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terça-feira, 5 de maio de 2015

ETERNOS: GEORGE PÉREZ (1954 - ...)



    Um dos mais talentosos e idolatrados artistas ainda no ativo, atingiu o apogeu ao serviço da DC, ficando o seu nome associado à mãe de todas as sagas produzidas pela Editora das Lendas. No entanto, os primeiros passos na indústria dos quadradinhos foram dados na eterna rival.

Biografia e carreira: Primogénito de um modesto casal de imigrantes porto-riquenhos que se conheceu em terras do Tio Sam, George Pérez nasceu a 9 de junho de 1954 no Bronx, Nova Iorque. Menos de um ano depois, nasceria David, o seu irmão mais novo. Aspirando ambos a uma carreira artística, foi contudo George a revelar um talento precoce para a ilustração. Com apenas cinco anos, começou a desenhar, para assombro dos pais (ele operário numa fábrica de embalamento de carne; ela dona de casa a tempo inteiro).
   Corria o ano de 1973 quando George Pérez teve o seu primeiro contacto com a indústria dos comics, na qualidade de assistente do artista Rich Buckler (celebrizado pelo seu trabalho com o Pantera Negra). Em agosto do ano seguinte, George estreou-se como profissional ao serviço da Marvel Comics, para a qual desenhou uma sátira de duas páginas de Deathlok (personagem  cuja paternidade pertencia justamente a Buckler), publicada em Astonishing Tales nº25.
   O talento do jovem artista não passou despercebido aos mandachuvas da Casa das Ideias. Em pouco tempo, George assumiria a arte de Sons of the Tiger, série de artes marciais escrita por Bill Mantlo e há muito publicada no magazine pulp Deadly Hands of Kung Fu, inserido na linha de títulos a preto e branco da Marvel.
   Aproveitando a enorme popularidade nessa época das histórias envolvendo artes marciais, George e Bill criaram em conjunto o Tigre Branco. Embora se tenha estreado nas páginas de Deadly Hands of Kung Fu, aquele que foi o primeiro super-herói porto-riquenho logo migraria para os títulos coloridos da editora, fazendo várias aparições nas histórias do Homem-Aranha.

Deadly hands of kung fu 1975.jpg

Primeira cocriação de Pérez, o Tigre Branco debutou nas páginas de Deadly Hands of Kung-Fu (em cima).

   Na segunda metade da década de 70, George Pérez ganhou maior projeção por via do seu trabalho em The Avengers (série mensal que desenharia entre 1975 e 1980). Durante esse período emprestou o seu traço a várias outros títulos regulares da Marvel, designadamente The Inhumans, Creatures on the Loose (revista dedicada ao sobrenatural, na qual pontificava o Homem-Lobo) e Fantastic Four. Foi, de resto, numa edição anual do Quarteto que George colaboraria pela primeira vez com o escritor Marv Wolfman (ver biografia já publicada neste blogue). Anos depois, a dupla, conforme veremos adiante, seria responsável por algumas das mais bem-sucedidas sagas da DC.
Os Vingadores pelo traço de George Pérez.
   Em 1980, enquanto continuava a desenhar as histórias dos Vingadores - e já depois de ter cocriado com David Michelinie o vilão conhecido como Treinador (Taskmaster em inglês) - George Pérez começou a trabalhar simultaneamente para a DC. Sondado para assumir a arte de The New Teen Titans - a mais recente aposta da editora para recuperar algum do terreno perdido para a concorrência -, aquilo que verdadeiramente o aliciou foi a perspetiva de poder vir a desenhar a Liga da Justiça, algo que ele considerava ser uma extensão natural do seu duradouro trabalho com os Vingadores.
   Num golpe de asa do Destino, o veterano artista de JLA, Dick Dillin, faleceu pouco depois da mudança de Pérez para a DC.Chamado a substituir o malogrado colega, Pérez logo encantou os fãs com o seu traço límpido e dinâmico.

Depois dos Vingadores, a Liga da Justiça. Poucos artistas tiveram o privilégio de desenhar duas das mais emblemáticas equipas de super-heróis da 9ª arte..

