27 agosto 2014

GALERIA DE VILÕES: KRAVEN, O CAÇADOR






    Criado no seio de uma aristocracia decadente, Sergei Kravinoff procurou recuperar a nobreza perdida tornando-se um dos melhores caçadores do planeta. Não foi, contudo, na savana, mas sim na selva de betão, que encontrou a sua presa de eleição. No Homem-Aranha encontrou um desafio à sua altura.

Nome original da personagem: Kraven, the Hunter
Primeira aparição: The Amazing Spider-Man nº15 (agosto de 1964)
Criadores: Stan Lee (história) e Steve Ditko (arte)
Licenciadora: Marvel Comics
Identidade civil: Sergei Nikolaevich Kravinoff (originalmente, o apelido era Kravinov)
Local de nascimento: Volgogrado (antiga Estalinegrado), Rússia
Parentes conhecidos: Nikolai Kravinoff (pai falecido), Ana Kravinoff (mãe) Dmitri Smerdyakov (o vilão conhecido como Camaleão, seu meio-irmão), Sasha Kravinoff (esposa falecida), Alyosha Kravinoff (filho), Ana Tatiana Kravinoff (filha), Ned Tannengarden (filho falecido), Gog (filho adotivo) e Xraven (clone)
Afiliação: Ex-membro do Sexteto Sinistro e dos Vingadores (grupo ativo na década de 1950, sem qualquer conotação com a atual equipa); ex-aliado do Camaleão e de Calypso
Base de operações: Móvel
Armas, poderes e habilidades: Graças à ingestão regular de poções produzidas a partir de misteriosas ervas colhidas nas profundezas das selvas africanas, Kraven adquire capacidades físicas (como força, velocidade e resistência sobre-humanas) que lhe permitem rivalizar com oponentes mais poderosos. Também os seus sentidos são amplificados pela ação das referidas poções herbáceas, aumentando dessa forma as suas já impressionantes habilidades de rastreamento.
     Como efeito colateral das supracitadas poções, Kraven teve o seu processo natural de envelhecimento profundamente retardado. Apesar de ser já septuagenário, o vilão não aparenta ter mais de trinta anos.
    Mesmo despojado de habilidades sobre-humanas, Kraven é um atleta de nível olímpico, um estrategista brilhante e um exímio lutador corpo a corpo. É ainda um profundo conhecedor da anatomia humana e de muitos animais, estando por isso familiarizado com os pontos de pressão que, quando tocados com precisão, lhe permitem facilmente neutralizar os seus adversários.
   Avesso ao uso de armas de fogo, nas suas caçadas Kraven opta frequentemente pela utilização de armadilhas, redes, lanças e dardos embebidos em venenos ou tranquilizantes naturais. 
    Poucos são os animais que Kraven não consegue domar e/ou treinar no sentido de obedecerem quase na perfeição aos seus comandos. Muitos especulam que este facto se deverá a algum tipo de controlo mental exercido pelo vilão sobre as feras, o que nunca ficou demonstrado.

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Kraven sonha adicionar o Homem-Aranha à sua coleção de troféus de caça.
 
Histórico de publicação:  Há precisamente meio século, em agosto de 1964, Kraven, o Caçador debutava nas páginas de The Amazing Spider-Man nº15. Conquanto, nos anos subsequentes, tenha ocasionalmente marcado presença em títulos de outras personagens do Universo Marvel, notabilizou-se como antagonista do Homem-Aranha.

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Kraven fez a sua primeira aparição em Amazing Spider-Man nº15 (1964), numa edição que contava ainda com participação especial de outro dos antagonistas clássicos do herói aracnídeo: o Camaleão.

    Conforme mostrado no texto anterior, o vilão suicidou-se no final da saga Kraven's Last Hunt (1987), da autoria de J.M. DeMatteis e Mike Zeck. Também como vimos anteriormente, sendo quase unanimamente considerada a história suprema da personagem, Kraven acabou por ser uma segunda escolha do argumentista, que idealizara outro némesis para o Escalador de Paredes.
    A este propósito, DeMatteis recorda: "Estava pronto para começar a trabalhar na história. Estava sentado meu escritório e dei comigo a folhear o «Marvel Universe Official Handbook». Por nenhuma razão especial, li a entrada referente a Kraven, o Caçador. Desconhecia em absoluto que a personagem tinha nacionalidade russa. Aos olhos de um indefetível de Dostoiévski como eu, isso tornou-a logo mais interessante. Ocorreu-me que Kraven, a exemplo de muitas personagens de Dostoiévski, poderia ser dono de uma alma torturada. Adquiri subitamente um entendimento totalmente novo da sua quintessência. Considerei interessante a possibilidade de explorar as motivações de Kraven para ser quem era. Foi uma verdadeira epifania, visto que a personagem em questão nunca me suscitara o menor interesse. Honestamente, sempre o considerei um dos mais ridículos inimigos do Homem-Aranha. Porém, a partir daquele momento, passei a percecioná-lo de uma forma completamente diversa".
   Não obstante tratar-se de um dos mais antigos oponentes do herói aracnídeo, DeMatteis afirma que nenhum dos mandachuvas da Marvel levantou objeções à morte de Kraven no final da história em questão. No entanto, o vilão - ainda que numa forma espectral - seria ulteriormente devolvido ao mundo dos vivos na novela gráfica Soul of the Hunter, produzida em 1992 pelos mesmos autores de Kraven's Last Hunt. DeMatteis escreveu ainda Kraven's First Hunt, espécie de prequela publicada em The Sensational Spider-Man Annual '96. Entre outras coisas, na história eram abordados pormenores do passado de Kraven, nomeadamente as sevícias por ele infligidas ao seu meio-irmão (Dmitri Smerdyakov, o Camaleão).


Sozinho ou integrado no Sexteto Sinistro, Kraven é um dos mais antigos oponentes do Homem-Aranha.

