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sábado, 5 de dezembro de 2015

ETERNOS: PETER DAVID (1956 - ...)




   Cedo se deixou fascinar pelas historietas com super-heróis que lia às escondidas devido à censura paterna. Homem feito, tornou-se um dos mais requisitados escritores da indústria dos quadradinhos, da qual sempre foi muito crítico. Versátil como poucos, a sua influência criativa estende-se à literatura, ao cinema, à televisão e até aos videojogos.

Biografia: Peter Allen David (PAD, para os amigos) nasceu há 59 anos em Fort Meade, no estado norte-americano do Maryland. De ascendência judaica, em meados da década de 1930, o seu pai e avós paternos procuraram refúgio nos EUA, para escaparem ao antissemitismo que alastrava então na sua Alemanha natal dominada pelos nazis.
   O mais velho de três irmãos, Peter começou a interessar-se por banda desenhada por volta dos cinco anos de idade. Tinha por hábito ler títulos da Harvey Comics, principalmente Casper e Wendy, aquando das suas visitas ocasionais ao barbeiro. Mais ao menos por essa altura, através da popular série televisiva Adventures of Superman (protagonizada por George Reeves), descobriu o fabuloso mundo dos super-heróis. Elegeria, de resto, o Homem de Aço como sua personagem favorita.
  Fascinado, o pequeno Peter enfrentou, porém, a desaprovação paterna relativamente a esse tipo de publicações. Personagens com aparências monstruosas, como o Hulk ou o Coisa, eram consideradas más influências pelo seu genitor. Consequentemente, a Peter não restou outro remédio senão ler à socapa os comics que tanto adorava.
  Antes ainda de obter autorização parental para ler estórias com super-heróis, Peter tornou-se admirador incondicional da arte de John Buscema. Seria, contudo, de outro desenhador lendário que conseguiria um autógrafo. Aconteceu em Nova Iorque, em meados de 1971, quando visitou pela primeira vez uma convenção de quadradinhos. Naquele que foi o seu primeiro encontro com um profissional da 9ª arte, Peter teve o privilégio de estar cara a cara com ninguém menos do que Jack Kirby.
  Outra das paixões precoces de Peter, herdada do seu pai (jornalista e crítico de cinema), foi a escrita. Por volta dos doze anos, ele começou a acalentar o sonho de vir a ser repórter ou escritor profissional. Objetivo que, ao longo do seu percurso de vida, nunca perdeu de vista.
  Na adolescência, enquanto frequentava o liceu de Verona (uma pacata cidade de Nova Jérsia), Peter foi perdendo aos poucos o interesse pelas histórias aos quadradinhos, que lhe pareciam agora demasiado pueris.
  Redescobriria, porém, a sua paixão por esse material em meados de 1975, quando lhe chegou às mãos um exemplar de Giant-Size X-Men nº1. Edição histórica onde era apresentada a nova fase da equipa mutante, da autoria de Len Wein (perfil já publicado neste blogue) e Dave Cockrum. Peter era por esses dias caloiro do curso de Jornalismo da Universidade de Nova Iorque, o qual concluiria anos depois e que seria preponderante para as suas aspirações literárias.

O novo começo dos X-Men levou Peter David a reencontrar a magia dos super-heróis.

