10 setembro 2021

CLÁSSICOS DA 9ª ARTE: «A ÚLTIMA CAÇADA DE KRAVEN»


  Pressentindo o próprio fim, o rei dos caçadores regressa à selva urbana na peugada da única presa que o derrotou. A morte do Homem-Aranha, a astuta fera que o atormenta, será a coroa de glória sob a qual poderá descansar em paz. Mas será que os heróis também se abatem?

Título original: Kraven's Last Hunt (também conhecida como Fearful Simmetry: Kraven's Last Hunt)
Editora: Marvel Comics
País: Estados Unidos da América
Data de lançamento: Outubro e novembro de 1987
Autores: John Marc DeMatteis (argumento), Mike Zeck (arte) e Bob McLeod (arte-final)
Personagens: Homem-Aranha, Kraven, Mary Jane Watson e Rattus
Cenários: Nova Iorque
Edições em português: Os leitores lusófonos tomaram contacto pela primeira vez com esta saga na sua língua materna em 1991, quando ele foi editada pela Abril brasileira. Em vez do tradicional formatinho económico, A Última Saga de Kraven foi publicada como uma minissérie em três volumes em formato americano, sendo compilada em álbum de capa mole no final desse mesmo ano. Ainda por terras de Vera Cruz, desde o início deste século que a obra teve direito a várias reimpressões - sempre em capa dura -, com a chancela alternada da Panini e da Salvat. Em Portugal, foi pela mão da Levoir que, em julho de 2014, ganhou a sua primeira versão em português europeu, inserida na coleção Universo Marvel e originalmente distribuída com o jornal Público.

Em 2015, a Panini Comics republicou pela segunda vez a saga.
Tal como na primeira edição, optou por não usar a icónica capa mostrando
o Homem-Aranha a soerguer-se da campa.

Terrível simetria

Peter Parker bem poderia ser o protagonista da desdita. Órfão desde o berço, viu morrer-lhe nos braços o tio que o criou como filho e foi incapaz de salvar o grande amor da sua vida de uma queda fatal. A tragédia ensombrou sempre a periferia da vida de Peter, enlutando-lhe, uma e outra vez, o coração. Ao longo do percurso editorial do Homem-Aranha, iniciado em 1962, raras foram no entanto as incursões por terrenos mais sombrios. Apesar dos pesares, a natureza otimista de Peter prevaleceu.
Porém, até o mais ensolarado dos heróis tem um lado lunar. Aquele que, antes de A Última Caçada de Kraven, nunca tinha sido devidamente aprofundado. Filha do seu tempo e dos demónios interiores do seu autor, a saga justifica a reputação de ser uma das mais perturbadoras no extenso repertório do Escalador de Paredes.
A segunda metade da década de 1980 foi, de facto, pródiga em reinterpretações adultas e tingidas de negro de algumas personagens que sempre tinham sido alvo de abordagens ligeiras, se não tanto no conteúdo, pelo menos na forma. Batman - O Regresso do Cavaleiro das Trevas (1986) e Watchmen (1987), ambas com a chancela da DC, foram obras pioneiras dessa nova tendência que mudaria sem recuo o género super-heroico.
De um dia para o outro, heróis inabaláveis nas suas convicções viram-se enleados em dilemas morais plasmados em narrativas complexas. Reflexo tanto da mudança geracional entre autores como de uma maior sofisticação intelectual dos leitores.
Com as vendas da rival, impulsionadas por esse fenómeno, a subirem em flecha, a Marvel não quis ficar para trás e decidiu responder com uma história de tintas carregadas. O protagonista não poderia, contudo, ser mais inesperado: ninguém menos que o Simpático Amigo da Vizinhança. Escolha tão mais surpreendente se considerarmos a natureza sensível e afável do Homem-Aranha, assim como a circunstância de a história em questão ter sido imaginada com outra personagem da Casa das Ideias.
Algures entre 1984 e 1985, o escritor J.M. DeMatteis, obreiro de perspetivas revigorantes, propôs a Tom DeFalco, à época editor-chefe da Marvel, uma minissérie em que Magnum (Wonder Man, no original), após um duelo com o seu meio-irmão Ceifador (Grim Reaper), seria enterrado vivo, emergindo mais tarde do túmulo para se vingar. Quiçá desagradado com a morbidez da proposta, DeFalco não hesitou em rejeitá-la.

Magnum e Ceifador eram os protagonistas originais da saga.

Quando trocou a Marvel pela DC, em finais de 1985, DeMatteis substituiu Magnum por Batman e o Ceifador por Joker. Na sinopse fornecida aos editores, o escritor sustentava que essa seria a cura definitiva para a insanidade mental do Príncipe Palhaço do Crime. Numa (in)feliz coincidência, Alan Moore desenvolvia por aqueles dias A Piada Mortal. Dada a existência de alguns pontos de contacto entre as duas histórias, DeMatteis teve de voltar a enfiar a sua na gaveta.
Mas DeMatteis não se deu por vencido. Nas semanas seguintes, reescreveu a história introduzindo-lhe mais umas quantas alterações. Em vez do Joker, o Batman seria agora subjugado por Hugo Strange (outro velho inimigo do Cavaleiro das Trevas) que, em seguida, assumiria o manto do morcego. A ideia voltou, no entanto, a ser rejeitada.
De regresso à Casa das Ideias, DeMatteis fez uma derradeira tentativa para vê-la aprovada. Agora com o Homem-Aranha como protagonista e com um novo vilão criado propositadamente para o efeito, o projeto recebeu finalmente luz verde por parte dos editores.
Vários elementos importantes foram sendo acrescentado, à medida que DeMatteis limava as arestas de um enredo cada vez menos decalcado da trama original. Com Peter Parker e Mary Jane Watson recém-casados, o escritor optou por fazer do casal o eixo emocional da narrativa. Já a ideia de usar Kraven como antagonista surgiu após DeMatteis ter lido o seu perfil em The Official Handbook of the Marvel Universe (espécie de "Quem é quem" da editora). Grande admirador da obra literária de Dostoievski - especificamente de Crime e Castigo -, DeMatteis ficou fascinado com a herança russa de Sergei Kravinoff.

J.M. DeMatteis teve a sua história
 rejeitada por 3 editores.

Quando soube que Mike Zeck (com quem colaborara anteriormente em Captain America) fora o escolhido para trabalhar com o lápis, DeMatteis considerou que seria interessante a inclusão de uma personagem criada por ambos. Foi assim que o repulsivo Rattus (Vermin) assegurou a sua participação na saga que redefiniria o Homem-Aranha.
Publicada originalmente entre outubro e novembro de 1987, a história em seis capítulos teria sido incluída apenas em Spectacular Spider-Man se o editor Jim Salicrup não tivesse tido a brilhante a ideia de a espalhar pelos outros dois títulos mensais do Homem-Aranha (Amazing Spider-Man e Web of Spider-Man), cujo alinhamento preencheu em exclusivo durante dois meses. Decisão ditada por razões comerciais (obrigava os leitores a comprarem as três revistas para acompanhar a saga), mas também por questões de lógica editorial. Se Kraven presumivelmente matava o Homem-Aranha, seria absurdo que a vida de Peter Parker seguisse a sua rotina normal nos outros títulos. Embora consagrada hoje em dia, foi a primeira vez que essa estratégia editorial foi testada (ainda por cima, com resultados muito positivos).
A atravessar uma fase conturbada na sua vida pessoal, DeMatteis projetou nos protagonistas o seu próprio sofrimento emocional. Ao fazê-lo, sujeitou o Homem-Aranha a uma dilacerante tortura psicológica. Isto ao mesmo tempo que adicionava camadas de complexidade a Kraven.
Depois de abater o Homem-Aranha, Kraven tomaria o lugar do herói. Porém, aquilo em que ele se transforma não é o Homem-Aranha, mas sim a sua perceção equivocada dele. As ações brutais do falso Homem-Aranha ilustram a terrível simetria entre a crueldade do vilão e a benevolência do herói. Que, mesmo levado ao limite, resiste a abrir mão dos seus princípios éticos.
Anos mais tarde, num texto intimista divulgado no seu blogue, DeMatteis reconheceu que teria sido incapaz de escrever a história se, naquela época, o seu estado de espírito fosse diferente. Segundo ele, as grandes histórias possuem vida própria, servindo os escritores de meros veículos para a mensagem que elas desejam transmitir. A Última Caçada de Kraven parece endossar esta teoria.

A última caçada de Kraven teve início em Web of Spider-Man #31.


