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sábado, 31 de janeiro de 2015

EM CARTAZ: «SUPER-HOMEM III»




    Muito por culpa do inusitado registo cómico do enredo, do baixo orçamento e das várias alterações no elenco, é por muitos considerado o mais sofrível dos filmes do Homem de Aço. Pressentindo o inexorável declínio da franquia, Christopher Reeve anunciou depois dele a sua intenção de não repetir o papel que o imortalizaria na história do cinema e dos quadradinhos.

Título original: Superman III
Ano: 1983 (ano em que se assinalou o 45º aniversário da criação do Último Filho de Krypton)
País: EUA/Reino Unido
Duração: 125 minutos
Género: Ação/Aventura/Comédia/Fantasia
Realização: Richard Lester
Produção: Ilya e Alexander Salkind
Distribuição: Warner Bros.
Argumento: David e Leslie Newman
Elenco:Christopher Reeve (Clark Kent/Super-Homem); Margot Kidder (Lois Lane); Richard Pryor (Gus Gorman); Robert Vaughn (Ross Webster); Annette O'Toole (Lana Lang); Annie Ross (Vera Webster); Jackie Cooper (Perry White); Pamela Stephenson (Lorelei Ambrosia) e Marc McClure (Jimmy Olsen)
Orçamento: 39 milhões de dólares
Receitas globais: 71 milhões de dólares



Dois cartazes promocionais de Superman III.

Enredo: Gus Gorman, um desempregado de longa duração,descobre possuir um talento especial para a programação informática, facto que lhe vale ser contratado pela poderosa WebsCo. Descontente com o seu salário, Gus concebe um engenhoso esquema para desviar dinheiro das contas da empresa sem ser detetado. Acaba, no entanto, por chamar a atenção do seu patrão. Ross Webster é obcecado com o potencial dos computadores para o auxiliarem nos seus planos de dominação mundial pela via financeira, ficando portanto mais impressionado do que agastado com a façanha de Gus. Adjuvado pela sua pérfida irmã Vera e pela sua aparentemente desmiolada assistente Lorelei Ambrosia, Ross chantageia Gus para que este aceite ser seu cúmplice.

Ross Webster, magnata megalómano.

Gus Gorman, um desastrado génio informático.
   Entretanto, Clark Kent convence o seu editor no Planeta Diário a conceder-lhe alguns dias de licença a fim de participar na sua reunião anual de liceu, em Smallville. A caminho da sua cidade natal, o Super-Homem extingue um incêndio numa fábrica de químicos onde é produzido um ácido altamente volátil e suscetível de lançar vapores corrosivos quando exposto a temperaturas elevadas.
   Na reunião com os seus antigos colegas de liceu, Clark reencontra a sua amiga de infância, Lana Lang. Mãe solteira de um garoto chamado Ricky, Lana é constantemente assediada por Brad Wilson, um seu ex-namorado, em tempos jogador de futebol americano, e agora um rufia alcoólico que trabalha como segurança na filial de Smallville da WebsCo.
   A primeira etapa do plano de Ross Webster consiste em garantir o monopólio da produção mundial de café. Enfurecido pela recusa por parte da Colômbia em fazer negócios com a sua empresa, Ross ordena a Gus Gorman que assuma o controlo de um satélite meteorológico norte-americano com o objetivo de induzir um gigantesco tornado capaz de arrasar as colheitas de café colombianas.
  Para ativar o satélite em questão, Gus usa o computador instalado na filial da WebsCo em Smallville, sendo involuntariamente ajudado nessa missão por um ébrio Brad Wilson, que lhe fornece os códigos de acesso. Os planos de Ross Webster são, todavia, frustrados pela intervenção do Super-Homem, que neutraliza o tornado, salvando dessa forma as colheitas de café.

De volta a Smallville, Clark reencontra Lana Lang.