  Outro episódio capital na sua vida ocorreria pouco tempo depois. Numa sessão de autógrafos com Stephen King, Peter confidenciou ao aclamado mestre do suspense a sua ambição de vir a ser um profissional da escrita. Em troca, recebeu de King a seguinte dedicatória assinada : "Boa sorte para a tua carreira de escritor". Palavras de encorajamento que Peter ainda hoje faz questão de inscrever nos livros de fãs que acalentam o mesmo sonho.
  Além de Stephen King, Peter David cita como suas principais referências literárias Arthur Conan Doyle, Neil Gaiman, Edgar Rice Burroughs e Harlan Ellison. Reconhecendo ser este último cujo estilo de escrita procura mimetizar nas suas obras. A despeito destas influências, a prosa de Peter possui algumas especificidades. Regra geral, o seu tecido narrativo é alinhavado com elementos da vida real, costurado com referências da cultura popular e arrematado com humor mordaz.
  Árduo foi, no entanto, o caminho que Peter David teve de calcorrear antes de consumar as suas veleidades de literato. Com efeito, os primeiros passos no movediço terreno das letras foram dados na qualidade de repórter. Ao serviço do Philadelphia Bulletin, em 1974 fez a cobertura jornalística da Convenção Mundial de Ficção Científica que nesse ano teve como palco a cidade de Washington.
   Sentindo-se pouco realizado profissionalmente, em paralelo à sua incipiente carreira como jornalista, Peter arriscou aventurar-se nos meandros da ficção literária. Muitos dos seus trabalhos acabaram, porém, rejeitados. Contrariedades que o levaram a colocar temporariamente na prateleira o seu projeto de vir a ganhar a vida como escritor.
  Durante esse parêntesis de quase uma década, Peter trabalhou numa pequena editora livreira, passou pela revista Playboy e quis o Destino que acabasse como assistente de vendas da Marvel Comics. Funções para as quais foi contratado por Carol B. Kalish, sob cujas ordens trabalharia ao longo de aproximadamente cinco anos. Seria, de resto, pela mão da sua chefe que, em 1985, Peter se estrearia como escritor de banda desenhada. Estreia particularmente auspiciosa, atendendo ao fragoroso sucesso da saga A Morte de Jean DeWolff (ver texto anterior).

A obra de estreia de Peter David como profissional da 9ª arte.
 
   Antes disso, Peter tentara já a sua sorte, submetendo algumas histórias da sua autoria - nomeadamente, do Cavaleiro da Lua - à apreciação de Dennis  O´Neil (à época, escritor de Iron Man e Daredevil). Tentativas que resultaram, porém, infrutíferas.
   Mesmo o seu primeiro êxito como argumentista não foi isento de dissabores. Acusado de usar o seu cargo no Departamento de Vendas para promover a saga da sua autoria, Peter pôs fim ao presumível conflito de interesses, recusando-se a discutir assuntos editoriais durante o horário de expediente. Atribuindo a esta sua decisão a débil prestação comercial de A Morte de Jean DeWolff, apesar da reação positiva dos leitores e da crítica.
   Meses após a sua demissão de Peter Parker, The Spectacular Spider-Man, Peter David foi convidado a assumir The Incredible Hulk. Título mensal que lutava então pela sobrevivência e que, por esse motivo, mais ninguém aceitaria escrever. No entanto, onde outros veriam um degredo, Peter viu uma segunda oportunidade para mostrar o seu valor. Não hesitando, por isso, em agarrá-la com ambas as mãos. Tanto mais que, devido ao declínio da personagem, ele beneficiaria de total liberdade para fazer o que bem entendesse com ela. Devido à densidade dos seus enredos, foi algures nesta fase que Peter deixou de usar o famoso Método Marvel (que consiste, essencialmente, numa sinopse alargada) para produzi-los.
  Assim, durante a dúzia de anos em que escreveu as histórias do Hulk, Peter explorou com mestria os distúrbios de personalidade que caracterizavam o amargurado Golias Esmeralda. Em linha com essa abordagem psicanalítica - e numa homenagem aos primórdios da personagem -, criou também uma versão cinzenta do Hulk - menos poderosa, porém mais inteligente do que a tradicional. Revisitando o passado familiar de Bruce Banner, Peter estabeleceu que o alter ego do Gigante Verde fora vítima de um pai abusivo na infância. Premissa já anteriormente aflorada por Bill Mantlo, numa história publicada em The Incredible Hulk nº312 (outubro de 1985) e recuperada em 2003, na longa-metragem dirigida por Ang Lee.
  Peter David teve, portanto, o condão de transformar um título decadente num best-seller da Casa das Ideias. A cereja no cimo do bolo surgiria em 1992, sob a forma de um Eisner Award pelo seu trabalho em The Incredible Hulk. Entretanto, o seu currículo foi sendo enriquecido com outros projetos bem-sucedidos, como Wolverine, X-Factor e Spider-Man 2009 (conceito de que foi coautor).

