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quinta-feira, 31 de março de 2016

ETERNOS: GERRY CONWAY (1952 - ...)




   Com apenas 19 anos foi investido da espinhosa missão de suceder a ninguém menos do que Stan Lee em The Amazing Spider-Man. Apesar da sua juventude e do peso desse legado, logrou afirmar-se ao escrever algumas das mais memoráveis histórias do Escalador de Paredes. Dele são também os créditos pela criação de personagens icónicas, como Justiceiro e Nuclear.


Biografia: De ascendência irlandesa, Gerard F. "Gerry" Conway nasceu há 63 anos no Brooklyn (Nova Iorque). Criado no seio de uma modesta família de imigrantes de segunda geração, o pequeno Gerry lia historietas de super-heróis com devoção religiosa. A mesma que lhe falta hoje em dia, apesar de ter recebido uma educação baseada nos preceitos do Catolicismo.
   No seu blogue pessoal, Gerry Conway descreve nestes termos os seus antecedentes familiares: "Os meus avós maternos nasceram na Irlanda. Como muitos outros,antes e depois deles, vieram à procura do sonho americano. Viveram no entanto uma vida em tudo parecida com aquela que a minha empregada de limpeza latina vive hoje em dia. O meu avô trabalhava de sol a sol como estivador nas docas. A minha avó lavava escadas na Hunter College (subsidiária da Universidade de Nova Iorque, sediada em Manhattan). Por força do seu baixo estatuto social, eram os hispânicos daquela época. Ou seja, eram tolerados mas não respeitados pelos estratos sociais mais elevados. Até o meu pai, nascido nos EUA, sentiu na pele esse preconceito em relação aos irlandeses. Raramente falava contudo do assunto. Mas, quando o fazia, era evidente o seu amargor."
  Naquilo que alguns poderão interpretar como um sinal da sua predestinação de vir a ser um expoente da 9ª arte, aos 14 anos Gerry Conway teve uma carta da sua lavra publicada em Fantastic Four nº50 (vide texto anterior). Destino que começou a desenhar-se três anos depois, em setembro de 1969, quando viu ser dado à estampa o seu primeiro trabalho profissional. Consistindo este num conto de terror, composto por seis páginas e meia, publicado em House of Secrets nº81 (título da DC Comics).

Edição de The House of Secrets que marcou
 a estreia profissional de Gerry Conway.

   Por conta desta estreia auspiciosa, da pena de Gerry Conway continuou a sair um manancial de histórias de cariz sobrenatural, publicadas nos meses subsequentes tanto em títulos da Marvel como da DC. Apesar de cada vez mais requisitado, Gerry suspirava por uma oportunidade para trabalhar com a sua verdadeira paixão: super-heróis. Graças à ajuda de amigos bem colocados, em finais de 1970, Gerry entrou em contacto com Roy Thomas    ( à época, editor da Marvel e braço-direito de Stan Lee), que concordou em testar as capacidades do jovem aspirante a escriba, dando-lhe um argumento para desenvolver.
   Oportunidade de ouro que nem passaria pela cabeça de Gerry desperdiçar. Ciente de que tinha na mão a chave para abrir de par em par as portas do seu emprego de sonho, arregaçou as mangas e trabalhou com afinco. Impressionado com a prestação do jovem,. Roy Thomas logo lhe atribuiu outras histórias, inclusive uma de Ka-Zar, publicada em Astonishing Tales nº3 (dezembro de 1970).

O primeiro trabalho de Conway para a Marvel
 foi publicado  neste volume de Astonishing Tales
  Conquistada a admiração dos seus pares, num piscar de olhos Gerry Conway tornou-se parte da mobília da Casa das Ideias. Sendo-lhe confiadas personagens cada vez mais proeminentes: a Ka-Zar seguir-se-iam Demolidor, Viúva Negra, Homem de Ferro, Inumanos e o Incrível Hulk. Sobejando-lhe, ainda assim, tempo e criatividade para escrever a história inaugural da série The Tomb of Dracula, e para participar na conceção de personagens como Lobisomem e Homem-Coisa (Werewolf e Man-Thing, nos respetivos originais).
  O batismo de fogo de Gerry Conway chegaria, contudo, em meados de 1972. Ano em que foi o escolhido para suceder a ninguém menos do que Stan Lee à frente de The Amazing Spider-Man. Ironia do destino, já que, ao contrário de Roy Thomas, o Papa da Marvel não ficara impressionado com a amostra do trabalho de Gerry Conway,  Este, do alto dos seus 19 anos, não se fez rogado na hora de aceitar aquilo que bem poderia ter sido um presente envenenado: assumir o legado de uma lenda viva num título de charneira da Casa das Ideias.
   Malgrado a sua juventude e o natural ceticismo de alguns leitores, Gerry Conway não demorou a afirmar-se, dando um novo elã ao microcosmos do Homem-Aranha. Ao longo do triénio (1972-75) que durou o seu consulado em The Amazing Spider-Man, o escritor revitalizou as histórias do Escalador de Paredes. Algumas das quais, pelo seu escopo na vida do herói, se tornariam antológicas. Foi o caso, desde logo, de The Night Gwen Stacy Died (A Noite em que Gwen Stacy Morreu), que chegou às bancas norte-americanas em junho de 1973.