   Lembrando-se da entrevista feita por Lois Lane ao herói, Ross ordena então a Gus que use o computador para descobrir a composição química da kryptonita a fim de sintetizar uma amostra do mineral radioativo que é a única fraqueza conhecida do Homem de Aço. Gus usa o satélite meteorológico para procurar destroços de Krypton no espaço sideral, mas a demanda resulta infrutífera. O computador, por outro lado, falha na sua análise química da kryptonita, incapaz de identificar um elemento desconhecido presente nela. O qual Gus decide prontamente substituir por alcatrão contido na cinza de um cigarro que fumava.
   Lana convence o Super-Homem a comparecer na festa de aniversário do pequeno Ricky. Porém, quando se espalha a notícia acerca da presença do herói em Smallville, a cidade engalana-se para o receber. Sendo até organizada uma cerimónia de entrega da chave da cidade. A qual é inopinadamente interrompida por Gus Gorman e Vera Webster que, disfarçados de oficiais do Exército, entregam ao Super-Homem uma bizarra escultura feita com kryptonita. Ficam, todavia, desconcertados ao verificarem que a mesma não surte um efeito imediato sobre o herói.
  Horas depois, contudo, o Homem de Aço começa a evidenciar alguns comportamentos atípicos: mais empenhado em concretizar os seus intentos lascivos relativamente a Lana, demora a acudir a um camionista em apuros. A partir daí, o herói kryptoniano começa a questionar o seu próprio valor e papel no mundo, mergulhando numa espiral depressiva e tornando-se gradualmente mais egoísta e agressivo. Para extravasar a frustração acumulada, comete atos de vandalismo, como endireitar a Torre de Pisa ou apagar a tocha olímpica com o seu supersopro.

A exposição a kryptonita adulterada causa uma terrível transformação na personalidade do Homem de Aço.
  Ross Webster põe entretanto em marcha a segunda fase do seu plano: controlar o fornecimento de petróleo a nível mundial. Ordena para esse efeito a Gus Gorman que use os seus prodigiosos conhecimentos informáticos para desviar todos os petroleiros das suas atuais rotas, concentrando-os no meio do Atlântico. Gus entrega ao seu patrão os esboços para a construção de um supercomputador. Em troca da lealdade de Gus, Ross aceita financiar o projeto.
  Depois de o comandante de um dos petroleiros recusar seguir as instruções de Gus, Webster usa Lorelei como engodo para atrair o Super-Homem à sua cobertura. Totalmente corrompido pelos efeitos da kryptonita sintética, o Homem de Aço, a troco de contrapartidas carnais, aceita intercetar o petroleiro rebelde, abrindo um rombo no casco da embarcação e causando assim um desastre ambiental.
  Enquanto se embebedava num bar, o Super-Homem é interpelado pelo filho de Lana Lang. Apesar de rapidamente alçar voo, o atormentado herói escuta com a sua superaudição os apelos do petiz para que lute contra a doença que dele se apossou.
   À beira do colapso, a versão corrompida do Último Filho de Krypton quase se despenha pouco depois num ferro-velho. Dividindo-se de seguida em duas personalidades: o Super-Homem maligno e o seu íntegro alter ego, Clark Kent. No final da intensa refrega que se segue, Clark consegue liquidar a sua contraparte corrompida. Recuperado o seu heroísmo, o Homem de Aço apressa-se a reparar os danos causados pela seu eu sombrio.

O icónico mano a mano entre Clark Kent e o Super-Homem maligno.

   Ao tentar aproximar-se do esconderijo de Ross Webster e seus comparsas (localizado no Grand Canyon), o Super-Homem é alvejado por mísseis. O ataque é, no entanto, incapaz de detê-lo. Pressentindo o perigo, o supercomputador construído por Gus Gorman aciona contramedidas defensivas, atingindo o Homem de Aço com uma rajada de kryptonita verdadeira.
    Apavorado com a perspetiva de ficar para a História como o carrasco do Super-Homem, Gus serve-se de um machado para destruir o emissor da rajada de kryptonita, salvando dessa forma a vida do herói. O supercomputador entretanto adquire consciência própria, inviabilizando as tentativas do seu criador para desligá-lo. Para se alimentar, a máquina drena energia do sistema elétrico, causando blackouts em série. Ross Webster e Lorelei conseguem esgueirar-se para fora da cabine de comando, mas Vera Webster é capturada pelo computador e transformada num sinistro cyborg.
    Aproveitando o tumulto, o Super-Homem sai da caverna, regressando pouco depois trazendo consigo um recipiente contendo o ácido produzido na fábrica de químicos que salvara dias antes.
   Classificando a substância como inócua, o supercomputador permite que o Homem de Aço deposite o recipiente no seu interior. Devido ao calor produzido pelo funcionamento da máquina, o ácido não tarda a reagir, entrando em ebulição e salpicando os seus componentes. Daí resultando a destruição do supercomputador.
   Deixando para trás Ross Webster e as suas cúmplices, o Super-Homem voa  até uma mina de carvão na Virgínia Ocidental levando consigo Gus Gorman. Apesar da oferta de emprego conseguida pelo herói, Gus declina-a e arrepia caminho para parte incerta.
   Regressado a Metrópolis, Clark Kent paga a viagem de Lana Lang e Ricky à cidade. Lana consegue um emprego no Planeta Diário como secretária de Perry White. Brad Wilson, que a havia perseguido até Metrópolis, ataca Clark, com este a esquivar-se, fazendo com que o rufia caia dentro de um carrinho de produtos de limpeza que se precipita escadas abaixo.
  Como habitualmente, o filme termina com o Super-Homem a fazer um passeio orbital ao som do magnífico tema musical composto por John Williams.
Trailer: .https://www.youtube.com/watch?v=UiwduaIGVVE


