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terça-feira, 15 de abril de 2014

BD CINE APRESENTA: «BATMAN - O INÍCIO»

 



     Naquele que seria o primeiro capítulo da épica trilogia do Cavaleiro das Trevas dirigida por Christopher Nolan, a origem do soturno herói foi revisitada, sendo notórias as influências de Batman: Year One. Sucesso de crítica e de bilheteira, Batman - O Início resgatou uma franquia que muitos julgavam irremediavelmente perdida.

Título original: Batman Begins
Ano: 2005
País: EUA/Reino Unido
Género: Ação/Drama/Suspense/Fantasia
Duração: 140 minutos
Realização: Christopher Nolan
Argumento: David S. Goyer e Christopher Nolan
Estúdio: Legendary Pictures e Syncopy Films
Distribuição: Warner Bros.
Elenco: Christian Bale (Bruce Wayne/Batman), Michael Caine (Alfred Pennyworth), Liam Neesson (Henri Ducard/ R'as Al Ghul), Katie Holmes (Rachel Dawes), Gary Oldman (Sargento James Gordon), Cillian Murphy (Dr. Jonathan Crane/Espantalho) e Morgan Freeman (Lucius Fox).
Orçamento: 150 milhões de dólares
Receitas: 374,2 milhões de dólares

Oito anos após a sua última aventura cinematográfica, Batman regressou triunfalmente ao grande ecrã.
 
Produção e desenvolvimento: Em janeiro de 2003, a Warner Bros. contratou o realizador de Memento, Christopher Nolan, para dirigir um filme de Batman. Meses depois, foi a vez de David S. Goyer (argumentista da quadrilogia cinematográfica de Blade) ser contratado. Coube a ambos reabilitar a franquia do Homem-Morcego, após o monumental fracasso de Batman & Robin, em 1997.
       Nolan sempre assumiu que a sua intenção seria retratar a origem do Cavaleiro das Trevas, história nunca devidamente contada nas anteriores transposições da personagem ao grande ecrã. Para tal, a humanidade e o realismo seriam as duas pedras de toque do filme. Goyer, por seu turno, afirmou que o objetivo da sua história era levar o público a identificar-se com Bruce Wayne e com o seu sombrio alter ego.
      Nolan teve em Superman (dirigido em 1978 por Richard Donner), a sua principal referência. À semelhança dessa película, Nolan, que considerava que as anteriores adaptações de Batman ao cinema tinham tido mais estilo do que drama, desejava que a história do seu filme se centrasse na origem e evolução do herói. Seguindo ainda o exemplo de Superman, o cineasta reivindicou um elenco coadjuvante repleto de estrelas, o qual serviria para conferir uma maior credibilidade ao projeto e um registo épico à narrativa.
      Segundo o próprio revelou, o ponto de partida para Nolan foi uma antiga história do Homem-Morcego, The Man Who Falls - escrita por Dennis O'Neil e ilustrada por Dick Giordano -, que narra as viagens de Bruce à volta do globo. A cena inicial de Batman Begins, na qual Bruce cai num poço e é atacado por morcegos, foi adaptada dela.

Christopher Nolan: o realizador britânico captou como ninguém a essência de Batman.
 
      Por outro lado, Batman: The Long Halloween, da autoria de Jeph Loeb e Tim Sale, influenciou o guião de David S. Goyer. Carmine Falcone é, aliás, um dos elementos retirados desse arco de histórias. Além disso, o sargento James Gordon do filme é baseado na sua encarnação de Batman: Year One. Goyer, de resto, aproveitou o artifício de Frank Miller na referida saga, que passava por apresentar uma força policial corrupta que leva Gordon e Gotham City a precisarem de Batman.
      Como em todos os seus filmes, Nolan, a fim de manter uma apertada supervisão, recusou ter uma segunda unidade de produção. As filmagens arrancaram em março de 2004, num glaciar finlandês que serviu de cenário para as sequências situadas no Butão.
      A equipa construiu uma grande vila e os portões fronteiros do templo de R'as Al Ghul, assim como as vias de acesso à área remota. Com chuva, ventos de 120 km/h e falta de neve, o clima revelou-se um autêntico quebra-cabeças.
      No entanto, a maior parte da produção teve lugar no Reino Unido, especificamente nos Shepperton Studios. O cenário da Batcaverna foi construído lá, com 76 metros de comprimento, 37 de largura e 12 de altura. Foram ainda instaladas 12 bombas para criar uma queda de água artificial.
      O prédio escolhido para representar o Asilo Arkham foi o National Institute for Medical Research, a noroeste de Londres. Já a University College London foi usada para fazer as vezes dos tribunais de Gotham City.
      Apesar do tom sombrio da película, Nolan quis que ela fosse apelativa para uma ampla faixa etária. Motivo pelo qual nada de muito sangrento foi filmado.