A morte de Gwen Stacy continua a ser uma das histórias
 mais impactantes na vida do Escalador de Paredes.

  Oito meses depois, em parceria com Ross Andru, Gerry Conway introduziria dois novos e carismáticos antagonistas do herói aracnídeo: o Chacal (The Jackal) e o Justiceiro (The Punisher). Enquanto o primeiro estaria na origem da controversa Saga do Clone (já aqui esmiuçada), o segundo teria uma ascensão fulgurante no Universo Marvel, depressa trocando as roupagens de vilão pelas de um anti-herói cujos métodos radicais no combate à criminalidade o tornaram numa das mais populares personagens dos quadradinhos (e fora deles).

O Justiceiro (aqui pelo traço de Ross Andru, seu cocriador)
rapidamente passou de coadjuvante a protagonista.

  Paralelamente ao trabalho desenvolvido em The Amazing Spider-Man, Gerry Conway escreveu também, durante cerca de ano meio, outro dos títulos mais emblemáticos da Casa das Ideias: The Fantastic Four. 
    Factos que, em 2009, lhe motivariam as seguintes reflexões: "Qualquer pessoa com uma atividade criativa está ciente de que a precocidade é uma maldição. No meu caso, a maior parte da pressão que senti quando era um jovem escritor de super-heróis foi autoinfligida. Aquilo que eu mais queria era ser aceite como igual pelos meus colegas mais velhos. Circunstância que me levou muitas vezes a projetar uma maturidade emocional e profissional superior à que tinha na altura. 
   Posso dizer, no entanto, que era bastante convincente nesse papel. Dele decorrendo vantagens mas, obviamente, também algumas desvantagens. Olhando para trás, julgo que as pessoas se esqueciam frequentemente de quão novo eu era, esperando desse modo que eu atingisse um nível que claramente não estava ao meu alcance. 
  A principal consequência foi eu ter passado os primeiros anos da minha carreira profissional esmagado por uma gigantesca pressão, sem saber muito bem o que fazer. Escrevia muitas vezes por instinto. Quando essa forma de escrever se adequava ao material que tinha em mãos, o resultado final era estupendo. Mesmo passados todos estes anos, continuo a orgulhar-me do trabalho que fiz em The Amazing Spider-Man. Outras situações houve em que fui notoriamente prejudicado pela minha inexperiência."



Houve um antes e um depois de Gerry Conway nas histórias do Homem-Aranha.
   Regressado à DC em meados de 1975, Gerry Conway assumiu de uma assentada três edições, todas datadas de novembro desse ano: Hercules Unbound nº1, Kong, The Untamed nº3 e Swamp Thing nº19. Carga de trabalho complementada pela revitalização por ele operada em All Star Comics. Foi, aliás, neste título histórico com origens na Idade do Ouro que Gerry deu a conhecer a Poderosa (Power Girl), uma das suas mais bem-sucedidas criações.
  Tal versatilidade valeu-lhe, pouco tempo depois, o convite para escrever Superman versus The Amazing Spider-Man, o primeiro crossover oficial Marvel/DC. Iniciativa editorial que associaria para sempre o nome de Gerry Conway à história das duas gigantes dos quadradinhos estadunidenses.
  Depois de mais alguns meses a trabalhar na Editora das Lendas, em março de 1976 Gerry Conway aceitou novo desafio de monta ao assumir o cargo de editor-chefe da Marvel. Funções que exerceria apenas durante pouco mais de um mês, logo renunciando a elas por motivos que permanecem até hoje obscuros.

Nos créditos da batalha do século XX figurava o nome de Gerry Conway.

