04 fevereiro 2021

HERÓIS EM AÇÃO: SOCIEDADE DA JUSTIÇA DA AMÉRICA


   A história da primeira equipa de super-heróis - aliança de velhas glórias da Idade de Ouro - confunde-se com a da própria DC. Tantas vezes arrastado pelo inelutável caudal de uma continuidade convulsa, o seu legado mantém-se teimosamente à tona na memória coletiva.

Denominação original: Justice Society of America
Editora: DC
Criadores: Sheldon Mayer e Gardner Fox
Estreia: All-Star Comics #3 (dezembro de 1940)
Local de formação: Casa Branca, Washington D.C.
Membros fundadores: Lanterna Verde (Alan Scott), Flash (Jay Garrick), Homem-Hora (Rex Tyler), Senhor Destino (Kent Nelson), Átomo (Albert Pratt), Gavião Negro (Carter Hall), Espectro (Jim Corrigan) e Sandman (Wesley Dodds)
Base operacional: Civic City, um subúrbio de Filadélfia, foi o primeiro quartel-general da equipa, sediada desde o pós-Crise num discreto edifício de arenito no centro da Nova Iorque da Terra-2.
Némesis: Sociedade da Injustiça

Cavaleiros da Távola Redonda

Qual figuração moderna dos Cavaleiros da Távola Redonda, a Sociedade da Justiça da América (SJA) vem combatendo o Mal nas suas diferentes formas desde 1940, ano em que inaugurou uma nova e bem sucedida tendência. Foi ela, com efeito, a primeira equipa de super-heróis da história dos comics, pavimentando o caminho para uma multidão de epígonos.
De tão inextricavelmente ligada à fundação da DC, a origem da SJA confunde-se com a da própria editora que a apadrinhou. Tudo começou em 1939, quando o proprietário da National Comics, Harry Donenfeld, se associou ao pioneiro da indústria dos quadradinhos Max Gaines para formar uma empresa irmã chamada All-American Publications. A despeito do seu estatuto de subsidiária, a nova companhia disporia de ampla autonomia editorial, bem como do seu próprio acervo de personagens.
Ao cabo do primeiro ano de existência, no inventário da All-American Publications pontificavam ativos tão valiosos como Flash, Lanterna Verde ou Gavião Negro. Todos eles desfilavam o seu heroísmo pelas páginas de All-American Comics, título antológico que serviria de inspiração ao lançamento de All-Star Comics, em junho de 1940.
A proposta editorial de All-Star Comics consistia inicialmente em reunir numa mesma revista os heróis mais populares das duas empresas que, pouco tempo depois, se fundiriam para dar origem à DC. Um almanaque pejado de justiceiro fantasiados representava, por si só, uma novidade, logo replicada pela concorrência. Nos meses seguintes, a MLJ (subsidiária da Archie Comics) apostaria forte em Jackpot Comics, ao passo que a Timely (antepassada da Marvel) brindaria os leitores com All-Winners Comics.
A verdadeira inovação chegaria, porém com o terceiro número de All-Star Comics, datado de dezembro de 1940. Por sugestão de Sheldon Mayer, editor-chefe da All-American Publications, os habitués da série foram, pela primeira vez, reunidos numa mesma história. Assinada por Gardner Fox, nela participaram dois representantes de cada uma das quatro antologias então publicadas pela National e pela All-American: Flash & Gavião Negro (Flash Comics), Átomo & Lanterna Verde (All-American Comics), Senhor Destino & Espectro (More Fun Comics) e ainda Homem-Hora & Sandman (Adventure Comics). Oito titãs da justiça que nunca antes haviam trabalhado juntos. Mas isso estava prestes a mudar.  

O ato fundador da SJA teve lugar em All-Star Comics #3 (1940).

Desse primeiro conclave informal resultou a formação da Sociedade da Justiça da América. À falta de um inimigo comum que justificasse a união de esforços, os heróis, sentados a uma mesa de restaurante(!), limitaram-se a compartilhar entre si algumas das suas maiores façanhas. Extasiados, os leitores ficaram no entanto sem saber o que motivara aquela inusitada reunião. Com efeito, conforme se perceberá na segunda parte deste artigo, só três décadas mais tarde seria revelada a origem oficial do grupo. 
Conscientes de que haviam tropeçado numa mina de ouro, a National e a All-American apressaram-se a alterar a periodicidade de All-Star Comics de trimestral para bimestral. Ao invés de apenas revisitarem os seus feitos individuais, os heróis passaram, também, a operar como um verdadeiro coletivo. 
Nas suas primícias, All-Star Comics apresentava aventuras a solo de vários heróis (frequentemente desenhados pelas seus equipas criativas regulares), culminando com a reunião da SJA contra um inimigo comum na ponta final de cada história. Com uma extensão até 58 páginas, os contos de recorte épico enlevavam os leitores, aparentemente indiferentes à arte tosca e às muitas inconsistências cronológicas (à época, continuidade era mera abstração).
Ao elenco estelífero da SJA começou por presidir o Flash, mas o seu mandato seria curto. Devido às suas obrigações como defensor de Keystone City, o Velocista Carmesim viu-se obrigado, logo em All-Star-Comics #7, a renunciar à liderança da recém-fundada equipa. Em boa verdade, o motivo para essa circunstância foi outro. Flash acabara de ganhar a sua própria série mensal, prerrogativa que ditou a sua inapelável expulsão da antologia.

Flash foi o primeiro líder da SJA.

Com o tempo, All-Star Comics passara a ter como objetivo primordial a promoção de personagens de segunda linha. Em razão dele, qualquer herói que protagonizasse a sua própria série seria considerado inelegível para participar na antologia. De modo a prevenir os perigos subjacentes à sobre-exposição, era pois esse o principal critério de admissão na SJA. O mesmo que explica a atribuição do estatuto de membros honorários ao Super-Homem e ao Batman, reduzidos a participações esporádicas nas histórias do grupo. 
No entanto, a recíproca também era aplicável: se uma personagem perdia destaque noutra série era prontamente desfiliada da SJA. A primeira vítima dessa regra foi o Homem-Hora, após ter tido o respetivo segmento cancelado em Adventure Comics.
Após a saída forçada do Flash, a SJA seria brevemente capitaneada pelo Lanterna Verde. Cujo mandato seria ainda mais curto do que o do antecessor, ao ser-lhe, logo em seguida, atribuída uma série epónima. Sucedeu-lhe então o Gavião Negro, que lideraria a equipa até ao cancelamento de All-Star Comics, no início de 1951.
Desfalcada de dois dos seus membros mais proeminentes, a SJA admitiria logo depois nas suas fileiras Johnny Trovoada (até então uma espécie de mascote da equipa) e Starman (Ted Knight), em quem os editores depositavam grandes esperanças. Menores, ainda assim, do que aquelas que depositavam na Mulher-Maravilha, cuja estreia ocorreu em All-Star Comics #8 (dezembro de 1941). Em nome da diversidade, Diana juntar-se-ia à equipa quatro números depois, mas como sua secretária(!). Uma indignidade para a Princesa Amazona, que deixaria qualquer feminista moderna de cabelos em pé. No entanto, eram os anos 1940 e a descrição de funções da novata incluía, por exemplo, a redação das atas das reuniões da SJA.