  Naquilo que pretendia ser a resposta da DC ao estrondoso sucesso dos X-Men à época, em 1980 foi lançada uma nova encarnação dos Titãs. Projeto que marcaria o auspicioso reencontro de George Pérez com Marv Wolfman. Em agosto de 1984, o surpreendente êxito de The New Teen Titans abriu caminho para uma segunda série, também ela produzida pela dupla-maravilha.
  Com o tempo, Pérez foi aprimorando a sua arte, evidenciando uma crescente facilidade em desenhar cenários, rostos e outros detalhes que faziam as delícias dos leitores, e que o elevaram ao estrelato. Ao longo da sua longa e próspera carreira, Pérez revelou, com efeito, uma especial predileção por desenhar coletivos super-heroicos. Com alguns desses trabalhos a serem premiados e a servirem de referência a outros artistas.

A icónica capa de The New Teen Titans nº1(1980) com arte de Pérez.
  Em finais de 1984, Pérez abandonou as histórias dos Titãs para se juntar a Marv Wolfman no ambicioso projeto editorial que a  DC tinha na calha para assinalar o seu cinquentenário: a monumental saga Crise Nas Infinitas Terras. Trabalho que, na opinião de muitos, foi a obra-prima do artista de ascendência porto-riquenha.
  No período pós-Crise, George Pérez voltaria a formar equipa com Marv Wolfman para, em novembro de 1986, produzir The History of the DC Universe, compêndio ilustrado que sumariava a nova continuidade da Editora das Lendas.
Crise nas Infinitas Terras deixou a indústria e os fãs de comics definitivamente rendidos ao  talento de George Pérez.
   Escolhido em 1987 para assumir a arte do novo título da Mulher-Maravilha, George Pérez inspirou-se nos trabalhos de John Byrne e Frank Miller - em Superman e Batman, respetivamente -, para dar um novo alento às histórias da Princesa Amazona Numa fase inicial, teve como parceiros criativos os escritores Greg Potter e Len Wein, acabando no entanto Pérez por assumir também o argumento. Sob a sua batuta, foram reforçados os laços da Mulher-Maravilha com os deuses gregos, com as histórias da heroína a serem igualmente depuradas de corpos estranhos introduzidos no pré-Crise.
  Ainda que não tão impactante como The New Teen Titans ou Crisis on Infinite Earths, a nova série da Mulher-Maravilha foi bem-sucedida no seu propósito de revitalizar aquela que, a par do Super-Homem e do Batman, é uma das figuras de proa da DC. A ligação de Pérez a Wonder Woman prolongar-se-ia por cinco anos (1987-1992), embora em metade desse tempo apenas na qualidade de argumentista.

Wonder Woman foi o segundo trabalho produzido por Pérez na ressaca da Crise.

   Em dezembro de 1988 - e já depois da série ter sido renomeada The New Titans -George Pérez voltou às histórias dos Titãs, na dupla qualidade de desenhador e coargumentista. Esta sua segunda passagem pelo título ficaria marcada pela nova origem da Moça-Maravilha (atando assim uma das pontas soltas de Crise nas Infinitas Terras) e pela introdução de Tim Drake como o terceiro Menino-Prodígio.
   Seguir-se-ia, em meados de 1989, uma meteórica passagem de Pérez por Action Comics e Adventures of Superman (aqui como argumentista). Não tendo, porém, sido este o seu primeiro contacto com as histórias do Homem de Aço. A ligação de Pérez ao herói kryptoniano começara, com efeito, meia dúzia de anos antes, em junho de 1983, quando concebeu a icónica armadura de combate de Lex Luthor em Action Comics nº544.

O traje blindado de Luthor ( idealizado por George Pérez e, nesta imagem, com arte de Gil Kane e Dick Giordano) permitia ao vilão equilibrar um pouco as coisas com o Homem de  Aço.