Réquiem pelo caçador

Houve um tempo em que o mundo admirava a sua astúcia e coragem. Uma época debruada a ouro em que a sua virilidade inspirava reverência e as suas façanhas eram lendárias. Uma época em que ele foi coroado rei dos caçadores e imperador da savana. Mas isso foi antes de ambientalistas e ativistas dos direitos animais lhe arruinarem a reputação. Antes de ele se cruzar com a única presa que o derrotou e que o atormenta desde então: o Homem-Aranha.
Sergei Kravinoff, celebrizado nesse passado glorioso como Kraven, o Caçador, está ciente de que a morte o ronda. Pressente a sua presença nas sombras e quase consegue perscrutar o seu tétrico semblante. Mas ele não está preparado para reencontrar o Criador. Não sem antes recuperar a honra e a dignidade perdidas. Não sem antes curar o seu orgulho ferido, provando a sua superioridade. E isso só será possível fazendo do Homem-Aranha o seu supremo troféu de caça.
Reunindo as forças que ainda lhe restam, Kraven regressa à selva urbana na peugada da sua derradeira presa. Apesar de ser ainda ágil como uma gazela e forte como um leão, Kraven sabe que está longe do seu ápice físico de outrora. Mas sabe, também, que nunca descansará em paz se não vergar o Homem-Aranha.
Para aguçar os sentidos e aumentar a sua força, Kraven ingere poções secretas e infusões de ervas trazidas das selvas mais profundas. Vai precisar de estar no seu melhor para consumar o macabro plano que concebeu: abater o Escalador de Paredes e enterrá-lo com centenas de aranhas.
Recém-regressado da sua lua-de-mel com Mary Jane, Peter Parker ignora que o seu alter ego tem a cabeça a prémio. Absorto em divagações, o Homem-Aranha baloiça-se nas suas teias no que deveria ser um ameno passeio noturno. Mas acaba emboscado por Kraven que, emergindo das sombras, o alveja e captura com uma rede.
Sob o efeito de um potente sedativo, o herói aracnídeo impende no abismo da inconsciência. Tem, contudo, um vislumbre da espingarda e do olhar maníaco de Kraven enquanto este se prepara para executá-lo a sangue-frio. Por entre palavras balbuciadas sobre a restauração da sua honra, o vilão alveja o Homem-Aranha à queima-roupa.

A presa à mercê do caçador.

Transportando o corpo inerte do herói, Kraven coloca-o num ataúde repleto de aranhas, antes de sepultá-lo em local desconhecido. No entanto, abater a grande fera de azeviche não basta. É imperativo demonstrar a sua superioridade sobre ela. E, para isso, o caçador terá de vestir a pele da sua presa.
Nessa mesma noite, envergando uma cópia do traje negro do Homem-Aranha, Kraven começa a patrulhar os desfiladeiros de néon da cidade que nunca dorme. Impelido pelo seu distorcido conceito de justiça, não se inibe de liquidar alguns dos criminosos que tiveram a desventura de lhe cruzar o caminho.
Depois de dias e noites de angústia causada pelo inexplicável sumiço do marido, Mary Jane é assediada por um bando de delinquentes no seu caminho de regresso a casa. Apesar de salva pelo Homem-Aranha, ela percebe estar na presença de um impostor. Kraven, por seu lado, nem imagina que acabou de salvar a vida à esposa do seu inimigo e volta a desaparecer na escuridão da noite. As lágrimas de Mary Jane diluem-se na chuva que não cessa de cair, como se o céu estivesse em pranto pelo infortúnio da jovem.

O caçador veste a pele da presa.

Entrementes, um novo predador começa a semear o terror em Nova Iorque. Rattus, um híbrido canibal de homem e rato, vem atacando aleatoriamente transeuntes indefesos. As suas sangrentas ações atraem a atenção do falso Homem-Aranha, que lhe move feroz perseguição através da rede subterrânea de esgotos. Quando, por fim, encurrala a sua presa, Kraven espanca Rattus quase até morte, levando-o, em seguida, para o seu covil.
Enquanto Kraven se regozija com mais este seu triunfo, o verdadeiro Homem-Aranha desperta do seu longo coma e rasteja para fora da sua sepultura. Tinha, afinal, sido atingido por um dardo tranquilizante e, depois, enterrado vivo pelo seu algoz. Sem que o soubesse, o seu sórdido calvário durara duas semanas. Apesar da fúria que lhe revira as entranhas, o seu primeiro pensamento vai para Mary Jane.
Desesperado por rever a sua adorada esposa, o herói aracnídeo vai ao encontro de Mary Jane. Após certificar-se de que ela está em segurança, parte no encalço de Kraven. Peter sabe que o caçador vira caça quando subestima a sua presa. E sabe que Kraven o atirou às profundezas daquilo que um homem comum é capaz de suportar. Mas ele não é um homem comum.

Um amor mais forte do que a morte.

Com recurso a toda a sorte de sevícias, Kraven subjugara Rattus, agora reduzido a um animal assustado. Algo que o Homem-Aranha fora incapaz de fazer sozinho no seu último confronto com a criatura, em que tivera o Capitão América como aliado.
Ao pressentir a presença do Homem-Aranha no seu covil, Kraven liberta Rattus para testar as capacidades do seu renascido rival. Mas Peter nada tem a provar e compadece-se do sofrimento de Rattus. O monstro, porém, não hesita em investir violentamente sobre o herói e está prestes a matá-lo. Kraven interfere para salvar a vida do Escalador de Paredes. Não pode conceder a outrem o privilégio de matar a sua presa suprema. Confuso, Rattus aproveita a oportunidade para escapar. 

A ferocidade de Rattus.

Tomando enfim consciência de tudo aquilo que Kraven lhe tirou, o Homem-Aranha ataca-o com uma ferocidade nunca antes vista. O vilão limita-se, porém, a encaixar os golpes do seu adversário, com um sorriso trocista. 
Apesar daquela reviravolta, Kraven vencera. Permitira que a sua presa vivesse quando podia facilmente tê-la matado. Dessa forma provara a si mesmo a sua superioridade relativamente ao rival que o humilhara. Não havia razões para continuar a lutar. Nem para continuar a viver. Estava consumada a sua vingança final.
Kraven nada faz para impedir que o Homem-Aranha parta no encalço de Rattus. De volta à sua taciturna mansão, o caçador suicida-se com a mesma arma com que alvejara o Escalador de Paredes. Junto ao seu corpo sem vida jazem fotografias e uma confissão escrita em que assume a culpa pelas mortes causadas pelo falso Homem-Aranha.
Longe dali, o herói aracnídeo consegue, a dura penas, neutralizar Rattus, acabando mesmo por salvar a vida da criatura. Também a violenta tempestade que há dias fustigava Nova Iorque deu finalmente lugar à bonança.
Terminado o pesadelo, Peter regressa para junto de Mary Jane, radiante ao ver o marido são e salvo. O amor que os une curará as feridas e o casal anela por nova etapa de felicidade conjunta. O Sol voltou a brilhar, mas é a esperança que lhes aquece os corações.
Na mansão Kraven, os serviçais homenageiam o seu malogrado amo com um réquiem silencioso antes de depositarem o seu cadáver sob sete palmos de terra. O rei dos caçadores pode finalmente repousar em paz sob a sua coroa de glória.

A morte do caçador.


Apontamentos

*O primeiro e último capítulos da saga terminam, respetivamente, com os enterros do Homem-Aranha e de Kraven enquadrados pela frase "Aranha! Aranha! Flamejando nas florestas da noite. Que mão ou olho imortal poderia plasmar a tua terrível simetria?". Trata-se de uma das muitas citações extraídas do poema The Tyger (escrito em 1794 pelo britânico William Blake) que permeiam A Última Caçada de Kraven. Com efeito, os seis capítulos da saga correspondem ao número de quadras que compõem o poema em questão;
*Apenas aquando do lançamento da sua primeira compilação, em 1989, a saga foi titulada como A Última Caçada de Kraven. A sugestão partiu de Jim Salicrup, na altura editor das séries mensais do Homem-Aranha, e não convenceu DeMatteis. O autor preferia Terrível Simetria (Fearful Simmetry, a expressão que remata The Tyger);
*Também o suicídio de Kraven teve inspiração literária. A cena em que o vilão usa a própria carabina para pôr termo à vida reproduz a morte de Ernest Hemingway, em tempos conhecido como Grande Caçador Branco;
*Aranhas e ratos assumem funções simbólicas na história. Aparentemente, estes motivos animais representam, respetivamente, o medo e o instinto primitivo de sobrevivência. Kraven refere mesmo que todo o homem tem a sua aranha e consome várias delas antes de enfrentar o Escalador de Paredes. Pouco antes  da "ressurreição" de Peter, um rato é visto a rondar o seu túmulo;

Manjar aracnídeo antes da batalha.

*O icónico uniforme negro usado à época pelo Homem-Aranha foi criado em 1982 por Randy Schueller. Um jovem fã do Illinois, Schueller foi o vencedor do concurso organizado pela Marvel com vista à captação de novos talentos e aceitou vender o conceito por uns módicos 220 dólares. Apesar de a mudança de visual ter ocorrido em maio de 1984, no histórico Amazing Spider-Man #252, a origem da nova vestimenta só seria revelada mais de meio ano depois, em Secret Wars #8. Na verdade um simbionte alienígena, o traje, depois de rejeitado por Peter, encontrou em Eddie Brock um novo hospedeiro. Da fusão de ambos nasceu Venom, um dos mais perigosos inimigos do Escalador de Paredes. Que, na sequência desses eventos, passou a usar um modelo de tecido normal oferecido pela Gata Negra. É, pois, esse segundo traje negro que aparece na saga. Para desapontamento de muitos fãs, o Homem-Aranha voltaria a vestir de azul e vermelho em maio de 1988 (precisamente quatro anos após a estreia do uniforme negro);
*Em resposta às acusações de glorificação do suicídio, em agosto de 1992, cinco anos após a obra original ter sido dada à estampa, J.M. DeMatteis e Mike Zeck reataram o seu casamento criativo para produzir uma continuação de A Última Caçada de Kraven. Intitulada Soul of the Hunter (Alma de Caçador), a história revela a existência de um vínculo espiritual entre Peter Parker e Sergei Kravinoff, cuja alma não descansa em paz devido ao facto de ter acabado com a própria vida. Apesar dessa e de outras revisitações posteriores, o vilão permaneceria morto até 2009.