O visual renovado do Cavaleiro das Trevas.
Enredo: Um jovem Bruce Wayne cai num poço e é atacado por morcegos esvoaçantes. Ele acorda desse pesadelo sobre o seu passado e descobre que se encontra encarcerado numa prisão algures no Butão.
      Pouco depois, Bruce é apresentado ao misterioso Henri Ducard, um emissário de R'as Al Ghul, o líder da lendária Liga das Sombras. Ducard convida-o a ser treinado no templo da sua organização. Bruce aceita.
      A narrativa regressa à infância de Bruce, mais precisamente à noite em que os seus pais foram mortalmente baleados durante um assalto num beco esconso de Gotham City. Joe Chill, o assassino, é preso e o pequeno Bruce é levado para a mansão Wayne, onde fica aos cuidados do devoto mordomo da família, Alfred Pennyworth.
      Anos depois, Bruce retorna a Gotham com a intenção de matar Chill, cuja sentença está prestes a ser revogada para que testemunhe contra o padrinho da Máfia Carmine Falcone. Antes, porém, que Bruce tenha oportunidade de concretizar os seus intentos, Chill é executado a sangue frio por um dos sicários ao serviço de Falcone.
      Ao descobrir o plano gorado de Bruce, Rachel Dawes,  sua amiga de infância e agora assistente do promotor público, repreende-o e fá-lo notar que o seu pai se envergonharia do homem em que ele se tornou.
      Nessa mesma noite, Bruce confronta Carmine Falcone, que lhe diz que o seu império é invencível porque é alicerçado no medo. Simultaneamente frustrado e inspirado, Bruce decide viajar pelo mundo, a fim de aprofundar os seus conhecimentos sobre o universo do crime. É dessa forma que acaba num presídio no Butão.

Depois de Michael Keaton, Val Kilmer e George Clooney, Christian Bale assumiu o manto do morcego no cinema.
 
      Concluído o treino de Bruce pela Liga das Sombras, R'as Al Ghul e Ducard revelam-lhe enfim o seu propósito: ele deverá liderar a Liga em Gotham City com vista à sua aniquilação, uma vez que a cidade se tornara demasiado corrupta para poder ser salva. Bruce recusa alinhar no plano de genocídio e envolve-se numa refrega com R'as. Dela resulta a destruição do templo e a aparente morte do mentor da Liga das Sombras. Ducard, no entanto, é salvo por Bruce, que regressa a Gotham City.
      Falcone domina agora a cidade a seu bel-prazer. Empenhado em derrubá-lo, Bruce pede ajuda ao sargento James Gordon, um dos poucos elementos honestos do Departamento de Polícia de Gotham City, e a Lucius Fox, antigo membro da diretoria das Indústrias Wayne. Este último ajuda-o a adquirir os protótipos de um veículo blindado e de uma armadura de combate. Ambos projetos desenvolvidos em tempos pelas Indústrias Wayne para os militares, mas entretanto cancelados.
      Com a ajuda de Alfred, Bruce descobre uma outra entrada para as cavernas subterrâneas existentes sob a mansão Wayne, as quais resolve converter na sua futura base de operações.
      Na sua primeira noite como Batman, Bruce interceta um carregamento de drogas e captura Falcone, providenciando a Rachel Dawes provas suficientes para incriminá-lo. Todavia, em vez de ser enviado para a penitenciária, Falcone e os seus sequazes são internados no Asilo Arkham graças à intervenção do seu corrupto administrador, o Dr. Jonathan Crane.  Este vinha há muito fazendo negócios com o mafioso, designadamente a importação ilegal de um poderoso alucinogénio que o psiquiatra aplicava secretamente nos seus pacientes.
      Quando Falcone reclama um lucro maior na transação, Crane injeta-o com essa espécie de toxina do medo, deixando-o totalmente insano.
 
Cillian Murphy no duplo papel de Dr. Jonathan Crane e Espantalho.
 
