18 setembro 2015

HERÓIS EM AÇÃO: BESOURO AZUL




   Com uma origem que remonta à Idade do Ouro dos quadradinhos, é um dos mais vetustos heróis ainda em atividade. Antes de granjear notoriedade sob os auspícios da DC Comics, foi propriedade intelectual de três outras editoras. Tantas quantas as encarnações que contabiliza no seu currículo.

Nome original da personagem: Blue Beetle
Criadores: Charles Nicholas (Besouro Azul I); Steve Ditko (Besouro Azul II); Keith Giffen, John Rogers e Cully Hamner (Besouro Azul III)
Licenciadora: Fox Comics/Holyoke Publishing (1939-1951), Charlton Comics (1952-1968) e DC Comics (1983 até à atualidade)
Primeira aparição (Besouro Azul I): Mystery Men Comics nº1 (agosto de 1939)
Primeira aparição (Besouro Azul II): Captain Atom nº83 (novembro de 1966)
Primeira aparição (Besouro Azul III): Infinite Crisis nº5 (março de 2006)
Identidades civis: Respetivamente, Dan Garret/Garrett, Ted Kord e Jaime Reyes
Afiliação: O primeiro Besouro Azul teve um adjunto juvenil chamado Sparky. O seu sucessor passou pelas fileiras da Liga da Justiça Internacional (LJI), das Aves de Rapina e, mais recentemente, da Tropa dos Lanternas Negros. Na sua encarnação moderna, o herói teve uma passagem fugaz pela rediviva LJI e pelos Novos Titãs.
Bases de operações: Respetivamente, Nova Iorque, Chicago e El Paso, Texas
Armas, poderes e habilidades: Na sua versão primitiva, o Besouro Azul possuía força, agilidade e resistência amplificadas devido à Vitamina 2-X. Substância que, tal como o traje à prova de bala que envergava quando enfrentava malfeitores, lhe fora providenciada por um farmacologista chamado Dr. Franz. A fonte dos seus poderes passaria contudo a ser o Amuleto do Besouro Azul (ver informação detalhada mais adiante neste artigo) quando, já na Idade da Prata, os direitos da personagem foram adquiridos pela Charlton Comics.
    Já o segundo Besouro Azul tinha como principal arma o seu génio criativo. Rivalizando nesse campo com o próprio Batman, Ted Kord concebeu uma vasta parafernália tecnológica para o combate ao crime. Entre as suas mais admiráveis invenções avultavam duas: o Inseto (nave em forma de besouro alimentada por energia solar) e a Arma Besouro (pistola que tanto disparava clarões ofuscantes como rajadas de ar comprimido para aturdir os seus adversários). Ao seu formidável arsenal, o herói associava a proficiência em diversas artes marciais.
   Graças à sua relação simbiótica com o Amuleto do Besouro Azul, na sua encarnação atual o herói dispõe de livre acesso aos recursos conferidos por esse artefacto místico de origem extraterrestre. Para proteger o seu portador, o amuleto recobre-o com um exoesqueleto altamente resistente, resiliente (permitindo-lhe adaptar-se ao meio ambiente e às características dos oponentes) e com um versátil arsenal integrado.        Além de força sobre-humana, a veste concede ao seu usuário a capacidade de manipular padrões energéticos e frequências vibracionais. No entanto, é ativada apenas quando o indivíduo que a enverga se encontra em perigo. Durante o resto do tempo permanece alojada na sua coluna vertebral,o que torna o processo de ativação e desativação extremamente doloroso.

Da Idade do Ouro à contemporaneidade: três gerações de Besouros Azuis.

Amuleto do Besouro Azul: Sofisticada bioarma desenvolvida milénios atrás por uma raça de saqueadores alienígenas para ser uma espécie de cavalo de Troia nos planetas a serem alvos de pilhagem. Após fundir-se com a fisiologia do seu hospedeiro, o artefacto enceta um processo de reprogramação mental para torná-lo obediente às diretivas dos seus criadores. O indivíduo converte-se dessa forma num agente infiltrado no seu mundo natal.
  De acordo com as lendas, o Amuleto do Besouro Azul (também designado Khaji Dha) foi portado pela primeira vez na Terra pelo faraó egípcio Kha-Ef-Re, que usou os seus recursos para fazer prosperar o seu reino e manter os inimigos à distância. Certo é que o artefacto foi sepultado com o faraó aquando da sua morte. Ao longo dos séculos, muitos foram os que perderam as suas vidas a tentar reclamá-lo para si. Período durante o qual o amuleto foi infundido de energias místicas, responsáveis pela reconfiguração dos seus poderes.
  Em meados da década de 1920, Dan Garrett, um arqueólogo norte-americano, encontrou o sarcófago de Kha-Ef-Re e tornou-se o novo beneficiário do Amuleto do Besouro Azul. Resistindo à sua influência, Garrett empregaria os poderes do artefacto em prol da sua cruzada contra o crime.

Khaji Dha ou Amuleto do Besouro Azul.

Histórico de publicação: Dan Garret, o Besouro Azul original, debutou em agosto de 1939 em Mystery Men Comics nº1, título lançado nessa data pela Fox Comics. Nos anos ulteriores, o herói estrelou uma série própria, tiras de jornal e até um folhetim radiofónico. No entanto, à semelhança de outras personagens da Idade do Ouro dos quadradinhos, cairia na obscuridade nos alvores da  década de 50 do século passado.
  Antes, porém, de ser votado ao ostracismo, o Besouro Azul teve um percurso editorial errático. Ainda sob os auspícios da Fox Comics, a periodicidade da sua série sofreu múltiplas alterações e alguns números nunca chegaram mesmo a ser produzidos. Acrescendo a isto um hiato de 19 edições em que Blue Beetle chegou às bancas com a chancela da Holyoke Publishing.

A estreia do Besouro Azul ocorreu em 1939, em Mystery Men Comics nº1 (Fox Comics).
Capa da edição inaugural do primeiro título a solo do Besouro Azul, lançado em 1940 pela Fox Comics.

  No início dos anos 50, a Fox Comics encerrou portas e vendeu à ex-concorrente Charlton Comics os direitos autorais do Besouro Azul. Antes de a personagem ser revitalizada em 1964 pela sua nova licenciadora, teve ainda direito a uns quantos volumes avulsos.Que pouco ou nada acrescentaram à sua essência.
  Entretanto, foram feitos alguns retoques à sua origem e ao seu apelido (que ganhou um segundo T na sua grafia). De agente policial, Dan Garrett passou a arqueólogo. Expediente usado para introduzir uma nova fonte para os poderes da personagem. Expirado o seu prazo de validade, a Vitamina 2-X deu lugar a um milenar artefacto místico chamado Amuleto do Besouro Azul. Alterações ainda assim insuficientes para fazer o herói voltar a cair nas boas graças dos leitores.
 Após três tentativas fracassadas de lançar uma série a solo do Besouro Azul, a Charlton Comics recambiou-o para as páginas de Captain Atom. Foi precisamente nesse título de charneira da editora que foi apresentado pela primeira vez Ted Kord. Retratado como um antigo aluno de Dan Garret, após a morte deste, Kord assumiu o seu legado heroico.
  Mercê da sua crescente popularidade entre os leitores, o Besouro Azul teve direito a nova série própria em 1967. Apenas um ano antes do cancelamento de toda a linha super-heroística da Charlton. Circunstância que ditaria a alienação desse lote de personagens à DC Comics em 1983.
 Incorporado na cronologia da Editora das Lendas, o Besouro Azul foi paulatinamente adquirindo notoriedade. Sobretudo por via da sua participação na Liga da Justiça Internacional no período pós-Crise nas Infinitas Terras. Grupo onde reencontrou outro ilustre ex-inquilino da Charlton - o Capitão Átomo - e onde formou uma divertidíssima parelha com o Gladiador Dourado (ambas as personagens já tiveram os seus perfis publicados neste blogue).