Biografia: Sergei Kravinoff é filho de um aristocrata russo obrigado a exilar-se com a sua família em terras do Tio Sam na sequência da Revolução Bolchevique e da consequente queda do regime do Czar Nicolau II em 1917.
   Procurando recuperar o prestígio perdido, Sergei procurou os serviços de um misterioso mercenário  conhecido apenas como Gregor, que o treinou para ser um dos melhores caçadores do mundo. Celebrizado internacionalmente como Kraven, o Caçador, Sergei rapidamente se entediou por conta da escassez de desafios à sua altura. Por sugestão do seu associado, Dmitri Smerdyakov (futuro Camaleão), Kraven elegeu o Homem-Aranha como o seu supremo troféu de caça.
   No entanto, ao invés da maioria dos seus congéneres, Kraven desdenha o uso de armas de fogo (bem como de arcos e de flechas), preferindo subjugar animais ferozes e de grande porte com as próprias mãos ou recorrendo a sofisticadas armadilhas. Rege-se igualmente por um estrito código de honra que o leva a tratar com respeito as suas presas. Em Kraven's Last Hunt abriu, contudo, uma exceção no que tange à utilização de armas de fogo. Ainda que não tenha disparado munição real, mas sim dardos tranquilizantes que deixaram o Escalador de Paredes em estado comatoso.
   Graças às infusões e poções confecionadas pela sua amante Calypso (uma sacerdotisa vudu) a partir de extratos de plantas exóticas trazidas das selvas mais profundas, Kraven adquire capacidades acima da média, que o tornam um caçador ainda mais eficiente.
   Embora coadjuvado pelo Camaleão, Kraven foi malsucedido na sua primeira tentativa de caçar o Homem-Aranha e acabou deportado dos EUA. Regressaria pouco tempo depois ao país, para integrar o Sexteto Sinistro (coletivo vilanesco que, na sua primeira formação, contava também com o Dr. Octopus, Mysterio, Abutre, Electro e Homem-Areia). Ele e os seus comparsas acabariam, todavia, derrotados pelo herói aracnídeo.

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Formação original do Sexteto Sinistro, com Kraven em primeiro plano.

    Por sempre ter subestimado o Escalador de Paredes, Kraven foi sucessivamente sobrepujado por ele. Após anos a acumular frustração e rancor, o vilão empreendeu, como vimos, a sua derradeira caçada ao Homem-Aranha. Derrotado uma vez mais pelo herói, colocou aparentemente termo à vida.
   Na esteira desses eventos, Dmitri Smerdyakov - tido até então como um mero serviçal de Kraven - revelou o grau de parentesco existente entre os dois (meios-irmãos) e denunciou os maus-tratos de que foi continuadamente vítima por parte do falecido.
    Mercê do seu suicídio, a alma de Kraven foi condenada ao purgatório, sendo-lhe interdito o perpétuo descanso. Ciente disso, a sua esposa Sasha, adjuvada pela prole do casal Kravinoff (Ana, Vladimir e Alyosha), levou a cabo um ritual de ressurreição no qual foi pretensamente utilizado sangue do Homem-Aranha. Mas alguma coisa correu mal. Devolvido à vida, Kraven revelou-se mais psicótico e violento do que nunca.
     Após ter espancado Alyosha e Ana, foi esfaqueado por esta. Sasha constatou então que o sangue usado no ritual não pertencia ao Homem-Aranha, mas sim a Kaine, o seu clone corrompido. O que explicava os comportamentos erráticos do marido
   Depois de o clã ser desbaratado pelo verdadeiro Escalador de Paredes, todos os seus elementos escaparam para a Terra Selvagem. Kraven decidiu então caçá-los um por um, a fim de confirmar se eles eram dignos de ostentarem o seu apelido. Em consequência disso, Sasha foi morta pelo marido, Vladimir foi eutanasiado pelo pai, Alyosha fugiu e Ana implorou ao progenitor que lhe concedesse a oportunidade de ser treinada por ele, para assim poder reconstituir o clã Kravinoff. Kraven aquiesceu a troco da promessa feita por Ana de que iria caçar o irmão foragido.

O caçador supremo.
      
Legado: Durante o período em que Kraven foi dado como morto, e mesmo após o seu regresso ao mundo dos vivos, vários descendentes seus tentaram honrar o seu legado. O primeiro a assumir essa responsabilidade foi o seu filho Vladimir que moveu caça tanto ao Homem-Aranha como a alguns dos seus inimigos, acabando assassinado por Kaine, o clone insano do Escalador de Paredes. Seria posteriormente ressuscitado por Sasha Kravinoff através de um ritual envolvendo sacrifícios humanos. O redivivo Vladimir, no entanto, regressou sob a forma de uma leão humanoide. Numa expressão de respeito pelos mortos, Kraven eutanasiou o filho durante a estada do clã Kravinoff na Terra Selvagem.
     Pouco tempo após a morte do seu meio-irmão, foi a vez de Alyosha assumir, durante um breve período, a identidade de Kraven. A qual abandonou para se mudar de armas e bagagens para Hollywood.
    Houve ainda um terceiro filho, Ned Tannengarden, que tentou matar Alyosha, acabando ele próprio por ser morto pelo Camaleão, cujo grau de insanidade o levava a acreditar ser ele o verdadeiro Kraven.
    Mais tarde foi a vez de Ana Kravinoff seguir as pisadas do pai. Pelo meio houve ainda Gog, um ser extraterrestre perfilhado por Kraven depois de ter sido resgatado por ele da sua espaçonave despenhada.
    Em 2009, no crossover X-Men/Spider-Man, foi revelada a existência de Xraven, um clone produzido pelo Senhor Sinistro a partir  do ADN de Kraven combinado com o dos X-Men originais. Facto que lhe conferia as habilidades do quinteto de heróis mutantes.

Ana Kravinoff: quem sai aos seus não degenera.

Noutros media: No seu ranking de 2009 dos Melhores Vilões de Sempre dos Quadradinhos, o site IGN atribuiu a Kraven a 59ª posição. No pequeno ecrã, a sua estreia ocorreu na série animada de 1966 The Marvel Super-Heroes - curiosamente no segmento estrelado pelo Homem de Ferro. Em 1981, Kraven participou pela primeira vez numa série similar  - Spider-Man - tendo o Homem-Aranha como protagonista. Antes, numa produção homónima datada de 1967, uma personagem decalcada de Kraven (um caçador australiano chamado Harley Clivington) havia marcado presença num episódio intitulado The One-Eyed Idol. Remonta a 2012, na série de animação Ultimate Spider-Man, a  mais recente incursão televisiva do vilão.
   Marc Webb, realizador das duas últimas aventuras cinematográficas do Escalador de Paredes, já manifestou o seu interesse em incluir Kraven no terceiro capítulo da nova saga, muito provavelmente com o vilão a surgir integrado no Sexteto Sinistro.

Kraven em Spider-Man: The Animated Series (1994-1998).

04 agosto 2014

HEROÍNAS EM AÇÃO: TEMPESTADE



    Descendente de uma linhagem ancestral de sacerdotisas africanas, Ororo alia o seu poder mutante de controlo do clima a um elevado potencial místico. Deusa, rainha e X-Man de segunda geração, foi também a primeira super-heroína negra na história da 9ª arte.

