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sábado, 30 de abril de 2016

EM CARTAZ: «O CORVO»



   Poucos acreditariam que uma produção de baixo orçamento e ensombrada pela morte do seu protagonista se tornaria um filme de culto. Menos ainda imaginariam que, volvidas mais de duas décadas, continuaria a ser considerada uma das melhores adaptações de uma BD ao cinema, sobre ela pairando até hoje uma densa aura de mistério.

Título original: The Crow
País: EUA
Ano: 1994
Género: Ação/Fantasia/Terror
Duração: 102 minutos
Produção: Dimension Films
Realização: Alex Proyas
Argumento: David J. Schow e John Shirley (com base na BD homónima da autoria de James O'Barr)
Distribuição: Miramax Films
Orçamento: 23 milhões de dólares
Receitas: 50,7 milhões de dólares
Elenco: Brandon Lee (Eric Draven/O Corvo), Michael Wincott (Top Dollar), Ernie Hudson (Sargento Albrecht), Rochelle Davis (Sarah), Bai Ling (Myca), Michael Massee (Funboy) David Patrick Kelly (T-Bird)

Vingança trazida nas asas de um anjo negro.

Enredo: Numa tétrica Noite das Bruxas em Detroit, o sargento-detetive Albrecht investiga a cena de um crime macabro. Horas antes, um jovem casal fora atacado no próprio apartamento por um bando de meliantes. Shelly Webster, a mulher, fora selvaticamente espancada antes de ser violada. Eric Draven, o seu noivo, sucumbira aos graves ferimentos que lhe haviam sido infligidos pelos atacantes quando tentava defendê-la. Os dois amantes, agora apartados pela tragédia, tencionavam casar-se no dia seguinte.
  Quando se prepara para acompanhar Shelly ao hospital, Albrecht é abordado por Sarah, uma menina que diz ser amiga do casal e que este tomava conta dela. De coração pesado, o detetive informa-a de que Shelly tem a vida presa por um fio.
   Um ano depois, na véspera de mais um Halloween, um corvo poisa no túmulo de Eric Draven e toca ao de leve com o bico na sua lápide. Regressado do Além, o defunto ergue-se da sua tumba e abandona o cemitério sob o olhar penetrante da ave.
   Longe dali, um bando de rufias chefiado por T-Bird ateia incêndios em vários pontos da cidade. De visita ao seu antigo lar, Eric fica melancólico ao deparar-se com o vazio do lugar. Fustigado por flashbacks, o jovem relembra o violento crime de que ele e a sua noiva foram vítimas na véspera do casamento de ambos. Vêm-lhe também à memória os nomes e os rostos dos seus algozes: T-Bird, Tin Tin, Funboy e Skank.
   Depois de descobrir que a sua amada está morta e que qualquer ferida sua cicatriza quase de imediato, Eric, guiado pelo corvo, parte em busca de vingança. Para dissimular a sua identidade, aplica uma sinistra maquilhagem no rosto.
   Tin Tin é o primeiro a ser caçado pelo Corvo que, depois de matá-lo, lhe fica com o casaco. Em seguida, o herói dirige-se à loja de penhores onde o patife havia vendido o anel de noivado de Shelly. Após reaver a joia, o Corvo faz explodir o estabelecimento, deixando contudo o seu proprietário vivo, para que possa avisar os restantes membros da quadrilha de que os seus dias estão contados.
  De seguida, o Corvo encontra Funboy num pardieiro imundo, enrolado com Darla, a mãe toxicómana da pequena Sarah. Depois de liquidar o rufia, o herói conversa com a mulher, fazendo-a compreender que, mais do que nunca, a filha precisa dela.

Mensagem escrita a fogo para os pecadores.
 
  Na próxima paragem do seu roteiro de vingança, o Corvo visita Albrecht, a quem revela a sua verdadeira identidade e a quem dá a conhecer a sua missão. O detetive conta-lhe o que sabe sobre a morte de Shelly, relatando com pesar as 30 horas de sofrimento excruciante a que a rapariga foi sujeita antes de finar-se. Ao tocar no seu interlocutor, o Corvo recebe dele a agonia que a sua amada experimentou durante o tempo que antecedeu a sua partida para o outro mundo. A transbordar de ódio, o herói retoma a sua caçada sangrenta.
  Graças à intervenção do Corvo, Sarah e a mãe, há muito desavindas, reaproximam-se uma da outra. No antigo apartamento de Eric e Shelly, a garota conversa com o herói, confessando-lhe a enorme saudade que sente de ambos. Comovido, o Corvo explica-lhe que, mesmo os dois não podendo continuar a ser amigos, ele será sempre o seu anjo da guarda.
  Mais tarde, no momento em que T-Bird e Skank param numa loja de conveniência para comprar alguns mantimentos, o primeiro é levado pelo Corvo. Atarantado pela súbita aparição daquela sinistra figura, Skank testemunha, transido de medo, a morte do comparsa às mãos do desconhecido. Correndo de seguida a avisar Top Dollar, um senhor do crime que controla todos os bandos de rua de Detroit. No entanto, ele e Myca (sua concubina e meia-irmã) já estão ao corrente das ações do Corvo devido aos diversos relatos que vêm chegando por parte de testemunhas oculares.

