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segunda-feira, 20 de março de 2017

FÁBRICA DE MITOS: FIRST COMICS



  No pioneirismo editorial e na excelência dos seus autores teve as coordenadas do seu surpreendente sucesso. Quando mordeu os calcanhares aos dois titãs que, nos alvores dos anos 80, dominavam a seu bel-prazer a indústria dos comics, foi atirada para fora de um jogo com regras viciadas. Apesar da deserção de um dos seus fundadores, volta agora a dar cartas, lançando novos e velhos trunfos.


Uma lufada de ar fresco

Na viragem da década de 80 do último século, a indústria dos comics estava capturada pela Marvel e pela DC que, assim, iam ditando as regras do jogo. Enquanto os dois colossos se procuravam abafar mutuamente, era o próprio mercado que tinha dificuldades em respirar.
Nessa atmosfera sufocante, o advento da First Comics funcionou, portanto, como um balão de oxigénio. Em especial para as licenciadoras independentes asfixiadas por uma concorrência que, como mais adiante se perceberá, nem sempre fazia jogo limpo.
Nascida do sonho de dois visionários-  Ken Levin e Mike Gold - e sob o signo da irreverência, em 1983 a First Comics elegeria Evanston, um subúrbio de Chicago, para sua primeira base operacional. Sob o lema Go for great! (algo como "Aposta no melhor!"), a empresa não demorou a atrair um naipe de autores tão talentosos quanto desejosos de uma oportunidade para darem a conhecer ao público os seus projetos pessoais. Projetos esses invariavelmente ignorados pelas grandes editoras para as quais trabalhavam ou vetados pelo Comics Code Authority (código regulador dos conteúdos publicados nos títulos norte-americanos com super-heróis e afins).

O logótipo original da editora.
Sem receio de arriscar nas suas opções editoriais e liberta dos atavios do CCA, a First Comics, ao mesmo tempo que piscava o olho aos leitores maduros, marcava igualmente a diferença noutros campos. Entre os seus princípios éticos pontificava, por exemplo, o inapelável respeito pelos direitos autorais. Exceção assinalável numa época onde era ainda frequente a apropriação indevida por parte das grandes licenciadoras de conceitos desenvolvidos pelos seus colaboradores.
Em vez de meros proletários, na First Comics os escritores e artistas eram tratados como criadores com uma palavra a dizer na edição das suas obras. Circunstância que, anos depois, motivaria um amplo debate em torno dos direitos autorais, do qual resultaria um primeiro esboço de legislação com vista à sua salvaguarda (a Creator's Bill of Rights).
Graças ao seu proverbial faro para talentos fora de série, Mike Gold conseguiu agrupar em pouco tempo uma verdadeira constelação de autores, na sua maioria desviados da Marvel e da DC. Mike Grell (Jon Sable), Jim Starlin (Dreadstar) e Howard Chaykin (American Flagg!) foram alguns dos astros descontentes com o tratamento recebido por parte das grandes editoras a abrilhantar um projeto em que, à partida, poucos colocariam fé.
Em 1984, na sequência da aquisição do lote de personagens até então publicadas sob os auspícios da extinta Capitol Comics, foi a vez de Mike Baron (Badger) e Steve Rude (Nexus) subirem a bordo de um navio que navegava agora a todo o vapor. No entanto, como em qualquer viagem por territórios não cartografados, esta não seria isenta de perigos e de obstáculos.


Dois dos títulos perfilhados pela First Comics
após a extinção das respetivas editoras.
Nesse mesmo ano, enquanto as pequenas editoras exploravam as potencialidades do comércio direto (dispensando intermediários entre elas e os pontos de venda), a First Comics interpôs uma ação judicial contra a Marvel. Em causa estariam alegadas práticas anticoncorrenciais adotadas pela Casa das Ideias. A sustentar a acusação, o facto de, logo após a entrada da First Comics no mercado, a editora de Stan Lee o ter inundado com uma enxurrada de novos títulos. Motivando dessa forma um processo que visava também a World Color Press.
Aquela que é, ainda hoje, uma das maiores gráficas a nível mundial - responsável, entre outras coisas, pela impressão da grande maioria dos títulos de super-heróis produzidos em terras do Tio Sam - teria, presumivelmente, inflacionado os preços dos serviços prestados às licenciadoras independentes e, em particular, à First Comics. Embaratecendo, em contrapartida, aqueles que prestava à Marvel.
Ainda com uma longa batalha jurídica no horizonte, em 1985 a First Comics mudou a sua sede para Chicago. Mike Gold, seu cofundador e presidente-executivo, mal teve no entanto tempo de aquecer a cadeira do seu novo gabinete. No final desse mesmo ano, apresentou demissão do cargo, para assumir funções como editor-chefe da DC, em Nova Iorque. A notícia caiu como uma bomba e as ondas de choque fizeram estremecer as próprias fundações da empresa.
Fazendo uso da sua influência junto dos autores para cuja emancipação contribuíra, Gold convenceu vários deles - com Howard Chaykin e Mike Grell à cabeça - a acompanharem-no nessa sua aventura na cidade insone. Contratações de luxo que valeriam à Editora das Lendas algumas das suas mais memoráveis séries dos anos 80:  Blackhawk, Hawkworld e Green Arrow: The Longbow Hunters foram fenómenos de vendas e deixaram a crítica em delírio.
Nem tudo foram, porém, reveses nesse conturbado ano de 1985. Mesmo desfalcada de algumas das suas coqueluches, e tendo agora Ken Levin como único timoneiro, a First Comics não só se manteve à tona como continuou a destacar-se através do pioneirismo das suas iniciativas.
Fazendo jus ao nome, a First Comics foi a primeira a lançar uma série periódica totalmente gerada por computador (Shatter!), a publicar um manga japonês traduzido em inglês (Long Wolf and Cub) e a fazer uma adaptação aos quadradinhos de uma peça de teatro (The Organic Theater's WARP). A coroa de glória seria, contudo, a atribuição do cobiçado Kirby Award para melhor álbum de 1985 a Beowulf. Galardão que distinguia assim a primeira graphic novel baseada no poema épico epónimo que se julga ter sido escrito no início do século XI.




A primeira série digital e a premiada adaptação de um poema épico
tiveram o selo da First Comics.
Em complemento a tudo isto, a notoriedade da First Comics estender-se-ia também a outros segmentos culturais. Em 1987, Jon Sable foi a primeira personagem de uma editora independente a ter as suas aventuras transpostas ao pequeno ecrã. A série, da qual foram gravados somente sete episódios, marcaria também a estreia da ex-top model Rene Russo na representação.

Jon Sable foi o primeiro herói
 de uma pequena editora a ganhar uma série televisiva. 
Com as vendas em declínio, e quando já se adivinhava o seu canto do cisne, no início de 1992, a First Comics foi uma das sete companhias adquiridas pela Classics International Entertainment (CIE). Contudo, em vez de uma tábua de salvação, o negócio serviria tão-somente para acelerar o fim de um projeto moribundo. O que aconteceu quando a CIE tomou a decisão de cessar toda a sua atividade editorial, convertendo-se ela própria numa plataforma digital.
Algum do material publicado pela First Comics seria contudo revisitado por outras editoras já este século. Depois de a Dark Horse ter reeditado em 2002 a série Lone Wolf and Cub, três anos depois seria a vez da IDW republicar os primeiros números de Jon Sable e Grimjack. Personagens icónicas que, juntamente com Badger, seriam revividas a partir de 2007 em novas séries regulares.
Ao fim de quase duas décadas de pousio, em julho de 2011, nas vésperas da edição desse ano da San Diego Comic-Con, Ken Levin anunciou, para gáudio dos fãs nostálgicos, que a First Comics reabriria portas dentro de alguns meses.

Ken Levin, o capitão que se recusou a abandonar o barco.
Ciente das profundas transformações operadas na indústria dos quadradinhos desde os anos 1990, a First Comics aposta agora em três vetores: títulos originais com a assinatura de alguns dos mais reputados autores da atualidade, republicação de material clássico e captação de novos criadores e personagens. Foi precisamente com este último objetivo em vista que, em 2015, a First Comics avançou com um processo de fusão com a Devil Due's Entertainment. Mantendo ambas, contudo, a sua independência editorial.
Com uma forte aposta nas edições digitais, além de Badger (do regressado Mike Baron), a atual linha de super-heróis da First Comics inclui títulos como Zen - The Intergalactic Ninja. Continuando o ecletismo das suas publicações a ser outro dos trunfos da editora. No seu catálogo online, os leitores encontram desde séries de ficção científica como Delete a paródias de humor negro como Killerdarlings, passando por histórias de pendor mais adulto como Blaze Brothers.
Fiel ao seu ADN, a First Comics tem na excelência dos seus autores a sua melhor resposta aos desafios do presente. De olhos postos no futuro, vai conquistado uma nova geração de leitores ao mesmo que reconquista alguns dos da velha guarda.



Killdarlings
Novas e velhas apostas
 de uma editora renascida das próprias cinzas.

O toque de  Midas ou o beijo de Judas?

Personagem-chave na história da First Comics, pelos melhores e piores motivos, Michael "Mike" Gold, escritor, editor e empresário nascido há 66 anos em Chicago, nunca foi homem de fugir às controvérsias. Antes daquela em que se envolveu ao trocar a First Comics pela DC, levando consigo alguns dos maiores talentos da empresa que ajudara a fundar um par de anos antes, já tinha assumido, em 1969, a coordenação da campanha mediática posta em marcha pela defesa dos Sete de Chicago. Um dos nomes pelos quais ficou conhecido o grupo de advogados, originalmente composto por oito elementos, acusados pelo Governo federal norte-americano de conspiração e incitamento à desobediência civil no contexto dos protestos contra a Guerra do Vietname convocados para a cidade durante a convenção do Partido Democrático lá realizada no ano anterior.
Se é verdade que muitos fãs da First Comics nunca lhe perdoaram a "traição", culpando-o pelo fim prematuro do projeto, não há como negar que muito do seu sucesso inicial se ficou a dever a Gold. Apelido que, de resto, soa premonitório, considerando que Mike parece possuir a sua própria variante do toque de Midas.
Senão vejamos: foi graças à sua visão que títulos como American Flagg!, Badger ou Jon Sable (ver texto seguinte) foram verdadeiras pedradas no charco em que se havia transformado o mercado dos comics no princípio da década de 1980. Apesar de essa ser uma luta desigual - a fazer lembrar a alegoria bíblica de David e Golias -, a First Comics chegou, como vimos, a ser bastante incómoda para a toda-poderosa Marvel.
De regresso à DC, de onde saíra em 1983 para fundar a First Comics, Mike Gold pôs a concorrência em sentido ao editar algumas das melhores séries do período pós-Crise nas Infinitas Terras. Hawkworld, The Question, Legends e Green Arrow: The Longbow Warriors tornar-se-iam referências incontornáveis na história da Editora das Lendas. Foi também sob a batuta de Gold que um dos seus títulos mais antigos, Action Comics, ganhou novo elã e nova periodicidade (de mensal passou a semanal).
Sempre atento às novas tendências, em 2006 Mike Gold foi cofundador da ComicMix, plataforma digital dedicada ao entretenimento e à cultura pop. Que, entre muitas outras coisas, serve para comercializar algum do material antigo publicado pela First Comics...