Vingança aquém e além-túmulo.


Vale a pena ler?

Em 2012, os visitantes do site canadiano Comic Book Resources votaram A Última Caçada de Kraven como a melhor história do Homem-Aranha alguma vez contada. Ainda que esse resultado seja debatível, ela merece, com toda a certeza, figurar no Top 5 das aventuras do Escalador de Paredes.
À primeira vista, a história tinha, porém, tudo para dar errado. Transpor o herói mais otimista da Marvel para um contexto de trevas e desespero prefigurava-se um exercício deveras arriscado. Mais ainda tendo como antagonista um vilão como Kraven que, desde a sua criação em 1964, nunca ultrapassara a condição de personagem secundária.
No entanto, a abordagem de DeMatteis foi genial. A sua escrita dá um salto quântico em complexidade e qualidade, como pouquíssimas vezes tinha acontecido até então nas histórias de super-heróis - e nunca nas dos Homem-Aranha (nem mesmo aquando da morte de Gwen Stacy). As notas poéticas, os diálogos psicologicamente reveladores e a análise profunda das motivações dos dois protagonistas são bons exemplos do virtuosismo narrativo de um escriba consagrado que assina aqui uma das obras mais candentes da sua carreira.
Além de esculpir tridimensionalidade a Kraven, DeMatteis aflora temas muito interessantes, designadamente a dicotomia entre o Homem-Aranha e Peter Parker. Quem é, afinal, o mais nobre? O herói ou o homem por detrás da máscara? O autor inclina-se claramente para a segunda opção e, nesse sentido, socorre-se de diversos subterfúgios narrativos para ressaltar a importância da figura de Peter Parker. A sua humanidade, as suas emoções e as suas ações perante os problemas e dilemas que a vida lhe apresenta são a quintessência do Escalador de Paredes. Ao contrário do Super-Homem, por exemplo, Peter não é um disfarce para o Homem-Aranha, mas sim o inverso. A sua personalidade não transmuda de cada vez que ele enfia o uniforme. Seja este preto ou azul e vermelho.
Apesar do excelente enredo, A Última Caçada de Kraven dificilmente teria tido o mesmo impacto sem a sensacional arte de Mike Zeck. Poucos artistas conseguem traçar movimentações com tal maestria, conferindo uma fluidez cinematográfica às sequências, ao mesmo tempo que preenchem uma atmosfera dramática com minuciosos retratos emocionais das personagens.
A única ressalva reside nos monólogos de Kraven que, a espaços, soam repetitivos, conquanto se perceba o seu propósito de imergir o leitor na retorcida psique do vilão. Sem embargo para a sua qualidade global, a saga poderia perfeitamente acabar no penúltimo capítulo, onde a caçada de Kraven de facto termina. Funcionando, assim, o sexto e último capítulo como uma espécie de epílogo estendido que, à parte o destino de Rattus, pouco acrescenta à história.
A Última Caçada de Kraven é também a prova provada que não precisamos de mudanças arbitrárias de género, raça ou orientação sexual para produzir boas histórias de personagens com longos históricos de publicação. O que precisamos mesmo é de menos ativismo identitário e de mais bons autores e bons desenhadores. Tendo isso, as histórias serão sempre refrescantes, por mais vetustos que sejam os protagonistas.
Trágica, filosófica e com fino recorte literário, esta é uma obra que não pode faltar na bedeteca de nenhum aficionado da Arte Sequencial. E que, como qualquer clássico, merece ser revisitada de tempos em tempos.

O traje negro do Homem-Aranha marcou uma era
 e acentuou o tom fúnebre da saga.




*Este blogue tem como Guia de Estilo o Acordo Ortográfico de 1990 aplicado à variante europeia da língua portuguesa.
*Prontuário de Kraven, o Caçador disponível para leitura complementar.


 


13 agosto 2021

HERÓIS EM AÇÃO: LANTERNA VERDE II


 Capaz de superar grande medo, foi o primeiro humano nas fileiras da maior força policial intergaláctica. Da Terra aos confins do Universo, o fulgor esmeralda do seu anel dissipa as trevas do caos e da corrupção. Porque no dia mais claro, na noite mais densa, o Mal sucumbirá ante a sua presença. 

Denominação original: Green Lantern
Editora: DC
Criadores: Julius Schwartz (conceito), John Broome (história) e Gil Kane (arte conceptual)
Estreia: Showcase #22 (outubro de 1959)
Identidade civil: Harold "Hal" Jordan
Espécie: Humano
Local de nascimento: Coast City, Califórnia
Parentes conhecidos: Martin Jordan (pai, falecido); Jessica Jordan (mãe); Larry Jordan / Onda Aérea (tio); Jim Jordan (irmão); Jack Jordan (irmão); Sue Jordan (cunhada); Jan Jordan (cunhada); Helen Jordan (sobrinha); Arthur, Jason e Howie Jordan (sobrinhos)
Ocupação: Ex-piloto de testes, ex-investigador de seguros e ex-vendedor de brinquedos, desempenha agora em tempo integral as suas funções de oficial da Tropa dos Lanternas Verdes.
Base operacional: No passado, Hal Jordan desdobrava-se entre Coast City e o planeta Oa, lar dos Guardiões do Universo e quartel-general da Tropa dos Lanternas Verdes. Desde a destruição da sua cidade natal, as suas estadias na Terra tornaram-se, porém, cada vez mais breves e espaçadas.
Afiliações: Ex-oficial da Força Aérea dos EUA; ex-piloto da Ferris Aircraft; ex-parceiro do Arqueiro Verde; cofundador da Liga da Justiça da América e membro ativo da Tropa dos Lanternas Verdes.
Némesis: Sinestro
Poderes e parafernália: Hal Jordan é apenas um homem comum a quem foi confiada aquela por muitos considerada a mais poderosa arma do Universo. O anel energético do Lanterna Verde reage à força de vontade do seu usuário. Quanto maior a força de vontade, maior a eficácia do anel. A real extensão do seu poder permanece, no entanto, uma incógnita.
Nas suas histórias iniciais, o Lanterna Verde era frequentemente visto a realizar uma assombrosa variedade de proezas com o seu anel. Desde a miniaturização de objetos ao fabrico de vestuário, as possibilidades pareciam infinitas. Quaisquer que sejam os efeitos do anel, são sempre acompanhados por um característico fulgor esmeralda.
Com o tempo, porém, a ênfase passou a incidir sobre a capacidade do Lanterna Verde conjurar hologramas de luz sólida controlados telecineticamente. Em função da criatividade de Hal Jordan, esses construtos esverdeados podem assumir praticamente qualquer forma: um escudo para bloquear um ataque, uma espada para cortar uma corda ou uma luva de boxe para esmurrar um adversário são alguns exemplos clássicos.

O anel do Lanterna Verde permite-lhe criar todo o tipo de armas.

Além de dotar o Lanterna Verde da capacidade de voar e sobreviver aos rigores do espaço sideral, o anel permite-lhe realizar saltos transluminais. Graças aos quais o herói consegue viajar, quase instantaneamente, para qualquer quadrante do Universo conhecido. Para facilitar a comunicação com a miríade de raças alienígenas que o povoam, o anel incorpora um tradutor universal.
O anel do Lanterna Verde é eficaz tanto em ações defensivas como ofensivas. Tanto pode gerar campos de força para proteger o seu usuário como projetar rajadas energéticas contra alvos inimigos. Entre as suas tradicionais funcionalidades, destaque ainda para a sua capacidade de localização e comunicação com outros Lanternas Verdes, independentemente da distância a que se encontram.
Ao possibilitar o acesso remoto à base de dados da Tropa dos Lanternas Verdes, o anel funciona também como um valioso repositório de informação acerca do Cosmos.
Seguindo um protocolo predefinido pelos Guardiões do Universo, sempre que um Lanterna Verde morre no cumprimento do dever, o anel desencadeia de imediato a busca por um substituto compatível. Foi dessa forma que Hal Jordan foi escolhido para render Abin Sur nas funções de protetor do Setor Espacial 2814.

Quanto maior a força de vontade,
mais poderoso é o anel do Lanterna Verde.