      Enquanto investiga o circuito de distribuição da nova droga, Batman depara-se com Crane, que lhe aplica uma dose da sua toxina do medo. À beira de perder a razão, o herói é salvo por Alfred, que lhe inocula uma antitoxina produzida por Lucius Fox.
      Crane, entretanto, atrai Rachel Dawes ao Asilo Arkham, revelando-lhe que a sua toxina do medo vem sendo libertada há semanas nos reservatórios de água de Gotham. A própria Dawes acaba infetada pelo vilão. É, no entanto, salva por Batman que, depois de obrigar Crane a provar do seu próprio remédio, a transporta para a sua caverna, onde administra a antitoxina na jovem.
      De seguida, o Cavaleiro das Trevas confia dois frascos da antitoxina a Rachel Dawes: o primeiro para Gordon, o segundo para ser produzido em massa.
     Na festa do trigésimo aniversário de Bruce Wayne, na sua mansão, o jovem milionário é confrontado por Henri Ducard, que revela ser o verdadeiro R'as Al Ghul. O vilão veio a Gotham City para testemunhar in loco a destruição da cidade. Mancomunado com Crane, Al Ghul promoveu a contaminação da água de Gotham com a toxina do medo, para depois a evaporar empregando um dispostivo de micro-ondas roubado das Indústrias Wayne.
     Fingindo-se embriagado, Bruce expulsa todos os convidados da mansão. Quando ele e R'as Al Ghul ficam a sós, tem início um duelo frenético.
 
R'as Al Ghul (esq.) e Bruce Wayne: mestre e pupilo reencontram-se ao cabo de vários anos.
 
     Em simultâneo, os homens de R'as incendeiam a mansão, libertam todos os prisioneiros do Asilo Arkham e vaporizam o alucinogénio na atmosfera, potenciando dessa forma os seus efeitos mortíferos. 
     Apesar de a mansão Wayne ficar reduzida a uma pilha de escombros e cinzas fumegantes,  Bruce consegue escapar com a ajuda de Alfred. Rachel, entretanto, entrega o antídoto a Gordon e neutraliza o Espantalho - o alter ego insano do Dr. Crane - atingindo-o com um taser.
     Batman revela a sua verdadeira identidade a uma estarrecida Rachel e depois convence Gordon a conduzir o Batmobile para a Torre Wayne, onde funciona a central do metro suspenso de Gotham.
      Enquanto o herói confronta R'as no topo do comboio, Gordon destrói os carris. Desgovernada, a composição galga os trilhos arrastando consigo R'as Al Ghul. Batman, por seu lado, salva-se por um triz.
      Após estes eventos, Batman torna-se um herói aos olhos da opinião pública e Bruce Wayne recupera o controlo da sua empresa. Como primeiro ato oficial, demite o anterior diretor executivo e nomeia Lucius Fox para o seu lugar.
      Incapaz de amar Bruce e Batman ao mesmo tempo, Rachel abandona Gotham City com a promessa de voltar caso ele desista de ser o Homem-Morcego.
 
Rachel Dawes (Katie Holmes) é o par romântico de Bruce Wayne em Batman Begins.
 
      Na cena final - decalcada do epílogo da saga Batman: Year One (ver texto anterior) - Gordon encontra-se com Batman no telhado do Departamento de Polícia de Gotham e mostra-lhe uma carta com um Joker sorridente, representando a mais recente ameaça à segurança dos habitantes da cidade.
 
No seu regresso ao grande ecrã, Batman deu lugar ao Cavaleiro das Trevas.

Prémios e indicações: Foi na categoria de Melhor Fotografia que Batman - O Início teve a sua única nomeação para um Óscar, a qual acabaria contudo por não vencer. Foi igualmente indicado para Melhor Direção de Arte, Melhor Som e Melhores Efeitos Visuais nos BAFTA (homólogos britânicos dos Óscares).
      Escassos meses após o seu lançamento, o primeiro capítulo da nova vida do Cavaleiro das Trevas no cinema foi eleito o 36º melhor filme de todos os tempos pelos leitores da revista Empire. Venceu ainda três Saturn Awards nos segmentos Melhor Filme de Fantasia, Melhor Argumento (David S. Goyer e Chris Nolan) e Melhor Ator (Christian Bale). Já a performance de Katie Holmes no papel de Rachel Dawes foi pouco apreciada pelos espectadores, facto que lhe valeu um indicação para o Razzie (espécie de anti-Óscar) de Pior Atriz Secundária.
 
O olhar penetrante de um herói atormentado.