Mike Gold: Judas ou profeta?

As joias da Coroa

Sem demérito para as restantes, American Flagg!, Badger e Jon Sable foram, inquestionavelmente, as séries que maior contributo deram para a afirmação da First Comics no claustrofóbico mercado dos quadradinhos estadunidenses da década de 80. Seduzidos pelo arrojo das tramas e pelo carisma dos seus protagonistas, os leitores cedo fizeram delas casos sérios de popularidade.
No caso da primeira, da autoria de Howard Chaykin, boa parte do seu êxito ficou a dever-se à sua forte componente satírica. Ambientada em 2031 (um futuro ainda distante à data do seu lançamento), American Flagg! denunciava alguns dos pecados originais da sociedade norte-americana, designadamente a subordinação do poder político aos interesses das grandes corporações. As mesmas que, após um cataclismo global e subsequente fuga do Governo para Marte, geriam agora o país como se de um gigantesco negócio se tratasse.
É, pois, neste contexto de venalidade e corrupção moral que surge um improvável campeão da justiça. Antigo astro televisivo convertido em agente policial ao serviço da omnipresente Plexus (à evidência uma paródia a Ronald Reagan que, à época, ocupava a Sala Oval), Reuben Flagg procura ser, apesar das suas fraquezas carnais, um farol de decência num mundo a resvalar rapidamente para o precipício.

O reverso do sonho americano.

Considerada ainda hoje uma das obras capitais de Howard Chaykin, são notórias as suas influências narrativas em Watchmen e The Dark Knight Returns. Entre 1983 e 1988 foram publicados 50 volumes de American Flagg!, que não resistiu contudo à saída do seu criador da First Comics. Razões que fazem desta série um marco na história da 9ª Arte e um sonho de consumo de muitos colecionadores.
Badger, após uma meteórica passagem pela Capitol Comics, aterrou de paraquedas na First Comics, em 1985, para continuar a desafiar todos os estereótipos e regras inescritas das histórias com super-heróis.
Personagem multidimensional saída da imaginação de Mike Baron, o Texugo (tradução literal da sua denominação original) correspondia apenas a uma das seis personalidades desenvolvidas por Norman Skyes. Mestre das artes marciais e veterano da Guerra do Vietname,  Norman fora molestado na infância pelo padrasto, sofrendo por isso de graves perturbações mentais. Apesar das ocasionais temporadas passadas em instituições psiquiátricas, ele operava como um vigilante mascarado e com a capacidade de comunicar com os animais. Particularidade que o levava por vezes a envolver-se em causas ambientais, embora empregando métodos, no mínimo, questionáveis.

Texugo raivoso. 
Mesmo para os padrões da época, as histórias do Texugo eram já politicamente incorretas. Com um registo frequentemente delirante a raiar o absurdo, tinham no humor desbragado a sua pedra de toque, o que as tornava irresistivelmente divertidas. Ao mesmo tempo que convidavam a reflexões mais sérias. Acerca, por exemplo, daquilo que define um herói ou do relativismo moral que atola as nossas sociedades numa espécie de limbo ético. A tal "enorme zona cinzenta" em que muitas pessoas gostam de chafurdar mas onde o Texugo, que via o mundo a preto e branco, se sentia como um peixe fora de água.
Com a extinção da First Comics, o Texugo e o seu criador tornaram-se verdadeiros nómadas, migrando de editora para editora ao longo dos anos seguintes. Até em 2014 regressarem finalmente à casa que tão bem conheciam, para voltar a fazer de Badger um dos títulos de charneira da First Comics.
Muito antes de o realismo servir de bitola às histórias com super-heróis, já Mike Grell o infundia em Jon Sable. O quotidiano deste mercenário e escritor freelancer de contos infantis  (ou seria ao contrário?) era repartido entre as selvas de betão norte-americanas e as luxuriantes savanas africanas.
Fortemente influenciado pela literatura pulp e pelo James Bond de Ian Fleming, o título por ele estrelado teria 56 números publicados com o selo da First Comics até 1988, ano em que foi cancelado já depois de Grell se ter transferido para a DC, ficando as tramas a cargo de Marv Wolfman. Pelo meio, como já aqui foi referido, Sable teve direito a uma série televisiva onde foi interpretado por Lewis Van Bergen. Tornando-se, assim, a primeira personagem de uma licenciadora independente a lograr tal feito.
Vale a pena recordar ainda que todos estes títulos da First Comics, bem como Grimjack e Dreadstar, foram editados em português pelas brasileiras Abril, Cedibra e Globo, entre o final dos anos 80 e o princípio dos anos 90.

Caçador urbano.































sexta-feira, 3 de março de 2017

EM CARTAZ: «HELLBOY II- O EXÉRCITO DOURADO»



 Um elfo vingativo planeia fazer marchar sobre a Terra uma imbatível horda mecânica que tudo dizimará à sua passagem. Apenas Hellboy e seus aliados poderão travar a contagem decrescente para o Dia do Juízo Final. Voltando, assim, o destino da Humanidade a repousar na Mão Direita do Diabo, nesta sequela que, apesar do tom mais ligeiro, não se deixou ofuscar pelo charme gótico do primeiro filme. 

Título original: Hellboy II- The Golden Army
Ano: 2008
País: EUA
Género: Ação/Aventura/Fantasia
Duração: 120 minutos
Produção: Relativity Media e Dark Horse Entertainment
Distribuição: Universal Pictures
Realização: Guillermo del Toro
Argumento: Guillermo del Toro e Mike Mignola
Elenco: Ron Perlman (Hellboy), Selma Blair (Liz Sherman), Doug Jones (Abe Sapien), John Alexander/James Dodd (Johann Krauss), Luke Goss (Príncipe Nuada), Anna Walton (Princesa Nuala), Jeffrey Tambor (Diretor Manning), John Hurt (Professor Trevor Bruttenholm), Brian Steele (Mr. Wink) e Roy Dotrice (Rei Balor)
Orçamento: 85 milhões de dólares
Receitas: 160,4 milhões de dólares

Hellboy e Liz Sherman vivem nova aventura no cinema.
Desenvolvimento: Decorrido apenas um mês sobre a chegada de Hellboy aos cinemas de todo o mundo civilizado, a Revolution Studios anunciou o lançamento de um segundo filme baseado na criação suprema de Mike Mignola*. Porque em equipa ganhadora não se mexe, Guillermo del Toro voltaria a sentar-se na cadeira de realizador, Ron Perlman repetiria o papel principal e era quase certa a continuidade do restante elenco secundário.
Tendo em vista a produção de uma trilogia, os produtores avançaram 2006 como data provisória para a estreia do segundo capítulo da saga. Tudo parecia correr sobre esferas até que, no princípio do ano em questão, a Revolution Studios deixou meio mundo boquiaberto ao anunciar a sua extinção (retomaria a atividade em 2014), deixando assim órfão o projeto.
Após alguns meses em suspenso, os direitos da obra mudariam de mãos ao serem adquiridos pela Universal Pictures. Garantido o respetivo financiamento e distribuição, a rodagem da película arrancou em abril de 2007 no Reino Unido, transferindo-se, depois, para a Hungria. A estreia, essa, ficou agendada para o verão do ano seguinte.
Guillermo del Toro explorou, nesse ínterim, diversos conceitos a serem introduzidos na sequela na qual participaria na dupla condição de realizador e coargumentista. Entre as muitas ideias consideradas, incluía-se a recriação das versões clássicas de Drácula, Lobisomem e Frankenstein. Sempre em articulação com Mike Mignola, o cineasta mexicano ensaiou também uma adaptação de Almost Colossus, uma das mais aclamadas sagas de Hellboy.

Guillermo del Toro (esq.) e Mike Mignola:
obreiros de uma sequela bem-sucedida.
Ambos chegariam, porém, à conclusão de que seria mais fácil o desenvolvimento de uma história inédita baseada no folclore de diferentes culturas. Del Toro trabalhava por esses dias no enredo de O Labirinto do Fauno (filme que também dirigiu e que lhe valeu vários prémios, incluindo três Óscares em outros tantos segmentos técnicos). Já as histórias de Mike Mignola eram cada vez mais inspiradas em elementos mitológicos. Tratou-se, por conseguinte, de juntar o útil ao agradável.
Definido o foco da trama, Mignola e del Toro meteram mãos à obra e, em poucas semanas, apresentaram um primeiro rascunho da mesma aos mandachuvas da Universal. Ao que consta, a história original seria, no essencial, idêntica àquela que foi mostrada no grande ecrã. Consistindo a principal diferença na substituição dos quatro titãs elementais (Água, Terra, Ar e Fogo) inicialmente apresentados pelo infame Exército Dourado que subtitularia a sequela
De acordo com Mike Mignola, por contraponto ao anterior, o tema deste segundo filme de Hellboy não remete para cientistas loucos e máquinas diabólicas ao serviço dos Nazis. Mas sim para lendas e fábulas procedentes, essencialmente, do folclore celta e germânico. Trazendo assim de volta um cortejo de seres sobrenaturais esquecidos pelo mundo moderno onde a ciência e a tecnologia são endeusadas sobre todas as coisas.
Após uma passagem por Londres, as filmagens de Hellboy II prosseguiram em junho de 2007 nos recém-inaugurados Korda Studios, nos arredores de Budapeste ( a capital húngara). Foi, aliás, a primeira produção a ser rodada nesse gigantesco complexo cinemático. Cabendo, portanto, ao staff capitaneado por del Toro as honras de estreia daquela que é uma verdadeira fábrica da fantasia no coração do Velho Continente.
Concluídas as filmagens em dezembro de 2007, Hellboy II chegaria a mais de 3000 cinemas nos EUA e no Canadá a 11 de julho do ano seguinte. Arrebatando, logo no primeiro fim de semana em cartaz, o primeiro lugar do box office ao arrecadar 36 milhões de dólares em receitas de bilheteira. A partir daí, foi sempre a somar até amealhar uns impressionantes 160, 4 milhões de dólares.
De tão lucrativa, seria previsível que a franquia continuasse a prosperar com o lançamento de uma terceira película. Enquanto os fãs ardiam de excitação pelo epílogo de uma trilogia que, à partida, teria tudo para ser memorável, o fluir do tempo cobriu o projeto com uma borrasca de incerteza.
Com efeito, após sucessivos adiamentos, o próprio Guillermo del Toro anunciou no mês passado, via Twitter, que os planos para a produção de Hellboy III foram definitivamente abandonados. Permanecendo, contudo, por esclarecer as verdadeiras razões que estiveram na origem desta, ainda assim, surpreendente decisão. Que, um pouco por todo o mundo, terá certamente deixado inconsoláveis muitos fãs do demoníaco herói dado a conhecer ao mundo por Mike Mignola em 1993.

