o mundo e por ampliar os seus conhecimentos, T'Challa foi estudar para o estrangeiro durante uma temporada.  Em Oxford obteve um doutoramento em Física, sobressaindo pela sua genialidade e empenho.
  Quando regressou a Wakanda, já adulto, T'Challa convidou o Quarteto Fantástico a visitar o pequeno reino africano. Apenas para atacar e subjugar individualmente cada um dos elementos do grupo. Com este desafio, T'Challa queria testar as suas capacidades, certificando-se de que estaria pronto para defrontar Klaw. Este substituíra a sua mão amputada por uma devastadora arma sónica e clamava por vingança em relação ao novo Pantera Negra.
  Depois de apresentados os devidos esclarecimentos, o Quarteto Fantástico prontificou-se a ajudar o Pantera Negra a derrotar Klaw. Com o herói africano a retribuir a cortesia adjuvando o grupo na sua liça com o Homem Psíquico.
  Esses episódios espevitaram, no entanto, o espírito aventureiro de T'Challa. Tendo garantido paz e prosperidade aos seus súbditos, ele viaja para Nova Iorque, para se juntar aos Vingadores. Começando, assim, uma longa associação com os heróis mais poderosos da Terra. Período durante o qual se envolveu romanticamente com a cantora Monica Lynne.

Na savana africana ou na selva urbana, o Pantera Negra é adversário de respeito.

   Com Wakanda a ferro e fogo devido a uma sangrenta guerra civil,  o Pantera Negra viu-se forçado a abandonar os Vingadores e a regressar à terra dos seus antepassados. Fê-lo, contudo, na companhia de Monica Lynne.
  Restabelecida a paz em Wakanda, o Pantera Negra aventura-se no Sul dos EUA para combater o Ku Klux Klan. Seguindo depois para a África do Sul, numa demanda pela sua madrasta, onde choca de frente com as autoridades do apartheid. Pelo meio, T'Challa propõe casamento a Monica Lynne. Os dois ficam noivos, mas nunca chegam a unir-se pelos laços do matrimónio.
   Depois de ter ajudado a sua antiga paixão Ororo a reencontrar os membros remanescente da sua família no Quénia e nos EUA, T'Challa pediu a Rainha dos Ventos em casamento. Na sumptuosa cerimónia em que o casal trocou os seus votos nupciais, estiveram presentes muitos super-heróis. Quase sem tempo para desfrutarem da sua lua de mel, os monarcas wakandianos partiram numa missão diplomática quando já se adivinhava a eclosão de um conflito entre os defensores e os opositores do registo obrigatório de meta-humanos decretado pelas autoridades estadunidenses. Falhados os seus esforços diplomáticos, o casal aliou-se à fação liderada pelo Capitão América que se opunha à referida medida legislativa.

O casamento do Pantera Negra com Tempestade foi um dos mais grandiosos eventos da história da Marvel.

  Finda a Guerra Civil, T'Challa e Ororo ofereceram-se para substituir temporariamente Reed e Susan Richards no Quarteto Fantástico, casal que estivera em lados opostos da barricada durante a contenda.
  Deixando Ororo em Nova Iorque para que esta pudesse ajudar os seus camaradas X-Men, o Pantera Negra regressou sozinho a Wakanda. Na sua terra natal, enfrentou e derrotou novamente Erik Killmonger, o responsável pela guerra civil que devastara o reino anos atrás.
  Ainda mal refeito do esforço, o Pantera Negro é atacado pelas forças da Cabala, uma congregação secreta de supervilões a que pertencem, entre outros, Namor e o Dr. Destino. Deixado em estado comatoso, ao despertar, o soberano de Wakanda é forçado a passar o cetro à sua irmã Shuri.
   Além do trono, T'Challa perdeu também os seus poderes. Com o auxílio de um feiticeiro do reino, ele firma um pacto com uma divindade felina anónima. Em consequência disso, vê os seus atributos físicos amplificados e adquire uma resistência superior a ataques místicos.
   De volta à cidade que nunca dorme, o Pantera Negra concorda em tomar o lugar do Demolidor como guardião da Cozinha do Inferno. Para medir o pulso aos habitantes do bairro, assume a identidade de um imigrante proveniente da República Democrática do Congo e passa a gerenciar um modesto restaurante.
   Algum tempo depois, T'Challa retorna a Wakanda para acolitar a sua irmã, atual regente da pequena nação africana. Antecipando o perigo que paira sobre o reino, o deus Pantera restitui os poderes a T'Challa. Mas eles de nada valem quando, possesso pela Força Fénix, Namor empreende um ataque massivo contra Wakanda (eventos ocorridos na minissérie X-Men versus Avengers, já publicada no Brasil pela Panini Comics)
    Regressada para auxilar os sobreviventes da destruição, Ororo é surpreendida pelo anúncio do marido de que o casamento de ambos chegara ao fim. Na sua qualidade de sumo-sacerdote wakandiano, T'Challa decretara a nulidade da união. Decisão motivada tanto pela prolongada ausência de Ororo, como pelo facto de a catástrofe ter sido causada por um mutante.
   