O recauchutado Besouro Azul da Idade da Prata mereceu destaque na capa de Captain Atom nº83 (1966). 

  Já neste século, mais precisamente em 2006, a DC introduziu na sua mitologia um terceiro Besouro Azul. De seu nome verdadeiro Jaime Reyes, o neófito herói ganhou um título próprio inicialmente escrito pela dupla Keith Giffen/John Rogers e onde pontificava a arte de Cully Hamner. Equipa criativa que seria desfeita dez meses depois com a saída de Giffen. Passado pouco tempo, foi a vez de Rogers lhe seguir as pisadas.
  Blue Beetle seria cancelado ao cabo de 36 edições. Decisão justificada pelas baixas vendas, inversamente proporcionais às expectativas nele colocadas. Em 2009, numa tentativa frustrada de reeditar a sua parceria com o Gladiador Dourado, o novo Besouro Azul assentou arraiais em Booster Gold. Com a reestruturação cronológica decorrente de Os Novos 52, o jovem herói ganharia, dois anos depois, um novo título a solo.
 A exemplo de vários congéneres seus, a personagem teve a sua origem recontada no âmbito dessa iniciativa. Com a principal novidade a residir na ausência de qualquer ligação com as suas versões pregressas.

A triunfal entrada em cena do novo Besouro Azul em Infinite Crisis nº5 (2006).

Biografias:

* Dan Garret (Fox Comics): Nos seus primórdios de combatente do crime, o Besouro Azul original não dispunha de quaisquer talentos especiais. Tratava-se simplesmente do filho de um agente policial assassinado em serviço por um meliante. Seguindo as pisadas do seu malogrado progenitor, em adulto Garret ingressou no Departamento de Polícia de Nova Iorque. Em paralelo, atuava como um vigilante mascarado que fazia justiça pelas próprias mãos. Ganharia mais tarde um uniforme à prova de bala e capacidades físicas sobre-humanas graças à misteriosa Vitamina 2-X. Ambos desenvolvidos pelo Dr. Franz, um farmacologista que muito admirava a diamantina fibra moral de Garret, razão pela qual o quis apetrechar para a sua cruzada.

Dan Garret, o Besouro Azul original.

*Dan Garrett (Charlton Comics): As transformações operadas na personagem por altura da sua migração para a Charlton foram muito além do simples acréscimo de uma consoante ao seu apelido. Por contraponto ao seu predecessor, esta variante do Besouro Azul original era dotada de superpoderes. Tendo estes sido obtidos através de um amuleto místico descoberto durante uma escavação arqueológica no Egito. A metamorfose de Dan Garrett ocorria sempre que ele proferia as palavras mágicas "Kaji Dha" (qualquer semelhança com o grito "SHAZAM!" do Capitão Marvel poderá, ou não, ser coincidência).

Dan Garrett, Besouro Azul com visual e apelido retocados.

Ted Kord (Charlton Comics/DC Comics): Dono de um QI muito acima da média, Ted Kord era o mais brilhante aluno de Dan Garrett. Quando este morreu em combate como Besouro Azul, Kord assumiu o seu legado heroico. Contudo, não conseguiu aceder aos poderes concedidos pelo amuleto místico ao seu mentor. Facto que compensou desenvolvendo uma vasta gama de acessórios e aparatos tecnológicos capazes de causar inveja ao próprio Batman. Anos atrás, na sequência da sua descoberta de uma base de dados, pertença do Xeque-Mate e contendo informação exaustiva sobre todos os meta-humanos do planeta, o Besouro Azul foi executado a sangue-frio.

Ted Kord, o mais emblemático dos Besouros Azuis.


*Jaime Reyes: Filho adolescente de um modesto casal de imigrantes mexicanos radicados em El Paso, certo dia Jaime encontrou num baldio o Amuleto do Besouro Azul. Intrigado, levou o insólito objeto para casa.  Nessa noite, enquanto o jovem dormia, o artefacto místico fundiu-se à sua espinha dorsal, induzido-lhe pesadelos. Com a ajuda do Gladiador Dourado, Jaime aprendeu a origem dos seus recém-adquiridos poderes, assim como a dominá-los. Outro dos seus mentores foi o Pacificador (Peacemaker, no orginal), personagem que outrora também fez parte da mitologia da Charlton Comics.

Jaime Reyes, um Besouro Azul para o século 21.

Noutros media:  Entre maio e setembro de 1940, o Besouro Azul (Dan Garret) teve uma efémera carreira radiofónica. Durante esse período foi o cabeça de cartaz de um folhetim relativamente bem-sucedido, embora com um registo mais ligeiro do que outros programas do género, como aquele que tinha na mesma época o Homem de Aço como protagonista. Curiosamente, quase 60 anos depois, em 1998, a personagem (agora na sua encarnação Ted Kord) desempenharia um pequeno papel no audiolivro da autoria de John Withman que adaptava a esse formato a novelização da saga Kingdom Come (Reino do Amanhã).

Blue Beetle radio.jpg
Cartaz promocional do folhetim radiofónico estrelado pelo Besouro Azul em 1940.

  Contudo, só neste século e já com Jaimes Reyes, é que o Besouro Azul se estreou no restante panorama audiovisual. Foi na série animada The Brave and the Bold (2008-2011), na qual também participou o seu antecessor (Ted Kord).
  Ainda no pequeno ecrã, mas agora em séries de ação real, o Besouro Azul marcou presença num episódio da última temporada de "Smallville", onde contracenou com o outro astro convidado: ninguém menos que o Gladiador Dourado. Também na segunda temporada de "Arrow" foram feitas referências às Indústrias Kord. Ao que parece, o intuito seria incluir o Besouro Azul na temporada seguinte da série. Afirmando ter outros planos para o herói, a DC obrigou a sua substituição por Ray Palmer (Átomo/Eléktron).

Encontro pouco amistoso entre o Besouro Azul e o Gladiador Dourado em Smallville.

  Recentemente, o ovacionado argumentista Geoff Johns anunciou na sua conta do Twitter que estaria em curso um casting para uma hipotética série televisiva baseada na versão moderna do Besouro Azul. Dada a atual proeminência dos super-heróis no cinema e na TV, não será de estranhar se, para gáudio dos fãs, o projeto vier mesmo a materializar-se.

Ouro sobre azul: certas amizades são eternas.

