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sexta-feira, 6 de março de 2015

DO FUNDO DO BAÚ: «INFERNO»




  Nova Iorque infestada de demónios. Almas corrompidas. Rituais sacrificiais com recém-nascidos. Os portões do Inferno abertos de par em par numa saga dantesca com a assinatura de Chris Claremont.

Título original: Inferno
Ano: 1988/89
Licenciadora: Marvel Comics
Autores: Chris Claremont, Steve Engelhart, Gerry Conway, Ann Nocenti, Louise Simonson e David Michelinie (história); Walter Simonson, Jon Bogdanove e Terry Austin (arte)
Histórico de publicação (EUA): New Mutants #71-73; Uncanny X-Men #239-243; X-Factor #35-39; X-Terminators #1-4; Excalibur #6-7; Avengers #298-300; Daredevil #262,263 e 265; Power Pack #42-44; Cloak and Dagger (vol.3) #4; Fantastic Four #322-324; Spectacular Spider-Man #146-148; Web of Spider-Man #47-48; The Amazing Spider-Man #311-313; X-Factor Annual #4 (títulos publicados originalmente entre outubro de 1988 e agosto de 1989).

O nascimento de Nathan Summers anunciado em X-Men #241 (1989).
Histórico de publicação (Brasil): X-Men nº 46 a 49 (agosto a novembro de 1992) e Homem-Aranha nº 110 a 112 (agosto a outubro do mesmo ano). A interligação entre estes dois títulos da Abril (ambos referentes às respetivas primeiras séries lançadas pela editora) decorreu da possessão demoníaca que investiu o Duende Macabro (Hobgoblin em Inglês) de poderes sobrenaturais durante a saga. Finda a mesma, a entidade abandonaria o seu hospedeiro, transformando-se no Duende Demoníaco.

Um duende ainda mais macabro.

Equipas mutantes envolvidas:

* X-Men: À época formada por Cristal, Longshot, Destrutor, Wolverine, Vampira, Psylocke e Colossus, a equipa era liderada por Tempestade e operava a partir de uma base secreta localizada no deserto australiano. Para o mundo, os heróis mutantes estavam mortos, facto que lhes conferia uma vantagem tática;
*X-Factor: Designação adotada pelos X-Men fundadores (Ciclope, Anjo, Fera. Homem de Gelo e Garota Marvel) após o ressurgimento desta última;
*Novos Mutantes: Alunos do Instituto Xavier e potenciais X-Men do futuro, contavam nas suas fileiras com Míssil. Lupina, Mancha Solar, Miragem, Magia e Warlock. Durante a saga, a alienígena Gosamyr também colaborava com o grupo;
*Exterminadores: Rictor, Dinamite, Rusty, Skids e Taki Matsuya (ocasionalmente acompanhados por  Artie e Sanguessuga, dois pequenos mutantes)

 Novos Mutantes, uma das equipas X em destaque na saga.

Enredo: S'ym e Nastirth, dois hediondos demónios do Limbo, planeiam uma invasão em larga escala da Terra. Plano que tem em Illyana Rasputin (membro dos Novos Mutantes e irmã mais nova de Colossus) o seu principal instrumento, visto que o poder da jovem lhe permite abrir uma passagem entre o nosso mundo e a dimensão infernal.
   Durante uma curta paragem dos Novos Mutantes no Limbo, Nastirth conjura um feitiço bloqueador das habilidades de teletransporte de Illyana. Ficando assim a equipa à mercê de S'ym que, ansioso por consolidar o seu domínio sobre aquele reino dantesco, assumira o controlo das hordas demoníacas que o povoam.
  Manipulada por Nastirth, Illyana acede ao pedido deste para que liberte o seu poder demoníaco, pois somente dessa forma ela conseguirá regressar em segurança à Terra na companhia dos seus amigos. Quando a jovem abre um portal com ligação a Manhattan, Nastirth apressa-se a lançar um feitiço que o mantém aberto, permitindo assim a passagem do seu exército infernal. O que só se tornou possível graças ao supercomputador construído por Taki Matsuya (um dos Exterminadores), raptado tempos antes por Nastirth.



S'ym  (em cima) e Nastirth: duarquia infernal.

   Vingadores, Quarteto Fantástico, Quarteto Futuro, Homem-Aranha e Demolidor formam a primeira linha de defesa face à invasão, desbaratando um considerável número de demónios. Um dos quais possui o Duende Macabro, usando-o como hospedeiro e dotando-o de poderes sobrenaturais.
  Em meio ao caos e à loucura instalados, um pouco por toda a cidade objetos inanimados adquirem vida própria, atacando e devorando pessoas. Foi o que aconteceu com grande parte dos motoristas de autocarro de Manhattan, comidos pelos veículos que conduziam, ou sendo eles próprios transformados em medonhos demónios. No caso do metropolitano, todas as linhas em funcionamento passaram a ter o Inferno como destino final. Em ambos os casos, porém, os nova-iorquinos, enfeitiçados por Nastirth, continuam a usar voluntariamente esses meios de transporte no seu quotidiano.