Rei solitário.

Noutros media: A revista Wizard, especializada em comics e seu derivados, colocou o Pantera Negra na 71ª posição do seu ranking das cem melhores personagens da história dos quadradinhos. Por sua vez, o site IGN, atribuiu-lhe o 51º lugar numa tabela idêntica por ele organizada. Referindo-se ao herói africano como o Batman da Marvel. Não pelas semelhanças de visual, mas pelo caráter obstinado e pelos muitos recursos de que dispõe.
   Data de 1994, a primeira aparição televisiva do Pantera Negra. Aconteceu num episódio da série animada Fantastic Four, intitulado Prey of the Black Panther. Seguindo-se várias participações do herói, com maior ou menor relevo, em séries do género. Num episódio de The Avengers: Earth's Mightiest Heroes, foi apresentada a sua origem.

O Pantera Negra na série animada Fantastic Four (1994).

   Ainda sem direito a transposição para o grande ecrã, o Pantera Negra teve, contudo, papel de destaque em três filmes de animação produzidos pelos Estúdios Marvel: Ultimate Avengers 2 (2006), Next Avengers: Heroes of Tomorrow (2008) e Marvel Knights: Wolverine versus Sabretooth (2014). Todos eles foram lançados diretamente em DVD.
  Há mais de uma vintena de anos que circulam rumores sobre uma adaptação cinematográfica do Pantera Negra. Em junho de 1992, Wesley Snipes anunciou a intenção de fazer um filme baseado no herói. O tempo foi passando sem que o projeto saísse da gaveta. Snipes daria entretanto vida na grande tela a outro super-herói negro da Marvel: Blade, o Caçador de Vampiros, cujos três primeiros capítulos da franquia protagonizou.
  Por fim, em outubro de 2014, os Estúdios Marvel confirmaram oficialmente a produção de uma longa-metragem do Pantera Negra. Com estreia agendada para julho de 2018, a película insere-se na Fase III do universo cinemático da Casa Das Ideias. Segundo a mesma fonte, Chadwick Boseman (Dia de Treino) será o ator escolhido para encarnar o herói. O qual fará uma aparição preliminar, já no próximo ano, em Captain America: Civil War.


Chadwick Boseman Deauville 2014.jpg
Chadwick Boseman é o nome de que fala para interpretar o Pantera Negra.

sexta-feira, 6 de março de 2015

DO FUNDO DO BAÚ: «INFERNO»




  Nova Iorque infestada de demónios. Almas corrompidas. Rituais sacrificiais com recém-nascidos. Os portões do Inferno abertos de par em par numa saga dantesca com a assinatura de Chris Claremont.

Título original: Inferno
Ano: 1988/89
Licenciadora: Marvel Comics
Autores: Chris Claremont, Steve Engelhart, Gerry Conway, Ann Nocenti, Louise Simonson e David Michelinie (história); Walter Simonson, Jon Bogdanove e Terry Austin (arte)
Histórico de publicação (EUA): New Mutants #71-73; Uncanny X-Men #239-243; X-Factor #35-39; X-Terminators #1-4; Excalibur #6-7; Avengers #298-300; Daredevil #262,263 e 265; Power Pack #42-44; Cloak and Dagger (vol.3) #4; Fantastic Four #322-324; Spectacular Spider-Man #146-148; Web of Spider-Man #47-48; The Amazing Spider-Man #311-313; X-Factor Annual #4 (títulos publicados originalmente entre outubro de 1988 e agosto de 1989).

O nascimento de Nathan Summers anunciado em X-Men #241 (1989).
Histórico de publicação (Brasil): X-Men nº 46 a 49 (agosto a novembro de 1992) e Homem-Aranha nº 110 a 112 (agosto a outubro do mesmo ano). A interligação entre estes dois títulos da Abril (ambos referentes às respetivas primeiras séries lançadas pela editora) decorreu da possessão demoníaca que investiu o Duende Macabro (Hobgoblin em Inglês) de poderes sobrenaturais durante a saga. Finda a mesma, a entidade abandonaria o seu hospedeiro, transformando-se no Duende Demoníaco.