Top Dollar e Myca: irmanados no pecado.

  Na altura em que Top Dollar se encontra reunido com alguns dos seus associados para discutirem a planificação das suas atividades ilícitas, o Corvo irrompe na sala à procura de Skank. Do intenso tiroteio que se segue resulta a morte de quase todos os presentes. Enquanto Skank é executado a sangue-frio pelo herói, Myca, Top Dollar e Grange (seu lugar-tenente) conseguem escapar.
  Dando por terminada a sua cruzada no mundo dos vivos, Eric prepara-se para regressar ao túmulo. Sarah aparece no cemitério para se despedir dele, recebendo das mãos do herói o anel de noivado que em tempos fora de Shelly.
  Contudo, à saída do cemitério, Sarah é capturada por Grange, que a leva à força para a igreja onde Top Dollar e Myca os esperam. Através do corvo que o acompanha, Eric toma consciência do perigo que corre a sua pequena amiga e parte em auxílio dela.
   Chegados à igreja onde os malfeitores se acoitam, Eric e o corvo são por eles emboscados, acabando a ave abatida em pleno voo por um tiro certeiro de Grange. Facto de que resulta o enfraquecimento do herói. Myca, entretanto, procura reclamar para si o poder místico da ave moribunda. Alertado pelo intenso ruído no interior do templo, Albrecht adentra nele no preciso instante em que o Corvo é alvejado pelos marginais.

Olho por olho, dente por dente.
   Mesmo a esvair-se em sangue, o Corvo consegue matar Skank. Mas não consegue impedir que Top Dollar arraste Sarah para o campanário da igreja, ambos seguidos de perto por Myca. Que tem entretanto os seus olhos arrancados pelo corvo antes de despencar do alto da torre. Escapando por um triz a um disparo fatal, também Albrecht é ferido no fogo cruzado.
   Frente a frente com Top Dollar no campanário, o Corvo ouve-o confessar os seus crimes e admitir a sua responsabilidade pelo assassínio de Eric e Shelly. Na refrega que se segue, o Corvo repassa ao seu adversário as trinta horas de agonia experimentadas por Shelly antes de morrer. Incapaz de suportá-la, Top Dollar lança-se numa queda desamparada para a morte.
   À medida que a noite se aproxima do fim, Sarah e Albrecht recebem assistência hospitalar enquanto Eric e Shelly se reencontram no túmulo de ambos. Finalmente reunidos, os dois malogrados amantes poderão assim passar a eternidade juntos. Momento emocionante emoldurado pelas sentidas palavras de Sarah: "Se as pessoas que amamos nos são tiradas, a única maneira de as mantermos vivas é nunca parar de amá-las. Casas ardem, pessoas morrem, mas o amor verdadeiro é eterno."

Trailer:




Segredos e mistérios da produção:

   Registou-se uma invulgar série de incidentes ao longo da rodagem de O Corvo, projeto que, desde o primeiro dia, pareceu enguiçado. Em qualquer caso, e ainda que de uma forma enviesada, esses aspetos insólitos concorreram para o sucesso do filme, envolvendo-o numa aura de mistério e misticismo que perdura até aos dias de hoje.
  Aqui ficam algumas dessas notas curiosas, na expectativa de que as mesmas sirvam para verter alguma luz sobre os segredos desta produção indelevelmente marcada pela tragédia:

* Autor, em 1989, da BD homónima que esteve na base do filme, James O'Barr revelaria, anos depois, nos comentários da respetiva edição em DVD, que a ideia original dos produtores seria lançar um musical estrelado por Michael Jackson. Julgando tratar-se de uma brincadeira, o escritor desatou a rir às gargalhadas antes de perceber que os seus interlocutores falavam a sério. A reação de O'Barr é tanto mais compreensível atendendo ao facto que a história original fora escrita na sequência da morte da sua noiva causada por um condutor embriagado. Dado que reforça ainda mais a morbidez da narrativa;
*Apesar das escolhas de Alex Proyas para a direção e de Brandon Lee para o papel principal terem trazido idoneidade ao projeto, James O'Barr nunca escondeu a sua preferência por Johnny Depp para interpretar o Corvo. River Phoenix e Christian Slater também foram sondados para assumir a personagem mas declinaram;


Eric Draven
Criador e criação: James O'Barr (cima) e a BD The Crow (1989).

