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quarta-feira, 16 de março de 2016

CLÁSSICOS REVISITADOS: «A CHEGADA DE GALACTUS»




   Meio século atrás, quando a imaginação e a criatividade escorriam pelas paredes da Casa das Ideias, Stan Lee e Jack Kirby gratificaram os fãs do Quarteto Fantástico com uma épico dos tempos modernos. Alegoria de inspiração bíblica, a história teve ainda o condão de introduzir duas personagens inéditas, logo consagradas: Galactus, o Devorador de Mundos e o seu amargurado arauto Surfista Prateado.

Título original: The Coming of Galactus! (também conhecida como Galactus Trilogy por conta do tríptico de volumes que compunha a saga)
Licenciadora: Marvel Comics
Autores: Stan Lee* (história) e Jack Kirby* (arte)
Publicada originalmente em: Fantastic Four nº 48 a 50 (março a maio de 1966)
Personagens principais: Quarteto Fantástico, Galactus, Surfista Prateado e o Vigia
Coadjuvantes: Inumanos, Skrulls e Alicia Masters
Cenários: Nova Iorque (lar do Quarteto Fantástico), Himalaias (localização secreta do Grande Refúgio dos Inumanos) e Tarnax IV (planeta-metrópole do império galáctico Skrull)

* Ainda que estes dois monstros sagrados da 9ª arte dispensem apresentações, podem consultar aqui as respetivas biografias: http://bdmarveldc.blogspot.pt/2011/09/eternos-stan-lee.html e http://bdmarveldc.blogspot.pt/2011/10/eternos-jack-kirby-1917-1994.html


Nunca antes o Quarteto Fantástico defrontara tão poderoso adversário.


Notas prévias:

Quem é o Vigia?



  Conceito desenvolvido por Stan Lee e Jack Kirby, o Vigia (The Watcher, no original) fez a sua primeira aparição em abril de 1963, numa história do Quarteto Fantástico publicada em Fantastic Four nº13. Com o decorrer dos anos, o enigmático ser tornar-se-ia presença assídua nas histórias da Família Fundamental da Marvel.
  Uatu - é esse o seu nome de batismo - faz parte de uma raça alienígena que se dedica a observar os eventos cruciais do Universo e do Multiverso. Estando contudo os Vigias terminantemente proibidos de qualquer interferência no curso da História das civilizações por eles monitorizadas.
  A partir da sua fortaleza sediada na chamada Área Azul da Lua, Uatu tem sido ao longo de incontáveis milénios testemunha silenciosa dos progressos e fracassos da nossa espécie.
  À imagem dos demais representantes da sua raça, o Vigia é extremamente poderoso e tem como marcas distintivas a sua calvície e a colossal estatura. Contrariamente, porém, aos seus homólogos, Uatu em várias ocasiões intercedeu em prol da humanidade. Infração que o levou a ser julgado e ostracizado pelos outros Vigias.


Quem são os Inumanos?

  Igualmente frutos da prodigiosa imaginação da dupla Lee/Kirby, os Inumanos (Inhumans) são descendentes de vulgares homo sapiens que, muitos séculos atrás, serviram de cobaias a experimentalismos genéticos operados pelos Krees, uma avançada raça extraterrestre que usou o nosso planeta como tubo de ensaio.
  Em dezembro de 1965, os Inumanos surgiram pela primeira vez em Fantastic Four nº45 como coadjuvantes do Quarteto Fantástico. Antes dessa estreia coletiva, alguns dos seus membros já haviam, porém, aparecido individualmente como vilões (casos de Medusa e Gorgon).
   A comunidade inumana assenta num rígido sistema de castas, em cujo vértice se encontra a Família Real. Esta é composta por Raio Negro (Rei dos Inumanos), Medusa (sua consorte que chegou a substituir temporariamente a Mulher Invisível no Quarteto Fantástico), Maximus (irmão louco de Raio Negro), Karnak, Cristalys, Gorgon e Triton. Todos eles possuem habilidades meta-humanas em consequência da sua espécie ter tido o seu genoma reescrito pelos Krees.
  Originalmente, o Grande Refúgio (localizado algures na cordilheira dos Himalaias) servia de lar aos Inumanos. Este seria posteriormente transferido para a Área Azul da Lua (tornando, assim, os súbditos de Raio Negro vizinhos do Vigia), objetivando escapar aos efeitos da poluição da atmosfera terrestre que ameaçava a sobrevivência da comunidade.