04 setembro 2015

GALERIA DE VILÕES: REI DO CRIME




   Escalou a pulso a íngreme hierarquia do submundo do crime organizado nova-iorquino, removendo todos os escolhos que apanhou pelo caminho. Chegado ao topo, vergou heróis e erigiu um poderoso império governado pela sua mão férrea.


Nome original da personagem: Kingpin
Criadores: Stan Lee (história) e John Romita (arte)
Primeira aparição: The Amazing Spider-Man nº50 (julho de 1967)
Licenciadora: Marvel Comics
Identidade civil: Wilson Grant Fisk
Local de nascimento: Nova Iorque
Parentes conhecidos: Vanessa Fisk (esposa falecida), Richard Fisk (filho falecido), Rebecca Fisk (nora falecida) e Maya Lopez (filha adotiva falecida)
Afiliação: Ex-diretor-executivo das Indústrias Fisk, dos Emissários do Mal, da Controlo de Danos e da fação de Las Vegas da HIDRA; atual líder da liga de ninjas assassinos conhecida como Tentáculo e de uma coalização de organizações criminosas da Costa Leste.
Base de operações: Outrora, o Rei do Crime teve como quartéis-generais a Torre Fisk e uma mansão em Las Vegas; presentemente prefere a mobilidade no terreno.
Armas, poderes e habilidades: Mesmo desprovido de capacidades sobre-humanas, o Rei do Crime é dotado de uma descomunal força física que lhe permite, por exemplo, levantar centenas de quilos sem grande esforço ou esmigalhar ossos e crânios de pessoas ou animais com as próprias mãos. Devido à sua maciça corpulência, é comum os seus adversários tomarem-no por obeso. Ignorando que Wilson Fisk é na verdade uma montanha de puro músculo graças às suas singulares características fisiológicas.
  Proficiente em esgrima, sumo e diversas outras artes marciais, o Rei do Crime é um combatente temível, cuja velocidade e resistência são frequentemente subestimadas. Com consequências dolorosas, ou até mesmo fatais, para os seus oponentes...
  Como principal arma, o Rei do Crime usa uma bengala especial apetrechada com raios laser. Em função da distância e da intensidade das rajadas disparadas, os resultados podem variar entre o simples atordoamento ou a total vaporização dos seus alvos. Na gravata usa também um broche de diamante contendo uma dose concentrada de gás soporífero destinado a neutralizar ameaças mais próximas. No capítulo defensivo, é habitual o vilão envergar um colete à prova de bala feito de kevlar dissimulado sob a sua sumptuosa indumentária.
  Extremamente inteligente e perspicaz, o Rei do Crime é apreciador da cultura clássica e mestre autodidata em ciência política e economia. Circunstâncias que lhe permitem controlar de forma hábil e implacável uma vasta gama de negócios lícitos e ilícitos, mas sempre altamente lucrativos. Preferindo, no entanto, quase sempre exercer a sua influência a partir dos bastidores, manipulando tudo e todos a seu belo prazer ao mesmo tempo que evita ilaquear-se nas teias da Justiça.

Figurino clássico de um vilão de peso.

Histórico de publicação: Segundo a ideia original de Stan Lee, o Rei do Crime corresponderia ao protótipo do padrinho da Máfia. No entanto, o seu parceiro criativo, John Romita, baseou-se na aparência física de Sydney Greenstreet (ator britânico notabilizado nos  anos 40 pelos seus papéis vilanescos no teatro e no cinema), conferindo-lhe dessa forma traços que pouco fariam lembrar os de um italo-descendente. Consequentemente, Lee reciclou a neófita personagem num inescrupuloso empresário americano
  Debutando num arco de histórias publicado nos números 50,51 e 52 de The Amazing Spider-Man (julho a setembro de 1967), Wilson Fisk foi inicialmente retratado como um tradicional chefe do crime organizado, embora com uma particular apetência por executar o  trabalho sujo. O próprio termo Kingpin (designação original da personagem) remete para  a nomenclatura do submundo do crime organizado, referindo-se a uma espécie de suserano medieval a quem outros chefes criminosos prestam tributo e vassalagem.

Foi nesta edição de The Amazing Spider-Man que, em 1967, o Rei do Crime teve a sua estreia oficial.
Sydney Greenstreet, o opulento ator britânico que serviu de modelo para Wilson Fisk.

  Ainda com Stan Lee a escrever as suas histórias, nas suas aparições posteriores o Rei do Crime foi progressivamente adquirindo características mais próximas das de um supervilão. Uma delas consistia na utilização de uma parafernália de dispositivos exóticos para enfrentar os heróis mascarados que ocasionalmente obstavam aos seus desígnios.

Stan Lee (esq.) e Joh Romita numa fotografia autografada de 1976.

  Através da sua participação em Daredevil no início dos anos 80 -  título à época escrito e ilustrado por Frank Miller - operou-se uma profunda transformação no Rei do Crime. De vulgar mafioso passou a grande senhor do crime organizado movendo-se sorrateiramente nos interstícios da Lei. Ganhando a personagem dessa forma maior dimensão e substância dentro do Universo Marvel.
  Depois de anos a ter como principal entrave aos seus estratagemas o Homem-Aranha, o vilão tornou-se assim inimigo jurado do Demolidor. Ao Escalador de Paredes e ao Homem Sem Medo, com o tempo Fisk acrescentaria o Justiceiro à sua (extensa) lista de ódios de estimação.


Suserano do submundo.

Biografia: De raízes humildes, Wilson Fisk teve uma infância triste em Nova Iorque, muito por conta da chacota e das intimidações de que era alvo na escola devido ao seu excesso de peso. Cansado de tanta humilhação, ele começou a treinar-se em combate corpo a corpo, explorando a sua já então impressionante força física. Recursos que usou para subjugar os seus antigos agressores, obrigando-os depois a juntarem-se à sua recém-formada quadrilha.
  Embora pequeno e formado por delinquentes juvenis, as ações do grupo logo chamaram a atenção de Don Rigoletto. Um influente mafioso de quem Fisk se tornaria guarda-costas e, posteriormente, braço direito. Anos mais tarde, porém, Fisk assassinaria o seu empregador, assumindo o controlo da sua quadrilha e dos seus negócios. Começando dessa forma a trilhar o sinuoso caminho que o conduziria ao trono do submundo da Cidade Que Nunca Dorme.
  À medida que expandia a sua influência e trepava a hierarquia do crime organizado, Wilson Fisk foi fazendo alguns inimigos de peso. Entre eles, o grupo terrorista HIDRA e o sindicato do crime conhecido como Maggia. As duas organizações conjugaram esforços para atacar o império do Rei do Crime, forçando-o a uma retirada estratégica para o Japão. País onde Fisk investiu no tráfico de especiarias para recuperar a sua fortuna.
  Tão logo dispôs de recursos financeiros suficientes, Fisk regressou a Nova Iorque determinado a derrubar a Maggia. Tendo, para esse efeito, instigado uma sangrenta guerra entre as várias quadrilhas que operavam na cidade. Em meio ao caos instalado, a sua intervenção serviu o duplo propósito de pacificar a situação e de reassumir o controlo da maior parte do crime organizado.
  Enquanto circulavam rumores sobre uma eventual saída de cena do Homem-Aranha, Wilson Fisk procurou formar uma coalização entre os diferentes ramos mafiosos da Costa Leste com o intuito de contrariar a hegemonia da Maggia. Chegou mesmo a ordenar o sequestro de J. Jonah Jameson, o irascível diretor do Clarim Diário que o expusera publicamente como Rei do Crime. Vendo, no entanto, os seus planos frustados pela ação do recém-regressado herói aracnídeo.