Pela pena de David, o Incrível Hulk viveu uma das suas melhores fases

  Tamanho sucesso despertou a cobiça da concorrência. Aliciado pela DC Comics, acabaria por aceitar mudar-se para a Editora das Lendas em meados dos anos 90, já depois de ter abandonado Spider-Man 2099 em protesto pela demissão do editor Joey Cavalieri.
   Esta não foi, aliás, a única vez em que Peter assumiu posições de rutura. Em diversas ocasiões expressou opiniões críticas relativamente à indústria dos comics. Reagindo, por outro lado, com veemência às pressões editoriais a que foi sujeito. Cansado de lhe ser exigido que reescrevesse as suas histórias de molde a que estas acomodassem eventos de outros títulos, por mais que uma vez Peter bateu com a porta. Um bom exemplo foi quando abandonou abruptamente X-Factor devido a esse tipo de exigências por parte dos seus editores. Ou quando, em resultado de alegadas divergências criativas, interrompeu o seu trabalho em Aquaman.
  Na sua mira esteve também a forma, por ele considerada pouco digna, como os escritores são tratados pelas editoras. Cujas estratégias de marketing, baseadas essencialmente no lançamento de trade paperbacks em prejuízo dos títulos mensais, ele também questionou publicamente.
 Houve ainda mais dois aspetos que lhe mereceram duras críticas: o frequente desrespeito pela continuidade das personagens, por um lado; e a forma leviana como estas são mortas e posteriormente ressuscitadas, por outro. Tudo circunstâncias que o tornaram uma figura incómoda aos olhos de alguns.

X-Factor: o grupo de heróis mutantes a quem Peter David deu um novo fôlego.

  Entre as várias controvérsias em que Peter David se foi envolvendo ao longo dos anos, sobressai aquela que o opôs em 1993 a Todd McFarlane (com quem trabalhara em Hulk). E que teve o seu clímax num debate organizado no âmbito da Comic Con de Filadélfia em outubro desse ano. Numa altura em que a Image Comics se tentava afirmar no competitivo mercado editorial norte-americano, McFarlane acusava os meios de comunicação social e o próprio Peter David de discriminarem a empresa de que fora cofundador. Após uma acalorada troca de argumentos, o júri acabou por dar razão a Peter David.
  Visceralmente adverso a qualquer forma de censura, o escritor entrou várias vezes em rota de colisão com instâncias ligadas à indústria dos quadradinhos. O seu alvo predileto parece ser, no entanto, a Comics Code Authority. A entidade que regula a ética das licenciadoras foi por ele várias vezes acusada de práticas censórias. Complementarmente, Peter David é um dos promotores do Comic Book Legal Defense Fund. Trata-se de um fundo criado com o objetivo de prestar auxílio financeiro a autores e distribuidores em dificuldades.
  No campo político, a Peter David (liberal assumido) são também conhecidas posições bem vincadas. Adepto de causas sociais fraturantes preconiza, por exemplo, a admissão de homossexuais nas Forças Armadas estadunidenses, a abolição da pena capital e um controlo mais restrito ao porte de armas por parte de civis. Foi ainda um feroz opositor da Guerra do Iraque e da administração Bush.
   De volta aos quadradinhos, ao serviço da DC, Peter teve em Supergirl o seu trabalho mais notável. Ao reinventar a origem e os poderes da prima do Homem de Aço, transformou a sua série mensal num fenómeno de popularidade. Proeza posteriormente repetida com  Aquaman, Star Trek e Young Justice. De facto, à medida que ia dando novo elã a títulos moribundos ou com pouca expressão no respetivo universo editorial, Peter ganhava a fama de "milagreiro" e um lugar cativo no altar da 9ª arte.


A personalidade fragmentada da Supergirl de Peter David...


...e a sua conversão num avatar angélico de asas flamejantes.