A Mulher-Maravilha rejubila com a sua "promoção" a secretária da SJA.

Em consequência da entrada dos EUA na Segunda Guerra Mundial, a SJA foi temporariamente transformada numa força-tarefa especial denominada Batalhão da Justiça, que tinha por missão combater as forças do Eixo ao lado do Exército americano. Durante essa fase, a equipa recrutou dois novos membros: Senhor Incrível (Terry Sloane) e Pantera (Ted Grant). Apesar de a participação de ambos se ter resumido a All-Star Comics #24, histórias posteriores estabelecê-los-iam como integrantes mais ativos. Quem também em, diversas ocasiões, colaborou com a SJA sem, contudo, ter sido oficialmente admitida no grupo foi a Mulher-Gavião - essencialmente devido à sua parceria heroica e amorosa com o Gavião Negro.
No final de 1944, coincidindo com o auge de All-Star Comics, Max Gaines dissolveu inopinadamente a sua sociedade com Harry Donenfeld. Decisão tomada no rescaldo de uma querela entre ambos motivada pela entrada de Jack Liebowitz (o contabilista da National Comics) no Conselho de Administração da All-American Publications. Consequentemente, Espectro e Starman, ambos detidos pela National, foram expulsos da SJA. Castigo idêntico àquele que já havia sido aplicado a Sandman e Senhor Destino, após o cancelamento dos respetivos títulos a solo. 
Quando a poeira assentou, Gaines vendeu a Donenfeld a sua participação na All-American Publications, e esta foi formalmente fundida com a National, dando origem à neófita Detective Comics. Surpreendentemente, o elenco da SJA continuou a ser composto na totalidade por heróis da All-American.
Indiferente a tudo isto, o grupo continuava a medir forças com alguns dos mais formidáveis vilões da Idade de Ouro. De Vandal Savage a Solomon Grundy, passando pelo Pirata Psíquico, eram muitos os adversários que punham à prova as capacidades da SJA. Seguindo o velho mantra "A união faz a força.", alguns desses supervilões formariam entretanto a Sociedade da Injustiça, depressa elevada a némesis da SJA.

A Sociedade da Injustiça reunia alguns dos mais poderosos vilões da Idade de Ouro.

Com os regressados Flash e Lanterna Verde e a arte aprimorada de uma nova leva de talentosos desenhadores encabeçada, entre outros, por Alex Toth e Andy Kubert, All-Star Comics escapou à primeira onda de cancelamentos determinada pela perda de tração do género super-heroico no pós-guerra. Em 1947, quando esse declínio era já uma evidência solar, a SJA daria as boas-vindas à sua segunda integrante feminina. Canário Negro juntou-se à equipa em All-Star Comics #38, preenchendo a última vaga no elenco clássico.
Quando, em 1949, a DC cancelou praticamente toda a sua linha de super-heróis, à razia foram somente poupados os títulos solo da Trindade e All-Star Comics. Foi nele que as personagens antes queridas da All-American se entrincheiraram para resistir às investidas do oblívio. Mas o melhor que conseguiram foi adiar o inevitável.
Sem pompa nem circunstância, a SJA fez a sua última aparição na Idade de Ouro em All-Star Comics #57 (março de 1951). Na edição seguinte, a série foi renomeada All-Star Western, assinalando o fim de uma era. E o início do longo purgatório da Sociedade da Justiça da América.

Regresso ao futuro

Contrastando com a miríade de super-heróis relegados ao ostracismo nos anos terminais da Idade de Ouro, após a sua saída de circulação a SJA converteu-se num fenómeno de culto entre os fãs. Mesmo longe da vista, o grupo manteve-se, assim, perto do coração do público.
Na segunda metade da década de 1950, quando a DC começou a apresentar versões modernas de algumas das suas velhas glórias, a SJA inspirou a criação da sua sucessora espiritual da Idade de Prata: a Liga da Justiça da América.
Para explicar a (co)existência de dois Flashes, dois Lanternas Verdes, dois Gaviões Negros, etc., a DC inventou outras tantas realidade paralelas. Ficando desse modo estabelecido que os integrantes da SJA e demais heróis clássicos eram, na verdade, originários, da Terra-2, servindo a Terra-1 de lar aos seus congéneres contemporâneos. Um jogo de espelhos geracional que lançou as bases do complexo Multiverso da Editora das Lendas.
Em 1963, o intenso clamor dos fãs pelo regresso da SJA motivou Julius Schwartz (à época, editor da Liga da Justiça) a produzir um crossover entre as duas equipas. Perante a reação entusiástica dos leitores, Schwartz resolveu transformar o evento numa tradição anual, apenas interrompida em 1985 pelos efeitos disruptivos da  Crise nas Infinitas Terras.

O primeiro encontro SJA/LJA ocorreu em Justice League of America #21-22 (1963).

Essa renovada onda de afeição pela SJA culminaria em 1976 com a revivificação de All-Star Comics retomando a sua numeração original, um quarto de século após a chegada da última edição às bancas.
A nova vida de All-Star Comics não foi, contudo, um mero exercício nostálgico a pensar nos leitores da velha guarda. Recém-contratado à Marvel, o escritor Gerry Conway encarregou-se de injetar sangue fresco na série.
Nos seus últimos anos de atividade, a SJA, já curada da sua misoginia, funcionara como monstra para as suas integrantes femininas. Tanto a Mulher-Maravilha como a Canário Negro vinham ganhando cada vez maior preponderância no grupo. Dentro do mesmo espírito, a SJA admitiu duas novas heroínas: Caçadora e Poderosa (respetivamente, a filha do Batman e da Mulher-Gato e a versão madura da Supergirl, ambas da Terra-2). Nem o poder combinado da SJA evitou, porém, o cancelamento de All-Star Comics. Cujo número 78, dado à estampa em outubro de 1978, sinalizou a segunda morte desse histórico título da DC.