Inferno na Terra.
   Nastirth sela entretanto um pacto com Madelyne Pryor: em troca da localização do seu filho Nathan e da morte dos Carrascos às mãos dos X-Men, o demónio reivindica a criação de uma ponte permanente entre o Limbo e a Terra. Para cumprir a sua parte no acordo, Nastirth invade e modifica o sistema informático utilizado pelos heróis mutantes, de modo a que estes o possam usar para localizar os Carrascos. De seguida, por intermédio de outro dos seus encantamentos,o demónio infunde os pupilos de Xavier de uma inaudita ferocidade, traduzida numa incontrolável sede de sangue.
  Tomando de assalto o reduto dos Carrascos, os X-Men chacinam a quase totalidade do contingente adversário. Graças à proteção conferida pelo aço orgânico que lhe recobre o corpo, apenas Colossus se mantém imune ao sortilégio que transformou os seus camaradas em assassinos de sangue frio.No entanto, ao interiorizar o que sucedeu à sua irmã, o mutante russo rapidamente conclui que a única forma de libertar os demais X-Men da perniciosa influência de Nastirth será salvá-la.
   Cumprindo a segunda parte do acordo entre ambos, Nastirth  liberta Nathan Summers do laboratório do Senhor Sinistro, onde Madelyne Pryor descobre ser, afinal, um clone de Jean Grey.
  Com o seu plano coroado de êxito, S'ym e Nastirth iniciam uma brutal disputa pelo comando das hordas demoníacas e, por inerência, pelo governo do Limbo e da Terra. Quando o primeiro estás prestes a levar a melhor, o segundo, numa jogada desesperada, permite ser infetado pelo Vírus Tecno-orgânico. Devido às alterações que este lhe induz no organismo, o demónio funde-se ao supercomputador criado por Taki Matsuya. Em consequência disso, Nastirth tem exponencialmente amplificados os seus poderes  mágicos, iniciado de seguida a construção de uma ponte permanente entre o Limbo e a Terra, sem a ajuda de Madelyne Pryor. Antes, porém, que o processo esteja terminado, Taki destrói a máquina. Reduzido a cinzas pela explosão daí resultante, Nastirth tem o seu organismo instantaneamente reconstituído pela ação do Vírus Tecno-orgânico.
  Entrementes, a muitos quilómetros de distância, Colossus encontra a sua irmã Illyana e fica horrorizado com a sua grotesca aparência. Tendo sucumbido totalmente ao seu lado demoníaco, a jovem apresenta-se agora com cornos, pés de cabra e uma cauda bífida. Envergonhada pela reação de repulsa que suscitou no irmão, Illyana voa para o Limbo disposta a pôr um ponto final no reinado infernal de S'ym e Nastirth na Terra. Bastará, para isso, que assuma o governo da dimensão maldita. É, contudo, dissuadida destes seus intentos pela sua colega de equipa, Lupina. Em vez disso, Illyana renuncia ao seu poder demoníaco, criando um gigantesco vórtice que arrasta a maior parte dos demónios (incluindo S'ym) de volta ao Limbo. De seguida,  a jovem mutante usa a sua Espada das Almas para selar o portal. Quando a poeira assenta, os Novos Mutantes encontram uma menina de sete anos dentro da armadura sobrenatural usada por Illyana.

Illyana Rasputin e a sua Espada de Almas.

  Apesar de as ações de Illyana terem resultado no banimento das hordas demoníacas para o Limbo, Nastirh permanece no nosso mundo e os objetos e pessoas possuídos não voltaram ao seu estado normal.
  Graças aos esforços combinados dos X-Men e do X-Factor, Nastirth é finalmente destruído. No entanto, Madelyne Pryor mantém ativo o feitiço conjurado pelo demónio enquanto ameaça matar o próprio filho num ritual sacrificial para reabrir o portal entre a Terra e o Limbo. Depois de ter forçado um vínculo telepático com Jean Grey, a autointitulada Rainha dos Duendes mostra à sua gémea o filme completo da sua vida, incluindo a descoberta feita no laboratório do Sr. Sinistro.
  Quando, depois de romperem as defesas místicas da Rainha dos Duendes, os X-Men e o X-Factor resgatam o pequeno Nathan, a vilã, movida pelo desejo de vingança, prepara-se para pôr termo à própria vida arrastando Jean Grey consigo. Todavia, numa amarga ironia, a centelha de poder da Força Fénix que lhe concedera vida transfere-se para o corpo de Jean, permitindo-lhe assim salvar-se. Com a morte de Madelyne, Nova-Iorque volta imediatamente à normalidade.
 Apesar disso, devido ao vínculo telepático que unira a mente de ambas, uma reminiscência da personalidade de Madelyne transfere-se para Jean, imbuindo-a de um desejo de vingança relativamente ao Sr. Sinistro, a quem culpa por todo o seu sofrimento. Aproveitando a ausência de Magneto para combater a invasão, o Sr. Sinistro apoderara-se do Instituto Xavier. Ciente da vinda dos X-Men e do X-Factor, o vilão espera que os heróis mutantes adentrem o edifício para, de seguida, detonar cargas explosivas. Embora soterradas, ambas as equipas saem ilesas. No final, Ciclope incinera o Sr. Sinistro com uma das suas devastadoras rajadas óticas. Ninguém acredita, contudo, que essa seja a última vez que terão de lidar com o vilão.
  A despeito de toda a destruição e morte causadas pelo Inferno, muitos sobreviventes humanos estão absolutamente convencidos de que tudo não passou de uma alucinação coletiva.