Apesar de o Lanterna Verde ter no anel a fonte dos seus poderes, Hal Jordan possui ele próprio um conjunto de habilidades admiráveis. A sua longa carreira como piloto de testes capacitou-o com excelentes reflexos e uma extraordinária resistência à pressão. Mesmo perante situações aparentemente desesperadas, Hal conserva a calma e a agudeza de raciocínio. São elas que lhe permitem, no imediato, conceber a estratégia mais adequada às circunstâncias, fazendo dele um líder nato que os seus camaradas de armas não hesitam em seguir. O seu proverbial destemor é admirado até pelos seus inimigos (com Sinestro à cabeça), elevando-o assim ao patamar de lenda intergaláctica. 
Não é pois por acaso que Hal Jordan é reputado de maior Lanterna Verde de todos os tempos. Título tanto mais impressionante se levarmos em conta que a Tropa Esmeralda patrulha o Universo há vários milhares de anos, e que outros tantos recrutas passaram pelas suas fileiras. Nenhum deles foi, porém, capaz de personificar a Força de Vontade como Hal Jordan.

Fraquezas: A suposta arma mais poderosa do Universo está longe de ser infalível. À consabida ineficácia do anel do Lanterna Verde sobre objetos amarelos (cor que, no Espectro Emocional, simboliza o Medo) acresce a necessidade de recarga periódica. Originalmente, esse ritual - sempre acompanhado do respetivo juramento solene - tinha de ser realizado a cada 24 horas, independentemente do dispêndio de energia. Por estes dias, o anel precisa apenas ser recarregado quando a sua energia se esgota ou atinge níveis perigosamente baixos. 
Apesar de altamente resistente, o anel do Lanterna Verde também não é indestrutível. Várias entidades já provaram possuir força ou poder suficientes para quebrá-lo. Com a agravante de que apenas os Guardiões do Universo possuem a tecnologia requerida para o conserto de um anel danificado.

Áureo foi um dos muitos vilões de cor amarela
 que o Lanterna Verde já enfrentou.

Contudo, à semelhança de qualquer arma convencional, a maior debilidade do anel do Lanterna Verde poderá residir afinal no seu portador. Se este estiver deprimido, amedrontado ou sob influência de estupefacientes, a produção de energia será instável condicionando a criação de construtos. O mesmo sucedendo quando o usuário não consegue visualizar corretamente o aparato que está a tentar replicar, ou ignora o seu funcionamento básico.
No caso específico de Hal Jordan, o excesso de confiança é o seu verdadeiro calcanhar de Aquiles. Desafiando as regras do meridiano bom senso, Hal nunca recua perante qualquer ameaça, por maior que ela seja. 
Essa sua lendária afoiteza tem tanto de inspiradora como de irracional. Entre ser visto como um covarde ou travar uma luta desigual, Hal escolherá sempre a segunda opção. À boa maneira dos Espartanos, ele não pergunta quantos são os inimigos mas onde estão eles. Ignorando dessa forma um dos mais importantes preceitos da arte da guerra: a glória suprema é derrotar o inimigo sem o combater.

O novo senhor do anel

Para os leitores ocasionais de comics, o Lanterna Verde será porventura um daqueles super-heróis que se (re)conhece mas sobre o qual pouco se sabe. Apesar de ele ser um dos Sete Magníficos que fundaram a famigerada Liga da Justiça, o seu errático histórico de publicação contribuiu, em grande medida, para essa circunstância.
Independentemente, porém, do seu estatuto junto do grande público, o Lanterna Verde é uma das maiores referências do panteão da DC. Em vários momentos da história da editora foi igualmente uma espécie de farol que sinalizou o rumo a seguir nas águas agitadas de uma indústria em perpétua metamorfose.
Criação de Bill Finger e Martin Nodell, o primeiro Lanterna Verde surgiu na Idade de Ouro, apenas dois anos após a estreia do Super-Homem. Alan Scott era um engenheiro ferroviário cujas agulhas do destino mudaram para sempre em All-American Comics #16 (1940). Indumentado com um traje particularmente chamativo, munido de um anel mágico e de uma bateria em forma de lanterna, a personagem incorporava diversos dos elementos pulp que, à época, capturavam o imaginário coletivo.
Aquando da sua estreia, o Lanterna Verde era um dos heróis mais poderosos do mundo, capaz de executar autênticos milagres com o poder aparentemente ilimitado do seu anel. Que tinha, contudo, um inusitado defeito: era inútil contra madeira ou matéria vegetal. Outro ponto fraco era a sua carga limitada, que tinha de ser reposta a cada 24 horas com recurso à lanterna verde que dava nome ao campeão de Capitol City. Ritual sempre pontuado por um juramento solene em verso, que foi evoluindo ao longo dos anos até se tornar peça fundamental no legado do Gladiador Esmeralda.

Alan Scott, o primeiro senhor do anel.

Não obstante a apreciável popularidade de que usufruiu durante a década de 1940, o Lanterna Verde, a exemplo da generalidade dos seus contemporâneos, viu o seu esplendor desvanecer após a II Guerra Mundial até a última centelha esmeralda se extinguir no final dessa década.
Sem surpresa, em 1949 Green Lantern foi cancelado e foi precisa uma espera de dez anos até  o anel do Lanterna Verde voltar a luzir. Ainda a tempo, no entanto, de fazer do Gladiador Esmeralda um dos arautos da Idade de Prata dos comics.
Perante as evidências de que os leitores davam mostras de um renovado interesse em super-heróis, em 1959 o lendário editor Julius Schwartz quis repetir o tratamento que, três anos antes, fora aplicado com sucesso ao Flash. Nesse sentido, escalou o escritor John Broome e o artista Gil Kane para recriarem o Lanterna Verde. A ideia era seguir a receita usada por Robert Kanigher e Carmine Infantino para revitalizar o Velocista Escarlate. Em 1956, fora ele o primeiro herói clássico a ganhar novo impulso na pista da glória reconquistada.
Assim como Jay Garrick cedeu lugar a Barry Allen, Alan Scott foi rendido por Hal Jordan. Em consequência desse protocolo modificativo, o Lanterna Verde deixou de enfrentar ameaças sobrenaturais para passar a agir como uma espécie de xerife do espaço, cuja jurisdição extravasava largamente os limites da sua cidade natal - e até da Terra. Essa vocação cósmica do novo Gladiador Esmeralda foi acentuada pela sua pertença à maior força policial intergaláctica: a Tropa dos Lanternas Verdes. Para criá-la, John Broome foi beber inspiração à saga de ficção científica Lensman, da qual era fã assumido. Com o tempo, a Tropa dos Lanternas Verdes tornou-se num dos principais esteios do Universo DC, servindo de base para algumas das histórias mais memoráveis da Editora das Lendas.
No momento de conceber o visual de Hal Jordan, Gil Kane usou como modelo fisionómico Paul Newman, seu vizinho e um dos maiores galãs de Hollywood. O traje de cores berrante deu, por sua vez, lugar a um uniforme sem capa e com um sóbrio esquema cromático. O anel e a bateria mantiveram-se, mas a origem dos dois artefactos era agora alienígena e não mística. Ambos haviam sido manufaturados pelos Guardiões do Universo, fundadores e líderes espirituais da Tropa dos Lanternas Verdes - que teve em Hal Jordan o seu primeiro recruta terráqueo.

Paul Newman serviu de modelo a Hal Jordan.

Outro aspeto comum a ambos os Lanternas Verdes era o aparentemente arbitrário ponto fraco dos respetivos anéis. Com a madeira a ser agora substituída pela cor amarela, contra a qual o anel de Hal Jordan nada podia. Desta feita, porém, o calcanhar de Aquiles foi explicado com uma impureza necessária na bateria; uma espécie de trava de segurança criada pelos Guardiões do Universo para prevenir que o poder absoluto corrompesse absolutamente os seus agentes da Lei. 
O segundo Lanterna Verde foi apresentado ao leitores em Showcase #22 (1959). Título que, por aqueles dias, servia de tubo de ensaio tanto para conceitos inovadores como recauchutados. Além do Flash, também Adam Strange e os Desafiadores do Desconhecido tinham feito lá o seu tirocínio. 
Na senda do sucesso do novo Gladiador Esmeralda, a DC resolveu relançar Green Lantern em 1960. Apesar do cariz cósmico das histórias, elas foram pioneiras em matéria de consciência social. Em vez das costumeiras óperas espaciais, os argumentistas privilegiavam temas mundanos como o combate ao racismo e ao preconceito. Incluindo, para esse efeito, representantes não estereotipados das minorias nas tramas humanizadas. 
A vida pessoal de Hal Jordan também tinha pontos de interesse. Ele era um dos vértices de um triângulo amoroso em tudo idêntico ao que envolvia Clark Kent, Lois Lane e o Super-Homem. Hal estava apaixonado por Carol Ferris, a filha do patrão que, por sua vez, suspirava pelo Lanterna Verde. Para apimentar ainda mais a relação, Carol era ocasionalmente controlada por alienígenas que a transformavam na vil Safira Estrela.

O novo Lanterna Verde estreou-se em Showcase #22 (1959).