Aula prática de como esmagar uma aranha.

  Nos anos seguintes, Wilson Fisk esmerou-se em projetar uma fachada de legítimo homem de negócios e de filantropo, fazendo generosas doações a instituições de caridade. Granjeando desse modo a simpatia de parte da opinião pública ao mesmo tempo que desviava as atenções das suas atividades clandestinas.
  No auge do seu poder, Fisk conheceu Vanessa (cujo apelido de solteira se desconhece), aquela que viria tornar-se sua esposa e o grande amor da sua vida. No ano seguinte, o casal teve um filho a quem deram o nome de Richard. No entanto, a harmonia familiar seria seriamente abalada com a descoberta de Vanessa acerca da verdadeira natureza dos negócios do marido. (Pese embora não seja claro se ela já não estaria ciente dessa realidade.)
  Escandalizada com o facto de ter casado com um criminoso, Vanessa exigiu a Fisk que abdicasse do seu império. Caso contrário, ameaçava partir para longe levando com ela o filho de ambos.
 Temendo perder as duas únicas pessoas que amava no mundo, o Rei do Crime aposentou-se temporariamente e a família Fisk rumou outra vez a terras do Sol Nascente para uma espécie de exílio dourado. Que chegou ao fim quando alguns mafiosos usaram arquivos contendo provas irrefutáveis de delitos cometidos por alguns dos antigos rivais de Fisk como engodo para atraí-lo de volta a Nova Iorque.
  Alheio a tudo isto, Richard Fisk só descobriria que o seu pai era um senhor do crime quando já andava na faculdade. Após obter o diploma, o jovem informou os pais da sua intenção de passar uma temporada na Europa. Meses depois da sua partida para o Velho Continente, Fisk e Vanessa receberam a notícia de que o filho teria morrido num acidente de esqui.
  Tudo não passara, todavia, de uma macabra encenação levada a cabo por Richard, ressentido pelo facto de o seu pai ser um fora da lei. Disfarçado de um mafioso rival, o filho pródigo do Rei do Crime retornou a Nova Iorque com o fito de pôr um ponto final ao reinado de terror do seu progenitor.
  Ignorando ter como adversário alguém do seu sangue, o Rei do Crime empreendeu uma guerra sem quartel contra aquele que considerava ser uma ameaça não negligenciável contra os seus interesses. Com o conflito ao rubro, o Homem-Aranha interveio, tornando-se um alvo a abater para ambos os contendores.
  Revelada enfim a verdadeira identidade do seu rival, o Rei do Crime ficou em choque ao descobrir que se tratava do próprio filho, dado como morto anos atrás. Atendendo às súplicas de Vanessa, Fisk poupou a vida de Richard e concordou em desfazer-se do seu império criminoso. Não sem antes tentar, uma vez mais, liquidar um certo Escalador de Paredes.

Justiça cega para um Rei do Crime.

  Mesmo reformado, o Rei do Crime assumiria, pouco tempo depois, a direção-executiva da fação de Las Vegas da HIDRA. Altura em que cometeu um erro crasso que quase custaria a vida à sua esposa. Pressionado pelas autoridades, Fisk acedeu a fornecer-lhes os ficheiros que incriminavam os seus antigos lugares-tenentes. Em retaliação, estes sequestraram Vanessa e encenaram a sua execução.
  Transtornado pela aparente morte da mulher que amava, Fisk retomou a sua vida à margem da Lei. Tirando proveito do seu profundo conhecimento das fraquezas das diversas quadrilhas e comprometendo-se a estabilizar toda a Costa Leste, o Rei do Crime conseguiu rapidamente retomar as rédeas do submundo. Obteve também a fidelidade do volátil assassino de aluguer conhecido como Mercenário, a quem prometeu incluir na sua folha de pagamentos.
  Numa jogada de mestre, o Rei do Crime ofereceu ao Demolidor os ficheiros que incriminavam os mafiosos que continuavam sublevados, exortando o herói a entregá-los às autoridades. Circunstância que levaria à prisão de todos aqueles que lhe eram incómodos, abrindo assim caminho à sua substituição por elementos da sua confiança.
  Percebendo que isso atrapalharia os planos do seu némesis, o Homem Sem Medo recusou-se, porém, a entregar o referido material às autoridades. Depois de também fracassar na sua tentativa de manipular o herói contra o Tentáculo, o Rei do Crime ordenou ao Mercenário que o eliminasse de uma vez por todas. Entretanto, continuou a financiar secretamente a campanha eleitoral de Randolph Cherryh, candidato a mayor de Nova Iorque e sua marioneta no palco político.
  Sempre empenhado em reforçar o seu poder de fogo, o Rei do Crime conseguiu contratar também os serviços da ninja assassina chamada Elektra. Tratava-se da escultural filha de um empresário grego assassinado anos atrás por mafiosos e que, nos tempos de faculdade, vivera um tórrido romance com Matt Murdock, o alter ego do Demolidor. Este, por sua vez, encontrou Vanessa Fisk viva, mas amnésica. Aproveitando essa valiosa moeda de troca, o Diabo da Guarda propôs ao Rei do Crime devolver-lhe a sua adorada esposa se ele se comprometesse a deixar de financiar Cherryh.
   O vilão aceitou os termos do acordo mas, agastado por mais este revés às mãos do Demolidor, ordenou a Elektra que assassinasse Foggy Nelson. Advogado da Cozinha do Inferno, este era simultaneamente aliado do Homem Sem Medo e sócio e melhor amigo de Matt Murdock.
  Ao reconhecer Foggy, com quem privara ocasionalmente nos tempos de faculdade, Elektra hesitou e deixou-o escapar com vida. Acabando, contudo, morta às mãos do Mercenário. Mesmo sem o saber, o Rei do Crime sangrara o coração do seu arqui-inimigo.
  Algum tempo depois, Karen Page, outra ex-namorada de Matt Murdock e atual viciada em heroína, revelou a um traficante que o advogado cego e o Demolidor eram a mesma pessoa. Informação que logo chegou ao Rei do Crime.
  Sem hesitar, o vilão colocou em marcha um terrível plano de vingança que levaria à queda do seu maior inimigo. Consistindo a primeira etapa em arrasá-lo financeiramente, para de seguida o incriminar pelo pretenso suborno de uma testemunha que teria cometido perjúrio em tribunal contra Wilson Fisk. Em consequência disso, Matt teve a sua licença para exercer advocacia cassada.
 Profundamente perturbado a nível psicológico, Matt desenvolveu severos sintomas de paranoia e confrontou o Rei do Crime. Apenas para acabar selvaticamente espancado por ele antes de ser enfiado inconsciente dentro da bagageira de um carro que foi posteriormente lançado às águas de um rio na periferia de Nova Iorque. A ideia era fazer com que a morte do advogado caído em desgraça parecesse acidental. Porém, ele conseguiu milagrosamente escapar com vida..
  Convicto da morte do Demolidor, o Rei do Crime baixou a guarda e permitiu um xeque-mate do seu adversário. Não só teve as suas atividades ilegais expostas publicamente pelo Demolidor como perdeu Vanessa, levada por Matt Murdock para um esconderijo europeu. Falido e derrotado, o vilão parecia ter batido no fundo do poço.
  No entanto, sob circunstâncias difusas, Wilson Fisk tornou-se acionista do conglomerado Stark-Fujikawa, resgatando parte do poderio e influência que detivera outrora. Suficientes, ainda assim, para abrir caminho à reconstrução do seu império criminoso em Nova Iorque. Que, sob a sua mão de ferro, continuou a prosperar.