A Família Real dos Inumanos pelo traço de Jack Kirby.
Da esq. para a dir.: Gorgon, Cristalys, Raio Negro, Medusa, Karnak e Triton.

E, já agora, quem são os Skrulls?

  Para não destoar, os Skrulls são outra criação conjunta de Stan Lee e Jack Kirby. Criação essa que é até anterior ao surgimento do Vigia e dos Inumanos, já que a sua estreia teve lugar logo no segundo número de Fantastic Four, com data de janeiro de 1962.
   Os Skrulls são alienígenas que, na sua aparência primordial, possuem pele verde, orelhas pontiagudas e um queixo com saliências. A maior peculiaridade desta espécie reside, contudo, nas suas habilidades transmorfas que lhes permitem assumir a forma de qualquer ser vivo ou objeto inanimado.
  Entre os arqui-inimigos dos Skrulls, além do Quarteto Fantástico, destacam-se os Krees, com quem já travaram diversas guerras sangrentas.

Figurino padrão dos Skrulls.


Histórico de publicação: Em 1966, aproximadamente cinco anos depois de terem lançado Fantastic Four (um dos títulos de charneira da Marvel Comics), Stan Lee e Jack Kirby afadigavam-se na conceção de um antagonista inédito para o Quarteto Fantástico. Um dos quesitos passava por evitar os estereótipos na base da criação da esmagadora maioria dos vilões daquela época. Tendo em conta este pressuposto, Lee e Kirby depressa consensualizaram o perfil da nova personagem: um ser com a estatura e o poder de um deus.
   No prefácio de Marvel Masterworks: Fantastic Four Volume 5 (coletânea que, em 1993, reuniu algumas das melhores sagas do Quarteto Fantástico), Stan Lee descreveu nos seguintes termos o desenvolvimento do Devorador de Mundos: "Galactus foi apenas mais um na longa linha de supervilões que eu e Jack tínhamos adorado criar. Depois de termos imaginado tantos mauzões com dons extraordinários, percebemos que a única maneira de nos superarmos seria criar um com poderes divinos. 
   Claro que a escolha natural foi um semideus. Mas logo surgiu a dúvida: o que faríamos com alguém assim tão poderoso? A última coisa que queríamos era usá-lo para alimentar o cliché estafado do vilão megalómano que quer dominar o mundo. E foi então que, quase como se tivéssemos sido fulminados por um raio, se fez luz nas nossas mentes. Porque não atribuir-lhe uma natureza amoral? Por que motivo haveria um ser dessa envergadura reger-se pelos padrões da moralidade humana? Bem vistas as coisas, uma criatura com esse perfil estaria certamente além do bem e do mal. Mais: e se ele retirasse o seu sustento da energia vital dos planetas?"
  Palavras que corroboram o depoimento de Jack Kirby em The Masters of the Comic Book Art, documentário produzido em 1987. Nele, o rei do desenho assume as inspirações bíblicas na conceção de Galactus e do Surfista Prateado: "Pressionados a aumentar as vendas de Fantastic Four, eu e Stan começámos a trocar ideias sobre a criação de um novo supervilão. Concordámos, no entanto, que teríamos de fugir aos lugares-comuns se queríamos manter os nossos empregos. 
   Com isto em mente, dei comigo certo dia a folhear a Bíblia. Bastou-me ler alguns trechos para  encontrar a inspiração que procurava. Quase pude ver materializar-se diante de mim a imponente figura de Galactus. Um ser que eu conhecia bem, porque sempre habitou a minha imaginação. Um ser de tão formidável poder que eu não o podia  abordar como se de um comum mortal se tratasse. E que sempre se faria anunciar por um arauto angélico. Foi assim que surgiu a ideia para o Surfista Prateado.
  Dei-me conta desde o primeiro momento que nunca antes personagens com tais características tinham sido usadas em histórias de super-heróis. Mais do que figuras mitológicas, Galactus e o Surfista Prateado eram divindades cósmicas. Estatuto que as coloca acima de qualquer julgamento moral. Afinal, o bem e o mal mais não são do que conceitos desenvolvidos pelos humanos para condicionarem as suas próprias ações. Ora, Galactus não respondia perante ninguém pelos seus atos. Em certa medida, ele seria uma alegoria de Deus e o Surfista Prateado representaria metaforicamente o seu anjo caído em desgraça."