Quando, por fim, Carol desistiu de conquistar o coração do Gladiador Esmeralda e partiu com outro homem, Hal ficou devastado. Depois de abandonar o seu emprego como piloto de testes na Ferris Aircraft, Hal passou a andar à deriva. Tal como a sua série que, ao dobrar a esquina da década de 1960, era uma boa candidata ao cancelamento. O que só não se confirmou devido à decisão providencial do seu editor de emparelhar o Lanterna Verde com o Arqueiro Verde. Juntando dessa forma dois valdevinos com visões muito distintas do papel dos heróis num mundo em acelerada transformação. Assinada por Dennis O'Neil e Neal Adams, uma das duplas-maravilha da 9ª Arte, essa fase foi louvada pela crítica sem que a isso correspondesse um aumento das vendas. Consequentemente, Green Lantern foi cancelado em 1972. Nos quatro anos seguintes, Hal Jordan foi hóspede na revista do Flash, ao mesmo tempo que participava mensalmente nas missões da Liga da Justiça da América. Em virtude dessa perda de influência, tornou-se um super-herói genérico vivendo à sombra de glórias pretéritas.
Green Lantern regressou às bancas em 1976, espelhando os danos que a guerra do Vietname e o escândalo Watergate haviam infligido à autoconfiança do povo americano e à sua fé nas instituições do país. Esse renascimento durou cerca de uma década e ficou marcado tanto pela profusão de ameaças extraterrestres como pela sucessão de crises pessoais do herói, culminando no seu abandono da Tropa dos Lanternas Verdes em vésperas da Crise nas Infinitas Terras.
Esgotadas as ideias para tornar apelativas as histórias do Gladiador Esmeralda, nos anos 1990 os argumentistas fizeram dele o maior inimigo da Tropa dos Lanternas Verdes. Após a destruição de Coast City pelo Supercyborg, Hal Jordan, revoltado com a indiferença dos Guardiões do Universo, foi corrompido por Parallax, o avatar do Medo. Num desfecho previsível, acabaria morto quando tentava reescrever a História (eventos narrados em Zero Hora, saga já aqui analisada). Não sem antes cometer um extenso rol de atrocidades que incluíram a destruição da Bateria Central de Oa e o massacre de praticamente toda a Tropa Esmeralda. Enquanto Hal procurava expiar os seus pecados como Espectro - o Espírito da Vingança que ele tentou, em vão, transformar no Espírito da Redenção - foi substituído por Kyle Rayner nas suas funções de policiamento galáctico. Era agora ele o novo senhor do anel.

De herói a vilão: Hal Jordan como Parallax.

O regresso definitivo de Hal Jordan só aconteceria uma década mais tarde. Em 2004, a saga Green Lantern: Rebirth reabilitou-o dos hediondos crimes cometidos enquanto Parallax. Dando assim o mote para a vaga revivalista da DC motivada pelo saudosismo que, na viragem do milénio, influenciava a cultura popular. Às mãos de escritores talentosos como Geoff Johns, o Lanterna Verde viu redefinidos e modernizados importantes elementos da sua mitologia. Ficando assim apto a enfrentar os desafios do século XXI.
Uma vez mais, qual farol numa noite de tempestade, a luz esmeralda do Lanterna Verde rasga a escuridão, trespassa o medo e brilha mais intensamente do que nunca.

O triunfo da Força de Vontade.


Alvorecer esmeralda

Hal Jordan nasceu para voar. Quanto mais alto e mais rápido, melhor. Foi nas asas desse sonho de infância que alcançou as estrelas. Ironicamente, foram dois desastres aéreos a traçar-lhe o destino.
Nascido em Coast City, Hal Jordan foi o segundo dos três filhos do casal Jessica e Martin Jordan. O seu pai era um ex-oficial da Força Aérea americana convertido em piloto de testes da Ferris Aircraft, especialista no fabrico de jatos militares.
Fascinado por máquinas voadoras, o pequeno Hal tinha por hábito faltar às aulas para ir ao aeródromo da Ferris ver o seu pai a voar. Martin Jordan era o ídolo do filho, que sonhava um dia seguir-lhe as pisadas.
Infelizmente, quando era ainda pessoa de palmo e meio, Hal testemunhou a morte do seu pai num acidente de voo. Tragédia que o marcou para o resto da visa. Tanto como o ato heroico de Martin Jordan que, em vez de se ejetar, voou para longe das áreas habitadas, sacrificando a própria vida para salvar dezenas de outras.
Contra a vontade da mãe, Hal planeava ganhar a vida aos comandos de um avião. Na véspera de completar 18 anos, fugiu de casa e passou a noite à porta do centro de recrutamento da Força Aérea. Após anos de intenso treino, Hal tornou-se um piloto exímio e destemido. Isto ao mesmo tempo que desenvolvia um histórico de insubordinação e riscos excessivos.

Hal Jordan, o Ás dos Ares.

A vida de Hal não estava no entanto fadada a ser um fac-símile daquela que fora vivida pelo seu pai. Certo dia, durante um voo de treino, um halo esverdeado envolveu o seu jato, transportando-o até ao local da queda de uma espaçonave. Ao investigar os destroços, Hal foi surpreendido pela presença de um alienígena moribundo. 
Abin Sur - assim se chamava o alienígena - era membro da Tropa dos Lanternas Verdes, uma força policial que há milhares de anos assegurava a paz em todo o Universo. A sua nave fora atacada durante uma patrulha acabando por despenhar-se nas cercanias de Coast City. Antes de exalar o seu último suspiro, Abin Sur ordenara ao seu anel que procurasse um substituto digno. Hal foi o escolhido. Não apenas pela sua integridade moral, mas também pela sua capacidade de superar grande medo.

A passagem de testemunho de Abin Sur a Hal Jordan.


Promovido a Lanterna Verde do Setor Espacial 2814 (um dos 3600 em que o Universo se divide), Hal foi pouco depois transportado pelo seu anel ao planeta Oa. No quartel-general da Tropa Esmeralda e lar da Bateria Central que abastece os anéis de todos os Lanternas Verdes, Hal foi apresentado aos Guardiões do Universo e a centenas de alienígenas incrédulos com a escolha de um humano.
Durante o treino que lhe foi ministrado por Sinestro e Kilowog, dois Lanternas Verdes veteranos, Hal surpreendeu os seus mentores com a sua incrível força de vontade. Todos ficaram cientes de que ele estava destinado a ser um dos mais valorosos membros da Tropa e que aquele era o alvorecer esmeralda de um novo herói. Um em cuja presença o Mal sucumbiria.


Miscelânea

*As arrepiantes manobras e acrobacias de Hal Jordan aos comandos dos caixões voadores fabricados pela Ferris Aircraft valeram-lhe a alcunha de "Highball". Na gíria dos antigos ferroviários, era a ordem para o comboio seguir a todo o vapor. Nessa época, Hal era também inseparável do blusão de aviador herdado do pai, o qual não hesitava em colocar sobre os ombros de quem dele mais precisasse;
*Hal não foi o primeiro super-herói do clã Jordan. Larry Jordan, tio de Hal, combateu o crime como Onda Aérea. A sua habilidade primária consistia em deslocar-se a grande velocidade através dos cabos elétricos e das linhas telefónicas, usando para esse efeito um par de patins especiais;


Onda Aérea foi o primeiro membro do clã Jordan
 a combater o crime.

*Apesar de Hal Jordan ter em Carol Ferris a sua eterna namorada, inicialmente os editores consideraram atribuir-lhe outro interesse romântico: ninguém menos do que a Mulher-Maravilha. Companheiros de equipa na Liga da Justiça, a relação entre ambos nunca foi, contudo, além de uma amizade baseada no respeito e admiração mútuos;
*Aos oficiais da Tropa Esmeralda é concedida a prerrogativa de personalizarem os seus uniformes. Hal Jordan adicionou uma máscara ao modelo-padrão, de modo a salvaguardar a sua identidade e a segurança dos que lhe são próximos;
*Na continuidade pré-Crise, o Lanterna Verde teve um leque de parceiros bizarros: Itty (uma estrela-do-mar alienígena) e um esquimó chamado Pieface (termo com conotações racistas) foram os mais duradouros. Da lista faziam ainda parte um cão e um motorista de táxi;

Itty, a estrela-do-mar alienígena que Hal Jordan teve como mascote.

*"In brightest day, in blackest night,/ No evil shall escape my sight./ Let those who worship evil's might,/ Beware my power...Green Lantern's light!" A versão original do juramento recitado pelo Lanterna Verde sempre que usa a sua bateria portátil para recarregar o seu anel energético é da autoria de Alfred Bester (1913-1987), conceituado escritor de ficção científica notabilizado por ter sido o primeiro vencedor do Prémio Hugo - galardão que, anualmente, distingue as melhores obras nesse género literário;
*Embora a jurisdição do Lanterna Verde da Terra se estenda por todo o Setor Espacial 2814 (que, por sua vez, abrange, mais de uma centena de planetas), Hal Jordan carece da autorização prévia do Batman para adentrar em Gotham City. Da violação dessa regra já resultaram escaramuças entre os dois heróis;
*A braços com uma grave crise de tesouraria, no início dos anos 80 a DC esteve prestes a vender os direitos de publicação do Lanterna Verde à Marvel. A Casa das Ideias já havia no entanto introduzido, em 1971, um conceito decalcado do Gladiador Esmeralda. Doutor Espectro, membro do Esquadrão Supremo (ele próprio um pastiche assumido da Liga da Justiça), detinha o poder de criar construções multicoloridas de energia luminosa por intermédio de um prisma de origem alienígena; 
*No universo da Amalgam Comics, o Lanterna Verde foi fundido com o Homem de Ferro, dando origem ao Lanterna de Ferro, alter ego de Harold Stark;
*Aquando da sua transformação em Parallax, Hal Jordan não usava o seu anel original. Este fora destruído por Lorde Malvolio e substituído por outro forjado pelo vilão. Ao contrário do modelo manufaturado pelos Guardiões do Universo, o novo anel afetava objetos de cor amarela;
*Hal Jordan já foi referenciado no Universo Marvel. Numa história assinada por Peter David, em The Incredible Hulk #426 (fevereiro de 1995), Hal foi apresentado como um doente mental internado num hospital psiquiátrico. No rescaldo de Zero Hora, os eventos por ele narrados são assumidos como meros delírios da sua mente fragmentada;

Alucinações de um herói caído em desgraça.