Com a Cidade Que Nunca Dorme a seus pés.

 
Noutros media: Ocupando um muito respeitável décimo lugar na lista dos cem melhores vilões dos quadradinhos elaborada pelo IGN, desde muito cedo que a influência do Rei do Crime se estendeu ao restante panorama audiovisual. Logo em 1967, ano da sua estreia nas histórias do Homem-Aranha, o vilão marcou presença em dois episódios da série de animação Spider-Man. Circunstância reeditada nos anos subsequentes em diversas produções similares com a chancela da Marvel, quase sempre estreladas pelo Escalador de Paredes. A única exceção foi a sua participação num episódio de Spider-Woman (1979-1980).
  No grande ecrã, a primeira aparição da personagem remonta a 1989, ano em que foi produzido o telefilme O Julgamento do Incrível Hulk ( que contava igualmente com a participação do Demolidor). Interpretado por John Rhys-Davies, o Rei do Crime é retratado como um génio criminoso, frio e calculista. Em 2003, foi a vez de Michael Clarke Duncan emprestar o seu imponente corpanzil à personagem na longa-metragem Demolidor (vide resenha já apresentada neste blogue). Escolha controversa, sendo o ator um afrodescendente.
Michael Clark Duncan foi o  Rei do Crime em Demolidor (2003).
 Além do cinema e da TV, o Rei do Crime também fez uma incursão no teatro. Em 2011, na peça musical Spider-Man: Turn Off the Dark, da autoria de Bono e The Edge dos U2 e que revisita a história do Homem-Aranha desde os seus primórdios, o vilão fez uma pequena aparição em cena.
  Já este ano, o Rei do Crime voltou ao pequeno ecrã - e à ribalta -  através da série televisiva baseada na mitologia do Homem Sem Medo. Numa versão muito próxima da original, o vilão é representado por Vicent D'Onofrio. Com a mais-valia de o enredo da série dar a conhecer pormenores fundamentais sobre o meio familiar de Wilson Fisk, fator determinante para uma melhor compreensão das suas motivações.

Vicent D'Onofrio encarna na perfeição Wilson Fisk na série televisiva Demolidor.

24 julho 2015

HERÓIS EM AÇÃO: MANTO & ADAGA




  Dois jovens proscritos usados como cobaias para drogas experimentais adquiriram talentos extraordinários e tiveram os seus destinos para sempre entrelaçados. Num frágil equilíbrio entre redenção e vingança, Manto e Adaga levam luz aos inocentes e trevas aos culpados. Subsistindo, contudo, a dúvida: serão eles mutantes ou não?

Nomes originais das personagens: Cloak & Dagger
Criadores: Bill Mantlo (história) e Ed Hannigan (arte)
Licenciadora: Marvel Comics 
Primeira aparição: Peter Parker, the Spectacular Spider-Man nº64 (março de 1982)
Identidades civis: Tyrone "Ty" Johnson (Manto) e Tandy Bowen (Adaga)
Locais de nascimento: Respetivamente, Boston (Massachusetts) e Cleveland (Ohio)
Afiliação: Ao longo da sua carreira, Manto e Adaga tiveram passagens fugazes por vários coletivos heroicos, entre os quais Vingadores Secretos, X-Men, X-Men Sombrios e Fugitivos. A título individual, Adaga esteve ainda temporariamente engajada com os Novos Guerreiros e com os Marvel Knights.
Base de operações: Nova Iorque
Armas, poderes e habilidades: Inicialmente classificados como mutantes cujo gene X latente fora ativado por via da ação das drogas experimentais que neles foram inoculadas, nos tempos mais recentes Manto e Adaga foram recategorizados como humanos transformados. Significando isto que os seus talentos especiais derivam de uma fonte mutagénica exógena.
  Utilizada pela primeira vez no decurso da saga Civil War, esta designação não colhe, porém, consenso, na medida em que genuínos homo superior, como os antigos X-Men Solaris e Pássaro Trovejante, também necessitaram de um estímulo exterior para que as suas habilidades se manifestassem.
 No entanto, o estatuto de mutantes já foi sonegado a Manto e Adaga por Matt Fraction, um dos argumentistas de Uncanny X-Men. Que foi taxativo nas suas declarações motivadas por esta controvérsia: "Não, Manto e Adaga não são mutantes nem se veem como membros dessa comunidade. Facto que não deixa de ser significativo num contexto em que os homo superior quase foram extintos. Afinal, como poderiam eles não ter conhecimento dessa família ou não desejarem pertencer-lhe?". 
 O postulado de Fraction já foi entretanto  parcialmente corroborado na banda desenhada. No arco de histórias Utopia, após o casal ter sido recrutado por Norman Osborn para os seus X-Men Sombrios, Manto e Adaga fizeram notar ao seu mentor que não são mutantes. Diagnóstico ulteriormente ratificado pelo Doutor Némesis que, depois de submeter Adaga a vários exames genéticos, concluiu que as suas habilidades derivam exclusivamente da droga que lhe foi injetada na adolescência.
  Depreendendo-se, portanto, que o mesmo princípio seria aplicável a Manto. Sem que isso tivesse, porém, sido empiricamente comprovado. Somando a isto o facto de o jovem ter adquirido a Forma Sombria do demónio Desespero, a dúvida quanto à verdadeira origem dos seus poderes não foi totalmente dissipada.
  Mutantes ou não, certo é que Manto e Adaga foram agraciados com poderes fascinantes. No caso dele, além da intangibilidade, avulta a sua capacidade de teleportar-se a si mesmo ou a outrem para uma dimensão de trevas. Já ela é  capaz de gerar e direcionar psionicamente adagas de luz, que tanto podem drenar a energia vital dos seus alvos como curá-los de adições.
  Entre os dois existe uma relação de interdependência - quase simbiótica- , visto que Manto sente uma "fome" constante, apenas aplacada pela luz nele projetada pela sua parceira ou pela energia vital dos indivíduos que envia para a dimensão escura. Adaga, por sua vez, encontra proteção e refúgio nas sombras de Manto, sendo-lhe extremamente leal.
  Ambos possuem ainda uma razoável experiência em combate corpo a corpo adquirida no período em que (sobre)viveram nas ruas.

Luz que alimenta a escuridão; escuridão que protege a luz.