Mãe desnaturada.
Repercussões: Conquanto o seu escopo tenha abrangido diversas personagens do universo Marvel além dos X-Men e seus subsidiários, as consequências de Inferno refletiram-se essencialmente nos heróis mutantes envolvidos na saga. A saber:

* A revelação de que Madelyne Pryor era, de facto, um clone de Jean Grey produzido pelo Sr. Sinistro para obter o mutante perfeito através da mescla dos genomas de Ciclope e da Garota Marvel. Processo de que resultou o nascimento de Nathan Summers (o mutante futuramente notabilizado como Cable);
*A primeira evidência da real amplitude e perigosidade das maquinações do Sr. Sinistro (até então um vilão subestimado);
*O reencontro entre os X-Men e o X-Factor, afastados em virtude de um conjunto de mal-entendidos;
* A reversão de Illyana Rasputin para a idade de sete anos;
* A contaminação do Limbo pelo Vírus Tecno-orgânico;
* A dissolução dos Exterminadores, cuja maior parte dos membros transitou para os Novos Mutantes;
* A morte de Madelyne Pryor

Sequelas: Sob o título X-Infernus, entre fevereiro e maio de 2009, foi publicada nos EUA uma minissérie mensal em quatro fascículos, tendo como protagonista Magia (codinome entretanto adotado por Illyana Rasputin). Escrita por C.B. Cebulski e com esboços de Giuseppe Camuncoli, a história retrata os esforços de Colossus para resgatar a sua irmã do Limbo.
  Uma segunda sequela, Fall of the New Mutants, chegou às bancas norte-americanas um par de anos depois. Desta feita, o foco narrativo centrava-se no Projeto Purgatório, uma sigilosa operação governamental que consistia em usar mutantes recém-nascidos para abrir um portal de acesso ao Limbo. Objetivo: usar a dimensão infernal como base para um exército secreto. Uma vez mais, Illyana Rasputin foi uma peça-chave em toda a trama.

O regresso dos X-Men originais, agora como X-Factor.

Índice de boa leitura: 78%

   Em muitos aspetos, Inferno retrata os X-Men no seu pior: demasiadas personagens, demasiados enredos secundários, demasiadas pontas soltas. Mas essas são, por outro lado, algumas das idiossincrasias que tornam tão empolgantes as estórias dos Filhos do Átomo.
 Mercê do cariz burlesco da sua trama (objetos comuns transformados em demónios; demónios transformados em robôs; uma vilã seminua postada no cimo de um arranha-céus ameaçando sacrificar o seu próprio bebé), a saga converte-se a espaços ela própria numa divertida paródia  ao universo X.
 Numa análise mais aprofundada, Inferno poderá ser perspetivada como um repositório de tormentos pessoais, materializados nas consequências das escolhas e ações realizadas pelos seus principais protagonistas. Sendo o exemplo mais ilustrativo o de Madelyne Pryor, uma mulher despeitada devido ao facto de ter saído a perder do triângulo amoroso com Scott Summers e Jean Grey, formado após o regresso desta última ao mundo dos vivos. Como qualquer mulher nessa posição, Madelyne teve no desejo de vingança a sua força motriz. Todos os seus atos foram, pois, condicionados por esse sentimento tão pungentemente humano.

Um trágico triângulo amoroso.

  Qualquer empatia sentida pelos leitores relativamente à angústia de Madelyne (a par de Illyana Rasputin, uma das pedras angulares da trama) acaba, todavia, por desvanecer-se no desfecho da história, quando ela assume de bom grado os efeitos negativos decorrentes do poder de que foi imbuída.
  Vista desse ângulo, Inferno afigura-se, em certa medida, como uma sequela da Saga da Fénix Negra, escrita pelo mesmo Chris Claremont, quase uma década antes. Usando uma réplica perfeita de Jean Grey (até então sem grande importância na continuidade dos X-Men), Claremont revisita a questão de como reagiria a heroína mutante a uma súbita exposição a um poder desmesurado.
  Nesse sentido, Inferno surge quase como uma realidade alternativa onde é explorada a premissa do que aconteceria caso Jean Grey abdicasse da sua humanidade em prol do poder semidivino de que é portadora. Claremont tem, no entanto, o cuidado de não brindar os leitores com uma narrativa requentada, optando por promover o distanciamento emocional destes em relação à personagem.Que surge na trama investida da função de principal catalisador narrativo.
  Metódico como é seu apanágio, Claremont burilou a trama com a precisão e paciência de um cultivador de bonsais. As sementes para o clímax de Inferno foram sendo plantadas desde a primeira aparição de Madelyne Pryor, cerca de 80 edições antes. A colheita, essa, não podia ter sido mais auspiciosa.