Nome original da personagem: Storm
Primeira aparição: Giant-Size X-Men nº1  (maio de 1975)
Criadores: Len Wein (história) e Dave Cockrum (arte)
Licenciadora: Marvel Comics
Identidade civil: Ororo Munroe
Local de nascimento: Manhattan, Nova Iorque (EUA)
Parentes conhecidos: David e N'Daré Munroe (pais falecidos), Ainet (mãe adotiva), Achmed El Gibar (pai adotivo), Coronel Shetani (tio materno), Abuya (prima), Pantera Negra (ex-marido), Kymera (futura filha) e Robert Munroe (filho adotivo)
Afiliação: Ex-membro da X-Force, dos Morlocks, do Clube do Inferno, do Quarteto Fantástico e dos Vingadores Secretos (durante os eventos de Guerra Civil). Lidera atualmente os X-Men.
Base de operações: Escola Jean Grey Para Estudos Avançados


Deusa. Rainha. Heroína. Mulher. Tempestade é tudo isso e muito mais.
 
Armas, poderes e habilidades: Possivelmente uma mutante de nível ómega (o mais elevado na escala que classifica o poderio dos homo superior), Tempestade é uma das mais poderosas entre os seus congéneres. A principal fonte do seu poder- que  consiste, essencialmente, na habilidade psiónica de controlar e manipular todas as formas de clima em vastas áreas- advém do campo eletromagnético da Terra.
    Além da sua capacidade para gerar fenómenos atmosféricos (precipitação, temperatura, humidade,etc), consegue induzir temporais ou nevascas, invocar furacões ou, em sentido inverso, amenizar as condições meteorológicas.
    Com idêntica facilidade, Tempestade pode manipular as correntes de ar quente o suficiente para estas suportarem o peso do seu corpo, permitindo-lhe dessa forma voar a grandes altitudes e velocidades.
     Em diversas ocasiões também já demonstrou capacidade de controlar forças naturais que incluem ventos solares, correntes oceânicas, terramotos, energia eletromagnética e até tempestades cósmicas.
    Quando no espaço sideral, Tempestade pode alterar a sua perceção visual de molde a conseguir enxergar o Universo sob a forma de padrões energéticos. Dessa forma, ela consegue detetar e manipular a seu bel-prazer os fluxos de energia térmica, cinética e eletromagnética associados aos fenómenos atmosféricos - princípio válido tanto para ecossistemas terrestres como extraterrestres.
   Ao longo dos anos, Tempestade desenvolveu igualmente uma forte resistência telepática, sendo portanto pouco vulnerável a ataques dessa natureza. Em paralelo, mercê do seu poder mutante, Ororo estabeleceu um vínculo psíquico com a própria biosfera terrestre. Característica que, entre outras coisas,  lhe permite pressentir, mesmo a grandes distâncias, a ocorrência de sismos e intempéries, bem como movimentos no ar ou na água.
    Embora não desenvolvido, existe um enorme potencial místico em Tempestade, cujas antepassadas eram feiticeiras e sacerdotisas africanas. É, por outro lado, uma exímia combatente corpo a corpo (muito graças ao treino que recebeu de Wolverine), uma brilhante estratega (facto que lhe valeu a liderança dos X-Men) e poliglota (fala fluentemente Inglês, Francês, Suaíli, Árabe, Russo e Japonês)

Tempestade é uma das mais poderosas mutantes do mundo.

Fraquezas: As habilidades mutantes de Tempestade são afetadas pelas suas emoções. Consequentemente, se ela perde o controlo sobre estas últimas, a sua cólera pode induzir uma intempérie devastadora. Devido a um trauma de infância, sofre também de severa claustrofobia.
 
Dos primórdios à atualidade: a evolução de um mito.
Histórico de publicação: Tempestade debutou nas páginas de Giant-Size X-Men nº1 (maio de 1975), uma edição histórica porquanto assinalou a estreia da segunda geração de X-Men. A nova heroína mutante resultou do somatório de duas outras personagens concebidas pelo desenhista Dave Cockrum: Gata Negra e Tufão (da primeira herdou uma variante do seu uniforme; do segundo o poder de invocar ventos). 
    Uma vez que a equipa criativa dos X-Men não desejava um coletivo totalmente masculino, o editor Roy Thomas sugeriu a Dave Cockrum que transformasse o Tufão numa mulher. Ideia que o artista  tomou como premissa para a conceção de uma nova personagem.

Única representante feminina da segunda geração dos X-Men, Tempestade fez a sua estreia em Giant-Size X-Men nº1 (1975).

   Quando os primeiros esboços de Tempestade foram apresentados, alguns dos colegas de Cockrum  expressaram as suas reservas quanto ao facto de ela exibir uma farta cabeleira branca. Receavam que essa característica lhe conferisse o aspeto de uma idosa. Cockrum, todavia, mostrou-se confiante de que essa seria a imagem de marca da sua criação, a qual decerto agradaria aos leitores.
   Algum tempo depois, Chris Claremont sucedeu a Len Wein como argumentista de Uncanny X-Men, produzindo nessa qualidade algumas das mais notáveis sagas dos pupilos de Charles Xavier, como God Loves, Man Kills e  Dark Phoenix Saga. Em ambas Tempestade teve um papel de relevo - em especial na segunda, na medida em que era a melhor amiga de Jean Grey.
   Em Uncanny X-Men nº102 ( dezembro de 1976), o mesmo Chris Claremont escreveria a origem de Ororo, a qual permaneceria inalterada durante muitos e bons anos.
  Tempestade teve ainda a particularidade de ser a primeira super-heroína negra na história dos quadradinhos. No Universo Marvel, sucedeu a um punhado de heróis negros, como Pantera Negra (1966), Falcão (1969, Luke Cage (1972) e Blade (1973).

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O visual original de Tempestade suscitou algumas reservas.

   A este propósito, Gladys L. Knight, autora do livro Female Action Heroes: A Guide to Women in Comics,Video Games, Film and Television (2010), escreveu: «Os dois aspetos distintivos da personalidade de Tempestade são a sua identidade racial e a sua condição mutante».
   Com efeito, os X-Men serviram sempre como representação simbólica de minorias marginalizadas, tendo a sua estreia nos quadradinhos coincidido com a luta pelos direitos cívicos dos afro-americanos (sendo, por conseguinte, Charles Xavier e Magneto, respetivamente, alegorias de Martin Luther King e Malcom X). 
   Também não deverá, por outro lado, ter sido fortuito o facto de a criação de Tempestade ter ocorrido no auge de um novo género cinematográfico (conhecido nos EUA como blaxplotation) que, nos anos 70 do século XX, fazia  a apologia do orgulho negro e teve como um dos seus principais expoentes a atriz Pam Grier.