Curiosidades:
* Numa entrevista concedida ao site Moviefone, Christian Bale revelou que ficou interessado em interpretar Batman depois de ler a aclamada novela gráfica da autoria de Grant Morrison e David McKean, Arkham Asylum, que lhe fora emprestada por um amigo em 2000;
* O tremendo desconforto que o fato de Homem-Morcego provocava no ator  deixava-o genuinamente mal-humorado, facto que ajudou à sua performance representativa. No primeiro dia de filmagens, Bale, num esforço homérico para se adaptar ao traje, usou-o horas a fio;
* Grande parte da parafernália usada pelo herói no filme - incluindo a sua capa e armadura - é baseada em tecnologia militar real;
* Antes do arranque das filmagens, Chris Nolan reuniu toda a equipa para o visionamento do clássico futurista Blade Runner (1982). No final da sessão cinematográfica, o realizador anunciou que a película seria a pedra de toque para Batman Begins;
* Durante as filmagens, Christian Bale ficou afónico em três ocasiões, em resultado das suas modelações de voz para tornar Batman mais sinistro;
* O cantor Marilyn Manson foi um dos nomes equacionados para assumir o papel de Espantalho;
* Na trilogia do Cavaleiro das Trevas dirigida por Nolan, apenas o primeiro filme conta com vilões inéditos, ou seja, que não figuraram na quadrilogia anterior a cargo de Tim Burton e Joel Schumacher;
* Foi também a primeira adaptação de Batman ao grande ecrã que não teve o seu criador como consultor (Bob Kane falecera em 1998), e na qual figurou o  novo logótipo da DC;
* Tim Burton e Michael Keaton reconheceram terem ficado impressionados após o visionamento de Batman Begins;
* Rachel Dawes é uma personagem inexistente na BD original, tendo sido criada a pensar especificamente na atriz Katie Holmes;
* Foram produzidos cinco Batmobiles. Apesar de dispensar duplos em muitas das suas cenas de luta, Christian Bale foi expressamente proibido de se aproximar dos veículos. Cautelas que não impediram, contudo, um episódio caricato: durante a gravação de uma cena nas ruas de Chicago, um condutor, aparentemente alcoolizado, abalroou o Batmobile, por o ter confundido com uma nave extraterrestre(!).

A nova versão do Batmobile foi batizada de Tumbler.
Veredito: 73%

     Muito distante do ambiente psicadélico de Batman Forever e Batman & Robin (ambos dirigidos por Joel Schumacher em 1995 e 1997, respetivamente), Batman Begins recupera a atmosfera sombria dos dois primeiros filmes do Homem- Morcego (Batman e Batman Returns), realizados por Tim Burton, acrescentando-lhe uma inédita densidade psicológica. Com efeito, nunca, fora dos quadradinhos, as motivações (leia-se obsessões) e medos da personagem haviam sido tão profundamente explorados. Tanto Bruce Wayne como a sua taciturna contraparte veem as suas forças e fraquezas postas a nu, tornando-os mais humanos do que nunca aos olhos dos espectadores e, dessa forma, conferindo maior verosimilhança à narrativa.
     Por outro lado, um enredo inteligente sustentado por um rol de atores de primeira grandeza - onde pontificam, entre outros, Morgan Freeman, Gary Oldman e Michael Caine -  robustece a carga dramática do filme, habilmente temperada por sequências de ação, a espaços, espetaculares.

No sentido dos ponteiros do relógio: Morgan Freeman, Gary Oldman, Michael Caine e Liam Neeson. Uma verdadeira constelação a abrilhantar Batman Begins.
 
     Ainda a propósito do magnífico elenco de Batman Begins, muitos são os que consideram que a escolha de Christian Bale para encarnar o Cavaleiro das Trevas foi o ingrediente que faltava na receita para o sucesso dos filmes baseados naquele que é, indubitavelmente, um dos mais populares super-heróis à escala planetária. Sem depreciar as inegáveis virtualidades representativas do ator galês, na minha opinião, ele perde na comparação com Michael Keaton. Falta a Bale o charme psicótico que Keaton esbanjou nos dois primeiros filmes da quadrilogia original. Na verdade, é curioso notar que se o segundo captou melhor a essência do Homem-Morcego, o primeiro é muito mais credível como Bruce Wayne.
     Christopher Nolan percebeu bem a importância de uma boa origem, algo que os seus antecessores na cadeira da realização negligenciaram. Quando a história apresentada teve como principais referências algumas das mais magistrais sagas do Homem-Morcego, é (quase) impossível o resultado final não ser fantástico.
     Por tudo isto, Batman Begins deixou enlevados os fãs, que, na altura, estavam longe de imaginar que as suas duas sequelas o superariam. Sim, porque, apesar da sua elevada qualidade, o primeiro capítulo é, ainda assim, o menos arrebatador da trilogia. É, pois, caso para dizer que o melhor ainda estava por vir. E ainda bem.