Um duende ainda mais macabro.

Equipas mutantes envolvidas:

* X-Men: À época formada por Cristal, Longshot, Destrutor, Wolverine, Vampira, Psylocke e Colossus, a equipa era liderada por Tempestade e operava a partir de uma base secreta localizada no deserto australiano. Para o mundo, os heróis mutantes estavam mortos, facto que lhes conferia uma vantagem tática;
*X-Factor: Designação adotada pelos X-Men fundadores (Ciclope, Anjo, Fera. Homem de Gelo e Garota Marvel) após o ressurgimento desta última;
*Novos Mutantes: Alunos do Instituto Xavier e potenciais X-Men do futuro, contavam nas suas fileiras com Míssil. Lupina, Mancha Solar, Miragem, Magia e Warlock. Durante a saga, a alienígena Gosamyr também colaborava com o grupo;
*Exterminadores: Rictor, Dinamite, Rusty, Skids e Taki Matsuya (ocasionalmente acompanhados por  Artie e Sanguessuga, dois pequenos mutantes)

 Novos Mutantes, uma das equipas X em destaque na saga.

Enredo: S'ym e Nastirth, dois hediondos demónios do Limbo, planeiam uma invasão em larga escala da Terra. Plano que tem em Illyana Rasputin (membro dos Novos Mutantes e irmã mais nova de Colossus) o seu principal instrumento, visto que o poder da jovem lhe permite abrir uma passagem entre o nosso mundo e a dimensão infernal.
   Durante uma curta paragem dos Novos Mutantes no Limbo, Nastirth conjura um feitiço bloqueador das habilidades de teletransporte de Illyana. Ficando assim a equipa à mercê de S'ym que, ansioso por consolidar o seu domínio sobre aquele reino dantesco, assumira o controlo das hordas demoníacas que o povoam.
  Manipulada por Nastirth, Illyana acede ao pedido deste para que liberte o seu poder demoníaco, pois somente dessa forma ela conseguirá regressar em segurança à Terra na companhia dos seus amigos. Quando a jovem abre um portal com ligação a Manhattan, Nastirth apressa-se a lançar um feitiço que o mantém aberto, permitindo assim a passagem do seu exército infernal. O que só se tornou possível graças ao supercomputador construído por Taki Matsuya (um dos Exterminadores), raptado tempos antes por Nastirth.



S'ym  (em cima) e Nastirth: duarquia infernal.

   Vingadores, Quarteto Fantástico, Quarteto Futuro, Homem-Aranha e Demolidor formam a primeira linha de defesa face à invasão, desbaratando um considerável número de demónios. Um dos quais possui o Duende Macabro, usando-o como hospedeiro e dotando-o de poderes sobrenaturais.
  Em meio ao caos e à loucura instalados, um pouco por toda a cidade objetos inanimados adquirem vida própria, atacando e devorando pessoas. Foi o que aconteceu com grande parte dos motoristas de autocarro de Manhattan, comidos pelos veículos que conduziam, ou sendo eles próprios transformados em medonhos demónios. No caso do metropolitano, todas as linhas em funcionamento passaram a ter o Inferno como destino final. Em ambos os casos, porém, os nova-iorquinos, enfeitiçados por Nastirth, continuam a usar voluntariamente esses meios de transporte no seu quotidiano.