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Elementos em fúria.
Biografia: Ororo Munroe descende de uma antiga linhagem de feiticeiras e sacerdotisas africanas, das quais herdou os seus peculiares cabelos brancos e olhos azuis, além de um elevado potencial místico. O seu nome, de resto, significa "beleza" em Suaíli (uma das línguas oficiais do Quénia, do Uganda e da Tanzânia).
   A sua mãe, N'Daré, era uma princesa de uma tribo queniana, que após o seu casamento com um fotojornalista norte-americano chamado David Monroe, se mudou para Nove Iorque, cidade onde Ororo nasceria. Seis meses depois do nascimento da filha, o casal trocou a Grande Maçã pela capital egípcia.
   Durante os cinco anos seguintes, a família viveu feliz no Cairo. Até ao dia em que o prédio onde habitavam foi atingido pela queda de um avião. Os pais de Ororo morreram na sequência do desastre, mas ela sobreviveu, soterrada por toneladas de escombros e amparada pelo corpo sem vida da sua progenitora. Este trágico episódio esteve na origem da sua severa claustrofobia.
   Órfã e sem-abrigo, a pequena Ororo vagueou pelas ruas do Cairo antes de ser encontrada pela quadrilha de Achmed El Gibar. Este perfilhou-a e ensinou-lhe a arte de roubar. Em nome da sobrevivência, Ororo tornou-se uma astuta ladra, tendo como alvos preferenciais turistas incautos, a quem gostava de surripiar as carteiras. Foi, de resto, o que tentou fazer a um jovem Charles Xavier, em solitária peregrinação pelo Norte de África, anos antes de formar os X-Men e de recrutar a jovem mutante para as suas fileiras.
   Com apenas doze anos, Ororo, movida por um irreprimível desejo de descobrir as suas raízes, rumou ao sul. Nessa sua jornada aceitou ingenuamente a boleia oferecida por um camionista sudanês que a tentou violar. Ororo foi forçada a matá-lo e jurou que nunca mais tiraria a vida a outro ser humano.
  Depois de quase ter perecido na sua travessia do deserto do Saara, os poderes climáticos de Ororo manifestaram-se pouco antes de, já no Quénia, o seu caminho se cruzar com o do príncipe de Wakanda, T'Challa (o futuro Pantera Negra).
   Como é habitual na adolescência, o casal viveu um breve, porém intenso, romance. Interrompido devido aos deveres de T'Challa enquanto herdeiro da coroa wakandesa.
   Chegada enfim à terra dos seus antepassados - a planície do Serengeti, território que se estende entre o Quénia e a Tanzânia - Ororo foi acolhida por uma anciã chamada Ainet.
   Certa vez, quando a sua aldeia foi afetada por uma seca extrema, Ororo usou os seus poderes para produzir chuva. Em consequência disso, a jovem mutante passou a ser adorada como uma deusa pelas tribos locais. No entanto, as suas ações provocaram um desequilíbrio no clima de regiões vizinhas, causando a morte a centenas de animais. Ainet aproveitou o sucedido para lhe explicar a importância de usar os seus dons de forma responsável. Lição  não mais desaprendida pela jovem mutante.
   Como a sua existência já era do conhecimento do Professor Xavier, que precisava urgentemente de reunir uma nova equipa na sequência da captura dos seus pupilos pela ilha senciente de Krakoa, Ororo foi recrutada para integrar essa segunda geração de X-Men, adotando o codinome de Tempestade.

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A segunda formação dos X-Men, com Tempestade em primeiro plano.

   Em virtude das suas raízes culturais e do seu apego à terra dos seus ancestrais, não foi, contudo, fácil a adaptação de Ororo ao mundo moderno. Valeu-lhe, pois, a paciente ajuda de Jean Grey (uma das X-Man fundadoras, mais tarde renomeada de Fénix), com quem criou fortes laços de amizade. Jean foi também uma das primeiras a ficar ao corrente da fobia de Ororo em relação a espaços fechados.
   Após o sacrifício - e aparente morte -  de Jean Grey, Ciclope, até então líder dos X-Men, abandonou a equipa. Tempestade foi a escolhida para lhe suceder. Apesar da sua insegurança inicial, graças ao apoio e encorajamento dos seus companheiros, Ororo afirmou-se no papel de líder.
   Anos depois, quando procuravam localizar o Anjo, os X-Men depararam-se com uma comunidade subterrânea de mutantes, conhecidos como Morlocks, e que tinham sido os raptores do seu camarada alado. Para salvá-lo, Tempestade desafiou Callisto, a arguta chefe da colónia, para um combate mano a mano. Saindo vencedora, Ororo assumiu a liderança da comunidade e ordenou-lhes que cessassem imediatamente os ataques aos habitantes da superfície.
    Depois de ter perdido e recuperado os seus poderes, de ter regredido à puberdade e de ter sido dada como morta, Tempestade afastou-se dos X-Men e regressou a África e aos braços de uma antiga paixão: T'Challa (o Pantera Negra, atual soberano de Wakanda). Rapidamente os dois resolveram casar-se, o que outorgou a Ororo o título de rainha consorte de Wakanda. No entanto, entediada com as suas obrigações reais, Tempestade, com a anuência do marido, participava ocasionalmente nas missões dos X-Men.
    Em lados opostos da barricada durante o recente conflito que opôs Vingadores e X-Men, Tempestade e Pantera Negra separaram-se, com este último, na sua qualidade de supremo sacerdote de Wakanda, a anular o matrimónio.

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Pantera Negra e Tempestade: um casamento de sonho que acabou em pesadelo.

   Com o recrudescimento da espécie mutante um pouco por todo o globo e com cada novo homo superior a ser fervorosamente disputado pelos renovados X-Men e pela fação radical comandada por Ciclope, Tempestade acumula atualmente as funções de professora e de reitora na Escola Jean Grey Para Estudos Avançados (sucessora do Instituto Xavier Para Jovens Sobredotados). De caminho, reciclou o visual punk com que tinha feito furor na década de 1990.