Jack Kirby (esq.) e Stan Lee: o Rei e o Papa da Marvel.

  Na obra da sua autoria 500 Comic Book Villains (dada à estampa em 2004), o escritor Mike Conroy aprofundou a análise feita por Lee e Kirby. Aqui ficam, em discurso direto, as suas considerações: "Em apenas cinco anos, Lee e Kirby tinham introduzido nas histórias do Quarteto Fantástico uma panóplia de raças extraterrestres ou seus representantes. Havia os Skrulls, o Vigia, o Estranho e todo um rol infindável de personagens que ambos tinham usado na fundação do Universo que eles vinham construindo. E no qual tudo era possível, contanto que não fossem desprezadas as "leis naturais" desta cosmologia imaginária.
  Nos primórdios do Universo Marvel, as personagens agiam de forma consistente com o título em que estavam inseridas, sabendo de antemão que as suas ações reverberariam noutros. No fundo, tratava-se de uma espécie de telenovela à escala cósmica, com uma miríade de personagens a entroncar numa gigantesca trama. Corporizando Galactus a sua dimensão épica ."
  Findo o trabalho de bastidores, a entrada em cena do Devorador de Mundos e do seu acólito aconteceria em março de 1966, nas páginas de Fantastic Four nº48. Principiava assim a monumental saga precursora do subgénero cósmico. E cujo emocionante clímax mostrou o Surfista Prateado a desafiar o seu mestre com o intuito de salvar a humanidade, pagando um preço elevado pela sua rebeldia.
    
Galactus e Surfista Prateado, parábola divina.

Enredo:

Capítulo I: «A Chegada de Galactus» (The Coming of Galactus!)

Fantastic Four nº48 (março de 1966).