* De entre as várias alterações introduzidas pelos argumentistas à trama original, releva, desde logo, a omissão da toxicodependência de Eric e a sua mudança de ofício (de mecânico na BD passou a músico no cinema). Outra diferença significativa entre as duas histórias reside no facto de, no filme, o corvo ser uma ave real, em vez de uma simples projeção da psique do herói. Acrescendo a isto o facto de, por oposição à narrativa original, o animal ser retratado no filme como a fonte de poder do Corvo;
* A versão inicial do enredo não incluía a fatídica cena em que Funboy dispara sobre Eric quando este surpreende os malfeitores no seu apartamento. Tratou-se, com efeito, de uma alteração imposta à última hora pelo realizador sob a forma de um flashback. A cena em causa requeria a utilização de um revólver Magnum .44 carregado com munição real, embora sem pólvora. Isto porque a referida arma seria disparada em direção à câmara a uma curta distância. Aparentemente, alguém se esqueceu entretanto de substituir as balas por fulminantes e o pior aconteceu. Brandon Lee, que à data contava 28 anos de idade, foi mortalmente ferido pelo seu colega Michael Massee, servindo as filmagens como elemento de prova na investigação que se seguiu àquilo que ainda hoje muitos se questionam se terá sido um acidente ou um homicídio;

O Corvo marcou a estreia
 do australiano Alex Proyas atrás das câmaras.

*Antes da ocorrência dessa fatalidade, registou-se uma sucessão de incidentes que muitos encaram como maus presságios para o que estava por vir. Logo no primeiro de dia de filmagens, um carpinteiro sofreu queimaduras graves após a sua grua tocar em cabos elétricos. Nos dias seguintes, um camião de apoio pegou fogo sem razão aparente, um escultor frustrado espatifou o seu carro contra a oficina onde produzia adereços em gesso e um membro do staff perfurou acidentalmente uma mão com uma chave de parafusos. Episódios insólitos a que poderá não ter sido alheio o consumo desenfreado de cocaína no set. Mas que, até hoje, muitos veem como sinais de que o filme estaria amaldiçoado;
*Traumatizado pelo facto de ter sido ele a disparar a pistola que tirou a vida a Brandon Lee, Michael Massee sentiu necessidade de tirar um ano sabático para se recompor. Apesar disso, em 2005 (doze anos decorridos sobre o incidente) admitiu, em entrevista, ter ainda pesadelos com o sucedido;
*Segundo a biografia de Bruce Lee, o lendário ator e mestre de artes marciais previra a morte do filho depois de despertar do seu coma, muitos anos antes de Brandon sequer pensar em seguir uma carreira ligada ao cinema. Este, por seu turno, desenvolvera um bizarro fascínio pela morte pouco tempo antes do arranque das filmagens. Que o levou, entre outras coisas, a visitar túmulos de celebridades;

Tal como o pai 20 anos antes,
 a morte de Brandon Lee tornou-o uma lenda.
*Em virtude dos constrangimentos orçamentais, foram impostos muitos cortes à produção. Alguns elementos do staff afirmaram mesmo que a ideia era produzir um filme de 30 milhões de dólares usando apenas 18 milhões. Com esse objetivo em vista, a rodagem do filme teve lugar numa pequena cidade da Carolina do Norte, escapando dessa forma às reivindicações salariais e de outra ordem que previsivelmente seriam feitas pela mão-de-obra sindicalizada de Hollywood. Igualmente devido à falta de verba para filmar uma perseguição de carros em ação real, a produção recorreu a miniaturas;
*Embora sem qualquer relação com as supramencionadas restrições orçamentais, importa referir que nenhuma das aves usadas nas filmagens era um corvo, mas sim gralhas-pretas. Apesar de aparentadas, as duas espécies corvídeas diferem em algumas características: além do seu menor porte comparativamente com os corvos, as gralhas-pretas são animais diurnos. Circunstância que obrigou o respetivo tratador a treiná-las para se adaptarem às filmagens noturnas;
*Na sequência da morte de Brandon Lee, a Paramount Pictures, responsável pelo financiamento do projeto, criou a Entertainment Media Investment Corporation, empresa de fachada que serviu exclusivamente para adquirir os direitos do filme e completá-lo com recurso a efeitos digitais e a duplos para rodar as cenas do malogrado ator;
* É voz corrente em Hollywood que o incidente que vitimou o filho de Bruce Lee terá servido de móbil à revisão do protocolo de segurança aplicável ao emprego de armas em filmagens. Mais que não seja, o infortúnio do ator terá servido para prevenir a repetição de situações idênticas.