  Além das gigantes Marvel e DC, Peter David colaborou também com editoras de menor dimensão. Entre 1999 e 2004, por exemplo, escreveu diversos números de The Spy, série de espionagem dedicada ao público juvenil editada pela Dark Horse Comics. Pelo meio, teve ainda tempo para, a meias com a segunda mulher, escrever os quatro volumes da minissérie Negima para a Del Rey Manga.
 Pela primeira vez em quase duas décadas,  Peter David volta a ser  responsável pelos enredos de dois títulos em simultâneo: X-Factor e Spider-Man 2099 (escritos por si desde julho de 2014). Nada que tire o sono a um dos mais versáteis e prolíficos autores de banda desenhada da atualidade, cuja influência se estende a outras áreas de entretenimento.
  No campo literário, Peter David soma mais de meia centena de obras publicadas, algumas das quais figuraram na conceituada lista de best-sellers do New  York Times. Apesar da sua preferência pela ficção científica, o seu repertório abrange uma grande variedade de géneros. Onde não faltam as novelizações de filmes com super-heróis. Nesta categoria, destacam-se The Rocketeer, Batman Forever e Hulk.
  Na TV, Peter foi cocriador de Space Cases, uma popular série de ficção científica cujas duas temporadas - antes do cancelamento ditado por cortes orçamentais -  foram transmitidas pelo canal Nickelodeon, entre 1996 e 1997. Outros trabalhos de relevo para o pequeno ecrã incluem os enredos de alguns episódios de Babylon 5 e da sua sucessora, Crusade.

Space Cases, a série televisiva de ficção científica de que Peter David foi coautor.

  Foram igualmente da sua autoria os guiões de dois jogos de vídeo que fizeram furor entre os fãs desse divertimento: Shadow Complex (2009) e Spider-Man: Edge of Time (2011).
 Finalmente, para o cinema, escreveu vários argumentos para filmes produzidos pela Full Moon Entertainment. Um dos quais, o western futurista Oblivion, foi eleito vencedor na categoria de Terror e Fantasia pelo júri do Festival Internacional de Houston, na sua edição de 1994.
  Sem surpresas, tão multifacetada obra rendeu-lhe ao longo  dos anos uma panóplia de prémios e outras distinções. Além do já mencionado Eisner Award, o seu currículo é abrilhantado, também, por galardões internacionais. Em 1995 viu ser-lhe atribuído um Haxtur Award (Espanha) e, no ano seguinte, arrebatou um OZCon (Austrália), ambos na categoria de Melhor Escritor. Sendo esses, porém, apenas alguns dos títulos mais prestigiosos que pontificam no seu impressionante palmarés.
   Escriba incansável, Peter David é também um homem de família. Casado em segundas núpcias desde 2001 com a também escritora Kathleen O'Shea, o casal reside atualmente em Suffolk County, um pitoresco subúrbio de Nova Iorque. Do seu primeiro matrimónio (com Myra Kasman, que conhecera em 1977 numa convenção de trekkies), Peter tem três filhas. A que se juntou uma quarta, fruto do seu enlace com Kathleen. E à qual deu nome de Caroline, em homenagem à sua velha amiga Carol Kalish a quem deve, recorde-se, a sua entrada no mundo dos quadradinhos.
   Peter fez saber em várias ocasiões que, quando trabalha num determinado projeto, tem sempre em mente uma pessoa ou um conjunto de pessoas a quem gostaria de dedicá-lo. Foi assim, por exemplo, com Supergirl, título escrito a pensar nas suas filhas. Já The Incredible Hulk foi  um tributo à sua primeira esposa, que o encorajara a aceitar esse desafio. Note-se, a este propósito, a ironia de a personagem que catapultou Peter David para o estrelato ter sido justamente uma daquelas que motivaram a interdição paterna nos seus tempos de menino. Acrescentando, à guisa de curiosidade, a mágoa que o escritor guarda devido ao facto de nunca ter tido oportunidade de trabalhar com Batman, Drácula ou Tarzan.
   Adivinhando-se-lhe ainda muitos anos de atividade literária  - apesar de alguns problemas de saúde diagnosticados - é bem possível que, num futuro próximo, Peter David venha a colmatar essas lacunas no seu repertório.Reforçando assim o seu estatuto de grande expoente da cultura pop.

Peter David é presença assídua nas Comic Cons. Para quando a sua vinda a Portugal?

    


    





2 comentários:

  1. Texto muito bem escrito! Gostei de conhecer mais acerca de um dos meus escritores americanos favoritos!

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