Conceção e desenvolvimento: Segundo rezam as crónicas, a inspiração para criar Manto e Adaga acometeu Bill Mantlo na sequência de uma sua visita a Ellis Island (ilha situada na baía de Nova Iorque que, desde o século XIX, serve de porta de entrada a imigrantes à conquista do sonho americano).
 Em discurso direto,  Mantlo evoca esse momento singular: "As duas personagens surgiram-me noite adentro, quando tudo à minha volta estava silencioso e a minha mente estava em branco. Materializaram-se diante de mim, trazendo consigo a sua origem, atributos e motivações perfeitamente definidos. No fundo, eles corporizavam todo o medo, sofrimento e miséria que me tinham assombrado na minha visita a Ellis Island. Eram apenas mais dois proscritos que tinham se manter unidos para sobreviver."

Bill Mantlo teve a ideia de criar Manto e Adaga após uma visita a Ellis Island.

 Por seu turno, Ed Hannigan, o desenhador que colaborava com Mantlo em Peter Parker, The Spectacular Spider-Man, lembra-se bem de como os dois conceberam em conjunto o figurino das novas personagens: "Bill mostrou-me a sinopse da história, escrita numa página ou duas. Li-a e, de seguida, trocámos algumas impressões sobre qual a aparência mais adequada para cada uma das personagens. Apesar do grande espaço de manobra que me foi dado por Bill, ficou claro desde o primeiro momento que Manto seria afro-americano e que usaria um manto negro "animado", como se de uma extensão natural do seu corpo se tratasse. Adaga, por outro lado, seria caucasiana e vestiria uma espécie de body colante. Posso estar enganado, mas acho que partiu de mim a ideia de ela ser uma bailarina. Circunstância que serviria para realçar a sua elegância e graciosidade. Olhando a esta distância, admito que o figurino de Adaga era bastante audacioso para os padrões da época."

Ed Hannigan divide com Mantlo a paternidade de Manto e Adaga.

Histórico de publicação: Após a sua estreia em Peter Parker, the Spectacular Spider-Man nº64 (março de 1982), Manto e Adaga foram durante algum tempo coadjuvantes nas histórias do Escalador de Paredes. Em outubro de 1983 ganhariam, porém, uma minissérie própria composta por quatro volumes, com argumento de Bill Mantlo e arte de Rick Leonardi. Devido ao inesperado sucesso da iniciativa, dois anos depois a Marvel resolveu arriscar numa série bimestral estrelada pelo heterodoxo casal, e cuja produção ficaria a cargo da mesma equipa criativa.
  Supervilões fantasiados raramente surgiam nas histórias de Manto e Adaga, mais focados que estavam num combate sem tréguas ao narcotráfico. Traficantes de drogas, proxenetas e outros malfeitores comuns eram, pois, os seus alvos privilegiados.

A estreia de Manto e Adaga mereceu destaque na capa de
  Peter Parker, the Spectacular Spider-Man nº64 (1982).
 
  A partir do 11º número de Cloak & Dagger (e já depois da saída de Leonardi), os editores da Marvel decidiram fundir o título com Doctor Strange, dando assim origem à nova série mensal Strange Tales.  
  Agora com enredos de Terry Austin e arte de Bret Blevins, as aventuras de Manto e Adaga continuaram na senda do sucesso por mais algum tempo, antes de as vendas entrarem em declínio. Numa tentativa de o contrariar, Austin introduziu o primeiro némesis do casal: Mister Jip, um feiticeiro perverso com uma aparência disforme.
 Em 1988, Manto e Adaga protagonizaram Marvel Graphic Novel nº34, edição que assinalou a despedida de Bill Mantlo da série. Quanto a Strange Tales, seriam publicados 19 fascículos antes da Marvel deliberar o seu cancelamento. Em consequência disso, Manto & Adaga e o Dr. Estranho retomaram as suas séries independentes com periodicidade bimestral.
 Agora sob o título The Mutant Misadventures of Cloak and Dagger, a série estrelada por Manto e Adaga continuava a ter enredos da autoria de Terry Austin, mas recebeu um novo desenhador, Mike Vosburg. Com Adaga a perder a visão logo no primeiro número, a forma como ela aprendeu a lidar com essa circunstância foi a pedra angular desta nova fase da dupla. Com o tempo a série foi, porém, perdendo o seu fulgor inicial, facto que acabaria por ditar o seu cancelamento ao fim de 19 edições.

Há precisamente 30 anos, Manto e Adaga ganhavam a sua série própria.

  Nos anos subsequentes, Manto e Adaga continuaram a fazer participações especiais nos títulos de outras personagens da Casa das Ideias, como Runaways ou na saga Maximum Carnage, na qual foram aliados do Homem-Aranha. Manto faria também uma aparição a solo na minissérie dos X-Men House of M (2005), na qualidade de membro do movimento subterrâneo de resistência humana. Já a existência de Adaga nessa realidade alternativa permanece uma incógnita, uma vez que não lhe foi feita qualquer referência no decurso da saga.
  Depois de terem ensaiado um regresso à ribalta por via de uma minissérie própria lançada pela Marvel em 2008, Manto e Adaga desempenhariam, no ano seguinte, um papel de relevo na saga Utopia. Incorporado nos X-Men Sombrios de Norman Osborn, o casal recuperou alguma da notoriedade de outrora. Que poderá consolidar-se já este ano com a sua anunciada participação no redivivo título Runaways.

O grotesco Mister Jip foi o primeiro arqui-inimigo de Manto e Adaga.

Origem: Os caminhos de Tyrone "Ty" Johnson e Tandy Bowen cruzaram-se casualmente pela primeira vez nas ruas de Nova Iorque. Ambos adolescentes fugitivos, depressa estabeleceram uma forte cumplicidade. Tinha sido, contudo, longo o caminho que cada um deles trilhara até chegar à cidade que nunca dorme.
  Com 17 anos de idade e de raízes modestas, Ty fora em tempos um promissor jogador de basquetebol no liceu onde estudava, em Boston. Cidade de onde fugiu na sequência do trágico atropelamento do seu melhor amigo que, devido à sua gaguez incapacitante, ele não conseguira evitar.
 Nascida num subúrbio abastado de Cleveland, Tandy, de apenas 16 anos, era filha de uma supermodelo e sonhava vir a ser bailarina. Depois de o seu pai partir para a Índia em busca de um renascimento espiritual, a jovem sentiu-se traída e magoada. Sentimentos exacerbados pelo desafeto da sua egocêntrica mãe, sempre demasiado focada na sua carreira profissional e vida social para dar atenção à filha. Cansada da indiferença materna, Tandy resolveu deixar para trás a sua vida confortável, porém infeliz.
 Partindo de pontos tão distintos, nada faria prever que as trajetórias de Tyrone e Tandy seriam convergentes. No entanto, foram essas as malhas que o Destino (ou o Desespero) teceu.
  Quando perambulava sozinha pelas ruas nova-iorquinas, Tandy viu a carteira ser-lhe roubada por um
meliante. A fuga deste seria, porém, corajosamente travada por um jovem sem-abrigo que, de seguida, devolveu a carteira a Tandy. Para o recompensar pelo seu heroico ato, ela comprou comida ao rapaz. Ficando também a saber o seu nome: Tyrone (Ty para os amigos).
 Nascia assim uma amizade para a vida entre dois jovens oriundos de mundos tão diferentes e, aparentemente, sem nada em comum. Os opostos parecem, porém, sentir uma irresistível atração entre eles.
  Enquanto o casal vivia nas ruas, um grupo de homens desconhecidos ofereceu-lhes abrigo. Oferta que Tandy ingenuamente aceitou. Desconfiado, Ty acompanhou-a para a proteger das eventuais más intenções dos seus presumíveis benfeitores.
 Confirmando-se os piores receios de Ty, os dois adolescentes foram levados à presença de Simon Marshall, um químico sem escrúpulos e com ligações ao submundo do crime. A pedido da organização terrorista Maggia, Marshall estava a desenvolver uma nova droga sintética que serviria de sucedâneo da heroína. Necessitava, porém, de testar os efeitos do narcótico em cobaias humanas. Dois sem-abrigo jovens e saudáveis seriam, pois, os candidatos perfeitos.
  Com a droga a correr-lhes nas veias, Tandy e Ty sofreram violentas convulsões, mas sobreviveram à experiência com resultados inesperados. Após conseguirem escapulir-se do seu cativeiro, os dois descobriram que haviam ganho habilidades sobre-humanas.
 