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Tempestade volta a liderar os X-Men.
Noutros media: Ratificando o seu estatuto de uma das mais fortes personagens femininas, não só dos X-Men mas de toda a nona arte, o 42º lugar alcançado por Tempestade na lista dos melhores heróis e heroínas dos quadradinhos de todos os tempos, divulgada pelo site IGN. Também a revista Wizard, especializada em comics e seus subprodutos, a classificou como a 89ª melhor personagem de sempre nos quadradinhos. Popularidade ainda mais notória quando os critérios se estreitam, conforme sucedeu com a eleição promovida pelo IGN dos 25 melhores X-Men, na qual coube a Tempestade um honroso 8º lugar. A própria Marvel, por seu turno, indicou-a como a terceira X-Man mais influente de sempre.
   Perante isto, não é, pois, de admirar que Ororo seja presença assídua em séries animadas, como X-Men: Evolution e Wolverine and the X-Men, bem como em jogos de vídeo e toda a sorte de merchandising com a chancela da Casa das Ideias.
   No cinema, vem sendo representada por Halle Berry, tendo participado em quatro dos cinco filmes dos Filhos do Átomo produzidos até à data: X-Men (2000), X-Men 2 (2003), X-Men 3 - O Confronto Final (2006) e X-Men - Dias de um Futuro Esquecido (2014).

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Halle Berry voltou a dar vida à Rainha dos Ventos no recente X-Men - Dias de um Futuro Esquecido.

20 junho 2014

ETERNOS: NEAL ADAMS (1941 - ...)


     Reabilitou Batman e outras personagens emblemáticas da DC, cativando dessa forma toda uma nova safra de leitores. Lenda viva da nona arte, notabilizou-se também pela defesa dos direitos autorais dos seus pares.

Biografia e carreira: Neal Adams nasceu em Governors Island (Nova Iorque), a 15 de junho de 1941, no seio de uma família judaica. Frequentou a School of Industrial Art (espécie de escola profissional vocacionada para as artes gráficas situada em Manhattan), onde se diplomou em 1959.
     Nesse mesmo ano, o jovem (tinha apenas 18 anos) e ambicioso Adams enviou uma amostra do seu trabalho para a DC Comics, na esperança de se tornar um ilustrador freelancer ao serviço da Editora das Lendas. Quando esta rejeitou o seu portefólio, Adams não esmoreceu e tentou a sua sorte junto da Archie Comics. Conseguiu então fazer-se contratar e assumiu a arte das aventuras da lenda do Velho Oeste, Bat Masterson, publicadas sob a forma de tiras diárias num jornal.
     Entre 1962 e 1966, Adams ganhou projeção ao ilustrar outra tira de jornal, baseada em Ben Casey, popular série televisiva transmitida pelo canal ABC que retratava o dia da dia num hospital.

A arte de Neal Adams na tira inaugural de Ben Casey (novembro de 1962)

     Após uma saída pouco pacífica da Archie Comics, Neal Adams enveredou pela arte comercial ao serviço de uma agência publicitária. Um trabalho que não lhe enchia as medidas, motivando-o por isso a tentar nova aproximação à DC no ano seguinte.
     Com efeito, em meados de 1967, Adams acabou mesmo por ser contratado pela Editora das Lendas para desenhar uma história do Desafiador (Deadman, no original), inserida no título Strange Adventures. Esta foi, de resto, a primeira personagem da DC para cuja revitalização contribuiu.
      O traço realista de Adams deixou os leitores impressionados e não tardou a que se tornasse o principal capista da DC. Entre os variadíssimos trabalhos produzidos nessa qualidade, destacam-se as capas de Action Comics nº356  e Superman's Girl Friend, Lois Lane nº79, ambas datadas de novembro de 1967 e estreladas pelo Homem de Aço.
 
A premiada capa de Strange Tales nº207, uma das primeiras produzidas por Neal Adams.
   
      Nos derradeiros dias da chamada Idade da Prata dos Quadradinhos, Adams foi desafiado a desenhar um história do Homem-Elástico da autoria de Gardner Fox (argumentista prolífico e criador, entre outros, da versão moderna do Gavião Negro). Não obstante tratar-se de uma personagem secundária do Universo DC, a história em questão seria publicada em Detective Comics, título icónico onde, em 1939, se estreara um certo Homem-Morcego.
      Apesar do seu crescente sucesso ao serviço da DC, a verdade é que Adams continuava a colaborar com a editora na qualidade de freelancer. Razão pela qual não viu problema em trabalhar em simultâneo para  a sua principal concorrente. A partir de 1969, Neal Adams começou a desenhar várias histórias dos X-Men para a Marvel Comics. Durante esse período teve como parceiros criativos argumentistas veteranos, como Roy Thomas e Dennis O'Neil.
       Foi precisamente com este último que Neal Adams, sob a orientação de Julius Schwartz (editor-chefe da DC na altura), devolveu o tom sombrio e intenso às histórias de Batman, demarcando-o em definitivo do registo pueril da série televisiva homónima, exibida entre 1966 e 1968 pela ABC. O contributo de Adams para a reabilitação do herói passou ainda pela introdução na sua mitologia de duas novas e carismáticas personagens: R'as al Ghul (1970) e Morcego Humano (1971). Deve-se-lhe igualmente a revitalização do principal némesis do Cruzado Encapuzado. Com Adams, o Joker voltou às suas origens, sendo retratado como um homicida psicótico que se deleita com o caos que provoca.

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Graças ao traço realista de Adams, Batman readquiriu a sua tonalidade obscura.

    Se a revitalização de Batman foi bem acolhida pelos fãs, já a nova abordagem da dupla Neal Adams/Dennis O'Neil ao Lanterna Verde e ao Arqueiro Verde foi controversa. Nas páginas do novo título conjunto - Green Lantern/Green Arrow - de duas personagens com pouco em comum,  à parte uma notória afinidade pela cor verde, temas como o racismo, a poluição e a toxicodependência foram amplamente explorados. Embora o trabalho desenvolvido pela dupla à frente da série lhes tenha valido alguns prémios e de ter inaugurado uma nova tendência na indústria dos comics, as vendas ficaram aquém do esperado e, três anos após ter sido lançado, Green Lantern/Green Arrow foi cancelado.


Uma das melhores ( e mais polémicas) produções da dupla Adams/O'Neill, Green Lantern/Green Arrow não resistiu aos fracos resultados comerciais.
     A partir daí - exceção feita ao trabalho desenvolvido com Batman -, as colaborações de Neal Adams com a DC tornaram-se mais e mais ocasionais. O álbum gigante que apresentava um combate de boxe entre o Super-Homem e o lendário campeão de pesos-pesados Muhammad Ali foi, em 1978, o último trabalho completo que Adams executou para a DC antes de fundar a sua própria editora. A Continuity Associates (mais tarde rebatizada Continuity Studios) produzia inicialmente arte para anúncios publicitários e para guiões cinematográficos. Por ela passaram nomes sonantes da indústria dos quadradinhos, como Jim Starlin, Al Milgrom e Howard Chaykin, apenas para citar alguns.
     Após um longo interregno (a sua última colaboração com a Casa das Ideias remontava a 1981), em 2005 Neal Adams regressou à Marvel para desenhar uma história de 8 páginas em Giant Size X-Men nº3. Cinco anos depois, em 2010, foi a vez de a DC lhe voltar a abrir as portas. Adams foi encarregue de escrever e desenhar os doze volumes da minissérie Batman: Odyssey.