Doug Jones (esq.) e Ron Perlman
numa ação promocional de Hellboy II.

*Perfil disponível em http://bdmarveldc.blogspot.pt/2012/06/eternos-mike-mignola-1960.html

Enredo: No Natal de 1955, o pequeno Hellboy, então com apenas 11 anos de idade, ouve fascinado a história que, ao deitar, lhe é contada pelo seu pai adotivo, o Professor Trevor Bruttenholm.
Muito tempo atrás, uma horrenda guerra opôs os homens aos seres mágicos que com eles dividiam o mundo. Motivado pela ganância humana, o conflito resultou na capitulação das forças que arregimentavam fadas, elfos, duendes e outras criaturas sobrenaturais que ainda hoje povoam o folclore pagão de diversas culturas.
Quando tudo parecia perdido para os seres mágicos, o ferreiro-mor dos elfos apresentou-se diante do Rei Balor e ofereceu-se para construir um exército mecânico indestrutível. Encorajado pelo orgulhoso Príncipe Nuada, um dos seus filhos gémeos, o velho monarca deu a sua bênção ao projeto bélico que permitiria alterar o curso dos acontecimentos a favor do seu povo.
Marchando imparável sobre a Terra. o Exército Dourado às ordens do Rei Balor rapidamente desbaratou as hostes humanas. Sem fazer prisioneiros, a horda mecânica, controlada por uma coroa de ouro mágica que adornava a cabeça do soberano, deixava atrás de si um rasto de morte e destruição.
Perante tamanha carnificina, Balor foi tomado pela culpa e resolveu travá-la. Propôs então uma trégua aos seus depauperados inimigos, a qual eles de muito bom grado aceitaram.
Para selar a paz entre as duas espécies desavindas, aos humanos foram atribuídas as cidades e aos seres mágicos as florestas. Ficando, assim, uns e outros proibidos de invadirem os domínios alheios, sob pena de nova guerra. 
Quanto ao Exército Dourado, foi confinado em local secreto e a coroa mágica que o controlava partida em três pedaços pelo Rei Balor. Que depois entregou um deles à Humanidade e os restantes dois a cada um dos seus filhos, o Príncipe Nuada e a Princesa Nuala. 
Discordando da decisão paterna, Nuada rejeitou o fragmento da coroa que lhe era destinado e partiu para um exílio autoimposto. Deixando, todavia, a promessa de regressar quando o seu povo mais precisasse do seu auxílio.

O Rei Balor e os seus dois filhos,
 o Príncipe Nuada e a Princesa Nuala.
De volta ao presente, a Casa de Leilões Blackwood, em Nova Iorque, é tomada de assalto pelo Príncipe Nuada e por Mr. Wink, um gigantesco troll que lhe serve de guarda-costas. A parelha rouba o fragmento da coroa mágica pertencente à Humanidade depois de esta ter invadido as florestas habitadas pelos seres mágicos, obrigando-os a procurar refúgio debaixo da terra e violando dessa forma a ancestral trégua estabelecida pelo Rei Balor.
Antes de partir, Nuada liberta uma revoada de Fadas dos Dentes (pequenas criaturas aladas que se alimentam de cálcio e têm preferência pela arcada dentária, justificando assim o nome), matando todas as testemunhas oculares do assalto.
Dado o cariz sobrenatural do ataque, as autoridades acionam secretamente o Departamento de Pesquisa e Defesa Paranormal (DPDP). Destacados para a cena do crime pelo Diretor Manning, Hellboy, Liz Sherman e Abe Sapien dão início à investigação.
Nem tudo são, no entanto, rosas na vida conjugal de Hellboy e Liz. O casal vem atravessando uma fase complicada, muito por culpa da instabilidade emocional de Liz. À boleia disso, Hellboy vem-se insurgindo cada vez mais contra a natureza clandestina do DPDP. Organização tantas vezes responsável pela salvação do mundo, mas obrigada a agir nas sombras devido à bizarra aparência dos seus principais agentes.
Chegados à Casa de Leilões de Blackwood, Hellboy, Liz Sherman e Abe Sapien são atacados pelas ferozes Fadas dos Dentes. Durante a refrega, Hellboy deixa-se cair de uma janela, sendo avistado pela multidão de curiosos que se concentrara nas imediações do edifício. Como se isso não bastasse, a sua aparatosa queda captada e transmitida em tempo real pelas muitas câmaras televisivas presentes no local.Após décadas a operar sigilosamente, a existência do DPDP é revelada em consequência de um "acidente". Em meio ao pandemónio instalado, Abe Sapien descobre que Liz se encontra à espera de um filho de Hellboy. Depois de o fazer jurar segredo, a jovem confidencia a Abe a sua intenção de dar à luz o bebé, embora consciente dos perigos que daí advirão.
Agastada com a imprudência de Hellboy, a cúpula do DPDP em Washington retira-lhe o comando da equipa de campo e confia-o a Johann Krauss, um fantasma ectoplásmico de origem germânica e com talentos mediúnicos.

A elite do DPDP em ação.
Entrementes, algures nos subterrâneos nova-iorquinos onde habita boa parte dos seres mágicos expulsos das florestas devido ao avanço da civilização humana, o Príncipe Nuada assassina o próprio pai para se apoderar do segundo fragmento da coroa mágica que permite controlar o Exército Dourado. Contudo, a Princesa Nuala, sua irmã gémea, consegue escapar levando consigo o terceiro e último pedaço da coroa.
Agora sob o comando de Krauss, Hellboy e Abe Sapien seguem a pista das Fadas dos Dentes até um mercado subterrâneo de trolls situado debaixo da Ponte do Brooklyn. Enquanto o trio explora o local em busca de mais informação, Abe esbarra acidentalmente com a Princesa Nuala. perdendo-se de amores por ela. Os dois visitam em seguida uma loja de mapas onde um estranho ser chamado Cabeça-de-Catedral lhes fornece um com a localização do Exército Dourado: a ilha escocesa de Bethmoora.
A alegria da descoberta é, porém interrompida pelo ataque de Mr. Wink e de uma divindade elemental às ordens de Nuada. Encurralados pelas criaturas, Abe Sapien e a Princesa Nuala são salvos no último instante por Hellboy. Ato heroico que não evita que uma multidão de humanos o culpe pela destruição causada. Facto que o Príncipe Nuada aproveita para questionar Hellboy sobre o sentido de proteger quem o vê como um monstro.

O monstruoso Mr. Wink.
Para júbilo de Abe Sapien, a Princesa Nuala é acolhida pelo DPDP e levada para o quartel-general da organização. No entanto, graças ao vínculo mágico que une os dois herdeiros do malogrado Rei Balor, Nuada consegue localizar a irmã e parte no seu encalço.
Pressentindo a iminente  chegada de Nuada, Nuala procura destruir o mapa que indica o paradeiro do Exército Dourado e esconde o último fragmento da coroa mágica que o controla entre os livros da biblioteca pessoal de Abe Sapien.
Nuada invade a sede do DPDP, apodera-se do mapa semidestruído mas falha em encontrar o último fragmento da coroa. Quando Hellboy o confronta, o vilão trespassa-o com uma lança mágica, ferindo-o com extrema gravidade.
Apesar dos esforços dos seus colegas de equipa, ninguém consegue arrancar a lança do torso de Hellboy. Nuada propõe então à irmã uma troca: a vida do herói pelo derradeiro pedaço da coroa mágica. Nuala aquiesce e ambos partem para a ilha de Bethmoora a fim de reviver o Exército Dourado.
Socorrendo-se de uma cópia do mapa de Nuala, Krauss, Liz e Abe Sapien viajam também para a ilha, transportando com eles o moribundo Hellboy. Lá encontram um duende que os conduz à presença do Anjo da Morte. A entidade anuncia-lhes poder salvar o herói mas que isso implicará que ele venha um dia a desencadear o Apocalipse. Liz escuta também o inquietante aviso de que será ela, mais do que qualquer outra pessoa no mundo, a sofrer com a concretização dessa funesta profecia. De coração pesado e debulhada em lágrimas, a jovem implora pela vida do amado.
Após extrair a lança do peito de Hellboy, o Anjo da Morte exorta Liz a dar-lhe um motivo para viver. Liz obedece e revela ao herói que ele irá ser pai dentro em breve.
Com Hellboy já plenamente restabelecido, o grupo é conduzido pelo duende até ao local onde Nuada os aguarda com a irmã feita refém, exigindo como moeda de troca o terceiro fragmento da coroa mágica em posse de Abe Sapien. Este entrega-lho e o perverso príncipe dos elfos apressa-se a reviver o Exército Dourado com que pretende varrer a Humanidade da face da Terra. Antes, porém, ordena aos seus soldados mecânicos que matem os agentes do DPDP.
Segue-se um acirrado confronto que serve apenas para confirmar a indestrutibilidade da horda mecânica que, quando danificada, se autorrepara num piscar de olhos. Face à impossibilidade de derrotar o Exército Dourado, Hellboy desafia o Príncipe Nuada para um duelo, cabendo ao vencedor a posse da coroa mágica outrora portada pelo Rei Balor. Embora a contragosto, Nuada é forçado a aceitar o desafio, uma vez que o pai de Hellboy fizera parte da realeza do Inferno.