O último número de All-Star Comics.

Concebida como a solução final para a convulsa continuidade da DC, em 1985 a saga Crise nas Infinitas Terras implodiu o Multiverso. Dada a existência de uma única Terra, os editores, prevenindo novas incongruências cronológicas, entenderam por bem desembaraçar-se de vez da SJA. Com o seu desaparecimento a ser explicado através da recriação do mito de Sísifo. 
Numa desesperada tentativa para inverter o rumo do conflito, nos últimos dias da Segunda Guerra Mundial Adolf Hitler pusera em marcha o Ragnarok, equivalente do Apocalipse na mitologia nórdica. Para travá-lo, Espectro e Senhor Destino transportaram a SJA para o Limbo, onde o grupo enfrentou e derrotou os deuses antigos. No entanto, sempre que o faziam a batalha recomeçava. À semelhança do ordálio de Sísifo, a SJA viu-se obrigada a combater os mesmos inimigos até ao fim dos tempos.
Objeto de sucessivos revivalismos ao longo de toda a década de 1990, sob a forma de séries e minisséries, a SJA teve finalmente a sua origem revelada em Secret Origins Vol.2 #31. Saída da pena de Roy Thomas (que, desde a infância, idolatrava o grupo), a história mostrava como, em finais de 1940, o Presidente Franklin D. Roosevelt, contornando o isolacionismo americano imposto pelo Congresso, recrutara um contingente de justiceiros fantasiados para colaborarem secretamente com os aliados europeus que resistiam como podiam ao ímpeto conquistador do III Reich. Findo o conflito, a SJA mantivera-se ativa no combate ao crime e à corrupção.
Num outro retcon foi igualmente aduzida a verdadeira razão para a saída de cena da SJA. Intimados, em 1951, a depor perante o Comité de Atividades Antiamericanas presidido pelo senador republicano Joseph McCarthy, os seus membros recusaram revelar as suas identidades civis, preferindo a reforma antecipada e uma velhice tranquila.

A SJA desafia o todo-poderoso Comité de Atividades Antiamericanas.

No contexto dos Novos 52, o último evento redefinidor do Universo DC, diversas personagens da Idade de Ouro foram reimaginadas por forma a torná-las apelativas para as novas gerações. Cinco anos após a morte da Trindade às mãos do Lobo da Estepe, o poderoso general de Darkseid, a Terra-2 testemunhou o alvorecer de uma nova era heroica. Flash (agora adolescente), Lanterna Verde (agora homossexual), Senhor Incrível (agora negro) e outras maravilhas uniram forças para repelir nova invasão massiva das hordas de Apokolips. Apesar de o espírito ser o mesmo, o grupo não reclamou para si o legado nominal da Sociedade da Justiça da América. Aquele que, em 2010, marcou presença em dois episódios da 9ª temporada de Smallville e que, por estes dias, desempenha papel central na série Stargirl. Neste seu regresso ao futuro pelas estradas digitais do terceiro milénio, a SJA terá ainda oportunidade de brilhar no vindouro filme do Adão Negro. 
À luz dos padrões contemporâneos, os heróis da Idade de Ouro parecem demasiado simplistas, mas personificavam uma visão esperançosa e moralizadora do mundo, bastante revigorante neste século XXI sob o signo do relativismo. Nas suas diferentes encarnações, a SJA provou ser notavelmente resistente às ondas de revisionismo e cinismo que, de tempos a tempos, varrem a indústria dos comics. Em vários aspetos, estas reminiscências da Idade de Ouro representam o passado da DC (e, por extensão, de toda uma subcultura), e por mais que a empresa tente matá-las ou apagar o seu lastro histórico, elas aí estão para enriquecer novas gerações de leitores. Porque não existe futuro despido de passado e porque certos valores, tal como os heróis que os representam, nunca saem de moda.

Heróis de ontem, hoje e amanhã.



*Este blogue tem como Guia de Estilo o Acordo Ortográfico de 1990 aplicado à norma europeia da Língua Portuguesa.
* Artigos sobre Gardner Fox, Gavião Negro, Lanterna Verde, Vandal Savage, Roy Thomas e Crise nas Infinitas Terras disponíveis para leitura complementar.



























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07 janeiro 2021

ETERNOS: SY BARRY (1928 - ...)

Sy  Barry é uma lenda vida da 9ª Arte, uma inspiração para artistas de diferentes gerações e um dos últimos detentores da memória descritiva da Idade de Ouro dos comics. No decurso da sua vetusta carreira, produziu mais de 11 mil tiras do Fantasma lidas diariamente por milhões de pessoas nos quatro cantos do mundo. Parceiro criativo de Lee Falk, inúmeras histórias por ele ilustradas converteram-se em clássicos e ainda hoje são reimpressas. Em 1994, deixou um sentimento de orfandade nos fãs do Espírito-Que-anda ao abandonar a personagem a quem emprestara o traço durante mais de três décadas. 

Mesmo após tanto tempo, a sua popularidade segue em alta e a sua obra continua a ser reverenciada. Em 2005, foi galardoado com um Inkpot Award, prémio que anualmente distingue as personalidades mais influentes da cultura popular. Para os leitores mais recentes, porém, não passa de um ilustre desconhecido. Importa, por isso, dar a conhecer um pouco melhor o homem que, tal como o Espírito-Que-Anda, nasceu predestinado à imortalidade. 

Seymour "Sy" Barry veio ao mundo a 12 de março de 1928 em Nova Iorque, cidade onde passou praticamente toda a vida e onde continua a residir. Irmão mais novo de Dan Barry, artista consagrado pelo trabalho desenvolvido nas tiras diárias de Flash Gordon na década de 1950, o pequeno Sy tinha no lápis uma espécie de extensão da sua mão direita. Tanto assim que afirma não guardar memória de uma ocasião em que não estivesse a rabiscar um esboço. Com efeito, foi ainda nos tempos de meninice que o seu talento atraiu as primeiras atenções e louvores.

Quando várias escolas primárias da Grande Maçã organizaram um concurso artístico, Sy resolveu submeter um dos seus desenhos à apreciação do júri. O desenho em questão não só arrebatou o primeiro prémio como teve o privilégio de ficar em exposição, durante largas semanas, no Museu de Arte de Nova Iorque. 