Morreu o homem, ficou o mito.

Sequelas: 

  Sob o título The Crow: City of Angels, em 1996 chegou às salas de cinema internacionais uma sequela dirigida por Tim Pope e com Vicente Pérez como cabeça de cartaz. Arrasada pela crítica e pelo público, as suas receitas de  bilheteira ficaram muito aquém do desejado. Facto que motivou a resolução tomada pelos produtores de futuros capítulos da franquia serem lançados diretamente no circuito de vídeo.
  Série de ação real produzida por um canal televisivo canadiano, The Crow: Stairway to Heaven foi para o ar em 1998, com o ator Mark Dacascos a fazer as vezes de Brandon Lee. Dois anos depois, estrearia The Crow: Salvation. O elenco desta terceira longa-metragem (e a primeira a não ter direito a passagem pelo grande ecrã) era encabeçado por Eric Mabius, nele pontificando também Kirsten Dunst. Vagamente inspirada na novela The Lazarus Heart (escrita por Poppy Z Brite em 1998), a película recebeu avaliações díspares.
   Agora com Edward Furlong como protagonista, em 2005 foi produzido um quarto filme de saga. Ao contrário do seu antecessor, The Crow: Whicked Prayer mereceu antestreia cinematográfica antes de ser lançado no mercado de vídeo. Mas, como as demais sequências do filme original, não convenceu os espectadores, sendo mesmo considerado o pior capítulo da série.
  Provisoriamente intitulado The Crow: 2037, um pretenso reboot dirigido por Rob Zombie chegou a ser planeado nos finais da década de 1990, mas o projeto nunca chegaria a ver a luz do dia.

Cartaz promocional de uma
 das sequelas fracassadas de O Corvo.

Veredito: 72%

  Amor e vingança são ingredientes essenciais para uma fórmula de sucesso. Proposição aplicável a qualquer produto cultural, seja ele literário, musical ou cinematográfico. Sendo O Corvo uma magnífica síntese destes três géneros, à qual estes dois pungentes sentimentos humanos servem de força motriz.
  Mais romântico do que morrer por amor, só mesmo voltar da morte para vingar a morte da pessoa amada. É, pois, essa a pedra de toque da trama de um filme que, contra todas as expectativas, se tornou um fenómeno de culto.
  Evocando a extravagância neogótica das duas longas-metragens do Batman dirigidas por Tim Burton, a estética de O Corvo submerge o espectador numa atmosfera deliciosamente opressiva onde, para prevalecer, o herói tem de ser mais desapiedado do que os maus da fita.
  Por conta dessa ambiência e da banda sonora que a emoldura, tem-se a espaços a sensação de se estar a assistir a um teledisco de uma qualquer banda de death metal. Também o registo violento que infunde o enredo serve para disfarçar alguns dos pontos fracos da película, especificamente a caracterização superficial que é feita das personagens. Ficando, por isso, a dúvida se, caso o enfoque tivesse recaído sobre as suas idiossincrasias, o êxito desta produção teria sido igual.
   Êxito para qual, de forma macabra, muito contribuiu o mistério em redor da morte de Brandon Lee. Apesar da cena em que o filho de Bruce Lee perdeu a vida não ter sido incluída na versão final da película, é inevitável detetar o melancólico subtexto intrínseco à sua representação. Sobretudo no que às suas prédicas sobre morte e vingança diz respeito.
  Ironia assinalável é, pois, o facto de o derradeiro trabalho do ator ter sido não só aquele que inscreveu o seu nome nos anais da História de 7ª arte, mas também o melhor da sua medíocre filmografia. Circunstância que leva muita gente a perspetivar O Corvo não como a soberba homenagem ao cinema noir que é, mas tão-só como o filme em que Brandon Lee foi desta para melhor. Abordagem que, de tão redutora, se torna ultrajante a uma película que desafiou convenções e que ainda hoje serve de referência a outras produções do género, tanto no quesito visual como narrativo.
  Mesmo a esta distância, O Corvo continua a ser um filme à frente do seu tempo, fazendo dele um precursor do hiper-realismo que atualmente caracteriza a generalidade das adaptações de bandas desenhadas ao grande ecrã.
   
Certos papéis são passaportes para a Eternidade...