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Exemplo do trabalho feito por Neal Adams para a Marvel.

      Ao frenesim criativo que o caracterizou na década de 1970, Adams aliou um intenso ativismo político, tendo como principal objetivo a unidade dos criadores ao serviço da indústria dos comics. Adams assumiu-se, efetivamente, com um incansável defensor dos direitos autorais dos seus pares. Graças à sua coragem e perseverança, foi introduzida na indústria a prática presentemente comum de devolver a arte original aos seus autores, permitindo-lhes dessa forma retirarem dividendos adicionais, designadamente através da sua venda a colecionadores.
     Em 1987, com a devolução de diversos originais seus e de Jack Kirby por parte da Marvel, Neal Adams venceu esta sua batalha. O seu maior triunfo consistiu, porém, em assegurar o pagamento de créditos acumulados ao longo de décadas a Jerry Siegel e Joe Shuster, os criadores do Super-Homem. Além desse estorno, Adams garantiu ainda o direito a uma remuneração financeira para ambos.
     Outra das suas singularidades reside no facto de Adams ser um adepto incondicional da Teoria da Expansão da Terra. Trata-se de uma hipótese formulada pelo eminente geólogo australiano Samuel Warren Carey, segundo a qual tanto o nosso planeta como outros corpos celestes se expandem. Um postulado que  põe em xeque, entre outras teses comummente aceites, a existência, nos primórdios da Terra, de um  supercontinente chamado Pangeia. Para difundir a Teoria da Expansão da Terra, Adams produziu um documentário em DVD e posta regularmente vídeos da sua autoria no YouTube.
      Neal Adams vive atualmente com a esposa, Marilyn, em Nova Iorque. O casal tem três filhos: Jason, Joel e Josh. O primeiro é escultor de estátuas e miniaturas de fantasia, ao passo que os seus dois irmãos mais novos trabalham como ilustradores de banda desenhada, produzindo também arte conceptual para programas televisivos. Em 2010, Josh Adams desenhou um pinup do Homem-Morcego, para o  primeiro volume da minissérie Batman: Odyssey, escrita e desenhada pelo seu pai.
  
Neal Adams ladeado pelo filho Josh numa sessão de autógrafos em 2010.
        
Prémios e distinções:  Neal Adams conquistou em 1967 o Alley Award Para Melhor Capa (Strange Adventures nº207). No ano seguinte arrebatou outro destes prémios, desta feita na categoria de Melhor História (Track of the Hook, publicada em The Brave and the Bold nº79 e escrita a meias com Bob Haney). Finalmente, em 1969, foi agraciado com um terceiro Alley Award para melhor desenhista.
      Em 1970 ganhou dois Shazam Awards: um na categoria de Melhor História Individual (No Evil Shall Escape my Sight, em Green Lantern nº76 com Dennis O'Neil) e outro para Melhor Desenhista. No ano seguinte, não foi novamente distinguido nesta categoria, mas tornou a vencer - outra vez com Dennis O'Neil - o galardão para Melhor História Individual (Snowbirds Don't Fly em Green Lantern nº85).
     Finalista nas votações de 1990 e 1991 para o Jack Kirby's Hall of Fame (equivalente bedéfilo aos Óscares cinematográficos), conquistou o seu lugar no panteão da 9ª arte em 1999.

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06 novembro 2013

CLÁSSICOS DA 9ª ARTE: O REINO DO AMANHÃ

 
    Num futuro não muito longínquo, uma nova geração de vigilantes impiedosos e amorais impõe a sua lei. Quando a velha guarda heroica volta ao ativo para tentar detê-los, estala a guerra. É este o mote para a multipremiada saga de Alex Ross.
 
Título original: Kingdom Come
Licenciadora: Detective Comics (DC)
Argumento: Alex Ross e Mark Waid
Arte: Alex Ross
Publicado originalmente em: Kingdom Come nº1 a 4 (maio a agosto de 1996)
 
 
 
Título em Português: O Reino do Amanhã
Ano: 1997*
Categoria: Minissérie quinzenal
Número de volumes: 4
Formato: Americano (17 cm x 26 cm), colorido e com lombada agrafada
Número de páginas: 52 por edição
Editora: Abril Jovem**
Na minha coleção desde: 1998
 
* Data de publicação da primeira edição da minissérie no Brasil pela Abril Jovem. A mesma editora lançou em 1998 uma edição encadernada.
**Em 2004, já sob a égide da Panini Comics e num volume único, a saga foi reeditada no Brasil, seguindo-se, já este ano, o lançamento de uma edição definitiva.

Capa de O Reino do Amanhã nº4 (Abril Jovem, 1997).
 
 História de publicação: Enquanto ilustrava a aclamada minissérie Marvels (1994), ocorreu a Alex Ross desenvolver um conceito similar para o Universo DC. Sem hesitar, Ross escreveu um rascunho de 40 páginas e apresentou-o ao reputado argumentista britânico James Robinson. A ideia era abordar o Universo DC de um ângulo inédito, a exemplo do que sucedera com Watchmen ou Twilight of the Superheroes, ambas escritas por Alan Moore.
        O projeto de Ross foi aprovado pelos editores da DC, que lhe recomendaram contudo que trabalhasse em parceria com Mark Waid dada a sua enorme familiaridade com a história das mais proeminentes personagens da Editora das Lendas.
         Determinante para a decisão dos editores da DC foi também o facto de a história idealizada por Ross ser uma alegoria para a ética questionável dos novos super-heróis surgidos nos primeiros anos da década de 1990, em especial os publicados pela Image Comics. Com efeito, Magog e o seus sequazes funcionam como analogias perfeitas para a conduta violenta e amoral dessas personagens, mais próximas do paradigma de anti-heróis.


Pelo seu profundo conhecimento da mitologia da DC, Mark Waid foi escolhido para escrever a saga.


O traço hiper-realista de Alex Ross deu maior impacto visual à história.