No liceu, o talento inato de Sy também não passou despercebido. Um dos seus professores incentivou-o a tentar a admissão na School of Industrial Art de Nova Iorque. Sy tentou a sua sorte e fez parte do restrito lote de eleitos entre milhares de candidatos rejeitados. Corria o ano da graça de 1943 e foi nessa mui prestigiada instituição que Sy cunhou amizade para a vida com outros artistas com pedigree, como Joe Giella, Al Scaduto ou Emilio Squeglio. Representantes, todos eles, da ínclita geração de arquitetos e obreiros da Idade de Prata.

Concluídos os estudos, Sy empreendeu a sua carreira profissional como freelancer da Famous Funnies, aquela que muitos historiadores da cultura popular identificam como a primeira revista americana de banda desenhada. Nos anos imediatos, faria praticamente o pleno das principais editoras da época: Lev Gleason, Hillman Publications, Timely Comics e National Comics (estas últimas, antepassadas da Marvel e da DC, respetivamente). 

Famous Funnies acolheu os primeiros trabalhos profissionais de Sy Barry.

Em virtude dos modestos salários praticados pelas editoras, Sy, seguindo o exemplo de tantos outros oficiais do mesmo ofício, apostou na diversificação do seu portfólio. Nesse sentido, ao seu significativo aporte para o desenvolvimento da indústria dos comics somou colaborações em obras de literatura infantil e panfletos publicitários. Durante essa fase inicial da sua carreira, teve o privilégio de trabalhar com outros futuros mestres da Arte Sequencial, como Alex Toth (criador de Space Ghost), Frank Giacola (arte-finalista de Jack Kirby) ou André LeBlanc (seu futuro assistente nas tiras do Fantasma). Relações profissionais invariavelmente pautadas pela admiração mútua e que, não raro, estiveram na origem de boas amizades. 

Pouco tempo depois, Sy passaria a arte-finalizar os esboços do seu irmão nas tiras de Flash Gordon. Ainda que não tenha sido devidamente creditado, chegou mesmo a desenhar algumas histórias enquanto Dan esteve ausente na Europa. Cada vez mais requisitado, assumiu também a arte das tiras diárias do Super-Homem e do Batman, bem como de títulos emblemáticos como Action Comics (onde, em 1938, o Homem de Aço fizera a sua estreia). De histórias românticas a contos policiais, foram vários os géneros pelos quais transitou ao longo dessa sua primeira fase seminal.

Tira dominical colorida de Flash Gordon produzida pelos irmãos Dan e Sy Barry.


Em 1957, quando os afroamericanos ensaiavam os primeiros passos na sua tortuosa marcha pelos direitos civis, Sy Barry foi o artista escolhido para desenhar Martin Luther King and the Montgomery Story. Uma banda desenhada que era, simultaneamente, um manifesto político e um guia para ações de desobediência civil. Além de revisitar o boicote aos autocarros organizado, entre 1955 e 1956, pela população negra da cidade de Montgomery (Alabama) em protesto contra as leis segregacionistas, a obra incluía também uma pequena biografia de Martin Luther King. Com uma tiragem de 375 mil exemplares (um terço dos quais em espanhol), a revista foi distribuída em escolas e congregações frequentadas por afroamericanos e foi instrumento essencial para a propagação do evangelho igualitário do reverendo idealista que sonhava com uma sociedade pós-racial. Anos mais tarde, Sy declarou que esse trabalho serviu para aperfeiçoar a sua habilidade de desenhar negros, que tão útil lhe seria nas histórias do Fantasma.

A obra que associou o nome de Sy Barry à luta pelos direitos civis.

Apesar de a assinatura de Sy Barry figurar na capa da primeira edição de Martin Luther King and the Montgomery Story, em edições posteriores ela seria coberta por uma caixa de texto. Em razão disso, a identidade do desenhador foi, durante muito tempo, objeto de controvérsia e especulação. Até que, em 2008, Sy Barry confirmou ser ele - e não o irmão, como alguns suspeitavam - o legítimo dono do traço. Em 2018, um dos painéis da obra seria incluído na lista das cem páginas mais marcantes da história da banda desenhada divulgada pela revista Vulture. 

Sempre sob a asa do seu irmão mais velho, Sy logo passaria também a assisti-lo na tira de Tarzan. Apesar de enternecedora e profícua, a parceria entre os manos Barry tinha os dias contados. 

Quando, em 1961, Wilson McCoy sucumbiu a um fulminante ataque cardíaco, a King Features Syndicate apressou-se a encontrar novo artista para as tiras do Fantasma. A escolha inicial incidiu sobre Bill Lignate, mas o seu traço desagradava a Lee Falk. Cedendo às pressões do criador do Espírito-Que-Anda, a King Features despachou Lignate e lançou um concurso para escolher o sucessor de McCoy. Sy inscreveu-se e foi o escolhido para ilustrar aquela que era então a tira mais popular a nível global. 

Iniciava-se, assim, uma ligação de 33 anos, que faria de Sy Barry o recordista de longevidade nas histórias do Fantasma. Nenhum outro artista lhe emprestou o traço durante tanto tempo. E nenhum teve tanta influência na evolução da personagem.

Desde o início, Sy teve como principal preocupação a modernização da tira, que começava a acusar algum anquilosamento. Nesse sentido, persuadiu Lee Falk a modificar alguns elementos anacrónicos presentes no imaginário do Fantasma. No que pode ser percecionado como uma prefiguração da África pós-colonial, Bangalla (agora uma nação soberana) ganhou um presidente negro (Lamanda Luaga) e a Patrulha da Selva deixou de ter um comandante branco (o tradicional coronel Weeks foi rendido no posto pelo coronel Worubu). Apenas dois das dezenas de novos coadjuvantes que, no rolar das décadas, Sy Barry ajudaria a criar, enriquecendo ainda mais a mitologia do Espírito-Que-Anda.

Lamanda Luaga, o primeiro presidente negro de Bangalla.

Tal como os leitores, Lee Falk depressa ficou rendido ao trabalho de Sy Barry. Os seus traços sofisticados evidenciavam interpretações simplificadas e eram uma síntese harmoniosa das refinadas técnicas de Wilson McCoy com o estilo elegante do próprio Sy em Flash Gordon. Com o passar do tempo, este último acabaria por prevalecer, embora em permanente evolução. Sy chegou mesmo a utilizar referências fotográficas retiradas da revista National Geographic para imprimir um toque de maior realismo às paisagens da selva. Que, no entanto, deixou ser o único habitat do Espírito-Que-Anda.