  Novamente ao serviço da DC (agora em regime de exclusividade), na década seguinte Gerry Conway deixaria a sua marca em praticamente toda a linha de títulos da editora. De Superman a Detective Comics (onde Batman era cabeça de cartaz), passando por Justice League of America, poucas foram as personagens que não tiveram histórias escritas pela sua incansável pena. Fase seminal em que Gerry Ordway foi também cocriador de um lote de personagens emblemáticas. Citando apenas as mais afamadas: Nuclear (Firestorm), Vixen, Vibro (Vibe), Cigana (Gipsy) e Gládio (Steel, the Indestructible Man). Importa referir que, excetuando o herói atómico, os restantes formaram o contingente de neófitos da Liga da Justiça de Detroit.
   Durante esta sua segunda passagem pela DC, Gerry Conway reencontrou Roy Thomas, com quem teve ocasião de colaborar em diversos projetos. Dentre estes, o mais ambicioso - e, em certa medida, o mais frustrante - seria,muito provavelmente, JLA/Avengers, crossover cujo cancelamento foi ditado pelas disputas editoriais entre as duas licenciadoras.
   Constantemente em busca de novos desafios, em finais dos anos 80, Gerry Conway trocou uma vez mais a DC pela Marvel. Entre 1988 e 1990 escreveu em simultâneo The Spectacular Spider-Man e Web of Spider-Man, os dois títulos estrelados pelo Homem-Aranha. Sobre esta sua segunda experiência com o Escalador de Paredes, Conway declararia certa vez: "Entendia a personagem muito melhor nessa altura do que quando tinha 19 anos. Uma das vantagens deste trabalho é que podemos sempre refrescar conceitos consagrados por via de alterações subtis. Algo que me continua a dar gozo fazer."
   Convidado a produzir os guiões da série policial Father Dowling Mysteries, Gerry Conway trocaria entretanto a BD pela TV. Não tendo sido esta, contudo, a sua primeira incursão no panorama audiovisual. Em 1983, ele e Roy Thomas haviam sido os autores do enredo de Fire & Ice, película de animação baseada em personagens idealizadas por Ralph Bakshi e Frank Frazetta. No ano seguinte, a mesma dupla assinaria a trama do filme Conan. The Destroyer (sequela de Conan, The Barbarian ,ambos protagonizados por Arnold Schwarzenegger).

A série televisiva que levou Gerry Conway
a abandonar a indústria dos comics.

   No plano literário, Gerry Conway deu à estampa duas novelas de ficção científica: The Midnight Dancers (1971) e Mindship (1974). Nenhuma delas obteve, todavia, o estatuto de best-seller.
   Circunscrevendo atualmente a sua relação com os comics  a ocasionais colaborações com a Marvel e a DC, Gerry Conway continua, ainda assim, a expressar o seu afeto por esses produtos culturais através das múltiplas referências que lhes faz nas séries televisivas que escreve e produz. Num episódio de Law & Order, por exemplo, deu o nome de John Byrne a uma das personagens.Rendendo dessa forma tributo a outro grande vulto da 9ª arte, cujo perfil já aqui foi publicado.
  Casado em segundas núpcias com Karen Bitten - uma psicóloga especializada em autismo infantil -, Gerry Conway é pai de duas filhas. Sendo a mais velha fruto do seu matrimónio com Carla Conway. Além da parentalidade, o ex-casal divide os créditos pela criação de Miss Marvel.
    A residir desde 2009 em San Fernand Valley - subúrbio da buliçosa Los Angeles - Gerry Conway leva uma pacata vida familiar longe dos holofotes. Nada que impeça a sua legião de fãs de continuar a acalentar a esperança de o ver regressar em grande estilo à indústria dos quadradinhos, atravessando presentemente uma das mais amorfas fases da sua História.
   Mesmo que tal nunca venha a acontecer, pelo seu importante contributo para o prestígio da 9ª arte, o nome de Gerry Conway ficará para sempre entalhado com letras douradas no panteão dos seus mais preclaros autores.


Gerry Conway entrevistado durante a Comic Con de Seattle de 2013.

 Obras de referência:

* The Amazing Spider-Man (Marvel, 1972-75);
* Superman versus The Amazing Spider-Man (Marvel/DC, 1976);
* Superman versus Wonder Woman (DC, 1978);
* Superman versus Shazam (idem, ibidem)
.*The Spectacular Spider-Man (Marvel, 1988-90);
* Web of Spider-Man (idem, ibidem);
* DC Retroactive: Justice League- The '80s (DC, 2011);

Outro tesouro de papel com a assinatura de Gerry Conway.

Principais criações e cocriações:

* Justiceiro/Punisher (Marvel);
* Chacal/Jackal (Marvel);
* Poderosa/Power Girl (DC);
*Vibro/Vibe (DC);
*Cigana/Gipsy (DC);
*Gládio/Steel, The Indestructible Man (DC);
* Miss Marvel (Marvel);
*Homem-Coisa/Man-Thing (Marvel);
* Lobisomem/Werewolf (Marvel);
* Jason Todd*(DC);
* Nevasca/Killer Frost (DC);
* Nuclear/Firestorm (DC);
* Crocodilo/Killer Croc (DC);
*Ben Rilley** (Marvel);
* Halloween/Jack O'Lantern (Marvel)
*Drácula/Dracula (Marvel);
*Esquadrão Atari/Atari Force (DC)

* Identidade civil do segundo Robin (atual Capuz Vermelho);
** Identidade civil do Aranha Escarlate

Nuclear: umas das mais célebres criações de Gerry Conway.


2 comentários:

  1. Texto muito bom! Gostei de conhecer mais acerca desse talentoso roteirista. Se não voltar aos quadrinhos, que ao menos ministre aulas de como escrever para essa mídia.

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