Hellboy procura, em vão, deter o Exército Dourado.
Hellboy e Nuada digladiam-se num combate mano a mano até o maligno elfo acabar prostrado aos pés do herói.
Apesar de Hellboy lhe poupar a vida, Nuada procura apunhalá-lo, sendo impedido de o fazer pela irmã, que sustém o golpe com o próprio corpo, acabando a soltar o seu último suspiro nos braços de Abe Sapien. Mas assim também sentenciando à morte Nuada devido ao elo mágico que os unia.
Tentado por um breve instante a usar a coroa, Hellboy é prontamente dissuadido por Liz que usa a sua pirocinese para derretê-la, neutralizando para sempre o Exército Dourado.
De regresso à superfície, o grupo é confrontado por um furioso diretor Manning, que os repreende pela imprudência das suas ações. Em resposta, Hellboy e os seus colegas de equipa apresentam a sua demissão do DPDP. 
Ansioso por constituir família ao lado de Liz, Hellboy descobre que esta será, afinal, maior do que o previsto, quando a namorada lhe anuncia estar grávida de gémeos.

Trailer: 




Prémios e nomeações: Indicado para vários galardões, Hellboy II, conquistaria cinco deles: o Saturn Award para Melhor Filme de Terror e quatro Fangoria Chainsaw Awards nas categorias de Melhor Ator (Ron Perlman), Melhor Ator Secundário (Doug Jones), Melhor Caracterização (Mike Elizalde) e Melhor Distribuição (Warner Bros). Recorde-se que, quatro anos antes, o seu antecessor, apesar das várias nomeações recebidas, voltara para casa de mãos a abanar.

Foram quatro os troféus iguais a este
 arrebatados por Hellboy II.

Curiosidades:

*São vários os elementos da mitologia celta conceptualizados em Hellboy II. Segundo a lenda, Nuada terá sido o primeiro soberano do povo Tuatha De Dannan, sendo cognominado de Mão de Prata por ter passado a usar um braço fabricado com esse metal precioso após perder o verdadeiro numa batalha. No filme, o Príncipe Nuada é alcunhado de Lança de Prata e o seu pai, o Rei Balor, possui um braço mecânico;
*Apesar da insistência dos produtores, Christopher Lee (falecido em 2015) manteve-se irredutível na sua decisão de não aceitar desempenhar o papel de Rei Balor;
*Brian Steele, o ator que interpreta o troll chamado Mr. Wink, perdeu mais de 5 Kg durante a rodagem do filme. Consequência do enorme desgaste físico de um papel que implicava a utilização de um fato de 60 Kg e de umas andas de 2,5 metros;
*Mr. Wink foi assim batizado em homenagem ao cão zarolho que Selma Blair tinha à época como mascote;
*Quando envergava os figurinos de Abe Sapien, Chamberlain e Anjo da Morte (os três papéis por ele representados na película), Doug Jones ficava praticamente privado da visão e da audição devido aos implantes prostéticos na cabeça que ajudavam à caracterização;

Um irreconhecível Doug Jones
 em pleno processo de transformação em Abe Sapien.
*No interior de uma redoma de vidro na sede do Departamento de Pesquisa e Defesa Paranormal é possível ver a máscara danificada de Kroenen, o sinistro cientista nazi que foi um dos vilões de Hellboy;
*Tal como já se verificara no primeiro filme, o nome dos atores não consta no genérico de abertura, tampouco nos cartazes promocionais ou nos trailers oficiais;
*A invenção dos óculos especiais usados por Hellboy e companhia para verem o mercado dos trolls é atribuída a Eugene Schufftan. Trata-se de uma homenagem àquele que foi um dos pioneiros no emprego de efeitos visuais no cinema, recorrendo, essencialmente, a espelhos e lentes deformadoras;
*O número 7 é referenciado em diferentes momentos do filme: é dito que o Exército Dourado é composto por um total de 70 x 70 soldados e, na Casa de Leilões, o fragmento da coroa mágica que o comandava surge catalogado como o item nº777, com um valor-base de licitação de 7 milhões de dólares;
*Na versão original do enredo, o Exército Dourado estaria depositado no fundo do mar, o que implicaria gravações subaquáticas. Ideia que seria no entanto descartada por questões orçamentais;
*Não é por acaso que a aparência vampiresca do Príncipe Nuada faz lembrar a de Nomak em Blade 2. Ambos os filmes tiveram Guillermo del Toro como realizador e ambas as personagens foram interpretadas por Luke Goss;
*A repórter televisiva a quem Hellboy concede uma curta entrevista do lado de fora da Casa de Leilões Blackwood após o incidente com as Fadas dos Dentes é na verdade Blake Perlman, filha de Ron Perlman.

Nomak (Blade II) versus Nuada (Hellboy II):
descubram as diferenças.
Veredito: 76%


Para quem está pouco ou mesmo nada familiarizado com o material em que se baseia este filme, mas que, ainda assim, não chorou o dinheiro do bilhete, importa esclarecer que as bandas desenhadas de Hellboy, publicadas em terras do Tio Sam sob a chancela da Dark Horse Comics, não são exatamente um fenómeno de vendas. Não pela sua falta de qualidade, note-se, mas pelo caráter profano das histórias impregnadas de elementos mitológicos e sobrenaturais numa opressiva atmosfera gótica.
Sejamos claros: apesar do seu bom coração e do seu fundo humano, Hellboy é uma criatura infernal. Que, ainda para mais, encerra em si a chave para o Juízo Final. Some-se a isto uma personalidade irreverente e sarcástica, e ele não poderia estar mais afastado do arquétipo super-heroico consagrado por editoras como a Marvel e a DC. 
Quanto muito, Hellboy poderá ser classificado como um anti-herói. Conceito que, como é sabido, goza atualmente de uma crescente popularidade nos diversos segmentos culturais. Personagens com essas características continuam, não obstante, a ter alguma dificuldade em cair nas boas graças do vulgo, mais apreciador de adolescentes picados por aranhas irradiadas ou por extraterrestres que usam os seus poderes semidivinos em prol da comunidade.

Hellboy pelo traço do seu criador.
Assim se explicando os retoques a que foi necessário proceder na essência de Hellboy aquando da sua transposição ao grande ecrã. Cedendo à pressão comercial, Mike Mignola aceitou sacrificar alguma da originalidade do seu conceito, por forma a aproximá-lo um pouco mais dos super-heróis convencionais. Esforço que se torna ainda mais evidente neste segundo filme do que no primeiro. E que foi generosamente recompensado tanto pelos espectadores como pela crítica, que não lhe regateou elogios.
Os quais, diga-se de passagem, foram mais do que merecidos considerando que estamos em presença de um filme 3D (divertido, dinâmico e despretensioso). Daqueles que combinam muito bem com um grande balde de pipocas e com lânguidas matinés caseiras em domingos chuvosos. Mas que nem por isso é tão esquecível como a maioria dos blockbusters estivais.
Além da magnífica caracterização (não foi por acaso que foi nomeado para um Óscar nessa categoria), o filme tem nos efeitos especiais (consideravelmente mais fascinantes do que os do seu antecessor) e na soberba interpretação de Ron Perlman (de tão talhado para o papel, parece a ele predestinado) os seus pontos mais fortes.
O charme de Hellboy II não se limita, porém, ao apelo estético e performativo. Conta também com uma trama menos simplista do que a da película original, embora sem nada de verdadeiramente inovador. Apesar disso, o dilema existencial com que o herói se debate (valerá a pena continuar a defender uma Humanidade que o despreza?) leva a alguns bons momentos de reflexão.
Mestre do cinema fantástico, Guillermo del Toro confirmou os seus créditos ao realizar um filme que dignifica o seu protagonista e cumpre com louvor a sua missão de entreter. 
Só é pena ter ficado incompleta a prometida trilogia. Mas o mundo dá muitas voltas e o que hoje é verdade, amanhã poderá muito bem deixar de o ser. Mesmo não padecendo de um otimismo narcótico, ainda acredito no relançamento de uma franquia que teria todas as condições para se intrometer num campeonato atualmente disputado apenas pelas arquirrivais Marvel e DC, com clara vantagem para a primeira.

Voltará Hellboy a dar um ar sua graça no grande ecrã?
A esperança é a última a morrer...









segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

HEROÍNAS EM AÇÃO: X-23




  Arma viva clonada de Wolverine, habituou-se a vê-lo como o pai que nunca teve antes de assumir o legado do malogrado herói canadiano. Após anos de cativeiro, sevícias e manipulações, encontrou uma família nos X-Men. Mas nem por isso a sua fera interior foi domesticada.
 Conheçam o sangrenta epopeia desta carismática mutante de nova geração que, depois da TV e da BD, muito promete dar que falar no cinema ao surgir em grande plano no filme Logan, com estreia marcada já para a próxima semana.