Sob o traço de Sy Barry, a tira do Fantasma ganhou novo fôlego.

Retirar com maior frequência o Fantasma da Floresta Negra transplantando-o para a selva de betão foi outra das inovações introduzidas por Sy Barry. O seu contributo foi igualmente decisivo para o estabelecimento do visual definitivo do herói. Em 1972, essa modernização plástica traduziu-se num novo modelo de máscara que se tornou icónico: mais pequena e no formato de dois triângulos invertidos verticalmente. 

Dono de um traço expressivo e dinâmico, o estilo de Sy Barry possuía outros pontos de interesse. O intrincado sombreado da misteriosa presença do Fantasma ao fundo dos painéis ou a aglomeração imaginária de crânios flutuantes são alguns dos exemplos mais memoráveis. Quando o Espírito-Que-Anda visitava ruínas, cada folha, pedra ou sombra era meticulosamente desenhada até ao mais ínfimo pormenor. De igual modo, as simplificadas, porém elegantes, poses do Fantasma de Sy Barry serviram de referência visual a outros artistas. Também Billy Zane se inspirou nelas para a sua interpretação do herói na longa-metragem epónima de 1996.



Sy Barry é considerado o artista definitivo do Fantasma.

No auge da sua popularidade, por volta de 1966, as tiras do Fantasma, publicadas em jornais e revistas,  eram lidas diariamente por mais de 100 milhões de pessoas em todo o mundo. Muitas dessas histórias são ainda incluídas em volumes antológicos editados em países como Índia, Suécia ou Austrália. Pela mão de Sy Barry, o Espírito-Que-Anda tornou-se um fenómeno global. 

Apesar de ter sido sob o incansável lápis de Sy Barry que o Fantasma viveu os seus anos de maior esplendor, a verdade é que muitas dessas histórias foram na verdade desenhadas por um contingente de "artistas-fantasmas". Neal Adams, Fred Fredricks, André LeBlanc e George Olensen (o mais frequente) foram alguns dos desenhistas cujos esboços foram finalizados por Sy. Era ela no entanto quem definia os cenários, as angulações e demais elementos necessários para a execução gráfica da narrativa. Foi esse o expediente encontrado por Sy para fazer face aos prazos apertados (apontados, de resto, como a principal razão para a sua algo precoce saída de cena). 

Interessado em abraçar novos projetos e em passar mais tempo na companhia da família e amigos, Sy Barry abandonou a tira do Fantasma em 1994. Atualmente com 92 anos, desfruta do inverno da vida no remanso de Long Island (Nova Iorque) na companhia da esposa, ocupando a maior parte do seu tempo a aperfeiçoar as suas técnicas de pintura. Especializou-se em desenhar retratos e paisagens misturando óleo, acrílico e aguarelas. Mas o Fantasma paira ainda sobre os seus dias. 

Nos últimos anos, foram vários os esboços de Sy que serviram de capa a edições do Fantasma publicadas em diferentes pontos do globo. Foi o caso, por exemplo, da capa do número inaugural de The Phantom: Ghost Who Walks, série mensal lançada em março de 2009 pela Moonstone.

Sy Barry assinou uma das capas de The Phantom: Ghost Who Walks #1.

Sy conserva também gratas memórias dos seus encontros com fãs. Em 2001, durante a sua digressão pela Escandinávia (onde o Fantasma é um totem da cultura popular), foi recebido como uma estrela de rock. Sempre humilde e afável, apesar do seu estatuto de aristocrata da 9ª Arte, Sy retribui o carinho dos seus admiradores marcando presença em jantares e convenções anuais, onde tem por hábito presenteá-los com desenhos a lápis da sua autoria. Verdadeiros tesouros sem preço para qualquer amante da banda desenhada.

Revisitar a exuberante obra de Sy Barry, o último dos grandes mestres da Arte Sequencial, é pois um revigorante passeio pelas alamedas da memória com a encantatória presença do Espírito-Que-Anda pressentida a cada passo.

Sy Barry mantém uma relação próxima com os fãs.


*Este blogue tem como Guia de Estilo o Acordo Ortográfico de 1990 aplicado à norma europeia da língua portuguesa.

*Artigos sobre Lee Falk e o filme do Fantasma disponíveis para leitura complementar.















 





















03 dezembro 2020

HERÓIS EM AÇÃO: DEMOLIDOR


  Noite após noite, a cidade profana é velada pelo seu Diabo da Guarda. Aquele a quem os ímpios temem e os deserdados clamam por justiça cega. O tipo de justiça que somente um homem sem medo pode servir.

Denominação original: Daredevil
Editora: Marvel Comics
Criadores: Stan Lee (história) e Bill Everett (arte conceptual)
Estreia: Daredevil #1 (fevereiro de 1964)
Identidade civil: Matthew Michael Murdock
Espécie: Humano mutado 
Local de nascimento: Cozinha do Inferno, Nova Iorque
Parentes conhecidos: Jonathan Murdock (pai, falecido); Margaret Murdock (mãe); Mila Donovan (ex-cônjuge)
Ocupação: Advogado, aventureiro, vigilante urbano
Base operacional: Cozinha do Inferno, Nova Iorque
Afiliações: Ex-parceiro da Viúva Negra e ex-membro dos Marvel Knights, integra atualmente os Defensores.*
Némesis: Rei do Crime

*Grupo de vigilantes urbanos ( adaptado em 2017 ao pequeno ecrã) de que também fazem parte Luke Cage, Jessica Jones e Punho de Ferro, sem qualquer ligação à pandilha homónima liderada pelo Doutor Estranho.

Poderes e parafernália: A mesma substância radioativa que roubou a visão a Matt Murdock na infância ampliou-lhe os restantes sentidos a níveis sobre-humanos e dotou-o de um novo. Similar ao sistema de ecolocalização dos morcegos, o radar interno do Demolidor permite-lhe visualizar mentalmente pessoas e objetos através da captação de sons ambientes.
Apesar das semelhanças com o sentido de aranha, o radar do Demolidor ganha na comparação com este porquanto permite antecipar as ameaças com maior antecedência. Até mesmo a materialização de teleportadores pode ser detetada antecipadamente através de subtis alterações na atmosfera envolvente.

O radar do Demolidor imita a ecolocalização dos morcegos.