  Algures nas encostas geladas dos Himalaias, esconde-se o Grande Refúgio dos Inumanos. Em segredo, Maximus, o insano irmão de Raio Negro, projeta utilizar a sua nova arma - a que deu o nome de atomizador - para erradicar a humanidade. No entanto, por motivos inexplicados, o seu plano fracassa. À parte alguns terramotos à volta do globo, a humanidade permanece sã e salva.
 Maximus é, porém, fustigado por uma dantesca visão mostrando o perecimento de milhões de inocentes. Antes de ser capturado por Karnak e Gorgon, o irmão de Raio Negro logra reverter a polaridade do seu atomizador. Usando-o de seguida para gerar um campo de antimatéria que encapsula o Grande Refúgio, isolando-o do resto do mundo. Apenas instantes antes de o Quarteto Fantástico (velho aliado dos Inumanos) conseguir deixar o local, regressando a toda mecha para Nova Iorque.
   Entrementes, um ser de pele argentina cruza elegantemente os rincões do Cosmos montado na sua prancha metálica. Ao atingir a orla da galáxia Andrómeda, o Surfista Prateado chama a atenção dos Skrulls. A exemplo de muitas outras civilizações alienígenas, eles sabem que a aparição da criatura reluzente é um mau presságio, pois ele serve Galactus, o Devorador de Mundos.
  Apavorados com a possibilidade de o seu planeta ser consumido pela voracidade de Galactus, os Skrulls tudo fazem para se manterem ocultos aos olhos do solitário arauto que percorre o Universo em busca de alimento para o seu mestre.
   A milhões de anos-luz dali, em Nova Iorque, o Quarteto Fantástico e os demais habitantes da metrópole testemunham um fenómeno com tanto de assombroso como de intrigante. De um momento para o outro, o céu parece ser engolido por gigantescas labaredas. Cenário que leva, de pronto, o Quarteto Fantástico a sair para investigar.
   Para tentar ver o fenómeno mais de perto, o Tocha Humana voa o mais alto que pode pelos céus da cidade. Acabando, contudo, por gerar o pânico entre os nova-iorquinos, que o julgam responsável pela situação.
  De volta ao Edifício Baxter, o Senhor Fantástico enfurna-se no seu laboratório a fim de estudar o bizarro fenómeno. Antes que consiga, porém, obter uma explicação científica para ele, as labaredas dissipam-se no céu, dando lugar a uma espécie de redoma formada por detritos espaciais.
 Quase ao mesmo tempo, o majestoso ser conhecido como Vigia materializa-se no interior do laboratório do Senhor Fantástico. Perante a perplexidade do seu interlocutor humano, o gigante calvo explica-lhe ser ele o responsável pelas perturbações atmosféricas. Resultando estas da sua desesperada tentativa para tornar a terra indetetável ao Surfista Prateado.
   Pela voz do Vigia, o Senhor Fantástico fica a saber que o Surfista Prateado é o arauto de Galactus, um poderoso ser cósmico que extrai o seu sustento da energia vital dos planetas, reduzindo-os a cascas secas e sem vida. Estando agora a Terra na mira do servo do Devorador de Mundos.
  Enquanto isso, o Surfista Prateado investiga de perto o campo de detritos espaciais criado pelo Vigia, encontrando a Terra escondida sob ele. Sem hesitar, ele voa até ao topo do Edifício Baxter e emite um sinal cósmico para o seu amo.
  O Quarteto Fantástico acorre ao local para tentar impedir o Surfista de alertar Galactus. Um golpe desferido pelo Coisa derruba o alienígena, mas é já tarde demais. Nos céus acima de Manhattan, emerge a colossal nave do Devorador de Mundos. Perante o olhar estarrecido dos heróis, o gigante anuncia a sua intenção de se banquetear com o nosso mundo.

Capítulo II: «Dia do Juízo Final» (If This Be Doomsday!)

Fantastic Fout nº49 (abril de 1966).

  Violando o seu juramento de não-interferência, o Vigia tenta demover Galacuts dos seus funestos intentos. Quando a diplomacia falha, o Coisa e o Tocha Humana investem sobre o gigante, que se limita a enxotá-los como se de insetos se tratassem.
  Relutantemente, o Quarteto Fantástico acede ao pedido do Vigia para que cessem as hostilidades contra Galactus. Enquanto este procede à meticulosa montagem do colossal aparato que lhe permitirá drenar a força vital da Terra, o Vigia informa o Sr. Fantástico sobre a existência de uma poderosa arma no planeta natal do Devorador de Mundos que será capaz de detê-lo. A missão de ir buscá-la é então confiada ao Tocha Humana.
  Noutro ponto da cidade, o Surfista Prateado recobra os sentidos no apartamento de Alicia Masters, a escultora cega namorada do Coisa. Inteirada do desígnio do ser cósmico, a jovem suplica-lhe que ele se rebele contra o seu mestre para salvar a humanidade do extermínio iminente.
   Já com o seu aparato quase montado, Galactus é alvo de novo ataque por parte do Quarteto Fantástico. Imperturbável, o gigante ordena a um serviçal robótico que afaste os importunos. Aproveitando a distração, o Vigia amplifica os poderes incandescentes do Tocha Humana para que ele possa viajar até ao planeta natal do Devorador de Mundos e de lá trazer a única arma capaz de o intimidar: o Nulificador Definitivo.
  Comovido pela sensibilidade e nobreza de caráter de Alicia Masters, o Surfista Prateado prontifica-se, entretanto, a tentar evitar que a Terra sirva de acepipe ao seu amo.