Enredo: Em 2020, os antigos membros da Liga da Justiça reformaram-se há quase uma década, em resultado do fortíssimo apoio popular à nova geração de vigilantes entretanto surgida. Caracterizada pela brutalidade e pelo parco respeito pela vida humana, esta tinha em Magog o seu expoente principal.
        Quando o Joker chacinou os funcionários do Planeta Diário (incluindo Lois Lane mas excetuando, obviamente, Clark Kent), Super-Homem e Magog partiram no seu encalço. Por puro acaso, este último encontra o vilão primeiro e mata-o friamente.
        Em consequência desse ato, Magog é julgado em tribunal mas acaba absolvido devido à forte pressão popular. Mortificado com essa situação, o Super-Homem retira-se para a sua Fortaleza da Solidão, demitindo-se da sua função de principal protetor da Terra. Vários outros heróis da velha guarda  seguem-lhe o exemplo, deixando assim caminho aberto para a ascensão de uma nova geração de superseres.
        Sem pejo em matar a sangue-frio, com o tempo os novos meta-humanos envolvem-se em intermináveis refregas entre si, semeando o caos e a destruição, e tornando quase impossível diferenciá-los dos vilões.
 
Magog lidera a nova geração de vigilantes.
 
        Os eventos são narrados pelo reverendo Norman McCay (cuja fisionomia foi inspirada no próprio pai de Alex Ross), depois de este ter recebido visões apocalípticas do futuro através do moribundo Wesley Dodds (o primeiro Sandman).  Face ao iminente cataclismo, o Espectro recruta McCay para ser o seu avatar no nosso mundo. Para cumprir esse propósito, o Espectro transforma o velho reverendo num fantasma.
 
O reverendo McCay é uma testemunha privilegiada dos acontecimentos.
O primeiro encontro entre o Espectro e o reverendo McCay.
 
         Anos depois, no Kansas, o Batalhão da Justiça de Magog persegue o Parasita. Este golpeia brutalmente o Capitão Atómo, rasgando-lhe o peito e libertando toda a sua energia quântica na forma de uma explosão nuclear. Consequentemente, uma considerável parte do midwest norte-americano é pulverizado. Milhões de vidas são obliteradas. Apenas Magog sobrevive ao holocausto graças à sua invulnerabilidade.
        Coadjuvado pela Mulher-Maravilha, o Super-Homem resolve então regressar ao ativo, retomando a sua função heroica e reunindo uma nova Liga da Justiça. No entanto, o herói kryptoniano depara-se com um mundo povoado por meta-humanos destituídos de moral e de qualquer preocupação pelo bem comum.
        Após recusar juntar-se à cruzada do seu antigo aliado, Batman ativa os seus Renegados, um grupo de heróis com e sem superpoderes. Quase em simultâneo, Lex Luthor lança no jogo a sua Frente de Libertação da Humanidade (FLH), composta essencialmente por vilões da Idade da Prata dos Quadradinhos, como a Mulher-Gato ou o Charada. O seu objetivo é erradicar todos os meta-humanos para assim assumirem o controlo do mundo.
       Todos os superseres que se recusam a converter à ressuscitada ordem heroica, são aprisionados no Gulag, uma prisão especialmente criada para conter indivíduos com habilidades meta-humanas. Quando eclode uma rebelião no Gulag, o Super-Homem voa até lá para tentar impedir uma matança, sendo todavia impedido pelo Capitão Marvel, o qual havia sofrido uma lavagem cerebral às mãos de Luthor.
       Segue-se uma feroz batalha entre os dois titãs. Entrementes, o Governo dos EUA, numa tentativa desesperada de repor a ordem, ordena o lançamento de uma bomba nuclear.

Choque de titãs em meio ao caos: Super-Homem versus Capitão Marvel.

       Liberto do controlo mental de Luthor e buscando redimir-se dos seus atos, o Capitão Marvel procura intercetar o míssil mas falha e dá-se a explosão atómica.  A destruição é total e poucos sobrevivem: uns protegidos por um campo de forças gerado pelo Lanterna Verde e pela sua filha Jade; outros teleportados no último instante pelo Senhor Destino. Super-Homem, Batman e Mulher-Maravilha estão entre os sobreviventes.
 
Depois do Kansas, o Homem de Aço chora a morte de vários amigos.
 
       Furioso pela perda massiva de vidas, o Super-Homem voa até à sede da ONU, em Nova Iorque, e ameaça soterrar os delegados sobre os escombros do edifício como castigo pela forma cobarde como puseram termo ao conflito entre as várias fações de superseres. Graças, porém, à sábia intervenção do reverendo McCay, o Homem de Aço serena os ânimos e perdoa os humanos retomando a sua função de principal protetor da Terra.
     No epílogo da saga, vemos a Mulher-Maravilha a assumir o papel de embaixadora dos meta-humanos, transportando alguns sobreviventes do Gulag para a Ilha Paraíso para reabilitação. Batman abandona a sua cruzada e transforma o que resta da Mansão Wayne num hospital que acolhe feridos do desastre do Kansas. O reverendo McCay reassume os destinos da sua congregação, pregando uma mensagem de esperança para toda a humanidade. No Kansas, o Super-Homem empreende a hercúlea tarefa de reconstruir o coração devastado da América.
 
O Homem de Aço afadiga-se na reconstrução do Kansas.

Curiosidade: A edição encadernada de Kingdom Come foi dedicada a Christopher Reeve, celebrizado pela sua interpretação em quatro filmes do Super-Homem e, à época, tetraplégico em resultado de uma queda quando praticava equitação. Na dedicatória lia-se: Para Christopher Reeve, que nos ensinou a voar.
Prémios e distinções: O magistral trabalho da dupla Mark Waid/Alex Ross foi recompensado com cinco Eisner Awards e um Harvey Award. Aclamada pela crítica, Kingdom Come foi também um enorme sucesso de vendas.
         
 
 
Personagens principais:
 
* A Liga da Justiça do Super-Homem
     Agremiação que reúne algumas das personagens de referência do Universo DC, com nova aparência ou sendo versões renovadas de heróis clássicos:

 
* Super-Homem: Um Homem de Aço envelhecido aprende a lidar com a sua novel condição de líder mundial numa época de extrema tensão e incerteza. Após décadas de exposição à radiação do nosso Sol, está mais forte do que nunca ao ponto de se ter tornado imune à kryptonita;
* Mulher-Maravilha: Tendo fracassado na sua missão de trazer a paz ao mundo dos homens, a Princesa Amazona recuperou a sua posição na corte de Themyscira, onde vive uma espécie de exílio dourado. Com o tempo torna-se lugar-tenente do Super-Homem na cruzada deste contra a nova safra de vigilantes;
* Robin Vermelho: Dick Grayson, o Robin original, substituiu Batman nesta nova versão da Liga da Justiça;
*Flash: Após fundir-se com a Força de Aceleração, as moléculas do Velocista Escarlate tornaram-se instáveis e, em resultado disso, ele está em constante movimento. Embora a sua identidade seja uma incógnita durante toda a saga, Mark Waid confirmou posteriormente tratar-se de Wally West (o Flash pós-Crise nas Infinitas Terras);
*Lanterna Verde: Finda a sua vigília nas estrelas, Alan Scott (o Lanterna Verde da Idade do Ouro dos Quadradinhos) regressa à Terra e une-se à cruzada do Super-Homem. No entanto, ele já não necessita de portar o seu tradicional anel energético, pois incorporou na sua armadura a bateria anteriormente usada para o recarregar.
 