  Devido à sobrecarga de trabalho decorrente da sua colaboração simultânea com Wonder Woman e Action Comics, Pérez viu-se forçado a abandonar este último em abril de 1990. No ano seguinte, a relação do artista com a DC conheceu uma fase delicada. Na origem desse frisson estiveram essencialmente dois fatores: por um lado, Pérez considerava que a editora não estava tão empenhada como deveria em assinalar os 50 anos da Mulher-Maravilha; por outro, a decisão da DC em distribuir a saga War of the Gods (escrita por Pérez) usando apenas o circuito de lojas especializadas desagradou ao artista.
  As tensões foram-se acumulando e, quando os editores da DC resolveram substituir Pérez por William Messner-Loebs como argumentista de War of the Gods, foi a gota de água que fez transbordar o copo. Inconformado com a decisão, Pérez desistiu do projeto e divorciou-se da Editora das Lendas por vários anos. Na base desse ressentimento do artista, esteve também o facto de ter sido atribuída ao seu sucessor a missão de escrever a cena final da saga apresentando o casamento das personagens Steve Trevor e Etta Candy (ideia cujos créditos pertenciam a Pérez).
  Ainda em 1991, Pérez foi contratado pela Marvel para desenhar os seis capítulos da saga Infinity Gaunlet (Desafio Infinito, minissérie editada pela Abril em 1995) da autoria de Jim Starlin. As coisas não correram, porém, como esperado. Em consequência da turbulência ocorrida em War of the Gods, e coincidindo com um período atribulado da vida pessoal de Pérez, este apenas conseguiu finalizar quatro dos seis volumes previstos da saga. Cabendo, assim, a Ron Lim desenhar os outros dois. Apesar de Pérez se ter disponibilizado para assessorar o seu substituto, os editores da Casa das Ideias acharam por bem afastá-lo do projeto.
   Em virtude destes dois episódios, George Pérez ganhou a fama de ser um artista virtuoso, porém incapaz de levar os seus projetos até ao fim. Colocado na prateleira pelas duas principais licenciadoras, Pérez virou-se então para as editoras independentes.
   Na Malibu Comics desenhou Break-Thru e Ultraforce (títulos que integravam o chamado Ultraverso). Ao passo que na Tekno Comix foi responsável pelas ilustrações de I-Bots. Embora principescamente pago, Pérez não se sentia empolgado com as personagens que tinha em mãos e logo perderia o interesse em colaborar com os respetivos títulos.



Duas máculas no currículo de Pérez.
   Afastado dos holofotes ao longo dos primeiros anos da década de 1990 - ainda que tenha participado em diversos projetos nesse período - Pérez regressaria à Casa das Ideias em finais de 1992 para desenhar o arco de histórias Hulk: Future Imperfect (Hulk: Futuro Imperfeito) escrito por Peter David. Com este a eleger Pérez como seu ilustrador favorito, e um dos três cuja arte conseguia materializar na perfeição as suas ideias e conceitos.
   Feitas finalmente as pazes com a DC, Pérez regressou à Editora das Lendas, em outubro de 1996, para assumir a arte-final de Dan Jurgens nos primeiros 15 números de Teen Titans vol.2 (série que seria cancelada em setembro de 1998, ao cabo de 24 edições).
   A exemplo de muitos dos seus colegas de ofício nos anos 1990, Pérez também se aventurou na criação de material próprio. Com os resultados a ficarem, porém, aquém das expectativas. Publicada originalmente em 1997 pela defunta Event Comics, Crimson Plague era uma inacabada novela gráfica de ficção científica protagonizada por uma alienígena com sangue tóxico. Três anos volvidos, e já sob a égide da Gorilla Comics, o primeiro número da série seria reeditado sendo-lhe adicionadas algumas páginas inéditas.

Outro dos projetos inacabados de Pérez.
  Seria ainda lançado um segundo número de Crimson Plague antes de os elevados custos da autoedição levaram Pérez a desistir do projeto, desconhecendo-se até hoje se tencionaria fazer algo mais com esse material.
  No início deste século, a sua passagem pela CrossGen também não correu de feição, visto que a editora faliu poucos meses depois de Pérez ter sido contratado para desenhar o seu título de charneira, Solus.
  Encerrado esse parêntesis na sua carreira profissional, o regresso de Pérez à ribalta ocorreu na viragem do século ao serviço da Marvel. Em 1999, juntou-se ao escritor Kurt Busiek na muito ovacionada terceira série de The Avengers. Como nos bons velhos tempos, a arte de Pérez deixou os fãs extasiados, ao ponto de eles o absolverem dos seus pecadilhos passados.
  Quando, três anos depois, Pérez deixou o título, teve ainda tempo e energia para, em conjunto com Busiek, produzir o há muito aguardado crossover entre a Liga da Justiça e os Vingadores. Dado à estampa em 2003, as origens deste projeto comum da Marvel e da DC remontam ao princípio dos anos 1980. Cancelado devido a divergências entre as duas editoras, a sua versão original contava com 21 páginas desenhadas por Pérez, as quais seriam inclusas, em 2004, na edição encadernada da saga.