Capítulo III: «A Fantástica Saga do Surfista Prateado (The Startling Saga of the Silver Surfer!)

Fantastic Four  nº50 (maio de 1966).

   No coração de Manhattan, o Surfista Prateado distrai Galactus, tentando desesperadamente ganhar tempo até ao regresso do Tocha Humana trazendo consigo o Nulificador Definitivo. Quando o Sr. Fantástico ameaça usá-lo, o Devorador de Mundos aquiesce em poupar a Terra, exigindo em troca que lhe seja entregue a arma.
   Honrando a sua palavra, Galactus abandona logo depois o nosso planeta. Não sem antes punir o Surfista Prateado pela sua insolência, erguendo uma barreira invisível que o impedirá de deixar a Terra.
 Alicia Masters procura consolar o angustiado Surfista Prateado, expressando-lhe a sua gratidão por ter tomado o partido da humanidade. Consumido pelo ciúme, o Coisa afasta-se cabisbaixo antes que a jovem tenha oportunidade de lhe dizer quão orgulhosa ele a deixou.
   À medida que a vida volta à normalidade, os tabloides insinuam que a ameaça de Galactus não terá passado de um embuste.

"Até quando durará o meu exílio?"- interroga-se o ex-arauto de Galactus.

Apontamentos:

* Referenciado como Grande Refúgio em The Coming of Galactus, o lar secreto dos Inumanos seria renomeado Attilan em Thor nº146 (1967);
* De igual modo, o aparente mutismo de Raio Negro também só seria explicitado meses depois, nas páginas de Fantastic Four nº59. Edição em que os leitores ficaram a saber que a voz do silente monarca dos Inumanos tem um enorme potencial destrutivo, ao ponto de conseguir elevar uma montanha com um simples murmúrio;
* A barreira de zona negativa erguida por Maximus ao redor do Grande Refúgio não tem qualquer relação com a Zona Negativa, dimensão paralela composta por antimatéria e governada pelo temível  Aniquilador;
* A insensibilidade evidenciada pelo Surfista Prateado no início da história é explicada pelas manipulações de Galactus, que havia suprimido as memórias e emoções do seu arauto;
* Conquanto Tarnax IV seja referido na narrativa como sendo o planeta natal dos Skrulls, esse dado seria posteriormente desmentido. Na verdade, a raça transmorfa abandonara o seu mundo primordial milhões de anos antes dos eventos mostrados na saga;
* Tarnax IV serviria, contudo, de repasto a Galactus, alguns anos depois. Sobrevindo essa hecatombe de uma falha na tecnologia de camuflagem que permitira durante largo tempo ocultar o planeta-metrópole dos Skrulls do olhar guloso do Devorador de Mundos e das ocasionais prospeções galácticas levadas a cabo pelos seus arautos;
*Pela primeira vez desde que assumira as funções de Vigia da Terra, Uatu violou conscientemente o seu voto solene de não-interferência na História humana. Regra sacramental da sua espécie desde que, milénios atrás, ela causara acidentalmente a extinção em massa de uma raça alienígena ao providenciar-lhe tecnologia nuclear.
* No Brasil, esta saga foi publicada, em abril e maio de 1984, nos números 58 e 59 da segunda série de Heróis da TV.


A 1ª parte da saga foi publicada em Heróis da TV nº58 (1984).