*No Top 100 dos melhores super-heróis de todos os tempos divulgado em 2011 pelo portal IGN, o Lanterna Verde ocupa uma honrosa 7ª posição. De entre os seus congéneres da DC, apenas os membros da Trindade surgem mais bem classificados;
*O Lanterna Verde viveu a sua primeira aventura fora dos quadradinhos em 1967. Ano em que estrelou o seu próprio segmento na série animada da Filmation The Superman / Aquaman Hour of Adventure. Antes de, em 2011, Ryan Reynolds vestir a pele de Hal Jordan no cinema, foi Howard Murphy o primeiro a fazê-lo na TV. Em 1979, Legends of the Super-Heroes, minissérie em dois episódios transmitida pela antena da NBC, apresentou o primeiro Lanterna Verde de carne e osso.

Howard Murphy em Legends of Super-Heroes (1979)



*Este blogue tem como Guia de Estilo o Acordo Ortográfico de 1990 aplicado à norma europeia da Língua Portuguesa.
* Artigos sobre o Lanterna Verde Alan Scott, Sinestro, Arqueiro Verde e Zero Hora disponíveis para leitura complementar.






17 julho 2021

GALERIA DE VILÕES: DUENDE VERDE

  Nenhum outro inimigo do Homem-Aranha lhe infligiu tanta dor e sofrimento. Sempre que o bufão berrante se entrega à sua macabra folia, a tragédia enluta o coração de Peter Parker, eternamente assombrado pelo vil legado do seu némesis.

Denominação original: Green Goblin 
Editora: Marvel Comics 
Criadores: Stan Lee (conceito) e Steve Ditko (história e arte conceptual)
Estreia: The Amazing Spider-Man #14 (julho de 1964)
Identidade civil: Norman Virgil Osborn
Espécie: Humano quimicamente modificado
Local de nascimento: Hartford, Connecticut 
Parentes conhecidos: Alton Osborn Sr. (bisavô paterno, falecido); Alton Osborn Jr. (avô paterno, falecido); Ambrose Osborn (pai, falecido); mãe incógnita (presumivelmente falecida); Emily Lyman-Osborn (esposa, falecida); Harold "Harry" Osborn (filho, falecido); Liz Allan (ex-nora); Normie Osborn (neto)
Ocupação: Magnata, cientista, inventor, presidente executivo da Oscorp e senhor do crime.
Base operacional: Da Mansão Osborn, nas cercanias de Nova Iorque, o Duende Verde transferiu em tempos o seu covil secreto para a Torre Oscorp, no coração de Manhattan, e, mais recentemente, para uma estação de metro abandonada, nos túneis subterrâneos da cidade que nunca dorme.
Afiliações: Fundador da Oscorp e ex-líder dos Doze Sinistros.
Némesis: Homem-Aranha
Poderes e parafernália: Embora extraordinariamente ágil e atlético, nas suas primeiras aparições o Duende Verde aparentava ser um homem comum dependente do seu arsenal temático para se afirmar no submundo nova-iorquino. Depressa se perceberia, porém, que ele detinha afinal habilidades sobre-humanas, designadamente força, velocidade e resistência incrementadas. E que na origem de todas elas estava um composto biogénico chamado Soro do Duende.
No entanto, mesmo antes de consumi-lo, Norman Osborn era extremamente inteligente e talentoso, senhor de vasto conhecimento científico em áreas tão diferenciadas como Química, Mecânica e Eletrónica. Como bem comprovam, aliás, os aprimoramentos por ele realizados ao soro inventado pelo seu ex-sócio e professor, Dr. Mendel Stromm, ou o facto de ter construído do nada o seu império empresarial. Não menos impressionante, projetou sozinho toda a parafernália tecnológica que equipa a sua maléfica persona.
Composto por um leque de dispositivos bizarros que remetem para o folclore do Dia das Bruxas, o arsenal do Duende Verde permite-lhe defrontar em pé de igualdade adversários com níveis de poder superiores ao seu. Certa vez, por exemplo, derrotou o Tocha Humana com recurso a uma espuma retardante de fogo.
A imagem de marca do Duende Verde são, contudo, as Bombas Abóbora. Como o nome sugere, tratam-se de granadas de mão semelhantes a miniaturas das lanternas de abóbora usadas como enfeites durante o Halloween. Quando lançadas, acendem-se silenciosamente produzindo calor suficiente para derreter aço com vários milímetros de espessura. Algumas delas emitem também fumaça, clarões atordoantes ou um gás especial capaz de anular temporariamente o sentido de aranha do Escalador de Paredes. Foi graças a esse artifício que o vilão logrou descobrir a verdadeira identidade do seu arqui-inimigo.

Esquema de uma Bomba Abóbora.

Protótipo de um exoesqueleto desenvolvido pela Oscorp para fins militares, o uniforme do Duende Verde foi posteriormente adaptado às especificações de Norman Osborn. Destaque para a túnica tecida com uma fina malha de aço à prova de bala e para as luvas com microfilamentos elétricos que canalizam descargas de alta voltagem. Para se proteger dos efeitos dos próprios gases, Osborn embutiu um filtro na máscara, a qual foi projetada para instilar medo.
Numa clara referência ao Dia das Bruxas, originalmente o Duende Verde voava montado numa vassoura de aço com motor a jato. Esta seria, contudo, rapidamente substituída pelo seu icónico planador em forma de morcego. Além de melhor aerodinâmica, o aparato, controlado manualmente ou via rádio, dispõe de um impressionante poder de fogo. De metralhadoras a lança-chamas, passando até por pequenos mísseis equipados com sensores térmicos, o seu sistema de armas é tão eclético quanto mortífero. Voando à velocidade máxima (140 km/h) e com carga total (180 kg), o planador do Duende Verde tem autonomia para uma hora. Para maior estabilidade e manobrabilidade, as botas do usuário são fixadas magneticamente aos seus estribos metálicos. 

Originalmente, o Duende Verde montava uma vassoura voadora.

Além dos poderes enumerados acima, o Duende Verde consegue regenerar tecidos e órgãos severamente danificados. Embora mais lento do que o fator de cura de Wolverine ou Deadpool, essa habilidade já lhe permitiu sobreviver a ferimentos potencialmente fatais. A enorme cicatriz no peito de Norman Osborn, trespassado pelo próprio planador durante uma batalha com o Homem-Aranha, comprova-o.
Com recursos financeiros ilimitados provenientes da colossal fortuna do seu alter ego, o Duende Verde, fruto das motivações pessoais por detrás das suas ações, faz sempre um forte investimento emocional nos seus estratagemas para humilhar o Homem-Aranha. Torcendo-se de furor de cada vez que fracassa nos seus tenebrosos desígnios. "Desistir" é, porém, um verbo que Norman Osborn nunca aprendeu a conjugar.
Quando não afetado pela sua atávica loucura, o Duende Verde é um exímio estratega capaz de delinear planos de elevada complexidade. Apesar dessa sua componente cerebral, é também um lutador experiente que não teme o combate desarmado. Tanto mais que a sua força (estimada em 9 toneladas) se equivale, grosso modo, à do Homem-Aranha. 
Tudo somado, percebe-se porque são sempre os duelos entre ambos tão renhidos e de desfecho imprevisível. Um e outro podem apenas a aspirar a uma vitória pírrica, tão alto seria o preço a pagar por ela.

Cicatrizes de guerra.

Fraquezas: Putativo efeito colateral da fórmula química responsável pela amplificação das suas capacidade físicas, motoras e cognitivas, a insanidade é o calcanhar de Aquiles do Duende Verde. O histórico de distúrbios mentais na família Osborn sugere, todavia, que esta poderá ser hereditária, tendo sido apenas potenciada pelo Soro do Duende. Note-se que, além próprio Norman, também o seu pai Ambrose e o seu filho Harry sucumbiram à demência. Toda a linhagem Osborn parece, de facto, inquinada por ela.
Delírios de grandeza e fragmentação da personalidade constituem os sintomas mais evidentes da instabilidade mental de Norman Osborn. Que, condicionado por ela, toma frequentemente decisões irracionais pautadas pela impulsividade. Por conta dessa sua imprudência, cai repetidas vezes nas armadilhas preparadas pelos seus adversários, dá o flanco em combate e incorre noutras situações de elevada perigosidade.