    Fazem ainda parte da Liga, entre outros, Aquaman (Garth, o antigo Aqualad assumiu o manto do seu mentor), Arqueiro Vermelho (o antigo Ricardito, parceiro juvenil do Arqueiro Verde), Poderosa, Gavião Negro, Donna Troy (ex-Moça-Maravilha), Capitão Marvel Jr. e Mary Marvel (agora casados).
 
 
* Os Renegados de Batman
 
    O Cavaleiro das Trevas formou um nova equipa de meta-humanos destinada a combater a Liga da Justiça e a Frente de Libertação da Humanidade. Cinco dos seus membros são filhos dos Titãs originais, ao passo que os seus progenitores optaram pela fação do Super-Homem:
 
 

 
*Batman: Com a sua verdadeira identidade tornada pública, o Homem-Morcego viu a Mansão Wayne ser destruída pelo Duas-Caras e Bane. Devido às mazelas da idade, é obrigado a usar um sofisticado exoesqueleto para se mover, assim como uma armadura de combate para prosseguir a sua luta contra o crime. A sua desconfiança relativamente ao Super-Homem e a Lex Luthor (líderes, respetivamente, da Liga da Justiça e da Frente de Libertação da Humanidade) leva-o a formar os Renegados,assumindo-se como uma terceira via no conflito em curso;
*Ibn al Xu'ffasch: O filho de Batman e de Talia al Ghul  - e herdeiro da organização criminosa de R'as al Ghul, seu avô - é usado como espião para se infiltrar na FHL;
*Oliver Queen: O ex-Arqueiro Verde é um dos mais empenhados aliados de Batman. Do seu casamento com Dinah Lance (a ex-Canário Negro) resultou uma filha que opera sob o antigo codinome da mãe;
*Dinah Queen: A ex-Canário Negro utiliza agora um arco e flechas como o seu marido;
*Besouro Azul: Ted Kord passou a envergar uma armadura de combate energizada pelo escaravelho místico que concedeu os poderes ao seu antecessor;
*J'onn J'onzz: Outrora o Caçador de Marte, perdeu o controlo dos seus poderes telepáticos depois de ter tentado tocar as mentes de toda a humanidade de uma só vez. Com o espírito estilhaçado pelas torrentes de sentimentos e emoções, permanece na sua forma incorpórea.
 
     A estes juntam-se ainda Darkstar (filho de Donna Troy), Rastejante, Aço, Kid Flash (filha de Wally West), Ralph Dibny (ex-Homem-Elástico), entre muitos outros.
 
*Frente de Libertação da Humanidade (FLH) de Luthor
 
    Desde a partida do Super-Homem, dez anos antes, Lex Luthor e a sua FLH vinham manobrando nos bastidores com o intento de destruírem os meta-humanos e assumirem o controlo do mundo. Além do arqui-inimigo do Homem de Aço fazem parte da FLH:
 
 
 
*Capitão Marvel: Derradeiro trunfo de Luthor para aniquilar o Super-Homem, o agora adulto Billy Batson sofre uma lavagem cerebral e torna-se indistinguível do seu poderoso alter ego. Por conseguinte, ao longo de boa parte da história assume-se que o Mortal Mais Poderoso da Terra está a ser manipulado por Luthor quando, na realidade, é Billy;
*Mulher-Gato: A ex-ladra enriqueceu depois de ter assumido o comando de uma corporação de cosméticos;
*Charada: Admitido por Luthor na FLH apenas por cortesia à Mulher-Gato, tem como principal passatempo testar a paciência do seu líder.
 
    Kobra, Vandal Savage, Rei de Espadas e o trio terrorista Azul, Branco e Vermelho completam o elenco da FLH.
 
* Batalhão da Justiça de Magog
 
   Os super-heróis do futuro são desprovidos de qualquer compaixão ou preocupação com a vida humana. Os seus atos violentos em nada os distinguem, portanto, dos vilões de que supostamente defendem a humanidade. Entre os mais notáveis destacam-se:
 
 

 
*Magog: Ironicamente designado "O Novo Homem Do Amanhã" (título ostentado anteriormente pelo Super-Homem), o seu primeiro ato público foi assassinar o Joker. Isto depois de o Palhaço do Crime ter chacinado 93 pessoas (entre as quais Lois Lane) no edifício do Planeta Diário. Aclamado pela opinião pública, substituiu o Último Filho de Krypton como maior herói da Terra;
*Von Bach: Um pretenso ditador jugoslavo que se expressa em alemão. É preso no Gulag por matar oponentes que se haviam rendido;
*666: Um homem-máquina gótico que tem pouquíssimo respeito pelos heróis do passado e que luta com outros meta-humanos por desporto;
*Filha do Joker/Arlequina: Uma adolescente revoltada e sádica que imita o estilo do falecido Palhaço do Crime.
 
    Capitão Atómo, Senhor Incrível, NIL-8, Sideral e Pacificador são outras figuras de proa deste lote de superseres de ética questionável.
 
*Outros
 
*Espectro: Desumanizado, necessita de uma perspetiva humana para julgar os eventos que se desenrolam diante do seu olhar. Obstinado em determinar quem será o responsável por desencadear o Armagedão, recruta o reverendo Norman McCay;
*Arthur Carry: Abriu mão da sua identidade como Aquaman para se dedicar de corpo e alma a ser o soberano da Atlântida. Mantém-se neutral quando eclode o conflito entre os seus antigos companheiros e a nova geração de superseres;
*Parasita: Em contraste com a sua versão tradicional, o vilão é retratado na história como um cobarde, cuja perda de memória a curto prazo o torna altamente instável. Corta literalmente o Capitão Átomo, provocando dessa forma a explosão nuclear que devasta o Kansas. É, portanto, ele o agente do Apocalipse.
  
As 4 fações em conflito: o Batalhão da Justiça (em cima), a Liga da Justiça (ao meio) e os Renegados/ FLH (em baixo).