Legado:

* The Coming of Galactus! foi a principal inspiração para a trama do filme de 2007 Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado (já aqui esmiuçado);
* Foi através desta saga que o Surfista Prateado foi guindado para o estrelato, tornando-se presença assídua em Fantastic Four antes de servir como veículo filosófico a Stan Lee no título próprio a que o herói cósmico teria direito pouco tempo depois;
* Em 2009, uma votação promovida entre os leitores pela plataforma Comic Book Resources elegeu The Coming of Galactus! como a 19ª melhor história aos quadradinhos de todos os tempos;
* Logo no ano seguinte à sua publicação, a saga foi adaptada ao pequeno ecrã por via de alguns episódios da série animada Fantastic Four (1967). Facto que se repetiria em 1994 em nova produção do género baseada na Família Fundamental da Marvel;
* No terceiro volume de Marvels (ovacionada minissérie em quatro capítulos da autoria de Kurt Busiek e Alex Ross, datada de 1994), os segmentos da narrativa protagonizados por Galactus são recontados sob o ponto de vista do vilão;
* Marco incontornável na História da 9ª arte,  The Coming of Galactus! foi objeto de múltiplas reedições ao longo dos anos, entre as quais avultam Marvel Masterworks nº25 (1993), The 100 Greatest Marvels of All Time e Essential Fantastic Four Volume 3 (estas últimas lançadas em 2001);

Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado (2007).


Vale a pena ler?

    Com certeza que sim! Esta é, aliás, uma daquelas sagas que devia ser leitura obrigatória para qualquer genuíno aficionado da 9ª arte (e não apenas para os "maluquinhos" por super-heróis como este vosso humilde escriba).
   No meu caso, tive o prazer e o privilégio de lê-la pela primeira vez nas páginas dos números 58 e 59 de Heróis da TV, quando ainda era uma pessoa de palmo e meio recém-alfabetizada. Mesmo não possuindo então a maturidade intelectual para refletir sobre os dilemas morais e as questões teológicas nela vertidos, a história tocou-me o coração.
   Quase fui levado às lágrimas (era um miúdo do tipo emotivo, mas não tanto) pelo degredo a que o pobre Surfista Prateado foi sentenciado pelo seu desapiedado amo depois de ter ajudado a evitar o extermínio de uma espécie cujo comportamento, já naquela altura, era tudo menos exemplar. Interrogo-me, de resto, se o bom Norrin Radd teria tomado idêntica posição se tivesse travado conhecimento com a humanidade dos dias de hoje...
  Quando, anos mais tarde, me senti intelectual e emocionalmente capacitado para reler A Chegada de Galactus percebi que a trama não se restringia aos melodramáticos solilóquios de uma espécie de Hamlet extraterrestre. Havia todo um sortido de personagens cativantes e ação em quantidade suficiente para evitar o enfado de leitores menos propensos a divagações filosóficas.
   Ao passo que a generalidade dos escritores modernos de banda desenhada preferem ater-se às convenções do género, Lee e Kirby estiveram-se a marimbar para elas. Mais importante do que a sofisticação narrativa, para essa dupla de iconoclastas que revolucionou o conceito de super-heróis o fundamental era a vertente humana. E essa assenta sempre nas emoções. Aquelas que as personagens expressam no desenrolar da história e aquelas que despertam nos leitores. Era esse o grande segredo de Lee e Kirby: sabiam como ninguém captar a essência humana, falando diretamente ao coração dos fãs.
  Atrevo-me, não obstante, a fazer dois pequenos reparos a esta obra-prima (ouvi alguém gritar "herege"?): em primeiro lugar, a excessivamente rápida mudança de lado do Surfista Prateado e, depois, a insólita opção de situar o grosso da narrativa nas imediações do Edifício Baxter. Pormenores de somenos importância atendendo à excelência daquela que é, sem dúvida, a melhor história do Quarteto Fantástico alguma vez produzida (aqui entre nós, é por causa dela que ainda hoje sou fã do grupo).
  Contudo, apesar de toda as suas façanhas e glórias, a Família Fundamental da Marvel foi recentemente desalojada da Casa Sem Ideias. Ao fim de mais de meio século de aventuras e desventuras, o Quarteto Fantástico teve a sua série cancelada. Oxalá não seja um adeus, mas apenas um até breve. Quero por isso dedicar este meu singelo artigo aos quatro heróis cujas estórias me transportaram ao Infinito e mais além.

Os 4 eternamente Fantásticos.


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