A amizade improvável de Super-Homem e Gus Gorman.
Curiosidades:

* O menino que espera do lado de fora da cabine fotográfica onde Clark Kent se transforma em Super-Homem é na verdade o mesmo que, 5 anos antes, fizera de pequeno Kal-El recém-chegado à Terra, no primeiro capítulo da saga;
* Após Margot Kidder ter expressado junto dos irmãos Salkind a sua discordância relativamente à demissão de Richard Donner (realizador de Superman e Superman II, antes de ser afastado da direção deste último e substituído por Richard Lester), a atriz que interpretou Lois Lane na quadrilogia viu o seu papel ser reduzido a 12 linhas, correspondentes a uns meros 5 minutos no ecrã. No entanto, em 2006, num comentário incluso na edição em DVD de Superman III, Ilya Salkind negou qualquer correlação entre esses dois factos. Segundo ele, derivou do esgotamento do romance entre o Super-Homem e Lois Lane, a opção por reduzir a participação de Margot Kidder no terceiro filme do herói kryptoniano;
* Ainda de acordo com Ilya Salkind, a versão primitiva do argumento incluía dois dos arqui-inimigos do Homem de Aço na BD (Brainiac e Mr. Mxyzptlk), além da Supergirl (cuja aparição no filme do primo seria o mote para um potencial spin-off);
* Os irmãos Salkind resolveram convidar Richard Pryor a integrar o elenco depois de este ter comentado no célebre programa televisivo Saturday Night o quanto tinha gostado de Superman II;
* Na sua autobiografia, Richard Pryor admite que o enredo era péssimo, mas que aceitou participar na película por causa do cachê de 5 milhões de dólares que lhe foi oferecido;
* O título original da película era Superman versus Superman, o que valeu aos seus produtores uma ameaça de processo judicial por parte dos seus homólogos do aclamado Kramer versus Kramer (1979);
* Foi a primeira vez que Christopher Reeve mereceu honras de protagonista, visto que nos dois anteriores filmes esse estatuto fora concedido, respetivamente, a Marlon Brando e Gene Hackman;

Os dois trajes usados por Christopher Reeve em Superman III expostos na Comic-Con de Las Vegas, em 2013.
* Trata-se do único filme da quadrilogia (à qual se somou, em 2006, Superman Returns) em que Lex Luthor não participa, e onde não são feitas quaisquer referências à Fortaleza da Solidão ou aos pais biológicos do Super-Homem (Jor-El e Lara);
* A kryptonita sintética a que o herói é exposto provoca efeitos colaterais característicos tanto da kryptonita vermelha como da kryptonita preta ( apenas algumas das cores do mineral existentes no período pré-Crise): a primeira anula as inibições morais do Homem de Aço, ao passo que a segunda faz emergir o seu lado mais sombrio;
* Numa referência a algumas das suas histórias da Idade da Prata, nas quais essa era uma proeza comum, o Super-Homem cria instantaneamente um diamante apertando um pedaço de carvão na mão;
* Annette O'Toole (Lana Lang) desempenhou já este século o papel de Martha Kent na série televisiva Smallville;
* Os sons do jogo de vídeo que Ross Webster joga enquanto tenta atingir o Super-Homem com mísseis pertencem à versão para o Atari 2600 do mítico Pac-Man (lançado no mercado em 1982, um ano antes da estreia de Superman III);


Brainiac e Mr. Mxyzptlk (em cima): os dois vilões inicialmente cogitados para Superman III.
Prémios e nomeações: Perante a reação adversa dos espectadores e dos críticos, ninguém estranhou que Superman III fosse nomeado para dois Razzies (espécie de anti-Oscares que "premiam" o que de pior se faz na 7ª arte). Os visados foram Richard Pryor (na categoria de Pior Ator Secundário) e Giorgio Moroder (Pior Banda Sonora). Nenhum dos dois acabaria, no entanto, por ser laureado com esse pouco prestigiante galardão.