Manto e Adaga sobreviveram a várias provações e tiveram os seus destinos entrelaçados.  

  Ty viu-se subitamente engolfado pelas trevas e fustigado por uma estranha fome, aplacada apenas pela luz irradiada pela sua companheira. Tentando disfarçar a sua sinistra aparência, Ty embrulhou-se num enorme manto negro. Sempre faminto, absorveu para o seu interior de tenebrosa escuridão alguns dos asseclas de Marshall. Ao mesmo tempo que Tandy derrubava os restantes com as suas adagas de luz.
 Adotando os codinomes Manto e Adaga, o casal adolescente declarou uma guerra sem quartel ao narcotráfico, passando a atuar como vigilantes e a prestar auxílio a outros jovens fugitivos como eles.
  Vários anos depois seria, contudo, revelado que toda esta série de eventos fora secretamente manipulada pelo demónio Desespero, com quem Manto mantém uma ainda não totalmente explicada conexão.
  Certo é que, conforme foi referenciado na saga Ilha das Aranhas (Spider-Island), foi a interferência de Desespero que ditou a reversão dos dons que estavam destinados a Manto e Adaga. Ou seja, os poderes luminosos de Tandy pertenciam originalmente a Ty, e vice-versa.
  Inversão de papéis que, de resto, se verificou no decurso do aludido arco de histórias graças à ação do vilão conhecido como Senhor Negativo, e que persiste até hoje.
  Ignora-se, no entanto, até que ponto essas circunstâncias influenciaram as personalidades de Tandy e Tyrone.

Desespero, o demónio que tem manipulado as vidas de Manto e Adaga.

Noutros media: Com diminuta expressão fora dos quadradinhos, Manto e Adaga poderão nos próximos anos notabilizar-se junto do grande público caso se concretizem os planos dos Estúdios Marvel e da Paramount Pictures para uma adaptação cinematográfica.
  Outros projetos audiovisuais envolvendo as personagens, como uma série televisiva a ser produzida para o canal ABC Family e anunciada em plena San Diego Comic Con 2011, nunca saíram do papel. Por conseguinte, a única saída da sua zona de conforto mediática ocorreu quando Manto e Adaga fizeram uma participação especial na terceira temporada da série de animação Ultimate Spider-Man (em exibição desde 2012).

Manto e Adaga continuam à espera de uma oportunidade fora da BD.


27 junho 2015

GALERIA DE VILÕES: MONGUL



  Pela sua natureza brutal e implacável, o Senhor do Mundo Bélico representa uma enorme ameaça à paz intergaláctica. Inimigo jurado do Homem de Aço, em incontáveis ocasiões teve os seus planos de conquista por ele travados.

Nome original da personagem: Mongul, The Elder
Licenciadora: DC Comics
Criadores: Len Wein (história) e Jim Starlin (arte)
Primeira aparição: DC Comics Presents nº27 (novembro de 1980)
Local de nascimento:  Desconhecido
Parentes conhecidos: Mongul II (filho) e Mongal (filha falecida)
Afiliação: Mongul II foi em tempos membro da Tropa Sinestro
Base de operações: Mundo Bélico

A primeira aparição de Mongul em DC Comics Presents nº27, numa história datada de 1980 que contava ainda com a participação especial do Caçador de Marte. 

Armas, poderes e habilidades: Na sua versão primordial, introduzida ainda na Idade do Bronze dos Quadradinhos, Mongul era descrito como virtualmente invulnerável e fisicamente mais forte do que o próprio Super-Homem. Consequentemente, as derrotas do vilão às mãos do Homem de Aço eram ocasionadas pela astúcia deste último que, invariavelmente, encontrava maneira de abortar os esquemas do Senhor do Mundo Bélico. Na única vez em que o Super-Homem logrou superiorizar-se a Mongul num combate corpo a corpo, o herói kryptoniano tombou inconsciente, logo depois de o mesmo ter acontecido com o seu oponente.
  Ao seu formidável poderio físico, Mongul somava habilidades de teletransporte, vestígios de telepatia e a capacidade de disparar rajadas energéticas de elevada potência através das mãos e dos olhos. O vilão dispunha ainda de tecnologia que lhe permitia encolher os seus adversários, colocando-os de seguida em cubos de inversão dimensional. Estes sofisticados dispositivos de contenção eram concebidos para serem à prova de fugas. Para isso, os cubos distorciam a realidade percecionada pelos que neles eram aprisionados, além de absorverem quaisquer poderes usados no seu interior.
  Na sua versão moderna, retocada no pós-Crise, Mongul começou por aparentar ser ligeiramente menos poderoso do que o seu predecessor. Ideia desfeita quando o vilão derrotou alguns pesos-pesados do Universo DC (com a Mulher-Maravilha à cabeça) e chacinou diversos elementos da Tropa Sinestro com o intuito de os expropriar dos seus anéis energéticos.
  Exímio estratega e proficiente em múltiplas artes marciais, Mongul tem, contudo, no Mundo Bélico a sua mais temível arma. Trata-se de um gigantesco satélite artificial móvel criado muito tempo atrás por uma raça de conquistadores espaciais chamados Warzoons. Apetrechado com um vasto arsenal que incluí canhões laser e mísseis termonucleares, o Mundo Bélico dispõe de poder de fogo suficiente para pulverizar um planetoide.

O Mundo Bélico (qualquer semelhança com a Estrela da Morte da saga Guerra das Estrelas será decerto mera coincidência).
   

Biografia: Apesar dos créditos pela criação da personagem serem frequentemente imputados apenas a Jim Starlin, Mongul foi, na verdade, uma conceção do escritor Len Wein. Questionado sobre este facto no decurso de uma entrevista à The Krypton Companion, Lein  foi perentório: "Bem, Starlin foi o autor dos esboços, mas o conceito foi desenvolvido por mim". Acrescentando ainda: "A ideia era criar um vilão que pudesse igualar ou até suplantar o poderio físico do Super-Homem".
 Com efeito, foi nesses termos que o vilão alienígena foi descrito na sua estreia em DC Comics Presents nº27. Mongul era o regente tirânico do Mundo Bélico, um colossal satélite artificial que percorria a galáxia em busca de escravos que pudessem ser usados como gladiadores em arenas mortíferas. 