Inferno na Terra.
   Nastirth sela entretanto um pacto com Madelyne Pryor: em troca da localização do seu filho Nathan e da morte dos Carrascos às mãos dos X-Men, o demónio reivindica a criação de uma ponte permanente entre o Limbo e a Terra. Para cumprir a sua parte no acordo, Nastirth invade e modifica o sistema informático utilizado pelos heróis mutantes, de modo a que estes o possam usar para localizar os Carrascos. De seguida, por intermédio de outro dos seus encantamentos,o demónio infunde os pupilos de Xavier de uma inaudita ferocidade, traduzida numa incontrolável sede de sangue.
  Tomando de assalto o reduto dos Carrascos, os X-Men chacinam a quase totalidade do contingente adversário. Graças à proteção conferida pelo aço orgânico que lhe recobre o corpo, apenas Colossus se mantém imune ao sortilégio que transformou os seus camaradas em assassinos de sangue frio.No entanto, ao interiorizar o que sucedeu à sua irmã, o mutante russo rapidamente conclui que a única forma de libertar os demais X-Men da perniciosa influência de Nastirth será salvá-la.
   Cumprindo a segunda parte do acordo entre ambos, Nastirth  liberta Nathan Summers do laboratório do Senhor Sinistro, onde Madelyne Pryor descobre ser, afinal, um clone de Jean Grey.
  Com o seu plano coroado de êxito, S'ym e Nastirth iniciam uma brutal disputa pelo comando das hordas demoníacas e, por inerência, pelo governo do Limbo e da Terra. Quando o primeiro estás prestes a levar a melhor, o segundo, numa jogada desesperada, permite ser infetado pelo Vírus Tecno-orgânico. Devido às alterações que este lhe induz no organismo, o demónio funde-se ao supercomputador criado por Taki Matsuya. Em consequência disso, Nastirth tem exponencialmente amplificados os seus poderes  mágicos, iniciado de seguida a construção de uma ponte permanente entre o Limbo e a Terra, sem a ajuda de Madelyne Pryor. Antes, porém, que o processo esteja terminado, Taki destrói a máquina. Reduzido a cinzas pela explosão daí resultante, Nastirth tem o seu organismo instantaneamente reconstituído pela ação do Vírus Tecno-orgânico.
  Entrementes, a muitos quilómetros de distância, Colossus encontra a sua irmã Illyana e fica horrorizado com a sua grotesca aparência. Tendo sucumbido totalmente ao seu lado demoníaco, a jovem apresenta-se agora com cornos, pés de cabra e uma cauda bífida. Envergonhada pela reação de repulsa que suscitou no irmão, Illyana voa para o Limbo disposta a pôr um ponto final no reinado infernal de S'ym e Nastirth na Terra. Bastará, para isso, que assuma o governo da dimensão maldita. É, contudo, dissuadida destes seus intentos pela sua colega de equipa, Lupina. Em vez disso, Illyana renuncia ao seu poder demoníaco, criando um gigantesco vórtice que arrasta a maior parte dos demónios (incluindo S'ym) de volta ao Limbo. De seguida,  a jovem mutante usa a sua Espada das Almas para selar o portal. Quando a poeira assenta, os Novos Mutantes encontram uma menina de sete anos dentro da armadura sobrenatural usada por Illyana.

Illyana Rasputin e a sua Espada de Almas.

  Apesar de as ações de Illyana terem resultado no banimento das hordas demoníacas para o Limbo, Nastirh permanece no nosso mundo e os objetos e pessoas possuídos não voltaram ao seu estado normal.
  Graças aos esforços combinados dos X-Men e do X-Factor, Nastirth é finalmente destruído. No entanto, Madelyne Pryor mantém ativo o feitiço conjurado pelo demónio enquanto ameaça matar o próprio filho num ritual sacrificial para reabrir o portal entre a Terra e o Limbo. Depois de ter forçado um vínculo telepático com Jean Grey, a autointitulada Rainha dos Duendes mostra à sua gémea o filme completo da sua vida, incluindo a descoberta feita no laboratório do Sr. Sinistro.
  Quando, depois de romperem as defesas místicas da Rainha dos Duendes, os X-Men e o X-Factor resgatam o pequeno Nathan, a vilã, movida pelo desejo de vingança, prepara-se para pôr termo à própria vida arrastando Jean Grey consigo. Todavia, numa amarga ironia, a centelha de poder da Força Fénix que lhe concedera vida transfere-se para o corpo de Jean, permitindo-lhe assim salvar-se. Com a morte de Madelyne, Nova-Iorque volta imediatamente à normalidade.
 Apesar disso, devido ao vínculo telepático que unira a mente de ambas, uma reminiscência da personalidade de Madelyne transfere-se para Jean, imbuindo-a de um desejo de vingança relativamente ao Sr. Sinistro, a quem culpa por todo o seu sofrimento. Aproveitando a ausência de Magneto para combater a invasão, o Sr. Sinistro apoderara-se do Instituto Xavier. Ciente da vinda dos X-Men e do X-Factor, o vilão espera que os heróis mutantes adentrem o edifício para, de seguida, detonar cargas explosivas. Embora soterradas, ambas as equipas saem ilesas. No final, Ciclope incinera o Sr. Sinistro com uma das suas devastadoras rajadas óticas. Ninguém acredita, contudo, que essa seja a última vez que terão de lidar com o vilão.
  A despeito de toda a destruição e morte causadas pelo Inferno, muitos sobreviventes humanos estão absolutamente convencidos de que tudo não passou de uma alucinação coletiva.