Graças aos seus sentidos hiperaguçados, o Demolidor consegue, por exemplo, perceber se alguém está a mentir, devido às oscilações no respetivo ritmo cardíaco ou temperatura corporal. De tão apurado, o seu paladar permite-lhe contabilizar com precisão o número de grãos de açúcar presentes num donut.
Com uma perceção perfeita de cada objeto móvel ou imóvel ao seu redor e dono de reflexos e agilidade sem paralelo, o Demolidor, indiferente à sua cegueira, pode realizar proezas incríveis - como aparar balas com o seu bastão - ou executar acrobacias impossíveis mesmo para um ginasta de alta competição.
Treinado por aquele que é, possivelmente, o melhor sensei do mundo, o Demolidor desenvolveu um estilo de luta que combina harmoniosamente várias artes marciais, designadamente Ninjutsu, Krav Maga e Boxe. É também exímio no manejo de diferentes tipos de armas, desde facas a espingardas, passando pelo arco e flecha. Salvo em situações extremas, o seu código moral impede-o, porém, de empregar força letal contra os seus adversários.
A mente analítica de Matt Murdock aliada ao seu traquejo como advogado e profundo conhecimento das ruas fazem dele um detetive bastante competente. Igualmente eficazes são os seus métodos de interrogatório. Frequentemente baseados na coação, permitem-lhe extorquir informação mesmo dos criminosos mais renitentes.
O Demolidor é inseparável do seu bastão especial disfarçado como a bengala de cego que usa quotidianamente na sua identidade civil. Trata-se de uma arma versátil e multifuncional vocacionada tanto para manobras defensivas como ofensivas. Contém no seu interior nove metros de cabo metálico com um pequeno gancho de aço temperado na extremidade. Os mecanismos internos do bastão permitem que o cabo seja enrolado e desenrolado de forma controlada, enquanto o gancho é lançado por uma mola poderosa. Por ser extensível e desdobrável, o bastão pode ser usado como peça única ou em duas peças separadas.
Contudo, o principal "poder" do Demolidor - aquilo que verdadeiramente o diferencia de outros heróis de rua - é a sua vontade férrea e a ausência de medo. Mesmo quanto tem de arrostar oponentes mais poderosos, fá-lo sem vacilar e com um sorriso desafiador nos lábios. Tal como o seu pai costumava fazer nos ringues.

O bastão do Demolidor é uma extensão do corpo do herói.

Fraquezas: Conquanto desconhecida da generalidade dos seus inimigos e aliados, a cegueira do Demolidor constitui, indubitavelmente, a sua maior fraqueza. Devido a essa deficiência, o herói é incapaz de discernir imagens e só pode adivinhar as cores com base na quantidade de calor que  elas absorvem ou refletem.
De tão amplificados, os sentidos remanescentes do Homem Sem Medo são particularmente suscetíveis a ruídos e/ou odores excessivos. Além de extremamente dolorosos, os efeitos disruptivos de uma sobrecarga sensorial desabilitam o radar do herói, deixando-o paralisado e desorientado. Situação análoga àquela que se verifica quando tem o seu corpo imerso em água.
Dada a sua condição de simples humano, o Demolidor é tão vulnerável a lesões físicas e doenças como qualquer outra pessoa. Dentre estas últimas destaca-se o seu historial de depressões, que ciclicamente o prendem em espirais autodestrutivas. Durantes essas fases, o seu comportamento tende a tornar-se errático e impulsivo, ao ponto de fazer perigar a própria vida.

Sobrecargas sensoriais são extremamente dolorosas
 para o Homem Sem Medo. 



Justiça cega

Um dos mais antigos, torturados e carismáticos residentes da Casa das Ideias, o Demolidor chegou à meia-idade assombrado pelas dúvidas relacionadas com a sua filiação. Ainda que esta tenha sido oficialmente atribuída a Stan Lee e Bill Everett ( criador de Namor, o Príncipe Submarino), ignora-se o real contributo de Jack Kirby na conceção visual da personagem. Mas vamos por partes.
Na esteira do sucesso do Quarteto Fantástico, Homem-Aranha, X-Men e tantos outros, o Demolidor assinalou, de certa forma, o fim desse dilúvio criativo por parte dos demiurgos da Marvel. Como é sabido, a equipa-maravilha capitaneada por Lee privilegiava heróis mais humanos com os quais as pessoas comuns pudessem identificar-se mais facilmente. Em harmonia com essa filosofia, Lee idealizou um justiceiro cego cuja audácia compensava a sua deficiência. Um exemplo de superação que teria a sua força de vontade como "superpoder".
Um herói invisual não era, contudo, novidade. Em 1941, a DC apresentara o seu Doutor Meia-Noite. A grande diferença é que este consegue ver perfeitamente no escuro e nunca ficou sequer próximo dos níveis de popularidade do seu homólogo da Marvel.
Apesar desse precedente, Lee receava uma reação adversa por parte da comunidade invisual ao lançamento de um super-herói com essas características. Receio que se esfumaria quando, nas semanas imediatas à estreia da personagem, a redação da Marvel foi inundada por cartas de associações de cegos a louvar a iniciativa e a solicitar donativos para as suas causas sociais. 

Doutor Meia-Noite, o primeiro super-herói cego.

No momento de batizar o neófito, Lee tomou emprestado o nome de um antigo conceito da Lev Gleason relegado para o domínio público desde o final da Idade de Ouro: Daredevil.
Diabo Destemido numa tradução literal, "daredevil" é um termo da gíria americana vulgarmente utilizado para designar acrobatas, duplos, pilotos de corridas ou qualquer indivíduo que ultrapassa as barreiras do senso comum para alcançar feitos únicos. Com o tempo tornou-se, também, sinónimo de "corajoso" ou "audaz". Porém, quando, em 1968, a EBAL adquiriu os direitos de publicação do herói em terras de Vera Cruz, crismou-o de Demolidor. Apesar de canhestra, esta adaptação da nomenclatura original (aproveitando o duplo D estilizado que adorna o uniforme) prevalece até hoje dos dois lados do Atlântico. Mesmo depois de outra editora brasileira, a GEA, ter provisoriamente renomeado o Demolidor de Defensor Destemido. 
Numa referência aos trajes de cores berrantes usados por artistas circenses (e, quiçá, ao do Daredevil original), o Demolidor começou por vestir de vermelho e amarelo. Sem que ninguém saiba ao certo de quem terá partido a ideia. São tantos aqueles a afirmar que foi Kirby o autor dos primeiros esboços modificados por Everett como aqueles que defendem o contrário. 