Len Wein reclama a paternidade de Mongul.

  Depois de uma das suas naves esclavagistas capturar o Homem de Aço, Mongul promoveu um combate entre o herói e Draaga, um seu rival que cobiçava o trono do Mundo Bélico. Quando o Super-Homem se recusou a tirar a vida ao seu adversário, Mongul resolveu travar ele próprio um combate com o kryptoniano. Que foi salvo in extremis de uma morte brutal pela intervenção do Clérigo. 
  À medida que os súbditos de Mongul se começaram a revoltar contra a sua tirania, o vilão foi sobrepujado por Draaga e viu o trono do Mundo Bélico ser usurpado por ele. Por entre um arrazoado de juras de vingança, o tirano apeado fugiu do planeta.

Figurino clássico de Mongul.

  Na posse de uma reduzida parcela da tecnologia do Mundo Bélico e acolitado somente por algumas dezenas de esbirros, Mongul conseguiu conquistar um pequeno planeta onde se exilara. Foi nele que seria casualmente encontrado pelo Supercyborg (um dos quatro falsos Super-Homens que reclamaram o  legado do herói após a sua a morte às mãos de Apocalypse). Reconhecendo o seu ódio mútuo pelo Último Filho de Krypton, o impostor cibernético propôs uma aliança a Mongul.
  Em troca da sua lealdade, o Supercyborg ofereceu a Mongul um novo Mundo Bélico para governar. Perante a recusa do orgulhoso alienígena em ser seu subalterno, o Supercyborg obrigou-o à força a participar no seu esquema..
  A bordo de uma gigantesca nave espacial, Mongul rumou então à Terra, tendo como alvo Coast City. Com a cidade na mira, o vilão lançou um ataque massivo que a obliterou, assim como a quase totalidade dos seus habitantes. 
  De seguida, a nave expeliu centenas de milhares de nanitas que, em poucos minutos, construíram um colossal motor para servir aos intentos do Supercyborg. Mongul, entretanto, esperava pelo momento certo para trair o seu amo. O qual se proporcionaria após um ataque fracassado a Metrópolis com mísseis e a subsequente retaliação levada a cabo pelo verdadeiro Super-Homem (regressado entretanto dos mortos),  secundado por Superboy e Aço (dois outros émulos do herói kryptoniano).

O Supercyborg obrigou Mongul a participar no seu infame esquema.

  O referido ataque a Metróplis tinha como objetivo sentenciar a cidade a idêntico destino ao sofrido por Coast City, para lá instalar um segundo motor  que transformaria a Terra e seus habitantes numa nova versão do Mundo Bélico. Caso fosse acionado o único motor construído, o planeta sairia da sua órbita e despedaçar-se-ia. E foi justamente isso que Mongul ordenou aos seus asseclas que fizessem.
  Ao consciencializarem-se das funestas intenções do vilão, o Super-Homem (praticamente sem poderes) e a Supergirl tentaram travá-lo. Os seus esforços resultaram, porém, infrutíferos, tendo ambos sido prontamente subjugados por Mongul.
 Simultaneamente, Aço confrontou o Supercyborg numa desesperada - e bem-sucedida - tentativa de impedir o acionamento do motor. Ciente da traição de Mongul e do iminente fracasso dos seus planos, o Supercyborg permitiu o acesso do Lanterna Verde Hal Jordan ao motor, vendo nele um veículo de fuga. 
  As coisas, porém, não correram como previsto: enraivecido pela destruição da sua cidade e pelo extermínio dos seus cidadãos, o Lanterna Verde investiu violentamente contra Mongul. Apesar de a pele amarela do alienígena anular os poderes do anel energético de Hal Jordan, este conseguiu ainda assim derrotá-lo e encarcerá-lo. Logo depois, foi a vez de o Supercyborg ser neutralizado pelo Super-Homem.

Além do Super-Homem, Mongul tem também um longo historial de confrontos com Lanternas Verdes.

 Transportado para uma prisão de máxima segurança especificamente concebida para albergar meta-humanos, Mongul revelou-se, porém, um recluso difícil de conter. Durante um motim, o vilão conseguiu evadir-se e, sedento de vingança, rumou à Costa Oeste dos EUA.
  Indiferente ao facto de Hal Jordan - o humano que o humilhou - já não ser o Lanterna Verde responsável pela proteção do nosso mundo,  envolveu-se numa feroz batalha com Kyle Rainer (o sucessor de Jordan). Foi, no entanto, apanhado de surpresa pelo facto de o anel energético do novo Lanterna Verde o conseguir ferir. Com a ajuda do Super-Homem, Kyle Rainer conseguiu conter o vilão e levá-lo de volta ao cárcere de onde escapara.
  Algum tempo depois, quando voltou a conseguir evadir-se, Mongul resolveu abandonar de vez a Terra, tendo sido, todavia, impedido pelo Flash de o fazer.
  Confinado no nosso planeta, Mongul marinou o seu ódio aos seus carcereiros até ser aliciado pelo demónio Neron que, a troco da sua alma, se prontificava a amplificar-lhe os seus poderes (eventos ocorridos na saga A Vingança do Submundo, publicada em 1995 pela Abril brasileira). Vendo nisso uma assunção do seu fracasso, o ex-soberano do Mundo Bélico declinou a oferta de Neron e ameaçou matá-lo. Foi, no entanto, Mongul quem acabou morto às mãos do demónio, que aproveitou o ensejo para lhe subtrair a alma.
  Facto que, contudo, não ditou o fim do legado maligno de Mongul. O seu filho, Mongul II, deu-lhe continuidade, tornando o Universo um lugar menos seguro.

Nota final: Não obstante Mongul ter sido introduzido na cronologia da DC anterior a Crise Nas Infinitas Terras, a sua existência não foi apagada da nova realidade resultante dos eventos nela retratados. Alguns elementos referentes à história da personagem no período pré-Crise foram, porém, alterados ou suprimidos, pelo que deverão ser considerados apócrifos. 

São sempre renhidos os combates entre o Homem de Aço e o Senhor do Mundo Bélico.
   
Noutros media: Na lista dos cem melhores vilões dos quadradinhos de todos os tempos, divulgada em 2009 no site IGN, Mongul quedou-se no 41º lugar. A sua estreia fora da banda desenhada ocorreu em 2001, na série de animação Justice League. Marcaria igualmente presença na sua sucessora, Justice League Unlimited (2004-2006). Em ambas as produções o ator Eric Roberts emprestou a voz ao déspota do Mundo Bélico.
  Em 2008, Mongul II participou no episódio inaugural de Batman: The Brave and the Bold. Dois anos depois, a versão original da personagem voltaria a dar um ar da sua graça em Young Justice.
   Pelo meio, em 2009, Mongul foi o principal antagonista do Homem de Aço e do Cavaleiro das Trevas no filme de animação Superman/Batman: Public Enemies (lançado apenas em DVD).

Tirania personificada.