Pérez sentiu-se como peixe na água a desenhar o épico JLA/Avengers. 
   Em 2011, cinco anos após o seu mais recente regresso à DC (em efervescência devido aos Novos 52!), Pérez tornou-se argumentista de Superman, assegurando também a arte das capas. Paralelamente, num projeto que reuniu a equipa criativa responsável pelo êxito dos Novos Titãs em meados da década de 1980, ele e Marv Wolfman produziram a aclamada graphic novel New Teen Titans: Games.
  Pérez justificou, em julho de 2012, a sua saída extemporânea do título do Homem de Aço (do qual escreveu somente 6 números) com a enorme pressão editorial a que foi submetido. Uma das suas principais razões de queixa assentava na incapacidade dos seus editores em explicarem-lhe alguns aspetos básicos da nova continuidade do herói (como o facto de os seus pais adotivos estarem ainda vivos). Incoerências a que se somavam as dificuldades de articulação com o outro título do herói, Action Comics (escrito à época por Grant Morrison), ambientado cinco anos antes dos eventos narrados em Superman.


George Pérez foi um dos obreiros da reformulação do Super-Homem em Os Novos 52.

   Casado há mais de 30 anos com a ex-bailarina e atual professora de dança, Carol Flynn, George Pérez é diabético, tendo já sido submetido a uma operação à retina. Acumula as funções de diretor-adjunto da The Hero Initiative (projeto filantrópico patrocinado pela indústria dos comics) com o seu trabalho artístico. Aos 60 anos e com um currículo invejável, não pensa na reforma. Diz também não ter qualquer personagem favorita. Conhecida a sua preferência por desenhar magotes de heróis, talvez o bom e velho George acredite que, por vezes, quantidade é realmente sinónimo de qualidade.
  Independentemente do que o futuro lhe reserva, pelo seu extraordinário talento e pelo seu inestimável contributo à 9ª arte, George Pérez já garantiu há muito o seu lugar no Olimpo dos deuses da banda desenhada.

Autorretrato do Mestre.
Prémios e distinções: Sem surpresa, ao longo da sua prolífica carreira, George Pérez viu vários dos seus trabalhos distinguidos tanto pelos seus pares como pelos fãs. O primeiro prémio por ele arrebatado data de 1979: um Eagle Award para o melhor arco de histórias (The Avengers nº167, 168 e 170 a 177). Feito reeditado no ano seguinte e em 1986, nas categorias de, respetivamente, melhor arte de capa (ainda com Avengers) e artista favorito do público. Pelo meio, em 1983, recebeu um Inkpot Award para melhor ilustrador.
  Verdadeiro ano de ouro para Pérez, 1985 marcou a sua consagração definitiva: ao mesmo tempo que o seu nome era incluído na lista das 50 personalidades homenageadas pela DC no seu cinquentenário, Crise nas Infinitas Terras conquistava o Jack Kirby Award para melhor saga (galardão dividido com Marv Wolfman e reconquistado em 1986).
  Por três anos consecutivos (1985, 1986 e 1987), Pérez foi eleito pelo Comics Buyer's Guide (espécie de boletim periódico que dá a conhecer as preferências dos fãs) como o melhor ilustrador de capas. Ainda a enriquecer o seu impressionante portfólio, outros três prémios para melhor artista atribuídos pelo mesmo CBG nos anos de 1983, 1985 e 1987. Aos quais se somam muitos outros que - a título individual ou coletivo - distinguem o seu trabalho artístico. Indiferente a esta glorificação, Pérez conserva a sua humildade,sendo conhecido pela sua simpatia militante. Virtudes que fazem dele um artista de tarimba e um homem de caráter.