Norman Osborn e o Duende Verde foram, durante algum tempo,
personalidades distintas em disputa pelo controlo.

Por ter, em diferentes ocasiões, enganado a morte, Norman Osborn julga-se invencível, subestimando amiúde os seus oponentes. Erros de avaliação que redundam quase sempre na sua derrota. Exemplo disso foi quando o Duende Verde capturou o Homem-Aranha pela primeira vez. Mesmo sabendo que o herói se preparava para escapar, nada fez para impedi-lo, convicto que estava da sua superioridade em combate.
Outro ponto fraco do Duende Verde radica na sua proverbial arrogância. Aquela que, entre outras coisas, o levou a desperdiçar a oportunidade de comandar o Sexteto Sinistro. Apenas porque unir-se ao grupo significaria reconhecer a sua incapacidade de vencer sozinho o Homem-Aranha. Algo impensável para alguém tão ufano como Norman Osborn. Apesar da sua empáfia, o vilão formaria mais tarde os Doze Sinistros, cujo elenco, por sinal, incluía alguns ex-membros do Sexteto Sinistro.


Inimigo íntimo

Na exuberante galeria de inimigos do Escalador de Paredes avultam alguns dos maiores expoentes de vilania da banda desenhada. Nenhum deles lhe proporcionou porém um festival de sofrimento como o Duende Verde. Foi ele o primeiro a descobrir a verdadeira identidade do herói aracnídeo e a assassinar um dos seus entes queridos. Como se isso não bastasse para consagrar a sua marca de maldade, foi também ele o arquiteto de uma monstruosa conspiração (eventos narrados na Saga do Clone, já aqui esmiuçada) que virou do avesso a vida de Peter Parker, mergulhando-o numa perturbadora crise de identidade.
Ao tomar a decisão fatal de eleger o Homem-Aranha como seu némesis, o Duende Verde prendeu ambos num interminável ciclo de horror e tragédia. Enfatizado pelo dramático enlace entre as suas vidas pessoais, uma vez que Norman Osborn é o pai do melhor amigo de Peter. Mas tudo teria sido muito diferente se as ideias originais dos seus autores tivessem vingado.
Na sinopse original do Duende Verde, Stan Lee descreveu-o como um antigo demónio mitológico despertado acidentalmente por uma equipa de filmagens que tropeçara numa espécie de sarcófago egípcio. Por considerá-lo desajustado ao registo realista na base do sucesso das histórias do Homem-Aranha, Steve Ditko reformulou por completo o conceito proposto pelo seu parceiro criativo.
Em vez de um ente sobrenatural, o Duende Verde seria, assim, apenas humano. Pensado para ser apenas outro antagonista de circunstância, o novo vilão fez a sua mise-en-scène em The Amazing Spider-Man #14, edição datada de julho de 1964. Apesar do mistério em torno da sua origem e identidade (ou por causa dele), o Duende Verde provou-se surpreendentemente popular entre os leitores.

A estreia oficial do Duende Verde em The Amazing Spider-Man #14 (1964)
teve o Incrível Hulk como convidado especial.

Mediante esse inesperado sucesso, o passo seguinte foi estabelecer o alter ego do Duende Verde, o qual seria pomo de discórdia entre os seus criadores. 
Enquanto Lee pretendia alguém conhecido do Homem-Aranha, Ditko preferia um anónimo sem qualquer ligação ao herói. Ditko sustentava a sua escolha no facto de, na vida real, as maiores inimizades despontarem aleatoriamente entre desconhecidos. A isto Lee contrapunha que uma ligação pessoal entre as duas personagens concederia (ainda) maior carga dramática às histórias do Escalador de Paredes. Acrescentando que, ao fim de tantos meses de suspense e pistas falsas, os leitores se sentiriam defraudados se assim não fosse.
Apesar de ter sido a visão de Lee a prevalecer, subsistem até hoje dúvidas acerca de quem terá partido afinal a ideia de estabelecer Norman Osborn como identidade civil do Duende Verde. Lee reclamava para si esse mérito, ao mesmo tempo que admitia poder ter sido atraiçoado pela sua péssima memória.
Ditko, por seu lado, afirmou sempre ter sido ele o autor da ideia, antes mesmo da conclusão do primeiro arco de histórias no qual o Duende Verde participou. Vários indícios parecem, de resto, corroborar esta tese.
Pese embora Norman Osborn não ter sido formalmente apresentado até The Amazing Spider-Man #37, Ditko afiançou ser ele a personagem que surgia em dois painéis no 23º número da série. Dando crédito a esta afirmação, o facto de a referida personagem - um discreto membro do Clube de Empresários da privança de J. Jonah Jameson - ter marcado presença nas edições seguintes. Numa delas, em The Amazing Spider-Man #25, Osborn visitou inclusivamente a redação do Daily Bugle - sem, contudo, se cruzar com Peter Parker.

O insuspeito Norman Osborn visita
 o seu amigo J.J. Jameson em The Amazing Spider-Man #25 (1965).

A grande revelação teve lugar em The Amazing Spider-Man #39. Naquela que foi a primeira história do Homem-Aranha a ser desenhada por outro artista - John Romita Sr. - que não Ditko, os leitores ficaram finalmente a saber que, por trás da máscara do Duende Verde, se escondia o rosto de Norman Osborn. Estava dado o mote para uma das mais trágicas rivalidades do Universo Marvel. E nem os seus criadores escaparam incólumes.
Devido a alegadas divergências criativas com Stan Lee, Ditko abandonara entretanto a série. O Homem-Aranha perdia um dos seus "pais", mas ganhava um inimigo íntimo. 
Ao tingir com o sangue de Gwen Stacy os anos terminais da Idade de Prata, o Duende Verde assinalou o fim da inocência nos comics. De então para cá, as trevas imiscuíram-se nas histórias de super-heróis, eles próprios cada vez menos exemplos de virtude e abnegação.


Legado Sinistro

Norman Osborn é um self made man com fome leonina de poder. Fervoroso adepto do darwinismo social, acredita que o mundo pertence aos fortes e que dos fracos não reza a História. Para predestinados como ele, nenhum fracasso é permanente e os fins justificam sempre os meios. O seu sucesso empresarial, baseado em doses iguais de genialidade e amoralidade, contrasta, porém, com a disfuncionalidade da sua vida familiar que compromete a sobrevivência do seu legado.
Primogénito de Ambrose Osborn, um magnata industrial, Norman Osborn nasceu em Hartford, no Connecticut. A sua infância despreocupada foi violentamente interrompida quando o pai perdeu a fortuna da família devido a uma alegada usurpação de patentes. 
Ambrose tornou-se um alcoólatra abusivo que descontava as suas frustrações na esposa e no filho. Norman depressa passou a desprezar o pai ao mesmo tempo que desenvolvia uma personalidade antissocial com precoces tendências homicidas.

Ambrose Osborn entregou-se à bebida após perder o seu negócio.

Numa noite de intempérie, Ambrose trancou o pequeno Norman numa das casas devolutas da família. Esperava assim curar a fobia do filho em relação à escuridão. Sozinho na penumbra, o apavorado Norman teve alucinações com um monstro esverdeado semelhante a um duende sinistro. Não era, porém, a primeira vez que a criatura o aterrorizava. Já antes lhe aparecera em pesadelos.
Temendo ser devorado pelo monstro assim que a escuridão cedesse lugar à luz do dia, Norman percebeu que era a primeira que o fortalecia. Naquele noite, abraçou para sempre as trevas.
Episódios traumáticos como este definiram o caráter de Norman, disposto a tudo para não ser um fracassado como o pai. Porque dinheiro é poder e um homem sem poder não é nada, o primeiro passo seria recuperar a fortuna da família. 
Com esse objetivo em mente, Norman mudou-se para Nova Iorque. Graças a uma bolsa de estudo, cursou Química e Gestão Empresarial na Universidade Empire State (UES, a mesma alma mater de Peter Parker). Foi lá que conheceu e se apaixonou por uma encantadora jovem chamada Emily Lyman. Apesar da cada vez mais evidente natureza rapace de Norman, Emily conseguiu trazer à tona o melhor dele.
Tão logo concluíram os respetivos cursos, o casal trocou alianças. Dessa união nasceu um filho, Harry Osborn. A felicidade familiar seria, no entanto, sol de pouca dura. Pouco meses após o nascimento de Harry, Emily faleceu em consequência de um problema de saúde. 

A morte prematura da sua esposa empurrou
 Norman Osborn para o abismo da loucura.

Privado do amor da esposa e angustiado pelo papel de pai solteiro, Norman retomou a sua obsessão de acumular riqueza e poder, negligenciando o filho. Em consequência desse desafeto, Harry desenvolveria, durante a adolescência, uma dependência de drogas que quase lhe foi fatal. Crescendo na sombra do pai, o jovem tornou-se um adulto depressivo, inseguro e solitário.
Já os negócios de Norman Osborn iam de vento em popa. Tendo como sócio minoritário o Dr. Mendel Stromm, seu antigo professor na UES, Norman fundou um conglomerado industrial, a Oscorp. Quando Stromm desviou dinheiro das contas da empresa, Norman, indiferente às suas justificativas, denunciou o sócio à policia.