Denominação original: X-23 (atualmente Wolverine)
Licenciador: Marvel Comics
Criadores: Craig Kyle (história) e Chris Yost (arte conceitual) 
Primeira aparição (TV): Episódio 11 da 3ª temporada de X-Men Evolution (2003)
Primeira aparição (BD): NYX nº3 (fevereiro de 2004)
Primeira aparição como Wolverine: All-New Wolverine nº1 (janeiro de 2016)
Identidade civil: Laura Kinney
Local de nascimento: A Fábrica (instalação ultrassecreta localizada algures na ilha-Estado de Madripoor, no sudeste asiático)
Parentes conhecidos: Sarah Kinney (criadora e "mãe"); Wolverine (matriz genética e "pai", falecido); Daken (meio-irmão), Amiko Kobayashi (irmã adotiva), Bellona e Gabrielle Zelda Kinney (clones e "irmãs").
Ocupação: Estudante e aventureira (anteriormente, assassina profissional, prostituta e empregada de mesa)
Afiliações: Ex-operacional da Fábrica e da X-Force; membro atual dos X-Men
Base de operações: Móvel (continua, não obstante, a privilegiar a Nova Escola para Mutantes Charles Xavier, sediada na província canadiana de Alberta)
Armas, poderes e habilidades: Fac-símile genético de Wolverine, X-23 tem nos poderes do herói canadiano um índice para os seus. Existem, contudo, algumas diferenças fundamentais entre as respetivas fisiologias mutantes. As quais são justificadas tanto pela utilização de uma amostra defeituosa do genoma de Logan no processo de clonagem como pela quase total ausência de adamantium no organismo de Laura.
Comecemos pelos pontos em comum: tal como Wolverine, X-23 tem no fator de cura a sua habilidade primária (e, por certo, a mais extraordinária). Graças a ele, ambos conseguem regenerar em tempo recorde tecidos danificado ou destruídos. Cortes, fraturas, ferimentos de bala e até amputações de membros são, assim, curados em questão de segundos.
Tanto Wolverine como X-23 são virtualmente imunes a doenças e infeções de diversa ordem. Verificando-se o mesmo em relação a um amplo espectro de drogas e toxinas. Podendo, todavia, ser afetados por qualquer uma destas substâncias se a elas expostos em doses massivas ou por períodos prolongados.
Devido à capacidade autorregenerativa das células dos seus organismos, Wolverine e X-23 têm o seu processo de envelhecimento consideravelmente retardado, prolongando dessa forma a sua longevidade. No entendimento de alguns, isso faz deles seres imortais. Pese embora não o sejam, de facto.
Ambos possuem ainda sentidos aguçados e outras capacidades físicas (força, velocidade, resistência, etc.) amplificadas a níveis sobre-humanos.
No capítulo das diferenças, há a registar, em primeiro lugar, o facto de X-23 não ter o seu esqueleto revestido de adamantium. Antes que fosse concluído o processo de recriação da Arma X, Laura evadiu-se das instalações da Fábrica. Logo, o seu esqueleto não é inquebrável como o de Wolverine. Apenas o são as garras retráteis que possui nas mãos e nos pés, as únicas partes do seu corpo recobertas pelo metal indestrutível.
Esta constitui, aliás, uma das discrepâncias mais notórias entre Laura e Logan. Ao passo que este possui três garras metálicas em cada mão, X-23 possui apenas duas. Dispondo, em contrapartida, de mais uma garra de adamantium em cada pé, o que, em situações de mano a mano, lhe aumenta consideravelmente a letalidade.
A este extenso catálogo de habilidades inatas acrescem aquelas que decorrem do seu treino com vista a transformá-la numa arma viva. X-23 é especialista em camuflagem, técnicas furtivas, explosivos e em diversos tipos de armamento. O seu apuradíssimo olfato faz dela uma exímia rastreadora, conseguindo inclusivamente memorizar dezenas de diferentes odores.
Proficiente em diversas artes marciais, X-23 é formidável no combate corpo a corpo. Contudo, apesar da ferocidade que evidencia nas batalhas que trava, é dona de um QI elevado que lhe permite processar rapidamente grandes quantidades de informação. É também uma hábil estratega, conseguindo ajustar eficazmente as suas táticas aos mais diversificados cenários.
Poliglota, sabe-se que é fluente em inglês, francês e japonês, podendo, porém, dominar outros idiomas.
Tudo somado, percebe-se porque é X-23 considerada, tanto por aliados como por adversários, uma das mais perigosas mutantes à face da terra.

X-23, uma máquina de matar com rosto de menina.
Fraquezas: O programa de condicionamento mental a que X-23 foi submetida na Fábrica incluiu um "odor gatilho". Trata-se de uma feromona específica suscetível de lhe induzir uma fúria cega que a leva a matar indiscriminadamente sem qualquer controlo das suas ações.
Uma sondagem telepática efetuada em tempos por Emma Frost com vista à supressão desse mecanismo de controlo, resultou inconclusiva. Persistindo, por isso, a dúvida se o mesmo poderá alguma vez ser desabilitado.
Sendo o "odor gatilho" a sua principal fraqueza, importa ainda registar a vulnerabilidade de X-23 a determinados tipos de rajadas energéticas. Exemplo disso foram aquelas com que, certa vez, Nimrod (robô aparentado com as Sentinelas e velho inimigo dos X-Men) a atingiu, provocando-lhe um envelhecimento acelerado. Incapaz de regenerar as feridas daí resultantes, a jovem heroína mutante quase sucumbiu ao ataque.

Fera acuada pela própria raiva.
Perfil psicológico e relacionamentos: Insular é decerto o adjetivo que melhor define a personalidade de Laura Kinney. Dotada de escassas competências sociais, sente habitualmente grandes dificuldades no relacionamento interpessoal. Facto atribuível tanto ao processo de desumanização a que foi sujeita ao longo do seu período de cativeiro como à sua perceção do perigo que representa para aqueles que a rodeiam. Sobretudo depois de, sob o efeito do "odor gatilho", ter tirado a vida ao seu sensei, em quem projetava um arremedo de amor filial.
Na sequência desse trágico incidente, ocorrido ainda na sua infância, a pequena Laura adotou comportamentos autolesivos. Passando a fazer uso reiterado das próprias garras para se mutilar. Um comportamento antissocial profundamente enraizado que ninguém sabe ao certo se terá entretanto abandonado, porquanto  o seu fator de cura sara quase instantaneamente as feridas autoinfligidas.

O sensei de X-23 foi
uma das primeiras vítimas da sua fúria assassina.
Além da violência, outra constante na vida de Laura foi a desafeição. Apesar de a Drª. Kinney ter feito o melhor que podia para lhe incutir alguns resquícios de humanidade, a jovem só muito raramente manifestou interesse na "mãe" por quem fora rejeitada em pequena. Rejeição que, note-se, nada teve de voluntária.
Obedecendo às draconianas diretivas dos seus superiores, a Drª. Kinney evitou a todo o custo estabelecer qualquer vínculo emocional com a "filha", de modo a não comprometer os objetivos do programa - que, recorde-se, pretendia criar um novo Wolverine.
Treinada para ser uma assassina de sangue-frio, X-23 exibiu em diversos momentos sentimentos de compaixão. Quando, numa das suas primeiras missões, foi designada para eliminar o Dr. Martin Sutter - um dos mentores do projeto Arma X original - e a respetiva família, a jovem matou sem hesitar o cientista e a mulher, mas poupou a vida ao rebento do casal.
Em Wolverine, Laura encontrou o que de mais próximo teve de um pai. Com efeito, a relação de ambos, caracterizada por fortes sentimentos de proteção mútua, pouco difere de uma típica relação entre pai e filha.
Logan, no entanto, considerava Laura uma irmã mais nova, sendo, aliás, dessa forma que a costumava apresentar a terceiros. Apesar disso, o antigo X-Man chegou a planear a adoção da jovem. Mesmo não se tendo concretizado essa intenção, os dois agiram sempre como uma família, não faltando, aqui e ali, os inevitáveis arrufos. Escusado será dizer, à luz do quadro descrito, que a morte de Logan provocou efeitos devastadores em Laura.
Quando os dois se conheceram, Logan ofereceu-se para ajudar Laura a começar uma nova vida no Instituto Xavier, dizendo-lhe que ele, melhor do que ninguém, sabia o que ela estava a passar.
Desde que se uniu aos X-Men, Laura tem vindo a limar algumas arestas da sua personalidade. Da sua passagem pelo instituto resultaram as primeiras amizades (com Jubileu e Psylocke) e até uma paixoneta por Satânico (outro dos pupilos mutantes). Em tempos mais recentes, foi com o seu colega de equipa Anjo que Laura se aventurou a voar nas asas do amor. Romance que acabou numa aterragem forçada devido à insegurança emocional da rapariga.
Fazer parte de um grupo ajudou Laura a sentir-se menos socialmente desajustada após largos anos de isolamento. Persistem, contudo, os seus problemas de comunicação que a impedem, entre outras coisas, de compreender e expressar a multiplicidade de emoções que vivencia pela primeira vez.
Padecendo de uma timidez superlativa, quase patológica, Laura raramente pronuncia mais do que uma ou duas frases de cada vez. Isto apesar de, por ter crescido num ambiente controlado, se expressar num inglês impecável, praticamente isento de calão.

Conversas em família para mais tarde recordar.
Histórico de publicação: Seguindo as pisadas de Arlequina (DC) em contramão com a história, foi no pequeno ecrã que X-23 principiou a sua fulgurante carreira. Com a sua estreia a ocorrer em meados de 2003, no episódio 11 da 3ª temporada de X-Men: Evolution, série de animação de mediano sucesso.
Produto da imaginação de Craig Kyle, a personagem correspondia à intenção de tornar Wolverine um conceito mais simpático aos olhos do público infantil. Em harmonia, de resto, com o tom geral da série, onde os X-Men foram reinventados como um grupo de heróis adolescentes. A ideia era, portanto, introduzir uma versão juvenil e amenizada de Logan, considerado demasiado velho e agressivo para gerar empatia com os espectadores mais novos.
Em determinada ocasião, Craig Kyle referiu-se mesmo à sua criação como o "Pinóquio da Marvel". Alcunha que cai bem a X-23 se tivermos em conta que, no fundo, ela é uma arma viva que quer ser tratada como uma pessoa.
Apesar de Chris Yost ter ajudado a escrever o par de episódios de X-Men: Evolution que deram a conhecer X-23, ele reconhece que Kyle já tinha estruturado toda a história da personagem quando os dois se conheceram.
Com os fãs da série rendidos à mais recente anti-heroína mutante, os mandachuvas da Marvel entenderam por bem explorar também as suas potencialidades nos comics. E foi assim que, no início de 2004, X-23 debutou em NYX, uma nova aposta editorial da Casa das Ideias envolvendo a raça Homo superior. Embora o seu passado continuasse envolto numa aura de mistério - ou talvez por isso mesmo - Laura cedo caiu nas boas graças dos leitores, numa altura em que parecia impossível eles cansarem-se dos X-Men e seus derivados. Qualquer personagem com o fator X parecia fadada ao sucesso e X-23 não fugiu à regra.

NYX Vol 1 3
Em fevereiro de 2004, NYX nº3
assinalou a dramática estreia de X-23 na BD.
Ao sucesso quase instantâneo de X-23 não terá sido alheia, também, a sua mudança de visual quando migrou da TV para a BD. Importa recordar que, em X-Men: Evolution, ela possuía cabelo castanho e um tom de pele mais bronzeado do que o da sua versão consagrada nos quadradinhos. Traços fisionómicos, ao que consta, tirados a papel químico da adolescente que Craig Kyle indicara como modelo a Chris Yost na hora de desenvolver a respetiva arte conceitual.