O Daredevil original.


Uma pista importante para ajudar a desvendar o mistério poderá ser a capa de Daredevil #1 onde, em abril de 1964, o Homem Sem Medo fez a sua estreia. A capa em questão foi assinada por Jack Kirby, o que poderá, com efeito, indicar que foi ele o primeiro a desenhar a personagem. Isto porque, à época, era prática consagrada a produção das capas preceder a arte interior de cada edição.
Alguns investigadores da 9ª Arte aventam uma terceira possibilidade. Kirby terá sido chamado a desenhar a capa do número inaugural de Daredevil porque Everett, a braços com o seu alcoolismo, falhou o prazo de entrega da mesma. Numa tentativa de relançar a carreira do artista, Stan Lee tê-lo-á creditado como cocriador do Demolidor.
Teorias à parte, certo é que o uniforme amarelo depressa saiu de moda. Logo em Daredevil #7 (abril de 1965), Wally Wood, o novo artista das histórias do Demolidor, substituiu-o, sem qualquer justificação, pelo icónico modelo vermelho. Essa evolução estética não foi, porém, acompanhada por uma mudança do tom das histórias, que conservaram o seu registo ligeiro. Com efeito, nas suas primícias o Demolidor era adepto do mesmo humor coriscante com que o Homem-Aranha brindava os seus leitores. Muito longe, portanto, do cunho dramático que posteriormente assumiria.


Em cima: A estreia do Homem Sem Medo em Daredevil #1;
em baixo: a primeira aparição do traje vermelho em Daredevil #7.

Apesar disso, as vendas do título mensal do Demolidor, mesmo após a saída de Stan Lee, mantiveram-se sólidas durante toda a década de 60. Quando, na segunda metade da década seguinte, ficou evidente que a personagem perdera gás, Daredevil, para descontentamento dos fãs, passou a bimestral.
Essa alteração de periocidade coincidiu com a chegada de um novo escritor às histórias do Demolidor. Com grande experiência em contos de terror, Roger McKenzie começou a explorar a faceta mais sombria do herói. No fundo, essa fase continha o gérmen do renascimento do herói orquestrado pouco tempo depois por Frank Miller. 
McKenzie não só fez o Demolidor enfrentar demónios interiores, amiúde refletidos em antagonistas que personificavam a Morte, como também o colocou perante as perturbadoras consequências da exposição da sua identidade secreta pelo repórter Ben Urich. Em virtude disso, o Demolidor enveredou por caminhos que nunca antes havia trilhado e de que não mais voltaria a afastar-se. 
A despeito dos esforços de McKenzie, as vendas não descolavam e Daredevil estava prestes a ser cancelado. Numa tentativa desesperada de reverter a situação, McKenzie foi rendido no posto por Frank Miller (que já vinha desenhando o Demolidor há um par de meses). Obreiro de perspetivas revigorantes, Miller foi o piloto da mudança que se impunha. Manteve a aposta do seu antecessor de explorar o potencial dramático da personagem, mas a uma escala dez vezes superior. 
Pela mão de Miller, o Demolidor adentrou nas trevas psicológicas e saiu das trevas editoriais. Miller não se quedou, porém, pela drástica mudança de tom. Levou a cabo uma profunda reinterpretação do herói introduzindo sucessivos retcons e personagens memoráveis, como Stick ou Elektra, sem se preocupar em enfurecer os fãs mais ardorosos. À parte a aparência física, o seu Demolidor tinha pouquíssimo em comum com as versões pregressas. Em resultado disso, foi nos anos 80 que o herói que conhecemos teve os seus momentos definidores e de maior glória.

Duro, sofrido e violento. Assim era o novo Demolidor de Miller.


Diabo da Guarda

A jornada heroica do Demolidor teve como ponto de partida a Cozinha do Inferno, um mal-afamado bairro operário nova-iorquino maioritariamente habitado por imigrantes irlandeses. Foi pela mão calejada do seu pai, um pugilista decadente chamado Jack "Batalhador" Murdock, que o pequeno Matt Murdock deu os primeiros passos.
Fazendo jus à alcunha conquistada nos ringues, Jack enfrentou muitos desafios para criar o filho sozinho. Desejoso de proporcionar-lhe as oportunidades que não tivera, incentivava constantemente Matt a estudar em vez de praticar desporto. Jack não queria que o filho tivesse, também ele, de ganhar a vida com os punhos.
Aos olhos das outras crianças, Matt era, pois, um rato de biblioteca com medo da própria sombra. Foi assim que ganhou a alcunha trocista de Destemido (Daredevil, no original). Alcunha que lhe moldaria o caráter para sempre.
Incapaz de desobedecer ao pai que diariamente se sacrificava para que nada lhe faltasse, Matt dava secretamente vazão à frustração acumulada no ginásio onde o seu ídolo treinava.
Quando os combates de boxe começaram a rarear, Jack não teve outro remédio senão aceitar trabalhar para um mafioso local conhecido apenas como Arranjador. Da sua descrição de funções faziam parte, entre outros expedientes, a cobrança de dívidas e a intimidação de comerciantes que recusavam pagar pela proteção do Arranjador.
Certo dia, ao caminhar pela rua, Matt, então um pré-adolescente, apercebeu-se que um cego estava prestes a ser atropelado por um camião. Sem pensar duas vezes, Matt saltou para a frente do veículo e empurrou o homem para fora do caminho, salvando-lhe a vida. Ato contínuo, o camião, que transportava resíduos tóxicos, entrou em despiste deixando cair parte da carga na via. Um dos tubos soltos partiu-se com o impacto e Matt teve as vistas salpicadas por uma substância radioativa. Foi essa a última vez que viu a luz do dia antes de mergulhar nas trevas eternas.

Um acidente mudaria para sempre a vida de Matt Murdock.