Richard Lester, o polémico realizador de Superman III.
Veredito: 53%

   Aparentemente, o número três é aziago (ou mesmo fatídico) para muitas franquias cinematográficas. Não raras vezes, o  terceiro capítulo costuma marcar o início do seu declínio.  Quando não o seu epitáfio...
   Malapata que não atinge somente adaptações de super-heróis ao grande ecrã. Noutros géneros tivemos, somente à guisa de exemplo, Tubarão 3, Exterminador Implacável 3 ou Alien 3. Entre as películas baseadas nos universos Marvel e DC os exemplos são ainda mais abundantes: Batman Para Sempre, X-Men 3 - O Confronto Final, Homem-Aranha 3, Homem de Ferro 3 e, claro, Superman III. Em maior ou menor medida, todos os títulos citados redundaram em fiascos (de crítica, bilheteira ou de ambas). De uma forma ou de outra, todos eles comprometeram o futuro das respetivas franquias.
  Enquanto cinéfilo e acérrimo fã do Homem de Aço senti-me obviamente defraudado quando vi este seu terceiro filme pela primeira vez. Mais a mais porque a fasquia tinha sido deixada muito alta pelos seus predecessores. Estranhei desde logo a opção pela comicidade num enredo implausível mesmo para uma produção do género. E não fui certamente o único. Anos depois da estreia de Superman III,  o próprio Christopher Reeve - cuja representação foi irrepreensível, sobretudo no que toca à versão maligna do herói - confidenciou o seu desconforto perante a obstinação do realizador Richard Lester em tentar transformar qualquer sequência da película numa cena cómica.
  Parece-me por demais evidente o nexo de causalidade existente entre este facto e a escolha de Richard Pryor (ator catapultado para o estrelato nos alvores da década de 1980 por via das comédias desbragadas em que participou) para coprotagonista.Ou, na ótica de alguns, de verdadeiro protagonista, com o Super-Homem relegado para um papel secundário.
  Pryor não foi, contudo, a única escolha falhada no elenco. Num filme sem Lex Luthor (magistralmente encarnado por Gene Hackman nos restantes três capítulos da quadrilogia), Ross Webster foi visto como um fraco sucedâneo daquele que é o mais antigo e carismático némesis do Super-Homem. Perceção reforçada pela desinspirada atuação de Robert Vaughn.
   Ironicamente, em Superman III o próprio herói acaba por ser o seu mais condigno antagonista. Depois, de nos dois primeiros filmes, ter tido pela frente Luthor e o triunvirato de renegados kryptonianos liderados pelo general Zod, a grande ameaça que teve de enfrentar na sua terceira aventura cinematográfica foi um supercomputador senciente construído por um palerma  com dotes de programador informático. Tanto mais frustrante considerando que, numa das primeiras versões do argumento, estava previsto o Homem de Aço ter de medir forças com dois dos seus mais formidáveis arqui-inimigos: Brainiac e Mr.Mxyzptlk (com o bónus da participação especial da Supergirl). A culpa terá sido dos mandachuvas da Warner que, ao que consta, detestaram a ideia, rejeitando-a sem apelo nem agravo.
   Malgrado os seus muitos defeitos, nem tudo é mau em Superman III. Se é verdade que ficou muito furos abaixo dos seus predecessores (facto a que não será alheio o seu orçamento inferior), não é menos verdade que consegue ser bem melhor do que o quarto e último filme da saga (Superman IV- Em Busca da Paz). Ganhando mesmo na comparação com outras produções mais recentes do género, como Motoqueiro Fantasma 2, Elektra ou qualquer uma das longas-metragens já realizadas do Quarteto Fantástico.
   Entre os aspetos positivos da película, além da já realçada interpretação de Reeve, conta-se também o icónico mano a mano entre Clark Kent e o Super-Homem maligno num ferro-velho; o regresso às origens em Smallville (que permitiu a introdução de Lana Lang no universo cinemático do herói); alguns gags divertidos; e, claro, o magnífico tema de abertura da autoria de John Williams.
   Também do ponto de vista financeiro, o filme esteve longe de ter sido um fracasso. Não obstante as suas receitas de bilheteira terem ficado aquém das dos seus antecessores, o saldo foi claramente favorável. São estes elementos que, somados à minha memória afetiva do insuperável Christopher Reeve, me levam a atribuir-lhe uma nota tangencialmente positiva. Salvando-o assim do desonroso rótulo de monumental flop que muitos não hesitam em colar-lhe.
   Tivesse Superman III sido realizado numa época em que as trilogias estivessem na moda, e aos aspetos positivos supramencionados acrescentar-se-ia ainda outro: a inexistência da sua inenarrável sequela.