O visual original de X-23 em X-Men: Evolution.
Rapidamente transformada numa das coqueluches da Marvel, X-23 passaria logo depois a coadjuvar os Filhos do Átomo nas  aventuras do grupo publicadas em Uncanny X-Men. Estatuto secundário que manteve até 2010, ano em que foi presenteada com um título próprio, cuja trajetória intermitente ditaria o seu cancelamento ao fim de 21 números. Pelo meio, os segredos do seu passado (ver texto seguinte) seriam finalmente desvelados em X-23: Innocence Lost, minissérie de 2005 com a assinatura dos seus criadores.
Seguir-se-ia uma curta passagem por Avengers Academy e Avengers Arena antes de, vestindo a pele da filha pródiga, regressar, em finais de 2012, à Mansão X. Lá permanecendo mesmo após a morte de Wolverine, de quem assumiria orgulhosamente o legado por entre os ecos de Secret Wars III.
Enterrada a persona de X-23 (se definitiva ou temporariamente, o tempo o dirá; para mais quando crescem os rumores acerca de uma iminente ressurreição de  Logan), Laura Kinney é, desde janeiro de 2016, a cabeça de cartaz de All-New Wolverine. Título que ela tudo tem feito para honrar.

Justiça de garras afiadas em All-New Wolverine Nº1 (novembro de 2015).

Origem: Um programa ultrassecreto chamado A Fábrica pretende reproduzir o experimento militar que, décadas antes, revestira de adamantium o esqueleto de Wolverine. Quando o Dr. Martin Sutter - um dos mentores do primeiro Arma X - resolve contratar a reputada geneticista Sarah Kinney para desenvolver um clone do mutante canadiano, o projeto toma uma nova direção. Dele também faz parte o Dr. Zander Rice, perfilhado por Sutter depois de o seu pai ter sido assassinado por um Wolverine em modo animalesco.
Dado que a única amostra disponível do ADN de Logan se encontra danificada, a Drª. Kinney falha reiteradamente em replicar o cromossoma Y. Para tentar contornar o problema, propõe aos seus superiores a criação de um espécime feminino. Ideia prontamente rejeitada, em particular por Zander Rice.
Apesar da interdição, Kinney prossegue as suas tentativas de criar um clone viável de Wolverine usando o cromossoma X e apela ao Dr. Sutter que reconsidere. O que ele acaba por fazer, concedendo-lhe autorização para prosseguir as suas experiências.
Após 22 tentativas fracassadas para reconstituir o ADN de Wolverine, a 23ª amostra genética revela-se viável para ser combinada com um embrião. Furioso com a insubordinação de Kinney, Rice obriga-a a servir de barriga de aluguer ao espécime.
Durante o período de gestação Kinney tem cada passo seu monitorizado. Quando, por fim, dá à luz o espécime, este é batizado simplesmente de X-23.
Sete anos depois, X-23 continua a ser mantida em cativeiro na Fábrica e a ser treinada para ser uma arma viva. Para acelerar a ativação do gene mutante da menina, Rice submete-a a doses massivas de radiação. Uma vez ativado o fator de cura de X-23, Rice ordena a extração das garras que ela tem nos pés e nas  mãos, para que sejam recobertas de adamantium antes de lhe serem reinseridas no corpo. Processo executado, do princípio ao fim, sem recurso a qualquer tipo de anestesia.

Laura e a "mãe" num dos raros momentos
 de proximidade entre ambas.
Ao aperceber-se da brandura com que o sensei de X-23 a trata, Rice desenvolve um composto químico a que chama "odor gatilho". Quando detetado pela jovem, o "odor gatilho" traz à tona o seu lado animalesco, libertando os seus instintos mais primários. Logo da primeira vez que isso se verifica, X-23 estraçalha o seu tutor em quem ela tinha o seu único amigo.
Mais três anos se passam antes de X-23, agora uma assassina de elite pronta para tirar a vida a qualquer um a troco da quantia certa, receber a sua primeira missão no terreno. Muitas outras se seguiriam, transportando-a a diversos pontos do globo. Numa delas foi traída e abandonada por Rice, acabando à mercê da organização terrorista IMA. Conseguiu, no entanto, sobreviver e regressar à Fábrica, para enorme frustração de Rice, que desejava ardentemente vê-la morta e enterrada.
Quando Megan, uma sobrinha da Drª. Kinney, é raptada por um serial killer, a cientista, tomada pelo desespero, leva X-23 para fora das instalações da Fábrica. Não para libertá-la mas para usar as suas capacidades de rastreadora para encontrar a menina. Resgatada Megan e morto o seu captor, Kinney devolve X-23 à Fábrica.
É então que a cientista fica a par do plano de Rice para assumir o controlo do programa. Este, por sua vez, descobre a escapadela que Kinney proporcionara a X-23 e resolve expulsá-la. Não sem antes a conduzir a uma câmara secreta para lhe mostrar dezenas de incubadoras contendo outros clones femininos de Wolverine que deveriam servir à concretização de propósitos escusos.
Antes de ajudar X-23 a escapar novamente das instalações, Kinney investe-a de uma última missão: destruir as incubadoras e matar Rice. O que ela não sabia é que Rice a expusera antes ao "odor gatilho".
Quando X-23 completa a sua missão e vai ao encontro de Kinney, sucumbe à sua fúria assassina e acaba por tirar a vida à "mãe".
Esvaindo-se em sangue, Kinney diz à jovem que a ama e que o seu nome verdadeiro é Laura. Antes de exalar o seu último suspiro, passa-lhe para as mãos uma carta e fotografias de Wolverine, do Professor X e da Escola Xavier. Pistas que conduziriam X-23 ao seu "pai".
Foi, porém, tudo menos pacífico o primeiro encontro de ambos. Laura derrotou Logan em combate mas poupou-lhe a vida. Logan, por seu turno, revelou ter sido informado do calvário da rapariga através de uma missiva que lhe fora endereçada tempos atrás pela Drª. Kinney e prontificou-se a ajudá-la. Os dois tornar-se-iam a partir daí inseparáveis até à morte de Wolverine.


Draª Kinney e Wolverine:
 as mortes dos "pais" de X-23.

Trivialidades:

*A escolha do nome Laura foi influenciada pela sua proximidade fonética com Logan;
*Lançada em 2005 em terras do Tio Sam, a minissérie X-23: Inoccence Lost, deu a conhecer em maior detalhe o traumático passado de Laura Kinney. Na história, o temporizador usado por X-23 nas suas missões de extermínio estava sempre programado para 22 minutos, numa clara alusão ao número de clones malsucedidos de Wolverine que antecederam a sua conceção. Já as datas apresentadas para cada missão correspondiam aos aniversários de amigos de Craig Kyle;
Começou aqui a ser desvendado
o traumático passado de Laura Kinney.
*Aquando do seu recrutamento para os X-Men, a X-23 foi atribuído o codinome Talon que, apesar do seu cariz oficial, raramente foi utilizado por ela ou pelos seus colegas de equipa;
*Grande apreciadora de comida condimentada, Laura justifica essa sua preferência gastronómica com a insipidez que caracterizava a dieta que lhe foi imposta durante o seu cativeiro na Fábrica;
*Na apresentação sumária que dela fez aos restantes alunos da Escola Xavier, Wolverine deixou claro que X-23 poderia rasgá-los a todos em pedaços num abrir e fechar de olhos. Aconselhou-os, por isso, a que não lhe dessem motivos para o fazer;
*Devido à quase total ausência de adamantium no seu organismo, o fator de cura de X-23 consegue atuar com maior rapidez do que o de Wolverine. Sendo, todavia, mais instável do que o dele (presumivelmente, por causa da sua juventude);
*Certa vez, uma contraparte de Deadpool originária de uma dimensão paralela afirmou existir nesse mundo uma X-29 muito mais divertida do que Laura. Revelação que muito intrigou a jovem e que, naturalmente, deu azo a especulações por parte dos fãs. Tratar-se-ia a personagem em questão de uma versão alternativa de X-23 ou de outro clone viável de Wolverine? Esta segunda hipótese ganhou força quando, pouco tempo depois, foi apresentada uma história descrevendo as tentativas empreendidas pelos cientistas da Fábrica objetivando a produção de uma nova cópia genética de Logan. É bem possível que tudo  não tenha passado, no entanto, de uma brincadeira do Mercenário Tagarela com o intuito de azucrinar a pobre Laura;
*No encerramento da série Wolverines, Laura teve o seu fator de cura drenado por Sifão (Siphon, no original). Sem que, até ao momento, tenha sido aventada qualquer explicação para tal, essa situação foi revertida quando ela passou a estrelar All-New Wolverine.

Uma nova Wolverine, o mesmo instinto animal.
Noutros segmentos culturais: Boa parte da enorme expectativa à volta de Logan (com estreia nacional a 2 de março, e mundial no dia seguinte), prende-se com a participação de X-23. Interpretada por Dafne Keen, atriz anglo-espanhola de apenas 11 anos conhecida apenas pelo seu papel na série televisiva The Refugees (2014), a personagem estará em evidência na película que marcará a despedida de Hugh Jackman como Wolverine. Especula-se, por isso, se, a exemplo do que ocorreu na banda desenhada, ela poderá vir a ser a herdeira do herói canadiano no cinema. Tanto mais que, em entrevista concedida ao site Comic Book Movie, o realizador James Mangold assumiu o seu interesse em dirigir um filme de X-23.
Mesmo que esse projeto nunca se venha a concretizar, X-23 já logrou fazer o pleno dos ecrãs. Desde a sua estreia televisiva em X-Men: Evolution, a jovem mutante marcou presença em várias outras séries animadas, nomeadamente em Wolverine and the X-Men (2009), e foi personagem jogável em diversos jogos de vídeo baseados no Universo Marvel, no último dos quais, Marvel Contest of Champions (2014), surgiu envergando o seu uniforme de Wolverine.