Mãe desnaturada.
Repercussões: Conquanto o seu escopo tenha abrangido diversas personagens do universo Marvel além dos X-Men e seus subsidiários, as consequências de Inferno refletiram-se essencialmente nos heróis mutantes envolvidos na saga. A saber:

* A revelação de que Madelyne Pryor era, de facto, um clone de Jean Grey produzido pelo Sr. Sinistro para obter o mutante perfeito através da mescla dos genomas de Ciclope e da Garota Marvel. Processo de que resultou o nascimento de Nathan Summers (o mutante futuramente notabilizado como Cable);
*A primeira evidência da real amplitude e perigosidade das maquinações do Sr. Sinistro (até então um vilão subestimado);
*O reencontro entre os X-Men e o X-Factor, afastados em virtude de um conjunto de mal-entendidos;
* A reversão de Illyana Rasputin para a idade de sete anos;
* A contaminação do Limbo pelo Vírus Tecno-orgânico;
* A dissolução dos Exterminadores, cuja maior parte dos membros transitou para os Novos Mutantes;
* A morte de Madelyne Pryor

Sequelas: Sob o título X-Infernus, entre fevereiro e maio de 2009, foi publicada nos EUA uma minissérie mensal em quatro fascículos, tendo como protagonista Magia (codinome entretanto adotado por Illyana Rasputin). Escrita por C.B. Cebulski e com esboços de Giuseppe Camuncoli, a história retrata os esforços de Colossus para resgatar a sua irmã do Limbo.
  Uma segunda sequela, Fall of the New Mutants, chegou às bancas norte-americanas um par de anos depois. Desta feita, o foco narrativo centrava-se no Projeto Purgatório, uma sigilosa operação governamental que consistia em usar mutantes recém-nascidos para abrir um portal de acesso ao Limbo. Objetivo: usar a dimensão infernal como base para um exército secreto. Uma vez mais, Illyana Rasputin foi uma peça-chave em toda a trama.

O regresso dos X-Men originais, agora como X-Factor.

Índice de boa leitura: 78%

   Em muitos aspetos, Inferno retrata os X-Men no seu pior: demasiadas personagens, demasiados enredos secundários, demasiadas pontas soltas. Mas essas são, por outro lado, algumas das idiossincrasias que tornam tão empolgantes as estórias dos Filhos do Átomo.
 Mercê do cariz burlesco da sua trama (objetos comuns transformados em demónios; demónios transformados em robôs; uma vilã seminua postada no cimo de um arranha-céus ameaçando sacrificar o seu próprio bebé), a saga converte-se a espaços ela própria numa divertida paródia  ao universo X.
 Numa análise mais aprofundada, Inferno poderá ser perspetivada como um repositório de tormentos pessoais, materializados nas consequências das escolhas e ações realizadas pelos seus principais protagonistas. Sendo o exemplo mais ilustrativo o de Madelyne Pryor, uma mulher despeitada devido ao facto de ter saído a perder do triângulo amoroso com Scott Summers e Jean Grey, formado após o regresso desta última ao mundo dos vivos. Como qualquer mulher nessa posição, Madelyne teve no desejo de vingança a sua força motriz. Todos os seus atos foram, pois, condicionados por esse sentimento tão pungentemente humano.

Um trágico triângulo amoroso.

  Qualquer empatia sentida pelos leitores relativamente à angústia de Madelyne (a par de Illyana Rasputin, uma das pedras angulares da trama) acaba, todavia, por desvanecer-se no desfecho da história, quando ela assume de bom grado os efeitos negativos decorrentes do poder de que foi imbuída.
  Vista desse ângulo, Inferno afigura-se, em certa medida, como uma sequela da Saga da Fénix Negra, escrita pelo mesmo Chris Claremont, quase uma década antes. Usando uma réplica perfeita de Jean Grey (até então sem grande importância na continuidade dos X-Men), Claremont revisita a questão de como reagiria a heroína mutante a uma súbita exposição a um poder desmesurado.
  Nesse sentido, Inferno surge quase como uma realidade alternativa onde é explorada a premissa do que aconteceria caso Jean Grey abdicasse da sua humanidade em prol do poder semidivino de que é portadora. Claremont tem, no entanto, o cuidado de não brindar os leitores com uma narrativa requentada, optando por promover o distanciamento emocional destes em relação à personagem.Que surge na trama investida da função de principal catalisador narrativo.
  Metódico como é seu apanágio, Claremont burilou a trama com a precisão e paciência de um cultivador de bonsais. As sementes para o clímax de Inferno foram sendo plantadas desde a primeira aparição de Madelyne Pryor, cerca de 80 edições antes. A colheita, essa, não podia ter sido mais auspiciosa.