Enquanto recuperava no hospital, Matt descobriu que os seus outros sentidos haviam sido intensificados a níveis sobre-humanos e que desenvolvera uma espécie de radar mental que lhe permitia descortinar formas difusas.
Passado o desnorte inicial, Matt guardou segredo das suas novas habilidades ao regressar a casa. Anos mais tarde, Stick, um cego mestre em artes marciais, ensinou-o a controlá-las e transformou-o numa arma viva.
Apesar do seu infortúnio, Matt continuou a estudar com denodo. A sua dedicação foi recompensada com a admissão na prestigiada Universidade de Direito de Columbia. Foi lá que conheceu Franklin "Foggy" Nelson - seu melhor amigo e futuro associado - e Elektra Natchios, a bela filha de um diplomata grego que seria o maior e mais trágico amor da sua vida. Após o assassinato do pai, Elektra desapareceu sem deixar rasto, deixando Matt de coração destroçado. O casal voltaria, no entanto, a reencontrar-se anos mais tarde, já não como amantes mas como adversários.
Entretanto, o velho Batalhador continuava a sua carreira como pugilista. Apesar de estar na mó de cima, aceitou perder, a troco de uma choruda maquia, um combate combinado pelo Arranjador. Na hora H, Jack mudou porém de ideias ao avistar Matt na plateia. Com uma sequência de golpes demolidores levou o seu oponente ao tapete. Audácia que lhe custaria caro. Nessa mesma noite, o pai de Matt foi morto às mãos dos homens do Arranjador.

O último combate de um pai herói.

Agora órfão, Matt conseguiu diplomar-se em Direito e abriu um pequeno escritório de advocacia na Cozinha do Inferno. Tendo Foggy Nelson como sócio e Karen Page como secretária, Matt prestava, frequentemente pro bono, assistência jurídica aos mais desfavorecidos. Entre a sua clientela contavam-se prostitutas, homossexuais, mães solteiras e outros deserdados do sistema legal. Todos eles clamavam pelo tipo de justiça que tribunal algum lhes poderia servir.
Foi a pensar neles - e na sua vingança - que Matt usou os velhos robes do pai para confecionar o traje vermelho e amarelo do Demolidor. 
Católico devoto seduzido pelo profano, Matt Murdock não procura penitência para o que fez mas perdão para o que terá de fazer. Porque, quando a Lei emudece e Deus ensurdece, todas as preces aflitas se viram para o Diabo da Guarda.

Entre o sagrado e o profano.


Miscelânea

*Além de Homem Sem Medo, o Demolidor é igualmente cognominado de Diabo da Guarda, Chifrudo, Vermelho,  Aventureiro Escarlate e O Homem Mais Perigoso do Mundo;
*A identidade da mãe de Matt Murdock - uma freira católica chamada Irmã Maggie - só foi revelada na saga A Queda de Murdock (já aqui esmiuçada). Sofrendo os efeitos de uma depressão pós-parto, Maggie desenvolveu uma personalidade paranoide tornando-se uma ameaça para si própria e para o filho. Em resultado disso, Matt era ainda bebé quando foi abandonado pela mãe. Num ato de contrição,  Maggie ingressaria anos depois num convento;

Só o amor de mãe pode curar certas feridas.

*Matt sente-se sufocado nas suas roupas civis, mormente nos elegantes fatos que a sua profissão de advogado o obriga a usar no dia a dia. Por considerar o Demolidor a parte mais importante da sua personalidade dual, é na pele do herói que se sente mais confortável. Um pouco à semelhança de Bruce Wayne, Matt Murdock é tão-somente uma persona criada pelo Demolidor para conservar o anonimato;
*Velho inimigo do Homem-Aranha, Electro foi o primeiro supervilão com quem o Demolidor mediu forças. Antes de ser erigido a némesis do Homem Sem Medo, o próprio Rei do Crime havia antagonizado o Escalador de Paredes;
*Após a revelação acidental da sua identidade secreta por parte do Homem-Aranha, Matt Murdock conseguiu manter o seu segredo a salvo inventando um irmão gémeo com personalidade contrastante com a sua. Mike Murdock (personagem interpretada pelo próprio Matt) cumpriu o propósito de convencer Foggy Nelson e Karen Page de que era ele o Homem Sem Medo. Como forma de tornar a farsa ainda mais convincente, Matt (que se gaba do seu talento de representação) disfarçava a cegueira quando encarnava o irmão imaginário. Apesar de bizarra, a ideia funcionou e Mike foi "morto" pouco tempo depois. Mas não sem antes provocar uma pequena crise de identidade a Matt que, a dado momento, começou a ter dúvidas sobre quem seria o seu verdadeiro eu;
*Muito mais do que meros parceiros no combate ao crime, Demolidor e Viúva Negra formaram o primeiro casal de super-heróis a viver maritalmente sem estarem ligados pelos laços do matrimónio;

Heróis em união de facto.

*Naturalmente sedutor, Matt Murdock coleciona conquistas amorosas, mas só por uma vez subiu ao altar. Durante algum tempo, foi casado com Mila Donovan, também ela invisual. O enlace seria, contudo, rapidamente desfeito, depois de Mila constatar que Matt era ainda apaixonado por Karen Page; 
*A história do Demolidor serviu de inspiração à origem das Tartarugas Ninja, que, tal como ele, sofreram mutações genéticas após terem sido acidentalmente expostas a um isótopo radioativo;
*De longe o escriba mais influente do Homem Sem Medo, Frank Miller não foi, porém, aquele que durante mais tempo assinou as histórias do herói. Esse recorde de longevidade é detido por Brian Michael Bendis, que escreveu Daredevil durante 5 anos (contra os 4 de Miller);
*Desde 2011 que o Demolidor encerra o Top 10 dos Melhores Heróis da Banda Desenhada divulgado pelo IGN. Por sua vez, a revista Wizard colocou-o em 21º lugar na sua lista das 200 Melhores Personagens de Sempre da Banda Desenhada;
*Fora dos quadradinhos, o Demolidor fez a sua primeira aparição em 1981, num episódio avulso da série animada Spider-Man and his Amazing Friends. Com a sua estreia em ação real a ter lugar 8 anos mais tarde, no telefilme O Julgamento do Incrível Hulk no qual foi interpretado por Rex Smith. A estreia a solo no segmento audiovisual aconteceu apenas em 2003, ano em que a longa-metragem do herói cego estrelada por Ben Affleck chegou aos cinemas de todo o mundo. Em 2015, foi a vez do britânico Charlie Cox assumir o papel em Daredevil, série televisiva com a chancela da Marvel e da Netflix.

 Da esq. para a dir.: Rex Smith, Ben Affleck e Charlie Cox, três Diabos da Guarda de carne e osso.



*Este blogue tem como Guia de Estilo o Acordo Ortográfico de 1990 aplicado à norma europeia da Língua Portuguesa;
*Artigos sobre Bill Everett, Frank Miller, Rei do Crime e A Queda de Murdock disponíveis para leitura complementar.