Laura e Logan numa jornada que ninguém sabe aonde os levará.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

CLÁSSICOS REVISITADOS: «WOLVERINE - O VELHO LOGAN»

 
  Agora um simples homem de família assombrado por um terrível segredo do seu passado, Logan luta pela sobrevivência num Amanhã inquinado pela violência e pela desesperança. Mas conseguirá fazê-lo sem libertar a fera assassina que jurou manter cativa até ao último dia da sua vida? 
   Dos mesmos autores de Guerra Civil, esta é a saga que serviu de mote ao novo filme do Wolverine, que marcará também a despedida de Hugh Jackman do papel que lhe garantiu um lugar na iconografia popular deste século. 

Título original: Wolverine - Old Man Logan
Data de publicação: Julho de 2008 a setembro de 2009
Títulos abrangidos: Wolverine  vol. 3 nº66 a 72 (inclusive) e Wolverine Giant Size Old Man Logan nº1
Licenciador: Marvel Comics
Autores: Mark Millar (história) e Steve McNiven (arte)
Protagonistas: Logan/Wolverine e  Clint Barton/Gavião Arqueiro (Hawkeye)
Vilões: Caveira Vermelha (Red Skull), Doutor Destino (Doctor Doom), Hulk, Gangue do Hulk (Hulk Gang), Ashley Barton/Spider-Girl, Venom, SHIELD e Moloides (Moloids)
Coadjuvantes: Clã Logan (Maureen, Scotty e Jade), Ultron 8, Tonya Parker, Emma Frost e Raio Negro (Black Bolt)
Cenários: Diferentes pontos da Amerika, território geográfico que, na realidade paralela onde se desenrola a trama, equivale, grosso modo, aos EUA pré-colapso.

Cemitério de heróis a céu aberto
em Wolverine nº67.
Edições em Português: Já dada à estampa dos dois lados do Atlântico, a saga foi primeiramente publicada no Brasil pela Panini, entre agosto de 2009 e março de 2010, nos números 57 a 64 de Wolverine, o título a solo do herói mutante. Quatro anos volvidos, em setembro de 2014, seria a vez de a Salvat a reeditar, no âmbito da sua Coleção Oficial de Graphic Novels Marvel. Ainda por Terras de Vera Cruz, e novamente com a chancela da Panini, em agosto do ano passado chegou às bancas brasileiras uma série periódica epónima, da qual já foram lançados até ao momento meia dúzia de números.
Em Portugal, O Velho Logan integrou a segunda série da coleção Heróis Marvel da Levoir, numa edição única que remonta a finais de 2012.




De cima para baixo: a edição portuguesa da Levoir,
a reedição brasileira da Salvat e
o 1º número da série mensal epónima da Panini.
Enredo: Em 2059, os EUA foram conquistados por um conluio de supervilões encabeçado por Magneto, Doutor Destino, Abominação e Caveira Vermelha. Na curta guerra que antecedeu a queda do país, os heróis foram sumariamente derrotados e praticamente varridos do mapa. Aos poucos sobreviventes não restou outra alternativa senão a clandestinidade, a partir da qual assistem, impotentes, ao reinado de terror imposto pelos vencedores
Rebatizado de Amerika, o território geográfico dos antigos EUA foi retalhado ao sabor da ganância dos seus novos governantes, dando lugar a um mosaico de feudos nos quais cada suserano dita a sua lei sem prestar contas a ninguém.
Não demoraram no entanto a eclodir violentas disputas territoriais entre os antigos aliados. Na sequência delas, Abominação foi assassinado pelo Hulk, que assim lhe arrebatou os seus domínios. Destino idêntico sofreu Magneto às mãos de um novo e implacável Rei do Crime. Já o Caveira Vermelha, instalado na Casa Branca, autoproclamou-se Presidente da Amerika e fundou um regime decalcado do III Reich.
À margem dessas insanas guerras pelo poder, Logan e a sua família lutam diariamente pela sobrevivência numa fímbria de terra ressequida localizada em Sacramento, a antiga capital da Califórnia agora uma coutada do Hulk.
Sem dinheiro para pagar o tributo mensal aos seus senhorios da Gangue do Hulk (os obtusos netos do Gigante Verde, fruto da sua relação incestuosa com a Mulher-Hulk, sua prima), o antigo X-Man aceita de bom grado o trabalho que lhe é oferecido por Clint Barton. Outrora o Vingador conhecido como Gavião Arqueiro, Barton é agora um ancião cego que precisa da ajuda de Logan para atravessar o país até à capital da Nova Babilónia. O objetivo é entregar uma encomenda secreta e ilícita que Logan presume serem drogas.

Logan e Clint Barton: dois homens e um destino.
Ao longo da sua extenuante jornada rumo à Costa Leste, a parelha de antigos heróis depara-se com numerosos perigosos e distrações. Num primeiro momento, resgatam Ashley Barton, filha de Clint e neta de Peter Parker (o Homem-Aranha), das manápulas do novo Rei do Crime. Embora aparente aspirar a uma carreira heroica como Spider-Girl, os planos da jovem são na verdade pouco nobres. Após tirar a vida ao seu algoz, Ashley anuncia a sua intenção de reclamar para si o território do Rei do Crime, o qual abrange a antiga área metropolitana de Las Vegas.
Retomando a sua viagem, Logan e Clint sobrevivem por uma unha negra à vaga de destruição levada a cabo por um enxame de Moloides. Esta raça humanoide praticamente destituída de inteligência que durante largos anos serviu o Toupeira (velho inimigo do Quarteto Fantástico), vem afundando cidades inteiras abaixo da superfície por meio de ataques subterrâneos para destruir as respetivas fundações.
Ainda mal recompostos do susto, Logan e Clint veem-se logo depois perseguidos por um enorme e faminto dinossauro importado da Terra Selvagem e infundido pelo simbionte Venom. Segundos antes de o monstro os abocanhar, os dois são, contudo, teleportados para a Zona Proibida por Emma Frost e Raio Negro (respetivamente, a ex-Rainha Branca do Clube do Inferno e o ex-monarca dos Inumanos).
Logan e Clint fogem do apetite do  T-Rex Venom.
À medida que a aventura prossegue e as peripécias se sucedem, é enfatizada a ideia de que a persona Wolverine está morta e enterrada desde a noite em que os vilões lançaram o seu devastador blitzkrieg. Consequência direta desses infaustos acontecimentos, Logan jurou não mais desembainhar as suas garras de adamantium.
Através de flashbacks, é revelado que nessa noite fatídica um grupo composto por aproximadamente 40 supervilões sitiou a Mansão X, lar dos X-Men. Incapaz de localizar os seus companheiros de equipa e temendo pelas vidas dos jovens pupilos lá alojados, Wolverine chacinou os intrusos sem dó nem piedade.
Quando cessou por fim o seu frenesim homicida, o herói percebeu, horrorizado, que tudo não passara de uma ilusão gerada por Mystério, mestre da manipulação sensorial e arqui-inimigo do Homem-Aranha. Os atacantes eram, afinal, os restantes X-Men, que agora jaziam mortos num lago de sangue.
Psicológica e emocionalmente devastado por esse trágico incidente, Logan abandonou a mansão e cambaleou até uma linha de caminho de ferro com o propósito de cometer suicídio. Apesar de atropelado por um comboio a alta velocidade, Logan sobreviveu porque o seu fator de cura mutante conseguiu rapidamente regenerar os ossos e tecidos danificados do seu corpo. Impedido de pôr termo à própria vida, o amargurado herói decretou o fim de Wolverine, o seu lado animalesco a quem culpava pela morte dos amigos.
Chegados finalmente ao seu destino, Logan e o seu companheiro de viagem entregam o misterioso pacote a um presumível grupo da resistência clandestina que se opõe à tirania do Caveira Vermelha. O pacote não contém, afinal, narcóticos mas sim um suprimento do Soro do Supersoldado suficiente para criar um exército. Trata-se do composto químico que deu origem ao Capitão América e que deveria agora servir para formar uma nova geração de Vingadores.
A entrega revela-se, contudo, uma cilada. Os supostos membros da resistência são na verdade operacionais da SHIELD, a antiga agência federal de contraterrorismo, reconvertida na polícia secreta do Caveira Vermelha. Sem hesitar, os agentes crivam Logan e Clint de balas, matando ambos e levando consigo o suprimento de Soro do Supersoldado.
Salvo uma vez mais pelo seu poder regenerativo, Logan sobrevive e desperta em plena sala de troféus do Caveira Vermelha, entre os trajes e acessórios de vários dos super-heróis tombados em combate. Mesmo sem fazer uso das suas garras metálicas, Logan desbarata num ápice os sequazes do vilão antes de o decapitar com o escudo do Capitão América.

Reflexos de um mundo distópico: símbolos nazis na Casa Branca
 e o sinistro empório de troféus do Caveira Vermelha.
Sem tempo a perder, Logan usa algumas peças da armadura do Homem de Ferro para voar de volta a casa, carregando consigo uma mala a abarrotar de notas, que deveria ter servido de pagamento da encomenda trazida por ele e por Clint, e que ele tenciona agora usar para saldar o seu débito à Gangue do Hulk.
No entanto, ao chegar a casa Logan encontra os corpos em decomposição da sua mulher e filhos, massacrados pelos descendentes do Gigante Verde durante a sua ausência. Consumido pela dor e pela sede de vingança, ele quebra finalmente a sua promessa, permitindo que a fera sanguinária que nele habita venha novamente à tona.
Depois de estraçalhar a Gangue do Hulk, Wolverine fica cara a cara com o próprio Banner. Que, mesmo envelhecido e na sua forma humana, exibe uma força descomunal. Enquanto os dois se digladiam animados pelo mais puro ódio mútuo, Banner revela que a morte da família de Logan serviu um duplo propósito: instilar medo aos seus servos e despertar a fúria assassina de Wolverine. Tudo porque o Hulk se sentia entediado devido ao seu estatuto de regente absoluto e à ausência de rivais capazes de lhe proporcionarem uma luta condigna. Desejo que o antigo X-Man não se faz rogado em conceder-lhe.