Norman Osborn não perdoou o desfalque do ex-sócio.

Com Stromm atrás das grades, Norman assumiu o controlo total da Oscorp e apropriou-se do trabalho do seu ex-mentor. Socorrendo-se das anotações de Stromm, Norman tentou recriar um composto químico capaz de incrementar as capacidades físicas dos humanos. Sempre inescrupuloso, usou, com resultados desastrosos, um funcionário como cobaia.
Apesar de frustrado com a sua pesquisa, Norman não deitou a toalha ao chão. Uma nova mistura revelou-se volátil e explodiu-lhe no rosto. No hospital, Norman recuperou em tempo recorde e conseguia pensar com mais clareza do que nunca. Percebendo que a fórmula o deixara não só mais forte mas também mais inteligente, Norman decidiu banhar-se nela. Ao fazê-lo, abriu mão da última réstia de sanidade mental.
Determinado em alcançar o poder que tanto almejava, Norman Osborn sonhava liderar o cartel criminoso de Nova Iorque. Nesse sentido, criou a persona do Duende Verde (inspirado no monstro que,  na infância, lhe povoava os pesadelos) e procurou unir sob o seu comando todas as quadrilhas independentes a operar na cidade.
Ciente da necessidade de estabelecer uma reputação no submundo, Norman escolheu como alvo ninguém menos do que o Homem-Aranha. Após consecutivas derrotas dos seus sequazes, o Duende Verde resolveu tomar em mãos a missão de destruir o Escalador de Paredes.
Uma missão que ficou facilitada quando o Duende Verde descobriu que o Homem-Aranha era na verdade Peter Parker, um jovem universitário amigo do seu filho. Depois de capturar o herói, Norman desmascarou-se também, antes de permitir a fuga de Peter.

Os inimigos deixam cair as suas máscaras.

Na encarniçada refrega que se seguiu, o Homem-Aranha eletrocutou acidentalmente o Duende Verde. Este sobreviveu mas ficou amnésico.  Desejando resguardar Harry de novo trauma, o Homem-Aranha destruiu a fantasia do Duende Verde no incêndio resultante. À polícia, relatou que Norman Osborn perdera a memória depois de ter sido atacado pelo vilão. 
Meses mais tarde Norman recuperaria, porém, a memória. Sedento de vingança, reviveu o Duende Verde e raptou Gwen Stacy, a namorada de Peter Parker. Durante uma batalha noturna, o vilão, num assomo de sadismo, atirou Gwen do alto de uma ponte. Ao tentar resgatá.la com a sua teia, o Homem-Aranha partiu acidentalmente o pescoço da jovem, matando-a. Essa seria, no entanto, apenas a primeira tragédia na periferia da vida de Peter Parker com a marca do seu némesis.
Com a fúria a rasgar por ele acima, o herói aracnídeo perseguiu o Duende Verde até ao seu covil. No clímax da contenda, o Duende Verde teve o peito transfixado pelo próprio planador.

A morte do Duende Verde não seria o fim do seu vil legado.

Acoitado nas sombras, Harry Osborn testemunhou, impotente, a derrota fatal do pai às mãos do Homem-Aranha e jurou vingança. Seria ele o primeiro a assumir o sinistro legado do Duende Verde, durante o longo período em que Norman Osborn esteve morto para o mundo..
Harry foi curado da sua obsessão com o Homem-Aranha por um psiquiatra chamado Bart Hamilton. Ironicamente, Hamilton tornar-se-ia o terceiro Duende Verde. Mas outros sucessores se perfilaram. 
Anos mais tarde, seria a vez de Phil Urich - sobrinho de Ben Urich, repórter do Daily Bugle -, reclamar para si o legado do Duende Verde. Ao contrário dos seus antecessores, usou-o para benefício da comunidade. 
Por fim, Roderick Kingsley, um milionário excêntrico que descobriu um antigo esconderijo do Duende Verde, criou um pastiche do vilão original chamado Duende Macabro. De entre a chusma de imitadores, foi, sem dúvida, o mais bem-sucedido. 
Nenhum deles imaginava no entanto que Norman Osborn estava vivo, algures na Europa, marinando a sua vingança suprema. Aquela que, anos volvidos, seria servida sob a forma de uma rebuscada conspiração que levou Peter Parker a acreditar ser um clone criado em tempos pelo Professor Miles Warren (vulgo Chacal, outro velho inimigo do Cabeça de Teia). A verdade só seria reposta quando Ben Reilly, o verdadeiro clone, se sacrificou para salvar a vida de Peter. Na mórbida contabilidade da guerra sem quartel entre o Homem-Aranha e o Duende verde, foi ele o segundo ente querido do herói morto às mãos do seu arqui-inimigo.
Numa inesperada reviravolta, desde a morte do filho, devido aos efeitos adversos de uma versão experimental do Soro do Duende, Norman Osborn passou a ver em Peter Parker um herdeiro digno do seu legado. Uma "honra" que Peter rejeitou sem pensar duas vezes, Mas isso não impedirá que ele continue a ser assombrado pelo Duende Verde até ao final dos seus dias. 

Forças opostas em conflito perpétuo.


Miscelânea

*Grande e Terrível, Duende Rei do Crime e Senhor dos Duendes são cognomes pelos quais o Duende Verde está habituado a responder no submundo nova-iorquino onde há muito consolidou a sua temível reputação;
*O Duende Verde foi um dos supervilões a figurar na série A de selos de valor lançados pela Marvel em 1974. Esteve, no entanto, ausente de todas as séries subsequentes;
*Em Amazing Spider-Man #122, quando o Duende Verde morre empalado pelo próprio planador, o Homem-Aranha cita a Bíblia, numa notória referência ao complexo de Deus do seu inimigo: "Assim morrem os homens orgulhosos: crucificados, não numa cruz de ouro, mas numa modesta estaca de lata.";
*Ao matar Gwen Stacy, o Duende Verde destronou o Doutor Octopus como arqui-inimigo do Homem-Aranha. Norman Osborn, considera, aliás, esse um dos seus maiores feitos, dos quais gosta de vangloriar-se. No entanto, num controverso retcon de 2004, intitulado Sins Past (Pecados Pretéritos), foi revelado que ele tivera um affair com Gwen Stacy, poucos meses antes da morte da jovem e quando esta ainda namorava com Peter Parker. Mais escabrosa ainda, a revelação de que desse relacionamento resultara uma gravidez. Gwen terá dado secretamente à luz um casal de gémeos, que Norman criou algures na Europa durante a sua longa ausência. Escusado será dizer que tal heresia mereceu o repúdio dos leitores - em especial, os da velha guarda -, enojados com o revisionismo que transformou a angelical Gwen Stacy numa promíscua;

Norman Osborn e Gwen Stacy, o pecado da carne.

*O Duende Verde foi o primeiro supervilão da Marvel a aparecer num jogo de vídeo: Spider-Man foi desenvolvido em 1982 pela Parker Brothers para a consola Atari 2600;
*Desde 2016 que o Duende Verde ocupa o 24º lugar na tabela dos 100 melhores vilões de todos os tempos divulgada pelo IGN. Entre os seus congéneres da Marvel, apenas Magneto e Doutor Destino conseguiram melhor classificação. No ano anterior, o site Comics Alliance elegera o Duende Verde como o melhor inimigo do Homem-Aranha;
*Na continuidade da Amalgam Comics, o Duende Verde foi combinado com o Duas-Caras da DC, originando o Duende de Duas Caras (alter ego de Harvey Osborn). O uniforme do vilão dessa realidade paralela era em tudo idêntico ao do original. Sob a sua máscara, escondia-se, porém, o rosto desfigurado de Harvey Dent. Em aparições posteriores, o Duende de Duas Caras teria o seu visual retocado e ganharia um planador em forma de moeda gigante. Curiosamente, o Duende Verde é visto por muitos como o Joker da Marvel, ao passo que Norman Osborn tem muito em comum com Lex Luthor;

Duende de Duas Caras.

*O Duende Verde foi o primeiro antagonista do Escalador de Paredes em todas as suas adaptações audiovisuais. O seu salto para fora das vinhetas aconteceu num dos episódios iniciais de Spider-Man, série animada da ABC, no ar entre 1967 e 1970. No cinema, o Duende Verde começou por ser vivido, em 2002, por Willem Dafoe, na longa-metragem Homem-Aranha. Em 2014, seria a vez de Dane DeHann vestir-lhe a pele em O Espetacular Homem-Aranha 2: O Poder de Electro. O Duende Verde foi também o vilão de serviço em Spider-Man: Turn Off the Dark, musical levado à cena na Broadway, e que se manteve em cartaz durante quase três anos.

Dane DeHann (esq.) e Willem Dafoe encarnaram o Duende Verde no cinema.



*Este blogue tem como Guia de Estilo o Acordo Ortográfico de 1990 aplicado à norma europeia da Língua Portuguesa;
*Artigos sobre Steve Ditko, Saga do Clone, A Morte de Gwen Stacy, Homem-Aranha e Duende Macabro disponíveis para leitura suplementar.