Logan acerta contas com a Gangue do Hulk
 antes de servir de repasto ao monstro.
Assumindo a sua forma monstruosa, o Hulk é agora maior do que alguma vez foi, derrotando por isso sem dificuldade Wolverine e devorando-o de seguida. Nas entranhas do gigante, Logan regenera-se rapidamente e, numa sórdida reinterpretação da alegoria bíblica protagonizada por Jonas, usa as suas garras para esventrar o seu verdugo a partir de dentro. O Golias Esmeralda tomba sem vida e, ao preparar-se, para abandonar o covil do brutamontes, Wolverine encontra Bruce Banner Jr., o seu filho bebé.
Um mês depois, com a ajuda dos vizinhos, Logan constrói um pequeno memorial para a sua família desaparecida. Sem nada que o prenda àquele causticado pedaço de deserto californiano, ele decide partir com a missão de colocar um ponto final no regime opressivo imposto pelos malfeitores após o ocaso dos heróis. Como novo parceiro  de aventuras, tem agora Bruce Banner Jr., cuja fisiologia mutante continua em crescimento acelerado. E assim caminham os dois, lado a lado, em direção ao pôr do sol...

Apontamentos:

* Além de fisicamente deformados devido à consanguinidade radioativa dos seus antepassados, os membros da Gangue do Hulk são descritos como praticantes de canibalismo;
* Edição datada de setembro de 2008, Wolverine nº67 foi dedicada à memória de Michael Turner, artista notabilizado pelo seu trabalho tanto ao serviço da Marvel como da DC, falecido três meses antes após perder a batalha que vinha travando contra um cancro particularmente agressivo. Tinha 37 anos;
* Problemas de agenda por parte de Mark Millar e Steve McNiven ditaram o atraso no lançamento de Wolverine nº72, edição que incluía o penúltimo capítulo da saga e que só chegaria às bancas depois do nº73. Já a sua capa é uma homenagem a Red Skull's Deadly Revenge, história clássica publicada originalmente em julho de 1942, nas páginas de Captain America Comics nº16. Nela, o Caveira Vermelha também enverga o uniforme do Sentinela da Liberdade numa grotesca paródia aos ideais por ele representados;

A perturbadora capa de Wolverine nº72.
* O Velho Logan é, basicamente, um western. Entre paisagens inóspitas e territórios sem lei, são vários os elementos a remeter para esse género outrora muito popular e que, de há uns anos a esta parte, tem vindo a ganhar novo alento em Hollywood;
* Apesar de Wolverine ser virtualmente imortal e  de ter o seu processo de envelhecimento consideravelmente retardado pelo seu fator de cura mutante, esta não é a primeira vez que ele surge retratado como um ancião. Em Wolverine: The End, outro exercício de imaginação ambientado numa linha temporal divergente apresentado aos leitores em 2004, Logan tem 210 anos de idade e os movimentos tolhidos pela artrite;
* Habituado a escrever para um público adulto, Mark Millar não tem pudor em empregar linguagem obscena nas histórias da sua lavra. Estilo no entanto não compaginável com o código de ética da Marvel. Numa solução de compromisso entre o autor e a editora, os palavrões e restantes expressões decorrentes do baixo calão foram camuflados por asteriscos e outros símbolos gráficos. O Velho Logan ensinou, não obstante, os leitores a praguejar em alemão. Exemplo disso é arschkrieher, imprecação dirigida pelo Caveira Vermelha ao herói e que, numa tradução higienizada para português, equivale a "lambe-botas"(embora o termo original remeta para uma certa parte da anatomia onde a luz do Sol não chega);

Um Logan grisalho e tolhido pela artrite
 em Wolverine: The End (2004).

Sequelas: Conforme deixava antever o final em aberto da saga, aquela não seria decerto a última vez que veríamos o Velho Logan em ação. De facto, ele e Bruce Banner Jr. ressurgiriam pouco tempo depois em Fantastic Four, numa história com a assinatura de Millar e que, apesar de escrita antes dos eventos narrados em Old Man Logan, lhes sucedia cronologicamente.
Agora integrados nos Novos Defensores, Logan e Banner Jr. viajam no tempo numa tentativa desesperada de alterar a cadeia de eventos que conduzirá a um futuro ainda mais tenebroso do que aquele que fora apresentado na saga original.
Em 2015, o mundo selvagem do Velho Logan seria um dos principais campos de batalha de Secret Wars. No decurso desse arco de histórias que revolucionou o Universo Marvel, ele chegou mesmo a reunir-se com os colegas de equipa que havia massacrado. Ponto de partida para o seu regresso em grande estilo em All New, All Different Marvel. Na novíssima continuidade da Editora das Lendas, Logan ganhou um título próprio e, aparentemente, o gosto pelas viagens no tempo.
Transportado aos anos que precederam a queda dos heróis e a consequente ascensão dos vilões em O Velho Logan, o antigo X-Man não olha a meios para tentar impedir que a hecatombe se repita.

Novas aventuras para um velho herói.

Logan será uma adaptação fiel?

Logan chegará às salas de cinema portuguesas a 2 de março,
na véspera da sua estreia em terras do Tio Sam.
Salvo raras e honrosas exceções (sendo os Watchmen de Zack Snyder uma delas), Hollywood não costuma primar pela fidelidade na hora de transpor ao grande ecrã sagas emblemáticas com super-heróis. E, a avaliar pela informação posta a circular no ciberespaço e pelos trailers entretanto divulgados, Logan não deverá fugir à regra. Quanto muito será, como é da praxe, vagamente inspirado no material original.
Sem querer vestir a pele sebosa de um spoiler, é ainda assim possível antever três diferenças fundamentais entre o filme e a saga em que se baseia.
Para começar, a maior parte das personagens que abrilhantam Old Man Logan não irão figurar na película. Como é do conhecimento geral, a Marvel partilha com a Fox os direitos de licenciamento do seu Universo Estendido. Motivo pelo qual, no lugar do Gavião Arqueiro (propriedade dos Estúdios Marvel) veremos o Professor Xavier (parte integrante da franquia dos X-Men explorada pela Fox) a acompanhar Logan na sua jornada, cujo destino e propósito se desconhecem.
À semelhança de Captain America: Civil War, Logan terá, portanto, seguramente um rol de personagens bem mais modesto do que o da história que lhe serve de mote. Também alguns dos seus elementos mais icónicos -  com o T-Rex Venom à cabeça - deverão ficar de fora.
Mas nem tudo são contas de subtrair nesta equação. Em contrapartida, iremos ter oportunidade de ver a estreia de X-23 no grande ecrã. Embora ainda como pessoa de palmo e meio, será interessante ver que tipo de papel lhe estará reservado na película, uma vez que, na banda desenhada, é ela a nova Wolverine. Existe, de resto, a expectativa de que essa passagem de testemunho seja mostrada em Logan. Tanto mais que Hugh Jackman já anunciou a sua indisponibilidade para repetir o papel que vem desempenhando desde 2000, e que lhe garantiu já um lugar na iconografia pop deste século. Ingredientes mais do que suficientes para fazer de Logan um dos filmes mais aguardados do ano.
Onde a X-23 irá estar em destaque é neste blogue. Muito em breve, e no seguimento desta resenha, irei publicar um prontuário detalhado daquela que é uma das novas coqueluches da Marvel. Fiquem sintonizados!

X-23 (dir.) e a sua versão mini em Logan.

Vale a pena ler?

Precedo a minha análise com uma breve declaração de interesses: Wolverine, personagem que considero absurdamente sobre-estimada nos dias que correm, não tem lugar no meu pódio, tampouco no meu Top 10 de super-heróis das diversas editoras. Sou, por outro lado, fã incondicional de realidades alternativas, esses refrescantes exercícios de imaginação que visam subverter o contexto normal dos nossos heróis de sempre, transplantando-os para outras épocas e/ou lugares.
Para resultar, uma história desse cariz depende de uma série de fatores. Um dos principais é saber usar a personagem certa na ideia certa. E, nesse quesito, Mark Millar é exemplar em O Velho Logan.
Wolverine é o tipo de personagem que combina muito bem com uma narrativa com elementos de road trip. Para mais quando essa jornada tem como cenário um futuro pós-apocalíptico onde impera a lei do mais forte, com um herói que procura manter-se fiel ao seu juramento de não violência. Dilema que, per si, instiga a volúpia literária ao mesmo tempo que convida à reflexão filosófica.
A parceria de Logan com Clint Barton foi igualmente uma escolha acertada. Millar trabalha com ambos de uma maneira tão fenomenal que ora temos Logan como protagonista e Clint como coadjuvante, ora se invertem os papéis de ambos.
Mas a mais-valia desta história reside, a meu ver, menos na fantástica dinâmica dos seus protagonistas do que no contexto que os emoldura. Contornando os lugares-comuns narrativos, Milllar surpreende o leitor ao apresentar-lhe, não o habitual mundo distópico onde surge um qualquer ungido para salvar a humanidade, mas antes uma realidade completamente dominada pela desesperança. Mesmo aqueles que parecem bem intencionados revelam ser na verdade pessoas mesquinhas, impelidas pela ganância ou por quaisquer outros interesses egoístas. Millar pretende com isso sublinhar a ideia de que o heroísmo morreu com os heróis na noite fatídica em que os vilões levaram a melhor.
Bem elaborada, a trama absorve por completo o leitor, habilmente espicaçado na sua curiosidade através do mistério em redor do passado de Logan. Segredo que constitui, de resto, uma das traves-mestras da narrativa, e cuja revelação é passível de deixar qualquer um de queixo caído.
Aplausos também para a arte de Steve McNiven. O seu traço realista, com expressões e semblantes mais duros, casa muito melhor com esta história do que com Guerra Civil (já aqui esmiuçada). Saga a que, aqui e ali, são feitas algumas subtis referências, designadamente nas bem coreografadas cenas de luta. Exceção feita ao derradeiro duelo que opõe Logan a um, a vários títulos, monstruoso Hulk.
O que poderia - e deveria- ter sido o ponto alto da trama, desde logo pela revisitação ao primeiro confronto de ambos aquando da estreia de Wolverine nos quadradinhos, parece, no entanto, ter sido feito em cima do joelho. Não sendo dececionante, o combate final fica muito aquém do desejável tom épico. Nada que retire brilhantismo a uma obra que me surpreendeu pela positiva, pois estava reticente quanto ao seu valor.
Com um enredo denso e emocionante, infundido de toda a crueza que a arte de McNiven consegue transmitir, O Velho Logan é, em suma, uma parábola sobre escolhas e como, além de moldarem o caráter de quem as toma, elas definem o nosso destino. Justificando-se assim o seu desfecho aberto a várias interpretações...

O Velho Logan: crónica de um mundo sem esperança.